Cidadania de aluguel — cidadania de conveniência

11 08 2008

 

Sábados tivemos o Brasil contra o Brasil no vôlei de praia nas Olimpíadas.  Não que os nossos dois times estivessem lutando pelo 1° e 2° lugares no pódio.  Uma equipe de brasileiras, jogava pelo Brasil enquanto que outra equipe de brasileiras jogava pela Geórgia.  O desejo de participar nas Olimpíadas e a certeza de não serem as melhores para representar um país de estrelas no vôlei de praia fez com que Cristine Santanna e Andrezza Martins convenientemente se tornassem cidadãs da Geórgia para terem direito aos seus 15 minutos de fama olímpica.  Será que vale?  Elas perderam.  Como era previsível já que não poderiam se igualar ao time de brasileiras com nacionalidade brasileira.  

 

As meninas, que se tornaram cidadãs da Geórgia — logo a Geórgia que entrou em guerra no dia da comemoração de abertura das Olimpíadas, não são aqui objeto do meu julgamento.  Cada um sabe o que faz e porque o faz.  Mas reconheço que em questão de cidadania acho estranho que alguém possa jurar fidelidade a uma cultura, a um país, a uma bandeira desconhecida.  Espero que tenha valido a pena para elas, esta cidadania de encomenda.   Elas não são as únicas nesta situação.  Há dois outros jogadores brasileiros, no vôlei de praia, que também envergam as cores vermelho e branco da Geórgia: Renato Gomes e Jorge Terceiro.  Há também dois outros brasileiros, irmãos, defendendo o time de hóquei espanhol: Kiko e Felipe Perrone.  Pode até ser que estes irmãos tenham algum sentimento pela Espanha, já que seus sobrenomes parecem ser de origem espanhola. Mas reconheço que fico pensando sobre as reais  vantagens destes arranjos.

 

Muitos países que não tem atletas em campos específicos, mas que gostariam de mostrar sua “força” perante o mundo, “alugam” suas cidadanias aos que podem em tese lhes trazer maior “reconhecimento mundial”.   Atletas por sua vez, atraídos pela fama, pela possibilidade de financiamento, dinheiro vivo, durante anos de treino, não vêem nada de mais em se deixarem alugar como cidadãos de uma outra terra, de outra cultura, mesmo que esta cultura não tenha nada a ver com eles.  Todos, atletas e países encontram assim uma maneira de “burlar” a mediocridade, é a solução Dorian Gray: só a imagem no espelho é real; a imagem na TV, nos jogos olímpicos, na verdadeira luta diária do esporte, esta continua lustrosa, sem danos, sem impurezas, sem perdas, e mais ainda coma a possibilidade de medalhas que as tornem ainda mais ilusórias.  [Retrato de Dorian Gray, livro do escritor inglês Oscar Wilde, publicado pela primeira vez em 1891].  Na busca de imagem de contos de fadas, países de contos de fadas como alguns do oriente médio usam seus petrodólares para atrair uma elite de desportistas de países pobres, tais como corredores africanos.  Os chineses, que vendem barato suas horas de trabalho também estão defendendo bandeiras de diversos outros países principalmente em tênis de mesa.  Mas isso não é efeito da globalização.  Isto é simplesmente o efeito do olho grande.  

 

Gol!  Ilustração Mauricio de Sousa.

Gol! Ilustração Maurício de Sousa.

 

 

No final de junho, Anne Applebaum,  no artigo [How did a guy who can’t speak Polish end up scoring Poland’s only goal of Euro 2008? 30/6/2008] abordou este assunto enquanto considerava a Euro Copa de futebol.  Na televisão ela viu Lukas Podolski (polonês) jogando pela Alemanha, fazer o único gol que fez a Alemanha vencer sobre a Polônia.  A imprensa o rodeava e perguntava: “Como você se sente tendo marcado o gol contra o seu próprio país”?  É claro que o  jovem jogador não teve nada especial para responder.  Este foi um exemplo.  Esta é uma situação típica, na Europa: muitos times de futebol têm entre seus jogadores pessoas que não tem nada a ver com os países cujas camisas eles usam e cuja pátria eles defendem.

 

Ela nos lembra, muito apropriadamente, que a maioria dos europeus, em geral, não usa o seu nacionalismo na lapela.  Diferente dos Estados Unidos, europeus não hasteiam bandeiras na frente de casa, nem comemoram dias de independência com o ardor nacionalista, com que os americanos o fazem.  Ao invés disso, as batalhas patrióticas acontecem nos campos de futebol, onde pessoas enrolam-se nas bandeiras de seus países e em grupos saem com as caras pintadas, quando não insistem em usarem as mais repulsivas perucas de fios de náilon com as cores das bandeiras de suas pátrias.  Mas com a União Européia há preocupação dos governos de diluírem ao máximo  sentimentos de nacionalismo, eles preferem se mesclar numa única nacionalidade que seja representativa da Comunidade Européia.  Há, então, cada vez mais incentivo à troca de jogadores e à defesa de uma bandeira nacional como se fosse uma bandeira do seu time favorito.  Talvez, realmente, haja esta necessidade dentro da Europa. Mas é difícil imaginar que o mesmo seja aceitável quando um time chinês de tênis de mesa defende a Argentina ou um time brasileiro de vôlei de praia defende a Geórgia.   

 

 

 

 





Os estados dos corpos — Poema infantil de Dulce Carneiro

10 08 2008

 

Os estados dos Corpos

 

Aprendi hoje na escola

(E confesso: achei custoso!)

Que os corpos têm três estados:

Sólido, líquido e gasoso.

 

Mas tanta atenção prestei,

Que compreendi num instante:

Sólido tem forma própria

E tem volume constante.

 

                   São sólidos o brilhante,

                   O ferro, o cobre, o carvão,

                   A madeira, o vidro, a argila,

                   O papel e o papelão…

 

                   Que o líquido toma a forma

Da vasilha que o contém

                   Compreendi, sem muito esforço,

                   E fiquei sabendo bem!

 

São líquidos, a cerveja,

O vinho, o vinagre, o azeite,

O licor, a limonada,

A tinta, a garapa, o leite…

 

Para aprender gasoso?

Franqueza: custei bastante!

Ele não tem forma própria

E nem volume constante.

 

                   São gasosos a fumaça,

                   O vento, as nuvens, o ar,

                   E o vapor d’água que faz

                   A locomotiva andar…

 

                   Quanto o saber nos eleva!

                   Quanto o saber nos dá gozo!

                   Os corpos têm três estados:

                   Sólido, líquido e gasoso.

 

Dulce Carneiro

 

 

 

Dulce Carneiro (SP 1870- SP 1942)  Poeta e professora.

 

Obras:

 

Folhas

Lições Rimadas

Revoada

 

Encontrado em:

 

Criança Brasileira: segundo livro de leitura, Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro, Agir: 1950.





Meu filho, bata-se por São Paulo e pelo Brasil…

10 08 2008

 

Soldados nas trincheiras, Revolução de 1932

    Soldados nas trincheiras, Revolução Constitucionalista de 1932

8 de agosto de 1932

 

30° dia de luta.  O povo se mostra entusiasmado.  Fala-se em breve do reconhecimento do estado de beligerância para São Paulo.  Nota-se mais coragem nos soldados, cuja correspondência é mais aguerrida deixando transparecer certa bravura espartana.

 

Quer tenha havido ou não precipitação de São Paulo nesta peleja começada em 9 de julho, o fato é que São Paulo se empolgou todo pela causa que defende e se convenceu de que deve lutar até o fim.  Nota-se esse pensamento nas cartas dos soldados, e nos rostos dos combatentes seja na hora do recuo como na hora do avanço.  Parece-me que estou vivendo na antiga Sparta quando as mães mandavam os filhos para a guerra orgulhosas deles derramarem seu sangue pela pátria.  Se a espartana dizia aos soldados que voltavam da guerra: “eu não quero saber se meu filho morreu; eu estou perguntando é se Sparta venceu”, — as paulistas também dizem: “meu filho, bata-se por São Paulo e pelo Brasil”.  “Meu filho, vá para a trincheira defender a honra de São Paulo”.

 

 

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Transcrição do Diário de Gessner Pompílio Pompêo de Barros (MT 1896 – RJ 1960), Itapetininga, SP, página 134-135, em referência à Revolução Constitucionalista de 1932.

Todo o apoio das mulheres.

                          Todo o apoio das mulheres paulistas.





Sinagoga Kahal Zur Israel, Recife, Século XVII

10 08 2008
Sinagoga Kahal Zur Israel, Recife, Século XVII

Sinagoga Kahal Zur Israel, Recife, Século XVII

Na penúltima vez que estive em Recife esta sinagoga ainda não estava aberta ao público. Mas recentemente, visitando o nordeste, pude verificar este grande marco do Brasil colônia que foi a primeira sinagoga oficial de todas as Américas: Sinagoga Kahal Zur Israel (ou Congregação Rochedo de Israel).  Aberta no Período em que Recife era o centro do governo holandês. A foto mostra o nome da Rua dos Judeus, onde ela está localizada.  Este era o antigo nome da rua.  Hoje em dia chama-se Rua do Bom Jesus.

 

Diz-se que foi a primeira sinagoga oficial porque sabemos da existência de uma sinagoga anterior: Maguen Abraham (Escudo de Abraão).  Tudo indica que esta ficava na antiga ilha de Antônio Vaz, que depois se chamou Maurícia.  Mas até hoje ainda não foram encontrados vestígios arqueológicos desta sinagoga.  Há relatos também de sinagogas formadas em pequenas comunidades na Paraíba e na Bahia.

 

 

No século XVI é certo houve um grande número de judeus vindo para o Brasil.  Quando as prisões portuguesas foram esvaziadas e seus presos trazidos para o Brasil com a intenção de popular a terra, muitos dos que se encontravam presos eram novo-cristãos que haviam sido presos por continuarem praticas judaizantes.   Ainda que Portugal estivesse sob orientação da Inquisição, havia um grande problema nas mãos do reinado:  a necessidade de popular  a terra descoberta, com terras costeiras de perímetro generoso e defendê-las mesmo assim contra invasores.  Isto tudo para um dos menores países europeus com uma população também pequena.

 

Rua do Bom Jesus antiga Rua dos Judeus, Recife, PE

Rua do Bom Jesus antiga Rua dos Judeus, Recife, PE

 

 

 

 

 

 

 

Com a invasão holandesa, o Nordeste brasileiro passa a ser regrado pelas leis e costumes dos invasores.  Assim um grupo de judeus vem se estabelecer no Novo Mundo, contando com  a liberdade religiosa já existente no país flamengo.   Foi só nesta época que a sinagoga Kahal Zur Israel esteve ativa sendo sustentada por 180 famílias de judeus brasileiros e europeus no Recife.

 Junto a esta sinagoga havia duas escolas religiosas: Etz Hayim e Talmud Torah.   Mas estas não foram recuperadas.  O que se tem hoje é o edifício onde o templo exercia suas funções religiosas.  Ocupava duas casas, como pode ser visto na foto da fachada postada anteriormente. A comunicação entre as duas casas era feita por uma única pequena porta bem na frente; enquanto que o acesso ao segundo andar era feito exclusivamente por uma das casas, através de uma bela escada de madeira nos moldes do mobiliário vistos aqui.

Interior da sinagoga; segundo andar.

Interior da sinagoga; segundo andar.

 

 

 

 

 

Hoje o andar térreo desta sinagoga está dedicado a uma exposição permanente da história desta comunidade judaica que construiu e estabeleceu este templo.  Pode-se ver as escavações do local, que passou para as mãos de João Fernandes Vieira, em 1656.  Podemos ver os alicerces da construção e examinar o  piso original holandês, a descoberto depois de terem sido encontrados 8 diferentes níveis, principalmente porque a história do edifício inclui diversas funções.  Em1679 o prédio foi doado aos padres da Congregação do Oratório de Santo Amaro.  Daí por diante há uma troca constante de funções sendo que até recentemente era uma casa de material elétrico.   No térreo pode-se observar  também o muro de contenção das águas do rio Beberibe, a fundação do Micvê,  assim como vitrines com pedaços de  louça, cachimbos, faiança, utensílios de barro esmaltado trazidos tanto pelos colonizadores portugueses como pelos holandeses.   

Fragmentos de louça encontrados nas excavações

Fragmentos de louça encontrados nas excavações

 

 

 

No primeiro andar está a sala de orações. Esse espaço está hoje destinado ao publico participante de conferências e seminários sobre a cultura judaica que fazem parte dos estudos realizados no centro de pesquisa localizado no andar de cima.  O mobiliário desta parte foi construído de acordo com os moldes usados nos Países Baixos na época.  Enquanto que o formato e o material do teto da sinagoga são baseados nas  sinagogas da península ibérica do século XVII.   A arca que contém a Torah está em frente ao púlpito.  O salão do serviço religioso se encontra na direção leste, como requerido.   No mezanino ficava a parte reservada às mulheres, que acompanhavam as cerimônias religiosas, separadamente.   No segundo andar  encontra-se a sede do Centro de Documentação da Memória Judaica de Pernambuco.

 

Com a retomada portuguesa do território sob  Maurício de Nassau  muitas das famílias judias pernambucanas, temendo a volta dos processos da Inquisição, saíram da cidade de Recife.  Algumas delas vieram para o sul do Brasil, para Minas Gerais, onde se juntaram aos bandeirantes na procura por metais e pedras preciosas. Outras 150 famílias decidiram retornar à Holanda.   23 destas famílias, que se encontravam a bordo do navio Valk, de regresso aos Países Baixos,  foram deixadas presas na Jamaica depois que a embarcação sofreu um ataque de piratas espanhóis.  Quando liberadas, tomaram um navio francês que seguia para a America do Norte e chegaram ao vilarejo de Nova Amsterdam,  com  1500 habitantes, no coração da ilha de Manhattan, em setembro de 1654.

 

***

 

A sinagoga encontra-se aberta ao público desde 2001.  





Chegam soldados estropiados…

9 08 2008

Soldados Revolucionários condecorados por atos de bravura

                             Soldados Revolucionários condecorados por atos de bravura

 

7 de agosto de 1932

 

Chegam soldados estropiados para descanso.  Partem soldados para a frente.  Há uma certa ansiedade da população; dúvida no desfecho.  Boatos menores.  Os boateiros já não agem com desembaraço.

 

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Transcrição do Diário de Gessner Pompílio Pompêo de Barros (MT 1896 – RJ 1960), Itapetininga, SP, página 134, em referência à Revolução Constitucionalista de 1932.

 

Tropas marchando para a frente sul

                                                Tropas marchando para a frente.





Uma poesia para crianças para o Dia do PAPAI.

9 08 2008
Mauricio de Sousa

Ilustração: Maurício de Sousa

 

 

 

 

Porque domingo é o Dia dos Pais.

 

 

 

Dia do Papai

 

Meu coração bate tanto

que alegria nele vai!

Estou feliz, pulo, canto:

— Hoje é o dia do papai.

 

O papai essa criatura

a quem amo com ardor,

que faz minha ventura

e me trata com amor.

 

O papai que minha vida

torna feliz, sem par,

— Ó mamãezinha querida;

Vamos o papai beijar!

 

 

Recolhi este poema do meu livro de poemas de escola.  Não tenho o autor.  Naquela época não me importava com isso.  Eu estava na segunda série primária, de uma escola pública no Rio de Janeiro, quando comecei, graças à minha professora D. Yolanda, um caderno de poesias.  Nele colocava pequenas poesias, em geral dadas pela professora. Aos poucos ela nos incentivou a copiarmos poesias de que gostássemos.   Minha avó, espertamente,  me deu um belo livro de capa dura com a palavra POESIAS em letras douradas,com páginas em branco, que tenho até hoje.  Este era o único lugar em que eu podia escrever a tinta.  Lá estão os meus garranchos a bico de pena… Foi daí que veio não só a apreciação pela poesia, mas o hábito de ler poesias sempre.

 

 





Humor, uma questão de DNA?

9 08 2008

Sempre gostei de estudar o humor nas suas várias formas.  Acredito que muito do humor é cultural, ainda que Freud haja estabelecido a localização do humor também na área psicológica.  Mas descobrir que há aspectos que podem ser genéticos, como se debate hoje, é uma surpresa.  Grande surpresa!  Um estudo recente feito no Canadá liga o humor dos ingleses, seu gosto pelo sarcasmo e também para a auto-depreciação, a um fator genético: o DNA inglês.

 

Li o artigo no portal Terra/ Ciências e depois fui catar mais informações, por pura  incredulidade.  A pesquisa liderada pelo Dr. Rod Martin, ganhou bastante cobertura internacional principalmente porque compara o senso de humor inglês com o americano. Muitos dos diários ingleses cobriram o assunto, mas ainda há pouca seqüência dada à pesquisa.  Por exemplo não consegui ler nenhuma entrevista com estudiosos cujo interesse seria provar o contrário.  Nem sei se existem trabalhos a este respeito.

 

Ilustração Walt Disney.

Ilustração Walt Disney.

É de longa data a noção de que os ingleses têm um senso de humor muito peculiar, e que uma vez você os entenda, descobre um tremendo charme nas situações penosas em que eles encontram humor. Dois exemplos mencionados na pesquisa para justificar a diferença de humor são familiares para nós brasileiros:  duas comédias britânicas feitas para a televisão.  Há a antiga série Fawlty Towers, onde reinou como autor e ator comediante John Cleese membro de um dos mais bem sucedidos grupos de comédia, Monty Python e o programa The Office, criado e estrelado pelo comediante Ricky Gervais, em companhia de Stephen Merchant, visto aqui no Brasil através da tv a cabo, originalmente produzido na Inglaterra.  [Uma nota curiosa a respeito destes dois programas de tanto sucesso é que ambos só tiveram 12 programas lançados em duas séries de seis programas cada.  The Office teve 2 outros especiais de Natal.  Mas me parece incrível que tanto sucesso tenha vindo com tão pouca exposição na tela]. 

 

O estudo da University of Western Ontário liderado pelo Dr. Martin  levou em consideração a comparação entre os programas The Office na Inglaterra e o mesmo programa feito pelos americanos para a televisão.  O resultado mostra que o americano parece mais inclinado ao humor mais inocente, menos crítico, menos sarcástico, enquanto os ingleses conseguem achar graça em situações cruéis ou encontram humor à custa do sofrimento alheio.

 

Neste estudo, os pesquisadores usaram como referência 5.000 pessoas: 2.000 pares de gêmeos nas ilhas britânicas e 500 pares de gêmeos nos Estados Unidos.  O humor positivo foi encontrado em ambos os lados do Atlântico.  Enquanto que o humor auto-destrutivo inglês não foi considerado como humor entre os americanos.  Este tipo de humor que cobre desde a picuinha aos rótulos sexistas, racistas, piadas sobre outras nacionalidades quando não chega a total humilhação, quando encontrada entre os gêmeos americanos foi considerada como comportamento aprendido ao invés de comportamento herdado geneticamente.

 

De qualquer maneira a tentativa de se classificar o senso de humor através de dados genéticos é uma proposta interessante que lembra alguns estudos feitos há algum tempo que comprovaram haver  maior influência genética em comportamentos humanos do que até então pensávamos.  

 

Estas descobertas são muito interessantes  desde que não venham a justificar futuras discriminações culturais.  Saber sobre a nossa herança genética sobre o nosso DNA é fascinante e essencial.  Mas cabe a nós também a responsabilidade de mantermos padrões de ética depois que descobertas da responsabilidade do DNA forem feitas. 

 

Para o estudo feito sobre o humor com o DNA, o link abaixo do portal Terra.

 

http://noticias.terra.com.br/ciencia/interna/0,,OI2667070-EI1827,00.html

 

 

Para os estudos feitos anteriormente sobre DNA, o link da Revista Veja, abaixo.

 

 

http://veja.abril.com.br/130906/p_070.html

 





PB: Escola com doações precisa de bibliotecário voluntário

8 08 2008
Ilustração Walt Disney.
Ilustração Walt Disney.

Copio e colo aqui o pedido de ajuda de uma escola em Umbuzeiro na Paraíba, que está recebendo livros para crianças doados por uma comunidade do Orkut e que tem a necessidade de que alguém com os conhecimentos de um bibliotecário os auxilie a organizar os livros, já que uma sala para a biblioteca se encontra em construção.  Veja abaixo:

Nós da comunidade Livro Errante, estamos formando a biblioteca da Escola Municipal Flávio Ribeiro Coutinho da cidade de Umbuzeiro – PB; as doações começaram em março e seguirão até fevereiro de 2009. Nenhum dos integrantes é do Estado da Paraiba. Embora seja de nosso conhecimento que organização/catalogação/sistema de empréstimo dos livrinhos deva ser feita corretamente, nenhum de nós é bibliotecário. Por essa razão, pedimos a colaboração voluntária de algum profissional que possa ir até a Cidade de Umbuzeiro. A professora responsável, tem toda a boa vontade e interesse porém precisa de orientação.
Você, que queira colaborar entre em contato conosco através deste blog.
Agradecemos,
L.E
O link de contato é:
http://livroerrante.blogspot.com




Borba Gato e os diamantes, poema de Cassiano Ricardo

7 08 2008
Charles Landseer (Inglaterra 1799-1879) Tropeiro Paulista, 1827, ost,

Charles Landseer (Inglaterra 1799-1879) Tropeiro Paulista, 1827, ost

 

Borba gato e os Diamantes

 

“Eu vou buscar diamantes”.

Foi quanto disse e já montou no rio

pôs mantimentos na garupa

levou o bugre pela frente

atrás do bugre o mameluco.

 

Montou no rio, então o rio

Logo desceu da cabeceira…

foi resmungando mas desenrolando

o corpo azul numa porção de voltas

mato a dentro à semelhança de uma

cobra muito grande que roncasse

e que passasse sacudindo

o rabo da cachoeira.

 

E levou na cacunda

em redemoinhos de água barafunda

uma porção de gente

armada de trabuco.

Formaram-se de pronto

alas de jacarés abrindo

a todo instante

a bocarra vermelha

no escurão do tijuco.

“Eu vou buscar diamantes”.

E armou seu barracão de couro

a quatrocentas léguas da partida.

 

Tudo correu, tudo saiu gritando!

Só porque um homem

chamado Borba Gato

armado de trabuco

entrou no mato…

 

 

Cassiano Ricardo

 

 

Do livro:  Terra Bandeirante: a história, as lendas e as tradições do Estado de São Paulo, para a 3ª série do curso primário, de Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro, Agir:1954

 

 

Cassiano Ricardo Leite (SP 1895 – RJ 1974), jornalista, poeta e ensaísta;

 

Obras

 

 

Dentro da noite (1915)

A flauta de Pã (1917)

Jardim das Hespérides (1920)

A mentirosa de olhos verdes (1924)

Vamos caçar papagaios (1926)

Borrões de verde e amarelo (1927)

Martim Cererê (1928 )

Deixa estar, jacaré (1931)

Canções da minha ternura (1930)

Marcha para Oeste (1940)

O sangue das horas (1943)

Um dia depois do outro (1947)

Poemas murais (1950)

A face perdida (1950)

O arranha-céu de vidro (1956)

João Torto e a fábula (1956)

Poesias completas (1957)

Montanha russa (1960)

A difícil manhã (1960)

Jeremias sem-chorar (1964)

Os sobrebiventes (1971)





Uma volta no sertão com Aleilton Fonseca: Nhô Guimarães

7 08 2008
José Ferraz de Almeida Júnior, (Brasil 1850-1899), Caipira picando fumo, 1893, ost, Pinacoteca do Estado de São Paulo

José Ferraz de Almeida Júnior, (Brasil 1850-1899), Caipira picando fumo, 1893, ost, Pinacoteca do Estado de São Paulo

 

Foi com imenso prazer que passei os dois últimos dias às voltas com o romance Nhô Guimarães, de Aleilton Fonseca, publicado em 2006, pela Editora Bertrand Brasil.  O romance leva o subtítulo Romance: homenagem a Guimarães Rosa.  Confesso que este foi o meu primeiro contato com o escritor.  Uma amiga recomendou calorosamente o livro.  E fiquei feliz de tê-lo feito porque quem saiu lucrando fui eu!

 

A primeira vista eu não teria por minha espontânea vontade selecionado este livro para ler.  Simplesmente porque não acredito em homenagens do gênero.  Em geral as obras feitas com esta intenção não passam de imitações de estilo que parecem bastante pedestres para até mesmo o leitor menos sofisticado.  E quando feitas para homenagear  um escritor cujo estilo foi único, responsável por uma marca indelével na literatura brasileira do século passado, o perigo, a tentação da pura imitação parecem ainda mais sedutores.  Mas confesso que Aleilton Fonseca me surpreendeu.  Seu romance Nhô Guimarães consegue se situar sozinho e ganhar um lugar de destaque na produção literária da virada do século, sem qualquer traço de imitação.

 

Acredito que deva ter sido difícil para o autor decidir se valeria à pena ou não colocar o subtítulo.  Se não o colocasse, muitos teriam simplesmente ignorado o livro com a rápida leitura do estilo dizendo: Mas quem que ele pensa que é?  Um Guimarães Rosa? Por outro lado, colocando o subtítulo há sempre a tentação, para quem lê o livro, de dizer: o autor recriou o grande autor Guimarães Rosa, como se de repente, por alguma clonagem pudéssemos esperar um texto de Guimarães Rosa.  Esse romance não merece nenhuma das duas ponderações.

 

 Aleilton Fonseca tem um estilo próprio.  Possui uma maneira de narrar elegante e sedutora.  Sua linguagem tem muito do espírito de Guimarães Rosa, mas não o imita.  O que ambas têm em comum é a grande naturalidade, a sensação de que as palavras vem da alma brasileira.  Só assim podemos explicar porque palavras não encontradas no nosso dia a dia parecem ter sempre existido, são imediatamente compreendidas como se refletissem um mundo que nós temos em comum; quase que uma meta-linguagem radicada no nosso inconsciente coletivo.

 

Este é quase um livro de contos.  Aleilton Fonseca trabalha numa das tradições mais antigas da narrativa, que é a aparência de transcrição de uma narrativa oral interligando diversos causos.  Não difere do que encontramos nas Mil e Uma Noites, no Decameron e em muitas outras obras clássicas. 

 

Há dois personagens centrais:  Nhô Guimarães e Manu que trocam histórias, causos do sertão, das gentes do interior, de suas maneiras, modos, vinganças e paixões.  Tudo com muita aceitação da natureza humana.  Estes são interlocutores convictos de que cada ser humano tem  seu destino e  sua maneira de ser.  Não há julgamentos necessariamente, simplesmente uma constatação da inevitabilidade das voltas que o mundo dá.  Manu é uma excelente contadora de histórias, sozinha, ela nos conta como o narrador precisa render com o assunto: quem proseia precisa imaginar, palavrear, distrair o parceiro.  Isto é o certo, as novidades boas e compridas.  A verdade é só um começo.  O melhor mesmo da história é o capricho da prosa [p.40].

 

Aleiton Fonseca certamente regeu com mestria a prosa cantada do sertão.  Com ele é um grande prazer nos enveredarmos nos caminhos do interior; nos detalhes das vidas contadas e cantadas e nos embrenharmos nas tramas ora trágicas, ora cômicas, mas acima de tudo humanas, que revelam a riqueza das experiências sertanejas.  Nota dez para este livro!  Vá, compre-o.  Você não vai se arrepender.

O escritor Aleilton Fonseca

O escritor Aleilton Fonseca