Marina da Glória com o Corcovado ao fundo
Jorge Vieira (Brasil, 1952)
óleo sobre tela, 74 x 64 cm
Talvez vocês não saibam, provavelmente porque não sou muito boa em meu próprio marketing, que tenho uma pífia conta no Instagram [@escritora.ladycewest], recomendação de especialista que contratei há uns três anos. Um pouco antes de enviuvar, eu havia lançado um livro de poemas [À meia voz], resultado de anos de escrita não sistemática, e de uma oficina para escritores que fiz, aqui no Rio de Janeiro, com o escritor e poeta Luís Pimentel. Passado o primeiro ano de luto (francamente tenho poucas memórias desse período) engajei um serviço de marketing digital para saber o que deveria fazer para impulsionar vendas do livro, já que eu havia perdido a “época quente” do marketing, antes e depois do lançamento. E poesia, eu soube durante esse período, não é item quente nas vendas.
Minha dificuldade, disse a analista, era que eu “estava mudando de profissão”. Que sou mais conhecida como historiadora da arte, que sempre fui, galerista, que fui por muitos anos, e que ninguém esperava que eu também escrevesse. Como se as pessoas pudessem ter só um perfil, só um amor! Era preciso que eu me estabelecesse como “intelectual” (palavras dela), como conhecedora de literatura brasileira e de poesia em especial. Com muita resistência, abri conta no Instagram. Não sou da geração Tik Tok, e esse negócio de botar a cara lá, para me “estabelecer” era um conceito muito além da minha zona de conforto. Mas fiz. E como me estabelecer? Mostrando que eu sabia do babado. Que conhecia literatura. Comecei, então, a postar uma poesia por dia, de segunda a sábado. É exaustivo e limitante, porque o escolhido precisa ser lido em noventa segundos ou menos. Precisa ser entendido por todos, quer a pessoa tenha completado o ensino médio ou não. E realmente, as poesias de mais sucesso são as infantis ou infanto-juvenis. Grande parte do que é escrito não cabe nesses limites. Além disso os poemas têm que ser “família”, não podem ter palavrões, não podem falar de sexo, nem de temas controversos, nem de religião (fiz duas longas séries sobre Natal, mas o Natal abraça mais do que o religioso), têm que ter um vocabulário acessível, ideias claras. De fato, qualquer referência à mitologia greco-romana, por exemplo, se torna ininteligível. Recentemente li um poema que mencionava Penelope. Pequenino, Direto. Uma pequena joia. E percebi que a audiência não tinha ideia de quem era Penelope, aquela que tricotava e desfazia o tricô à espera de Ulisses. Enfim, fomos em frente. Tenho uma adolescente que faz o vídeo para mim. Comecei em out/novembro de 2023. E sim, tenho alguns seguidores. Mas não foi nenhuma avalanche.
Levo uma vida comum. Não sou dada a expor nada do que faço, porque na verdade não faço nada além do que todos fazem. Mas uma coisa ficou clara: quando posto no Instagram fotos com esse ou aquele amigo, num local incomum para minhas postagens, o pessoal nota. E quando mostro algo sobre minhas leituras, aquele vídeo, mesmo que feito por mim, sem grande profissionalismo, ou talvez por isso mesmo, tem pelo menos o dobro das visualizações que recebo em outras circunstâncias. Uma de minhas decisões de 2026 foi postar mais sobre o que leio. Desde que o que eu leia seja em português, porque pode ser considerado “esnobismo” postar alguma leitura em outra língua. Aliás as regras do marketing vieram em grande detalhe: muitas mas simples, entre elas: aparecer sempre de preto, para não distrair o espectador, ou, as pessoas prestarão atenção na sua roupa, nos seus brincos, no seu relógio. É entrar numa espécie de mundo paralelo, com códigos esdrúxulos, o que aumenta minha resistência. Mas estou focando no resultado. Principalmente porque me preparo para o lançamento de mais um livro.
Minha postagem no Instagram da semana passada, sobre essa quarta leitura do ano, trouxe mais pessoas do que o esperado. E ao que parece foi porque mencionei não só uma leitura popular, mas a informação de uma segunda veia artística de Simenon, que pouca gente conhece, mas sobre a qual eu já havia me referido aqui no blog: seus “romances duros”. Talvez valha lembrar que Simenon foi um dos escritores mais prolíficos de todos os tempos tendo publicado entre 400 a 500 livros, não se sabe exatamente o número, porque publicou sob muitos pseudônimos. Com a ajuda da IA, posso dividir em alguns segmentos: 75 livros do detetive Maigret, fora os 28 contos em que o personagem aparece. 130 “romances duros”, que são romances psicológicos. 20 volumes de memórias. Mais 200 romances escritos sob pseudônimo. Vendeu acima de 600 milhões de livros, no mundo inteiro. Ao contrário do que se imagina, Maigret não é francês. É belga, mas muito respeitado pelo público francês e também por escritores daquele país, entre eles André Gide, (Nobel de 1947). Ele foi um dos primeiros grandes intelectuais a reconhecer o valor literário de Simenon, indo além do rótulo de “autor policial”, dizendo que Simenon “talvez fosse o maior e o mais genuíno romancista que tivemos na literatura francesa contemporânea”. A amizade de Gide e Simenon era genuína, como testemunham as inúmeras cartas trocadas entre eles.
Há alguns “romances duros” de Simenon, não sei exatamente quantos, publicados no Brasil. A Cia das Letras fez um esforço na primeira década deste século em publicá-los. Deles li O quarto azul e O círculo dos Mahé, ambos já resenhados no blog. Mas este ano me dei de presente dois volumes das obras de Simenon, publicados pela UNESP, que trazem oito dos romances duros. Há dois outros volumes dedicados às obras com o inspetor Maigret, qua comprarei mais tarde.
Descobri esses romances duros por acaso. E me tornei fã. Veremos o que acho desses outros publicados pela UNESP. Nesses dois romances que li, ainda tenho outro em casa, A neve estava suja, a temática é completamente diferente daquela encontrada nos casos do inspetor Maigret. Tanto O quarto azul quanto O círculo dos Mahé tratam de situações emocionais que levam a desfechos inesperados, mas em absoluta fidelidade às características dos personagens. Simenon, conhecido por não gostar de textos elaborados, bonitos, com adjetivos e floreios, fortalece as emoções suscitadas na leitor justamente por ser lacônico, deixando espaço para que o leitor preencha com imaginação as reticências, o vácuo dos diálogos breves ou inacabados.
Quanto as leituras de 2026: Maigret e o finado Sr. Gallet foi ótima. Final que me surpreendeu e, no entanto, completamente plausível. Adoro um livro de mistério, principalmente os mais tradicionais. Podem ler. Vale a pena. E a título de curiosidade: gosto de Agatha Christie (aliás sua autobiografia, que não tem mistério, é uma excelente leitura), Dorothy Sayers, Margery Allingham, Colin Dexter, P.D. James, Ruth Rendell, Louise Penny e muitos outros estão na minha lista de favoritos. Verão, para mim, também é um período de leituras rápidas, leves, em que problemas podem ser solucionados. Nada melhor do que isso, não é mesmo?
Natureza morta
Benedito José Tobias (Brasil, 1894-1963)
[B. J. Tobias]
óleo sobre tela, 44 x 58 cm
Natureza Morta
Domingos Gemelli (Brasil, 1915-1985)
óleo sobre tela, 54 x 60 cm
NOTA: são dezoito anos postando, duas vezes por semana, naturezas mortas, nesse blog. E vejo que tanto frutas, legumes, hortaliças, assim como flores têm moda, têm épocas de apreciação. Hoje, é raro encontrarmos alguma natureza morta com abóboras, como aparece nessas duas telas acima. As naturezas mortas (da cozinha) mais recente, se limitam a frutas e legumes mais coloridos, como pimentões, cebolas. Mas a preferência é sempre por frutas e quase nenhuma hortaliça. Os verdes, das folhas, da couve, dos chuchus, da taioba, do repolho desapareceram da mesa dos nossos artistas plásticos. Mesmo a banana já não aparece tanto, e o coco definitivamente pertence aos anos 40-60 do século XX. Estamos mais restritos na dieta artística. Pintores continuam a produzir natureza mortas, mas o que é retratado é diferente. Restrição semelhante acontece nos vasos com flores.
Músicos
Ricardo Medeiros (Brasil, 1955)
acrílica sobre tela
“Pois Saint-Loup pertencia a essa classe de rapazes aristocratas colocados numa altura onde é possível que brotem essas expressões: “É o que tem de bom, esse é o seu lado bom”, sementes assaz preciosas que logo determinam uma maneira de conceber as coisas, na qual não se vale nada e o “povo” vale tudo, quer dizer, exatamente o contrário do orgulho plebeu. Pelo que me contava Robert, não era possível imaginar como o seu tio, quando jovem, dava o tom e ditava a lei a todo mundo.
— Ele, da sua parte, fazia sempre o que lhe parecia mais agradável e cômodo, mas logo o imitavam os esnobes. Se lhe acontecia ter sede quando no teatro e mandava que lhe trouxessem alguma bebida ao camarote, já se sabia que na semana seguinte haveria refrescos em todos os corredores. Num verão muito chuvoso, sentiu-se um pouco reumático, e encomendou um sobretudo de vicunha muito fina, mas bastante quente, que só se emprega para mantas de viagem e respeitou o padrão do tecido, de listras azuis e laranja. Os grandes alfaiates receberam imediatamente encomendas de casacos de listras e bastante quentes. Se por qualquer motivo queria tirar toda solenidade a uma refeição em casa de campo onde estava passando o dia, e, para indicar esse matiz, não vestia casaca e sentava-se à mesa de jaqueta, ficava em moda jantar de jaqueta nas casas de campo. Se comia um doce e, em vez de colher, usava garfo ou um talher de sua invenção que havia encomendado a um ourives, ou o pegava com os dedos, já não era lícito fazer de outra maneira. Sentiu desejos de ouvir de novo certos quartetos de Beethoven, pois, com todas as suas ideias absurdas, não é nenhum bruto e tem talento, e encarregou uns músicos que fossem à sua casa um dia por semana, para executar aquelas obras, que ouvia com alguns amigos. E naquele ano considerou-se como suprema elegância dar reuniões íntimas em que se executava música de câmara. Parece-me que não deve ter-se aborrecido neste mundo! Com o seu belo tipo, não lhe devem ter faltado mulheres! Apenas não se sabe quais, pois é muito discreto. Bem sei que enganou bastante à minha pobre tia. O que não impediu que fosse muito bom com ela, que ela o adorasse, e que ele a tenha chorado por muitos anos. Quando está em Paris, vai quase diariamente ao cemitério.”
Em: À sombra das raparigas em flor, Marcel Proust, tradução de Mário Quintana
Sebastião, soldado do mundo, 1976
Mario Mendonça, (Brasil, 1934)
óleo sobre tela, 60 x 100 cm
Nota: Mário Mendonça é um dos poucos artistas brasileiros modernos dedicado quase exclusivamente à arte sacra. Mas São Sebastião ocupou, no Brasil, o imaginário de alguns outros artistas, que não se ocuparam com todo o leque de cenas religiosas à disposição na arte pictórica, mas que tiveram produção imensa representando São Sebastião. Vêm à mente as inúmeras telas de Alberto da Veiga Guignard e de Glauco Rodrigues que repetidamente pintaram o santo.
A floresta, 1978
Rosina Becker Do Valle (Brasil, 1914-2000)
óleo sobre tela, 65 x 46 cm
Verdes e Vozes
Maria Dinorah
Escutem as vozes
Escutem os rios no meio dos ramos
os risos chegando sabiás, tico-ticos
das águas correndo pardais, gaturamos…
das pedras
cantando
Escutem os grilos
Escutem! Escutem! crilando serestas
Com presa e vagar! nos vãos das janelas
Há monstros
humanos das horas em festa!
Fazendo-os calar! E se eles calarem num frio de repente,
quem vai pintar sonhos nos sonhos da gente?
Em: Ver de ver, Maria Dinorah, 1992. Editora FTD
Mulher com cachorro
Sonya Grassmann (Bulgária-Brasil, 1933-1997)
óleo sobre eucatex, 40 x 30 cm
“Restava-me o amparo dos livros. Abrigava-me neles da tempestade de todas as dúvidas, e para ali ficava, esquecido das horas, esquecido de mim, observando a paz nocturna dos cães dormindo à minha volta com a serenidade de quem nunca estará de mal com o mundo”
José Jorge Letria, A Mão Esquerda de Cervantes: Contos
Jovem lendo em frente a casas em rua residencial
David Woodlock (Inglaterra, 1842-1929)
aquarela, 28 x 22 cm