Da janela vê-se o Corcovado…

23 01 2026

Marina da Glória com o Corcovado ao fundo

Jorge Vieira (Brasil, 1952) 

óleo sobre tela, 74 x 64 cm





4ª leitura do ano: Maigret e o finado Sr. Gallet, de Simenon

22 01 2026

Talvez vocês não saibam, provavelmente porque não sou muito boa em meu próprio marketing, que tenho uma pífia conta no Instagram [@escritora.ladycewest], recomendação de especialista que contratei há uns três anos. Um pouco antes de enviuvar, eu havia lançado um livro de poemas [À meia voz], resultado de anos de escrita não sistemática, e de uma oficina para escritores que fiz, aqui no Rio de Janeiro, com o escritor e poeta Luís Pimentel.  Passado o primeiro ano de luto (francamente tenho poucas memórias desse período) engajei um serviço de marketing digital para saber o que deveria fazer para impulsionar vendas do livro, já que eu havia perdido a “época quente” do marketing, antes e depois do lançamento.  E poesia, eu soube durante esse período, não é item quente nas vendas.

Minha dificuldade, disse a analista, era que eu “estava mudando de profissão”.  Que sou mais conhecida como historiadora da arte, que sempre fui, galerista, que fui por muitos anos, e que ninguém esperava que eu também escrevesse. Como se as pessoas pudessem ter só um perfil, só um amor! Era preciso que eu me estabelecesse como “intelectual” (palavras dela), como conhecedora de literatura brasileira e de poesia em especial.   Com muita resistência, abri conta no Instagram.  Não sou da geração Tik Tok, e esse negócio de botar a cara lá, para me “estabelecer” era um conceito muito além da minha zona de conforto.  Mas fiz.  E como me estabelecer?  Mostrando que eu sabia do babado.  Que conhecia literatura.  Comecei, então, a postar uma poesia por dia, de segunda a sábado. É exaustivo e limitante, porque o escolhido precisa ser lido em noventa segundos ou menos. Precisa ser entendido por todos, quer a pessoa tenha completado o ensino médio ou não. E realmente, as poesias de mais sucesso são as infantis ou infanto-juvenis. Grande parte do que é escrito não cabe nesses limites.  Além disso os poemas têm que ser “família”, não podem ter palavrões, não podem falar de sexo, nem de temas controversos, nem de religião (fiz duas longas séries sobre Natal, mas o Natal abraça mais do que o religioso), têm que ter um vocabulário acessível, ideias claras.  De fato, qualquer referência à mitologia greco-romana, por exemplo, se torna ininteligível.  Recentemente li um poema que mencionava Penelope.  Pequenino, Direto.  Uma pequena joia. E percebi que a audiência não tinha ideia de quem era Penelope, aquela que tricotava e desfazia o tricô à espera de Ulisses.  Enfim, fomos em frente.  Tenho uma adolescente que faz o vídeo para mim. Comecei em out/novembro de 2023.  E sim, tenho alguns seguidores.  Mas não foi nenhuma avalanche.

Levo uma vida comum.  Não sou dada a expor nada do que faço, porque na verdade não faço nada além do que todos fazem.  Mas uma coisa ficou clara: quando posto no Instagram  fotos com esse ou aquele amigo, num local incomum para minhas postagens, o pessoal nota.  E quando mostro algo sobre minhas leituras, aquele vídeo, mesmo que feito por mim, sem grande profissionalismo, ou talvez por isso mesmo, tem pelo menos o dobro das visualizações que recebo em outras circunstâncias.  Uma de minhas decisões de 2026 foi postar mais sobre o que leio. Desde que o que eu leia seja em português, porque pode ser considerado “esnobismo” postar alguma leitura em outra língua.  Aliás as regras do marketing vieram em grande detalhe: muitas mas simples, entre elas: aparecer sempre de preto, para não distrair o espectador, ou, as pessoas prestarão atenção na sua roupa, nos seus brincos, no seu relógio.   É entrar numa espécie de  mundo paralelo, com códigos esdrúxulos, o que aumenta minha resistência.  Mas estou focando no resultado.  Principalmente porque me preparo para o lançamento de mais um livro.

Minha postagem no Instagram da semana passada, sobre essa quarta leitura do ano, trouxe mais pessoas do que o esperado.  E ao que parece foi porque mencionei não só uma leitura popular, mas a informação de uma segunda veia artística de Simenon, que pouca gente conhece, mas sobre a qual eu já havia me referido aqui no blog: seus “romances  duros”.  Talvez valha lembrar que Simenon foi um dos escritores mais prolíficos de todos os tempos tendo publicado entre 400 a 500 livros, não se sabe exatamente o número, porque publicou sob muitos pseudônimos. Com a ajuda da IA, posso dividir em alguns segmentos: 75 livros do detetive Maigret, fora os 28 contos em que o personagem aparece. 130 “romances duros”, que são romances psicológicos.  20 volumes de memórias.  Mais 200 romances escritos sob pseudônimo.  Vendeu acima de 600 milhões de livros, no mundo inteiro.  Ao contrário do que se imagina, Maigret não é francês.  É belga, mas muito respeitado pelo público francês e também por escritores daquele país, entre eles André Gide, (Nobel de 1947).  Ele foi um dos primeiros grandes intelectuais a reconhecer o valor literário de Simenon, indo além do rótulo de “autor policial”, dizendo que Simenon “talvez fosse o maior e o mais genuíno romancista que tivemos na literatura francesa contemporânea”.  A amizade de Gide e Simenon era genuína, como testemunham as inúmeras cartas trocadas entre eles. 

Há alguns “romances duros” de Simenon, não sei exatamente quantos, publicados no Brasil. A Cia das Letras fez um esforço na primeira década deste século em publicá-los. Deles li O quarto azul e O círculo dos Mahé, ambos já resenhados no blog. Mas este ano me dei de presente dois volumes das obras de Simenon, publicados pela UNESP, que trazem oito dos romances duros. Há dois outros volumes dedicados às obras com o inspetor Maigret, qua comprarei mais tarde. 

Descobri esses romances duros por acaso.  E me tornei fã.  Veremos o que acho desses outros publicados pela UNESP.  Nesses dois romances que li, ainda tenho outro em casa, A neve estava suja, a temática é completamente diferente daquela encontrada nos casos do inspetor Maigret.  Tanto O quarto azul quanto O círculo dos Mahé tratam de situações emocionais que levam a desfechos inesperados, mas em absoluta fidelidade às características dos personagens.  Simenon, conhecido por não gostar de textos elaborados, bonitos, com adjetivos e floreios, fortalece as emoções suscitadas na leitor justamente por ser lacônico, deixando espaço para que o leitor preencha com imaginação as reticências, o vácuo dos diálogos breves ou inacabados. 

Quanto as leituras de 2026:  Maigret e o finado Sr. Gallet foi ótima.  Final que me surpreendeu e, no entanto, completamente plausível. Adoro um livro de mistério, principalmente os mais tradicionais. Podem ler.  Vale a pena.  E a título de curiosidade: gosto de Agatha Christie (aliás sua autobiografia, que não tem mistério, é uma excelente leitura), Dorothy Sayers, Margery Allingham, Colin Dexter, P.D. James, Ruth Rendell, Louise Penny e muitos outros estão na minha lista de favoritos. Verão, para mim, também é um período de leituras rápidas, leves, em que problemas podem ser solucionados.  Nada melhor do que isso, não é mesmo?





Imagem de leitura: Rupert Charles Wulsten Bunny

22 01 2026

Na varanda

Rupert Bunny (Austrália, 1864-1947)

óleo sobre tela, 80 x 64 cm





Hoje é dia de feira: frutas e legumes frescos!

21 01 2026

Natureza morta

Benedito José Tobias (Brasil, 1894-1963)

[B. J. Tobias]

óleo sobre tela, 44 x 58 cm

 

 

 

Natureza Morta

Domingos Gemelli (Brasil, 1915-1985)

óleo sobre tela, 54 x 60 cm

 

 

NOTA: são dezoito anos postando, duas vezes por semana, naturezas mortas, nesse blog. E vejo que tanto frutas, legumes, hortaliças, assim como  flores têm moda, têm épocas de apreciação.  Hoje, é raro encontrarmos alguma natureza morta com abóboras, como aparece nessas duas telas acima.  As naturezas mortas (da cozinha) mais recente, se limitam a frutas e legumes mais coloridos, como pimentões, cebolas.  Mas a preferência é sempre por frutas e quase nenhuma hortaliça.  Os verdes, das folhas, da couve, dos chuchus, da taioba, do repolho desapareceram da mesa dos nossos artistas plásticos.  Mesmo a banana já não aparece tanto, e o coco definitivamente pertence aos anos 40-60 do século XX.  Estamos mais restritos na dieta artística.  Pintores continuam a produzir natureza mortas, mas o que é retratado é diferente. Restrição semelhante acontece nos  vasos com flores. 





O “influencer” do passado, texto de Marcel Proust

21 01 2026

Músicos

Ricardo Medeiros (Brasil, 1955)

acrílica sobre tela

 

 

“Pois Saint-Loup pertencia a essa classe de rapazes aristocratas colocados numa altura onde é possível que brotem essas expressões: “É o que tem de bom, esse é o seu lado bom”, sementes assaz preciosas que logo determinam uma maneira de conceber as coisas, na qual não se vale nada e o “povo” vale tudo, quer dizer, exatamente o contrário do orgulho plebeu. Pelo que me contava Robert, não era possível imaginar como o seu tio, quando jovem, dava o tom e ditava a lei a todo mundo.

— Ele, da sua parte, fazia sempre o que lhe parecia mais agradável e cômodo, mas logo o imitavam os esnobes. Se lhe acontecia ter sede quando no teatro e mandava que lhe trouxessem alguma bebida ao camarote, já se sabia que na semana seguinte haveria refrescos em todos os corredores. Num verão muito chuvoso, sentiu-se um pouco reumático, e encomendou um sobretudo de vicunha muito fina, mas bastante quente, que só se emprega para mantas de viagem e respeitou o padrão do tecido, de listras azuis e laranja. Os grandes alfaiates receberam imediatamente encomendas de casacos de listras e bastante quentes. Se por qualquer motivo queria tirar toda solenidade a uma refeição em casa de campo onde estava passando o dia, e, para indicar esse matiz, não vestia casaca e sentava-se à mesa de jaqueta, ficava em moda jantar de jaqueta nas casas de campo. Se comia um doce e, em vez de colher, usava garfo ou um talher de sua invenção que havia encomendado a um ourives, ou o pegava com os dedos, já não era lícito fazer de outra maneira. Sentiu desejos de ouvir de novo certos quartetos de Beethoven, pois, com todas as suas ideias absurdas, não é nenhum bruto e tem talento, e encarregou uns músicos que fossem à sua casa um dia por semana, para executar aquelas obras, que ouvia com alguns amigos. E naquele ano considerou-se como suprema elegância dar reuniões íntimas em que se executava música de câmara. Parece-me que não deve ter-se aborrecido neste mundo! Com o seu belo tipo, não lhe devem ter faltado mulheres! Apenas não se sabe quais, pois é muito discreto. Bem sei que enganou bastante à minha pobre tia. O que não impediu que fosse muito bom com ela, que ela o adorasse, e que ele a tenha chorado por muitos anos. Quando está em Paris, vai quase diariamente ao cemitério.”

Em: À sombra das raparigas em flor, Marcel Proust, tradução de Mário Quintana





20 de janeiro, dia de S. Sebastião, feriado no Rio de Janeiro!

20 01 2026

Sebastião, soldado do mundo, 1976

Mario Mendonça, (Brasil, 1934)

óleo sobre tela, 60 x 100 cm

 

 

 Nota: Mário Mendonça é um dos poucos artistas brasileiros modernos dedicado quase exclusivamente à arte sacra.  Mas São Sebastião ocupou, no Brasil, o imaginário de alguns outros artistas, que não se ocuparam com todo o leque de cenas religiosas à disposição na arte pictórica, mas que tiveram produção imensa representando São Sebastião. Vêm à mente as inúmeras telas de Alberto da Veiga Guignard e de Glauco Rodrigues que repetidamente pintaram o santo.





Verdes vozes, poesia de Maria Dinorah

20 01 2026

A floresta, 1978

Rosina Becker Do Valle (Brasil, 1914-2000)

óleo sobre tela, 65 x 46 cm

 

 

Verdes e Vozes

 

Maria Dinorah  

 

 

Escutem as vozes

Escutem os rios no meio dos ramos

os risos chegando sabiás, tico-ticos

das águas correndo pardais, gaturamos…

das pedras

cantando

 

Escutem os grilos

Escutem! Escutem! crilando serestas

Com presa e vagar! nos vãos das janelas

Há monstros

 

humanos das horas em festa!

Fazendo-os calar! E se eles calarem num frio de repente,

quem vai pintar sonhos nos sonhos da gente?

 

 

Em: Ver de  ver, Maria Dinorah, 1992. Editora FTD





Nossas tempestades, trecho de José Jorge Letria

19 01 2026

Mulher com cachorro

Sonya Grassmann (Bulgária-Brasil, 1933-1997)

óleo sobre eucatex, 40 x 30 cm

“Restava-me o amparo dos livros. Abrigava-me neles da tempestade de todas as dúvidas, e para ali ficava, esquecido das horas, esquecido de mim, observando a paz nocturna dos cães dormindo à minha volta com a serenidade de quem nunca estará de mal com o mundo”

José Jorge Letria, A Mão Esquerda de Cervantes: Contos





Imagem de leitura: David Woodlock

19 01 2026

Jovem lendo em frente a casas em rua residencial

David Woodlock (Inglaterra, 1842-1929)

aquarela, 28 x 22 cm





Jardim de inverno, uma memória…

18 01 2026

O jardim de inverno, 1883

Frances Jones Bannerman (Canadá, 1855-1944)

óleo sobre tela, 63 x 80 cm

Coleção Particular

 

 

Meus avós moravam na Tijuca, no Rio de Janeiro.  Sou a mais velha da família de minha mãe, que era a mais velha das filhas. Passei muito tempo com meus avós.  Nós nos víamos regularmente, mas depois de meu primeiro irmão nascer, com mais assiduidade, quando meus pais saíam à noite ou quando meus avós queriam viajar.  Aos seis anos, comecei a viajar com eles, que também eram meus padrinhos. Fomos a cidades turísticas, cidades das águas em Minas Gerais, às cidades serranas fluminenses e até São Paulo, onde mais tarde uma de minhas tias morou.  Era sempre um prazer estar com eles, desfrutar dos quitutes de vovó, e das  brincadeiras de meu avô, que exercitavam meu vocabulário. 

Tenho memórias detalhadas da casa deles, onde eu dormia no quarto cor de rosa.  Estive lá frequentemente, porque ainda criança, acompanhei os namoros e noivados de minhas tias, irmãs mais novas de mamãe.  Fui dama de honra de ambas em seus casamentos: aos quatro e aos seis anos respectivamente. Justo trabalho para quem havia sido companhia perpétua do casal de namorados, garantindo que nada de estranho acontecesse enquanto passeavam juntos.  Digo isso em tom divertido, porque ganhei incríveis presentes nessa época segurando vela.  Eram balas, passas em caixinha, que eu adorava, passeios de carrinho de bode, na Praça Afonso Pena, uma atividade atrás da outra, um agrado a cada saída.  Fui comprada, sim eu tinha preço!

Frequentar a casa de meus avós maternos trouxe benefícios décadas mais tarde. Adulta, me encontrei encantada por móveis antigos, seduzida pelo cheiro de madeira e pelo perfume de óleo de peroba.  Quando abri minha galeria de arte moderna e móveis de fazenda, dos séculos XVIII e XIX, nos EUA, combinação que deu certo, nem sei bem as razões, entrei num período de vida gratificante.

Meus avós tinham um mobiliário do estilo manuelino, pesado, em jacarandá escuro com colunas nas beiradas, serpentinadas e ornamentos nos almofadões das portas. Tudo finalizado por pés de bolacha, enquanto as cadeiras tinham costas e assentos de couro escuro trabalhado com desenhos abstratos e uma carreira de tachas de latão a toda volta dos assentos e espaldares.  Toda a sala de jantar era nesses móveis favoritos no país desde o tempo colonial, mas os de meus avós provavelmente datavam de seu casamento nos anos  20.  Na sala de jantar, um grande bufê, uma cristaleira, um pequeno bufê e a mesa gigantesca para doze pessoas, as cadeiras enchiam o espaço.  Havia também um móvel só de gavetas pequenas, no mesmo estilo, que mais tarde soube chamar-se um contador. Ficava no hall entre a sala de jantar e o escritório de vovô.   Um móvel bar, espelhado por dentro, detalhe que me fascinava, guardava garrafas de todo tipo de bebida e alguns copos de cristal.  Outros cristais encontravam-se na cristaleira. 

Móvel contador em estilo Manuelino.

 

A sala de estar tinha móveis que hoje chamaríamos Art Déco dos anos 30-40,  com linhas retas, poltronas cujos braços de madeira formavam arcos do pé da frente da cadeira até o chão do pé detrás e estofamento de couro verde escuro. Havia cinzeiros de pé para os homens que fumavam – só eles fumavam – e abajures de pé para o conforto da leitura quer na poltrona, quer no sofá no mesmo estilo.  Havia ali, também um rádio vitrola que embalava em momentos familiares uma dança improvisada de meus pais e tios em momentos descontraídos durante domingos em família.  

O móvel bar ficava em uma das salas de estar, a mais próxima do jardim de inverno, que nada mais era do que uma espaçosa varanda completamente fechada com vidro.  Lá estavam plantas exuberantes, como manda a flora tropical, vasos de parede com plantas ‘choradeiras’. Num canto a figura de Ceres, com uma braçada de trigo, toda em cerâmica branca, imitando mármore, que dominava um dos lados da varanda, instalada num pedestal de ferro. No outro lado, na mesma cerâmica branca, vitrificada, estava seu par, a deusa Fortuna, com pedestal gêmeo. Essa tinha olhos vendados e uma cornucópia nos braços, transbordando frutas.  Foram as primeiras deusas clássicas com que me familiarizei: agricultura e sorte.  O jardim de inverno era meu lugar favorito da casa de meus avós, parecia uma pequena amostra das florestas tropicais que cobriam os morros da antiga Tijuca, ainda não tomados por comunidades. Meu outro lugar de fascínio era o escritório de vovô, com perfume do cachimbo a que ele se dedicava após o jantar e que era coberto de livros nas estantes com portas de vidro de correr. 

O jardim de inverno tinha móveis bem mais modernos, de madeira cor de mel, com acabamento de fibras naturais, feitos rechonchudos e acolhedores pelas almofadas estampadas com folhagens e pássaros nas costas e assentos.  O jardim de inverno trazia para dentro de casa, o convívio com a natureza sem os perrengues dos mosquitos ou insetos indesejáveis.  Havia duas mesas pequenas.  A de ferro com tampo de vidro e a de madeira. Lembro-me de jogar cartas com vovó nessas mesas: jogo da memória.  Apesar de meus avós terem duas salas de estar, era no jardim de inverno que vovô recebia seus amigos.  Hoje percebo que havia algo do período vitoriano nesse local, algo que de vez em quando vejo retratado em quadros ingleses do século XIX. 

Na casa deles não havia o luxo dos tapetes no jardim de inverno que vemos em cenas europeias, mas a própria exuberância das samambaias choronas, descendo parede abaixo de vasos pendurados de encontro às paredes, era experiência única.  Cuidadas por vovó, em grandes vasos de faiança colorida, com relevos, havia até mesmo pequenas árvores de uns dois metros de altura que faziam o ambiente íntimo e úmido, com um leve cheiro de mato.  No jardim, havia algumas plantas que mais ou menos desapareceram dos jardins atuais: manacás, jasmins, bambu da sorte, pacová. 

Hoje, procurando algumas ilustrações para postagens no blog me deparei com a representação do Jardim de Inverno de Frances Jones Bannerman, que coloquei acima. E uma onda de flashes, cenas de um passado muito longínquo me entreteve por umas horas.  Acho que lidar com as fotos de antepassados que vou passar para meus sobrinhos está abrindo os portões das lembranças, propiciando que eu tire algumas conclusões sobre as raízes de certos interesses meus.  Foi uma boa tarde de domingo.  Que seja a premonição de uma ótima semana para mim e para todos nós!

 

©Ladyce West, Rio de Janeiro, 18 de janeiro de 2026.