Painel central do tríptico da Igreja de São Pedro em Leuven, Bélgica
A última ceiade Deiric Bouts mostra Cristo e seus discípulos em um salão típico do século XV em Flandres (atual Bélgica).
Jesus Cristo, no papel de sacerdote, abençoa o pão e olha diretamente para fora da sala, para o espectador (nós). Com isso ele inclui quem observa o painel na cena da Eucaristia. É o divino na vida cotidiana. Sua mão direita elevada em bênção: três dedos levantados simbolizando a Santíssima Trindade e dois dedos dobrados representando sua natureza dupla: humana e divina.
Diferente de outros retratos da Última Ceia, Bouts inclui também, além do observador, o homem comum, contemporâneo, habitante do século XV, nesse momento sagrado. Mais um reforço de que o divino acontece em meio ao dia a dia. A cena é colocada na sala de jantar de uma família belga, abastada, do século XV. Vemos através de janelas góticas a praça do mercado da cidade. Há móveis contemporâneos, de madeira, uma lareira e chão de azulejos coloridos que ajudam na projeção da perspectiva. Há quatro pessoas, em roupas contemporâneas do espectador que aparecem na cena sagrada: são membros da Irmandade do Santíssimo Sacramento, instituição que encomendou a obra. Dois deles aparecem numa janela de serviço para outro cômodo. No fundo, à direita, há um jarro de metal (aquamanile) e uma bacia em um nicho (lavabo), simbolizando a limpeza ritualística necessária antes da comunhão
Jesus Cristo está rodeado por seus apóstolos. O lustre no centro da sala é típico da era mas também é possível que seja uma referência, um aceno, uma homenagem ao grande pintor belga van Eyck. Não há velas acesas nesse lustre, assim como a lareira está apagada. Judas está sentado de costas para o espectador e tem uma das mãos (a esquerda) escondida às costas. Note que ninguém está de sandálias, ou qualquer tipo de sapato, porque a cena retratada acontece imediatamente após Cristo ter lavado os pés dos apóstolos.
Algumas das diferenças entre a arte do norte da Europa e a do sul, (Bélgica x Itália, nesse caso) na ênfase dada à A última ceia. Aqui o pintor se encarrega, provavelmente seguindo as orientações da irmandade que encomendou o painel, de enfatizar a Eucaristia. A cena é solene. Estática. Ritual. Não prevemos o imenso choque emocional da traição a seguir. Já na Europa meridional o tema em geral dá ênfase à traição. Ecoa a frase “Um de vós me trairá”. O foco é emocional. Há mais drama.
Veio uma bola pelo ar que se pôs a saltitar por cima deste papel. Quem foi que lhe deu licença?
Houve um menino que a viu e que correu a apanhá-la ela então parou – fugir não fugiu – e ficou à espera que o menino com ela brincasse.
— Deixas que eu salte ao eixo? — Pois decerto que deixo. — E posso deitar-me sobre ti? Não me empurras? Não me foges?
— Podes sim. Sou bola boa. Redonda. Não tenhas medo de mim.
Nisto, chegou-se uma menina que perguntou: — Esta bola é tua? — Não sei! — respondeu o menino. — Pergunta-lhe a ela.
Falou então a bola: — Sou vossa, de vocês dois, mas não me partam ao meio. Era um perigo pois deixava de ser bola. Brinquem, brinquem comigo. Não sirvo para outra coisa. Mão de menino que em mim poisa é mão de amigo. Quantas mais mãos, mais amigos; e eu, então, embora não pareça, fico tão cheia de ar, de alegria, que perco a cabeça.
Vieram mais meninos, e a bola voou do chão, andou de mão em mão – é minha, é tua agora! – saltou, correu, voltejou e voou desta página para fora.
ouro, esmalte azul translúcido, diamantes e pérola barroca pendente
Coleção Richard H. Driehaus
Driehaus Museum, Chicago
O mestre vidreiro René Lalique dedicou-se como quase todos os artistas da virada do século XIX-XX à observação da natureza. Nessa joia, excelente exemplar do uso das formas naturais no estilo Art Nouveau, vemos três crisântemos em diferentes etapas do desflorescer. Representam longevidade, fidelidade e alegria. Mas também vemos nessa deliciosa obra uma quase meditação sobre a passagem do tempo. Há três flores: uma completamente aberta, como um pompom composto por pequeninas pétalas, no centro. Enquanto os outros dois contribuem para o sentido da nostalgia, já que estão a caminho de seu despetalar, de seu fim. O momento escolhido, considerando a finitude da vida, é representado com grande esplendor.
Outono. Em frente ao mar. Escancaro as janelas Sobre o jardim calado, e as águas miro, absorto. Outono… Rodopiando, as folhas amarelas Rolam, caem. Viuvez, velhice, desconforto…
Por que, belo navio, ao clarão das estrelas, Visitaste este mar inabitado e morto, Se logo, ao vir do vento, abriste ao vento as velas, Se logo, ao vir da luz, abandonaste o porto?
A água cantou. Rodeava, aos beijos, os teus flancos A espuma, desmanchada em riso e flocos brancos… Mas chegaste com a noite, e fugiste com o sol!
E eu olho o céu deserto, e vejo o oceano triste, E contemplo o lugar por onde te sumiste, Banhado no clarão nascente do arrebol…