Jornal até bandido lê! Ilustração de Walt Disney, Irmãos Metralha.
alguém o condenaria:
A escritora cearense Socorro Acioli é autora do livro escolhido para leitura, no mês do Carnaval, pelo grupo Papalivros: A Cabeça do Santo [Cia das Letras:2014]. Publicado há mais de uma década, tornou-se um fenômeno de popularidade nos últimos tempos. Influenciadores digitais e jornalistas mencionaram a obra com frequência e, aos poucos, o público endossou as recomendações tornando-o um best-seller. Tenho afiliações com quatro grupos de leitura (cariocas e nacionais). Com essa escolha do Papalivros, vejo que todos quatro já leram a obra. Socorro Acioli é uma escritora escolhida por Gabriel Garcia Marques para a oficina “Como contar um conto”, em 2006, em Cuba. Ela pode, então, se considerar não só herdeira do realismo mágico, à maneira de Gabo, mas também abençoada pelo feitiço de seu mentor. A cabeça do santo é resultado dessa experiência.
Um livro pequenino — 176 páginas — consegue encantar a gregos e troianos, ao descrever a saga de Samuel, um homem, que após a morte de sua mãe e a conselho dela, sai em busca do pai. Nessa empreitada, precisando de abrigo depois de muito andar, ele encontra uma gruta, onde se esconde para passar a noite. Qual não é sua surpresa ao descobrir, quando acorda, que o abrigo é a cabeça oca de um Santo Antônio, de proporções gigantescas, parte de uma escultura abandonada, um projeto sem sucesso da cidade vizinha, Candeia. Sua surpresa é acentuada quando percebe que o local é lugar de peregrinação de mulheres à procura um companheiro, namorado, marido, enfim de um milagre do santo casamenteiro. Escondido na cabeçona, Samuel ouve os causos relatados e as preces endereçadas ao santo. Acaba interferindo à sua maneira no destino delas, graças a Francisco, um amigo que faz no local.
Fiel às tradições da literatura nordestina, situações de farsa e humor ecoam obras de Dias Gomes e Ariano Suassuna. Aqui, Socorro Acioli nos presenteia com uma mini fábula, enraizada nas tradições populares, na política dos lugares pequenos, nas crendices da vida cotidiana, na superstição. Osório, o prefeito de Candeia, cidade responsável pelo projeto desastroso da escultura monumental, é personagem que poderia ser encontrado em alguma obra de Dias Gomes, herdeiro, podemos dizer, de Odorico Paraguaçu, de O Bem-amado (1961). Dias Gomes também é sentido no humor cáustico com que Osório é representado. Candeia é uma cidade dividida entre misticismo e ganância, dualidade também encontrada nas obras do dramaturgo, conhecido por representar o conflito entre o sagrado e o profano.
Samuel e Francisco por outro lado são ‘filhos’ de Ariano Suassuna, personagens que sobrevivem graças à astúcia e a algumas artimanhas. São sertanejos e bem representam o local em que a religião é cultura viva, em que milagres acontecem apesar de ou por causa de todas suas mazelas. Isso é retratado num ritmo de cultura oral, em alguns lugares reminiscente da literatura de cordel, e pela fé mística e grandiosa, como acontece em O Auto da Compadecida (1955).
A cabeça do santo é obra ainda mais rica nas referências bíblico-religiosas de Samuel (do Velho Testamento), São Francisco e Santo Antônio, dois dos mais populares santos cultuados no Brasil, referências admitidas pela própria autora. Recomendo a leitura ainda que para meu gosto ela pudesse ter sido expandida, com mais causos, mais detalhes nas histórias contadas a Samuel. Achei o final, deus-ex-machina previsível e súbito, um tantinho à maneira Dias Gomes, um final dramático e retumbante, que resolve todos os problemas. Mas vale. É uma boa leitura para um fim de semana divertido.
Talheres e quadrados, 2026
Alejandro Asensio (Espanha, 1993)
lápis de cor sobre papel, 31 x 28 cm (enquadrado)

Homem aranha, mamãe e verão, 2025
Alejandro Asensio (Espanha, 1993)
lápis de cor sobre papel, 52 × 68 cm
Ao caldo, 2025
Alejandro Asensio (Espanha, 1993)
lápis de cor sobre papel, 28 × 20 cm
Hora do almoço, 2025
Alejandro Asensio (Espanha, 1993)
lápis de cor sobre papel, 30 × 36 cm [emoldurado]
Cama de rosas, 2025
Alejandro Asensio (Espanha, 1993)
lápis de cor sobre papel, 66x 106 cm
Azul, amarelo e cerveja, 2025
Alejandro Asensio (Espanha, 1993)
lápis de cor sobre papel, 46 × 75 cm
Crisântemos
Alice Gonsalves (Brasil, 1894-1985)
óleo sobre madeira, 51 x 70 cm
Flores, 1962
Gastão Formenti (Brasil, 1894-1974)
óleo sobre eucatex, 16 x 22 cm
No início do ano, li Sobre a Ficção, de Ricardo Viel — obra que resenhei em 7 de fevereiro. A publicação reúne entrevistas com dez autores contemporâneos da Península Ibérica e de países lusófonos: Espanha, Portugal, Brasil e Moçambique. Dos selecionados, apenas Djaimilia Pereira de Almeida me era desconhecida. Cativada por suas respostas, assim que terminei a leitura, adquiri o livro mencionado na entrevista: Esse Cabelo. Não houve arrependimento; pelo contrário, sinto a felicidade de uma grande descoberta e a certeza de que esta será apenas a primeira de muitas obras da autora em minha estante.
Nascida em Angola, de pai português e mãe angolana, Djaimilia mudou-se para Portugal ainda criança, nos anos 80. Narrado em primeira pessoa, o livro transita entre a autobiografia, o ensaio e o romance curto. Trata-se, em essência, de um processo de autoconhecimento: a busca de Mila por sua identidade. Seu cabelo — cacheado, rebelde, “invencível” — é o fio condutor que evidencia as diferenças familiares e serve de porta de entrada para o racismo cotidiano. A relação com os fios marca eventos cruciais de sua formação, enquanto memórias familiares, lembranças de Lisboa e histórias da ascendência judia em Moçambique fazem o texto fluir com um caráter onírico. A narrativa poética, ritmada pela busca incessante pelo cabeleireiro ideal, transforma relatos fragmentados em um sonho lúcido.
Um exemplo:
“Estando a tia Justina para aí virada, a visita era comemorada com um bolo inglês que ela fizera, impregnado do mesmo perfume que eu lhe sentia no pescoço ao cumprimentá-la à chegada — o perfume, aposto, das gavetas de sua casa. E então acompanhava-se o chá com o bolo, por entre suspiros dirigidos à sua oportunidade e sabor imutável: pouca coisa aliviava a sorte da consanguinidade como uma cereja cristalizada. Mastigar o miolo seco e maçudo dispensava-as por momentos da necessidade de fazer conversa. Eram cavalos do mesmo dono, vizinhos de estábulo, pouco mais que quaisquer outras duas almas tomadas ao acaso“
Embora seja um livro breve, com cerca de cem páginas, seu impacto é monumental. Recomendo a leitura; é uma experiência profundamente comovente.