Nos teus sambas e folias,
meu carnaval feiticeiro,
a gente esquece em três dias
as mágoas de um ano inteiro!
(José Maria Machado de Araújo)
Nos teus sambas e folias,
meu carnaval feiticeiro,
a gente esquece em três dias
as mágoas de um ano inteiro!
(José Maria Machado de Araújo)
O grupo de leitura Ao Pé da Letra escolheu ler, no mês de fevereiro, Virgínia Mordida, de Jeovanna Vieira — primeiro romance da escritora. Embora a autora e a personagem principal sejam afrodescendentes, não se trata de uma obra sobre racismo, ainda que o livro se enquadre na literatura ativista, estilo em voga e favorito da Geração Z. O tema central é o relacionamento abusivo de um casal. Virgínia narra sua saga através dos mais de oito anos de convívio com o homem por quem se apaixonou — um caso em que ela entra esperançosa, apesar de ter sido advertida por uma amiga sobre a reputação duvidosa do rapaz.
Henri é um argentino que deseja ser ator, mas possui pouca habilidade para a carreira. É um homem sempre às vésperas de conseguir um papel, por mínimo que seja, e que não se incomoda de ser mantido por uma mulher de trinta e poucos anos, bem-sucedida profissionalmente. Para Virgínia, porém, o primeiro encontro — que imediatamente se transforma na primeira relação sexual — supera as expectativas, convencendo-a de que ele é o parceiro perfeito. Henri alimenta essa fantasia, contribuindo indiretamente para os planos dela e fazendo juramentos de amor semelhantes aos da companheira, embora seja rápido em substituí-la nas separações. Mas será Virgínia capaz de deixá-lo? Resta ler para ver.
Na capa, a editora destaca a opinião de Andréa del Fuego: ‘Galopante, sem rodopios. Nu, cru, imperdível’. Concordo que a escrita é galopante e a narrativa, nua e crua. Mas paro por aí. Grande parte da literatura ativista adota um discurso cru, como se a mensagem pudesse ser comprometida pela estética. Virgínia Mordida é de um realismo visceral, bárbaro, sem rodeios. Jeovanna Vieira até tenta trazer certo lirismo ao recordar as ‘Beneditas’ de sua ancestralidade, talvez para contrabalançar o grito de agonia da história principal. No entanto, para explorar a profundidade do desarranjo emocional de Virgínia, seriam necessárias mais camadas de reflexão e silenciamento interior.
A fragmentação psicológica da protagonista seria mais impactante se houvesse um retrato de sua luta interna e meditativa. No texto, tudo se resolve por ações: telefonemas, saídas, conversas com terceiros, bebida e sexo. Faltam discussões emotivas entre os amantes e, sobretudo, o estado interior de Virgínia. Até a dúvida sobre a maternidade é resolvida de forma célere, sem espaço para a sutileza dos sentimentos. Essa subjetividade ajudaria o leitor a participar da transformação da narradora. Como está, o livro é um relato objetivo e impactante, mas de efeito passageiro, pois não oferece chance de identificação com a agonia interna da personagem. Nossa imaginação é ignorada por uma sequência factual de ‘ele fez isso, eu fiz aquilo’. Falta profundidade.
Entendo que o abuso doméstico é tema comum da literatura ativista e, como norma do nicho, a obra ressalta a solidariedade entre mulheres. A ‘mulher objeto’ não é um tema novo; já foi abordado em clássicos como O Cortiço, de Aluísio Azevedo, e no estrangeiro por Charlotte Perkins Gilman em O Papel de Parede Amarelo (lido pelo grupo em 2016). Nos dez anos do Ao Pé da Letra, lemos diversas obras ativistas, incluindo A Pediatra, da própria Andréa del Fuego. Portanto, nossa crítica não nasce do desconhecimento do subgênero. É hora, porém, de repensarmos a estrutura da literatura engajada para que ela deixe de ser estritamente factual e verborrágica. É preciso polir a escrita e entrelaçar a denúncia à introspecção, evitando o rótulo de ‘leitura rasa’ que frequentemente aflige a literatura de resistência.
NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.
Meu carnaval se repete
com a mesma Colombina:
faço dos versos confete
e da trova – serpentina.
(José Valeriano Rodrigues)
Lista de compras, 1912
Harold Gilman (Inglaterra, 1876-1919)
óleo sobre tela, 62 x 51 cm
Conselho Britânico, Londres
Flores do campo, 1974
Wega Nery (Brasil, 1912-2007)
óleo sobre tela, 100 x 68 cm
Vaso de flores e figuras,2003
Ronaldo Torquato (Brasil, 1957)
óleo sobre tela, 130 x 100 cm
Quando a vida se complica
nas horas de solidão,
amigo é aquele que fica
depois que os outros se vão.
(Aloísio Alves da Costa)
Uma conversa íntima, 1961
Chris McMorrow (Irlanda, contemporâneo)
aquarela sobre papel
“Servido o café, as mulheres se ocuparam com o tricô, instaladas no seu canto habitual. Pardon e Maigret sentaram-se perto de uma das janelas, enquanto o jovem marido de Alice, não sabendo bem a que grupo se integrar, acabou por sentar-se ao lado de sua mulher.
Já estava decidido que a Sra. Maigret seria a madrinha da criança, para quem ela tricotava um casaquinho.
Pardon acendeu um charuto. Maigret encheu seu cachimbo. Eles não tinham particularmente vontade de falar, e um tempo bastante longo transcorreu em silêncio enquanto lhes chegava o rumor das mulheres.
Por fim o médico murmurou como para si mesmo:
— É mais uma dessas noites eu que eu desejaria ter escolhido outra profissão!
Maigret não insistiu, não o estimulou a confidências. Ele gostava muito de Pardon. Considerava-o um homem no sentido pleno que dava a essa palavra.”
Em: Uma confidência de Maigret, Simenon, L&PM-Pocket: 2013.
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Amanhã, aqui no Rio de Janeiro, já é ponto facultativo, pelo Carnaval. Este ano estarei por aqui, na cidade. E já escolhi alguns livros para ler. Alguns gostosos como esse de Simenon, e alguns outros. Devo poder descansar.
Escolhi essa passagem do livro, logo em seu início, Simenon nos lembra que nas grandes amizades, não se precisa falar o tempo todo. Há conforto no silêncio.
Que nós todos tenhamos amigos assim!
O vendedor de frutas, 1923
Tarsila do Amaral (Brasil, 1886-1873)
óleo sobre tela, 109 x 95 cm
Coleção Gilberto Chateaubriand – MAM/RJ
Vendedor de frutas, 1924
Vicente do Rego Monteiro (Brasil, 1899-1970)
óleo sobre tela, 70 x 80 cm
Coleção Particular
O gato sábio, 1904
Henriëtte Ronner-Knip (Holanda, 1821-1909)
óleo sobre madeira, 28 x 36 cm
Coleção Particular
De manhã, quando a gente chegava à nossa baia, tinha sempre um gato branco deitado na mesa de P. O encarregado da limpeza disse que podia dar um jeito nele, Tá tranquilo, o bichinho não faz mal pra ninguém. No começo era o gato do hangar. Depois virou o gato da nossa ilha. Até que chegamos um dia pela manhã e o bicho parecia meio morto. Nunca vi alguém tão desesperado pela vida de um animal que sequer lhe pertencia. Foi aí que ele virou o gato da P.
Penélope segurou o gato, que mais parecia um tigre-de-bengala em seu colo, e correu com dificuldade em direção ao pátio. Pediu ao seu Geraldo, o motorista, que o levasse ao veterinário mais próximo, e rápido. A lamúria da P. durou uma semana, o tempo da internação. Penélope foi visitá-lo todos os dias e voltava com boletins não solicitados da evolução do quadro. Eu não aguentava mais aquela ladainha toda. Quando ela voltou com o bicho recém-operado dentro da caixa de transporte, seu Geraldo despontou atrás com sacolas enormes, trazendo o enxoval completo comprado no pet shop. Penélope depositou a caixa cuidadosamente no canto da sua mesa. Dava para ver um colchãozinho xadrez. Não tem gato? Então, não tem. É uma gata. Penélope mostrou a plaquinha de identificação como nome Lady Gata e o número do celular dela. É isso, agora a gata mora aqui com a gente. Alguém tem alergia? Bateu uma caixa de Fenergan em cima da mesa. Sem protestos.
Em: Virgínia mordida, Jeovanna Vieira, Companhia das Letras: 2024