Às vezes me perguntam se gosto de tudo que leio. É claro que não. Mas raramente venho aqui criticar um livro. Talvez seja um erro. Não sei. Há muitos livros que abandono no meio. Abandono porque o tempo para leitura é limitado, porque tenho estantes repletas de livros: cujo momento não é viável para o tema ou estilo. Tanto está nos olhos de quem lê! Vejo nos meus grupos de leitura. É muito raro lermos um livro que todos os participantes leram com agrado. E ano passado chegamos a um livro que todos os leitores do grupo abandonaram antes do fim. Essa unanimidade é rara. Mas acho que ocasionalmente deveria colocar aqui minha opinião sobre um abandono.
Há mais de um ano comprei, durante a Black Friday, coletâneas de contos de variados autores. Essa sede por contos apareceu depois que fiz um curso de escrita de contos. Ainda não domino “a técnica”, não como me ensinaram. Meus textos têm cunho pessoal, passeando do conto, à crônica, ao ensaio. Escrever poemas, minha introdução à escrita, me fez cortar palavras ao máximo. Reduzir, reduzir. Por outro lado, gosto imensamente de crônicas. Porém, é raro eu ler contos. Sempre os julguei por instinto. Prefiro narrativas mais longas. Novelas são, para mim, uma arte à parte. Superior. São maiores que contos e menores que romances. Um bom escritor consegue entregar muito nesse gênero. Tenho diversas novelas favoritas. Dia desses colocarei aqui algumas para aconselhar a leitura.
Os melhores contos de Isaac Asimov faz parte desse acervo de livros de contos que comprei. Hoje, antes de escrever, fui na Amazon e no Goodreads ver as resenhas desse livro. Estou na minoria. Na Amazon, um único leitor não gostou do livro. Então vamos lá, saber os porquês. Não há dúvida: Asimov teve um papel importante ao trazer à discussão para os leigos, aquilo que o mundo da tecnologia, dos computadores iria trazer para a humanidade. Aqui ele defende o uso humano, ético das máquinas. Nesse ponto ele teve muito valor e ainda tem. No entanto, hoje, seus contos são anacrônicos. Há um lado romântico e ingênuo na narrativas, que faz essas histórias parecerem superadas. Leitores de hoje, eu diria nos últimos dez anos leitores que viram a popularização da inteligência artificial, acham os temas primários, inocentes, como historinhas para boi dormir. Para Asimov o conflito era a ética contra dados. Ele imaginava a Inteligência Artificial com corpo mecânico. Para o leitor de hoje, que vive com a IA onipresente, essa defasagem é desconfortável.
Além disso, Isaac Asimov não prima pela escrita literária. Chamam sua escrita de “seca”. É um eufemismo, pois é desprovida de encanto. Ele mostra amor zero pelas palavras, por figuras de linguagem, pelo refinamento da prosa. Diz-se que essa maneira de narrar era proposital, mas faz falta.
Pensei em meus sobrinhos. Será que eles gostariam dessas histórias? Não. Certamente o que leu O mochileiro das galáxias, de Douglas Adams, que também não é lá muito literário, mas extremamente excitante, os contos de Asimov não seriam lidos. Esse sobrinho tem 15 anos. Seu irmão, de 10, por outro lado já vive tão enfronhado em computação que essas histórias não fariam sentido. Talvez um ou outro conto pudesse ser atraente para eles. Mas não li o suficiente para chegar a uma conclusão. Desisti.
Também é válido desistir de uma leitura. Isso é preciso dizer. Pelo menos formamos nosso gosto dessa maneira, sendo francos sobre nossas afinidades.