Lady Gata, trecho de Jeovanna Vieira

10 02 2026

O gato sábio, 1904

Henriëtte Ronner-Knip (Holanda, 1821-1909)

óleo sobre madeira, 28 x 36 cm

Coleção Particular

 

 

De manhã, quando a gente chegava à nossa baia, tinha sempre um gato branco deitado na mesa de P. O encarregado da limpeza disse que podia dar um jeito nele, Tá tranquilo, o bichinho não faz mal pra ninguém. No começo era o gato do hangar. Depois virou o gato da nossa ilha. Até que chegamos um dia pela manhã e o bicho parecia meio morto.  Nunca vi alguém tão desesperado pela vida de um animal que sequer lhe pertencia. Foi aí que ele virou o gato da P.

Penélope segurou o gato, que mais parecia um tigre-de-bengala em seu colo, e correu com dificuldade em direção ao pátio. Pediu ao seu Geraldo, o motorista, que o levasse ao veterinário mais próximo, e rápido.  A lamúria da P. durou uma semana, o tempo da internação. Penélope foi visitá-lo todos os dias e voltava com boletins não solicitados da evolução do quadro. Eu não aguentava mais aquela ladainha toda.  Quando ela voltou com o bicho recém-operado dentro da caixa de transporte, seu Geraldo despontou atrás com sacolas enormes, trazendo o enxoval completo comprado no pet shop. Penélope depositou a caixa cuidadosamente no canto da sua mesa. Dava para ver um colchãozinho xadrez. Não tem gato? Então, não tem. É uma gata. Penélope mostrou a plaquinha de identificação como nome Lady Gata e o número do celular dela. É isso, agora a gata mora aqui com a gente. Alguém tem alergia? Bateu uma caixa de Fenergan em cima da mesa. Sem protestos.

 

Em: Virgínia mordida, Jeovanna Vieira, Companhia das Letras: 2024

 

 





Nossas cidades: Paraty

10 02 2026

Sobrado em Paraty, 19969

Djanira da Motta e Silva (Brasil, 1914-1979)

acrilica sobre tela 54 x 73 cm





Rosa Montero sobre a resposta a seu livro: “A ridícula ideia de nunca mais te ver”

9 02 2026

Leitura na poltrona

Alfonso Cuñado  (Espanha, 1953)

óleo sobre tela, 50 x 50 cm 

 

“Nossos mortos e nossos filhos são as coisas mais importantes que nos acontecem na vida. Sempre recebo muitas mensagens, porque sou bastante acessível. Mas com esse livro foram muitíssimas. E 90% das pessoas me escreviam para contar histórias de mortes próximas. O extraordinário é que essas histórias não eram tristes, eram preciosas, celebravam o amor. Acho que essas pessoas não tinham podido contar isso a ninguém, nem sequer podiam reconhecer que havia alguma beleza ali, porque, quando há uma morte, temos a cabeça mergulhada na dor. Então, o meu livro, sem que eu tivesse a intenção, proporcionou aos leitores o resgate da beleza das mortes próximas.”

 

Essa foi a resposta do público que Rosa Montero recebeu depois da publicação de seu livro: A ridícula ideia de nunca mais te ver, tradução de Mariana Sanchez, Editora Todavia: 2019

 

Citação encontrada no livro: Sobre a ficção, Ricardo Viel, Companhia das Letras: 2025





Trova do vento

9 02 2026
Ilustração de Rie Cramer. 

 

 

Rege o vento na floresta

fagotes, trompas, clarins,

enquanto a brisa, modesta,

toca flauta nos jardins…

 

 

(Orlando Brito)





Imagem de leitura: Felipe Diniz Sanguin

9 02 2026

Veraneio, 2023

Felipe Diniz Sanguin (Brasil, 1986)

acrílica sobre tela, 100 x 80 cm





Paisagens brasileiras…

8 02 2026

A colheita, 1903

Antonio Ferrigno (Itália-Brasil, 1863-1940)

óleo sobre tela, 100 x 150 cm 

Museu do Ipiranga

 

 

 

Café, 1940

Candido Portinari (Brasil, 1903-1962)

óleo sobre tela, 46 x 55 cm





Em casa: Lucy Almey Bird

8 02 2026

Mandando nosso carinho 

Lucy Almey Bird (Inglaterra, 1973)

acrílica sobre tela colada em cartão





6ª leitura do ano: Sobre a ficção, de Ricardo Viel

7 02 2026

 

 

Não sei quem me recomendou esse livro de entrevistas de autores das línguas ibéricas.  Foi recomendado porque não estava no meu horizonte.  Agradeço a quem o fez.  Foi uma leitura gostosa.  Dos dez escritores entrevistados só não conheço a obra de um deles ainda que já soubesse de sua existência.  O livro abre e fecha com as entrevistas de que mais gostei, autoras cujas personalidades  conseguiram ultrapassar os diversos filtros de distanciamento existentes em qualquer entrevista; uma espanhola e uma portuguesa: Rosa Montero e Djaimilia Pereira de Almeida.  Um elogio precisa ser feito ao trabalho de Ricardo Viel, que em Sobre a ficção [Cia das Letras: 2025] regeu as conversas com cada um dos romancistas de maneira segura, mostrando conhecimento das obras de cada um, sem interferências irrelevantes, deixando cada escritor aparentemente à vontade — personalidades, aparecendo através dos diálogos. 

Ao final, cheguei a uma conclusão: escritores são gente igual a toda gente.  Há uns mais simpáticos, outros modestos, um ou outro mais cheio de si.  Quer se vejam como referências da ‘alta’ literatura, quer sua obra seja altamente pessoal, eles vêm de todos os cantos do mundo, de todas as classes sociais, de famílias que liam ou não, com ou sem livros em casa.  E a leitura pode ser descoberta em criança, na adolescência ou como jovens adultos.  E não há idade para se começar. Todos têm hábitos diversos. Não há padrão.  Não há comportamento igual.  Não há predestinação, nem caminho fácil para o sucesso. Notívagos ou não, organizados e desorganizados, com planos detalhados dos personagens já sabendo como será o ponto final do romance ou escrevendo de supetão, instintivamente, sem ideia prefixa de para onde vão, cada um deles se encontrou como escritor por diferentes meios.  Os dez romancistas entrevistados são contemporâneos, já foram aplaudidos por milhares de pessoas, têm sucesso além fronteiras da terra natal, veem o que fazem de maneiras diferentes. O único ponto em comum, mesmo, é a necessidade de escrever.  Essa supera grande parte de todas outras atividades de suas existências. E podem escrever diariamente ou passar anos sem colocar uma palavra no papel.

Na era em que tudo parece ter um livro ou um método para como escrever; como superar o bloqueio; com que tipo de primeiro parágrafo atrair o leitor; entender a ‘Jornada do Herói’, dividi-la ou não nas doze partes que Joseph Campbel a descreveu;  tudo isso parece, ao final dessas entrevistas, irrelevante. Cursos e mais cursos que se multiplicam na internet, sobre como ser ou tornar-se um escritor, provavelmente pouco poderão ensinar.  Ler.  Ler, ler. Ler muito e constantemente, parece ser a melhor pedida.  Fica a dica.  

No final o que resta é a obra. Ela é o que realmente conta. As atividades e circunstâncias da vida de cada autor, não são de grande relevância a não ser para quem gostaria de biografá-los. É a obra. 

 





Flores, porque hoje é sábado…

7 02 2026

Natureza morta

Yvonne ViscontiCavalleiro (França-Brasil, 1902 – 1965)

aquarela sobre papel, 31 x 20 cm

 

 

 

Vaso com flores

Tadashi Kaminagai (Japão-França, 1899-1982)

óleo sobre tela – 58 x 43 cm

 





O avestruz lírico, poema de António Manuel Couto Viana

6 02 2026

Espere, alguma coisa não está correta!, 2023

Stephen Hall (Escócia, 1954)

acrilica sobe tela,  102 × 76 cm

 

NOTA: os emojis fazem parte da tela.

 

 

 

O avestruz lírico

 

António Manuel Couto Viana (1923–2010)

 

 

Avestruz:

O sarcasmo de duas asas breves

(Ânsia frustrada de espaço e luz,

De coisas frágeis, líricas, leves);

 

Patas afeitas ao chão;

Voar? Até onde o pescoço dá.

Bicho sem classificação:

Nem cá, nem lá.

 

Isto sou (Dói-me a ironia

– Pudor nem eu sei de quê).

Daí a absurda fantasia

De me esconder na poesia,

Por crer que ninguém a lê.

 

 

Em: O avestruz lírico, 1948

 

Nota: encontrei esse poema hoje, por acaso.  Não resisti, tive que trazê-lo para cá.  Ri muito.