Quarta-feira de Cinzas com Goya

18 02 2026

Enterro da Sardinha, 1812-14

Francisco Goya (Espanha, 1746-1828)

óleo sobre madeira, 83 x 52 cm

Real Academia de Belas Artes de San Fernando 

 

O enterro da sardinha retrata uma festa espanhola, bastante caótica, que simboliza o enterro dos excessos do passado e o início das tradicionais restrições de jejum da Quaresma. 

Trata-se de uma procissão funerária, jocosa, para o enterro de um peixe.  Goya retrata um grupo de pessoas mascaradas, numa procissão caótica, com os últimos foliões, que carregam uma bandeira escura, com a figura do Rei Momo, rindo. 

Acredita-se que essa celebração tenha surgido em Madri, durante o século XVIII, quando a corte encomendou peixes para o período da Quaresma.  Mas o caminho era longo e os peixes chegaram a Madri já estragados, com cheiro muito ruim, obrigando os responsáveis a enterrar toda carga putrefata, às margens do Rio Manzanares.  Comemoram o enterro da sardinha também nas Ilhas Canárias e na Catalunha. 

Quando eu era criança, no Rio de Janeiro, havia um bloco que fechava o Carnaval.  Saía ao meio-dia, o bloco dos presos, ou seja de todos aqueles que haviam sido presos por má conduta durante os dias de folia, em geral um monte de pessoas bêbadas e responsáveis por pequenos delitos. 

Mas a Quaresma também era diferente. Não cresci numa família religiosa. Católica, mas não muito praticante. Mesmo assim não se devia rir alto, não se devia ouvir música alta. Tínhamos que ter comportamento sisudo. Era muito difícil. Os santos nas igrejas eram todos cobertos com tecido roxo simbolizando a dor, o luto, a tristeza de todos os católicos, mas isso acabou com o Papa João XXIII. Lá em casa, podíamos tocar piano só com o pedal abafador, e qualquer música era baixinho, para respeitar e não constranger nossos vizinhos que levavam as restrições da Quaresma muito mais a sério.  E o Rio de Janeiro, respeitava o silêncio.  Não havia blocos na rua, depois da Terça-feira Gorda. Alegria voltava só no Sábado de Aleluia, quando muitos clubes tinham o Baile do Enterro dos Ossos, à noite.

 

 





Trova de Carnaval

17 02 2026

 

 

O sonho que eu tive um dia

e que a minha alma alegrou,

hoje é só a fantasia

de um carnaval que passou…

 

(Luiz Rabelo)

 

 

LUIZ RABELO





Nossas cidades: Olinda

17 02 2026

Frevo II

[Olinda, Carnaval]

Sandro Maciel (Brasil, 1965 )

acrílica sobre tela,  90 x 70 cm





Trova de Carnaval

16 02 2026

 

 

Nos teus sambas e folias,

meu carnaval feiticeiro,

a gente esquece em três dias

as mágoas de um ano inteiro!

 

(José Maria Machado de Araújo)

 





7ª leitura do ano: Virginia Mordida, de Jeovanna Vieira

16 02 2026

 

 

 

O grupo de leitura Ao Pé da Letra escolheu ler, no mês de fevereiro, Virgínia Mordida, de Jeovanna Vieira — primeiro romance da escritora. Embora a autora e a personagem principal sejam afrodescendentes, não se trata de uma obra sobre racismo, ainda que o livro se enquadre na literatura ativista, estilo em voga e favorito da Geração Z. O tema central é o relacionamento abusivo de um casal. Virgínia narra sua saga através dos mais de oito anos de convívio com o homem por quem se apaixonou — um caso em que ela entra esperançosa, apesar de ter sido advertida por uma amiga sobre a reputação duvidosa do rapaz.

Henri é um argentino que deseja ser ator, mas possui pouca habilidade para a carreira. É um homem sempre às vésperas de conseguir um papel, por mínimo que seja, e que não se incomoda de ser mantido por uma mulher de trinta e poucos anos, bem-sucedida profissionalmente. Para Virgínia, porém, o primeiro encontro — que imediatamente se transforma na primeira relação sexual — supera as expectativas, convencendo-a de que ele é o parceiro perfeito. Henri alimenta essa fantasia, contribuindo indiretamente para os planos dela e fazendo juramentos de amor semelhantes aos da companheira, embora seja rápido em substituí-la nas separações. Mas será Virgínia capaz de deixá-lo? Resta ler para ver.

Na capa, a editora destaca a opinião de Andréa del Fuego: ‘Galopante, sem rodopios. Nu, cru, imperdível’. Concordo que a escrita é galopante e a narrativa, nua e crua. Mas paro por aí. Grande parte da literatura ativista adota um discurso cru, como se a mensagem pudesse ser comprometida pela estética. Virgínia Mordida é de um realismo visceral, bárbaro, sem rodeios. Jeovanna Vieira até tenta trazer certo lirismo ao recordar as ‘Beneditas’ de sua ancestralidade, talvez para contrabalançar o grito de agonia da história principal. No entanto, para explorar a profundidade do desarranjo emocional de Virgínia, seriam necessárias mais camadas de reflexão e silenciamento interior.

A fragmentação psicológica da protagonista seria mais impactante se houvesse um retrato de sua luta interna e meditativa. No texto, tudo se resolve por ações: telefonemas, saídas, conversas com terceiros, bebida e sexo. Faltam discussões emotivas entre os amantes e, sobretudo, o estado interior de Virgínia. Até a dúvida sobre a maternidade é resolvida de forma célere, sem espaço para a sutileza dos sentimentos. Essa subjetividade ajudaria o leitor a participar da transformação da narradora. Como está, o livro é um relato objetivo e impactante, mas de efeito passageiro, pois não oferece chance de identificação com a agonia interna da personagem. Nossa imaginação é ignorada por uma sequência factual de ‘ele fez isso, eu fiz aquilo’. Falta profundidade.

Entendo que o abuso doméstico é tema comum da literatura ativista e, como norma do nicho, a obra ressalta a solidariedade entre mulheres. A ‘mulher objeto’ não é um tema novo; já foi abordado em clássicos como O Cortiço, de Aluísio Azevedo, e no estrangeiro por Charlotte Perkins Gilman em O Papel de Parede Amarelo (lido pelo grupo em 2016). Nos dez anos do Ao Pé da Letra, lemos diversas obras ativistas, incluindo A Pediatra, da própria Andréa del Fuego. Portanto, nossa crítica não nasce do desconhecimento do subgênero. É hora, porém, de repensarmos a estrutura da literatura engajada para que ela deixe de ser estritamente factual e verborrágica. É preciso polir a escrita e entrelaçar a denúncia à introspecção, evitando o rótulo de ‘leitura rasa’ que frequentemente aflige a literatura de resistência.

 

NOTA: este blog não está associado a qualquer editora ou livraria, não recebe livros nem qualquer incentivo para a promoção de livros.





Trova do Carnaval

15 02 2026
Ilustração de Margret Boriss

 

 

Meu carnaval se repete

com a mesma Colombina:

faço dos versos confete

e da trova – serpentina.

 

(José Valeriano Rodrigues)

 





Em casa: Harold Gilman

15 02 2026

Lista de compras, 1912

Harold Gilman (Inglaterra, 1876-1919)

óleo sobre tela,  62 x 51 cm

Conselho Britânico, Londres

 





Flores, porque hoje é sábado!

14 02 2026

Flores do campo, 1974

Wega Nery (Brasil, 1912-2007)

óleo sobre tela, 100 x 68 cm

 

 

 

Vaso de flores e figuras,2003

Ronaldo Torquato (Brasil, 1957)

óleo sobre tela, 130 x 100 cm





Da janela vê-se o Corcovado…

13 02 2026

Carnaval no Rio de Janeiro

Aécio de Andrade (Brasil, 1935)

óleo sobre tela, 40 x 40 Cm,





Trova da amizade

12 02 2026
No clube, ilustração de Laurence Fellows

 

 

Quando a vida se complica

nas horas de solidão,

amigo é aquele que fica

depois que os outros se vão.


(Aloísio Alves da Costa)