
Mercado de Florianópolis
Martinho de Haro (Brasil, 1907-1985)
óleo sobre eucatex, 31 x 45 cm
Leitura, c. 1913
Lasar Segall (Lituânia-Brasil, 1889-1957)
óleo sobre papelão, 66 x 56 cm
Museu Lasar Segall, SP
Luiz Pistarini
Bela, por mim, se vejo-te passando.
Tudo me esquece por estar te vendo
– Sinto o Prazer, no coração cantando,
E a mágoa, enfim, no coração, morrendo …
Passas … E, alegre, vou te acompanhando
Pelos lugares por que vais correndo …
E ao ver-te longe, minha flor, – chorando,
Triste suspiro, sem querer, desprendo …
Voltas depois, formosamente rindo …
Voltas depois, e o meu pesar te escondo,
Num riso franco de prazer profundo!
Ficas. E eu, louco, imerso em gozo infindo,
Grande, – aos teus pés, o coração depondo,
Sinto a mais grata sensação do mundo!
Resende – 1895
Nota: eu mesma fiz a atualização das palavras para o português corrente no Brasil, hoje. Exemplo: si > se;
vaes > vais e assim por diante. Poeta fluminense, natural de Resende.
Leitora, 1960
Gerhard Richter, (Alemanha, 1932)
óleo sobre madeira, 102 x 70 cm
Nem todas as leituras precisam ser sérias. Há horas para diversão. Recentemente meu grupo de leitura escolheu esse tipo de livro: As pessoas na plataforma 5, da autora inglesa Clare Pooley, tradução de Cecília Camargo Bartalotti, Verus: 2024. Trata-se de um grupo de desconhecidos que tomam o mesmo trem Hampton Court-Waterloo Station -Londres, todas as manhãs. Não se conhecem até que uma emergência, um dia, serve de motivo para que comecem a interagir.
A figura principal é uma escritora com coluna em jornal aconselhando leitores. Iona Iverson, de 57 anos, não consegue passar despercebida. Tem uma personalidade expansiva, roupas coloridas, uma bolsa gigante, onde carrega chá, garrafa térmica, xícara e pires. Havia sido uma jovem atraente, a verdadeira IT-GIRL, na década de 60-70. Mas no momento sente-se desprezada por seus empregadores e acredita ser discriminada por sua idade.
Outros passageiros, que eventualmente se “confessam” com Iona, são Sanjay, um enfermeiro oncologista que sofre de ataques de pânico e anda encantado com outra passageira: Ema. Piers é o engravatado homem do mundo financeiro, infeliz com sua profissão. Emmie, leitora obstinada, é a jovem que trabalha em marketing e tem um namorado controlador, que a obriga a dizer a toda hora onde se encontra e o que faz. Há também a adolescente Marta que sofre bullying na escola e David, o esquecível advogado perto de se divorciar.
Já podemos ver, pelos problemas de cada passageiro, que Clare Pooley dedica-se a passar os olhos sobre alguns problemas que afligem a sociedade atual: Alzheimer’s, Bullying, Etarismo, Stalking, síndrome do pânico e muitos outros. No entanto, o tom desse livro é leve, há momentos verdadeiramente engraçados e outros um tanto sentimentais. No todo, essa obra é inconsequente, alegre, e acaba da melhor maneira possível. É um pouco longa. Poderia ter sido cortada por um terço mais ou menos, retirando as passagens que se prolongam sem adicionar nada de valioso. A média dos pontos das leitoras desse grupo foi três estrelas de cinco. Quase o que eu daria, também. Se esse tipo de história, que parece uma mini série televisiva é do seu agrado para diversão, leia. Foi assim que vi: a escritora pensou em construir um conjunto de personagens, trabalhando assuntos da moda, com esperança de servir eventualmente como inspiração para algum serviço de stream.
Expectativa, 1868
(também chamado, Impaciência)
Lawrence Alma-Tadema (Inglaterra, 1836-1912)
aquarela sobre papel, 20 x 15 cm
Coleção Particular
Violetas, 1981
Lully de Carvalho (Brasil, 1929-2017)
óleo sobre eucatex, 23 X 32 cm
Toalha vermelha
Ana Goldberger (Brasil, 1947-2019)
acrílica sobre tela, 20 x 30 cm
Finalmente li Madame Bovary, de Gustave Flaubert, (1857), um clássico, considerado uma das três obras mais influentes na história literária do mundo ocidental. As outras são: Don Quixote, de Cervantes (1605) por ser considerado o primeiro romance moderno, e Ulisses de James Joyce (1922) por ter revolucionado a narrativa, incluindo o fluxo de consciência, entre outras novidades. Nesse meio, Madame Bovary se salienta na literatura ao introduzir o realismo na narrativa literária; pela excelência na precisão das palavras; por trazer pela primeira vez uma anti-heroína, entre outros “primeiros” que esse romance introduz, incluindo a crítica social. Essa era uma falha na minha formação que me orgulho de tê-la superado. Confesso que estava um tanto intimidada ao abrir esse livro. Tanto se fala dele. Foi fonte de inspiração para Ana Karênina, de Tolstói publicado vinte anos mais tarde, e foi fonte de inspiração para um grande número de escritores. Mas depois de ler O papagaio de Flaubert, de Julian Barnes, há uns poucos anos, que me encantou, percebi que precisava a qualquer custo me dedicar a Madame Bovary. A conta havia chegado. Fui auxiliada também pelo grupo de leitura Papalivros que escolheu essa como primeira leitura de 2026.
Não consigo imaginar algo que eu possa dizer que já não tenha sido dito sobre essa obra. Surpreendente foi a mágica da linguagem encontrada, momentos de pura poesia em prosa, descrições de ambientes, de cenários que conseguem acender a imaginação do leitor sem esforço. Flaubert trabalhou nesse livro por cinco anos, e se sente. Seus personagens são tridimensionais, inteiros, cheios das idiossincrasias naturais dos seres humanos. São desprezíveis, vis, mesquinhos, indiferentes, cobiçosos, idiotas, gananciosos, tolos, parvos, simplórios, interesseiros. Mas ninguém supera Ema Bovary. Fui instigada a detestá-la. Não suscitou em mim, qualquer simpatia. Viveu e morreu como quis, numa volúpia de quereres sem fim, ousadia sem limites, sôfrega por satisfazer-se e só a si mesma. Mesmo assim vale a pena conhecê-la.
Flaubert e sua casa editorial La Revue de Paris foram processados por essa publicação por ofender a moral e os bons costumes. O julgamento criou grande curiosidade no público e o romance se tornou um best-seller imediatamente após ganharam a causa. Publicado em 1857, mas passado nos anos de 1830, durante o reinado de Napoleão III, Flaubert usa o contexto histórico para retratar aquilo que não aprovava naquele reinado.
É uma história completa. Retrata os locais, a era, os hábitos e costumes, e seus personagens são ricos, completos, com anseios e desejos, faltas morais, ciúmes, indiferenças e cobiça, tal qual o mundo que nos rodeia. A leitura é vagarosa para ser, de fato, saboreada. É preciso imersão. Mas o resultado dessa experiência deve ser para sempre. Fiquei com vontade de reler quase imediatamente. Provavelmente o farei muitas vezes.
Monge ermitão escrevendo em sua mesa, 1300-1325
[DETALHE]
Estoire del Saint Graal, La Queste del Saint Graal, Morte Artu (Royal MS 14 E III), France, N. (Saint-Omer or Tournai?)
pergaminho, 49 x 34 cm
Biblioteca Britânica, Londres
[O ensino do cálculo] “principia pelo uso de instrumentos práticos que servem primeiro ao estudante para calcular e depois ao financeiro, ao comerciante. São o ábaco e o tabuleiro — ‘humildes antepassados das modernas máquinas de calcular’. Os manuais de aritmética elementar multiplicam-se a partir do século XIII, tal como aquele que foi escrito em 1340 por Paolo Dagomari de Prato, apelidado de Paolo dell’Abaco. Entre os tratados científicos, alguns tiveram, tanto para a contabilidade comercial como para a ciência matemática, uma importância singular. Foi o caso do Tratado do Abaco — liber abbaci — que Leonardo Fibonacci publica em 1202. Este Leonardo Fibonacci é um Pisano cujo pai é oficial da alfândega da República de Pisa em Bougie, em África. Foi no mundo cristão-muçulmano do comércio, em Bougie, no Egito, na Síria, na Sicília, por onde viaja em negócios, que se iniciou nas matemáticas que os Árabes aprenderam com os Hindus. Na sua obra, introduz o emprego dos números árabes e do zero, inovação fundamental para a numeração com parcelas, operações com frações e cálculo proporcional. Levando mais longe as suas pesquisas, publica em 1220 uma Prática de Geometria. Nos finais da Idade Média, em 1494, Luca Pacioli escreve a sua famosa Summa de Arithmetica, resumo do conhecimento aritmético e matemático do mundo do comércio; nessa obra debruça-se especialmente sobre a contabilidade de dupla entrada. Na Alemanha, contudo, populariza-se um outro manual, depois de 1450, o Método de Cálculo de Nuremberg.”
Em: Mercadores e Banqueiros da Idade Média, Jacques Le Goff, tradução de Orlando Cardoso, Lisboa, Gradiva: s/d. página 79. *
* Fiz ajustes de grafia, tais como Egipto, na grafia portuguesa para Egito, na grafia brasileira.