A bola e os seus amigos, poesia infantil, António Torrado

2 04 2026
A bola e seus amigos

 

António Torrado

 

Veio uma bola pelo ar
que se pôs a saltitar
por cima deste papel.
Quem foi que lhe deu licença?

Houve um menino que a viu
e que correu a apanhá-la
ela então parou – fugir não fugiu –
e ficou à espera que o menino
com ela brincasse.

— Deixas que eu salte ao eixo?
— Pois decerto que deixo.
— E posso deitar-me sobre ti?
Não me empurras? Não me foges?

— Podes sim.
Sou bola boa. Redonda.
Não tenhas medo de mim.

Nisto, chegou-se uma menina
que perguntou:
— Esta bola é tua?
— Não sei! — respondeu o menino.
— Pergunta-lhe a ela.

Falou então a bola:
— Sou vossa, de vocês dois, mas não me partam ao meio.
Era um perigo pois deixava de ser bola.
Brinquem, brinquem comigo. Não sirvo para outra coisa.
Mão de menino que em mim poisa
é mão de amigo.
Quantas mais mãos, mais amigos;
e eu, então, embora não pareça,
fico tão cheia de ar, de alegria,
que perco a cabeça.

Vieram mais meninos,
e a bola voou do chão,
andou de mão em mão
– é minha, é tua agora! –
saltou, correu, voltejou
e voou desta página para fora.





Trova do sino

31 03 2026

 

 

Quando o badalo acarinha

um sino de muita idade,

o som que o bronze apadrinha

tem outro nome: saudade.

 

(Maria Helena Oliveira Costa)

 

 





Com delicadeza, Roseana Murray

16 03 2026
Ilustração de Becca Stadtlander

 

 

Com delicadeza

 

Roseana Murray

 

Com delicadeza

abrir as gavetas

que guardam

as palavras de seda.

Deixá-las sempre

ao alcance

de um sopro,

prontas para o vôo,

para o ouvido,

para a boca.

Palavras de seda

são como borboletas

douradas

quando pousam

no coração do outro.

 

 

Em:  Manual da delicadeza de A a Z. São Paulo: FTD, 2001.





Sobre a cultura ocidental, texto de Roger Scruton

14 03 2026

O livro de Kells, c. ano 800

Autoria: Monges celtas. Provavelmente na ilha de Iona (Escócia) e finalizado na Abadia de Kells, Irlanda.

340 fólios de pergaminho de vitela com desenhos complexos, letras decoradas, animais mitológicos e cenas bíblicas.

Biblioteca Trinity College, Dublin, Irlanda

 

 

 

 

 

“Eu suspeito que a humanidade tenha entrado frequentemente em períodos como o nosso, em que a disciplina do julgamento e a procura do valor intrínseco diminuíram ou desapareceram. Quando isso aconteceu no passado, não ficou, todavia, nenhum registro, pois uma sociedade sem cultura perde a memória e perde também o desejo de se imortalizar em monumentos duradouros. Muito em breve, a barbárie assume o controle e a sociedade é varrida da face da terra. O que é interessante na nossa situação é que temos os meios tecnológicos para sustentar a nossa sociedade para além do momento em que ela poderá perder todo o sentido interno do seu valor e, portanto, perder a capacidade de se sustentar a partir do seu próprio reservatório inerente de fé. Essa é uma situação nova, e nós deveríamos nos perguntar o que poderíamos fazer, em circunstâncias como essas, para garantir a sobrevivência da cultura. Aqueles monges irlandeses que mantiveram acesa a lâmpada do aprendizado durante a Idade das Trevas de nossa civilização tinham uma grande vantagem sobre nós – a saber, que não havia competição de idiotices barulhentas e amplificadas, que tudo ao seu redor era perigo e destruição, e que tão logo eles encontraram refúgio, a paz tranquilamente se apresentou a fim de guiar seus pensamentos, seus sentimentos e suas penas.”

 

Em: A cultura importa: fé e sentimento em um mundo sitiado, Roger Scruton, tradução de Sérgio Kalle, LVM Editora: 2024





Morangos, poema de Rui Pires Cabral

12 03 2026

Natureza morta com morangos

Pedro Alexandrino (Brasil, 1856 – 1942)

óleo sobre tela, 38 x 47 cm

MASP, São Paulo

 

 

Morangos

 

Rui Pires Cabral

 

No começo do amor, quando as cidades

nos eram desconhecidas, de que nos serviria

a certeza da morte se podíamos correr

de ponta a ponta a veia elétrica da noite

e acabar na praia a comer morangos

ao amanhecer? Diziam-nos que tínhamos

a vida inteira pela frente. Mas, amigos,

como pudemos pensar que seria assim

para sempre? Ou que a música e o desejo

nos conduziriam de estação em estação

até ao pleno futuro que julgávamos

merecer? Afinal, o futuro era isto.

Não estamos mais sábios, não temos

melhores razões. Na viagem necessária

para o escuro, o amor é um passageiro

ocasional e difícil. E a partir de certa altura

todas as cidades se parecem.

 

Rui Pires Cabral,  ‘Longe da Aldeia’

 





Expectativas frustradas, texto de Marcel Proust

11 03 2026

À beira-mar em Trouville, 1870

Claude Monet (França, 1840-1926)

óleo sobre tela, 48 x 74 cm

Wadsworth Atheneum Museum of Art, Hartford, Connecticut

 

 

 

Anoitecia e era preciso voltar; ia eu acompanhando Elstir até a sua residência, quando de repente, tal como surge Mefistófeles diante de Fausto, assomaram ao fundo da avenida — como simples objetivação irreal e diabólica do temperamento oposto ao meu, daquela vitalidade cruel e quase bárbara que faltava à minha fraqueza e ao meu excesso de dolorosa sensibilidade e de intelectualismo — alguns flocos dessa matéria impossível de confundir com qualquer outra, algumas espórades do grupo zoofítico de raparigas, as quais pareciam não me ver, mas na verdade deviam estar pronunciando irônicos juízos sobre a minha pessoa. Ao ver que era inevitável o encontro entre elas e nós, e pensando que Elstir me chamaria, voltei-me de costas, como faz o banhista para receber a onda; estaquei e, deixando que meu ilustre companheiro seguisse o seu caminho, deixei-me ficar para trás, afetando súbito interesse, a olhar a vitrina da loja de antiguidades que ali havia; agradou-me essa possibilidade de parecer que estava pensando em outra coisa diversa das tais moças; e já pressentia vagamente que quando Elstir me chamasse para apresentar-me a elas mostraria eu esse olhar interrogativo que revela não a surpresa, mas o desejo de fazer-se de surpreendido (e isso porque somos todos muito maus atores ou porque o próximo é sempre muito bom fisionomista) e talvez chegasse até a levar o dedo ao peito, como que dizendo: “É a mim que está chamando?”, para logo acorrer com a cabeça docilmente inclinada, muito obediente e dissimulando com fria atitude o incômodo que me causava o verme arrancado à contemplação de umas faianças antigas para que me apresentassem a umas pessoas que não me interessava conhecer. Enquanto isso, continuava a olhar a vitrina, à espera de que meu nome, lançado a gritos por Elstir, viesse ferir-me como uma bala esperada e inofensiva. A certeza de ser apresentado às moças teve como resultado não só fazer-me simular indiferença, mas senti-la realmente. O prazer de conhecê-las, como agora já era inevitável, comprimiu-se, reduziu-se, se, pareceu-me muito menor do que o de falar com Saint-Loup, jantar com a minha avó e fazer pelos arredores excursões que decerto lamentaria abandonar pelo convívio com pessoas que pouco deviam interessar-se pelos monumentos históricos. Além disso, o que diminuía o prazer que eu ia fruir não era só a iminência, senão também a incoerência de sua realização. Leis tão precisas como da hidrostática mantêm a superposição de imagens que formamos numa ordem fixa e que se transforma quando se aproxima o acontecimento. Elstir ia chamar-me. Mas não era da maneira como muitas vezes imaginei na praia ou em meu quarto que eu havia de conhecer as moças. O que ia suceder era outro acontecimento para o qual não estava preparado. Agora não reconhecia nem meu desejo nem seu objeto; quase sentia haver saído com Elstir. Mas, sobretudo, devia-se a contração daquele prazer que eu esperava à certeza de que não mo podiam tirar. E voltou a recuperar toda a sua dimensão quando, como em virtude de uma força elástica, não mais sofreu a pressão dessa certeza, no momento em que, resolvendo voltar a cabeça, vi que Elstir, parado a alguns passos dali, estava a despedir-se das moças.

 

 

Em: À sombra das raparigas em flor, Marcel Proust, tradução de Mário Quintana

 

 

NOTA: continuo com a leitura, em grupo, de Proust: Em busca do tempo perdido.  Estamos no segundo volume de sete: À sombra das raparigas em flor.  Logo chegaremos ao final desse volume. O grupo é pequeno, mas ao longo das semanas (uma vez por semana) fomos nos conhecendo melhor. A camaradagem logo se estabeleceu.  Acho que posso falar pelo grupo: Proust surpreende em muitos aspectos.  Aquele que sempre me surpreende são cenas como essa, das frustrações, dos erros de julgamento, que causam sorrisos e risos. O grupo riu muito quando passamos por aqui.

 

Proust não está nessa praia da Normandia, retratada por Monet.  Mas ele se encontra em balneário semelhante, à beira-mar.





Leitura em grupo

24 02 2026

 

 

Sempre comemoramos o final de uma leitura em grupo.  Esse é um projeto de Rose Nobre.  De muito sucesso. Somos em geral de 8 a 12 pessoas dependendo do livro.  As leituras são bem variadas.  Já cobrimos dois livros de Yuval Noah Harari: Sapiens e 21 lições para o século 21A dança do universo, de Marcelo Gleiser, História da riqueza no Brasil, Jorge Caldeira,  A ordem do tempo, de Carlo Rovelli entre outros. 

Nossa próxima leitura: Sociedade do Cansaço, Byung-Chul Han, vai ser boa!  Conheço outros livros do filósofo alemão.

 

 

 

 

Esse foi o primeiro livro que falava de arte e artistas plásticos ainda que no grupo haja quatro artistas. Foi divertido saber das rusgas, dos relacionamentos de amor e ódio, de competição entre pares de pintores.  Muito bom.  Recomendo. 





Trova da roubalheira

24 02 2026
Jornal até bandido lê! Ilustração de Walt Disney, Irmãos Metralha.

 

 

 

“Se um louco inventasse, um dia,
 
vacina “anticorrupção”,

alguém o condenaria:
 
crime de “contrainvenção”!”
 
 
(José Ouverney)




Leitura leve, gostosa, brasileira e “na moda”

23 02 2026
Grupo de leitura Papalivros no encontro de fevereiro, em Ipanema, RJ

 

 

A escritora cearense Socorro Acioli é autora do livro escolhido para leitura, no mês do Carnaval, pelo grupo Papalivros:  A Cabeça do Santo [Cia das Letras:2014].  Publicado há mais de uma década, tornou-se um fenômeno de popularidade nos últimos tempos. Influenciadores digitais e jornalistas mencionaram a obra com frequência e, aos poucos, o público endossou as recomendações tornando-o um best-seller.  Tenho afiliações com quatro grupos de leitura (cariocas e nacionais). Com essa escolha do Papalivros, vejo que todos quatro já leram a obra.  Socorro Acioli é uma escritora escolhida por Gabriel Garcia Marques para a oficina “Como contar um conto”, em 2006, em Cuba. Ela pode, então, se considerar não só herdeira do realismo mágico, à maneira de Gabo, mas também abençoada pelo feitiço de seu mentor. A cabeça do santo é resultado dessa experiência.

Um livro pequenino — 176 páginas — consegue encantar a gregos e troianos, ao descrever a saga de Samuel, um homem, que após a morte de sua mãe e a conselho dela, sai em busca do pai.  Nessa empreitada, precisando de abrigo depois de muito andar, ele encontra uma gruta, onde se esconde para passar a noite.  Qual não é sua surpresa ao descobrir, quando acorda, que o abrigo é a cabeça oca de um Santo Antônio, de proporções gigantescas, parte de uma escultura abandonada, um projeto sem sucesso da cidade vizinha, Candeia.  Sua surpresa é acentuada quando percebe que o local é lugar de peregrinação de mulheres à procura um companheiro, namorado, marido, enfim de um milagre do santo casamenteiro.  Escondido na cabeçona, Samuel ouve os causos relatados e as preces endereçadas ao santo.  Acaba interferindo à sua maneira no destino delas, graças a Francisco, um amigo que faz no local.

Fiel às tradições da literatura nordestina, situações de farsa e humor ecoam obras de Dias Gomes e Ariano Suassuna. Aqui, Socorro Acioli nos presenteia com uma mini fábula, enraizada nas tradições populares, na política dos lugares pequenos, nas crendices da vida cotidiana, na superstição. Osório, o prefeito de Candeia, cidade responsável pelo projeto desastroso da escultura monumental, é personagem que poderia ser encontrado em alguma obra de Dias Gomes, herdeiro, podemos dizer, de Odorico Paraguaçu, de O Bem-amado (1961). Dias Gomes também é sentido no humor cáustico com que Osório é representado. Candeia é uma cidade dividida entre misticismo e ganância, dualidade também encontrada nas obras do dramaturgo, conhecido por representar o conflito entre o sagrado e o profano.   

Samuel e Francisco por outro lado são ‘filhos’ de Ariano Suassuna, personagens que sobrevivem graças à  astúcia e  a algumas artimanhas. São sertanejos e bem representam o local em que a religião é cultura viva, em que milagres acontecem apesar de ou por causa de todas suas mazelas.  Isso é retratado num ritmo de cultura oral, em alguns lugares reminiscente da literatura de cordel, e pela fé mística e grandiosa, como acontece em O Auto da Compadecida (1955).

A cabeça do santo é obra ainda mais rica nas referências bíblico-religiosas de Samuel (do Velho Testamento), São Francisco e Santo Antônio, dois dos mais populares santos cultuados no Brasil, referências admitidas pela própria autora. Recomendo a leitura ainda que para meu gosto ela pudesse ter sido expandida, com mais causos, mais detalhes nas histórias contadas a Samuel. Achei o final, deus-ex-machina previsível e súbito, um tantinho à maneira Dias Gomes, um final dramático e retumbante, que resolve todos os problemas. Mas vale. É uma boa leitura para um fim de semana divertido. 





8ª leitura do ano: Esse cabelo, de Djaimilia Pereira de Almeida

20 02 2026

 

 

    No início do ano, li Sobre a Ficção, de Ricardo Viel — obra que resenhei em 7 de fevereiro. A publicação reúne entrevistas com dez autores contemporâneos da Península Ibérica e de países lusófonos: Espanha, Portugal, Brasil e Moçambique. Dos selecionados, apenas Djaimilia Pereira de Almeida me era desconhecida. Cativada por suas respostas, assim que terminei a leitura, adquiri o livro mencionado na entrevista: Esse Cabelo. Não houve arrependimento; pelo contrário, sinto a felicidade de uma grande descoberta e a certeza de que esta será apenas a primeira de muitas obras da autora em minha estante.

    Nascida em Angola, de pai português e mãe angolana, Djaimilia mudou-se para Portugal ainda criança, nos anos 80. Narrado em primeira pessoa, o livro transita entre a autobiografia, o ensaio e o romance curto. Trata-se, em essência, de um processo de autoconhecimento: a busca de Mila por sua identidade. Seu cabelo — cacheado, rebelde, “invencível” — é o fio condutor que evidencia as diferenças familiares e serve de porta de entrada para o racismo cotidiano. A relação com os fios marca eventos cruciais de sua formação, enquanto memórias familiares, lembranças de Lisboa e histórias da ascendência judia em Moçambique fazem o texto fluir com um caráter onírico. A narrativa poética, ritmada pela busca incessante pelo cabeleireiro ideal, transforma relatos fragmentados em um sonho lúcido.

Um exemplo:

Estando a tia Justina para aí virada, a visita era comemorada com um bolo inglês que ela fizera, impregnado do mesmo perfume que eu lhe sentia no pescoço ao cumprimentá-la à chegada — o perfume, aposto, das gavetas de sua casa. E então acompanhava-se o chá com o bolo, por entre suspiros dirigidos à sua oportunidade e sabor imutável: pouca coisa aliviava a sorte da consanguinidade como uma cereja cristalizada. Mastigar o miolo seco e maçudo dispensava-as por momentos da necessidade de fazer conversa. Eram cavalos do mesmo dono, vizinhos de estábulo, pouco mais que quaisquer outras duas almas tomadas ao acaso

    Embora seja um livro breve, com cerca de cem páginas, seu impacto é monumental. Recomendo a leitura; é uma experiência profundamente comovente.