Japão quer atrair 300 mil estudantes estrangeiros

31 07 2008
Crianças orientais, ilustração de DEMI.

Crianças orientais, ilustração de DEMI.

 

No dia 25/7 postei aqui no blogue algumas notas sobre imigração e emigração:

 

Hoje recebo notícias de que o Japão num esforço de melhorar a sua situação quanto ao crescimento negativo do país aprovou terça-feira um plano do governo para estudantes irem se especializar em aproximadamente 30 universidades.  A intenção final de tanta generosidade não será só a educação destes alunos, mas também facilitar a permanência deles no Japão após a graduação.  

 

São seis ministérios que juntam esforços: Justiça, Relações Exteriores, Cultura, Esporte, Educação e Ciência.  O objetivo é sair do patamar de 120.000 alunos estrangeiros que o país tem, adicionando a estes 300.000 mais. A idéia é que já em 2020 o Japão tenha 420.000 alunos estrangeiros.

 

Este me parece um passo muito inteligente para enfrentar o esvaziamento populacional.

 

1)      Podem atrair alunos de outras nacionalidades mas de origem nipônica.  Filhos, dos emigrantes que fugiram de um Japão com excesso populacional de cem anos atrás.  Estes descendentes de japoneses, [no Brasil, Peru e em outros países] acredita-se que teriam talvez uma maior chance de se adaptarem aos costumes orientais.

2)       Dando oportunidade a estudantes há a possibilidade, discreta, de atrair para o país os melhores qualificados, os melhores alunos, aqueles que provavelmente brilhariam em qualquer lugar do mundo e garantir sua permanência no país.  Isto tudo além da esperança de resolver o problema particular do povoamento da terra. Em outras palavras, é uma seleção inicial dos “cerébros”, uma pré-aprovação para a imigração definitiva. 

3)      Trazendo jovens na faixa etária de 18 a 30 anos, eles estarão garantindo que seus futuros imigrantes se estabeleçam no país numa faixa etária compatível com a reprodução.  Numa faixa etária em que podem contribuir ainda por muitos anos para o sistema de aposentadoria e assim manter aquela população de mais de 65 anos prevista para 40% em 2050.

4)      Garantindo a permanência destes estrangeiros já devidamente educados como qualquer japonês o seria, devidamente selecionados, o Japão também garante a viabilidade de muitas das empresas que se encontram em território nipônico e que já podem sentir que o gargalo populacional vai deixá-las sem mão de obra especializada.

 

Que o plano é elitista, não se pode negar.  Mas é muito inteligente.  Não muito diferente do que foi feito pelos Estado Unidos, Grã-Bretanha, França e demais países ocidentais que ao oferecerem por décadas e décadas boas condições de estudos para estudantes do mundo inteiro, puderam contar com uma renovação acadêmica constante assim como o “discreto” furto da inteligência alheia.  

 

Essa mesmo que VOS FALA.  Estudou fora,  formou-se numa carreira que não é regulamentada no Brasil, porque lá fora não existe isto de regulamentação.  Se existe a necessidade, existe a carreira.  E passou boa parte de sua vida produtiva produzindo para os outros, porque não havia quem quisesse esta produção no Brasil.  

 

Se continuarmos no caminho que temos trilhado até agora, sem dar prioridade à educação e ocasionalmente até mesmo nos vangloriando de termos chegado aonde chegamos sem grande necessidade de estudos, veremos muitos brasileiros indo em busca de novos caminhos lá fora, no Oriente.  Perpetuaremos a nossa condição de exportadores ora de “cérebros”, ora de mão de obra desqualificada.  Será este o nosso futuro?  Inevitavelmente?





Pensando sobre imigração e emigração *

25 07 2008

 

 

Neste ano em que comemoramos o centenário da chegada dos imigrantes japoneses no Brasil é interessante ver o que está acontecendo no Japão de hoje, em termos de crescimento populacional.  Para que isto não pareça só um caso do Japão vou primeiro mencionar cinco tendências demográficas mundiais, que não podemos deixar de reconhecer.  Elas certamente afetarão as nossas vidas, mesmo aqui no Brasil, nem que indiretamente.  Vale lembrar: estima-se que atualmente a população do nosso planeta esteja por volta de 6.200.000.000 (seis bilhões e duzentos milhões).

Monobloco em Copacabana, 2007.

Monobloco em Copacabana, 2007.

 

 

 

 

Cinco tendências demográficas mundiais.

 

A migração de povos de um continente para o outro só deve aumentar nos próximos 50 anos.   Há 5 tendências demográficas mundiais que colocarão em cheque todas as medidas contra e a favor da migração de certos povos para longe de suas terras natais, assim como, colocarão maior pressão numa educação de qualidade para qualquer família, estado ou país  que queira que seus cidadãos tenham a chance, a possibilidade de melhorarem relativamente de status social.  As pressões se farão sentir também no meio ambiente, na medicina mundial, na produção de alimentos. 

 

Vejamos estas tendências:

 

1 – Europa e Ásia envelhecem: Itália, Espanha e Japão, por exemplo, têm taxas de natalidade baixas.  Itália e Espanha: 1,3 crianças por mulher;  o Japão, 1,2 .   Isto é muito abaixo dos 2,1 filhos por mulher considerados necessários para a manutenção de qualquer população, sem crescimento.  Em 2050, ou seja, em 40 anos, a população destes países acima dos 60 anos representará 39% na Itália e na Espanha e 44 % no Japão.    Estas mudanças são muito sérias e afetarão tanto o sistema de saúde como o de aposentadoria nestes países.

 

2 – A África continua com crescimento populacional sem limites.  Mulheres que vivem em países pobres e mulheres que não receberam muita educação têm a tendência de ter maior número de filhos.   De acordo com projeções das Nações Unidas, a Etiópia por exemplo, crescerá muito até 2030 e a Uganda terá mais habitantes em 2040 do que toda a população da Alemanhade hoje.  A fome deve aparecer ainda mais violenta nestes países e no continente africano em geral.  O crescimento populacional desordenado está concentrado principalmente na Nigéria, Congo e Eritréia.  Além destes países, Burkina-Faso, Angola, Uganda, Somália, Libéria terão suas populações triplicadas até meados deste século, ou seja nos próximos 40 anos.  

 

3 – A AIDS acabará com 9% da população em idade de trabalho na região do Sub-Saara.  São 23 países africanos que devem perder entre 9 e 10% de suas populações em idade produtiva.  Infelizmente esta tragédia, é o único freio populacional efetivo nas populações africanas. [ World Population Prospects – The 2002 Revision, 2/ 2003]

 

4 – Faltam mulheres na Ásia.  Por uma preferência cultural por filhos homens, a China e a Índia, sofrerão ainda mais do que sofrem hoje com um desequilíbrio populacional extremamente preocupante: China: 18 homens para cada mulher.  Índia: 12 homens para cada mulher.   Em 2020, ou seja, daqui a 12 anos, haverá 30 milhões de homens em idade produtiva sem poderem se casar.  Na Ásia, os países cujas populações mais crescem são:  Índia, Paquistão, China, Indonésia.

 

5 – O sul emigra para o norte.  As populações mais pobres do norte e do sul da África migrarão para os países mais ricos, ao norte do Equador:  Estados Unidos e países da Europa serão seus alvos.   Note-se que a população hispânica nos EUA, se continuar a crescer nos níveis em que cresce hoje, deve representar 24% da população em 2050.

 

As conseqüências óbvias destes problemas são: maior pobreza – nível de vida baixando nestes países de grande crescimento populacional, maior índice de analfabetismo.  Faltará alimentos e faltará água.  Não haverá como manter um nível mínimo de saúde publica sem intervenção de fora.  Problemas ambientais, já em níveis perigosos só aumentarão. 

 

Veneza, Itália.  Praça deserta.  Foto Marilynn.

Veneza, Itália. Praça deserta. Foto Marilynn.

 

O curioso caso do Japão mostra o que os países com decréscimo populacional enfrentarão.   O declínio demográfico do Japão já estava previsto há tempos.   A curiosidade é que ele já é o país com a maior população acima de 65 anos: 20%.   Simultaneamente, tem a menor população jovem do mundo, só 14% de japoneses estão com idade abaixo de 15 anos.  Seu índice de reprodução é um dos mais baixos do  mundo: 1,3 por mulher em idade fértil.  Hoje com 127.700.000 de habitantes, espera-se que tenha 121.100.100 em 2025, ou seja uma diminuição de 8.000.000 em 17 anos.   Desde 2005 que o Japão tem mais mortes do que nascimentos.

 

O ministério da Saúde do Japão desde 2005 não deixa de alertar aos japoneses as drásticas conseqüências econômicas para o país destes números:  o crescimento econômico ficará parado; o peso das aposentadorias apoiado na população ativa causará uma baixa nos salários para poder financiar as aposentadorias.  

 

As causas destes números de esvaziamento populacional são muitas, mas entre elas estão as mulheres se casando cada vez mais tarde, as mulheres se recusando ao antigo modelo familiar de permanecer em casa sem o privilégio de uma carreira e o custo de uma família numerosa ser muito elevado alem de precários meios de apoio à guarda das crianças quando as mães trabalham fora de casa.  Outra curiosa conseqüência do esvaziamento populacional é o aumento de emprego para pessoas acima de 60 anos.  Há empresas como, por exemplo, a Mystar 60, que não emprega ninguém com menos de 60 anos de idade.

 

Há dois caminhos para o Japão e outros países com a Itália e a Espanha que provavelmente serão usados simultaneamente:  1) criarem uma melhor condição de apoio às mulheres que trabalham fora, para assim poderem aumentar de novo a população nativa. Esta é uma solução  2) abrir as portas para a imigração: esta solução seria a maneira mais rápida de contornar os problemas imediatos.  Esta solução, no entanto, nem sempre é bem-vinda.  Não necessariamente por preconceito.  Mas porque para que a Europa possa manter o nível de crescimento populacional em simples reposição, ou seja, 2,1 filhos por mulher, seria necessário que sua população fosse aumentada de pelo menos 500.000.000 de pessoas.  Ou seja, os nativos, os espanhóis, italianos, irlandeses e outros seriam minorias em seus próprios rincões.

 

Financial Times

Milhões de chineses parados na volta das férias. Foto: Financial Times

 

Será que ainda mais brasileiros estarão migrando para o Japão?  A emigração brasileira continuará e provavelmente aumentará.  Principalmente se não educarmos melhor os nossos cidadãos, se não providenciarmos meios de boa sustentabilidade de empregos.  Infelizmente, o que espera a maioria dos brasileiros lá fora, não só hoje, mas no futuro, são de fato os pequenos trabalhos, os trabalhos manuais, serviçais, de baixo conhecimento, de baixo nível intelectual.  Estaremos exportando, como muitos países da África e do Oriente mão de obra não qualificada.  Esta realidade não é muito atraente, ainda mais quando levamos em consideração que para mão de obra não qualificada, competimos com orientais, africanos e outros latino-americanos que trabalham e trabalharão felizes por muito menos dinheiro que nós.   Este é um problema sério a ser enfrentado hoje.  Não amanhã, ou no futuro.  Suas conseqüências são muito mais imediatas do que imaginamos.

 

* os dados mencionados aqui vieram das ONU, da pesquisa feita pela revista americana, Foreign Policy, em setembro de 2007 e  pelo IBGE.   Todos dados de livre acesso online.





O canto do peixe-balão: sedução a meia voz

22 07 2008

Recentemente a Associated Press, noticiou que uma pesquisa financiada pelas National Science Foundation e pelos National  Institutes of Health nos EUA,  descobriu que “cantar ao pé do ouvido” é um comportamento de conquista sexual usado não só por seres humanos, batráquios e mamíferos. Surpreendentemente, os peixes podem, agora, ser incluídos nesta lista.  Tudo indica que os sons que os peixes produzem não cheguem a ser um canto tal como associamos aos dos pássaros, ou até mesmo aos assobios das baleias ou  ao coaxar dos sapos.   Parece mais um murmúrio musical, um “cantar de boca fechada” registrado entre os peixes-balão na hora de atrair o sexo oposto.

 

A equipe do neurobiólogo Andrew H. Bass, da Universidade de Cornell, se concentrou no estudo dos peixes-balão.  Observaram o animal desde larva por já se saberem de antemão que eles produziam mais de um som.  Mas o Professor Bass, rapidamente explica que não se trata de um uso mais sofisticado, refinado de um cérebro de peixe.  A melodia, ou melhor, o murmúrio emitido pelos peixes-balão está longe das melodias dos pássaros ou dos sons produzidos por mamíferos.  Mesmo assim, trata-se de um sistema complexo de neurônios engajado na produção destes sons, um sistema antigo, que remonta às centenas de milhões de anos em que a evolução da vida no planeta, como a conhecemos, se formou.

 

São dois os sons produzidos pelo peixe-balão:

 

1) um murmúrio, como se fosse o zumbir de uma abelha.  Este é o canto Donjuanesco que atrai a fêmea para o macho. 

 

2) o outro é um som ameaçador, usado quando o peixe sente a necessidade de proteger seu território de reprodução.  

 

A localização dos nervos vocais descritos na pesquisa corresponde a sistemas semelhantes encontrados nos sapos, pássaros e mamíferos.   Mas muito mais pesquisas como esta ainda serão necessárias para podermos ter uma melhor idéia da evolução da comunicação entre os animais.





A mágica do canto dos pássaros desvendada

22 07 2008
Canarinho.  MW Editora & Ilustrações

Canarinho. MW Editora & Ilustrações

A grande variedade de notas musicais registradas pelos pássaros nos cantos matinais tem sido através dos séculos motivo de inspiração para músicos, poetas, artistas e qualquer indivíduo que tenha o prazer de ainda poder ouvir o canto dos pássaros onde mora.  

 

Agora, um estudo publicado na revista virtual Public Library Science em conjunto com a Universidade da Dinamarca do Sul, parece ter desmascarado o mistério envolvendo o canto matinal dos pardais europeus:  eles têm, em comum com as cobras naja, com as pombas e muitos peixes, músculos vocais extremamente rápidos.  A rapidez de vibrações musculares, causa um grande leque de sons, era considerada bastante rara,  mas depois destes últimos estudos observando o canto dos pássaros,  descobriu-se que esta habilidade é muito mais comum, e talvez cubra um número muito maior de espécies, do que antes fora imaginado.  

 

Para um pardal, ou um pássaro europeu comum, a média de 250 vezes por segundo de abertura e fechamento das cordas vocais é o necessário para produzir as melodias  maravilhosas que ouvimos.   Esta variedade de contrações musculares permite que cada pássaro tenha um repertório próprio para sua espécie, destinado a cada situação.  Com este tipo refinamento vocal os pássaros controlam com precisão a voz, o volume e a vibração necessários para o sucesso de sua sobrevivência.





Diferenças entre cérebros femininos e masculinos

21 07 2008
Adão e Eva Iluminura, Manuscrito Hunterian 209, séc. XII Universidade de Glascow, Escócia.

Adão e Eva Iluminura, Manuscrito Hunterian 209, séc. XII Universidade de Glascow, Escócia.

 

No jornal britânico The Independent do dia 18 deste mês, encontrei um artigo de Michael McCarthy, na seção de ciências, que achei bastante interessante.  Tudo indica que os cérebros dos homens e das mulheres apresentam maiores diferenças do que até hoje se assumia.

 

Sou filha de um cientista e me lembro de meu pai recitando as diferenças entre os cérebros masculinos e femininos, em termos de peso e de tamanho.  Tal critério foi, por muitos anos, por gerações mesmo, usado para justificar idéias sociais absurdas: porque não se precisava dar atenção à educação das mulheres (com um cérebro menor reteriam menos informação),  justificando, em muito, a até então considerada superioridade masculina.  Isto tornou este tópico de especial interesse para mim, que apesar de não ser cientista, sempre mantive os olhos e ouvidos bem abertos para o assunto.  

 

O resultado da pesquisa mais recente sobre as diferenças dos cérebros entre homens e mulheres é que na verdade eles parecem ser dois tipos diferentes de cérebros, ambos pertencentes à raça humana.  O que indica esta diferenciação são três pontos nunca antes percebidos em conjunto: 1) a “planta baixa”, ou seja, o mapeamento dos cérebros dos seres humanos é diferente de acordo com o sexo; 2) os circuitos que conectam partes de cada cérebro também apresentam diferenças essenciais; 3) os agentes químicos que transmitem as mensagens dentro do cérebro também são diferenciados.  Estas três grandes diferenças justificam o que antes se considerava serem diferenças causadas por hormônios sexuais, pressões sociais e diversas peculiaridades anatômicas.   Mas, anteriormente, não havia uma maneira de se saber por que, por exemplo, problemas de saúde mental são diferenciados de acordo com o sexo da pessoa, assim como por que certos remédios são mais eficazes nos homens do que nas mulheres?

 

As diferenças encontradas se concentram, até o momento, no lóbulo frontal, que é considerado o local onde decisões são tomadas e problemas resolvidos.   Nas mulheres esta região é bem maior do que nos homens.  As emoções, por tanto tempo associadas ao sexo feminino, realmente têm razão de ser, pois estão fomentadas, reconhecidas e localizadas no córtex límbico — que é também  maior nas mulheres do que nos homens.   Outra grande diferenciação aparece no hipocampo – o local responsável pela memória recente assim como navegação espacial. 

 

Nos homens são maiores: o córtex parietal — responsável pela percepção do espaço; e a amídala — local determinante do comportamento emocional, sexual e social do homem.  Assim tudo indica que há uma paridade entre diferença de tamanho e diferença de organização funcional.

 

Estas diferenças ajudariam a explicar alguns dos quebra-cabeças da ciência: 1) por que mulheres conseguem agüentar dores por longos períodos de tempo 2) por que mulheres e homens diferem nas reações ao ópio e seus derivados.  Mulheres são mais sensíveis ao ópio com analgésico ao passo que homens são mais suscetíveis aos analgésicos baseados na morfina. 

 

Como até hoje todos os remédios e todos os estudos sobre o cérebro humano têm sido baseados simplesmente no cérebro masculino há chance de que muitas novidades ainda estejam para serem descobertas e divulgadas, quando os cérebros femininos forem tão estudados quanto os masculinos.





Correspondência de Fernando Pessoa vai ser leiloada

17 07 2008

 

Num artigo publicado ontem, 15/7/2008, no New York Times, por Michael Kimmelman, soube da gritaria, da confusão lusitana ao redor da venda da correspondência de Fernando Pessoa ao escritor britânico Aleister Crowley.  Esta correspondência do poeta português com o místico escritor britânico foi iniciada em 1930.  Sua venda, negociada pelos herdeiros de Fernando Pessoa, está marcada para o período de alta visibilidade na Europa, o outono, que é a estação de abertura dos eventos culturais do ano e será feita em leilão público.  A confusão é gerada pela reclamação de alguns da saída do país de documentos de tal importância.

 

Mas, é justamente de vendas como esta, que a Biblioteca Nacional de Portugal pode se beneficiar, como já o fez no ano passado quando arrematou, para seu acervo, cadernos de notas de Fernando Pessoa.  Como Kimmelman em seu artigo lembra, a maior parte da obra de Pessoa está em manuscritos, nunca tendo sido publicada — diz-se que chegam aos 30.000, ainda guardados em baús na última moradia do escritor. 

 

A decisão dos herdeiros de venderem pelo maior e melhor preço estes documentos é volátil.  Recentemente o ministro da cultura de Portugal, José Antonio Pinto Ribeiro, lembrou, numa conferência aberta ao público na Casa Fernando Pessoa, que o estado português tem o poder de manter dentro de seu território qualquer objeto (e os manuscritos se enquadram aqui) que achar ser necessário para o patrimônio nacional.  A mensagem, bem entendida por Manuela Nogueira, a sobrinha de Fernando Pessoa, que se encontrava na audiência, era de que ela não se sentisse muito confiante, porque a qualquer momento o governo poderia decidir que tais documentos eram do interesse cultural do país e não só proibir sua venda, como também tombar tais documentos, e nada dar aos herdeiros em troca. 

 

Manuela Nogueira já estava preparada para a luta.  Já havia fotografado tudo que pretendia vender de modo que cópias estarão sempre abertas para estudiosos, não importando o destino final dos originais.  Além do que, um contrato já havia sido assinado por ela e pela casa de leilões.

 

O artigo de Michael Kimmelman continua então com considerações sobre Pessoa e sobre a alma portuguesa, inclusive opiniões sobre a última, com uma breve entrevista sublinhando as opiniões de Inês Pedrosa, a escritora que esteve recentemente aqui em Paraty, na FLIP [Feira Literária Internacional de Paraty] deste ano.  O artigo revela também algumas opiniões de Jerônimo Pizarro diretor da Casa Fernando Pessoa, em Lisboa.  Mas, o assunto pelo qual tenho interesse aqui é diferente daquele enfatizado pelo New York Times, que se mostrou mais interessado em mostrar a forma peculiar, culturalmente falando, de pensar dos portugueses – um artigo até bastante irônico. O que me interessa é ponderar sobre os diversos direitos envolvidos neste caso, para que possamos, no futuro, pensar em como resolver situações semelhantes que certamente ocorrerão na tentativa de preservação de uma cultura brasileira:

 

1° – Tanto no Brasil como em Portugal seria necessário tornar mais claras as regras estabelecidas para dar prioridade ao que deve ou não ser preservado dentro do país.

 

2° – Acredito que os herdeiros têm todo o direito de vender os documentos.  Muitos autores, com herdeiros, fazem projetos de vida contando com esta possibilidade de renda para as gerações futuras, assim como os grandes donos de terras o fazem.

 

3° – Também acredito que o governo tem todo o direito de comprar os documentos.  Se são de tamanha importância como se diz, tenho certeza que qualquer governo acharia os meios de comprá-los no leilão, ou seja ao valor estabelecido pelo mercado.

 

4° – Onde há vontade há um meio.  O governo pode se juntar a diversas ONGs culturais para comprar os documentos e mantê-los na Biblioteca Nacional ou em alguma outra instituição pública de acesso livre aos estudiosos.

 

5° – Nada impede que um grupo de intelectuais e outros interessados, que hoje choram e gritam lamentando a perda física dos documentos, não se cotizem para comprá-los e depois doá-los ao país.  Acho que as pessoas têm que aprender a colocar o dinheiro onde insistem ser um bom investimento, quer seja cultural ou econômico.

 

6° – Não há nada mais injusto do que o governo proibir alguém de vender algum objeto ou documento por o haver declarado Patrimônio Nacional, tombá-lo e não indenizar o atual dono do patrimônio ao preço de mercado.

 

7° – Se nenhuma destas possibilidades aparecerem, por que os documentos não podem sair do país e serem velados por uma outra instituição de responsabilidade social como seria o caso de uma biblioteca especializada em manuscritos de grandes autores?

 

8° – Último, estive vendo, no outro dia que a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro é a 7ª maior biblioteca do mundo.  ALÔ !!!!  Diretores da BN, está na hora de aumentarmos o nosso patrimônio!  Tenho certeza de que Portugal preferiria que nós  brasileiros – da mesma pátria, porque afinal nossa língua é nossa pátria – fossemos os guardiões destes documentos.  Melhor do que qualquer outro país que se interessar possa, não é mesmo?





Fethullah Gülen – quem é o intelectual n° 1 do mundo?

16 07 2008
Fethulah Gülen

Fethulah Gülen

Este é o primeiro da série de perfis das pessoas votadas como os maiores pensadores do mundo de hoje em pesquisa feita pelas revistas Prospect da Inglaterra e Foreign Policy dos EUA no primeiro semestre deste ano. 

O primeiro colocado foi o filósofo e líder religioso Fethullah Gülen. 

 Fethullah Gülen nasceu na Turquia. É um líder islamita que desde 1999 mora no estado da Pensilvânia, nos EUA, onde sua permanência até meados deste ano poderia ter sido considerada como um asilo político, já que, até então, encontrava-se acusado pelo Tribunal de Segurança da Turquia, por supostamente estabelecer uma organização cujo objetivo seria corromper a estrutura secular do governo e estabelecer uma sólida base corânica no país.  Mas, no dia 24 de junho de 2008, a Suprema Corte de Apelações rejeitou a objeção da Procuradoria Geral da Turquia à absolvição do intelectual.  Assim, absolvido, Fetullah Gülen poderá voltar à Turquia e ser recepcionado por seus muitos seguidores não só para comemorar a decisão da Suprema Corte, mas também a votação na pesquisa mencionada acima.

Não é de hoje que Gülen se tornou uma das mais influentes mentes muçulmanas no mundo, com milhões de seguidores, não só na sua terra natal, como em todos os países muçulmanos da Ásia Central à Indochina; da Indonésia à África.   Suas posições que levaram ao chamado Movimento Gülen, são baseadas em três dogmas: a advocacia da tolerância; a crença no diálogo e a procura sistemática da reconciliação entre os povos.  Sua incessante requisição para diálogo, tem-se tornado ainda mais urgente à medida que as comunicações internacionais se ampliam e o mundo torna-se a grande aldeia prevista pelo filósofo canadense Marshall McLuhan.   De acordo com Gülen os muçulmanos não podem, nem devem, construir uma identidade baseada em qualquer valor destrutivo, como o conflito e a confrontação.  Estes não estariam de acordo com os valores humanos e universais do Islã.

  

 
 

 

Freqüentemente mal compreendido, este movimento não se considera um movimento político ou ideológico.  Trabalha principalmente na ação social, próxima da filosofia sufi, e, como tal, é bastante diferente de todos os outros movimentos islâmicos.  Muito moderno, não faz parte de nenhuma ordem religiosa — numa definição, mais restrita, mais histórica da palavra — não é uma fraternidade e nem mesmo uma ordem sufi (uma tarica).  É um movimento que demonstra uma capacidade imensa de organização e um dinamismo em geral não associados ao Islã.  Estas características já germinaram respostas entusiasmadas no campo cultural e social.  Tolerância e relações amistosas entre diferentes comunidades são a demonstração, para muitos, de que o movimento Gülen pode ter sucesso.   Pregando a abnegação e o altruísmo, que na visão sufi de Gülen, fazem a essência da religião muçulmana, sua filosofia prega idéias bastante democráticas, considerando que os povos devem escolher seus governantes, ao invés de serem governados por uma autoridade superior.  Para Gülen, o indivíduo tem prioridade sobre a comunidade e cada ser humano deve ser livre para escolher seu próprio estilo de vida.

 

 

 

Mas este individualismo não é para ser levado a extremos.  O ser humano tem melhor qualidade de vida no seio de uma sociedade e para isto precisa adaptar seus desejos e sua liberdade aos critérios da vida social do grupo a que pertence.  Então aquele que quiser reformar o mundo deve primeiramente olhar para si próprio e se reformar, se remodelar.  É seu dever mostrar aos outros o caminho para um mundo melhor.

Rodopio Dervixe, de Maria Taurus, Unesco

Rodopio Dervixe, de Maria Taurus, Unesco

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Gülen diz que um dos problemas de se falar, hoje em dia, em cultura islâmica, vem da associação que muitos fazem do Islã a um sistema político. Quem vê o Islã como um sistema político, é quem precisa admitir que o que o leva a agir é uma raiva pessoal, até social, uma hostilidade, incompatível com o verdadeiro Islã.  Porque esta é uma religião que tem o ardor da verdadeira crença, uma forte essência espiritual e valores morais profundamente enraizados.  Estas qualidades que dão aos muçulmanos grande retidão de caráter permitem que eles possam absorver a supremacia científica, tecnológica, econômica e militar do ocidente, sem que estas os corrompam. O Islã, ele defende, trata da alma das pessoas, do que é sentida por dentro, como conseqüência, as vantagens materiais desenvolvidas pelo ocidente não poderiam corromper a verdadeira alma muçulmana.   Mas, alguns muçulmanos e políticos ao invés de verem o Islã como uma religião, fazem dele uma ideologia política, sociológica e econômica.  Esquecendo-se de que o muçulmano é aquele protege os outros contra o mal; de que é o verdadeiro representante da paz e da segurança. 

Por mais de 1400 anos o ocidente e os muçulmanos se combatem.  Agora, nesta aldeia global, é necessário que estes dois lados se entendam.  E que aceitem que o ocidente não conseguirá eliminar o Islã, assim como o Islã não conseguirá dominar o ocidente.   Ambos terão que fazer concessões.

 

 

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NOTA: O nome de Fethullah Gülen, também pode aparecer com dois “ll” como em Güllen.

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Diário de meu avô, Itapetininga, 10/7/1932

10 07 2008

 

Uma historiadora da arte, como eu, é como diz o nome, primeiro uma historiadora.  Assim, depois que minha mãe faleceu, fui eu quem ficou com o diário de meu avô materno, com algumas entradas interessantes sobre a revolução de 1932.

 

Naquela época,  meu avô morava em Itapetininga, no estado de São Paulo.  Era diretor  dos Correios e Telégrafos da cidade e de acordo com minha mãe, que morou lá até os onze anos de idade, moravam na própria casa dos Correios: um sobrado em que embaixo ficava a agência e a casa deles em cima.  Vovô era um advogado formado pela Universidade do Brasil e em 1932 já trabalhava há alguns anos nos Correios e Telégrafos.  Tanto que suas três filhas, cujas idades se ajuntam no período de 4 anos, de 1925 a 1928, nasceram em cidades e estados diferentes do Brasil.  A primeira, minha mãe, Yonne, nasceu no Rio de Janeiro, sua irmã do meio, Yedda, nasceu em Itararé em São Paulo e a caçula, Neyde, nasceu em Araxá, MG.  E em 1932, meus avós se encontravam em Itapetininga. 

 

Não é surpresa meu avô ter feito um diário.  Era um homem de letras.  Mais tarde, nos anos 50 já estabelecido há anos no Rio de Janeiro, foi colunista semanal de um vespertino carioca.

 

Como sempre tive interesse na história do Brasil, fiquei muito emocionada ao encontrar passagens no seu diário que refletem a revolução de 1932.   No dia 9 de julho, propriamente dito, não há nenhuma anotação.   Mas no dia seguinte:

 

10 de julho 932

 

Rebentou ontem em São Paulo uma revolução com caráter constitucionalista.  Este movimento já hoje se alastrou por todo o Estado de São Paulo… Fala-se que São Paulo pegou em armas para restaurar o império da Lei no país.  Analisando-se este acontecimento sem paixão nem parti pris parece ser pequeno o móvel da revolução, porque já o governo federal havia marcado o prazo para a constituinte. 

 

Meu avô chamava-se Gessner Pompílio Pompêo de Barros (MT – 1896 – RJ 1960)

 

 

Esta é a minha pequena homenagem aqueles que lutaram na Revolução de 32.

10 de julho de 1932, página do diário de Gessner Pomp�lio Pompêo de Barros, Itapetininga, SP

10 de julho de 1932, página do diário de Gessner Pompílio Pompêo de Barros, Itapetininga, SP





O cachorrinho REBELDE, pivô de protestos extremistas?

7 07 2008

Hoje passei um pouquinho de tempo procurando informações sobre a população muçulmana no Brasil.  É difícil achar números concretos.  De acordo com o governo brasileiro, o censo de 2000 encontrou 27.239 seguidores de Alá.   Para os muçulmanos brasileiros estes números são muito baixos, muito aquém do 1.500.000 [um milhão e meio] de muçulmanos, mantido pela Federação Islâmica Brasileira.  
Ai que sono!

Ai que sono!

 

Mas de qualquer forma, com a população brasileira em volta dos 200.000.000  [duzentos milhões]  a proporção de muçulmanos no Brasil não chega a 1%.  Isto nos deixa bastante acomodados quando vemos tumultos na Europa entre muçulmanos e não-muçulmanos, quer seja na Alemanha, Rússia, França ou Inglaterra.  Por temperamento nós brasileiros somos bastante acomodados.  E não esquentamos muito nossas cabeças com diferenças de crença.  Todo mundo aqui é da PAZ.  Mas acredito que temos que nos conscientizar sobre alguns problemas que andam pululando na Europa e que levam a atitudes difíceis de entender.  

 

Este preâmbulo é simplesmente para colocar em contexto o porquê da minha atenção a um caso pequenino na Escócia que manteve os jornais britânicos com repetidas manchetes, nesta primeira semana de julho.  À primeira vista, tudo parece se desenvolver numa realidade paralela.  Se não, vejamos:

 

A polícia da cidade de Dundee na Escócia queria popularizar um novo número de telefone para casos que não fossem de emergência.   Mandou imprimir um cartão postal, reproduzido aqui abaixo, em que um cachorrinho de seis meses de idade, um filhote de pastor alemão, batizado de REBELDE numa visita que a polícia levou o mascote à uma escola local para as crianças escolherem seu nome,  aparece sentado sobre um quepe policial, ao  lado de um bem tradicional telefone amarelo.  Este postal foi  mandado pelos Correios para todas as residências da cidade.  REBELDE imediatamente se tornou um líder de atenção no site da polícia na internet.  A cidade de   Dundee, quarta maior cidade da Escócia, não é muito grande.  Tem uma população de aproximadamente 150.000 pessoas dentro dos limites da cidade e mais 380.000 no condado de Tayside. 

 

 

Cartão postal da Pol�cia de Tayside, Escócia.

Cartão postal da Polícia de Tayside, Escócia.

 

Qual não foi a surpresa da polícia de Tayside ao se saber o centro de uma grande controvérsia por causa deste postal.  Os muçulmanos de Dundee, estão para a população local mais ou menos na mesma proporção que os cidadãos brasileiros seguidores de Alá estão para a população brasileira não islâmica.  Ou seja, aproximadamente 7.500 pessoas ou 0,5% da população local.  Eles podem ser uma minoria mas se formos seguir o que os jornais nos contam conseguiram fazer muito barulho, rejeitando o cartão postal anunciando o novo telefone.  No final da semana, a polícia de Dundee se retratou publicamente perante a população.

 

Antes de se pensar em: por quê?  É importante lembrar em que país isto acontece.  Em que canto do mundo há esta revolta contra a imagem de um cachorrinho?  Onde mesmo este evento está sendo levado tão a sério?   A Escócia.

 

Cachorrinho Feliz!

Cachorrinho Feliz!

 

 

 

 

Já morei num país de maioria muçulmana.  Confesso, no entanto, que minha estadia na Argélia, não me ensinou que cachorros são animais impuros e nunca tive a sensação ou a indicação de que os muçulmanos que conheci detestavam cachorros.  E nem que  a imagem deles não poderia entrar em suas casas.   Estou surpresa.   Muito surpresa!  Mas, reconheço que são muitas as proibições corânicas e, mais importante ainda,  que nem todos os muçulmanos são iguais.  Para citar um exemplo: a família saudita Wahabi tem criação dos cachorros Saluki ou Galgo Persa, que não só estão entre os mais antigos cachorros do mundo — a raça parece ter aproximadamente 7.000 anos — mas há 2.500 anos fazem parte da vida diária dos beduínos, que também o conhecem como uma “dádiva de Alá”.

 

Ao que tudo indica a consideração de que cachorros são impuros é uma novidade para os jornais britânicos que sem mencionarem em maior detalhe as restrições aos animais impostas pelo Corão, acreditam que tanto os muçulmanos Suni quanto os Xiita consideram o cachorro um animal impuro e obedecem cegamente às seguintes regras:

 

 a)      Um cão pode ser usado para a caça.  É importante lembrar que para os muçulmanos a caça só é válida para ser consumida.  A caça pelo prazer da caça não é permitida pelo Corão assim como não é permitido matar, abusar ou retirar qualquer animal de seu habitat. 

 

b)       Um cão pode ser treinado como cão-guia.  Uma pessoa cega,  por exemplo, depende de um cachorro para a sobrevivência.  É recomendado que o animal durma fora de casa.

 

c)      Um cão pode ser usado para serviços policiais.

 

d)     Um cão pode ser usado como cão-guarda, protetor de casa e propriedade.

 

e)      Um cão pode ser usado por pastores para manter o gado restrito.

 

 Mas um cão não pode ser um animal de estimação, porque não é um animal limpo.  Esta restrição é baseada no fato de cães serem animais que se lambem, que colocam suas bocas em qualquer lugar.  Porque a maior proibição está ligada à saliva destes animais.

 

No Corão, Maomé foi explicito quanto à proibição de contato com a saliva dos cães.  Caso um muçulmano venha a ter contato com esta saliva, é importante que o lugar do corpo afetado seja lavado sete vezes, a primeira das quais deve ser com areia ou terra.  Nos dias de hoje é possível substituir a primeira lavagem por sabão antibactericida.  Ou seja, não se pode manter um cãozinho dentro de casa como um animal de estimação.   Mas ainda há um elemento de irrealidade nesta confusão toda, pelo menos na repercussão nos jornais.

 

Não me cabe debater ou interpretar leis religiosas de quem quer que seja.   Mas com as restrições acima mencionadas – que reconheço estarem simplificadas – fica a dúvida: o que queria esta população muçulmana na Grã-Bretanha?  O que esperava atingir?  Por que fazer este protesto? 

 

Os muçulmanos na Grã-Bretanha são em grande parte imigrantes das antigas colônias britânicas.  Estas famílias poderiam até ser recém-chegadas – o que não é o caso —  mas, já saberiam as diretrizes culturais da Escócia antes de se estabelecerem lá.  Sabem que por lá o cachorro é considerado “o melhor amigo do homem”.  Seria muita ingenuidade imaginar que estivessem tentando mudar a sociedade em que vivem.  Ou, ainda mais mirabolante, convertê-la ao islamismo. 

 

Alguns comentaristas britânicos acreditam que é simplesmente uma demonstração de poder de uma minoria que se diz cada vez mais sem voz, sem presença na sociedade.  Sendo constantemente apontada como suspeita de provável crime de terrorismo só por seguir a religião de Maomé.   Mas a maioria dos muçulmanos em Dundee é de comerciantes, donos de pequenos negócios, vindos do Paquistão e de Bengladesh.  Estes povos são conhecidos por não gostarem de cachorros.  Até certo ponto têm justa causa, dadas as condições sanitárias existentes no interior destes países.  

 

Então temos que considerar se este noticiário não faz parte do estado emocional do povo britânico que parece encontrar em qualquer imigrante o perigo do terrorismo.  Há também a necessidade que cada cidadão parece sentir de dar a sua contribuição para a solução do terrorismo no país e no mundo.  Isto tudo adicionado a um verão sem grandes eventos e à necessidade de manchetes que vendam jornais: temos as condições ideais para súbito histerismo cultural.  

 

Porque, à medida que lemos o noticiário, tudo o que parece ter sido feito foi a simples recusa dos comerciantes muçulmanos de colocarem os cartões avisando do novo número da polícia à mostra para sua clientela.  E daí, que eles se recusem a mostrar o postal com o cachorrinho?  Qual é o problema?  Como diz Paul Jackson no seu blogue BLOVIATOR, estes comerciantes são donos de seus armazéns, podem colocar ou não nas paredes o que quiserem.  

 

Cachorrinho faminto.  Ilustração de Paula Becker.

Cachorrinho faminto. Ilustração de Paula Becker.

 

 

 

 

A polícia por sua vez já pediu desculpas, o que provavelmente não teria feito caso os jornais não tivessem aumentado fora de proporções o “ultraje” muçulmano.

 

Na verdade há noticias de que muitos muçulmanos de Dundee só ficaram sabendo da rejeição ao postal da polícia, através dos jornais.  E estão tão chocados com este caso quanto outros cidadãos britânicos não-muçulmanos.  Então, por que exagerar a importância do protesto dos poucos muçulmanos que se recusaram a expor a foto de REBELDE aos seus clientes?

 

A conseqüência desta semana de disparates sobre o cãozinho REBELDE será maior distanciamento dos muçulmanos.  Suas crianças certamente enfrentarão problemas nas escolas publicas.  Mais vizinhos desconfiarão de seus vizinhos com sotaques estrangeiros.  A imprensa só conseguiu exacerbar a polarização racial e religiosa na Escócia.  Todos perdem.