Ora (direis) ouvir estrêlas? — Astrônomos gravam sons das estrelas

26 10 2008
Lua Cheia, Arte digital de TENINI

Lua Cheia, Ilustração, arte digital de TENINI

 

Cientistas gravaram o som de três estrelas semelhantes ao Sol usando o telescópio francês Corot.  Segundo os pesquisadores, a gravação dos sons permitiu que se conseguisse captar pela primeira vez informações sobre processos que acontecem dentro das estrelas.

 

A missão do telescópio francês Corot começada em dezembro do ano passado tem como centro o primeiro telescópio capaz de encontrar planetas de pedras pequenos — só umas poucas vezes menores que a Terra — e que tenham órbita em torno de um sol semelhante ao nosso sol.  Este telescópio, que não mede mais do que 35cm, consegue registrar uma pequena diminuição de luz toda vez que uma estrela gira em volta de seu sol.

 

Os sons captados pelos cientistas através do Corot revelam que as estrelas têm uma “pulsação” regular. Também é possível perceber que o som de cada uma das estrelas é levemente diferente das demais. Isso acontece porque o som das estrelas depende da idade, tamanho e composição química de cada um dos astros. A técnica de sismologia estelar, usada pelos cientistas nesta pesquisa, está tornando-se mais comum entre astrônomos, porque o som permite que se tenha uma idéia das atividades dentro das estrelas.

 

De acordo com o professor Eric Michel, do Observatório de Paris, a técnica já permitiu que pesquisadores tenham mais conhecimento sobre as estrelas.  Os sons mais interessantes vieram das estrelas – HD 49933, HD 181420 e um grupo conhecido com Grupo Globular  que são aproximadamente 1, 2  a 1, 4 vezes  maiores que o nosso sol e estão de 100 a 200 anos luz da Terra.

 

“Esta é uma forma completamente nova de se olhar para as estrelas, quando comparamos com o que estava disponível nos últimos 50 anos.  É muito animador”, diz Michel.  O professor descobriu que a pulsação das estrelas é muito parecida com o que os cientistas imaginavam, mas há uma pequena variação. Essa variação pode indicar que os astrônomos ainda precisam refinar suas teorias sobre evolução estelar.

 

Agora o estudo dos cientistas se voltará para as gravações já feitas.  A intenção é verem se conseguem entender o que acontece dentro destas estrelas.  Este estudo faz parte de um campo de estudos chamado Sismologia Estelar.    As oscilações entre estrelas, que são causadas pela fusão nuclear de seus interiores, dão pistas sobre o processo de radiação solar. 

 

A radiação solar é um dos fatores que contribui para a mudanças de temperatura da Terra.  Os cientistas estão com a esperança de que, ao compararem estes sons registrados pelo Corot,  poderão descobrir mais sobre a mudanças naturais do clima na Terra.

 

Os pesquisadores publicaram os resultados da pesquisa na revista científica Science.

 

Para mais informações, clique nos portais abaixo:

TERRA  

BBC     — aqui você consegue ouvir duas estrelas separadamente, um grupo e o sol.

THE TELEGRAPH

 

Poema de Olavo Bilac:

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo

Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,

Que, para ouvi-las, muitas vezes desperto

E abro as janelas, pálido de espanto…

 

E conversamos toda a noite, enquanto

A via-láctea, como um pálio aberto,

Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,

Inda as procuro pelo céu deserto.

 

Direis agora: “Tresloucado amigo!

Que conversas com elas? Que sentido

Tem o que dizem, quando estão contigo?”

 

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!

Pois só quem ama pode ter ouvido

Capaz de ouvir e de entender estrelas.”

 





Imagem de Leitura — Mary Curtis

25 10 2008

Menina com laço de fita s/d

Mary Curtis (EUA) 1848-1931)

 

Mary Curtis Richardson — nasceu em Nova York em 1848, e foi para a Caifórnia em  1850, para onde seu pai tinha ido a procura de ouro.  Seu pai era um gravador e ensinou sua arte à filha.  Em 1874 ele abre uma Escola de Design em São Francisco, onde sua filha é uma das primeiras alunas.  Mary Curtis é também conhecida como a Mary Cassat da costa oeste, lembrada principalmente por seus trabalhos figurativos de um grande número de crianças e mães com bebes.  Morreu na Califórnia em 1931.

 





Os 5 compositores clássicos de maior visão, BBC

25 10 2008
Os músicos de Bremen

Ilustração: Os músicos de Bremen

 

Uma das características mais interessantes dos ingleses é que eles mais do que qualquer outra cultura que eu conheça, adoram fazer listas.  Listas dos dez melhores livros policiais, dos 100 mais importantes pensadores do mundo e assim por diante.

 

É claro que estas listas refletem não só o viés cultural da Inglaterra, mas também o espírito de sua época.  Minha satisfação com estas listas é que elas me obrigam, e acredito que obriguem a outros que participam do processo, por mais que ele seja primário e elementar, a pensar no assunto, a decidir como comparar abóboras com bananas; ameixas com uvas.  E é justamente  durante a defesa das opiniões nestas comparações  que chegamos a uma conclusão mesmo que esta possa ser temporária.  Descobrimos  não só os porquês de uma preferência pessoal, mas devagar chegamos a um melhor conhecimento de  nós mesmos e da cultura ocidental, de qual fazemos parte.

 

Terminou hoje, na BBC internacional em associação com o banco Credit Suisse  – televisão a cabo – uma série de sete programas fascinantes sobre Músicos Visionários, comparando alguns dos compositores de maior talento que enriqueceram a musica clássica.   Esta série que começou no dia 30 de agosto de 2008 foi apresentada por Francine Stock.  Cada compositor representado tem seu advogado, em geral uma pessoa bem conhecida do mundo da música clássica e do público inglês.

 

Mas quem decide é o público, que vota através do portal na internet:

 

http://www.visionariesdebate.com

 

A votação, no entanto, já está concluída.

 

No programa final, que foi ao ar esta tarde no Brasil,  tivemos a resolução das seguintes competições e a lista final não só dos cinco compositores de maior visão assim como o vencedor deste cinco como o compositor de maior influencia até os dias de hoje.  

 

Primeiro resolvemos a competição entre:

 

1  —  JS Bach X GF Handel —  Juntos Handel e Bach formam dois lados das maiores preocupações humanas: enquanto Handel compôs para o povo, Bach compôs para Deus.

 

O vencedor desta pequena competição foi JS Bach.

 

2  —  Mozart X Beethoven – Para quem você daria o seu voto ?  

 

O vencedor desta competição foi Beethoven

 

3  —   Verdi X Chopin – entre estes dois compositores românticos você votaria para Chopin?  Parabéns!

 

O vencedor desta competição foi Chopin

 

4 —   Entre os compositores modernos, você acredita que o mais visionário seja Shostakovitch  ou Tekemitsu?

 

O vencedor desta competição foi Shostakovitch

 

5  — E entre os compositores contemporâneos?   Você votaria em:  Glass ou Boulez?

 

O vencedor desta competição foi Glass.  

 

 

Assim temos os cinco mais importantes, visionários compositores de todos os tempos:  Bach, Beethoven, Chopin, Shostakovitch e Glass.

 

Quem seria na sua opinião o compositor de maior visão de todos os tempos?

 

J S Bach

 

Você acertou? 

 

 

Johann Sebastian Bach, 1748

Elias Gottlob Haussmann

(Alemanha 1695-1774)

Óleo sobre canvas

William H. Scheide, Princeton, New Jersey

 

Johann Sebastian Bach (Eisenach, 21 de Março de 1685 — Leipzig, 28 de Julho de 1750), organista e notável compositor alemão do período barroco. Descendente de uma família de músicos – havia pelo menos meia dúzia de Bachs cujas atividades eram ligadas à música – ao mesmo tempo que desenvolvia estudos elementares, Johann principiou seus estudos musicais com seu pai, Ambrosius. Mestre na arte da fuga, do contraponto e da coral, ele é um dos mais prolíficos compositores da história da música ocidental.
 
 

 

Outras ilustrações dos músicos de Bremen neste blog:

 

Christina Rossetti

 

 

 





Poema — Fernando Pessoa — para crianças

24 10 2008

 

Parati: lembrança do passado, 1958

Armando Viana (RJ 1897- RJ 1992)

óleo sobre tela, Coleção Particular

 

POEMA

Ó sino de minha aldeia,

Dolente na tarde calma,

Cada tua badalada

Soa dentro de minha alma.

 

E é tão lento o teu soar,

Tão como triste da vida,

Que já a primeira pancada

Tem o som de repetida.

 

Por mais que tanjas perto,

Quando passo sempre errante,

És para mim como um sonho,

Soas-me na alma distante.

 

A cada pancada tua,

Vibrante no céu aberto,

Sinto mais longe o passado,

Sinto saudade de perto.

 

 

Fernando Pessoa

 

Vocabulário: 

 

dolente – triste

me tanjas – me toques

errante – sem destino

 

 

Em:

Poemas para a infância: antologia escolar, Henriqueta Lisboa, Edições de Ouro:s/d, Rio de Janeiro

 

 

Fernando Antônio Nogueira Pessoa (Lisboa, 13 de Junho de 1888 — Lisboa, 30 de Novembro de 1935), mais conhecido como Fernando Pessoa, foi um poeta e escritor português.





José Mindlin em entrevista fala sobre livros no Brasil

24 10 2008

 

 

No Jornal do Comércio de hoje (24/10/2008) José Mindlin o bibliófilo brasileiro, que decidiu doar sua vasta biblioteca de 45.000 volumes, para a Universidade de São Paulo, fala um pouco mais de sua paixão pela democratização do acesso ao livro no Brasil.  Entrevistado por Marcone Formiga para a Revista Brasília em Dia, o imortal brasileiro defende primeiro que tudo a abertura de mais bibliotecas públicas no país inteiro e lembra que elas deveriam funcionar à noite e em fins de semana.  Aqui está uma fração da entrevista:

 

MF: O senhor contou, no início da entrevista, que desde cedo devorava livros.  Hoje, com a internet, existe a possibilidade de a literatura perder a importância?

 

JM: Eu tenho através de netos e alguns bisnetos, contato com a infância e a mocidade, constatando muito interesse por leitura, também.  Não só pelo desenvolvimento tecnológico.  Agora, tem que existir um exemplo em casa de leitura, para estimular as crianças.  Não há regras para isso.

 

MF: Muita gente alega que não tem tempo para a literatura…

 

JM: Quem afirma não ter tempo, na realidade não procurou ler.  É muito mais fácil não ler e afirmar que não teve tempo.  Mas essas pessoas não sabem o que estão perdendo, porque a leitura é uma fonte de prazer permanente.

 

MF: O livro no Brasil é muito caro.  Isso é um fator desestimulante?

 

JM: Ele é caro, custa muito dinheiro para uma grande maioria da população.  É caro para produzir e para distribuir.  Não existe exploração de um  modo geral na questão da venda de livros.  Agora, a solução seria abrir mais bibliotecas públicas, porque ler não devia depender de possuir um livro.  Nos Estados Unidos, um país altamente desenvolvido, as bibliotecas são em grande quantidade e uma biblioteca particular não é regra.  Uma boa biblioteca particular é exceção, em qualquer cidadezinha há uma boa biblioteca pública.  Nós estamos longe disso, mas eu acho que é esse o objetivo, que tem que ser procurado alcançar.  

 

MF: O governo poderia ter a iniciativa de incentivar a leitura, reduzindo impostos das editoras, das gráficas?

 

JM: A impressão dos livros tem uma série de sanções.  Eu não conheço isso em detalhes, mas acho que há um incentivo.  Agora o grande incentivo é a formação de bibliotecas com bons bibliotecários que orientem os leitores, que mostrem o que há de interessante nos livros.  Tudo é uma questão de formação de um hábito que preencha a biblioteca que, aliás, deveria existir também de modo generalizado nas escolas.  

 

 

[Este é um trecho da entrevista publicada hoje no Jornal do Comércio, versão impressa.]

 





Sirva algo quente para causar uma boa impressão!

24 10 2008

Ilustração: Maurício de Sousa

 

Hoje pela manhã o programa de rádio ALL THINGS CIONSIDERED, da National Public Radio em Washington DC teve um segmento muito interessante sobre a diferença na percepção que temos,  de pessoas que acabamos de encontrar, quando temos em nossa mão um copo de conteúdo quente ou de conteúdo frio.  Quero dizer, você está tomando uma xícara de chá quente.  Tem esta xícara na mão.  De repente você é apresentado a alguém.  A sua tendência será de achar que esta pessoa, que você acaba de encontrar é uma pessoa amável, simpática, generosa.  Enquanto que se você tivesse nas mãos um copo de açaí gelado, sua tendência seria de achar o novo conhecido frio, antipático.

Este estudo conduzido pela Universidade de Yale foi cuidadosamente controlado.  Voluntários – estudantes – não sabiam quando o estudo começaria.  A conclusão depois de muitos testes foi que depois de segurar alguma coisa quente, mesmo que por segundos, o nosso julgamento de uma pessoa até então desconhecida é muito mais positivo, do que se segurarmos alguma coisa gelada.  

Há indicadores de que algumas emoções começam primeiro no corpo humano e só mais tarde são registradas pelo cérebro.   O estudo, feito por Lawrence Williams, professor na Universidade de Colorado, foi estudado Poe ele durante sua monografia, quando doutorando da Universidade de Yale; e foi publicado nesta semana na revista SCIENCE.  Andreas Meyer-Lindberg, diretor do Instituto Central para Saúde Mental da Alemanha, corrobora com estas descobertas, lembrando que alguns cientistas acreditam que tanto o medo quanto a felicidade são emoções que começam primeiro como uma reação física, que manda uma mensagem para o cérebro  nos permitindo sentir a emoção.

Para o artigo inteiro e para o áudio do programa, clique AQUI.





Imagem de leitura — Mark Arian

23 10 2008

             O livro ilustrado, Mark Arian (EUA 1947), óleo/tela

 

Mark Arian – (EUA 1947) —  Nasceu no estado de Iowa, nos Estados Unidos em 1947.  Ainda ativo.





Novo dinossauro descoberto na China!

23 10 2008

Arqueólogos na China descobriram fosseis de um dinossauro do tamanho de um pombo que acreditam ser um ancestral não-direto dos pássaros.  O fóssil preservado numa rocha na Mongólia, no condado de Ningcheng no Norte da China, tem 90% de seu corpo preservado.  Deve ter habitado a Terra aproximadamente há 176 – 146  milhões de anos passados, no Médio ao Jurássico Tardio.   

 

O novo dinossauro, recebeu o nome de Epidexipteryx  hui – que em grego quer dizer: o que tem penas de exibição.   Pela data ele se mostra antecessor, ou seja, mais antigo do que os dinossauros Archaeopteryx, que viviam por volta de 155 to 150 milhões de anos atrás, e que são as primeiras aves, com aspecto de dinossauro. 

 

A aparência do Epidexipteryx é interessante.  Tinha penas, mas não voava.  Tinha uma arcada dentária projetada para fora, como a maioria dos carnívoros, mas pesava só aproximadamente 164 gramas.  Os cientistas ainda não sabem de que se alimentava.  Suas refeições seriam de insetos?  De outros répteis ou anfíbios?  Ou seria ele vegetariano, alimentado-se de plantas?   Tinha quatro longas e finas penas saindo de seu curto rabo.  Era bípede (um terópode) pequeno.  O que o faz singular são as quatro longas penas, que saíam da cauda e neste caso específico, para nossa felicidade, ficaram bem preservadas.  Os investigadores julgam que estas penas, que se parecem com uma fita poderiam não só serem ornamentais mas talvez até ajudado no seu movimento por entre ramos de árvores.  Como ornamentação elas deveriam cumprir uma função importante para a reprodução. Há muitas espécies de aves com penas grandes e de cores exóticas, que são importantes para o ritual de acasalamento. O mesmo poderia acontecer com o Epidexipteryx.  Já suas penas curtas, que cobrem o corpo todo do dinossauro provavelmente funcionariam com protetores da temperatura, insulando o corpo do animal das mudanças em temperatura.   Na época em que este dinossauro vivia erupções vulcânicas eram muito comuns.  Ele era parte de um ambiente cheio de lagos e árvores.  Junto a este dinossauro diversos insetos, plantas, salamandras, lagartos, pterossauros cabeludos e mamíferos primitivos voadores e nadadores foram encontrados.

 

Cientistas estão certos de que este dinossauro não pertence ao grupo Microraptor , que são dinossauros apresentando penas e que os acredita-se que voava além de planar.  Mas como o Microraptor – um dinossauro que viveu mais tarde entre 130 a 125 milhões de anos – também tinha dois grupos de asas semelhantes aos primeiros bi planos. Esta nova descoberta ajuda na evidência, muito importante, da relação entre dinossauros e pássaros.  O esqueleto tinha várias características parecidas com os das aves e os paleontólogos colocaram a espécie ao lado das primeiras linhas evolutivas dos dinossauros voadores.   Apesar de este dinossauro não poder ser considerado na linha direta dos ancestrais dos pássaros, é um dinossauro que tem a mais próxima relação filogenética aos pássaros.  Conseqüentemente, pode fornecer informações sobre a transição dos dinossauros a pássaros, incluindo as mudanças ocorridas nas penas e nos rabos.  A sua descoberta nos leva mais próximo do pássaro ancestral – o grande pai dos pássaros que conhecemos hoje.  Descobre-se também com este novo achado que a complexidade da evolução dos dinossauros para pássaros é maior do que até aqui imaginávamos.  

 

Esta descoberta foi publicada na revista científica Nature, com edição desta semana,  por um grupo de investigadores da Academia de Ciências da China, encabeçada por Zhonghe Zhou do Instituto de Paleontologia de Vertebrados e  Paleo-antropologia da Academia de Ciências da China em Pequim.  

Para saber mais clique:

Aqui

Aqui

Aqui





São Paulo perde de cabeça erguida! Revolução 1932

23 10 2008

4 de outubro de 1932

 

 

Eu não sei fazer um juízo exato do móvel da revolução de 9 de julho.

 

A revolução encabeçada por São Paulo e seguida por Mato Grosso, dizia-se constitucionalista.  Entretanto, também o governo provisório dizia-se constitucionalista e o Brasil todo o é inegavelmente, e, apesar de tudo, o Brasil todo veio combater São Paulo e Mato Grosso, ao lado do governo central.  Para mim, como expliquei na nota do dia 11 de julho, a revolução foi precipitada pelo Gal Klinger e não foi um movimento constitucionalista no seu íntimo.  São Paulo não podia nem devia pegar em armas pela constitucionalização do país, no dia 9 de julho, uma vez que na época da eleição já se achava marcada pelo governo para 3 de maio do ano vindouro, data com a qual São Paulo já tinha concordado.  O governo provisório, por seu turno, fez mal em aceitar a luta com São Paulo, sem parlamentar com ele, ou ceder um pouco no  prazo do pleito eleitoral, pois, se ele governo, é constitucionalista, não lhe ficava bem tentar abafar pelas armas, um movimento que se dizia ser pela restauração da constituição e da lei eleitoral.  A luta armada só poderia retardar o advento da lei.  Empenhando-se nela, São Paulo, que se dizia constitucionalista, retardava a constitucionalização do país; tentando abafá-la pelas armas, o governo federal que se diz também pela volta da constituição ao país, prolongava o regime ditatorial e prolongava-o com sérios prejuízos ao país, morais, materiais e de vidas preciosas que se iam tombando na guerra entre irmãos.  Logo, nem o governo federal é pela constituição, nem São Paulo fez revolução de caráter constitucionalista.  O motivo da revolução deve ser outro.

 

São Paulo é um povo que cultua um justo orgulho do seu valor cívico, moral, material, intelectual.  Rico, poderoso, populoso, o maior estado do Brasil, que tinha no seu escudo o famoso – non ducor, ducoˡ – achava-se humilhado pela sua ocupação militar desde outubro de 1930.  Essa humilhação prolongava-se e seu orgulho crescia dia a dia.  Sua ira transbordou-se; e, sem motivo plausível, sem uma justificativa séria, pegou em armas, resoluto, para ver se abreviava a constitucionalização do país pela força.

 

A luta armada foi cruenta.  São Paulo todo se mobilizou, e pode dizer-se que o Brasil teve a 9 de julho sua primeira revolução.  Foi uma verdadeira guerra.  Guerra de trincheira, encarniçada, feroz, violenta, demorada.  Guerra de aviões, medonha, implacável.  Guerra verdadeira, na extensão da palavra, porque todos se prontificaram para os combates e tudo foi mobilizado: civis, militares, velhos, crianças, mulheres, índios de Mato Grosso, comerciantes, professores, industriais, alunos, funcionários, etc.  Fábricas trabalhavam dia e noite confeccionando fardamentos, pólvoras, balas, munições em geral.  Fabricaram-se granadas, tanques, carros blindados.  E São Paulo mobilizou cerca de 120.000 homens para a luta e mandou-os para as trincheiras.  O comércio e o povo ajudaram muito.  Subscrições populares se abriram para a compra de tudo.  E o soldado paulista tinha de tudo: roupas, fardamento completo, coletes de lã, cache-cols, capas impermeáveis, capacetes de aço, cobre-capacetes, capacetes de cortiça, cobre-orelhas, bom passadio, alimentação abundante, tudo que se possa imaginar. 

 

E o mais notável em tudo foi a elevação moral do soldado.  Os paulistas iam para as trincheiras, cantando!  Os lares se abriam para soltarem os voluntários, principalmente no norte do estado (aqui em Itapetininga reinou mais o desânimo).  As cartas todas (pela censura se via) eram, com raríssimas exceções, cartas de coragem.  O povo dava dinheiro, jóias, alianças para a vitória de São Paulo. 

 

Vivemos em São Paulo, como anotei no outro dia, o tempo pretérito da antiga e aguerrida Sparta.  Tal qual a espartana que não queria saber se o filho morrera, mas unicamente se Sparta vencera, a paulista em geral recomendava ao marido, ao filho, ao irmão que partia: não voltes sem a vitória de São Paulo!

 

Essa luta foi mantida pelo orgulho do paulista.  São Paulo lutou quase três meses.  Cedia terreno pouco a pouco, quando já não podia resistir o inimigo muito mais numeroso e melhor armado.  Sabia que ia perder a campanha.  Sabia-o, mas atirava-se novamente à sangrenta guerra.  Era um delírio.  Havia qualquer coisa de louco no procedimento do povo paulista, ou qualquer laivo de suicídio em massa.

 

Formavam-se batalhões e batalhões de voluntários.  Fabricavam-se granadas de mão.  Mobilizaram-se batalhões de granadeiros.  Inventaram-se aparelhos lança-chamas e canhões lança-minas, e dizem que fabricaram gases lacrimogêneos, asfixiantes e mais uma outra espécie de invenção paulista que não chegou a ser usada. 

 

Foi a primeira revolução do Brasil, porque as anteriores não se comparam com dois dias desta de 9 de julho.  A verdade é que São Paulo forneceu à historia pátria uma página que pode traduzir leviandade de conduta, precipitação e orgulho, mas também traduz no seu reverso, um exemplo edificante de união, coesão e força. 

 

Apesar de ter havido uma série de traições à causa que São Paulo defendia, traições à coesão, em parte justificadas pela ausência de motivo plausível para semelhante luta fratricida, apesar disso, pode dizer-se que o povo esteve na sua grande maioria unido, nos dias mais amargos e tétricos, sentindo prazer dessa união na desgraça, parecendo repetir aquela frase de Hugo: S’aimer dans l’affliiction, c’est le bonheur du malheur!²

 

♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦

 

NOTAS:

 

1 – NON DUCOR DUCO = expressão em latim: não sou conduzido, conduzo.  Presente na bandeira de São Paulo

 

2 – [Tradução da frase de Vitor Hugo: Amar-se nos momentos dolorosos é a felicidade da infelicidade].

 

 

 

Transcrição do Diário de Gessner Pompílio Pompêo de Barros (MT 1896 – RJ 1960), Itapetininga, SP, página 151-156 em referência à Revolução Constitucionalista de 1932.

 

 

 

 





Imagem de leitura — Emmanuel Garant

22 10 2008

A Leitora, Emmanuel Garant (Canadá 1953)

 

Emmanuel Garant — nasceu em Lévis, no Canadá, no dia 5 de junho de 1953.  Filho de dois artistas plásticos André Garant e Louise Carrier.

Para mais informações clique aqui.