” A língua portuguesa”, José Eduardo Agualusa

31 03 2015

mb_1894_cam2A redenção de Cam, 1895

Modesto Brocos (Espanha/Brasil, 1852-1936)

óleo sobre tela, 199 x 166 cm

MNBA [Museu Nacional de Belas Artes], Rio de Janeiro

“A verdade é que ainda persiste em Portugal uma certa saudade imperial e, sobretudo, uma enorme ignorância no que diz respeito à história do próprio idioma. É sempre bom recordar que antes de Portugal colonizar a África, os africanos colonizaram a Península Ibérica durante oitocentos anos. A língua portuguesa deve muito ao árabe. A partir do século XVI, com a expansão portuguesa, a língua começa a enriquecer-se, incorporando vocábulos bantos e ameríndios, expressões e provérbios dessas línguas, etc.. A minha língua é esta criação coletiva de brasileiros, angolanos, portugueses, moçambicanos, caboverdianos, santomenses, guineenses e timorenses. A minha língua é uma mulata feliz, fértil, generosa, que namorou com o tupi e com o ioruba, e ainda hoje se entrega alegremente ao quimbundo, ao quicongo ou ao ronga, se deixando engravidar por todos esses idiomas.”

Em: “Um brinquedo de criar prodígios“, José Eduardo Agualusa, O Globo, 30/03/2015, 2º caderno, página 2.





Patrimônio Cultural da Humanidade: Mosteiro de Batalha

21 10 2014

 

 

 

batalha-monument

 

Portugal:

 

Mosteiro de Batalha

 

O monastério dominicano da Batalha foi construído em comemoração à vitória portuguesa sobre os espanhóis na batalha de Aljubarrota em 1385, como resultado de uma promessa feita pelo rei João I, pela vitória. Tornou-se o principal projeto de construção da monarquia portuguesa pelos dois séculos que se seguiram. Um estilo gótico de linguagem exclusivamente portuguesa se desenvolveu nesse período, influenciado pela arte manuelina. A construção desse mosteiro é um extraordinário exemplo dessa arquitetura gótica-manuelina.





Portugueses, os jardineiros do mundo, texto de Afrânio Peixoto

3 10 2014

 

 

Imagem1

Coleção cítrica dos Medici, 1715
Espécies de limões e laranjas,
Bartolomeu Bimbo (Itália, 1648-1723)
Óleo sobre tela
Hoje, Palácio Pitti, Florença

 

 

“Foram porem os portugueses que nas suas viagens, depois do Renascimento, vulgarizaram a laranja pelo Ocidente. A prova é que hindus maometanos e árabes modernos, no Oriente, chamam à laranja portughan, que lhes trouxeram, da China, os navegantes portugueses. A prova é que, no Mediterrâneo, em Itália, as laranjas são, ainda hoje, chamadas portogalli.

Os portugueses foram disseminadores das árvores prestadias, pelo mundo, universalizando a natureza, regional, pela ecologia ou afeiçoamento ao meio, e tornada mundial. Não será espirituosa senão etimológica esta frase: os portugueses tornaram católica (universal) a natureza. As autoridades francesas da Guiné confessam que todas as plantas do mundo aí cultivadas são da primitiva estação portuguesa, nessa África ocidental. Aliás, o mesmo aqui podemos ver: a fruta-pão é da Oceania; a lichia é da China; o dióspiro ou caqui é do Japão; o café é da Etiópia; a cana-de-açúcar peregrinou da Índia ao Egito, à Sicília, ao Algarve, à Madeira, ao Brasil; o cacau trouxeram-no do México. O  Brasil produziu cravo, canela, anil, noz moscada, pimenta, chá, gengibre… A vida de Portugal pelo mundo, “a vida em pedaços repartida”, do Poeta, terá um sentido universal, reunindo todo o mundo, em todas as partes a que chegaram. E comunicar é civilizar…

Depois das viagens de D. João de Castro, em 1520, foram eles, os portugueses, fazendo de seu portos de escala, culturas e depósitos e assim já não precisariam trazer consigo o mundo, achando o mundo em toda parte. As laranjas foram trazidas à Guiné, às Ilhas de Cabo Verde, onde as naus, em caminho da Índia, se proviam delas, “refrescando a nutrição dos marujos — de peixe seco e bolachas — o que produzia o escorbuto, ou peste náutica, o flagelo das navegações. Pode-se sem exagero dizer que os portugueses descobriram as vitaminas, de tanto prestígio hoje em dia, pelo menos os seus providenciais efeitos. Na própria metrópole tentaram e conseguiram. ”

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[Grafia atualizada]

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Em: Breviário da Bahia, Afrânio Peixoto, Rio de Janeiro, Editora do MEC: 1980, p.122

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Nesse texto acima, Afrânio Peixoto cita um verso do Poeta.  Este Poeta a que ele se refere com letra maiúscula é Luiz de Camões.  E a passagem em verso é a seguinte:

Canção VII

[Trecho] *

.  . . . . . . . . . . . . . . . .

Aqui, nesta remota, áspera e dura
parte do mundo, quis que a vida breve
também de si deixasse um breve espaço,
porque ficasse a vida
pelo mundo em pedaços repartida.
Aqui me achei gastando uns tristes dias,
tristes, forçados, maus e solitários,
trabalhosos, de dor e de ira cheios,
não tendo tão-somente por contrários
a vida, o sal ardente e águas frias,
os ares grossos, férvidos e feios;
mas os meus pensamentos, que são meios
para enganar a própria Natureza,
também vi contra mi,
trazendo-me à memória
algũa já passada e breve glória,
que eu já no mundo vi, quando vivi,
por me dobrar dos males a aspereza,
por me mostrar que havia
no mundo muitas horas de alegria.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

* Você pode encontrar as canções de Camões facilmente na internet.  Vale a pena.  Você vai se encantar…





Minutos de sabedoria — Eça de Queiroz

26 08 2014

 

 

david emile joseph de NoterCozinheira na cozinha,  1861

David Emile Joseph de Noter (Bélgica, 1818-1892)

óleo sobre tela, 77 x 64 cm

Coleção Particular

 

 

“O homem põe tanto do seu caráter e da sua individualidade nas invenções da cozinha, como nas da arte.”

 

biografia-e-obras-de-eca-de-queirosEça de Queiroz




Ormuz, o início da viagem de Marco Polo

23 08 2014

 

 

 

Marco Polo at the gates of Hormuz City(maybe) Livres des Merveilles, Snark, Bibliotheque NationaleMarco Polo às portas da Cidade de Ormuz [há dúvidas sobre essa identificação].Livres des Merveilles, Snark, Bibliothèque Nationale, Paris

 

Há dois anos leio de vez em quando uma passagem do livro Marco Polo: de Veneza a Xanadu, Laurence Bergreen.  Isso depois de já ter lido o livro inteiro.  Na primeira leitura fui marcando as cidades pelas quais passava Marco Polo. [Quem lá na companhia americana 3M inventou as Post-it notes ™, na minha opinião tem entrada garantida no céu…  Que delícia poder marcar um livro todo sem desfigurá-lo!] Bem, fui marcando cada passo da viagem de Marco Polo, para procurar na internet o que se sabe desses locais e se existem construções da época [século XIII].  Sei que isso pode parecer coisa de quem não tem o que fazer, e provavelmente é.  Mas para quem gosta de história isso é uma fonte incrível de entretenimento, muito mais atraente do que grande parte dos programas de televisão, do que muito romance na lista dos mais vendidos.  Com um pouquinho de informação, com o Google Maps, e fotos, com acesso a bibliotecas inteiras na rede, a imaginação se solta e com tempo e tenacidade preencho muitos dos espaços que desapareceram apagados pelas pegadas de invasões, guerras, pestes, e todo tipo de calamidade que já nos atingiu e continuará atingindo. Há muito pouca informação segura ainda sobre esses locais, principalmente em regiões como a Pérsia (maior parte do Irã hoje) que se encontra em grande turbulência faz muito tempo.  Sítios arqueológicos nem sempre permaneceram abertos através dos diversos confrontos bélicos e corremos o risco de perder muito do que ainda poderia ser resgatado. Mesmo assim essa viagem eletrônica pelo mundo de Marco Polo tem sido fascinante.

 

640px-Braun_Hormus_UBHDOrmus” (Braun e Hogenberg. “Civitates Orbis Terrarum“, 1572)

 

Ormuz é um dos locais — visitado por Marco Polo no início de sua viagem — que encontra numerosas referências na rede.  Tem mais: muitas dessas referências são em português.  Isso porque os portugueses estiveram por lá em 1507, dominaram a cidade, e tentaram construir o Forte de Nossa Senhora da Vitória, mas foram surpreendidos pela deserção de três capitães.  Os portugueses tentavam colocar o cabresto no comércio internacional que obrigatoriamente passava por essa ilha na entrada do Golfo Pérsico. Mas  inicialmente não foram bem sucedidos.  Só em 1515, Afonso de Albuquerque, já governador da Índia, estabeleceu a suserania de Ormuz submetida ao governo da Índia.  A Ormuz que atraía os portugueses não era mais aquela visitada por Marco Polo, pois os portugueses estiveram por lá trezentos anos depois da viagem do mercador italiano, mas desde o período medieval que o local era de grande importância para o comércio de produtos exóticos vindos do Oriente.

[À parte: toda vez que leio sobre as explorações portuguesas na Era dos Descobrimentos sinto profunda admiração pelos homens que se atreveram a explorar o desconhecido. Na Era  dos Descobrimentos, a população de toda a Europa é estimada em 60 milhões e a população total de Portugal entre 1400 e 1500 é estimada em um milhão de pessoas.  Um país tão pequenino, com uma população ínfima [1/60 de toda a Europa] que se jogava em frágeis embarcações, sair pelo mundo, conquistando, brigando, construindo, lutando, guerreando, tendo o atrevimento de desbancar governos locais, já estabelecidos, tem algo de mágico, do mitológico, do conhecido enredo do arquétipo do “pequeno contra o gigante”, que me comove.  Os obstáculos eram enormes, as dificuldades aterrorizantes, as doenças intermitentes, o desconhecido era abismal e assim mesmo, espada em punho, foram aos muitos cantos do mundo. É muito impressionante.] Para ter uma ideia dos perigos enfrentados em Ormuz, pelo viajante no século XIII,  fica aqui abaixo uma citação do livro de Laurence Bergreen, com citações diretas da descrição original de Marco Polo.

 

MARCO_POLO_DE_VENEZA_A_XANADU_1250679902P

 

Para o grupo de viajantes, a visão de tanta água após passarem meses no deserto os fez recordar Veneza e o Mar Adriático, porém, observando-a melhor, Ormuz não era exatamente a joia que tinham  avistado de longe. Em primeiro lugar, “se um mercador aqui morre, o rei confisca todos os seus bens”.  O clima também trazia riscos aos viajantes desprevenidos. O vento do deserto circundante podia ser “tão sufocantemente quente que seria mortal se, tão logo percebessem sua chegada, os homens não mergulhassem na água até o pescoço para escapar do calor”.

Enquanto estiveram em Ormuz, Marco ficou horrorizado ao saber que o vento mortal apanhara de surpresa  pelo menos 6 mil soldados (5 mil a pé, o restante a cavalo) no deserto e sufocara “todos eles, de sorte que ninguém sobreviveu para levar a notícia ao senhor”. Com o tempo, os “homens de Ormuz”, souberam da morte em massa e decidiram enterrar os corpos para evitar infecções, mas “quando os suspenderam pelos braços para levá-los às covas, eles [os cadáveres] estavam tão ressecados pelo calor que os braços caíram do tronco, de forma que eles [os homens] tiveram que fazer as covas ao lado dos cadáveres e empurrá-los.”

 

Em: Marco Polo: de Veneza a Xanadu, Laurence Bergreen, tradução Cristina Cavalcanti, Rio de Janeiro, Objetiva: 2009, pp 68-69.

 





Os nomes — poesia infantil de Maria Alberta Menéres

21 08 2014

 

 

crianças na árvore, Ingela P ArrheniusIlustração de Ingela P. Arrhenius.

 

 

 

Os Nomes

 

Maria Alberta Menéres

 

Porque é que me chamo coelho
E não me chamo melão?

Porque é que me chamo lagartixa
E não me chamo cão?

Porque é que me chamo uva
E não me chamo chuva?

Porque é que me chamo Maria do Céu
E não me chamo chapéu?

Porque é que me chamo pedra
E não me chamo perna?

Porque é que me chamo cebola
E não me chamo papoila?

Porque é que me chamo casa
E não me chamo asa?

Porque é que me chamo Sol
E não me chamo Lua?

Porque é que me chamo Lua
E não me chamo caracol?

Cada coisa tem o seu nome
Para assim ser conhecida.

 

 

Em: Conversas com versos, Maria Alberta Menéres, Lisboa, Edições Asa:2005





Patrimônio Cultural da Humanidade: Colônia del Sacramento

14 08 2014

 

 

In Uruguay - Colonia del Sacramento

 

Uruguai:

Bairro histórico da cidade de  Colônia do Sacramento

 

Colônia del Sacramento foi fundada por portugueses em 1680, que aproveitaram a posição estratégica do local para montar um ponto de defesa na margem norte do Rio da Prata, de frente para Buenos Aires. Este é o único exemplo de planejamento urbano que não segue as regras espanholas de ruas paralelas e cruzadas, impostas pelas “Leis das Índias”. Ao invés disso a cidade tem ruas que seguem a topografia do terreno, ainda que dependente de sua função militar. Os prédios modestos em dimensão e aparência mostram a fusão de tradições portuguesas e espanholas nos métodos de construção.

 





Minutos de sabedoria: António Pinto Ribeiro

19 07 2014

 

 

ai Suijyo, 2010, acrilica, possibilidades infinitasBiblioteca com céu estrelado, 2010

Ai Suijyo (Japão, contemporâneo)

acrílica

Otaku Mode

 

 

“Um intelectual europeu da minha geração leu os franceses, os ingleses e os americanos. Um africano ou mexicano intelectual leu todos esses e ainda aquilo que eles próprios produziram em seus países. Então, há uma mais-valia em relação à tradição europeia.”

 

 

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 António Pinto Ribeiro





Palavras para lembrar — José Luís Peixoto

28 05 2014

Philip MaliavinJovem com livro, 1895

Filipp Andreevich Malyavin (Rússia, 1869 — França, 1940)

óleo sobre tela

 

 

“Escrever é um momento em que se olha para dentro, é, muitas vezes, recordar com os olhos abertos”.

José Luís Peixoto





Meus caros portugueses, o que se passa?

29 04 2014

 

 112_2830-alt-pratorioFoto da coluna Ancelmo Gois do jornal O GLOBO: Prato da Cia Vista Alegre.

 

Foi com muito pesar que vi hoje no jornal O GLOBO, do Rio de Janeiro, na coluna do jornalista Ancelmo Gois, a foto acima de um prato da prestigiada companhia portuguesa de porcelanas, Vista Alegre. Por seu desenho,  o prato reforça atitudes que testemunhei, quando morei em Portugal, e que preferi deixar de lado ou ignorar, por achar que eram só as mentes pequenas que as abrigavam.  Falo de atitudes que demonstram uma perene má vontade dos portugueses, principalmente dos mais abastados, com o Brasil e brasileiros.  Esses sentimentos afloraram quando reconheci que na chamada “homenagem ao Rio de Janeiro” o desenho do prato fotografado, no tradicional azul e branco, mostra vinhetas com revolveres como se essas armas fossem uma característica carioca.  Essas pequenas vinhetas preconceituosas me lembraram de outros pequenos incidentes, semelhantes, que testemunhei nos anos que morei em Coimbra. Fiquei, na época, pasma de sentir uma surda mas presente  intolerância lusitana com o Brasil, uma espécie de desagravo que não entendo e não me parece conveniente a nenhum dos dois países.

O prato, como explicado no jornal, foi feito para comemorar o Rio de Janeiro, cidade fundada por portugueses que, quase 500 anos depois, retém características muito chegadas às das cidades de além-mar.  O Rio de Janeiro, tanto a cidade quanto o estado, é um dos locais no mundo que melhor demonstra a colonização portuguesa. Nossas similaridades são inesgotáveis desde localização de igrejinhas nos topos das montanhas, ao calçamento de pedrinhas portuguesas que desafiam a lógica e a praticidade.  Da língua que falamos e com a qual nos comunicamos, ao bacalhau que comemos no Natal e na Páscoa. O Rio de Janeiro é, pode-se dizer, um tributo vivo à cultura portuguesa. Aqui estão as raízes de tudo que os portugueses semearam. Do bom e do que não presta.

 

112_2830-pratoportugues

Ao contrário da proximidade emocional, política e social que existe entre a Inglaterra e os Estados Unidos, e aqui posso falar com familiaridade sobre os dois países, Portugal parece evitar cumplicidade semelhante com o Brasil, uma cumplicidade que em geral existe entre membros da mesma família e amigos, aquela que acredita no respeito mútuo.   O sentimento que existe entre britânicos e norte-americanos rende inimaginável que, digamos, a Royal Crown Derby, importante fábrica de porcelana inglesa, produza semelhante desenho em seus pratos comemorativos sobre Nova York, mesmo que legislação a sobre o uso de armas de fogo nos Estados Unidos seja completamente diferente daquela encontrada em solo inglês. É um descompasso, é revoltante que essa propaganda contra o Rio de Janeiro, contra o Brasil, esteja veiculada a uma das mais importantes marcas de porcelanas portuguesas (eu ia dizer do mundo, mas a minha revolta pede que eu diminua o tamanho da Vista Alegre, afinal a mentalidade da companhia parece pequena).

Convido brasileiros e portugueses esclarecidos que mostrem o seu desgosto com esse golpe baixo contra a imagem do Rio de Janeiro.  Completamente desnecessário. E seria bom que os portugueses que demonstram preconceitos contra brasileiros, que se olhem no espelho, porque muito do ruim que acontece por cá teve origem, tem raízes e encontra alma gêmea em Portugal.  Uma boa ideia seria não comprar a porcelana Vista Alegre. Afinal, há outras porcelanas no mundo tão boas quanto ou até melhores.