Frutos — poema infantil de Eugênio de Andrade

2 11 2008

Tangerina no café da manhã © Ladyce West, Rio de Janeiro: 2006

 

FRUTOS

Eugênio de Andrade

Pêssegos, peras, laranjas,
morangos, cerejas, figos,
maçãs, melão, melancia,
ó música de meus sentidos,
pura delícia da língua;
deixai-me agora falar
do fruto que me fascina,
pelo sabor, pela cor, 
pelo aroma das sílabas:
tangerina, tangerina.

 

Eugênio de Andrade nasceu em  Póvoa da Atalaia, em Portugal. Viveu em Lisboa, em Coimbra e no Porto.  É considerado um dos maiores poetas portugueses contemporâneos.

Obras:

As Mãos e os Frutos,1948);
Os Amantes sem Dinheiro,1950;
As Palavras Interditas,1951;
Até Amanhã,1956;
Coração do Dia, 1958;
Mar de Setembro, 1961;

Ostinato Rigore
, 1964;
Antologia Breve, 1972;
Véspera de Água, 1973;
Limiar dos Pássaros,1976;
Memória de Outro Rio, 1978;

Rosto Precário,
1979;
Matéria Solar, 1980;
Branco no Branco, 1984;
Aquela Nuvem e Outras, 1986;
Vertentes do Olhar, 1987;
O Outro Nome da Terra, 1988;
Poesia e Prosa, 1940-1989;
Rente ao Dizer,
1992;
À Sombra da Memória, 1993;
Ofício de Paciência, 1994;
Trocar de Rosa / Poemas e Fragmentos de Safo, 1995;
O Sal da Língua,1995





Roberto Saviano: Salman Rushdie do século XXI

1 11 2008
Irmãos Metralha lendo.  Ilustração Walt Disney.

Irmãos Metralha lendo. Ilustração Walt Disney.

 

Máfia amaldiçoa escritor:  Roberto Saviano

 

O escritor italiano Roberto Saviano nasceu no lugar onde há mais assassínatos em toda a Europa. O seu livro Gomorra  — ainda não lançado no Brasil —  descreve os negócios ilícitos do crime organizado. Por causa disso Roberto Saviano  vive como um prisioneiro e tem a cabeça a prêmio.    

 

O livro publicado em 2006 foi um sucesso de vendas atingindo mais de dois milhões de volumes vendidos na Itália e já foi traduzido para 42 línguas. O filme, do mesmo nome,  Gomorra, dirigido por Matteo Garrone — baseado neste livro — recebeu o Prêmio do Júri do Festival de Cannes e estará representando a Itália na concorrência ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

 

O problema é que Roberto Saviano descreve a máfia italiana com muita clareza na sua total brutalidade.  Descreve também seus negócios.   E isto o fez ameaçado por ela mesma, pelos chefes mafiosos.  Apesar deste livro tê-lo lançado internacionalmente e ter trazido para o autor um sucesso que poucos chegam a ter, este jovem de 29 anos, não pode desfrutar de seu sucesso vivendo numa verdadeira prisão, locomovendo-se em carros blindados com proteção policial.  

 

Num recente desabafo, Roberto Saviano, numa entrevista ao jornal La Repubblica disse:Quero uma vida, uma casa, apaixonar-me, rir, tomar uma cerveja em público. Poder ir ver a minha mãe sem a assustar.

 

Mas recentemente a polícia italiana descobriu um plano do clã dos Casalesi (máfia napolitana) de um atentado contra o escritor a ser executado no Natal que se aproxima.  Saviano agora quer sair da Itália.  Mas os italianos pedem que fique.  

 

Há no momento um abaixo-assinado pedindo ao governo italiano que proteja o autor e combata a máfia.  Este abaixo-assinado tem mais de 150.000 assinaturas de todos os lugares do mundo entre elas a de seis vencedores do Prêmio Nobel.

 

Este caso nos lembra das tentativas feitas no século passado contra o escritor Salman Rushdie, que também teve que viver com cuidado e segurança o tempo todo graças às persiguições do governo do Irã que não concordava com as opiniões sobre aspectos do extremismo muçulmano publicadas pelo autor em seus livros de ficção, lançados na Inglaterra.

Está cada vez mais perigoso ser escritor!





Boas idéias, boas soluções — feiras de livros

26 10 2008
Liquidação de Livros, L C Neil, (Mooresville, North Carolina, EUA)

Liquidação de Livros, L C Neill, (Mooresville, North Carolina, EUA)

 

Desde o século XVI que feiras de livros são uma das melhores maneiras que editoras encontraram para promover e vender os textos que imprimiram.  Recentemente, lendo o livro: O  Mendigo e o Professor: a saga da família Platter no século XVI, volume I,  pelo historiador francês Emmanuel Le Roy Ladurie, (Rocco: 1999) encontrei a seguinte passagem baseada no diários de  Thomas Platter, referente aos anos de 1536-1539:

 

Uma inteira vocação de impressor, e de editor, nascerá em meio a suor e preocupação; afinal estamos na Basiléia, cidade angular da tipografia sul-alemã, papel que na França cabe a Lyon, considerável cidade centro-meridional, sede da tipografia do grande reino no século XVI.  Rapidamente Platter substitui o patrão Herwagen, quando este viaja para Frankfurt.  Quando o mestre se ausenta para freqüentar a feira do livro dessa cidade, encarrega Thomas de supervisionar os trabalhos.  (página 79)

 

 

Foi só aí que voltei a me lembrar que realmente as feiras de livros têm uma longa tradição na cultura ocidental praticamente tão antiga quanto a própria história da imprensa.  A feira do livro de Frankfurt na Alemanha tem uma tradição de mais de 500 anos.  Logo após Johannes Gutenberg inventar a imprensa com letras móveis, a cidade de Frankfurt, na região de Mainz, organizou a primeira feira do livro de que se tem notícia.    Às vezes perdemos a noção de quão antigos certos hábitos são.  Isto me levou a pensar nas feiras de livros brasileiras e numa notícia recente que li sobre uma solução maravilhosa para feira de livros menores.

 

Ao que tudo indica, as feiras de livros de Ouro Preto (MG), de Porto das Galinhas (PE) e de Porto Alegre (RS), conseguiram se unir este ano e planejar seus respectivos calendários de tal maneira que juntando forças serão capazes de trazer escritores de fama internacional para eventos que sozinhas teriam tido problemas de preencher.  Assim a feira de Ouro Preto que acontece entre 5 a 9 de novembro; a de Porto das Galinhas – de 6 a 9 de novembro e a Porto Alegre – de 31 de outubro a 16 de novembro, puderam trazer alguns nomes internacionais de maior porte, que farão a peregrinação entre as três feiras do livro.   Ente eles estão:

 

William Gordon (EUA)e Peter Robinson (RU) – representantes da literatura policial estarão presentes nas feiras de Ouro Preto e Porto Alegre.

 

Roger Chartier (França)  também estará em Ouro Preto e Porto Alegre.

 

Pepetela (Angola) estará em Porto Alegre e em Porto das Galinhas.

 

A idéia pela qual parabenizamos os organizadores é a otimização das visitas deste estrangeiros, que podem num pequeno número de dias, cobrir três importantes centros de cultura no Brasil.  Quem sabe se esta solução não permitirá que no futuro escritores ainda mais conhecidos venham a desfrutar da hospitalidade brasileira de diversas regiões distintas?  Parabéns aos organizadores.  Boas idéias também são para serem reconhecidas.  Boa sorte!

 

Fórum de Letras de Ouro Preto – 5-9 de novembro   FLOP

Festa Literária Internacional de Porto das Galinhas – 6 a 9 de novembro  FLIPORTO

 

Feira do Livro de Porto Alegre – 31 de outubro a 16 de novembro —   FLIPOA

Ilustração Mauricio de Sousa

Ilustração Mauricio de Sousa





José Mindlin em entrevista fala sobre livros no Brasil

24 10 2008

 

 

No Jornal do Comércio de hoje (24/10/2008) José Mindlin o bibliófilo brasileiro, que decidiu doar sua vasta biblioteca de 45.000 volumes, para a Universidade de São Paulo, fala um pouco mais de sua paixão pela democratização do acesso ao livro no Brasil.  Entrevistado por Marcone Formiga para a Revista Brasília em Dia, o imortal brasileiro defende primeiro que tudo a abertura de mais bibliotecas públicas no país inteiro e lembra que elas deveriam funcionar à noite e em fins de semana.  Aqui está uma fração da entrevista:

 

MF: O senhor contou, no início da entrevista, que desde cedo devorava livros.  Hoje, com a internet, existe a possibilidade de a literatura perder a importância?

 

JM: Eu tenho através de netos e alguns bisnetos, contato com a infância e a mocidade, constatando muito interesse por leitura, também.  Não só pelo desenvolvimento tecnológico.  Agora, tem que existir um exemplo em casa de leitura, para estimular as crianças.  Não há regras para isso.

 

MF: Muita gente alega que não tem tempo para a literatura…

 

JM: Quem afirma não ter tempo, na realidade não procurou ler.  É muito mais fácil não ler e afirmar que não teve tempo.  Mas essas pessoas não sabem o que estão perdendo, porque a leitura é uma fonte de prazer permanente.

 

MF: O livro no Brasil é muito caro.  Isso é um fator desestimulante?

 

JM: Ele é caro, custa muito dinheiro para uma grande maioria da população.  É caro para produzir e para distribuir.  Não existe exploração de um  modo geral na questão da venda de livros.  Agora, a solução seria abrir mais bibliotecas públicas, porque ler não devia depender de possuir um livro.  Nos Estados Unidos, um país altamente desenvolvido, as bibliotecas são em grande quantidade e uma biblioteca particular não é regra.  Uma boa biblioteca particular é exceção, em qualquer cidadezinha há uma boa biblioteca pública.  Nós estamos longe disso, mas eu acho que é esse o objetivo, que tem que ser procurado alcançar.  

 

MF: O governo poderia ter a iniciativa de incentivar a leitura, reduzindo impostos das editoras, das gráficas?

 

JM: A impressão dos livros tem uma série de sanções.  Eu não conheço isso em detalhes, mas acho que há um incentivo.  Agora o grande incentivo é a formação de bibliotecas com bons bibliotecários que orientem os leitores, que mostrem o que há de interessante nos livros.  Tudo é uma questão de formação de um hábito que preencha a biblioteca que, aliás, deveria existir também de modo generalizado nas escolas.  

 

 

[Este é um trecho da entrevista publicada hoje no Jornal do Comércio, versão impressa.]

 





Aravind Adiga ganha o Man Booker

15 10 2008

 

Vencedor do Man Booker, Aravind Adiga

Vencedor do Man Booker, Aravind Adiga

 

 

Com seu primeiro romance, o escritor indiano Aravind Adiga ganhou, ontem, o prêmio de ficção em língua inglesa Man Booker, o de maior prestígio no Reino Unido, com seu primeiro romance, The White Tiger.  Ele é o quarto vencedor deste prêmio, que o faz com um livro de estréia na carreira literária. Os outros três ganhadores com  o primeiro romance escrito foram: 1985 —  Keri Hulme, The Bone People ( ao que eu saiba sem tradução para o português);  1997 – Arundhati Roy, O Deus das Pequenas Coisas, Cia das Letras, 1998 ( na minha opinião um dos melhores livros já escritos, tão importante quanto, digamos, os Cem anos de Solidão de Garcia Marques) e em 2003  DBC Pierre, com Vernon God Little: uma comédia na presença da morte (Record: 2004).

Adiga, de 33 anos, ex-aluno das universidades de Columbia e Oxford, narra em seu livro a vida de um motorista de “rickshaw” na Índia, que se debate entre ser um filho leal e seu desejo de prosperar na vida. Com uma narrativa sedutora, revoltada e repleta de tiradas de humor negro, este romance mostra um retrato sem enfeites da Índia vista pelo homem de uma classe baixa, destinada a não ter um futuro próspero.

 

Ao anunciar o ganhador, em cerimônia em Londres, o presidente do júri, o ex-ministro conservador Michael Portillo, disse que o que destaca The White Tiger é sua originalidade, refletindo o lado obscuro da Índia e seu enorme mérito literário. Ele também disse que o júri achou a escolha muito dificil de ser feita porque havia muitos candidatos fortes.  No final, o premio foi decidido por The White Tiger, porque foi o romance que mais chocou e entreteve simultaneamente.   Este romance, disse Michael Portillo, leva a sério a tarefa de ganhar a simpatia do leitor com um personagem que no fundo é um vilão.  A narrative de um humor desconcertante também reflete como os assuntos de desenvolvimento global e pressões sociais são encaradas pela grande massa.    

 

O jovem escritor indiano venceu outros cinco finalistas, o australiano Steve Toltz, por “A Fraction of the Whole”; o irlandês Sebastian Barry, por “The Secret Scripture”; o indiano Amitav Ghosh, por “Sea of Poppies”; a inglesa Linda Grant, por “The Clothes on Their Backs”, e o inglês Philip Hensher, por “The Northern Clemency”.

 

Adiga, que sempre quis ser escritor, nasceu em Madras e hoje mora em Mumbai. É o quinto escritor da Índia a receber este prêmio.  Os outros foram VS Naipaul (1971), Salman Rushdie (1981) , Arundhati Roy (1997) e Kiran Desai (2006).   Mas, mais impressionante ainda é que The White Tiger é o nono romance vencedor deste prêmio cuja história é inspirada na Índia ou na identidade da Índia

 

Segundo Amazon.co.uk, os seis finalistas tiveram aumento de 700% nas vendas após o lançamento da lista final no último mês.

 

Para o original deste artigo clique AQUI.





Salman Rushdie continua seduzindo…

5 10 2008
Escritor Salman Rushdie

Escritor Salman Rushdie

 

No próximo dia 14 de outubro teremos a divulgação do Man Booker Prize, o maior prêmio literário da Inglaterra e na opinião de muitos o maior prêmio literário do mundo ocidental.  No início de setembro deste ano, no dia 9, a lista dos que estavam concorrendo ao prêmio foi divulgada pela maioria dos jornais de língua inglesa.  Este ano, para o prêmio de romance, a lista ficou reduzida a estes seis títulos e autores, surpreendendo os amantes de Salman Rushdie, que tenho certeza contavam que o The Enchantress of Florence, estivesse entre os seis livros finalistas. 

 

Em 2008 os 6 finalistas para o Man Booker Prize são:

 

Aravind Adiga, The White Tiger, Editora: Atlantic – O TIGRE BRANCO – ainda sem trad.                           

 

Sebastian Barry,  The Secret Scripture, Editora: Faber & Faber – TESTAMENTO SECRETO – ainda sem trad.

                        

Amitav Ghosh, Sea of Poppies, Editor: John Murray – MAR DE PAPOULAS – ainda sem trad.                                 

 

Linda Grant,  The Clothes on Their Backs, Editora:Virago – AS ROUPAS COM QUE SE VESTEM– ainda sem trad.

 

Philip Hensher, The Northern Clemency, Editora: Fourth Estate – A CLEMÊNCIA VEM DO NORTE – ainda sem trad.

           

Steve Toltz, A Fraction of the Whole, Editora: Hamish Hamilton – UM PEDACINHO DO TODO – ainda sem trad.

 

Midnight's Children, de Salman Rushdie, o melhor de todos

 

 

 

A razão da surpresa é simples: em julho deste ano, o Man Booker Prize, como parte das comemorações de seus 40 anos de existência, anunciou uma competição extra.  Pediam que se votasse no melhor livro de todos os que já haviam ganho o Man Booker Prize no passado.  Só uma outra vez havia a mesma entidade feito uma seleção semelhante.  Fora em 1993.  Supreendemente, Salman Rushdie e seu Midnight’s Children –[ Os Filhos da Meia-noite,  Cia das Letras], ganhou o voto de O MELHOR MAN BOOKER PRIZE, as duas vezes, em 1993 e em 2008. 

 

Originalmente Os Filhos da Meia-noite tinha sido escolhido como melhor livro do ano de 1981.  E em 1993, ganhou por voto popular a posição de Melhor Man Booker Prize até então.  Quando a competição foi repetida em 2008, o livro voltou a ganhar a honra, ainda por voto popular.  Ao término da competição, no dia 8 de julho, com os 7800 votos  tabulados, o livro de Salman Rushdie ganhou com 36% dos votos.  Os eleitores foram em sua maioria da Grã-Bretanha (37%) e dos EUA (27%).

 

Os finalistas, que concorreram com Os Filhos da Meia-noite foram:

 

Pat Barker, The Ghost RoadA estrada fantasma, 1995, sem tradução

Peter Carey —  Oscar e Lucinda ( Record) — 1988

JM Coetzee —  Desonra (Cia das Letras) — 1999

JG Farrell — The Siege of KrishnapurA tomada de Krishnapur, 1973, sem tradução

Nadine Gordimer — The Conservationist – 1974 , O conservacionista, sem tradução

 

Dada a grande popularidade de Salman Rushdie foi recebida com grande surpresa a noticia de que seu livro The Enchantress of Florence, que estava entre os 12 da lista longa do Booker, não tivesse ficado entre os 6 finalistas.  Este seria mais um Man Booker Prize para o escritor indiano que tem um constante namoro com este prêmio literário.  Vejamos:

 

The Enchantress of Florence, 2008, entre os 12 finalistas.

Man Booker International Prize 2007, concorrente – prêmio dado de 2 em 2 anos

Shalimar The Clown, 2005, entre os 12 finalilstas

The Moor’s Last Sigh, 1995, entre os 6 finalistas

The Satanic Verses, 1988, entre os 6 finalistas

Shame, 1983, entre os 6 finalistas

Midnight’s Children, 1981, vencedor

 

 

É então com grande antecipação que esperamos os resultados do Man Booker Prize,  deste ano.  Meu voto vai para Amitav Ghosh.  Mas veremos!





O novo e velho mundos de Miguel Sousa Tavares

14 09 2008

Às vezes é necessário uma imagem para me ajudar a pensar sobre um assunto.  Há dois meses li o maravilhoso livro do autor português Miguel Sousa Tavares lançado no Brasil no primeiro semestre deste ano, pela Cia das Letras que leva o nome de Rio das Flores.  E já há algum tempo que queria escrever umas notas a respeito do livro mas não achava o foco.  Até que me deparei, na internet, com este trabalho em sépia de um autor que infelizmente desconheço representando dois meninos.  Imediatamente me lembrei dos irmãos Diogo e Pedro. 

 

Por casualidade, recentemente li outros livros cujos personagens centrais são pares de dois irmãos: A montanha e o rio, de Da Chen (Nova Fronteira) e Dois irmãos, de Milton Hatoum  (Cia das Letras), mas a imagem não me lembrou de nenhum deles exceto dos irmãos de Rio das Flores. 

 

Rio das Flores não desaponta.  É um livro tão bom quanto Equador. Para aqueles que temiam, como eu, ler o segundo livro de Miguel Sousa Tavares, receando que o resultado do novo romance não pudesse se comparar ao do primeiro, sosseguem.  Você vai gostar de Rio das Flores.  O bom escritor continua; sua mágica maneira de narrar persiste; e as referências históricas que tanto me haviam encantado em Equador, continuam tão boas quanto confiáveis.  

 

Em Rio das Flores acredito que Miguel Sousa Tavares tenha mostrado a grande divisão, a grande separação, no século XX, entre dois mundos lusófonos —  Portugal e Brasil.  Mas acredito também que o paralelismo entre Diogo e Pedro, caracteriza muito bem as forças que levam às grandes diferenças entre o Velho e o Novo Mundos.   Ambos os irmãos amam apaixonadamente a terra em que nasceram.  Mas enquanto Pedro não suporta deixá-la, Diogo enfastiado com a docilidade daqueles que aceitam o governo de Salazar, vai embora de Portugal e constrói uma nova, diferente, audaciosa vida no Brasil.  

 

Miguel Sousa Tavares

Miguel Sousa Tavares

 

Na primeira semana de setembro, quando ainda tive alguns momentos para reler certas passagens de Rio das Flores, fiquei convencida de que a visão de Miguel Sousa Tavares, como a interpreto, está correta.  Só mesmo na primeira metade do século XX, ao completarmos cem anos da nossa independência de Portugal, é que nós no Brasil, pudemos forjar uma identidade completamente brasileira.  Uma identidade baseada nas características daqueles que vieram viver em nosso seio, dos imigrantes de sociedades  em outros mundos, que não tinham espaço para sua população, que não tinham responsabilidade sobre aquela população e que estavam decerto à beira da falência cultural como as duas Grandes Guerras do século passado vieram a provar.  

 

Só mesmo no século XX, na primeira metade do século, nós brasileiros, viemos a aceitar todas as características do Novo Mundo,  jogando fora, pela janela, valores que nos haviam sido impingidos por uma cultura dominante.  Aceitamos, finalmente, os valores forjados pelos imigrantes que aqui chegaram, dispostos a jogar fora as regras e os valores das sociedades de onde vieram, para construir algo de novo, de sólido, alguma coisa melhor do que havia  nos países que deixaram.  

 

A leitura de Rio das Flores leva qualquer brasileiro a refletir sobre a história do país e do mundo na primeira metade do século passado.  A visão é mais complexa do que eu esperava, muito mais rica e também muito mais esperançosa.  

 





Os 10 finalistas do Prêmio Portugal Telecom

4 09 2008

 

Curiosamente há  pontos de comunhão de opiniões entre o júri do Prêmio dos Países de Língua Portuguesa e o júri do Prêmio Jabuti  para livros brasileiros.  Será interessante ver o resultado.

Finalistas para o Prêmio Portugal Telecom

 

1. 20 poemas para seu walkman – Marília Garcia – POESIA BRASILEIRA

 

Um livro de muitas vozes, velocidades e lugares – Catalunha, Nova York, Paris, Berlim, um deserto no México. Mas não é como turista, apressado ou aprendiz, que a autora carioca circula. É quase como uma espiã perdida, seguindo ruas que se entrecortam, vozes e indicações que se confundem, impulsos e sentimentos contraditórios. De clara legibilidade, seus poemas mesclam referências tradicionais às obscuras sensaçôes vividas pelo viajante clandestino.

 

Editora: Cosac Naify

ISBN: 9788575035696

Ano: 2007

Edição: 1

Número de páginas: 96

Acabamento:  Brochura

Formato: Médio

 

 

2. Antonio – Beatriz Bracher – ROMANCE BRASILEIRO

 

Editora: 34 

ISBN: 9788573263770

Ano: 2007

Edição: 1

Número de páginas: 184

Acabamento:  Brochura

Formato: Médio

 

 

Benjamim, esta história são nossas vidas e ainda não acabou, nunca vai acabar. Criar esse espaço para tua mãe, essa narrativa para teu pai e teu avô, como se a vida não tivesse existido entre Benjamim e outro, tivesse sido apenas um oco, lapso, vão, entre um amor perdido e seu reencontro, isso é pouco.

 

 

 

3. Eu hei-de amar uma pedra – António Lobo Antunes – ROMANCE PORTUGUÊS

 

Em Eu Hei-de Amar uma Pedra, António Lobo Antunes apresenta um texto radical e inovador, como poucas vezes se viu na literatura contemporânea. Numa história em que passado e presente se fundem, acontecimentos paralelos à vida do protagonista são narrados por personagens que giram em torno dele: suas duas filhas, sua mulher, a amante e um médico. Juntas, essas narrativas compõem uma visão multifacetada e rica dos acontecimentos, na qual passado e presente se fundem num constante fluxo de pensamento.

Na ocasião do lançamento de Eu Hei-de Amar uma Pedra, em 2004, Lobo Antunes falou ao jornal português Diário de Notícias sobre o tema que permeia este romance: o amor.  Ele explicou que, embora o título Eu Hei-de Amar uma Pedra venha de uma cantiga popular, diz respeito também às impossibilidades do amor. “Não sei russo, mas quando dizem que Pushkin empregava a palavra carne e sentia-se o gosto da palavra carne na boca, isso tem a ver com as palavras que se põem antes e depois. É a mesma coisa que amor. Os substantivos abstratos são perigosos”, revela. Sobre a fotografia, ponto de partida deste seu romance, Lobo Antunes diz que vive com ela numa relação conturbada. “Conheci pessoas rodeadas de fotografias antigas. Perguntava quem eram aquelas pessoas, diziam-me ser o trisavô, todas pessoas mortas. Eu pensava: como podem estar mortas se olham para mim desta maneira, como se me conhecessem? Tinha a sensação de que as pessoas daquelas fotografias me compreendiam melhor do que as vivas. Naquelas fotografias amarelas subsistia a vida, o olhar. Na capacidade de transmissão de emoções e vivências, a fotografia sempre me fascinou. Nunca tirei uma fotografia, falta-me esse talento”.

 

Editora: Alfaguara

ISBN: 9788560281107

Ano: 2007

Edição: 1

Número de páginas: 560

Acabamento:  Brochura

Formato: Médio

 

 

 

4. Histórias de literatura e cegueira – Julián Fuks – CONTO BRASILEIRO

 

A partir da vida e da obre dos escritores Jorge Luis Borges, João Cabral de melo Neto e James Joyce, O autor constrói pequenas histórias fragmentadas de possibilidades de momentos da vida de cada um. Cenas de criação de poemas, contos, ensaios e romances são abordadas sob uma visão original, construindo uma ficção em cima da ficção.

Editora: Record

ISBN: 9788501079435

Ano: 2007

Edição: 1

Número de páginas: 160

Acabamento:  Brochura

Formato: Médio

 

 

5. Laranja seleta – Nicolas Behr – POESIA BRASILEIRA

 

A poesia de Nicolas Behr é simples, sem rodeios, vale o que está escrito. Ideologia está presente não só nos poemas, mas na vida do escritor. Nicolas cultiva mudas de espécies nativas do cerrado. Com mais de 20 livros editados pelas próprias mãos, Nicolas lança agora Laranja Seleta, sua primeira obra publicada por uma editora e que inaugura a coleção “Língua Real”, da editora Língua Geral.

 

O poeta marginal e integrante da Geração Mimeógrafo, Nicolas Behr apresenta em Laranja Seleta uma coletânea de alguns de seus melhores poemas. De ‘Iorgurte com farinha’ aos dias de hoje o que fica é a rebeldia, a luta contra regras prontas para poesia.

 

Os poemas de Laranja Seleta passeiam pelas memórias da infância, pela crítica aos poderes, a questão ecológica (da maior importância em sua obra e em sua vida), o amor e a cidade de Brasília, de Kubitschek aos dias de hoje.

    

Editora: Língua Geral

ISBN: 9788560160174

Ano: 2007

Edição: 1

Número de páginas: 172

Acabamento: Brochura

Tamanho: Médio

 

 

6. O amor não tem bons sentimentos – Raimundo Carrero – ROMANCE BRASILEIRO

 

Este é um romance sobre a loucura. E conta a história de Matheus, um músico desencantado, que resolve matar a mãe, Dolores, e a irmã, Biba, porque elas são lindas e silenciosas. Mas não assume o crime e chega a imaginar que está delirando, mesmo depois de morto, porque acredita que foi assassinado pela mãe, num momento de profunda confusão mental. Amante generoso, nem sempre lúcido.

Prêmio Jabuti 2000, Raimundo Carrero revela um personagem denso, às vezes cruel, às vezes lírico, possuído de um lirismo comovente, um lirismo brutal, de quem ama com arrebatamento e sem controle, capaz de ver em Biba o seu peixinho dourado, assim como descarrega a sua paixão desmedida sobre a menina e sobre a mãe.

…Em O amor não tem bons sentimentos desfilam ainda personagens vigorosos como Tia Guilhermina, cantora de cabaré, Ernesto do Rego Barros, o Rei das Pretas, e padre Vieira, conservador e severo, além de Jeremias, o fundador da seita Os Soldados da Pátria Por Cristo, que celebra o Evangelho, mas de propósito mistura religião com estupros, roubos e confusões. Uma galeria de personagens que arrebata e impressiona o leitor pelo seu grau de inquietação, sofrimento e ironia. O trágico e o risível impacientam.

…Por tudo isso, este livro vem reafirmar a força literária de Carrero, um autor cuja obra é estudada em monografias e teses universitárias, inclusive por sua preocupação em renovar a obra de arte de ficção, sem perder de vista o prazer do leitor. Daí porque a história pode ser lida com o sabor de um romance policial, mas com as revelações estruturais de um verdadeiro escritor.

 

Editora: Iluminuras

ISBN: 8573212616

Ano: 2007

Edição: 1

Número de páginas: 191

Acabamento:  Brochura

Formato: Médio

 

7. O filho eterno – Cristovão Tezza – ROMANCE BRASILEIRO

 

Romance inédito que aborda os conflitos de um homem que tem um filho com Síndrome de Down. O protagonista se mostra inseguro, medroso e envergonhado com a situação, mas aos poucos, com muito esforço, enfrenta a situação e passa a conviver amorosamente com o menino.

 

Editora: Record

ISBN: 8501077887

Ano: 2007

Edição: 1

Número de páginas: 224

Acabamento:  Brochura

Formato: Médio

 

 

8. O sol se põe em São Paulo – Bernardo Carvalho – ROMANCE BRASILEIRO

 

No Japão da Segunda Guerra, um triângulo amoroso envolve Michiyo, Jokichi e Masukichi – uma moça de boa família, um filho de industrial e um ator de kyogen, o teatro cômico japonês. À primeira vista, isso é tudo que Setsuko, a dona do restaurante japonês, tem a contar ao narrador de O Sol se Põe em São Paulo, novo romance de Bernardo Carvalho. Mas logo a trama se complica e se desdobra em outras mais, passadas e presentes, que desnorteiam o narrador involuntário, agora compelido a um verdadeiro trabalho de detetive para completar a história em que se viu enredado. Pois o relato de Setsuko aponta para além do desejo, da humilhação e do ressentimento amoroso, e se vincula aos momentos mais terríveis da História contemporânea – tanto do Japão como do Brasil. Obra sem fronteiras, que une a Osaka de outrora à São Paulo de hoje, e esta à Tóquio do século XXI, o romance de Bernardo Carvalho entrelaça tempos e espaços que o leitor julgaria essencialmente separados – e nos quais a prosa de ficção brasileira não costuma se arriscar. Caberá ao narrador de O Sol se Põe em São Paulo transitar de um pavilhão japonês no bairro do Paraíso a um cybercafé na Tóquio pós-moderna, das fazendas do interior de São Paulo aos campos de batalha da guerra no Pacífico. Tudo a fim de deslindar uma trama tortuosa, que envolve ainda um soldado raso, um primo do imperador e um escritor famoso (o romancista Junichiro Tanizaki) – e também sua própria pessoa, sua própria identidade: pária ou escritor?

 

Editora: Cia das Letras

ISBN: 9788535909777

Ano: 2007

Edição: 1

Número de páginas: 168

Acabamento:  Brochura

Formato: Médio

 

 

 

9. Os da minha rua – Ondjaki – CONTOS ANGOLANOS

 

Músicas, lugares e cheiros estimulam as lembranças do escritor angolano Ondjaki, no livro Os da minha rua, publicado pela editora Língua Geral.

 

Neste livro Ondjaki passeia pela infância, vivida em Luanda nas décadas de 1980 e 1990. Os limites entre biografia e ficção são continuamente desafiados: basta observar o tom intimista a mesclar-se continuamente a uma perspectiva histórica. Dessa forma Ondjaki amplia os horizontes de sua literatura, conduzindo os leitores a cenas de caráter intimista que levam ao registro de uma época em Angola.

 

Os da minha rua revela grande mobilidade não só pelo olhar intimista que se expande ao registro histórico: os 22 textos desta obra podem ser lidos como unidades autônomas, que valem por si mesmas (como se fossem contos), mas também podem ser lidos feito capítulos de um romance. Trata-se portanto de uma obra muito flexível, de intenso hibridismo, que se vale de outro tom, muito próximo ao da crônica. Este surge por meio do registro sobre o cotidiano, que vem a ser uma das marcas incontestáveis desse gênero.

 

 

Com um discurso muito afeita à oralidade, o narrador lembra de amigos, família, festas na casa dos tios, paixões, professores cubanos, a parada de 1.º de Maio, a piscina de Coca-Cola e a novela brasileira Roque Santeiro. Com essas memórias entre o ficcional e o biográfico, Ondjaki nos leva à reflexão sobre nossas próprias particularidades, de nosso passado e de nossas lembranças sobre um período de descobertas e brincadeiras.

 

“A vida às vezes é como um jogo brincado na rua: estamos no último minuto de uma brincadeira bem quente e não sabemos que a qualquer momento pode chegar um familiar a avisar que a brincadeira já acabou e está na hora de jantar. A vida afinal acontece muito de repente (…).”

 

Editora: Língua Geral

ISBN: 9788560160235

Ano: 2007

Edição: 1

Número de páginas: 168

 

Acabamento: Brochura

Formato: Médio

 

 

RESENHA DA PEREGRINA:

 

https://peregrinacultural.wordpress.com/?s=ondjaki

 

 

10. Tarde – Paulo Henriques Britto – POESIA BRASILEIRA

 

Tarde é composto de poemas em que a ironia e a metalinguagem convivem com o extremo rigor compositivo. O processo de criação é um tema caro ao autor. Seus versos denotam uma reflexão meticulosa sobre o fazer poético, mas extraem força justamente da aceitação de que o conhecimento teórico não esgota as possibilidades de sentido. Entre as vertentes arcaizantes, defensoras das formas poéticas canônicas, e os adeptos do verso livre, Britto consegue uma rara conciliação – apesar de rimados e metrificados com minúcia, seus poemas são coloquiais e bem-humorados como na melhor tradição modernista. O tom elevado encontra sempre um contrapeso no chiste e na autoparódia. Os entraves para uma comunicação efetiva com o leitor – não apenas decorrentes das limitações da linguagem, mas do próprio estatuto acanhado da poesia no país – e a inadaptação ao mundo, expressa em poemas como ´Para um monumento ao antidepressivo´, constituem núcleos temáticos igualmente centrais em Tarde.

 

Editora: Companhia das Letras

ISBN: 9788535910438

Ano: 2007

Edição: 1

Número de páginas: 96

Acabamento:  Brochura

Formato: Médio

 

 





Presente, poema infantil de Matilde Rosa Araújo

31 08 2008

Presente                                 Matilde Rosa Araújo                    

A girafa deu
ao seu
marido
no dia
de Natal
um lenço
colorido
de seda natural.
Que alegria!
– disse o marido –
ponha a pata
nesta pata,
com um pescoço
tão comprido
você não podia
ter-me comprado
uma gravata.

 

Matilde Rosa Araújo (Lisboa 1921 – 2010) pedagoga, escritora e poeta.

 

Obra

O Livro da Tila – poemas para crianças, 10ª edição, Livros Horizonte, 1986;

O Palhaço Verde – novela infantil, 5ª edição, Livros Horizonte, 1984 ; 

História de um Rapaz – conto infantil, 8ª edição, Livros Horizonte, 1986; 

O Cantar da Tila – poemas para a juventude, 8ª edição, Livros Horizonte, 1986; 

O Sol e o Menino dos Pés Frios – contos, 7ª edição, Livros Horizonte, 1986; 

O Reino das Sete Pontas – novela infantil, 2ª edição, Livros Horizonte, 1986; 

Os Quatro Irmãos – 2ª edição, Livros Horizonte, 1983 (ilustrações de Ana Leão); 

História de uma Flor – conto infantil, 1ª edição, Faoj; O Sol Livro – textos para o ensino, 1ª edição, Livros Horizonte, 1976; 

Os Direitos da Criança Livros Horizonte – 1ª edição, Unicef, 1977; 

O Gato Dourado – contos infantis, 3ª edição, Livros Horizonte, 1985; 

As Botas de Meu Pai – contos infantis, 2ª edição, Livros Horizonte, 1981; 

Camões, Poeta Mancebo e Pobre – divulgação, 1ª edição, Prelo Editora, 1978; 

Baladas das Vinte Meninas – poema infantil, Plátano Editora, 1978; 

Joana-Ana – conto infantil, Livros Horizonte, 1981; 

A Escola do Rio Verde – 2ª edição, Livros Horizonte, 198l; 

O Cavaleiro Sem Espada – Livros Horizonte, 1979; 

A Velha do Bosque – Livros Horizonte, 1993; 

A Guitarra da Boneca – Livros Horizonte, 1983; 

As Crianças, Todas as Crianças – Livros Horizonte, 1976; 

A Infância Lembrada – Antologia – Livros Horizonte, 1986; 

A Estrada Fascinante – Livros Horizonte, 1988; Mistérios – Livros Horizonte, 1988; 

Rosalina Foi à Feira – Livraria Arnado, 1994;

O Chão e a Estrela – Editora Verbo  1997; 

As Fadas Verdes – Livraria Civilização, 1994; 

“A Fonte do Real”, in Soares, Luísa Ducla (org.), A Antologia Diferente – De que São Feitos os Sonhos, Porto, Areal, (1986), pp. 30-32; 

Voz Nua, Lisboa, Horizonte, 1986; “A menina do pinhal”, in AAVV, Histórias e Canções em Quatro Estações – Primavera. Lisboa. Lisboa Editora. 1988, pp. 9-24; 

O Passarinho de Maio, Lisboa. Horizonte, 1990; 

O Chão e a Estrela, Lisboa, Verbo, 1994; 

A Estrada Fascinante, Lisboa, Horizonte, 1988 (ensaio).

 

 





Um Homem de palavra, entendendo o Líbano com Nazir Hamad

31 08 2008

 

Se você acha que uma das maneiras de aprender sobre os conflitos religiosos e políticos, sobre os muçulmanos, cristãos e judeus no Oriente Médio pode ser feito através da literatura, há um livro muito interessante que você deve ler.   Ele lhe dará uma visão de todas as mudanças porque passaram as aldeias, os pequenos vilarejos e as sociedades heterogêneas, localizadas em terras que estavam dominadas na passagem do século XIX para o XX, pelos grandes poderes europeus ( França e Inglaterra).  Estes locais, em países que ainda não existiam na época, que faziam parte das grandes terras de territórios franceses e ingleses, ganhos a custa da queda do império otomano, ficavam à volta do Mediterrâneo e hoje formam países inventados pelo europeu, que juntou e dividiu grupos étnicos ao bel prazer.  Estas pessoas que viviam em aldeias seculares, mantendo tradições religiosas não só islâmicas, mas também cristã ortodoxa, cristã e judaica, tiveram que se adaptar freqüentemente à medida que outras invenções territoriais lhes afetaram no que até então tinham sido tradições e maneiras de viver milenares.  Difícil é às vezes, nos lembrarmos de que tudo isto aconteceu só em cem anos.  Mas a narrativa de Nazir Hamad, um conhecido psicanalista libanês radicado na França, sobre o período de meados do século XX dá ao leitor uma idéia clara, fazendo do individual o universal, sobre as raízes dos movimentos que geram os conflitos no Oriente Médio hoje.   Esta pequena aula de história, de história cultural, de antropologia, vem sob a forma de um maravilhoso romance: Um homem de palavra,  Nazir Hamad, [ Rio de Janeiro, Companhia de Freud:2004, 218 páginas], com tradução de Procópio Abreu.

 

 

 

Num outro nível este romance também traz à superfície uma perspectiva que nem sempre me pareceu tão clara: as diferentes visões de identidade, do EU vistas de quem mora numa aldeia e de quem mora numa metrópole.  Uma das mais interessantes observações é que a identidade daqueles que vivem numa aldeia é adquirida mais através do OUTRO do que através de si mesmo.  Trocando em miúdos: porque numa aldeia todos conhecem todos, a identidade de cada um é facilmente construída pelo que os outros pensam de você.   Enquanto numa metrópole, onde ninguém o conhece a identidade de cada um tem que ser vista de dentro para fora.  O sentido do EU se torna mais importante.  Esta então é a grande transição porque passa a região deste romance.  Quando todos sabem que sou um homem bom, porque é assim que eles me vêem, continuo a ser um homem bom.  Mas, se ninguém sabe, se o mundo de repente é diferente, é preciso não só que eu seja um homem bom, mas que eu tenha a potencialidade de mostrar e de admiti-lo para mim mesmo.  É esta mudança psicológica que presenciamos através da trama do livro, sem que uma palavra a respeito seja dita.  

 

Recomendo a leitura deste livro por todos.  Excelente.