Ano-novo — poema de Wilson Frade

29 12 2008

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Ilustração de Blanche Fisher Wright

ANO-NOVO

 

 

                                 Wilson Frade

 

 

As últimas horas que restam são de incrível exorcismo.

Os meninos curtem, sonolentos, brinquedos de Papai Noel,

mas as luas que me restam são roteiros irrecuperáveis.

Nem todos os sinos repicam ao mesmo tempo

e nem todos os seios amamentam com o mesmo leite.

Os pândegos comemoram à sua maneira,

e há sintomas de medo e espanto.

Jogo na cesta papéis sem memória

que os rios levam nas suas mesmas águas.

Meia-noite…  Subo ao céu para beijar a estrela

porque já sou Ano-novo.

E ela nunca mais será a mesma rosa.

 

 

 

 

Em: Poemas de um livro só, Nova Fronteira:1991, Rio de Janeiro

 

 

Wilson Frade – (MG 1920-2000) jornalista, pintor, poeta, instrumentista e compositor mineiro.





NATAL — poema de Mauro Mota

21 12 2008

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Grandes Horas de Ana da Bretanha

Bibliothèque nationale de France

Cota: Lat. 9474

Data: c. 1503-1508

Tamanho: 305 x 200 mm

476 páginas iluminadas com 49 miniaturas a toda página

337 iluminuras marginais com plantas, insectos e pequenos mamíferos

Pintor: Jean Bourdichon

Lugar de origem: Tours

Escrito em Latim

 

 

Natal

 

                               Mauro Mota

 

 

Natal antes e agora

imutável.  Feliz

noite branca sem hora

no pátio da Matriz.

 

 

Natal: os mesmos sinos

de repiques iguais.

Brinquedos e meninos,

Natal de outros natais.

 

 

A Banda, vozes, passos

da multidão fiel.

Tudo nos seus espaços,

o mundo e o carrossel.

 

 

Tudo, menos o andejo

homem que se conclui.

Olho-me e não me vejo,

não sei para onde fui.

 

 

 

 

Em: Antologia Poética, Mauro Mota, Editora Leitura: 1968, Rio de Janeiro

 

 

 

Mauro Ramos da Mota e Albuquerque (Nazaré da Mata, 16 de agosto de 1911 — Recife, 22 de novembro de 1984) foi um jornalista, professor, poeta, cronista, ensaísta e memorialista brasileiro.

 

Obras:

 

Elegias (1952)

A tecelã (1956)

Os epitáfios (1959)

Capitão de Fandango (1960, crônica)

O galo e o cata-vento, (1962)

Canto ao meio (1964)

O Pátio vermelho: crônica de uma pensão de estudantes (1968, crônica)

Poemas inéditos (1970)

Itinerário (1975)

Pernambucânia ou cantos da comarca e da memória (1979)

Pernambucânia dois (1980)

Mauro Mota, poesia (2001)

Antologia poética, 1968

Antologia em verso e prosa, 1982.

 

 





Mensagem de Natal, poema de Afonso Louzada

19 12 2008

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Natividade, sd

Anita Malfatti, Brasil (1889-1964)

Óleo sobre tela  65 x 81cm

 

 

 

 

 

 

 

MENSAGEM DE NATAL

 

 

                                 Afonso Louzada

 

 

Glória a Deus nas alturas, meus irmãos,

e paz na terra aos homens que são bons.

Todos se dêem fraternalmente as mãos,

abrindo para o amor os corações.

 

Da concórdia os clarins, pelos desvãos,

estão cantando os sacrossantos sons

e se ilumina o mundo dos cristãos

na apoteose triunfal de seus clarões.

 

Glória a Deus nas alturas, paz na terra.

Brilhe a estrela do amor, gloriosamente,

depois da horrenda maldição da guerra.

 

E para sempre a fé que nos irmana

abençoe este mundo impenitente,

para a imortalidade da alma humana.

 

 

Do livro:

 

 

 

SONETOS, Affonso Louzada, Rio de Janeiro, 1956, 2ª edição-aumentada.

 

Affonso Montenegro Louzada – (RJ – 1904 — ?), poeta, ensaísta, crítico, jornalista, teatrólogo, advogado, membro da Sociedade Homens de Letras do Brasil.  Hoje em diversos livros de referencia seu nome é encontrado assim: Afonso Lousada.

 

 

 Obras: 

Peço a palavra, (1934),  – fábulas me versos.

La Fontaine (1937) ensaios sobre fábulas.

Melo Matos, o apóstolo da infância, (1938 )

O cinema e a literatura na educação da criança (1939)

O problema da criança (1940)

Delinqüência infantil (1941)

A ação do Juízo de Menores (1944

Tempo abandonado ( 1945) – versos

Notas sobre a assistência a menores (1945)

Noturnos (1947) – versos

Literatura infantil (1950)

Histórias dos bichos (1954) – fábulas em versos.

 

 

Anita Catarina Malfatti (São Paulo, 2 de dezembro de 1889 — São Paulo, 6 de novembro de 1964) foi uma pintora, desenhista, gravadora e professora brasileira.

 

 





Canto de Natal — poesia de Manuel Bandeira

18 12 2008

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Natividade, 1746, 1754

Painel de azulejos portugueses

Igreja Basílica do Senhor do Bonfim

São Salvador, Bahia.

 

 

Canto de Natal

 

                                                  Manuel Bandeira

 

 

O nosso menino

Nasceu em Belém.

Nasceu tão-somente

Para querer bem.

 

Nasceu sobre as palhas

O nosso menino.

Mas a mãe sabia

Que ele era divino.

 

Vem para sofrer

A morte na cruz,

O nosso menino.

Seu nome é Jesus.

 

Por nós ele aceita

O humano destino:

Louvemos a glória

De Jesus menino.

 

 

Em: Antologia Poética, Manuel Bandeira, José Olympio: 1978, Rio de Janeiro.

 

Manuel Bandeira (Recife PE, 1884 – Rio de Janeiro RJ, 1968) foi poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura e tradutor brasileiro. Teve seu primeiro poema publicado aos 8 anos de idade, um soneto em alexandrinos, na primeira página do Correio da Manhã, em 1902, no Rio de Janeiro. Cursou Arquitetura, na Escola Politécnica, e Desenho de Ornato, no Liceu de Artes e Ofícios, entre 1903 e 1904; precisou abandonar os cursos, no entanto, devido à tuberculose. Nos anos seguintes, passou longos períodos em estações climáticas, no Brasil e na Europa.

 

Obras:

 

 

Poesia

 

 

A cinza das horas, 1917

Carnaval, 1919

O ritmo dissoluto, 1924

Libertinagem, 1930

Estrela da manhã, 1936

Lira dos cinquent’anos, 1940

Belo, belo, 1948

Mafuá do malungo, 1948

Opus 10, 1952

Estrela da tarde, 1960

Estrela da vida inteira, 1966

 

Prosa

 

 

Crônicas da Província do Brasil – Rio de Janeiro, 1936

Guia de Ouro Preto, Rio de Janeiro, 1938

Noções de História das Literaturas – Rio de Janeiro, 1940

Autoria das Cartas Chilenas – Rio de Janeiro, 1940

Apresentação da Poesia Brasileira – Rio de Janeiro, 1946

Literatura Hispano-Americana – Rio de Janeiro, 1949

Gonçalves Dias, Biografia – Rio de Janeiro, 1952

Itinerário de Pasárgada – Jornal de Letras, Rio de Janeiro, 1954

De Poetas e de Poesia – Rio de Janeiro, 1954

A Flauta de Papel – Rio de Janeiro, 1957

Itinerário de Pasárgada – Livraria São José – Rio de Janeiro, 1957

Andorinha, Andorinha – José Olympio – Rio de Janeiro, 1966

Itinerário de Pasárgada – Editora do Autor – Rio de Janeiro, 1966

Colóquio Unilateralmente Sentimental – Editora Record – RJ, 1968

Seleta de Prosa – Nova Fronteira – RJ

Berimbau e Outros Poemas – Nova Fronteira – RJ

 

 

IGREJA DE NOSSO SENHOR DO BONFIM é um dos principais cartões-postais da cidade.  A Igreja Basílica do Senhor Bom Jesus do Bonfim, ou Igreja de Nosso Senhor do Bonfim é um símbolo da religiosidade baiana. Sua construção teve início em 1740 com a chegada na Bahia do Capitão de Mar e Guerra, Theodósio de Faria.  Devoto do Senhor do Bonfim, em Setubal, Portugal,  trouxe de Lisboa uma imagem semelhante aquela,  esculpida em pinho de riga, medindo 1,06m de altura.  Conta-se que o Capitão português trouxe a imagem como agradecimento por haver sobrevivido a uma tempestade em alto-mar, tendo prometido construir uma igreja no ponto mais alto que avistasse, de onde pudesse acompanhar a entrada da Baía de Todos os Santos.

 

Em 1745, a imagem foi guardada na Igreja da Penha de França de Itapagipe, onde permaneceu até a construção do templo de Nosso Senhor do Bonfim. Nesse mesmo ano, foi fundada uma irmandade de devotos leigos que foi denominada “Devoção do Senhor do Bonfim”.   A construção levou vinte-seis anos de 1746 a 1772.  A imagem do santo foi passada para a nova igreja, em 1754, em uma procissão que contou com a presença de grande parte da população da cidade e do então Governador da Bahia. A imagem de Nossa Senhora da Guia, também trazida de Portugal por Theodósio de Faria, foi também colocada na Igreja de Nosso Senhor do Bonfim e passou a ser venerada junto com o santo.

 

 

 

 

 

 

 





Natal — poesia de Celina Ferreira

16 12 2008

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Nascimento de Jesus, 1304-1306

Giotto di Bondonne, Florença, 1267 –1337

afresco

Capela Arena, Pádua

 

 

Natal

 

                                          Celina Ferreira

 

 

Cada dia nasce

um novo menino

na palha, na seda,

no feno, no linho.

 

Cada dia nasce

um novo destino

que sempre começa

no mesmo menino.

 

A estrela de cada

natal é a medida

palavra que escapa

em face da vida.

 

Na ficha, a palavra

festiva traduz:

Antônio, Isaías,

Ricardo ou Jesus.

 

 

Em: Poesia cúmplice, Livraria São José:1959, Rio de Janeiro.

 

 

Celina Ferreira — nasceu em Cataguases, Minas Gerais, em 1928. Jornalista, dedicou-se também à literatura infantil.

 

Obras:

 

A princesa Flor-de-Lótus , 1958

Papagaio gaio: poeminhas, 1998

 

Obra poética:

 

Poesia de ninguém, 1954

Poesia cúmplice, 1959

Hoje poemas, 1967

Espelho convexo, 1973

 





Poema de Natal — Jorge de Lima

13 12 2008

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Nossa Senhora da Palma

Veríssimo de Souza Freitas

Igreja de Nossa Sra da Palma

São Salvador, Bahia

 

 

Poema de Natal

 

                                     Jorge de Lima

 

 

Ó Meu Jesus, quando você

ficar assim maiorzinho

venha para darmos um passeio

que eu também gosto de crianças.

 

Iremos ver as feras mansas

que há no jardim zoológico.

E em qualquer dia feriado

iremos, então, por exemplo,

ver Cristo Rei do Corcovado.

 

E quem passar

vendo o menino

há de dizer: ali vai o filho

de Nossa Senhora da Conceição!

 

— Aquele menino que vai ali

(diversos homens logo dirão)

sabe mais coisas que todos nós!

— Bom dia, Jesus!  — dirá uma voz.

 

E outras vozes cochicharão:

— É o belo menino que está no livro

da minha primeira comunhão!

 

— Como está forte!  — Nada mudou!

— Que boa saúde!  Que boas cores!

(Dirão adiante outros senhores.)

 

Mas outra gente de aspecto vário

há de dizer ao ver você:

  É o menino do carpinteiro!

 

E vendo esses modos de operário

que sai aos domingos para passear,

nos convidarão para irmos juntos

os camaradas visitar.

 

E quando voltarmos

pra casa, à noite,

e forem para o vício os pecadores,

eles sem dúvida me convidarão.

 

Eu hei de inventar pretextos sutis

pra você me deixar sozinho ir.

Menino Jesus, miserere nobis,

segure com força a minha mão.

 

 

Em:

Poesias Completas, volume I, Jorge de Lima, José Aguilar: 1974, Rio de Janeiro.

 

Jorge Mateus de Lima (União dos Palmares, AL, 23 de abril de 1893Rio de Janeiro, 15 de novembro de 1953) foi político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor e pintor brasileiro.

Obras:

 

Poesia:

 

XIV Alexandrinos (1914)

O Mundo do Menino Impossível (1925)

Poemas (1927)

Novos Poemas (1929)

O acendedor de lampiões (1932)

Tempo e Eternidade (1935)

A Túnica Inconsútil (1938)

Anunciação e encontro de Mira-Celi (1943)

Poemas Negros (1947)

Livro de Sonetos (1949)

Obra Poética (1950)

Invenção de Orfeu (1952)

 

Romance:

 

O anjo (1934)

Calunga (1935)

A mulher obscura (1939)

Guerra dentro do beco (1950)

 

Igreja de Nossa Senhora da Palma igreja e convento foram construídos sobre o “Monte das Palmas”, uma das primeiras áreas de expansão da cidade. Sua edificação, em 1630, deve-se a um ex-voto feito por Bernardino da Cruz Arraes, que estivera enfermo. O convento, desenvolvido em torno de um pátio retangular, ladeado pela igreja, é iniciado em 1670, posterior a igreja que, nesta época, é ampliada. Pertence à Ordem dos Agostinhos Descalços, é transferida à Irmandade do Senhor da Cruz, em 1822, com o retorno daqueles a Portugal. Acredita-se que a igreja atual, da 2ª metade do século XVIII, obedece basicamente o partido primitivo, com algumas alterações. Com planta em “T”, a igreja é formada por nave, sacristia subdividida e acrescidos corredores laterais e tribunas. A fachada tem elementos em estilo rococó, encimada por frontão com volutas e nicho, flanqueada por torre com terminação piramidal. Seu interior é uma transição do rococó e neoclássico, e o teto da nave possui pintura ilusionista barroca, atribuída a Veríssimo de Souza Freitas.

 

http://www.sumo.tv/watch.php?video=2774793

 

Veríssimo de Souza Freitas é mais um artista negro sem registro de nascimento e morte, mas deixou uma obra imortalizada ‘São João Nepomuceno’, óleo sobre tela do final do século 18. Muitas igrejas de Salvador –BA, são de sua autoria os  afrescos.

 

 ————-

Você encontra um outro poema de Jorge de Lima em: Minha Sombra.





Sinfonia Cotidiana — poema de J. G. de Araújo Jorge

30 11 2008

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Menina com gato e piano, 1967

Di Cavalcanti (Brasil 1897 – 1976)

óleo sobre tela  62 x 51 cm

Coleção Particular

 

 

Sinfonia Cotidiana

 

 

A manhã surge

aos sons do Concerto n.° 1 de Grieg

no rádio madrugador do meu vizinho.

 

A tarde chega

acompanhada pelo Prelúdio n.° 24 de Chopin,

num piano sem lugar.

 

A madrugada se embala

com a música do mar.

 

 

J. G. de Araújo Jorge

 

 

Em: A outra face, Editora Vecchi:1957, Rio de Janeiro

 

 

José Guilherme de Araújo Jorge (AC 1914 – RJ 1987), conhecido como J. G. de Araújo Jorge, foi um poeta e político brasileiro.

 

 

 

 

Obras:

 

 

Meu Céu Interior, 1934 

Bazar De Ritmos, 1935 

Cântico Do Homem Prisioneiro, 1934

Amo!, 1938

Eterno Motivo, 1943

O Canto Da  Terra, 1947

Estrela Da Terra, 1947

Festa de Imagens, 1948

A Outra Face, 1949

Harpa Submersa, 1952

A Sós. . ., 1958

Concerto A 4 Mãos, 1959

Espera.. ., 1960

De Mãos Dadas, 1961

Canto A Friburgo, 1961

Cantiga Do Só, 1964

Cantigas De Menino Grande. 100 Trovas, 1964

Trevos De Quatro Versos . Trovas, 1964

Quatro Damas, 1965

Mensagem, 1966 

Cantigas De Menino Grande. 100 Trovas, 1964

Trevos De Quatro Versos . Trovas, 1964

O Poder Da Flor, 1969

Um Besouro Contra A Vidraça  PROSA, 1942

 Com Letra Minúscula- PROSA, 1961

 

 

 

 

Emiliano Augusto Cavalcanti de Albuquerque e Melo, mais conhecido como Di Cavalcanti (Rio de Janeiro, 6 de setembro de 1897 — Rio de Janeiro, 26 de outubro de 1976) foi um pintor, ilustrador e caricaturista brasileiro.

 

 

Edvard Hagerup Grieg (Noruega 1843 – 1907) compositor norueguês, um dos mais célebres do período romântico e do mundo. As suas peças mais conhecidas são a Suíte Sinfónica Holberg, o concerto para piano e a Suíte Peer Gynt.

 

 

Frédéric Chopin (Polônia 1810 — 1849) foi um pianista grande músico e compositor para piano da era romântica. É amplamente conhecido como um dos maiores compositores para piano e um dos pianistas mais importantes da história. Sua técnica refinada e sua elaboração harmônica vêm sendo comparadas historicamente com as de outros gênios da música, como Mozart e Beethoven, assim como sua duradoura influência na música até os dias de hoje.





Canção de Gonçalves Crespo, no dia da consciência negra

20 11 2008

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Mulata, s/d

Di Cavalcanti (Brasil, 1897-1976)

Óleo sobre tela.

 

 

 

 

 

CANÇÃO 

 

                               Gonçalves Crespo

 

                                                            A Bernardino Machado

 

 

                              I

 

Mostraram-me um dia na roça dançando

Mestiça formosa de olhar azougado,

Co’um lenço de cores nos seios cruzado,

Nos lobos de orelha pingentes de prata.

               Que viva mulata!

                Por ela o feitor

Diziam que andava perdido de amor.

 

 

                             II

 

De entorno dez léguas da vasta fazenda

A vê-la corriam gentis amadores,

E aos ditos galantes de finos amores,

Abrindo seus lábios de viva escarlata,

                 Sorria a mulata,

                 Por quem o feitor

Nutria quimeras e sonhos de amor.

 

 

                           III

 

Um pobre mascate, que em noites de lua

Cantava modinhas, lunduns magoados,

Amando a faceira dos olhos rasgados,

Ousou confessar-lhe com voz timorata…

                 Amaste-o, mulata!

                 E o triste feitor

Chorava na sombra perdido de amor.

 

 

                           IV

 

Um  dia encontraram na escura senzala

O catre da bela mucamba vazio;

Embalde recortam pirogas o rio,

Embalde a procuram nas sombras da mata.

                 Fugira a mulata,

                 Por quem o feitor

Se foi definhando, perdido de amor.  

 

 

 

 

Em: Obras Completas, Gonçalves Crespo, Livros de Portugal, s/d, Rio de Janeiro.

 

 

 

 

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António Cândido Gonçalves Crespo (Rio de Janeiro, 1846 — Lisboa, 1883), jurista e poeta, membro das tertúlias intelectuais portuguesas do último quartel do século XIX. Formou-se em Direito na Universidade de Coimbra, tendo colaborado em diversos periódicos, entre os quais O Ocidente e a Folha, o jornal de que era director João Penha, o poeta que introduziu em Portugal o Parnasianismo.  Foi casado com a poetisa Maria Amália Vaz de Carvalho.

 

 

 

 

 

dicavalcantiEmiliano Augusto Cavalcanti de Albuquerque e Melo, mais conhecido como Di Cavalcanti (Rio de Janeiro, 6 de setembro de 1897 — Rio de Janeiro, 26 de outubro de 1976) foi um pintor, ilustrador e caricaturista brasileiro.





Canto da minha terra, Olegário Mariano, para o dia 15 de novembro

14 11 2008

 

No dia 15 de novembro comemoramos a Proclamação da República.  É um momento para pensarmos neste nosso país.  E por que não pensar no que o faz maravilhoso?  Com esta intenção lembro aqui do poema de Olegário Mariano. 

 

 

 

 

 

 

 

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Paisagem de Campos do Jordão, s/d

Rubens Fortes Bustamante Sá (RJ 1907- TJ 1988)

Óleo sobre tela

Coleção particular, Rio de Janeiro

 

 

Canto da minha terra

 

Olegário Mariano

 

 

Amo-te, ó minha terra, por tudo o que me tens dado:

Pelo azul do teu céu, pelas tuas árvores, pelo teu mar;

Pelas estrelas do Cruzeiro que me deixam anestesiado,

Pelos crepúsculos profundos que põem lágrimas no meu olhar;

 

Pelo canto harmonioso dos teus pássaros, pelo cheiro

Das tuas matas virgens, pelo mugido dos teus bois;

Pelos raios do sol, do grande sol que eu vi primeiro…

Pelas sombras das tuas noites, noites ermas que eu vi depois;

 

Pela esmeralda líquida dos teus rios cristalinos,

Pela pureza das tuas fontes, pelo brilho dos teus arrebóis;

Pelas tuas igrejas que respiram pelos pulmões dos sinos,

Pelas tuas casas lendárias onde amaram nossos avós;

 

Pelo ouro que o lavrador arranca das tuas entranhas,

Pela bênção que o poeta recebe do teu céu azul,

Pela tristeza infinita, infinita das tuas montanhas,

Pelas lendas que vêm do Norte, pelas glórias que vêm do Sul;

 

Pelo teu trapo de bandeira que flâmula ao vento sereno,

Pelo teu seio maternal onde a cabeça adormeci,

Sinto a dor angustiada do teu coração pequeno

Para conter a onda sonora que canta de amor por ti.

 

Em:  Toda uma vida de poesia: poesias completas, Olegário Mariano, em dois volumes, José Olympio: 1957, Rio de Janeiro, 1° volume.

 

 

 

Olegário Mariano Carneiro da Cunha, (PE1889 —  RJ 1958). Poeta, político e diplomata brasileiro.

 

Obras:

 

Angelus (1911)

Sonetos (1921)

Evangelho da sombra e do silêncio (1913)

Água corrente, com uma carta prefácio de Olavo Bilac (1917)

Últimas cigarras (1920)

Castelos na areia (1922)

Cidade maravilhosa (1923)

Bataclan, crônicas em verso (1927)

Canto da minha terra (1931)

Destino (1931)

Poemas de amor e de saudade (1932)

Teatro (1932)

Antologia de tradutores (1932)

Poesias escolhidas (1932)

O amor na poesia brasileira (1933)

Vida Caixa de brinquedos, crônicas em verso (1933)

O enamorado da vida, com prefácio de Júlio Dantas (1937)

Abolição da escravatura e os homens do norte, conferência (1939)

Em louvor da língua portuguesa (1940)

A vida que já vivi, memórias (1945)

Quando vem baixando o crepúsculo (1945)

Cantigas de encurtar caminho (1949)

Tangará conta histórias, poesia infantil (1953)

Toda uma vida de poesia, 2 vols. (1957)

 

 

 





Canção da Primavera — poema de Mário Quintana

23 09 2008
Catavento, de Luciana Teruz (Brasil 1961)

Catavento, de Luciana Teruz (Brasil 1961)

 

Canção da Primavera

 

 

(Para Érico Veríssimo)

 

 

 

Primavera cruza o rio

Cruza o sonho que tu sonhas.

Na cidade adormecida

Primavera vem chegando.

 

Catavento enloqueceu,

Ficou girando, girando.

Em torno do catavento

Dancemos todos em bando.

 

Dancemos todos, dancemos,

Amadas, Mortos, Amigos,

Dancemos todos até

 

Não mais saber-se o motivo…

Até que as paineiras tenham

Por sobre os muros florido!

 

Mário Quintana 

 

Mario Quintana; Canções, 1946

 

 

Mário de Miranda Quintana – (RS 1906 – RS 1994) poeta, tradutor e jornalista.

 

Obras:

 

– A Rua dos Cata-ventos (1940)

– Canções (1946)

– Sapato Florido (1948)

– O Batalhão de Letras (1948)

– O Aprendiz de Feiticeiro (1950)

– Espelho Mágico (1951)

– Inéditos e Esparsos (1953)

– Poesias (1962)

– Antologia Poética (1966)

– Pé de Pilão (1968) – literatura infanto-juvenil

– Caderno H (1973)

– Apontamentos de História Sobrenatural (1976)

– Quintanares (1976) – edição especial para a MPM Propaganda.

– A Vaca e o Hipogrifo (1977)

– Prosa e Verso (1978)

– Na Volta da Esquina (1979)

– Esconderijos do Tempo (1980)

– Nova Antologia Poética (1981)

– Mario Quintana (1982)

– Lili Inventa o Mundo (1983)

– Os melhores poemas de Mario Quintana (1983)

– Nariz de Vidro (1984)

– O Sapato Amarelo (1984) – literatura infanto-juvenil

– Primavera cruza o rio (1985)

– Oitenta anos de poesia (1986)

– Baú de espantos ((1986)

– Da Preguiça como Método de Trabalho (1987)

– Preparativos de Viagem (1987)

– Porta Giratória (1988)

– A Cor do Invisível (1989)

– Antologia poética de Mario Quintana (1989)

– Velório sem Defunto (1990)

– A Rua dos Cata-ventos (1992) – reedição para os 50 anos da 1a. publicação.

– Sapato Furado (1994)

– Mario Quintana – Poesia completa (2005)