Prece a Xavier, o Tiradentes — poema de Murilo Araújo pelo 21 de abril

20 04 2009

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Julgamento da Inconfidência, 1921

Eduardo de  Sá ( RJ, 1866 – RJ, 1940)

Óleo sobre tela

Museu Histórico Nacional

 

 

 

 

 

 

 

Prece a Xavier,  o Tiradentes

 

                                               Murilo Araújo

 

 

 

Marchaste, sem tremer, na alva dos condenados.

 

 

Ela voava ao vento,

alva como tua alma.

E galgaste os degraus da tortura

descalço.

 

 

Mas que enormes degraus!  Iam a tal altura

que por eles, chegaste ao céu, ao sol, a Deus,

subindo ao cadafalso.

 

 

Alferes Xavier – é inesperada e estranha

a Luz Providencial!

Envolve num fracasso a maior das vitórias;

faz perder quem mais ganha;

e arroja à morte –

à morte –

o justo que elegeu para ser imortal.

 

 

E assim a insurreição sagrada

que te santificou –

tu, que eras o menor,  foste o maior na glória;

tua lenda dourada

mais do que todas na memória se elevou.

 

 

Tinham todos bons títulos de efeito

os teus irmãos na grande Inconfidência.

 

Tu que não eras doutor, ó guarda do Direito;

não eras sacerdote, ó  mártir da consciência;

nem comandaste – herói – como Freire de Andrade,

um terço de dragões…

Tinhas no cofre da alma a pureza e a verdade

e essa indomável vocação da liberdade

mais poderosa que togas e legiões.

 

 

Ah!  As multidões da terra

exaltam todas, como gênios tutelares,

grandes falcões de guerra

de cujas garras brota o raio e a morte desce…

Mas, ando do Brasil, — tu mereces altares,

porque, invés de matar, foste morrer estóico

por um destino que hoje em luzes resplandece!

 

 

Inabalável, foste a Fé que, decidida,

serenamente,  voluntária, se imolou.

Com a própria vida deste à Pátria vida;

e a oferenda de sangue trouxe ao povo

um prêmio que do Céu, que de Deus lhe alcançou.

 

 

Vinda a hora funesta,

Deus quis que os opressores

cercassem tua morte em rumores de festa,

levassem teu cortejo ao rufo de tambores

e ao grito  do clarim,

e adornassem a rua e as fachadas com flores,

contentes os senhores,

pois morrias enfim…

 

 

Mas  — que pura ironia a desse instante! –

glorificaram, sem saber, a redenção…

porque, com tua morte triunfante,

surgiu formada e indestrutível

a Nação!

 

 

Alferes Xavier, entre os teus, meu patrício,

tu que eras o menor,

cresceste tanto na coragem e sacrifício,

que deixaste no pó todos em derredor.

 

 

Onde estão hoje tantos juízes e fidalgos?

Onde os soldados?  Os esbirros da tortura?

Onde esses nobres de brasão e de arcabuz?

 

 

Ah!  Pisavam tão forte … e pisaram em falso!

Mas na tua hora escura,

subindo, humílimo, os degraus do cadafalso,

Alferes Xavier, chegaste à grande Luz.  

 

 

 

 

Encontrado em:

 

O candelabro eterno: aos moços – este álbum dos avós que criaram o Brasil, publicado pela primeira vez em 1955, parte da  Poemas Completos de Murillo Araújo [Murilo Araújo], 3 volumes, Rio de Janeiro, Irmãos Pongetti:1960

 

 

 

Murilo Araújo – ou Murillo Araújo — (MG 1894 – RJ 1980) jornalista, formado em direito.  Poeta, escritor, teatrólogo, ensaísta.

 

 

 

Obras:

 

Carrilhões (1917) 

A galera (escrito em 1915, mas publicado anos depois)

Árias de muito longe (1921)

A cidade de ouro (1927)

A iluminação da vida (1927)

A estrela azul (1940)

As sete cores do céu (1941)

A escadaria acesa (1941)

O palhacinho quebrado (1952)

A luz perdida (1952)

O candelabro eterno (1955)

 

 

Prosa:

A arte do poeta (1944)

Ontem, ao luar (19510 — uma biografia do compositor Catulo da Paixão Cearense

Aconteceu em nossa terra (pequenos casos de grandes homens)

Quadrantes do Modernismo Brasileiro (1958)

 

 

———————-

 

 

Eduardo de Sá (Rio de Janeiro RJ 1866 – idem 1940). Escultor, pintor e restaurador. Frequenta aulas particulares de escultura com Rodolfo Bernardelli e estuda na Academia Imperial de Belas Artes – Aiba, entre 1883 e 1886, com Victor Meirelles, Zeferino da Costa, José Maria de Medeiros e Pedro Américo. Em 1888, em Paris, estuda na Académie Julian, onde foi aluno de Gustave Boulanger e de Jules Joseph Lefebvre. Um de seus trabalhos mais conhecidos é o restauro do escudo do teto da entrada da capela da Santa Casa de Misericórdia, no Rio de Janeiro.

 

 

 

 

Outros poemas de Murillo Araújo (Murilo Araújo neste blog):

 

Dois tesouros na pátria

Romance dos Dois Pedros

Dia de festa

Com as estrelas natais





Quadrinha : crianças brasileiras

17 04 2009

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Menino com bandeira, 1980s

Marysia Portinari (Brasil, 1937)

Óleo sobre tela

Coleção particular

 

 

 

Estudando e trabalhando,

Sob este céu de anil,

As crianças vão fazer

A grandeza do Brasil!

 

(Anônima)

 

 

 

Em: Criança brasileira, Theobaldo Miranda Santos: segundo livro de leitura, Rio de Janeiro, Agir: 1950.

 

 

 

 





Ser criança — quadrinha de Porphírio Rodrigues

14 04 2009

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Ser criança é coisa boa.

É estudar, comer, dormir.

É ter muito tempo à toa,

aguardando um bom porvir.

 

 

 

 

 

 

 

Outras quadrinhas neste blog:

 

 

O dia

Gato e Rato

Passarinhos

Cuidar dos animais

 

 





Vozes da noite, poema infantil de Armando Cortes Rodrigues

11 04 2009

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Vozes da noite

 

Armando Cortes Rodrigues

 

 

 

Vozes na Noite!  Quem fala

Com tanto ardor, tanto afã?

Falou o Grilo primeiro,

Logo depois foi a rã.

 

 

Pobre loucura dos homens

Quando julgam entendê-las…

Só eles pasmam os olhos

Neste encanto das estrelas.

 

 

Lá no silêncio dos campos

Ou no mais ermo da serra,

Na voz das rãs fala a água,

Na voz dos grilos a Terra.

 

 

Só eles cantam a vida

Com amor e singeleza,

Por ser descuidada, alegre;

Por ser simples com beleza.

 

 

Pudesse agora dizer-te,

Sem ser por palavras vãs,

O que diz a voz dos grilos,

O que diz a voz das rãs.

 

 

 

Em: Antologia Poética para a infância e a juventude,  Henriqueta Lisboa, Rio de Janeiro, INL:1961

 

 

 

Armando Cortes Rodrigues (1891-1971) Escritor português, nasceu em Vila Franca do Campo, S. Miguel a 28 de Fevereiro de 1891 . Tendo escrito na sua terra a opereta – Em Férias – de colaboração com um condiscípulo, ainda estudante do liceu, vem para Lisboa (1915), onde se matricula no Curso Superior de Letras. Licenciou-se em Filologia Românica, em 1927. Passou o resto da vida nos Açores, como professor. Foi diretor da revista Insular.

 

 

Obras poéticas:

 

Ode a Minerva. Angra do Heroísmo, 1922

Conto do Natal para a Fernanda, 1922  

Em Louvor da Humildade. Poemas da Terra e dos Pobres, 1924

Cântico das Fontes, 1934

Cantares da Noite Seguidos dos Poemas de Orpheu, 1942

Quatro Poemas Líricos, 1948

Horto fechado e Outros Poemas, 1953

Antologia de Poemas de Armando Côrtes-Rodrigues, 1956

Em Louvor da Redondilha, 1957

Auto do Espírito Santo, 1957   

Auto do Natal,  1965

 





Anjo da Guarda — poema infantil de Emílio Moura

10 04 2009

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Vaso chinês com dragão, pintura de Gary Michaels.

 

 

 

 

 

Anjo da Guarda

 

Emílio Moura

 

 

Dentro da sala meio escura

o Dragão salta do vaso.

Nenhuma espada em minha mão.

 

 

O tapete foge, o teto estica-se.

 

 

“ – Dorme, dorme, meu filhinho…”

 

 

Quem é que pega o Monstro

E prega o Monstro no vaso?

 

 

Alguém está pegando o Monstro…

 

 

 

Em: Antologia Poética para a infância e a juventude, Henriqueta Lisboa, Rio de Janeiro, INL: 1961

 

 

 

Emílio Guimarães Moura (14 de agosto de 1902, Dores do Indaiá—28 de setembro de 1971, Belo Horizonte) foi um professor universitário, poeta modernista e redator dos periódicos Diário de Minas, Estado de Minas e A Tribuna de Minas Gerais. Moura foi também um dos fundadores da FACE-UFMG, onde lecionou e da qual foi o primeiro reitor.

 

 

Obras:

 

Ingenuidade (1931)

Canto da hora amarga (1936)

Cancioneiro (1945)

O espelho e a musa (1949)

O instante e o eterno (1953)

A casa (1961)

50 Poemas escolhidos pelo autor (1961)

Itinerário Poético (1969)

 

 

 





Súplica, poeminha de Martins d’Alvarez

9 04 2009

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Andorinhas na primavera, aquarela chinesa.

 

 

Súplica

 

                        Martins d’Alvarez

 

 

Saudade, minha amiguinha,

procura aquela andorinha

que o meu caminho cortou.

Pede à avezinha erradia

que me devolva a alegria

que ela me ofertou um dia

e no outro dia tomou!

 

 

 

 

Em: Poesia do cotidiano, Fortaleza, Ceará, Editora Clã: 1977

 

 

 

José Martins D’Alvarez   (CE 1904)  Poeta, romancista, jornalista, diplomado em Farmacia e Odontologia, professor, membro da Academia Cearense de Letras. Nasceu na cidade de Barbalha, Estado do Ceara, em 14 de setembro de 1904.  Filho de Antonio Martins de Jesus a de Antonia Leite da Cruz Martins. Fez os estudos primários na sua cidade natal, os secundários, no Liceu do Ceará.  Depois de formado em Odontologia. Transferiu em 1938 sua residência para o Rio de Janeiro, onde exerceu, além de atividades na imprensa, atividades no magistério superior.

 

 

 

Obras:

 

“Choro verde: a ronda das horas verdes”, 1930 (versos).

“Quarta-feira de cinzas”, 1932 (novela).

 “Vitral”, 1934 (poemas).

“Morro do moinho” 1937 (romance)

“O Norte Canta”, 1941 (poesia popular).

“No Mundo da Lua”, 1942 (poesia para crianças).

“Chama infinita, 1949 (poesias)

“O nordeste que o sul não conhece 1953 (ensaio)

“Ritmos e legendas” 1959 (poesias escolhidas)

“Roteiro sentimental: geopolítica do Brasil” 1967 (poesias escolhidas)

“Poesia do cotidiano”, 1977 (poesias)

 

 

 

 

Outros poemas de Martins d’Alvarez neste blog:

 

 

ANJO BOM ; AMIGOS ; JOÃO E MARIA

 

 





Quadrinha sobre O DIA — Ledo Ivo

6 04 2009

manha-na-terra

Manhã na Terra.

 

 

 

 

 

Ó grande noite sonora

caída sobre o Ocidente,

o dia que dissipaste

recolhe-o alguém no Oriente.

 

 

 

 

 

Outras quadrinhas neste blog:

 

 

Ser criança

Gato e Rato

Passarinhos

Cuidar dos animais

 

 





O astronauta, poema infantil de Odylo Costa, Filho

1 04 2009

foguete-saindo-da-terra

 

 

 

O Astronauta

 

                                   Odylo Costa Filho

 

 

Ia um astronauta

pelo céu sozinho

deixou seu foguete,

perdeu seu caminho.

 

Era tudo branco

  por dentro ou por fora –

porém não chorava,

porque homem não chora.

 

Pediu: — “Meu Senhor,

acabai com a Guerra,

mesmo que eu não possa

voltar para a Terra!

 

Foi Deus, que mandou

um anjo levar

o moço, na Páscoa,

de volta pro lar.

 

E exércitos de asas

vieram pelo ar

com palmas e rosas

a Guerra acabar.

 

 

 

 

 

 

 

Odylo Costa, Filho (MA 1914-  RJ 1979) – formado em direito, foi diplomata, ensaista, jornalista, cronista, novelista e poeta.

 

 

 

Obras:

 

Graça Aranha e outros ensaios (1934)

Livro de poemas de 1935, poesia, em colaboração com Henrique Carstens (1936)

Distrito da confusão, crônicas (1945)

A faca e o rio, novela (1965)

Tempo de Lisboa e outros poemas, poesia (1966)

Maranhão: São Luís e Alcântara (1971)

Cantiga incompleta, poesia (1971)

Os bichos do céu, poesia (1972)

Notícias de amor, poesia (1974)

Fagundes Varela, nosso desgraçado irmão, ensaio (1975)

Boca da noite, poesia (1979)

Um solo amor, antologia poética (1979)

Meus meninos e outros meninos, artigos (1981).

 

 

 

Outro poema de Odylo Costa, Filho neste blog:

 

Coelhinhos





Minha sombra, poema para crianças, Jorge de Lima

28 03 2009

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Ironia é minha sombra*, 2006

Mark Kostabi (EUA, 1960)

Óleo sobre tela

*

Em inglês este título faz um trocadilho entre “passar a ferro” e “ironia”, palavras que soam quase iguais.

 

 

 

 

 

 

Minha sombra

 

Jorge de Lima

 

 

De manhã a minha sombra

com meu papagaio e o meu macaco

começam a me arremedar.

E quando eu saio

a minha sombra vai comigo

fazendo o que eu faço

seguindo os meus passos.

 

 

Depois é meio-dia.

E a minha sombra fica do tamaninho

de quando eu era menino.

Depois é tardinha.

E a minha sombra tão comprida

brinca de pernas de pau.

 

 

Minha sombra eu só queria

ter o humor que você tem,

ter a sua meninice,

ser igualzinho a você.

 

 

E de noite quando escrevo,

fazer como você faz,

como eu fazia em criança:

Minha sombra

você põe a sua mão

por baixo da minha mão,

vai cobrindo o rascunho dos meus poemas

sem saber ler e escrever.

 

 

 

Em: Antologia Poética para a infância e a juventude, de Henriqueta Lisboa, Rio de Janeiro, INL:1961.

 

 

 

 

 

            Jorge Mateus de Lima (União dos Palmares, AL, 23 de abril de 1893Rio de Janeiro, 15 de novembro de 1953) foi político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor e pintor brasileiro.

Obras:

 

Poesia:

 

XIV Alexandrinos (1914)

O Mundo do Menino Impossível (1925)

Poemas (1927)

Novos Poemas (1929)

O acendedor de lampiões (1932)

Tempo e Eternidade (1935)

A Túnica Inconsútil (1938)

Anunciação e encontro de Mira-Celi (1943)

Poemas Negros (1947)

Livro de Sonetos (1949)

Obra Poética (1950)

Invenção de Orfeu (1952)

 

Romance:

 

O anjo (1934)

Calunga (1935)

A mulher obscura (1939)

Guerra dentro do beco (1950)

 

Você encontra outro poema de Jorge de Lima neste blog em:  Poema de Natal 





Jangada, poema infantil de Juvenal Galeno

26 03 2009

jangada-mar-vermelho1

 

 

 

 

Jangada

 

Juvenal Galeno

 

 

Minha jangada de vela,

que vento queres levar?

tu queres vento da terra,

ou queres vento do mar?

 

Minha jangada de vela,

que vento queres levar?

Aqui no meio das ondas,

das verdes ondas do mar

és como que pensativa,

duvidosa a bordejar!

 

Saudades tens lá das praias,

queres na areia encalhar?

ou no meio do oceano

apraz-te as ondas sulca?

Minha jangada de vela,

que vento queres levar?

 

 

Em: Poemas para a infância, Henriqueta Lisboa, Rio de Janeiro, Edições de Ouro, s/d.

 

 

 

———

 

Juvenal Galeno da Costa e Silva ( Fortaleza, CE 1836 –Fortaleza, CE 1931)

Poeta.

 

 

Obras

 

A Machadada, poesia, 1860  

Ao imperador em sua partida para a guerra, poesia, 1872  

Canções da Escola, poesia, 1971  

Cantigas Populares, poesia, 1969  

Cenas cearenses, 1871  

Cenas Populares, poesia, 1971  

Evaristo Ferreira da Veiga, poesia   

Folhetins de Silvanos, poesia, 1891  

Lenda e Canções Populares, poesia, 1865  

Lira Cearense, poesia, 1972  

Medicina caseira, 1897  

Novas canções populares, s/d  

O eleitor, s/d

O Peregrino, 1862  

Porangaba, poesia, 1961  

Prelúdios Poéticos, poesia, 1856  

Quem com Ferro Fere, com Ferro Será Ferido,teatro, 1861

 

 

 

—–

—–

NOTA:  Em 1920 este poema  mais longo, com alguns versos a mais,  foi usado como letra para a música JANGADA de Alberto Nepomuceno.  Segue,

 

 

 

JANGADA

(1920)

 

Composição: Alberto Nepomuceno

Letra: Juvenal Galeno
 

 

Minha jangada de vela

Que vento queres levar?

Tu queres vento de terra

Ou queres vento do mar?

Minha jangada de vela

Que vento queres levar?

Aqui no meio das ondas

Das verdes ondas do mar

És como que pensativa

Duvidosa a bordejar!

 

Minha jangada de vela

Que vento queres levar?

 

Saudade tens lá das praias

Queres n’areia encalhar?

Ou no meio do oceano

Apraz-te as ondas sulcar?

Minha jangada de vela

Que vento queres levar?

Sobre as vagas, como a garça

Gosto de ver-te adejar

Ou qual donzela no prado

Resvalando a meditar

 

Ah! Minha jangada de vela

Que vento queres levar?