À sombra dos gênios: vida das esposas de Monet, Rodin e Cézanne

4 11 2008

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Senhora com parassol, 1875

[Retrato de Camille Doncieux Monet,

esposa do pintor]

Claude Monet (França 1840-1926)

Óleo sobre tela  — 119 x 100 cm

National Gallery of Washington, EUA

 

Acaba de ser lançado nos EUA o livro de Ruth Butler, Hidden in the Shadow of the Master: the model wives of Cézanne, Monet and Rodin [Escondidas na sombra do mestre: a esposas-modelo de Cézanne, Monet e Rodin].  Yale Univ. Press:2008.  Tudo indica ser um livro muito interessante porque se propões a detalhar a vida das companheiras deste famosos artistas plásticos; mulheres, cujos rostos, expressões faciais e corporais o mundo conhece tão bem, através dos trabalhos de seus respectivos maridos.  O público freqüentador de museus fica freqüentemente intrigado, esperando que a representação destas senhoras possa revelar as personalidades, que nos são elusivas, quando apreciamos as obras de arte em que elas aparecerem.

 

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Primavera: jovem com chapéu de palha, circa 1865

[retrato de Rose Beuret-Rodin,  esposa do escultor]

Auguste Rodin (França 1840-1915)

Bronze

 

 

As heroínas são  Hortense Fiquet  esposa de Paul Cezanne, Camille Doncieux, primeira mulher de Claude Monet e Rose Beuret, com que Auguste Rodin se casa duas semanas antes da morte dela e 50 anos depois do primeiro encontro entre os dois.  Essas três mulheres, vindas de famílias modestas, foram escolhidas por cada um desses artistas para modelos.  Elas três passaram a viver com estes homens, que lhes deram filhos bastardos até que cada um por sua vez se casou com elas (Rodin é o único que não reconhece o filho Auguste Beuret, nascido dois anos depois do escultor estabelecer residência com Rose Beuret).  Juntos cada casal passou pelos anos de dificuldades financeiras que precedem o sucesso e a fama.  Todas estas mulheres têm suas imagens conhecidas do público e, no entanto, estão entre os personagens mais elusivos da história da arte.

 

 

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Madame Cézanne com saia de listras, 1877

[retrato de Hortense Fiquet-Cézanne, esposa do pintor]

Paul Cézanne (França 1839-1906)

óleo sobre tela, 73 x 56 cm

Museu de Belas Artes de Boston, EUA

 

A autora defende que “estas mulheres não eram simplesmente modelos; elas trouxeram com elas um grande leque de emoções dando ao trabalho de seus companheiros substância emocional e textura que foram elementos que em muito contribuíram para o trabalho que os levou ao reconhecimento profissional.” 

 

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Um livro com uma tese interessante que há muito faltava na compreensão de uma época assim como na compreensão do papel da mulher no final do século XIX, para não dizer no entendimento de como estas personalidades artísticas conseguiram ter uma vida que se assemelhasse a uma vida dentro dos parâmetros considerados mais ou menos comuns da época.  

 

 

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25/2/2009  – adiciono este quadro de Maurício de Sousa

 

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Monica com sombrinha, 1991

Maurício de Sousa (Brasil)

Acrílica sobre tela, 127 cm x 107 cm

Instituto Ricardo Brennand, PE





Brasil que lê: foto tirada em local público

3 11 2008

Rio de Janeiro: Quiosque na Praia de Copacabana





Imagem de leitura — Fritz Zuber-Buhler

3 11 2008

A lição, s/d

Fritz Zuber-Buhler (Suiça,1822-1896)

Óleo sobre tela

 

 

Fritz Zuber-Buhler nasceu em Le Locle, na Suíça em 1822.  Aos dezesseis anos, quando teve certeza de que seria um pintor, mudou-se para Paris.  Estudou com François Edouard Picot na Escola de Belas Artes.  Depois disso, Zuber-Buhler deixou Paris indo para a Itália quando tinha 19 anos.  Passou cinco anos na Itália.  Volta à França e sua primeira participação no Salon foi em 1850.  Morreu a 23 de novembro de 1896.

 

 





Duas considerações sobre Philip Roth

2 11 2008

 

 

I — Philip Roth, o Prêmio Nobel e O animal agonizante.

 

Recentemente, quando o Prêmio Nobel de Literatura em 2008 foi anunciado, a imprensa americana em peso reclamou do viés da comissão julgadora contra os escritores do país.  A imprensa especializada começou a espezinhar a comissão julgadora do prêmio, inconsolável diante do resultado: mais uma vez a distinção não fora parar nas mãos de um escritor americano.  Entre os injustiçados, e talvez o mais citado nos meios intelectuais dos Estados Unidos, estava o escritor americano Philip Roth.  

O escritor americano Philip Roth

O escritor americano Philip Roth

Depois da revolta intelectual americana contra o Prêmio Nobel e inspirada pela abertura do filme Fatal, da diretora espanhola Isabel Coixet, baseado na obra O animal agonizante, de Philip Roth, (Cia das Letras: 2001) decidi revisitar o escritor que havia sido um dos meus favoritos escritores americanos e cujas obras por muitos anos me acompanharam cheias de notas e observações, ao longo do tempo em que residi naquele país.    

 

Havia algum tempo que eu não lia nenhum de seus trabalhos.  Não que eu tivesse deixado de gostar da maneira como Philip Roth escreve, nem de seu senso de humor característico, muito menos de suas mais cortantes observações sobre o comportamento humano.  Mas depois de pelo menos oito de seus livros lidos e relidos, os novos romances de Roth me pareciam um pouco repetitivos nas suas obsessões e para não me desapontar com um autor de que gostava preferi dar uma pausa na leitura de sua obra.  A pausa durou anos. 

 

Agora, depois de ter devorado com gosto o esbelto volume O animal agonizante, volto a perceber, que apesar de retratar e representar as preocupações de muitos de sua geração, Philip Roth não é tão universal quanto se poderia ou deveria esperar de um autor a ser premiado com um Nobel.  Isto de jeito nenhum quer dizer que ele não seja um excelente escritor, acima da grande maioria de seus colegas de trabalho, principalmente por causa de seu cortante bisturi, usado com destreza, quando disseca as emoções mais recônditas, as necessidades psicológicas mais complexas do homem urbano do final do século XX nos EUA.  A clareza com que revela cada pequena emoção ou racionalização do homem anti-herói de fim de século é pungente.  A obsessão com diminutas variações de comportamento e suas origens é saturna.  Uma obsessão autofágica disfarçada pelo humor ou ironia. Aqui está Saturno devorando seus filhos: aqui Roth digerindo — para entendê-lo e absorvê-lo —  um de seus alteregos, o Professor David Kepesh, nosso conhecido de outros tempos, de outras aventuras. 

 

II – Philip Roth e Woody Allen e a experiência da cultura separatista nos EUA

 

 

Durante a leitura de Philip Roth em O animal agonizante – um ensaio sobre o desespero de se conhecer a própria decadência e o próprio fim não pude deixar de a todo e qualquer momento lembrar-me dos filmes de Woody Allen.  Estes dois americanos sozinhos poderiam juntos descrever as preocupações de sua geração, seu fascínio consigo mesmos, suas auto-críticas.  Ambos falam de um mundo que conhecem bem: a cultura urbana e intelectual.  E a descrevem em detalhe.  Ambos preenchem a maioria de suas obras com referências ao círculo em que vivem, a seus escritores, a seus artistas, a seus compositores, enfim a todo o contexto cultural que os rodeia, como se necessitassem colocar-se, inserirem-se no tecido cultural de que são frutos.  Sente-se uma quase compensação, como se percebessem a si mesmos como seres à margem da cultura americana de seu tempo.

 

Diferente da cultura que se desenha no século XXI, uma cultura de inclusão – veja a provável eleição de Barack Obama — a cultura americana de fim do século XX ainda estava baseada em características de exclusão.  Enquanto para Barack Obama e seus seguidores fala-se “não há America branca, não há America negra, só há americanos”, no final do século XX, o que víamos era: “os americanos são: afro-americano, ítalo-americano, judeu-americano, americano-irlandês” e assim por diante, rotulados de acordo com suas características mais pronunciadas sem suas imersões num todo nacional.  A América estava em processo de se juntar, de se misturar, mas em fase processo, e como tal, seus membros ainda se sentiam como partes de um todo, mas partes, separadas por um hífen, por assim dizer.  

 

Assim ambos estes expoentes da cultura judia-americana, Woody Allen e Philip Roth,  têm em comum a necessidade, de através das várias referências culturais que fazem em suas obras —  quer literária, quer cinemática — tecerem não só o contexto em que viviam como a própria justificativa de suas existências como intelectuais. Em O animal agonizante encontrei, num texto de menos de 127 páginas na edição brasileira, ou seja um pequeno romance, uma quase novela, mais de 35 referências a quadros, esculturas, livros, autores famosos de Mark Twain a Simão Bolívar,  de Kafka a Velásquez, Brancusi, Little Richard e demais marcadores de engajamento cultural.    O texto é verdadeiramente enriquecido pelas comparações, alusões, contrastes, re-definições de obras e da importância de cada um dos mencionados, não há dúvida.  Mas torna-se vítima disso mesmo que parece um tipo de brincadeira conhecido como “jogos de estudantes de pós-graduação” em que profissionais em especialização sentem a necessidade de: em provar conhecimento sobre certas áreas, estabelecer sua própria importância e conseqüentemente a validade de suas opiniões.

O cineasta Woody Allen

O cineasta Woody Allen

   

No caso de Philip Roth, cujo hábito não é novo, este cacoete literário nos anos 60-70 poderia parecer intrigante, vindo de um escritor relativamente jovem, novo.  E ajudava  a definir uma época, além do conhecimento pessoal do autor.  Mas continuar a vê-lo hoje, quase meio século mais tarde, depois que a comunicação fez de fácil acesso qualquer informação que antes era considerada uma moeda de entrada no mundo sofisticado das letras e das artes é sofrível.  E mais ainda, ver tal insistência, quase pernóstica, num escritor que já estabeleceu suas credenciais há décadas é limitante e vazio.  

 

Concordo que muitas vezes o Prêmio Nobel de Literatura pareça se cristalizar do nada.  Principalmente quando, por motivos de localização geográfica ou da dependência de traduções, mesmo as pessoas mais intensamente ligadas às artes literárias não estejam familiarizadas com os autores premiados.  Há, no entanto, uma consistência clara entre as obras dos premiados: elas extrapolam a experiência comum e se universalizam.  Até mesmo naqueles escritores que mais tarde – décadas depois — não têm suas obras lembradas — e isso comumente é resultado de fatores estranhos aos seus méritos literários — pode-se notar o intemporal nas suas obras e a universalidade da experiência humana retratada.   Infelizmente, por melhor que Philip Roth seja, estas qualidades não são as que definem o seu trabalho.





Frutos — poema infantil de Eugênio de Andrade

2 11 2008

Tangerina no café da manhã © Ladyce West, Rio de Janeiro: 2006

 

FRUTOS

Eugênio de Andrade

Pêssegos, peras, laranjas,
morangos, cerejas, figos,
maçãs, melão, melancia,
ó música de meus sentidos,
pura delícia da língua;
deixai-me agora falar
do fruto que me fascina,
pelo sabor, pela cor, 
pelo aroma das sílabas:
tangerina, tangerina.

 

Eugênio de Andrade nasceu em  Póvoa da Atalaia, em Portugal. Viveu em Lisboa, em Coimbra e no Porto.  É considerado um dos maiores poetas portugueses contemporâneos.

Obras:

As Mãos e os Frutos,1948);
Os Amantes sem Dinheiro,1950;
As Palavras Interditas,1951;
Até Amanhã,1956;
Coração do Dia, 1958;
Mar de Setembro, 1961;

Ostinato Rigore
, 1964;
Antologia Breve, 1972;
Véspera de Água, 1973;
Limiar dos Pássaros,1976;
Memória de Outro Rio, 1978;

Rosto Precário,
1979;
Matéria Solar, 1980;
Branco no Branco, 1984;
Aquela Nuvem e Outras, 1986;
Vertentes do Olhar, 1987;
O Outro Nome da Terra, 1988;
Poesia e Prosa, 1940-1989;
Rente ao Dizer,
1992;
À Sombra da Memória, 1993;
Ofício de Paciência, 1994;
Trocar de Rosa / Poemas e Fragmentos de Safo, 1995;
O Sal da Língua,1995





Brasil que lê: foto tirada em lugar público

1 11 2008

Rio de Janeiro:  praia de Copacabana





Imagem de leitura — Jane Peterson

1 11 2008

Jovem no Café, s/d, década 20

Jane Peterson, (EUA 1876-1965)

 

 

Jane Peterson, nasceu em Elgin, Illinois, nos Estados Unidos em 28 de novembro de 1876.  Pintora americana principalmente conhecida por seus guaches.  Estudou no Pratt Institute em Nova York e mais tarde estudou em Madri sob a tutela do grande pintor espanhol Joaquim Sorolla y Bastida.  E desenvolveu através de sua longa carreira um estilo próprio, pós-impressionista.  Viajou muito e ficou conhecida por suas inúmeras telas retratando a vida em Veneza, Nova York,  Inglaterra,  Norte da África, Turquia e outros çigares exóticos.  Morreu em 1965.





Já publicou seus textos para crianças?

30 10 2008
Ilustração de 1888, Inglaterra, Corrida de cavalos

Ilustração de 1888, Inglaterra, Corrida de cavalos

 

Sempre sonhou em ser um escritor para crianças?  Aqui está a sua oportunidade de tornar um sonho em realidade.  A editora LITTERIS abriu um concurso para novas escritores e poetas infantis. A editora localizada no Rio de Janeiro completa 20 anos, fiel à sua missão de publicar e divulgar novos escritores.

 

Para a descrição das regras deste concurso visite o blog: GLOBALAIO





Casa amarela, poesia de Marília Fairbanks Maciel para crianças

30 10 2008

Ilustração de Lívia

Casa Amarela

 

Em dias distantes,

Alegres, ruidosos,

Vivi nessa casa

Tão belos instantes!

Oh! Lembro-me bem

Da casa amarela,

Bem longa e comprida,

Em forma de trem.

E a gente, criança,

Correndo e gritando.

Um mundo de sonhos

Ficou na lembrança…

O som das risadas,

Dos choros também.

As flores colhidas,

Em fartas braçadas,

Deixaram perfumes

Gravados em mim.

Guardei borboletas,

Guardei vagalumes:

Lembranças queridas

Que eu trouxe de lá.

— Retalhos de sonhos,

Pedaços de vidas!

 

Mamãe nos chamando,

Com voz muito aflita.

As suas palavras

Estou escutando:

—  “Olá, criançada,

É hora da missa!”

— “É hora da escola!”

E a gente apressada,

Saía correndo,

Ouvindo o barulho

Do bonde que vinha

Nos trilhos, gemendo.

 

E agora, a saudade,

Em forma de um eco,

Vem, massa e distante,

Contar-me a verdade:

A casa amarela

Mudou de cor.

Perdeu seu encanto,

Não é mais aquela!

Mas dentro de mim,

A minha saudade

Em tom de balada

Cantando ficou:

— “A benção, mamãe!

A benção, papai

É tarde  eu já vou!”

Ai doce saudade

Da casa amarela!

Adeus, criançada!

É tarde… eu já vou!…

 

 

Marília Mendes Fairbanks Maciel ( Matão, SP 1924 – 2012), poeta, romancista, contista e artista plástica.

 

Obras:

 

Oferenda, 1962 – poesia

Momento sem tempo, 1970 — poesia

Tempo de saudade, 1971 — poesia

Janela Acesa, 1972, — poesia

O que o conto não conta, 1975 — contos

A semente, 1977 — romance

 

 





Brasil que lê: foto tirada em lugar público

29 10 2008

Rio de Janeiro: Paço Imperial