O verde do meu bairro: Camarão amarelo

16 07 2013

???????????????????????????????Camarão amarelo em jardim na zona sul do Rio de Janeiro.

Passeando pelo meu bairro você não diria que uma das plantas mais usadas na decoração ao longo de grades e muros seria uma planta nativa de outro país.  O Camarão Amarelo [Pachystachys lutea] está tão difundido no paisagismo  carioca que parece brotar voluntariamente.   Mas não é verdade. É original do Perú e leva esse  nome pela aparência de suas flores.   Também é conhecido pelo nome de Planta-camarão e simplesmente de Camarão.

É um arbusto que pode crescer até 150 cm.  Gosta de sol ou de sombra parcial.  Aqui no meu prédio temos alguns pés.  Todos com aparência muito saudável.  Lembrei-me deles hoje porque parece que esta semana foi a semana dedicada à poda.  Ele  tem  folhas lustrosas e alongadas, verde bem escuro.   Assim como os cariocas, o Camarão Amarelo não gosta de frio e aqui onde moro dá flores o ano inteiro.  Suas flores são branquinhas, pequeninas, saindo das brácteas  amarelo ouro.  Este tipo de arbusto atrai beija-flores.  Talvez seja por isso que haja tantos  beija-flores no jardim do meu edifício.





O verde do meu bairro: Bougainvillea

9 06 2013

???????????????????????????????Bouganvilleas vermelhas sobre muro.

Bougainvilleas são naturais do Brasil e são lindas.  Se eu tivesse uma casa com jardim certamente teria bougainvilleas [ também podemos dizer buganvíleas].  Elas tem um jeitinho de se fazerem presente no bairro em que moro.  Quer sejam parte de uma cerca viva, quer sejam um jato de cor num jardim de um condomínio, elas estão no seu elemento nos bairros cariocas, colorindo o nosso dia a dia, de branco, rosa, vermelho, lilás.  Pelo menos essas são as cores que vejo com mais freqüência.  Mas são as vermelhas as de que mais gosto.

Da família Nyctaginaceae, a bougainvillea é uma planta nativa da América do Sul e recebe vários nomes populares, como primavera, três-marias, sempre-lustrosa, santa-rita, ceboleiro, roseiro, roseta, riso, pataguinha, pau-de-roseira, flor-de-papel. O maior exemplar conhecido de Bougainvillea do mundo está localizado à beira do lago Guanabara no Município de Lambari no Sul de Minas Gerais ; de tão grande virou árvore frondosa de 18 metros de altura.

???????????????????????????????

A bougainvillea não tem um ar arrumadinho.  Muito pelo contrário.  Cresce de maneira que parece desordenada, cada galho para um lado atingindo em geral de 1 a 12 metros de altura.  Tem  espinhos e gosta de se debruçar sobre muros ou outras plantas.  Em lugares com meses de seca, ela pode perder todas as suas folhas, voltando a crescer folhas na época chuvosa, mas aqui no Rio de Janeiro ela não só mantem suas folhas como dá flores praticamente o ano inteiro.  São bastante resistentes.

Para mim bougainvilleas foram sempre um dos grandes símbolos de terra natal, de conforto emocional nos anos que passei fora do Brasil. Mas quase não as vi nos Estados Unidos. Lembro da felicidade de encontrá-la cobrindo um enorme paredão no Jardim da Sereia em Coimbra, nos anos que morei em Portugal.

???????????????????????????????

É natural que esta planta se associe ao Brasil. Afinal, foi descoberta em 1767, no Rio de Janeiro, pelo botânico francês Philibert Commerson [1727-1773] que fizera parte da expedição científica comandada pelo Almirante francês Louis-Antoine de Bougainville [1729-1811]. Encantado com esta colorida trepadeira cujas minúsculas flores eram rodeadas por coloridas folhas modificadas , Commerson deu à nova planta o nome de buganvília em homenagem ao Almirante da esquadra cujo objetivo era a exploração de terras no hemisfério sul.

Aqui no Rio de Janeiro é mais fácil vê-las assim, espreitando a rua, por sobre muros das casas, fazendo-nos invejar a morada que se esconde por trás das belas flores coloridas.  Prefiro-as aglomeradas de uma só cor como aparece na primeira foto.  Mas são de fato bonitas de todo jeito.





O verde do meu bairro: Manacá-da-serra

26 05 2013

DSC00003Manacá-da-serra, nos jardins de um edifício.  Rio de Janeiro

Fico sempre muito alegre quando vejo jardins de edifícios no Rio de Janeiro ornamentados com plantas tropicais nativas.  Vejam só que bonito que ficou esse Manacá-da-serra (Tibouchina mutabilis Cogn) na frente de um edifício.  Essa é uma pequena árvore brasileira, semi-decídua, nativa da mata atlântica. Muito popular nos jardins das casas do início de século XX, caiu de moda por algumas décadas e parece agora estar sendo lembrada pelos paisagistas cariocas.

Ela é uma árvore de porte pequeno a médio, perfeita para um cantinho de jardim por causa de suas flores de duas cores.  Crescida, madura pode chegar até 12 metros de altura e não menos que 6.  Suas folhas são verde-escuro, mais compridas do que largas e as flores de seis pétalas são relativamente grandes, e se destacam de encontro ao fundo verde escuro da folhagem. Quando nascem são branquinhas mudando de cor com o amadurecimento até tornarem-se de cor violeta.  Têm seis pétalas.  Isso faz com que seja uma árvore florida com flores de duas cores, o que faz com que muitos, erroneamente acreditem que a árvore é fruto de enxerto. Os livros de jardinagem dizem que  as flores aparecem no verão.  Mas aqui no Rio de Janeiro elas aparecem agora, no meio do outono.

É uma árvore que poderia ser mais utilizada no Rio de Janeiro já que suas raízes não iriam suspender as pedrinhas portuguesas das nossas calçadas. O Manacá-da-serra gosta de sol, de bastante sol. E é claro de solo fértil.

DSC00001





O jardim e o ritmo da vida: do que sinto falta da vida na América

15 11 2012

Dia de verão, 1904

Georgina de Albuquerque (Brasil, 1885-1962)

óleo sobre tela, 130 cm X 89cm

Museu Nacional de Belas Artes,Rio de Janeiro

Depois de quase dez anos de volta ao Brasil, ainda me perguntam, do que eu mais sinto falta da minha vida lá fora.  Concluí, recentemente, que minha nostalgia está relacionada à natureza.  Sinto falta das estações do ano, dos rituais que cada uma delas traz para a vida de uma pessoa comum. Sinto falta daquela conexão com os ciclos da natureza.

Meu primeiro contato com o hemisfério norte foi num inverno.  Dia 15 de dezembro desembarquei para o que na época acreditava ser por 3 anos.  Permanecer lá por muito mais tempo, como aconteceu, não estava programado.  Fui morar numa cidade muito arborizada, mas só descobri isso na primavera, pois em dezembro as ruas tinham enfileiradas nas calçadas só troncos, mais ou menos retorcidos, sem uma única folha.  Um aspecto desolador.  Não havia neve.  Só frio.  Deixando para trás o calor de verão no Rio de Janeiro, o frio pareceu muito intenso.  Com os anos a sensação de frio diminuiu: eu já estava aclimatizada.

O conhecimento intelectual de que as folhas crescem com a aproximação da primavera, não retira o intenso prazer de vermos, ao final de fevereiro e no mês de março (na minha região), os pequeninos brotos, primeiro como verrugas, depois dedinhos delicados, saindo dos troncos, outrora aparentando estarem mortos.

Jovem senhora no parque, 1880

Edouard Manet ( França, 1832-1883)

óleo sobre tela

Coleção Particular

Existe a expressão Febre da Primavera [Spring Fever] que rotula um comportamento alegre, sapeca, cheio de energia, sensual e sexual, difícil de entender por quem só morou nos trópicos, onde as estações do ano quase não se manifestam com intensidade.  A expressão rotula um momento de comunhão com a natureza, quando nossos instintos animais se manifestam, quando nos contagiamos com a alegria da primavera, com a promessa de um futuro promissor.  Aqui não percebemos esse ímpeto da reprodução, essa força que embriaga, maior que nós mesmos.  Porque nos trópicos  isso acontece o ano inteiro, acaba desapercebido. Lá, tanto os mais velhos quanto crianças, que em tese estão fora dos parâmetros hormonais afetados pela “febre”, sentem o empurrão da natureza acoplado ao prazer de viver.  É uma febre que brota de dentro da alma, uma bem-aventurança com apelo sensual, um prazer físico intenso despertando o corpo.  Variações de latitude promovem a Febre da Primavera  em diferentes semanas.  Onde morei o início de abril trazia a vontade irreprimível de aventura.  Mas antes disso, os sinais de que o mundo mudava já apareciam. Com que alegria víamos as primeiras forsythias!  É uma planta com aparência desregrada,  um arbusto de flores amarelas, que desabrocha quase de um dia para o outro, como se um ramalhete de raios de sol fosse plantado no jardim, mesmo quando ainda está coberto de neve.  A forsythia é a primeira flor a aquecer olhos e corações.  Depois dela, tulipas, narcisos e com as azaléas a primavera vinga! Sinto falta dessa sinfonia de cores e de cantos dos pássaros!

A história de amor, 1903

Emanuel Phillips Fox ( Austrália, 1865-1915)

óleo sobre tela, 102 x 153 cm

Ballarat Fine Art Gallery

A primavera traz também as primeiras colheitas de frutos: morango, framboesa, mertilo, amora. E nos estados onde morei nos Estados Unidos, saíamos de balde em punho, chapéu de palha e muito protetor solar, para os campos de sítios e fazendas que vendem essas frutas ao quilo se você colher.  Eram sempre manhãs de sol em que sujávamos as mãos de terra, colhíamos as frutas nos pés e chegávamos à casa carregados, exaustos, vermelhos de calor, suados e muito felizes. Íamos então para a cozinha, lavar e comer as frutas frescas, o quanto bastasse, e com as sobras, o final de semana era dedicado a fazer tortas, bolos, geleias, alguma coisa para congelar e outras preservadas para os dias em que esses frutos já tivessem desaparecido.

Este também era o período do ano em que plantávamos pimentões, tomates e flores no jardim.  Éramos visitados por bando de pássaros negros, possivelmente starlings, todo início de primavera, pássaros que tomam conta do jardim ou de uma árvore, mas não ficam por muito tempo.  Se ainda não soubéssemos, a aparição desses pássaros mostrava que era hora de plantar    Mudas das plantas que não sobrevivem durante o inverno e que precisam ser plantadas todos os anos são vendidas em todo canto, do supermercado às lojas de conveniência.  Todo mundo entra na dança do plantio, mesmo na cidade grande, num ritual cansativo e alérgico.  Sim, porque foi só lá que descobri ser muito alérgica ao pólen.  Mas, antialérgicos ingeridos, íamos todos plantar algumas centenas de mudas de Maria-sem vergonha no jardim, (eu as plantava em abundância para me lembrar daqui) e também mudas de tomates e pimentões na área do quintal onde havia sol.  A primavera era o período da alegria, da renovação, da esperança.

Tarde sossegada

Ellen Lerner O’Donnell (EUA, contemporânea)

óleo sobre tela, 60 x 90 cm

http://www.ellenodonnell.com

Outros pequenos rituais que marcam a estação também têm magia.  Em março,  às portas da primavera, há o dia de São Patrício, celebrado inicialmente pelos imigrantes irlandeses católicos.  Em sua homenagem todos tentam vestir verde ou algo verde no dia 17.  Chope, bebidas diversas, bolos são servidos  coloridos de verde e decorados com o trevo de 4 folhas, símbolo do santo.  Mais tarde, já no meio da primavera celebra-se a Páscoa.  Lá, essa comemoração é marcante, sendo em geral, a primeira festa ao ar livre do ano.  Todos vão às suas respectivas igrejas, vestidos para a primavera.  Mulheres têm roupas em tons claros de rosa, azul, amarelinho, branco, beige e invariavelmente, até nos dias de hoje, um chapéu de palha.  Mesmo na primeira década do século XXI, esse chapéu de palha com abas largas e fitas coloridas era item essencial para o dia da Páscoa.

Engana-se quem acredita que o verão nos Estados Unidos não é quente.  É muitas vezes mais insuportável do que o carioca.  As temperaturas são altas e a umidade é elevadíssima.  À medida que o verão se aproxima, passa-se a aproveitar o ar livre no cair da tarde.  Não são poucas as festas, as reuniões entre amigos que começam no quintal e acabam no ar condicionado na cozinha dentro de casa por causa do calor.  Mas o verão trazia, como aqui, o chamado pela estadia fora da cidade, nas montanhas, nos rios e na praia.  É a hora das férias, que são poucas  – a grande maioria dos americanos tem só duas semanas de férias ao ano.  Mas os rituais americanos de verão estão ritmados por 3 grandes feriados nacionais: o dia do Mortos nas Guerras  [Memorial Day]– última segunda-feira de maio, dia da Independência, 4 de julho e o dia do Trabalho, primeira segunda-feira de setembro.

Sem título, 2003

Arie Zuidersma (Holanda, 1925)

acrílica sobre papel, 69 x 89 cm

É na primavera, em março,  antes da Páscoa, que se acompanha as finais de basquete colegial, chamado de Loucura de Março, [March Madness]  que nas cidades e nos estados da costa leste onde morei é tão importante quanto o basquete profissional.  É o adeus aos esportes de competição em recinto fechado.  Daí por diante começam os esportes ao ar livre.  Basebol é o primeiro da fila, mas nunca consegui entender sua lógica.  Durante os meses de março e abril faz-se a grande limpeza de casa, adequadamente chamada de Limpeza da Primavera [Spring Cleaning].  Lava-se a jato o exterior das casas, limpa-se e reparam-se as calhas.  Assim que as  escolas entram em férias, no início de maio, é a hora de se jogar fora o inverno com todas as suas poeiras e teias de aranha.  Depois de meses e meses  fechados por conta do clima, os americanos abrem suas casas para limpar, limpar tudo: telhado, janelas, varandas, decks, piscinas, ventiladores, canalização do ar condicionado. Limpa-se por dentro e por fora.  Faz-se uma faxina nos armários dos quartos, da cozinha, dos banheiros e garagem.  Pilhas e pilhas de objetos e roupas são colocados primeiro à venda nas conhecidas vendas de jardim, ou de garagem, onde os preços não passam de uns trocados, uma bagatela de poucos dólares, ou centavos, quer para objetos usados ou novos.  O que não se vende doa-se.  A data mais concorrida para o evento é justamente o fim de semana longo do Memorial Day, [Dia dos Mortos nas Guerras], que ritualmente fecha a primavera.

Viveiros, 1890

William Merritt Chase(EUA, 1849 – 1916)

Óleo sobre madeira

Coleção particular

O verão começa com a abertura das piscinas particulares e públicas que se enchem de crianças em férias, no feriado dos Mortos das Guerras. Até então a temperatura é fria demais para os esportes aquáticos ao ar livre. E os fins de semana começam a ser musicados pelo cantar incessante das máquinas de cortar grama. O ar cheira a grama cortada.  Nessa época colhem-se os primeiros tomates que têm o gosto delicioso do jardim.  Tudo que pode ser feito ao ar livre ganha novos adeptos: feiras dos pequenos produtores, exposições de arte e de artesanato nos parques da cidade. A maioria das cidades tem programas de música e teatro ao ar livre, à noite, porque o horário de verão permite que se tenha luz do dia até as 21-22 horas, convites para festas realizadas nos jardins de casa, encontros nos decks, regados a vinho californiano,  abundam, ocupando as tardes dos fins de semana ao crepúsculo.  O gosto do verão é melancia.  Mas também cereja e cachorro-quente. Junho ainda é um mês agradável, mas mosquitos e outros insetos começam a dominar o ambiente. Essa manifestação de pragas voadoras em enorme quantidade foi uma das grandes surpresas que tive nos primeiros anos.  Como as flores aparecendo todas juntas, de uma vez, cobrindo árvores e arbustos, os insetos também “brotam” juntos, aos montes.  Não é à toa que leis da saúde pública requerem que toda casa tenha tela nas janelas. Sem tela, casas não podem ser vendidas, nem alugadas.  A estação dos furacões entra em curso, mas em geral eles só chegam à costa a partir de agosto.  Chove bastante no verão. Chove muito. Depois, o ar fica pesado e não leve como no Rio de Janeiro, porque a umidade não desaparece.   O verde nas árvores já deixou para trás o frescor verde claro, cor de alface da primavera, as folhas adquirem tons escuros e as árvores têm a copa cheia para a sombra profunda. E o canto das cigarras acalenta o crepúsculo dos longos dias de julho e agosto. Lá e cá, o verão é a estação de que menos gosto.

Horas de lazer, s/d

Lynn Renée Sanguedolce (EUA, contemporânea)

óleo sobre tela,  115 x100 cm

www.lynnrenee.com

O feriado de 4 de julho  marca o meio da estação mesmo que este aconteça na 3ª semana do verão oficial.  Isso porque assim como aqui, o verão é ritmado pelo calendário escolar. E no início de julho os alunos já estiveram de férias pelas últimas seis semanas.  Em julho começa a época das hortênsias no jardins e nos estados do Mid-Atlantic – costa leste central dos EUA.  Essas flores foram para mim, uma surpresa. Eu sempre as associara à estrada Teresópolis-Petrópolis, mil vezes percorrida nos verões da minha infância e juventude, caminho emoldurado por quilômetros de abundantes flores de hortênsias.  Que ironia, só vim a ter arranjos hortênsias em vasos com água, quando as cultivei num jardim em outro país, e fica lindo, como aprendi com Martha Stewart.  Elas, assim como a comemoração do dia da independência, simbolizam o meio do verão.  Por isso mesmo as festividades do 4 de julho são simultaneamente alegres e nostálgicas.  O dia da independência é comemorado ao ar livre, onde quer que você esteja.   Não há 4 de julho sem piquenique, sem fogos de artifício, sem família e amigos reunidos, sem festa para comemorar, por mais abafado e quente que o dia se mostre. Daí por diante, sobram praticamente só mais seis semanas de verão.  A última quinzena de agosto já é marcada pela correria da preparação para o ano letivo que começa próximo ao feriado nacional: o Dia do Trabalho, a primeira segunda-feira de setembro.

Folguedo de verão,  s/d

Lucius Rossi (Itália, 1846-1913)

óleo sobre tela , 60 x 52 cm

Christie’s Auction House, 1999

Se o jardim recebeu sol suficiente, o final do verão é repleto de alegrias culinárias. Em geral colhe-se muito mais do que se consome.  Começa então a tradição de final de verão: as conservas.  Mesmo hoje, quando se encontra de tudo nos supermercados locais, até nas menores cidades, a tradição da conserva em vidro, consume donas de casa, mesmo as que trabalham fora, advogadas, economistas, empresárias.  São centenas de receitas familiares que atravessaram gerações para a conserva de legumes e frutas, originalmente mantidas para os dias de inverno. Pepinos, que quase todo mundo planta, são transformados em picles, assim como cenouras, couve-flor, até mesmo a couve de Bruxelas. As partes brancas das melancias também são transformadas em um dos mais deliciosos picles que conheço.  Melancias são frutas comuns do verão americano.  O final de verão é a época de pêssegos e por isso inicia-se a estação dos deliciosos “cobblers”. O de pêssego é o meu favorito mas à medida que as frutas que dão em árvores começam a ser colhidas em abundância, essa sobremesa, feita de frutas e migalhas, açúcar e canela, aparece de todos os jeitos e formas.  E os escritórios se enchem de cobblers trazidos pelos empregados.  Aliás essa é uma característica americana que quase não vejo aqui: à noite as pessoas cozinham bolos, tortas, receitas especiais e levam receita inteira, extra, para dividir com os colegas de trabalho no dia seguinte. Isso aconteceu em todos, absolutamente todos os lugares onde trabalhei.  E, não há distinção social de quem traz as guloseimas, pode ser a pessoa de menor qualificação ou o dono/diretor/executivo da área.   Bolos de frutas  e cobblers estão entre os mais levados por quase todos nessa época do ano, porque os jardins produzem mais do que se pode consumir.

No pomar, 1891

Edmund Charles Tarbell (EUA, 1862-1938)

Óleo sobre tela, 154 x 166cm

Terra Foundation for American Art,

Daniel J. Terra Collection, Chicago, Illinois

O ritmo da vida está totalmente submetido às estações do ano.  E acho que é disso que sinto falta. Em meados de setembro, os dias já têm o ar um pouco mais frio. Começa a estação do futebol americano.  Começa a estação dos piqueniques antes do jogo. Mas, pelo menos uma vez por dia, há um ventinho que quebra a monotonia do calor abafado.  É o outono se anunciando, de longe minha estação favorita, a mais colorida do ano.  Árvores trocam de cor e suas copas vão do amarelo claro ao escarlate antes das folhas caírem.  Os jardins explodem numa grande palheta colorida com margaridões e crisântemos, plantados ou comprados.  Esses “mums” – crisântemo [chirsantemum] — aparecem nos jardins e dentro das casas.  As últimas begônias resistem e as samambaias de jardim já voltam ao seu período dormente, desaparecendo da paisagem. Assim como a primavera, o outono é de muito trabalho:  tirar as folhas secas do chão e colocá-las em montes massivos no meio fio para a cidade vir pegar as pilhas e pilhas de folhas para o composto da cidade.  Só folhas.  Esses caminhões aceitam só folhas, eles são equipados com um aspirador gigante.  E uma população enorme de 1.000.000 de jardins obedece, civilmente, aos pedidos do governo e só folhas são colocadas no meio fio: nem galhos de árvores  podadas, nem um pouquinho de lixo… Chama-se responsabilidade civil.  Sim, tenho saudades disso, dessa organização, em que ninguém se acha no direito de ter mais direitos do que outros.  Durante este período também se planta bulbos no jardim: narcisos, tulipas e outros bulbos.  No outono o solo ainda está macio  para se plantar essas flores  que precisam passar algum tempo no solo congelado do inverno para poderem florescer na primavera.  Esta é um atividade que requer não só força física como bom planejamento e a habilidade de se imaginar o conjunto da obra daí a seis meses.  Garanto: é sempre uma suspresa ver as flores na primavera seguinte.

Folhas de outono, 1856

John Everett Millais (Inglaterra, 1829-1896)

óleo sobre tela, 95 cm x  75 cm

City Art Galleries, Manchester

O outono traz outra delícia: as feiras rurais.  Cada estado tem uma feira rural.  São eventos gigantescos, porque são estaduais.   Produtores de todo o estado participam nessa semana de festas da colheita.  Há parques de diversões temporários, competições de bois, de coelhos, da melhor geleia.  Há pequenos rodeios. É uma festa só, única, de dez dias.  As escolas mandam seus alunos para que todos sintam o gosto e o prazer da vida rural.  Há shows de música country, moderados, nada de alto falantes com decibéis de ensurdecer os vizinhos.  Muita música e muita dança. Barraquinhas de comidas típicas do interior assim como acontece nas nossas festas juninas – que no Brasil também são a celebração do outono, das colheitas. Montanha russa, trem fantasma, roda gigante, algodão doce, maçã caramelizada no espeto, são alguns dos prazeres gentis desses dias encantados cujo frio de 10 a 14º C durante o dia contrasta com as noites de zero grau. Mas os céus do outono têm um azul de dar inveja: profundo, límpido e sempre sem nuvens.   Sim, o outono é mágico.  Fechando outubro há a festa das crianças, e realmente só as crianças participam de Halloween.  Sim todo mundo compra bala para dar às crianças fantasiadas que batem à porta.  Em geral não se celebra Halloween depois dos 12 ou 13 anos.  Quando um adolescente desses aparece na nossa porta, nem sempre é bem recebido.  Entende-se que, assim como Papai Noel, há coisas que só se faz ou se acredita em uma tenra idade.

Grande ocasião, s/d

Clare Atwood (Inglaterra, 1866-1962)

óleo sobre tela

Nas cidades também é o outono que traz os grandes espetáculos, as peças de teatro, os concertos, os musicais. É “a estação”, como se diz, quando começamos a nos acostumar a viver mais dentro de quatro paredes do que ao ar livre.  Festas e reuniões abundam. De repente os amigos convidam para jantares, coquetéis,  que se concentram nas cozinhas e nas salas ao redor.  Assim será através do inverno, quando finalmente a lareira é acesa ritual que dependendo do frio vai até fevereiro.  Vez por outra no céu vemos  patos voando em grupos  para o sul.  Não só vemos.  Podemos muitas vezes ouvi-los, vai depender  do silêncio à nossa volta. Desse período de resfriamento do ar, do solo e de frio verdadeiro tenho saudades.  O frio é facilmente combatido.  Todo lugar é aquecido.  Todos os meios de transporte também.  Tenho saudades da brisa fria de encontro à pele, enquanto se anda até o teatro, ao show, à casa de um amigo. Muitas saudades porque é o período mais feliz e alegre do ano.

O primeiro Thanksgiving, 1912-1915

Jean Leon Gerome Ferris (EUA, 1863-1930)

Óleo sobre tela

Coleção Particular

Thanksgiving, um feriado que estamos querendo importar, numa das nossas maiores sandices imitativas. É um feriado tipicamente americano com sua própria história, toda americana, e simbolismo único.  Ninguém tenta reinventar essa comemoração.  Ela é centrada em uma refeição, composta sempre dos seguintes itens obrigatórios: peru, presunto, batatas doce, vagens, milho, torta de abóbora, geleia de Cranberry, melado.  Você pode adicionar alguns elementos a essa refeição, mas não pode subtrair, ou sua família pensará que não teve Thanksgiving. É uma refeição no meio da tarde da última quinta-feira de novembro.  Depois desse farto almoço ajantarado todos se colocam a postos para ver um grande jogo de futebol americano!  Esta é  a única data em que toda a família se reúne num único teto, o que eles chamam de família extensa, ou seja, mais do que pai, mãe e filhos.  E a tradição é ter sempre uma pessoa de fora, de preferência um estrangeiro, porque esta festa surgiu para relembrar como os índios convidaram peregrinos estrangeiros, que se tornariam mais tarde americanos, para uma refeição em comum.  Ocorre sempre nessa data e dá início às comemorações natalinas.

Patinando no gelo, 1885

Hanry Sandham (Canadá, 1842-1910)

Gravura baseada no óleo do pintor

Coleção Particular

Quando dezembro chega o jardim está nu. Todos os milhões de folhas do jardim já caíram e as árvores voltaram a ter aquele aspecto desolador, esqueletos escuros e sem vida.  A natureza entrou em recesso. Arbustos floridos que dão tanta alegria na primavera e verão também perdem suas folhas: forsythias, hortênsias,  azaleias se transformam em meros galhos sem cor.  Para  dar alento nos concentramos nas poucas “ilhas” verdes: cedrinhos, pinheiros, e na minha casa na Carolina do Norte muitas aucubas – arbustos de folhas verde e amarelo, que dão frutinhos vermelhos comidos pelos poucos pássaros que enfrentam o inverno [Louro-do-Japão ou Louro-manchado (Aucuba japonica) é seu nome]. Mas o Natal dá a justificativa de se alegrar o exterior da casa.  Não só as guirlandas, círculo de verde nas portas, feitas justamente de galhos dessas plantas que não perdem as folhas, como guirlandas que decoram o exterior das casas, e as árvores que perderam suas folhas são decoradas com centenas de luzinhas brancas que iluminam um jardim que sem elas ficaria triste.  E assim passa o mês de dezembro. O Natal, celebrado no dia 25 de dezembro, é uma festa íntima, só para o núcleo familiar: pai, mãe, filhos e em geral se permanece mais ou menos dentro de casa até a chegada do ano novo.  Nos estados onde morei, no Mid-Atlantic, em geral não se tem um Natal com neve.  Mas é frio, faz frio. Os dias mais frios do ano acontecem em janeiro e fevereiro, quando o próprio solo já não retém mais calor.

Noite de inverno, 2006

Brian Larsen (EUA, 1975)

glicée gravura

Mas o inverno traz outros pequenos rituais. É hora de se aprender a patinar no lago gelado, — ele gela mesmo que não haja neve no chão.  Se há neve, então é uma festa.  Atrapalha, é verdade, mas também é muito gostoso ter a vida atropelada por um monte de neve, pelo silêncio que ela traz mesmo às ruas mais movimentadas.  Não há quem não tenha sorrisos quando vê os primeiros flocos de neve.  A neve é sempre seguida de um dia de sol brilhante e céu azul.  Mas frio, mesmo com sol, o frio é cortante.  O inverno é também a época  quando prestamos mais atenção às atividades domésticas de família, atividades de dentro de casa: jogos, leitura, visitas.  As árvores estão sem folhas, a grama morreu, a natureza se  despiu  mas o mundo continua: as escolas têm aula, as pessoas trabalham, os dias são curtos. Não chove.  Chuva é coisa de primavera e verão.  E só nos resta esperar pelas delicadas camélias nos arbustos, em fevereiro, colorindo levemente o final do inverno.

A natureza determina o ritmo de vida, os rituais do dia a dia.  Para esta carioca, acostumada a verões de seis meses e a não-verões de outros seis, a descoberta das estações do ano foi deslumbrante.  Viciante.  Cada mês tem seus segredos, suas necessidades. Em cada mês sente-se o passar do tempo e tenta-se aproveitar ao máximo as quatro semanas que levarão a outros dias, mais ou menos quentes, mais ou menos chuvosos, mas sempre encantadores.  Sim, é disso que sinto falta, do movimento da natureza, perceptível, sentido na pele e no meio ambiente. Não sinto falta de mais nada.  Gosto de estar ciente da passagem do tempo.  Alerta para as mudanças que acontecem a cada semana.  Eu me sinto mais viva!

——

Nota: Morei nos seguintes estados: Maryland, Washington DC, Virgínia e Carolina do Norte.

© Ladyce West, Rio de Janeiro, 2012





O verde do meu bairro: Extremosa, ou Resedá

11 11 2012

Há algumas extremosas no meu bairro.  Sei que elas são muitas vezes vistas com desagrado, quase como uma praga, porque foram usadas para a arborização em muitas cidades brasileiras, em ruas movimentadas, em detrimento de outras espécies.  Nessa escolha importaram as qualidades: beleza, baixa altura, raízes que não destroem as calçadas e resistência.  A extremosa ou resedá não é nativa do Brasil e  pode criar problemas para muitas das árvores nativas de maior porte.  Talvez seja por isso, que nos EUA, nos estados  onde morei – Maryland, Virginia, Washington DC e Carolina do Norte–  elas são usadas em grande escala só nos canteiros do meio das estradas,  embelezando, delimitando e, por causa de sua baixa estatura, ajudando a bloquear a luz de caminhões vindos no sentido contrário.  Também são usadas nas beira de estradas, com uma boa separação de grama entre elas e a vegetação nativa.  Podemos ver na foto abaixo, um exemplo de como são usadas. Claro que muitas pessoas plantam resedás em seu jardim, mas simplesmente como um foco de cor para o verão, uma única árvore, onde podem ser vigilantes quanto às pragas.

Por que elas são olhadas com desconfiança?  Sua praticidade – fácil reprodução, manutenção e raízes que não prejudicam calçadas – levou muitos municípios brasileiros a plantarem quase que exclusivamente as extremosas em suas vias públicas.  Isso não só leva à possibilidade de monocultura, como pode afetar as árvores nativas porque o resedá é suscetível ao abrigo de pragas, como erva de passarinho, que vivem da habilidade de extrair seus nutrientes das árvores em que se instalam.  Seu uso tem sido desencorajado.  Mas mesmo assim, é um belo respingo de cor na paisagem, que, aqui no Rio de Janeiro, atravessa duas estações: primavera, verão.

Natural da Índia e da China, os primeiros pés de extremosa foram trazidos para os EUA ainda no século XVIII, mais precisamente em 1790, pelo botânico francês André Michaux (1746-1802), autor entre outros das obras: Histoire des chênes de l’Amérique, 1801 [História dos carvalhos da América] e Flora Boreali-Americana, 1803 [Flora da América do Norte].

A extremosa (Lagerstroemia indica) recebe diversos nomes no Brasil: Resedá, Suspiros, Julieta, Árvore-de-júpiter, Flor-de-merenda, Mumiquilho.  Caiu no gosto popular por causa de sua função decorativa.  Tem flores  em forma de espigas.  Dependendo da região onde é plantada floresce no verão ou no verão e na primavera (como é o caso aqui no Rio de Janeiro, onde a primavera é quente).  Suas flores podem ser de três cores: branca, rosa ou vermelha.  Deve ser podada durante o inverno e as flores aparecerão na ponta dos ramos que foram podados.   Suas folhas são elípticas alongadas.  Nas regiões frias a árvore perde todas as folhas no inverno.  Chega aos 6 metros de altura.

Para maiores informações:

Meu cantinho





O verde do meu bairro — Ixora Chinesa

20 10 2012

Vocês já notaram como jardins têm moda? Isso mesmo, fica na moda um certo tipo de planta, de arbusto, de flor e aos poucos antigos pés disso ou daquilo dão lugar a uma nova espécie, a uma nova folhagem.  De uns quinze anos para cá os jardins do meu bairro começaram a aparecer com algumas plantas interessantes, bonitas, com flores de cores brilhantes… Não estou reclamando.  Mas, acho que a moda leva os jardins a terem todos mais ou menos a mesma cara, principalmente quando são os porteiros que trabalham os jardins e costumam se concentrar nas plantas de maior efeito pelo menor trabalho.

Aqui no meu bairro, no Rio de Janeiro, há uma abundância de jardins de edifícios residenciais floridos o ano inteiro com essa planta que está em todo canto, retratada acima.   Alguns a chamam de Alfinete-gigante.  Mas é mais conhecida com Ixora-chinesa, ou Ixora-vermelha.  Não é uma planta nativa do Brasil.  É originária do Extremo Oriente: Malásia e China.  É planta asiática tropical, da família das Rubiaceae.  Por isso se dá tão bem no clima carioca.

Entrada de edifício residencial.

Cá pelo meu bairro não a deixam crescer muito.  A moda por aqui é deixá-la crescer só até um metro do chão, mais ou menos.  Mas pode chegar a dois metros de altura.  Deve ficar linda assim.   E em geral é plantada como cerca viva ou melhor dizendo, acompanhando as grades dos edifícios, porque cercas vivas por aqui não oferecem a tranquilidade de segurança de que os cariocas precisam.  Frequentemente elas são usadas como delimitadores de áreas do jardim, acentuando os caminhos para entrada de pedestres ou a beirada do caminho para as garagens.

Há uma papelaria aqui perto cuja entrada fica bem recuada do meio fio, sendo uma construção mais moderna do que a própria rua, foi construída numa linha imaginária, que estabelece um futuro alargamento dessa rua que data do século XVIII.  Assim, o dono da papelaria, para “mostrar o caminho das pedras”, colocou diversas jardineiras na calçada em duas colunas paralelas, para acentuar a entrada do estabelecimento.  Teve que colocar jardineiras porque a calçada não lhe pertence. Mas, ficou bonito para quem chega.

O mais interessante é que a Ixora-chinesa parece dar flores o ano inteiro.  São grandes pompons compostos de minúsculas flores de quatro pétalas.  De longe parecem até gerânios, e sei que às vezes as ixoras-chinesas são chamadas de gerânios selvagens, por causa da aparência dessas flores.  Mas não têm nada a ver.   Por aqui só tenho visto exemplares cujas flores tem tonalidade, laranja, damasco, salmão.  Mas sei que existem flores de outras tonalidades: branca e vermelha.

verde 9

Para maiores informações veja:

O Jardineiro.





Imagem de leitura — Edward Killingworth Johnson

22 06 2011

Dias de verão, 1884

Edward Killingworth Johnson  ( Inglaterra, 1825-1896)

aquarela e guache sobre papel

Sotheby’s — Março, 1994

Edward Killingworth Johnson, nasceu em Stratford le Bow, na Inglaterra em 1825.  Depois de umas poucas aulas na Langham Life School, passou a pintar aquarelas.  Praticamente um autodidata dedicado à pintura de gênero e às paisagens.  Trabalhou como ilustrador.  Excelente artista que usava com freqüência a combinação de aquarela e guache para dar maior corpo ao trabalho, que se caracterizava por apresentar um excelente acabamento.  Morou a maior parte de sua vida em Londres e depois mudou-se para Halstead, Essex. Faleceu em 1896.

 





Quer melhorar o desempenho do seu filho? Mande-o para a horta

1 09 2010

 —-

—–

Uma pesquisa desenvolvida pela Royal Horticultural Society com o apoio da National Foundation for Educational Research (NFER) indica que crianças que tem contato com hortas nas escolas alcançam um melhor desempenho acadêmico, físico e social em comparação com alunos que não ter acesso a esses ambientes.

Segundo o estudo, essas crianças ainda apresentam maior facilidade durante a alfabetização e se tornam mais preparadas para os desafios da vida adulta. Para chegar ao resultado, o grupo entrevistou mais de 1,3 mil professores de 10 escolas diferentes. “O objetivo primordial da pesquisa é traçar o perfil das hortas como um recurso natural, sustentável e que tem a capacidade de ofertar benefícios curricular, social e emocional aos alunos“, diz o texto introdutório do estudo.

Entre os resultados mais significativos citados pelo artigo estão: maior conhecimento e compreensão científica; literacia e numeracia reforçadas, incluindo a utilização de um vocabulário mais amplo e maior habilidades orais; aumento da sensibilização sobre as estações do ano e da compreensão do processo de produção de alimentos; aumento da confiança, da resiliência e da auto-estima; desenvolvimento de habilidades físicas, incluindo habilidades motoras de alta complexidade; desenvolvimento de senso de responsabilidade; desenvolvimento de uma atitude positiva sobre escolhas alimentares saudáveis; desenvolvimento de comportamento positivo; melhorias no bem-estar emocional.

A pesquisa indica ainda que os benefícios das hortas não se limitaram aos alunos. Professores, assistentes, reitores e demais membros da comunidade escolar também sentiram mudanças positivas após a implantação dos espaços.

Fonte: Terra





Que lembranças você deixará para os seus sobreviventes?

30 08 2010

Gerânios em potes, ilustração sem nome do autor.

—-

Recentemente participei de uma reunião de família lembrando a data de aniversário de uma tia que se estivesse viva faria cem anos. Duas gerações se recordaram de momentos em que tia Maria-Emília havia tido um papel importante: por um gesto, uma palavra, uma série de atitudes; por seus quitutes – Quadradinhos Norma, de longe o favorito da família: certamente o meu, além de suas Barquetes de queijo. Depois de algumas semanas desse encontro, nem sei a razão, vim a me lembrar de outra faceta, outro aspecto de sua influência nas minhas memórias, que não cheguei a relatar naquela noite: o seu jardim, mais especificamente seus gerânios.

Essa foi a minha única tia que morava em casa com jardim. Cidadã urbana, crescendo no Rio de Janeiro, num edifício de apartamentos, jardins sempre foram, para mim, entidades de outro mundo, mantidas por jardineiros, mais ou menos capazes, que dobravam como porteiros, ou vice-versa. Sempre gostei de jardins, mas sua manutenção era algo altamente misterioso.

Um dos meus primeiros encontros com os mistérios do jardim de tia Maria-Emília foi quando, aluna da terceira série, tive como dever de casa levar uma plantinha para a sala de aula, colocá-la na janela e cuidar dela. Já tínhamos a essa altura, criado feijão em algodão molhado, e batatas doces em água, cujas folhas caíam felizes de vasos pendurados na parede da escola. Com o novo projeto em mente rumamos, mamãe e eu, à casa de titia. Lá, encantada com as avencas, plantinhas mimosas que cresciam na pedra úmida do morro por trás da casa, recebi das mãos de minha tia meu primeiro projeto de jardinagem. Foram na verdade três avencas levadas para a escola em sucessivos projetos de jardinagem frustrados. Consegui matar a todas três durante o ano letivo. Mamãe já estava sem graça de pedir mudas à minha tia… Paramos o projeto. Papai me arranjou um cacto que não cresceu nem morreu. Simplesmente existiu pelo resto do ano. Achei daí por diante que não tinha muita afinidade com jardins além de apreciar sua sombra, suas flores e seus perfumes. Isso eu sabia fazer!

Das curiosidades marcantes do jardim de titia havia a abundância das flores azuis da Bela-Emília, arbustos que ladeavam a escada de entrada. Até hoje, quando passo pela praça Antero de Quental no Leblon e vejo Belas-Emílias florindo em profusão passa-me pela mente a casa de titia. Havia também uma grande bananeira na frente da casa – só decorativa: um leque gigante de plumagem verde, cujos frutos não eram comestíveis e um cantinho, numa jardineira alta, fazendo divisa com a casa ao lado, onde titia plantava gerânios: coloridas bolotas de flores vermelho alaranjadas. Como eu gostava daquelas flores e de seu perfume!

 —-

—-

Cartão Postal de felicidades, originário da Holanda

—–

—–

Minha tia Maria-Emília visitou a Europa comigo. Não fisicamente. Mas esteve presente nos meus pensamentos quando passei pelos Alpes austríacos, onde, num início de primavera, muitas jardineiras, penduradas logo abaixo dos peitoris das janelas, apareciam cheias de gerânios. Essas flores arredondadas ajudavam a decorar as casas de madeira do Tirol, feitas já bastante alegres pelas pinturas de guirlandas coloridas em seus exteriores. Nessa mesma viajem, mais tarde, quando atravessei para a Itália, logo apareceu tia Maria-Emília, de novo, apreciando comigo os gerânios que cascateavam pelas paredes de estuque antigo, caindo das sacadas de Veneza.

Quando finalmente tive minha primeira casa com jardim, na época em que morei nos Estados Unidos, resolvi logo, logo, plantar gerânios em vasos de barro colocados em pontos de grande visibilidade na varanda de madeira — um deck – que arrematava os fundos da casa e de onde podíamos inspecionar o quintal. Gostaria naquele momento de ter tido o conselho de tia Maria-Emília. Principalmente depois que descobri ser alérgica ao gerânio. Alérgica ao óleo perfumado de suas folhas aveludadas. Alergia de contato, só. Facilmente resolvido com um par de luvas ou até mesmo, quando o desejo de tocar na maciez de suas folhas arredondadas e crespinhas na borda me tiravam do sério, com uma lavagem das mãos, rápida, com sabonete, imediatamente depois do toque sedutor. Mesmo assim, insisti nesse passatempo. Mas o gerânio não se dá bem durante o inverno americano. Deixado do lado de fora, morre com o frio. Trazido para dentro de casa, tampouco sobrevive, não recebe luz suficiente pelos meses de outono/inverno para permanecer saudável. Não tinha jeito.

Essas lembranças me assaltaram quando decidi, recentemente, no meio de uma noite mal dormida, com algumas horas em claro, na madrugada carioca, colocar alguns gerânios no peitoril da janela de meu quarto. Tenho certeza de que esta decisão me levará a lembrar daqueles ótimos momentos de uma infância feliz e despreocupada, e muitas vezes ainda me lembrarei de minha tia.

Nunca sabemos pelo que seremos lembrados depois de nossa morte. Nem se chegaremos a ser lembrados — bem ou mal —     pelas pessoas que nos conheceram.  Dizem que continuamos vivos enquanto somos lembrados pelos que aqui ainda se encontram. Às vezes achamos que seremos lembrados por alguns ditos, por nossos escritos, mas raramente imaginamos que nossos pequenos projetos sejam causa das recordações que deixamos para trás.  Mas acredito que é o que se faz com paixão, por puro prazer, aquilo que nos imortaliza, nem que seja por uma ou duas mais gerações.

©Ladyce West, Rio de Janeiro: 2010





Um passeio pelos jardins do Palácio do Catete

30 03 2010
Jardim do Palácio do Catete,  Rio de Janeiro.  Foto: Ladyce West

Neste verão que não acaba, em que fritamos todos os dias os nossos corpos a 38º C,  tenho procurado andar na areia da praia só no fim das tardes, e nos fins de semana visitar alguns dos belos jardins do Rio de Janeiro, a cata de  sombra, frescor, natureza e equilíbrio mental.   No sábado passado passei uma hora e pouco à sombra das árvores nos jardins do Palácio do Catete, antiga residência presidencial quando no século XX esta cidade ainda era a capital do Brasil.

Há uma característica desse jardim que sempre me intrigou e que dessa vez procurei saber o porquê.  Fato que salta aos olhos de quem quer que visite o local é a estranha distribuição de terra em relação à casa.  Os jardins são imensos.  Mas a casa fica não no centro dos jardins como seria de se esperar, mas no canto, dando de frente para a Rua do Catete.  Nem sei quantas vezes esse jardim é maior do que a área coberta por essa residência neo-clássica, construída entre 1858 e 1866, trabalho do arquiteto alemão Carl Friedrich Gustav Waehneldt, mas tem lago, tem gruta, tem esculturas e árvores gigantescas, e parece fora do comum que a casa ficasse assim num cantinho com as janelas paralelas à calçada.

Coreto, nos jardins do Palácio do Catete.  Foto:  Ladyce West

Finalmente descobri a razão:  a casa fora construída originalmente para residência na corte dos Barões de Nova Friburgo.  E a Baronesa havia exigido que este local fosse diferente de suas duas outras residências, a do Cantagalo e a de Nova Friburgo ambas as construções em centro de terreno.  A Baronesa de Nova Friburgo queria sentir o calor humano, a movimentação da corte, as carruagens passando, os vendedores cantando suas ofertas, seus pregões individualizados, quando chegasse à janela da residência citadina.  Daí o uso do cantinho esquerdo do terreno de esquina entre as ruas do Catete e a rua Silveira Martins [agradeço ao leitor Pedro Henrique pela correção do nome desta rua, que hoje, 29/9/2013 modifiquei no texto].  Os fundos da casa, dão para os jardins que se prolongam até  a Praia do Flamengo.  

Oceania, escultura em ferro fundido de Mathurin Moreau [França, 1822-1912], 1876.  Foto:  Ladyce West

Espalhadas pelos deliciosos recantos do jardim há uma série de esculturas em ferro fundido, de Mathurin Moreau (1822-1912), afamado escultor francês do século XIX, representando os continentes.  [Só uma dessas esculturas tem identificação numa tabuletinha próxima.  É a escultura cuja foto coloquei acima].  Ela representa a Oceania: um menino, abraça um pequeno canguru.  Infelizmente, a identificação dessas esculturas, está — como quase tudo que é patrimônio cultural no Rio de Janeiro —  deixada ao léu. É uma vergonha que o patrimônio cultural que temos a nosso alcance não exerça nenhuma fascinação sobre aqueles encarregados de preservar o nosso legado cultural (seria muito, pergunto, se um empregado do museu fizesse as mesmas tabuletinhas para cada uma das esculturas do palácio?  E se roubassem, fizesse de novo?  O custo é próximo a ZERO).   Mesmo nos jardins do Palácio do Catete, um museu carioca, temos o descuido de não identificar as peças, como se elas de nada valessem.  É uma pena.  Não pude, por causa do grande contraste entre a luz do sol e a sombra, nesse sábado, fotografar razoavelmente bem nenhuma das outras esculturas.  Uma delas na verdade, está longe, na frente de uma ilhota do lago, e terei que levar uma outra lente para isso.  Mas prometo aos leitores desse blogue que voltarei ao Palácio do Catete para registrar esses tetéias.  Sim porque essas esculturas são de um tamanho pequeno, certamente feitas para uso em jardins particulares  de importância.   Não há tampouco qualquer cartão postal com a foto das mesmas que se possa comprar e levar para casa como uma lembrança da arte encontrada no museu.  Vergonhoso.  Temos que melhorar isso antes de nos candidatarmos a eventos como Olimpíadas e Copa do Mundo,  porque esses eventos trazem pessoas que além dos esportes gostariam de conhecer a base cultural da cidade.  Garanto, que não há muitas cidades no mundo que têm o patrimônio artístico nacional e estrangeiro, em lugares públicos ou privados, que nós temos.

Os seis continentes, ferro fundido, Museu d’Orsay, Paris.

Mathurin Moreau foi um grande escultor francês do século XIX.  E nada melhor, para aqueles que gostariam de se dedicar às artes no Brasil e à escultura, que visitar essas pequenas representações dos continentes.  Mathurin Moreau criou outra escultura representando a Oceania, mais conhecida,  para a série de trabalhos representando  os  continentes.  A série foi organizada em 1878, e  seis dos mais importantes escultores franceses do final do século XIX  foram convidados a fazer uma escultura que representasse um continente:   América do Sul , por Aimé Millet (1819-1891); Ásia por  Alexandre Falguière (1831-1900); Oceania por  Mathurin Moreau (1822-1912);  Europa  por Alexandre Schoenewerk (1820-1855); América do Norte por  Ernest-Eugene Hiolle (1834-1886) e  África por Eugène Delaplanche (1831-1891).  Esse grupo permaneceu  no mesmo  local, Palácio Trocadéro, desde 1878 até a Segunda Guerra Mundial, quando em 1935 foi  transportado para Nantes.  Lá esteve  por cinquenta anos, até 1985, ano em que ” os seis continentes” retornaram a Paris, encontrando um lar na esplanada do Museu d’ Orsay. 

Oceania, 1878, Mathurin Moreau (França, 1822-1912), ferro fundido, Museu d’Orsay, Paris

Achei por bem postar, a título de curiosidade, uma foto da representação do mesmo continente, na versão de 1878, ou seja na versão de Mathurin Moreau para a Exposição Universal.  As que se encontram no Palácio do Catete são de 1876, ou seja, de 2 anos antes das  esculturas encontradas no Museu d’ Orsay.  Teriam sido elas um exercício do artista para o projeto mais monumental?  O que tanto a peça do Palácio do Catete quanto a encontrada no Museu d’Orsay têm em comum é o toque do exotismo, com a presença com canguru em ambas.  Detalhes exóticos seriam quase de obrigatoriedade nessas representações – afinal estamos falando dos últimos 25 anos do século XIX —  onde o exotismo foi explorado em todos os meios.  Mas as diferenças entre as duas mostram que suas funções foram determinantes na escolha da representação.  Enquanto a escultura feita para a Exposição Universal se mostra grandiosa, maior que a vida, as esculturas encontradas nos jardins do Catete, todas com meninos com animnais,  são mimosas e delicadas, no mesmo material (ferro fundido), mas definitivamente peças feitas para jardins menores, para o prazer do colecionador particular.

 

 Patos, Palácio do Catete, Rio de Janeiro.  Foto:  Ladyce West

Em outra ocasião dedicarei algumas palavras sobre o prédio, suas pinturas e decoração.   Sei que os jardins foram reformados sob a direção do engenheiro Paulo Villon,  em 1896,  quando a propriedade foi eletrificada para abrigar a Presidência da República, que até então usava o Palácio do Itamaraty.  Acredito que essas estátuas de Mathurin Moreau possam ter sido adquiridas na época para pontuar a reforma.    Há nesse jardim também um belíssimo chafariz, — que sábado passado não tinha água .  Esse chafariz, certamente entrou para o Palácio do Catete na reforma de 1896, pois era o chafariz do Largo do Valdetaro, que foi removido do local onde havia sido colocado em 1854 para este jardim em 1896.

Jardim do Palácio do Catete, Rio de Janeiro.  Foto:  Ladyce West

O charme do jardim desse palácio está certamente no romantismo de final de século tão bem retratado na combinação das palmeiras imperiais com árvores frutíferas;  nos lagos bucólicos com patinhos a nadar, e na construção da pequena e romântica gruta, além é claro, do delicado coreto.  É sem dúvida um dos lugares mais prazerosos do Rio de Janeiro.  E,  já que hoje circunda o Museu da República – porque com a mudança da capital para Brasília esse palácio passou a ser o Museu da República — nada mais natural que o tratemos bem e que muito mais atenção seja dada às informações do local.  Vamos esperar que a secretaria de turismo do estado abra os olhos e nos gratifique com um material digno sobre o que estamos vendo.    A falta de informações é um desrespeito com o visitante brasileiro, porque lhe rouba a educação de seu patrimônio cultural, lhe rouba o aprendizado de seu passado; é também um desrespeito com o visitante estrangeiro que procurou nos conhecer melhor, ver  quem somos e de onde viemos.   Dizem os psicólogos que o desleixo, que o desrespeito consigo próprio, é sinal de baixa auto-estima.  Não é isso o que merecemos no Brasil, e não é isso o que eu gostaria de passar para as gerações futuras.

Árvores centenárias do Palácio do Catete.  Foto:  Ladyce West