Tudo Está ao Nosso Alcance, disse Ralph Waldo Emerson, e Flávia Medina da Cunha demonstra!

28 08 2009

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Não queria deixar de divulgar aqui a maravilhosa notícia da jovem brasileira, morando em São Gonçalo, RJ,  que vai estudar em Harvard com bolsa de estudos total.  Produto de escolas públicas, e filha de professores, ela com perseverança conseguiu atingir um objetivo desejado por  muitos.  Que sirva de exemplo para tantos outros alunos e professores de todo o território nacional.

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 Uma gonçalense de 18 anos é a única estudante brasileira aprovada para estudar na Universidade de Harvard, no EUA, este ano. E com bolsa integral. A façanha de Flávia Medina da Cunha é considerada tão especial que será tema de palestra de orientadores educacionais, nesta quarta-feira de manhã, no auditório do Colégio Militar do Rio de Janeiro, na Tijuca, onde ela cursou o Ensino Médio.

 Na mesma época dos exigentes exames para Harvard, ela passou nos vestibulares da UFRJ, UFF e Uerj e na prova de admissão da Academia da Força Aérea (AFA). “Estudei tantas horas que perdi a conta de quantas”, confessa Flávia, que vai cursar Engenharia Química. Ela já havia começado o curso na UFRJ.

 

Flávia Medina da Cunha

Flávia Medina da Cunha

Fã da obra de Machado de Assis, ela precisou se debruçadar sobre livros especializados na cultura norte-americana. Flávia obteve ainda 90% de bolsa na Universidade da Pensilvânia. “Fiquei na lista de espera da Yale University, Duke University, Rice University e Tufts”, enumerou Flávia, cujos dois irmãos estudam na Escola Naval. Os pais, que são professores, estão orgulhosos, mas não escondem a preocupação. “O coração está apertado, mas ela é perseverante e carismática”, conta a mãe, Gilza da Cunha, 57 anos.

 Em Harvard, a estudante terá alojamento, refeição e receberá US$ 3 mil (R$ 5,3 mil) por mês, além da oportunidade de emprego no campus. Flávia embarca hoje à noite no voo 860 da United Airlines. Na bagagem, a bandeira do Brasil e a medalha de Santo Antônio. No coração, a saudade de casa. “Não vou chorar”, avisa Flávia.

 

harvard

Campus universitário de Harvard.

“Muita gente sonha em ir à Disney e realiza o sonho. Por que não sonhar em aprimorar os conhecimentos no exterior?”, lança o desafio o gerente de pesquisas do escritório da Harvard no Brasil, Tomás Amorim. Interessados em vaga na universidade em que estudou o presidente dos EUA Barack Obama devem acessar o endereços http://www.admissions.college.harvard.edu/apply/international/faq.html. É necessário fluência em inglês. Cursos como de Flávia custam R$ 92,5 mil por ano.

 

FONTE;  JORNAL O DIA — dia 19 de agosto de 2009





A partida, um filme para não perder!

28 08 2009

a partida 1

 

Hoje dando uma vista d’olhos no jornal para programar o fim de semana vi que, pelo menos aqui no Rio de Janeiro, ainda estão levando o filme A Partida.  Recomendo com todas as possíveis estrelas a quem queira ver um fime sério, belíssimo, e  que deixa espaço para o espectador refletir.  Está em cartaz há algum tempo e não é tão surpreendente assim que ainda esteja sendo projetado nas salas menores, que em geral se dedicam aos filmes menos comerciais, pois é fora de série.

Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2009, o filme conta a história de um violoncelista que volta à cidade natal com a esposa depois que a orquestra onde toca é dissolvida. Lá, começa a trabalhar como funcionário funerário e, para sua própria surpresa, torna-se orgulhoso de sua nova profissão, ignorando as críticas daqueles que o rodeiam.  Contado assim, o enredo parece sem interesse.  Mas a virtude dessa película está justamente no espaço que nos deixa, como observadores, de perceber as mudanças sutis no comportamento e na aceitação pelas quais o personagem principal passa.

 

a partida 3

 

As culturas orientais, digo do extremo oriente, desenvolveram através dos séculos muitos rituais que para nós ocidentais podem parecer exdrúxulos, mas que quando são apresentados com respeito, e explicados  na medida certa, nos parecem tão próprios que nos perguntamos:  por quê não fazemos assim também?  Este é o resultado dessa imersão nos rituais do luto e da morte no Japão, por onde navegamos sob a direção de Yojiro Takita.  As imagens escolhidas por ele nos deixam testemunhas da delicadeza nipônica, do respeito a seus antepassados,  com a beleza e a sucintês de um ideograma.

Poucas vezes um filme tem uma combinação tão perfeita de fundo musical e imagem.  Música que acentua quando deve emoções reinvindicadas pelas imagens e que as faz   tênues quando isso é pedido.  O casamento da trilha sonora do compositor  japonês Hisaishi – já famoso por outras trilhas sonoras — com as imagens do filme A Partida, tem essa riqueza. 

Não deixe de ver.  Vale a pena.  

 

FICHA TÉCNICA

Diretor:

Yojiro Takita

 Atores:

Kazuko Yoshiyuki

Ryoko Hirosue

Masahiro Motoki

Tsutomu Yamazaki

Kimiko Yo

Takashi Sasano

Local: Japão

Nome Original:  Departures / Okuribito

Ano de Lançamento: 2009

Disponível em DVD em:  8/14/2009

Duração: 130 min





Uma anedota da vida de D. Pedro I, pelas comemorações da Independência

27 08 2009

cavalos brincando

 

 

“D. Pedro, como príncipe, recebia muito pouco dinheiro.  A sua pensão era ridícula: um conto de réis! E não havia força de D. João sair daquilo.  O rei era um sovina tremendo.   D. Pedro, temperamento de irrefletido,  inteiramente oposto ao do pai, gastava às mãos cheias,  estouradamente, esbanjadamente.  Por isso mesmo, enquanto príncipe, D. Pedro viveu em aperturas desesperadas.  Mais duma vez, nos seus apuros, o herdeiro do trono recorreu a empréstimos envergonhantes.  O Pilotinho, bodegueiro da Rua dos Borbonos,  forneceu-lhe certa ocasição, doze contos de réis.   Manuel José Sarmento, pessoa pacata,  antigo oficial da secretaria, socorreu-o muitíssimas vezes com quantias fortes.  Ora, diante da usura do pai, para sair daquela situação humilhante de empréstimos e mais empréstimos, o príncipe tomou uma resolução heróica: resolveu ganhar dinheiro!  Resolveu ganhar dinheiro a todo o transe, de qualquer jeito, desse no que desse.   E que é que engendrou aquela cabeça de vento?  Apenas isto:  fazer uma sociedade mercantil com o Plácido.  [ Plácido Imaginar e executar foi um pronto.   Apalavraram logo o contrato.  E ambos, unindo os seus destinos, meteram-se a negociar.   Um príncipe, o herdeiro do trono,  a negociar de parceria com o seu barbeiro!  Imaginai um pouco…  E negociar em quê:  Na única coisa de que D. Pedro realmente entendia: compra e venda de animais.,,

A sociedade principiou a funcionar sem demora.  D. Pedro, em companhia do Plácido, ia quase toda manhã ver as tropas que chegavam.   Escolhia, num relance, os animais mais belos.  Um golpe de vista espantoso!  Apartava-os, pagava-os, mandava-os para as cavalariças do Paço.  Diziam os tropeiros que “o moço tinha faro: enxergava logo a flor da manada…”

Depois, na cidade, a engrenagem do negócio era das mais simples.  Uns dias de trato, os animais engordavam, o pelo reluzia.   O Plácido saía então em busca dos compradores.   Uma facilidade.  Bastava dizer a um daqueles fidalgotes endinheirados:

— O príncipe resolveu vender um belo animal.  Belíssimo animal!  É um dos mais soberbos das cavalariças do Paço.  Por que Vossa Mercê não aproveita a ocasião?

O homem não titubeava.  Corria ao Paço, via o cavalo, achava-o perfeito, comprava por qualquer preço.  E saía honradíssimo, cheio de orgulho, a esparramar pela corte que adquirira um “cavalo das cavalarias reais…”

A sociedade, evidentemente, começou a prosperar.  Os dois parceiros puseram-se a ganhar dinheiro à vontade.  Dinheiro a rodo.  D. Pedro andava contentíssimo!  O negócio era dos melhores, dos mais certos.

— Um negocião da China, como dizia alvoroçadamente o príncipe ao barbeiro; um negociação da China!  E dizer que até hoje ninguém ainda teve essa idéia!

Mas, um dia, por fatalidade, aquela história foi parar aos ouvidos do rei.  D. João VI branqueou.  Nunca, na sua vida, o pobre monarca enfureceu tanto!  Aquela leviandade do príncipe revirou-lhe os nervos.  Sacudiu-o.  Mandou chamar imediatamente o filho. 

D. Pedro, ao entrar, deparou com o pai de pé, revolucionado, o cenho torvamente cerrado.  O rei tinha na mão sua grossa bengala de castão de ouro.  E numa fúria, espumejando:

—  Então seu grandíssimo canalha, vosmecê a negociar em animais?  E a negociar em parceria com o Plácido, o barbeiro?  Pois, vosmecê, o herdeiro do trono, não tem vergonha nessa cara?  O que eu deveria fazer, seu cachorro, era quebrar-lhe a cara com essa bengala?  Quebrar-lhe a cara, ouviu? 

E erguia a bengala no ar, e bramia, e descompunha, e gaguejava de cólera.  D. Pedro não negou.  Confessou tudo com firmeza.  D. João mandou buscar o Plácido.  E ali mesmo:

— Você,  de hoje em diante, está proibido de se meter em qualquer negócio com o príncipe.  A sociedade está liquidada.  Lucro, se houve, que fique com você.  Não admito que meu filho toque num real dessa patifaria.

E desfez a sociedade.

Está claro que havia muitíssimo lucro no negócio.  E o Plácido, o felizardo, ficou-se com aquele dinheirão todo.  Principiou desde aí, com esse capital, a prosperar na vida.  Ficou riquíssimo.  Terminou numa das mais grandiosas fortunas do Primeiro Império.”

 

Em:  As maluquices do imperador, Paulo Setúbal, São Paulo, 1947: Clube do livro., páginas 64-66.

 

NOTA DA PEREGRINA:  O amigo de D. Pedro era  Plácido Pereira de Abreu, que mais tarde se casou com a filha do Marquês de Inhambupe. 

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paulo_setubal

 

Paulo Setúbal de Oliveira, ( Tatuí, SP 1893 — SP, SP, 1937) advogado, jornalista, ensaísta, poeta e romancista. Formou-se em Direito em 1914.  Trabalhou como colaborador do jornal O Estado de São Paulo. Foi eleito deputado estadual (1928 / 1930), renunciou ao mandato por problemas de saúde. Em 06 de dezembro de 1934 foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras

 

Obras:

 

Alma cabocla, poesia (1920);

A marquesa de Santos, romance-histórico 1925

O príncipe de Nassau, romance histórico, 1926

Um sarau no pátio de São Cristóvão, teatro,  1926

As maluquices do Imperador, contos-históricos, 1927

A bandeira de Fernão Dias, contos-históricos, 1928

Nos bastidores da história, contos, 1928

O ouro de Cuiabá, história, 1933

Os irmãos Leme, romance, 1933

El-dorado, história, 1934

O romance da prata, história, 1935

O sonho das esmeraldas, romance, 1935

A fé na formação da nacionalidade, ensaio, 1936

Confíteor, memórias, 1937

Ensaios históricos (obra póstuma)





Imagem de leitura — Jane Tanner

26 08 2009

Jane Tanner, (Melbourne, Australia, contemporânea) Amiguinhos lendo 1992,Amiguinhos lendo, 1992

Jane Tanner ( Austrália 1946)

Técnica mista

 

Barbara Jane Tanner ( Austrália, 1946) Assina Jane Tanner, é uma ilustradora de livros infantis.  Fez a faculdade  na National Gallery School de Melbourne, formando-se em pintura e gravura.  Por muitos anos trabalhou como pintota.  Quando surgiu a oportunidade de ilustrar livros para crianças descobriu uma área de interesse e em 1989 foi reconhecida com o Prêmio de Ilustração do Livro do Ano [Children’s Book of the Year Award], patrocinado pelo Conselho de Livros Infantis da Austrália.  O prêmio foi dado pelas ilustrações de Drac e o Gremlin, de autoria de Allan Baillie.   Daí por diante foram muitos os prêmios que recebeu por suas ilustrações.  Ainda trabalha até hoje com ilustrações para livros infantis na sua cidade natal de Melbourne.





Filhotes fofos: uma foca bebê é apresentada ao mundo!

26 08 2009

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Foto: EFE

 

O Parque Aquático de Marineland, em Palma de Mallorca, na Espanha, exibiu nesta segunda-feira o primeiro filhote de foca nascido em suas instalações.  Ele nasceu no último dia 7 de agosto.

Segundo informou o parque em um comunicado, o filhote é um macho “forte, saudável e brincalhão” cujo nascimento resultou de um trabalho desenvolvido pela equipe de veterinários da instituição.

A reprodução em cativeiro dessa espécie de foca, originária das águas mais frias do Hemisfério Norte, requer a supervisão contínua dos especialistas, como acompanhamento dos sinais vitais da mãe e das condições térmicas da água.

 Terra





Quadrinha infantil pelo dia da Independência

26 08 2009

 

independencia combo

 

 

Foi o Príncipe D. Pedro

Altivo, forte e leal,

Quem tornou independente

A nossa Terra Natal!

 

(Walter Nieble de Freitas)





Envelhecer — poema de Wilson Frade

25 08 2009

ANONIMOUS

 Senhora lendo, óleo sobre tela, anônimo.

 

ENVELHECER

                                                Wilson Frade

 

Embora todos os pretensos  à velhice

se agarrem ao espírito,

o tédio chega e vai ficando.

As nossas mãos já não escrevem com o mesmo brilho

e já não enfrentamos a vida com o mesmo espanto no olhar.

O verde já não é tão verde

e não nos atiramos no mar com a mesma gulodice.

Amamos com maior cautela,

menos febrilmente, mas, bem mais ordenadamente.

Buscamos o sabor do beijo com a febre de que ele possa acabar,

mas sentimos um frio no corpo se pensamos que tudo isso

possa terminar.

Os fios de cabelos brancos já não nos castigam

porque descobrimos mais a lua e as estrelas,

e curtimos aquele chinelo velho

em extremo desuso.

Prestamos mais atenção aos passarinhos

e no riacho que corre,

e tornamo-nos mais íntimos da morte.

Fingimos que ela é nossa amante

para que não nos leve assim tão de repente.

e não nos tire os raros momentos em que nos tornamos jovens.

Em: Poemas de um livro só, Rio de Janeiro, Nova Fronteira: 1991

Wilson Frade – (MG 1920-2000) jornalista, pintor, poeta, instrumentista e compositor mineiro.





Papa-livros: leitura para setembro

25 08 2009

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Esta é a seleção de leitura para setembro do grupo de leitura Papa-livros. 

O que cabe em duas malas: uma viagem para dentro

Autor:  VERONIKA PETERS

Editora:  Guarda-chuva

Edição: 1ª 2009

Número de páginas: 240

 

Discussão para o dia 20 de sembro de 2009.  Resenha aparecerá aqui depois desta data, quando quem quiser debater o conteúdo será bem-vindo.

Boa leitura!




PAPA-LIVROS: Benoîte Groult, Um toque na estrela

25 08 2009

As Parcas castellcoch

As Parcas, c. 1875

Escultura sobre a lareira, Salão Principal

Castell Coch, próximo a Cardiff .

País de Gales, Grã Bretanha

 

Aos 86 anos, Benoîte Groult, famosa feminista e jornalista francesa, escreveu um livro que se tornou um grande best-seller naquele país: Um toque na estrela [Rio de Janeiro, Record: 2009, 2ª edição].  O título é intrigante e esclarecido só ao final da leitura.  Mas o texto é claro e ajuda a refletir sobre um assunto raramente abordado com tanta destreza: a velhice.   Com extraordinário bom humor, Benoîte Groult nos guia revelando o processo de envelhecimento de um ser humano: as restrições físicas; as restrições e expectativas impostas pela sociedade, pelos colegas de trabalho, ou membros da família. 

Um recurso literário de grande valia neste romance,  que ajuda o enquadramento das causas defendidas pela autora, foi a narração  ser feita por uma das Parcas ou Moiras.  No romance, cuja tradução, de Ari Roitman e Carmem Cacciacarro, achei às vezes próximo demais ao francês, uma Moira começa e termina a história.  O parágrafo inicial marca o tom imparcial, às vezes irônico e nunca piedoso desta divindade que não nos deixará esquecê-la através do romance: 

Todos me chamam de Moira.  Vocês pensam que não me conhecem, mas todo mundo vive mais ou menos comigo sem saber, e ocupo um lugar cada vez maior em boa parte de suas vidas.  Aliás, ser uma Moira tornou-se um emprego apaixonante desde que tantas pessoas, que passaram seus verdes anos se achando eternas, perdem o norte conforme a flor da idade vai murchando e surge, inexorável, o fruto da maturidade.

 

Lafayette Ragsdale, (EUA) A good book,  2006

Um bom livro, 2006

Lafayette Ragsdale (EUA, contemporâneo)

 

É de fato esta Moira, quem fechará com chave de ouro a narrativa que culmina no debate interno que cada leitor , gentilmente guiado, trava com a autora, sobre a eutanásia, ou mesmo, o direito de se escolher o momento da morte.   

Acostumada a tratar de assuntos polêmicos através de suas colunas jornalísticas Benoîte Groult se tornou conhecida pela maneira sucinta com que caracteriza conceitos complexos, lembrando em muito suas conterrâneas, as grandes pensadoras francesas do século XVII, XVIII e XIX,  tais como Marquesa de Lambert,  Mme de Sévigné,  Françoise de Graffigny, Mme de Staël, e tantas outras cujas citações, por suas clareza e mordacidade atravessam séculos.   Como elas, Benoîte Groult tem dezenas de frases conhecidas: A velhice é tão longa que não se deve começá-la muito cedo [«La vieillesse est si longue qu’il ne faut pas la commencer trop tôt.»];  O que há de melhor na navegação é desembarcar [«Ce qu’il y a de plus beau dans la navigation, c’est de débarquer.»]; O feminismo nunca matou ninguém – o machismo mata todos os dias [« Le féminisme n’a jamais tué personne – le machisme tue tous les jours »].

 Muitas e muitas citações semelhantes podem ser retiradas de Um toque na estrela.  Quando o grupo Papa-livros se reuniu para discussão do texto , alguns membros, conhecidos por tomarem notas de passagens importantes dos livros que lêem, chegaram desta vez com os próprios livros cheios de marcadores, tal a abundância não só de possíveis citações significativas, mas de passagens inteiras que remetem a experiências próximas, às vezes bastante engraçadas, às vezes sentimentais.  

 

Linda Armstrong Joan_Reading 1994

Joan lendo, 1994, por Linda Armstrong.

 

Entrelaçado à descrição do dia a dia da velhice,  Benoîte Groult narra um belíssimo e tórrido romance entre dois adultos, um romance extraconjugal de ambas as partes, um romance além das fronteiras geográficas de cada componente.  Ele lembra ao leitor, entre outras situações, da necessidade de se aproveitar a vida ao máximo, ao extremo, com corpo e alma, porque é só do presente que se sabe.  E talvez nem mesmo deste. 

Enquanto, como leitores, somos apresentados a situações relativas ao incômodo do envelhecimento, ao incômodo,  para os outros, do nosso próprio envelhecimento, ao incômodo de termos que estar sempre parecendo mais jovens do que somos;  somos também apresentados em cores vivas e berrantes à beleza de se estar vivo, à necessidade que temos de nos agarrar ao momento, ao presente, à plenitude.   Por nos mostrar como é envelhecer, e também como é estar vivo, ainda no esplendor de uma idade madura e competente, somos convidados a desfrutar ao máximo a vida que temos.  Este livro é um hino à vida.  Um lembrete para que não a tratemos mal, mas que a honremos.  É preciso tomar com suas próprias mãos as oportunidades, porque elas não voltam mais.  As Parcas, as Moiras, elas sim, estão sempre atentas, sempre ocupadas, prontas para exercer os seus poderes.

***

 

Benoîte Groult

A escritora Benoîte Groult.

 

 

Benoîte Groult trabalha hoje, aos 89 anos, num outro livro.





As Parcas, ou Moiras, temidas por todos

24 08 2009

As Parcas, 1587, Jocob Matham, (Holanda,  1571-1631)Gravura em metal, Museu de Arte do Condado de Los Angeles, EUAAs Parcas, 1587

Jacob Matham ( Holanda 1571-1631)

Gravura em metal

Museu de Arte do Condado de Los Angeles, EUA

 

A discussão do livro Um Toque na estrela, de Benoîte Groult,  fica mais interessante quando se sabe quem são as Parcas ou as Moiras.  Assim, antes de postar algumas notas sobre o livro, achei que deveria me lembrar com maior detalhe sobre as Parcas.

As Parcas, [Moiras, em grego], são personagens mitológicas da Grécia antiga.  Mais tarde,  o mito grego foi importado pelos romanos. Na península italiana, elas ficaram conhecidas como Parcae, em português Parcas. 

 

 As Parcas, william-blake, 1795, bico de pena e aquarela sobre papel, Tate Gallery, Londres

As Parcas, 1795

Wlliam Blake (Inglaterra 1757-1827)

Bico de pena e aquarela sobre papel

Tate Gallery, Londres

 

São filhas das Trevas [Érebo] com sua irmã Noite [Nix].   E são três: 

Nona [Clotho] que tece o fio da vida, tecendo os dias,  atua com outros deuses aos nascimentos e partos.

Décima [Lacheisis] cujo nome em grego significa “sortear”, puxa e enrola o fio tecido, calculando seu comprimento, enquanto gira o fuso ou roldana e determina o nosso destino.  É ela a responsável pelo quinhão de atribuições que se ganha em vida.

Morta [Átropos] cujo nome em grego significa “afastar”, corta o fio da vida, determinando o momento de nossa partida. 

 

as parcas, Sampo Kaikkonen (Finlandia) ost

As Parcas, 2008

Sampo Kaikkonem ( Finlândia, contemporâneo)

óleo sobre tela.

 

Nona tem seu nome alinhado aos nove meses de gestação dos humanos.  Nove luas.

Décima tem seu nome alinhado ao nascimento, quando a vida se determina. Dez luas.

Morta tem seu nome alinhado ao momento final da vida terrena.

 

Dizem que até hoje em certas partes da Grécia acredita-se na existência destas entidades. 

As Parcas, 1513, Hans Baldung Green ( Alemanha 1484-1545) xilogravura, Museu de Arte do Condado de Los Angeles, EUA

As Parcas, 1513

Hans Baldung Green ( Alemanha 1484-1545)

Xilogravura

Museu de Arte do Condado de Los Angeles, EUA

 

Nas artes plásticas estas três personagens são em geral identificadas por três mulheres.  Mas há raros casos em que seres sem distinção de sexo também representam as Parcas.  Em geral elas são representadas fiando, medindo e cortando um fio.  Nona tem o fuso na mão.  Às vezes, mas muito raramente ela tem como atributo uma roca de fiar.  Décima tem uma roldana por onde passa o fio e Morta, a a mais terrível de todas, segura uma tesoura.  Há ocasiões em que Nona segura o fuso e Décima mede com um bastão o fio.  Também com freqüência vemos uma cesta no chão repleta de fusos.   Em geral elas aparecem como personagens numa composição alegórica de grandes proporções, próximas à imagem da Morte, um esqueleto com uma foice, que pode ou não estar dirigindo uma carruagem.  [Dictionary of Subjects and Symbols in Art, James Hall)

 John Strudwick, Um fio de ouro,  1885, ost

Um fio de ouro, 1885

John Strudwick ( Inglaterra, 1849-1937)

Óleo sobre tela

 

Observação:

 

Não sou lingüista,  Mas vejo algumas semelhanças lingüísticas que ajudam a memorizarmos os nomes:

Clotho – em grego – para Nona, que tece o fio da vida, deve ser a origem da palavra cloth em inglês, que é significa tecido.

As Parcas também eram conhecidas com Fatas no mundo romano.  Daí certamente:

Fate, em inglês, que quer dizer destino.

Fada em português que é uma entidade que pode influir e transformar o destino da vida humana.

Fado em português que significa destino, sorte.

 

 

 

As Parcas, artista_Ai_Don, caneta

As Parcas, 2008

Ai Don (contemporâneo)

Caneta e “Magic marker” sobre papel.

 

 

As Parcas aparecem freqüentemente na literatura clássica.  A cena da tapeçaria belga, abaixo, representa o 3° tema do poema Os Triunfos, de Petrarca ( Itália 1304-1374), O Triunfo da Morte.

 

as parcas, 1510-1520 tapeçaria belga

As Parcas, 1510-1520

Tapeçaria Belga

Victoria & Albert Museum, Londres

 

Para ler o poema de Petrarca, com tradução de Luís de Camões, continue na sequência.

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