Terra Natal — poema para 3a série — D. Aquino Correia

18 08 2008

Menino Índio de Mato Grosso.  Foto de MARC FERREZ, 1896.

 

Menino Índio de Mato Grosso. Foto de MARC FERREZ, 1896.

Terra Natal

 

                                    D. Francisco Aquino Correia

 

 

Nasci à beira

Da água ligeira,

Sou paiaguá!

De Sul a Norte,

Tribo mais forte

Que nós não há.

 

Nas mansas águas,

Vive sem mágoas

O paiaguá;

O seu recreio,

O seu enleio

No rio está.

 

Nele me afundo,

Nado no fundo,

Surjo acolá;

E nem há peixe,

Que atrás me deixe,

Sou paiaguá!

 

Se faz soalheira,

Durmo-lhe à beira,

Ao pé do ingá;

Mas se refresca,

Lá vai à pesca

O paiaguá!

 

E quando guio,

À flor do rio,

A minha ubá,

Nem flecha voa,

Como  a canoa

Do paiaguá!

 

Um  dia os brancos,

Dentre os barrancos,

Surgem de lá;

Mas, em  momentos,

Viram quinhentos

Arcos de cá.

 

Na luta ingente,

Que eternamente

Retumbará,

Fez quatrocentas

Mortes cruentas

O paiaguá.

 

Não!  O emboaba,

Em nossa taba,

Não reinará!

Nós coalharemos

A água de remos,

Sou paiaguá!

 

Nas finas proas

Destas canoas,

Triunfará,

Por todo o rio,

O poderio

Do paiaguá!

 

Nasci à beira

Da água ligeira,

Sou paiaguá!

De Sul a Norte,

Tribo mais forte

Que nós não há!

 

 

D. Francisco Aquino Correia ( Cuiabá, MT 1885 – São Paulo – 1956)  arcebispo de Cuiabá.

 

 

Do livro:

 

Vamos estudar?: 3a série primária, Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro,  Agir: 1961. 12a edição.





Bailado Russo — poema infantil de Guilherme de Almeida

14 08 2008

Bailado Russo

 

REYNALDO FONSECA (1925) O Pião – Óleo s/ tela – 70 x 50 cm – ass. sup. esquerdo e verso 2002.

REYNALDO FONSECA (1925) O Pião – Óleo s/ tela – 70 x 50 cm – ass. sup. esquerdo e verso 2002.

 

 

 

 

 

A mão firme e ligeira

puxou com força a fieira:

e o pião

fez uma eclipse tonta

no ar e fincou a ponta

no chão.

 

É o pião com sete listas

de cores imprevistas.

Porém,

nas suas voltas doudas,

não mostra as cores todas

que tem:

 

— fica todo cinzento,

no ardente movimento…

E até

parece estar parado,

teso, paralisado,

de pé.

 

Mas gira.  Até que aos poucos,

Em torvelins tão loucos

assim,

já tonto, baboleia,

e bambo, cambaleia…

Enfim,

Tomba.  E, como uma cobra,

Corre mole e desdobra

então,

em hipérboles lentas,

sete cores violentas,

no chão.

 

Guilherme de Almeida

 

 

Guilherme de Andrade e Almeida (SP 1890- SP 1969) foi um advogado, jornalista, poeta, ensaísta e tradutor brasileiro.

 

 

Obras:

 

Nós (1917);

A dança das horas (1919);

Messidor (1919);

Livro de horas de Soror Dolorosa (1920);

Era uma vez… (1922);

A flauta que eu perdi (1924);

Meu (1925);

Raça (1925);

Encantamento (1925);

Simplicidade (1929);

Você (1931);

Poemas escolhidos (1931);

Acaso (1938);

Poesia vária (1947);

Toda a poesia (1953).

 

Do livro:  Antologia Poética para a infância e a juventude, Henriqueta Lisboa, Rio de Janeiro, INL-MEC, 1961.





Um fim de semana sem novidades… Revolução de 1932

12 08 2008

Barco blindado no Rio Tietê, Revolução de 1932        Barco blindado no Rio Tietê, Revolução Constitucionalista, 1932.

12 de agosto de 1932

 

 

 

Relativa quietude quanto à luta armada.

 

 

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Cartão Postal com as iniciais dos 4 mártires da Guerra de '32.

Cartão Postal com as iniciais dos 4 mártires da Guerra de '32.

 

 

13 de agosto de 1932

 

Apesar de 13, nada de novo hoje se registrou quanto à luta

 

 

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Mulheres se juntam aos comnbatentes de 1932.

       As mulheres se juntam aos combatentes da Guerra de 1932.

Transcrição do Diário de Gessner Pompílio Pompêo de Barros (MT 1896 – RJ 1960), Itapetininga, SP, página 136, em referência à Revolução Constitucionalista de 1932.

 

A Noite Ilustrada.

Forças mineiras na Revolução Constitucionalista de 1932.  Fonte:  A NOITE ILUSTRADA.





Muhammad Yunus — quem é segundo mais votado intelectual?

12 08 2008

Este é o segundo da série de perfis das pessoas votadas como os maiores pensadores do mundo de hoje em pesquisa feita pelas revistas Prospect da Inglaterra e Foreign Policy dos EUA no primeiro semestre deste ano.

 

Veja:

Fethullah Gülen – quem é o intelectual n° 1 do mundo?

Você conhece os 10 mais importantes intelectuais de 2008?

 

 

 

 

  Muhammad Yunus, (Chittagong, 28 de junho de 1940) é um economista e banqueiro de Bangladesh.

 Em 2006 foi laureado com o Prémio Nobel da Paz. É autor do livro Banker to the poor (em Portugal, O banqueiro dos pobres, sem edição no Brasil). Pretende acabar com a pobreza através do banco que fundou, do qual é presidente.  O governo de Bangladesh é o principal acionista deste banco [Grameen Bank], que oferece ativamente microcrédito para milhões de famílias. Yunus afirma que é impossível ter paz com pobreza.

 

Muhammad Yunus formou-se em Economia em Bangladesh, doutorou-se nos EUA e foi professor na Universidade de Dhaka. Em 1976, constatou as dificuldades de pessoas carentes em obter empréstimos na aldeia de Jobra, em um Bangladesh empobrecido e recém-separado do Paquistão. Por não poderem dar garantias, os bancos recusavam-lhes as pequenas quantias que permitiriam comprar materiais para trabalhar e vender, e os usurários taxavam os empréstimos com juros altos.

 

Muhammad Yunus criou então o Banco Grameen, que empresta sem garantias nem papéis.O banco tem 7.500.000 (sete milhões e meio de clientes) em mais de 70 mil aldeias em Bangladesh.  Mulheres são a maioria de sua clientela: elas são 97% dos beneficiários. A taxa de crédito paga de volta, sem danos, sem insolvência é de 98,5%.

 

O seu lema é: Dê poder aos pobres.  [ Empower the poor ].  Ele acredita, por exemplo, que as mudanças na vida cotidiana mundial conseqüentes dos avanços em tecnologia, estão trazendo mais modificações na vida de todos do planeta que não se pode comparar com qualquer tipo de desenvolvimento do passado.  Por isso é imprescindível que a tecnologia mais avançada esteja ao alcance de todos inclusive dos mais pobres entre os pobres.  Um exemplo do avanço da tecnologia que ele dá, é uso dos telefones celulares que trouxeram grande revolução no modo de vida de milhões e milhões de pobres no mundo.

Mohammad Yunus

Mohammad Yunus

 

 

 

 

 

 

Yunus criou uma variedade enorme de negócios todos sob o domínio das Companhias Grameen. A maioria destas companhias  tem a ver com tecnologia: a maior companhia de telefones celulares de Bengladesh, que também é a maior companhia privada do país, um provedor de internet, uma companhia de produtos eletrônicos, uma companhia de consultoria de negócios na internet, e uma construtora de edifícios com escritórios de alta tecnologia.   Yunus ajudou também a criar aproximadamente 25 companhias e instituições tanto em Bengladesh, como em outros países, cujo intento é ensinar aos pobres como saírem da pobreza, como melhorarem seu modo de vida.  Entre os muitos negócios que construiu com esta finalidade estão companhias de criação de peixes em tanques, companhias de tecelagem em malha e planos de saúde.   Sua maior preocupação no mundo da tecnologia é a invenção de ferramentas tecnológicas que possam vir a ajudar os pobres diretamente, principalmente ajudar às mulheres pobres de países do terceiro mundo.  

 

Quando perguntado por que esta preocupação de colocar alta tecnologia a serviço dos pobres ele responde que não é um seguidor de C.K. Prahalad, autor do livro: The Fortune at the Bottom of the Pyramid. [ traduzido para o português como: A Riqueza na base da pirâmide, publicado pela Editora Bookman: 2005, 391 páginas, acompanhadas por CD].   Porque “os pobres não são os meios de se fazer dinheiro; eles são um mercado que necessita de ajuda.  Os ricos não devem enriquecer a custa dos pobres”.

 

Por outro lado ele nega veementemente que queira acabar com as companhias que trazem lucro.  “Elas precisam existir”, ele diz “mas um outro tipo de comércio precisa existir”. E então ele menciona o projeto que Bill Gates lançou no último Encontro de Davos, chamado “capitalismo criativo”.

 

Ele acredita que empreender é parte da natureza humana. E que sua maior contribuição seria em mostrar que “as empresas sociais podem e devem fazer negócios com objetivos sociais”. Essa é a grande lição a que se dedica.

 





A galinha cor de rosa, poema infantil de DUDA MACHADO

11 08 2008
A Galinha Cor de Rosa, de Keith Norval.

A Galinha Cor de Rosa, de Keith Norval.

 

 

A galinha cor-de-rosa

 

Era uma galinha cor-de-rosa,

Metida a chique, toda orgulhosa,

Que detestava pisar no chão

Cheio de lama do galinheiro.

 

Ficava no alto do poleiro

E quando saía do lugar,

Batia as asas para voar.

Mas seus pés acabavam na lama.

 

Aí armava o maior chilique,

Cacarejava, bicava o galo,

E depois, com ar de rainha,

Lavava os pés numa pocinha.

DUDA MACHADO

Do livro:

Histórias com poesia, alguns bichos e Cia. Duda Machado, Editora 34:2003

Carlos Eduardo Lima Machado, Duda Machado, nasceu em Salvador, BA em 1944. poeta professor de literatura e tradutor.  Tem diversos livros infantis entre outros publicados.

 

 

 





Guerra de rádios, transmissões da P.R.A.E. Revolução ’32

11 08 2008

                         Cavalaria preparada para a guerra.

Cavalaria preparada para a guerra.

9 de agosto de 1932

 

Pequenos choques.  Alguns soldados aparecem com pequenas escoriações de estilhaços.  Algum boato sem importância.

 

 

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Guerra continua no Sul do Estado de São Paulo e em Santos.

    Guerra continua no Sul do Estado de São Paulo e em Santos. 1932

10 de agosto de 1932

 

Poucos boatos, assim mesmo murmurados a medo.  Boatos de prisões.  Pequenos ataques na zona sul.

 

 

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Bonus a favor da Constituinte.

Bonus a favor da Constituinte.

 

11 de agosto de 1932

 

Algumas irradiações da P.R.A.E.   Guerra de rádio.  Guerra de boatos.  As estações radiantes também pregam suas mentirazinhas!

 

 

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Getúlio Vargas

Getúlio Vargas

Transcrição do Diário de Gessner Pompílio Pompêo de Barros (MT 1896 – RJ 1960), Itapetininga, SP, página 135-136, em referência à Revolução Constitucionalista de 1932.





Cidadania de aluguel — cidadania de conveniência

11 08 2008

 

Sábados tivemos o Brasil contra o Brasil no vôlei de praia nas Olimpíadas.  Não que os nossos dois times estivessem lutando pelo 1° e 2° lugares no pódio.  Uma equipe de brasileiras, jogava pelo Brasil enquanto que outra equipe de brasileiras jogava pela Geórgia.  O desejo de participar nas Olimpíadas e a certeza de não serem as melhores para representar um país de estrelas no vôlei de praia fez com que Cristine Santanna e Andrezza Martins convenientemente se tornassem cidadãs da Geórgia para terem direito aos seus 15 minutos de fama olímpica.  Será que vale?  Elas perderam.  Como era previsível já que não poderiam se igualar ao time de brasileiras com nacionalidade brasileira.  

 

As meninas, que se tornaram cidadãs da Geórgia — logo a Geórgia que entrou em guerra no dia da comemoração de abertura das Olimpíadas, não são aqui objeto do meu julgamento.  Cada um sabe o que faz e porque o faz.  Mas reconheço que em questão de cidadania acho estranho que alguém possa jurar fidelidade a uma cultura, a um país, a uma bandeira desconhecida.  Espero que tenha valido a pena para elas, esta cidadania de encomenda.   Elas não são as únicas nesta situação.  Há dois outros jogadores brasileiros, no vôlei de praia, que também envergam as cores vermelho e branco da Geórgia: Renato Gomes e Jorge Terceiro.  Há também dois outros brasileiros, irmãos, defendendo o time de hóquei espanhol: Kiko e Felipe Perrone.  Pode até ser que estes irmãos tenham algum sentimento pela Espanha, já que seus sobrenomes parecem ser de origem espanhola. Mas reconheço que fico pensando sobre as reais  vantagens destes arranjos.

 

Muitos países que não tem atletas em campos específicos, mas que gostariam de mostrar sua “força” perante o mundo, “alugam” suas cidadanias aos que podem em tese lhes trazer maior “reconhecimento mundial”.   Atletas por sua vez, atraídos pela fama, pela possibilidade de financiamento, dinheiro vivo, durante anos de treino, não vêem nada de mais em se deixarem alugar como cidadãos de uma outra terra, de outra cultura, mesmo que esta cultura não tenha nada a ver com eles.  Todos, atletas e países encontram assim uma maneira de “burlar” a mediocridade, é a solução Dorian Gray: só a imagem no espelho é real; a imagem na TV, nos jogos olímpicos, na verdadeira luta diária do esporte, esta continua lustrosa, sem danos, sem impurezas, sem perdas, e mais ainda coma a possibilidade de medalhas que as tornem ainda mais ilusórias.  [Retrato de Dorian Gray, livro do escritor inglês Oscar Wilde, publicado pela primeira vez em 1891].  Na busca de imagem de contos de fadas, países de contos de fadas como alguns do oriente médio usam seus petrodólares para atrair uma elite de desportistas de países pobres, tais como corredores africanos.  Os chineses, que vendem barato suas horas de trabalho também estão defendendo bandeiras de diversos outros países principalmente em tênis de mesa.  Mas isso não é efeito da globalização.  Isto é simplesmente o efeito do olho grande.  

 

Gol!  Ilustração Mauricio de Sousa.

Gol! Ilustração Maurício de Sousa.

 

 

No final de junho, Anne Applebaum,  no artigo [How did a guy who can’t speak Polish end up scoring Poland’s only goal of Euro 2008? 30/6/2008] abordou este assunto enquanto considerava a Euro Copa de futebol.  Na televisão ela viu Lukas Podolski (polonês) jogando pela Alemanha, fazer o único gol que fez a Alemanha vencer sobre a Polônia.  A imprensa o rodeava e perguntava: “Como você se sente tendo marcado o gol contra o seu próprio país”?  É claro que o  jovem jogador não teve nada especial para responder.  Este foi um exemplo.  Esta é uma situação típica, na Europa: muitos times de futebol têm entre seus jogadores pessoas que não tem nada a ver com os países cujas camisas eles usam e cuja pátria eles defendem.

 

Ela nos lembra, muito apropriadamente, que a maioria dos europeus, em geral, não usa o seu nacionalismo na lapela.  Diferente dos Estados Unidos, europeus não hasteiam bandeiras na frente de casa, nem comemoram dias de independência com o ardor nacionalista, com que os americanos o fazem.  Ao invés disso, as batalhas patrióticas acontecem nos campos de futebol, onde pessoas enrolam-se nas bandeiras de seus países e em grupos saem com as caras pintadas, quando não insistem em usarem as mais repulsivas perucas de fios de náilon com as cores das bandeiras de suas pátrias.  Mas com a União Européia há preocupação dos governos de diluírem ao máximo  sentimentos de nacionalismo, eles preferem se mesclar numa única nacionalidade que seja representativa da Comunidade Européia.  Há, então, cada vez mais incentivo à troca de jogadores e à defesa de uma bandeira nacional como se fosse uma bandeira do seu time favorito.  Talvez, realmente, haja esta necessidade dentro da Europa. Mas é difícil imaginar que o mesmo seja aceitável quando um time chinês de tênis de mesa defende a Argentina ou um time brasileiro de vôlei de praia defende a Geórgia.   

 

 

 

 





Os estados dos corpos — Poema infantil de Dulce Carneiro

10 08 2008

 

Os estados dos Corpos

 

Aprendi hoje na escola

(E confesso: achei custoso!)

Que os corpos têm três estados:

Sólido, líquido e gasoso.

 

Mas tanta atenção prestei,

Que compreendi num instante:

Sólido tem forma própria

E tem volume constante.

 

                   São sólidos o brilhante,

                   O ferro, o cobre, o carvão,

                   A madeira, o vidro, a argila,

                   O papel e o papelão…

 

                   Que o líquido toma a forma

Da vasilha que o contém

                   Compreendi, sem muito esforço,

                   E fiquei sabendo bem!

 

São líquidos, a cerveja,

O vinho, o vinagre, o azeite,

O licor, a limonada,

A tinta, a garapa, o leite…

 

Para aprender gasoso?

Franqueza: custei bastante!

Ele não tem forma própria

E nem volume constante.

 

                   São gasosos a fumaça,

                   O vento, as nuvens, o ar,

                   E o vapor d’água que faz

                   A locomotiva andar…

 

                   Quanto o saber nos eleva!

                   Quanto o saber nos dá gozo!

                   Os corpos têm três estados:

                   Sólido, líquido e gasoso.

 

Dulce Carneiro

 

 

 

Dulce Carneiro (SP 1870- SP 1942)  Poeta e professora.

 

Obras:

 

Folhas

Lições Rimadas

Revoada

 

Encontrado em:

 

Criança Brasileira: segundo livro de leitura, Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro, Agir: 1950.





Meu filho, bata-se por São Paulo e pelo Brasil…

10 08 2008

 

Soldados nas trincheiras, Revolução de 1932

    Soldados nas trincheiras, Revolução Constitucionalista de 1932

8 de agosto de 1932

 

30° dia de luta.  O povo se mostra entusiasmado.  Fala-se em breve do reconhecimento do estado de beligerância para São Paulo.  Nota-se mais coragem nos soldados, cuja correspondência é mais aguerrida deixando transparecer certa bravura espartana.

 

Quer tenha havido ou não precipitação de São Paulo nesta peleja começada em 9 de julho, o fato é que São Paulo se empolgou todo pela causa que defende e se convenceu de que deve lutar até o fim.  Nota-se esse pensamento nas cartas dos soldados, e nos rostos dos combatentes seja na hora do recuo como na hora do avanço.  Parece-me que estou vivendo na antiga Sparta quando as mães mandavam os filhos para a guerra orgulhosas deles derramarem seu sangue pela pátria.  Se a espartana dizia aos soldados que voltavam da guerra: “eu não quero saber se meu filho morreu; eu estou perguntando é se Sparta venceu”, — as paulistas também dizem: “meu filho, bata-se por São Paulo e pelo Brasil”.  “Meu filho, vá para a trincheira defender a honra de São Paulo”.

 

 

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Transcrição do Diário de Gessner Pompílio Pompêo de Barros (MT 1896 – RJ 1960), Itapetininga, SP, página 134-135, em referência à Revolução Constitucionalista de 1932.

Todo o apoio das mulheres.

                          Todo o apoio das mulheres paulistas.





Sinagoga Kahal Zur Israel, Recife, Século XVII

10 08 2008
Sinagoga Kahal Zur Israel, Recife, Século XVII

Sinagoga Kahal Zur Israel, Recife, Século XVII

Na penúltima vez que estive em Recife esta sinagoga ainda não estava aberta ao público. Mas recentemente, visitando o nordeste, pude verificar este grande marco do Brasil colônia que foi a primeira sinagoga oficial de todas as Américas: Sinagoga Kahal Zur Israel (ou Congregação Rochedo de Israel).  Aberta no Período em que Recife era o centro do governo holandês. A foto mostra o nome da Rua dos Judeus, onde ela está localizada.  Este era o antigo nome da rua.  Hoje em dia chama-se Rua do Bom Jesus.

 

Diz-se que foi a primeira sinagoga oficial porque sabemos da existência de uma sinagoga anterior: Maguen Abraham (Escudo de Abraão).  Tudo indica que esta ficava na antiga ilha de Antônio Vaz, que depois se chamou Maurícia.  Mas até hoje ainda não foram encontrados vestígios arqueológicos desta sinagoga.  Há relatos também de sinagogas formadas em pequenas comunidades na Paraíba e na Bahia.

 

 

No século XVI é certo houve um grande número de judeus vindo para o Brasil.  Quando as prisões portuguesas foram esvaziadas e seus presos trazidos para o Brasil com a intenção de popular a terra, muitos dos que se encontravam presos eram novo-cristãos que haviam sido presos por continuarem praticas judaizantes.   Ainda que Portugal estivesse sob orientação da Inquisição, havia um grande problema nas mãos do reinado:  a necessidade de popular  a terra descoberta, com terras costeiras de perímetro generoso e defendê-las mesmo assim contra invasores.  Isto tudo para um dos menores países europeus com uma população também pequena.

 

Rua do Bom Jesus antiga Rua dos Judeus, Recife, PE

Rua do Bom Jesus antiga Rua dos Judeus, Recife, PE

 

 

 

 

 

 

 

Com a invasão holandesa, o Nordeste brasileiro passa a ser regrado pelas leis e costumes dos invasores.  Assim um grupo de judeus vem se estabelecer no Novo Mundo, contando com  a liberdade religiosa já existente no país flamengo.   Foi só nesta época que a sinagoga Kahal Zur Israel esteve ativa sendo sustentada por 180 famílias de judeus brasileiros e europeus no Recife.

 Junto a esta sinagoga havia duas escolas religiosas: Etz Hayim e Talmud Torah.   Mas estas não foram recuperadas.  O que se tem hoje é o edifício onde o templo exercia suas funções religiosas.  Ocupava duas casas, como pode ser visto na foto da fachada postada anteriormente. A comunicação entre as duas casas era feita por uma única pequena porta bem na frente; enquanto que o acesso ao segundo andar era feito exclusivamente por uma das casas, através de uma bela escada de madeira nos moldes do mobiliário vistos aqui.

Interior da sinagoga; segundo andar.

Interior da sinagoga; segundo andar.

 

 

 

 

 

Hoje o andar térreo desta sinagoga está dedicado a uma exposição permanente da história desta comunidade judaica que construiu e estabeleceu este templo.  Pode-se ver as escavações do local, que passou para as mãos de João Fernandes Vieira, em 1656.  Podemos ver os alicerces da construção e examinar o  piso original holandês, a descoberto depois de terem sido encontrados 8 diferentes níveis, principalmente porque a história do edifício inclui diversas funções.  Em1679 o prédio foi doado aos padres da Congregação do Oratório de Santo Amaro.  Daí por diante há uma troca constante de funções sendo que até recentemente era uma casa de material elétrico.   No térreo pode-se observar  também o muro de contenção das águas do rio Beberibe, a fundação do Micvê,  assim como vitrines com pedaços de  louça, cachimbos, faiança, utensílios de barro esmaltado trazidos tanto pelos colonizadores portugueses como pelos holandeses.   

Fragmentos de louça encontrados nas excavações

Fragmentos de louça encontrados nas excavações

 

 

 

No primeiro andar está a sala de orações. Esse espaço está hoje destinado ao publico participante de conferências e seminários sobre a cultura judaica que fazem parte dos estudos realizados no centro de pesquisa localizado no andar de cima.  O mobiliário desta parte foi construído de acordo com os moldes usados nos Países Baixos na época.  Enquanto que o formato e o material do teto da sinagoga são baseados nas  sinagogas da península ibérica do século XVII.   A arca que contém a Torah está em frente ao púlpito.  O salão do serviço religioso se encontra na direção leste, como requerido.   No mezanino ficava a parte reservada às mulheres, que acompanhavam as cerimônias religiosas, separadamente.   No segundo andar  encontra-se a sede do Centro de Documentação da Memória Judaica de Pernambuco.

 

Com a retomada portuguesa do território sob  Maurício de Nassau  muitas das famílias judias pernambucanas, temendo a volta dos processos da Inquisição, saíram da cidade de Recife.  Algumas delas vieram para o sul do Brasil, para Minas Gerais, onde se juntaram aos bandeirantes na procura por metais e pedras preciosas. Outras 150 famílias decidiram retornar à Holanda.   23 destas famílias, que se encontravam a bordo do navio Valk, de regresso aos Países Baixos,  foram deixadas presas na Jamaica depois que a embarcação sofreu um ataque de piratas espanhóis.  Quando liberadas, tomaram um navio francês que seguia para a America do Norte e chegaram ao vilarejo de Nova Amsterdam,  com  1500 habitantes, no coração da ilha de Manhattan, em setembro de 1654.

 

***

 

A sinagoga encontra-se aberta ao público desde 2001.