O Bolo de Reis

7 01 2009

greuze-epifania-ou-o-bolo-de-reis

O bolo de reis ou Epifania,  1774

Jean–Baptiste Greuze (França, 1725-1805)

Óleo sobre tela,  71 x 92 cm

Musée de Fabre,  Montpellier

 

O Natal é uma época que sempre me traz nostalgia.  Há a nostalgia pelo existiu brevemente – ou seja, a nostalgia de um dia ter podido acreditar na lenda natalina do Papai Noel;  há a nostalgia do que nunca existiu — um período de paz e beatitude — que existe só no coração das crianças pequeninas.  E há também no meu caso, a nostalgia, dos cheiros de Natal, das comidas de Natal, da cozinha natalina.

 

Minha avó materna era carioca da gema, nascida no finalzinho do século XIX.  Mas era por sua vez neta e bisneta de portugueses de Viana do Castelo e de galegos de região de Vigo. E muitas das nossas tradições de família vêm por intermédio dela.  Depois que ficou viúva, vovó Albina veio morar conosco.  E para mim o Natal nunca foi o mesmo desde que ela não pode mais orquestrar o cardápio natalino.  O Natal na nossa casa tinha cheiro de festa, sabores esdrúxulos das frutas secas e das cerejas frescas,  tinha peru com pêssegos no Natal, [nunca tivemos bacalhau que eu me lembre], devorávamos os sonhos fresquinhos recheados com geléia e as rabanadas com bastante açúcar e canela, que eram sempre mais gostosas quando já eram “dormidas”.  No Ano Novo tínhamos presunto com rodelas de abacaxi fritas, salada de maionese que também se chamava salada russa, tudo com complementos brasileiríssimos tais como farofa e arroz.  E finalmente o nosso Natal terminava com O Bolo De Reis, que adorávamos porque além de gostoso, trazia 4 prendas dentro dele e prognosticava o ano que se iniciava.   

 

O Bolo de Reis era uma das grandes especialidades de vovó Albina, que começava cedo a sua preparação porque este bolo não era feito com o fermento comum, mas com o fermento “de padaria” —  aquele que a gente precisa misturar com água quente e depois colocar a massa num lugar sem vento (dentro do forno apagado) e deixar o tempo se encarregar de dobrar o tamanho da massa como se por milagre!  O Bolo de Reis levava quatro prendas todas de metal: um dedal (trabalho duro), uma aliança (casamento a vista), uma cruz (pagar pecados) e uma medalha de São Cristóvão (viagens próximas).   Lá em casa, com meu pai cientista, sempre tivemos muito cuidado com a higiene.  Então, estas prendas eram colocadas na água e lá  as deixávamos fervendo até que vovó estivesse pronta para colocá-las na massa do bolo e com este gesto tão simples ajudar a desenhar o futuro de quem tirasse cada brinde no dia 6 de janeiro.   O Bolo de Reis levava muitas coisas crocantes além das partes metálicas mencionadas acima: figos, peras cristalizadas, passas, pinhões, nozes, e uma dezena de outras coisas de que já não me lembro, mas que certamente ajudavam a fechar com chave de ouro o período natalino.

 

Até hoje procuro uma receita deste Bolo de Reis que possa duplicar a deliciosa sensação de comê-lo além da ansiedade da previsão de um futuro como imaginávamos.  Tenho procurado há anos uma receita que duplique para mim este gosto do Natal.  Mas por mais que o faça, não a consegui ainda.  Às vezes acho que minha avó ia colocando coisas a mais, fora da receita, mas ultimamente me pergunto se não é só a minha saudade, a nostalgia de uma infância segura e feliz que não consigo duplicar.  Hoje, já não há mais razão para que eu faça um Bolo de Reis.  A maioria das pessoas à minha volta não tem idéia daquilo a que me refiro.  Que pena!  Não sabem o que perdem!

©Ladyce West, Rio de Janeiro: 2009





Hoje, Dia de Reis, o 12° dia do Natal!

6 01 2009

 

 

gentile-da-fabriano-altar-dos-medici-adoracao-dos-reis-magos-sobre-3-predellas-1423

Altar da Adoração dos Reis Magos, 1420-23

Gentile da Fabriano (Itália, 1370 – 1427)

Têmpera sobre madeira, 203 x 282 cm

Uffizi, Florença

 

[nota: abaixo três predellas , contam a vida anterior e posterior à cena retratada. Da esquerda para a direira: O nascimento de Jesus Cristo, A fuga para o Egito e à direita, A apresentação no templo e circuncisão

 

Por vezes falarei aqui neste blog sobre religiões.  Não necessariamente porque estou advogando uma específica, mas simplesmente porque muito do que fazemos e vemos no nosso dia a dia, muito do que pensamos e como pensamos, está direta ou indiretamente relacionado às religiões que formaram a cultura brasileira.  Como historiadora da arte, para mim foi sempre essencial saber em que meio, em que cultura um quadro, uma escultura, um altar, uma imagem litúrgica teria sido feita para poder entender o porquê de certos detalhes.  Assim como mencionei a festa judaica,  o Festival de Luzes, em dezembro de 2008, hoje venho pensando no Natal, e nas festividades que estão aos poucos desaparecendo.

 

Hoje é dia 6 de janeiro, Dia de Reis, ou Dia dos Reis Magos.  Atualmente quando falamos de magos há três imagens que nos vêm à memória, sem relação ao dia de hoje.  1 – pensamos em Paulo Coelho;  2 – pensamos na obra de Tolkien, O senhor dos anéis,  3 – pensamos na obra de J K Rolling, Harry Potter.  Quase nenhuma criança, adolescente, jovem ou adulto se lembra primeiro de Gaspar, Belquior, e Baltazar, os reis que seguiram a estrela de Natal e levaram presentes para o bebê nascido na manjedoura.

 

O Dia de Reis é o décimo-segundo dia de Natal.  E ainda é celebrado em muitas partes do mundo, em lugares onde a tradição da Igreja Ortodoxa grega impera, [aquela que é herdeira e mantenedora das tradições religiosas depois da Queda do Império Romano].  É nela que  é no dia de hoje, lembrando os presentes dados pelos reis magos a Jesus, as pessoas trocam presentes de Natal.

 

Quando morei nos EUA fiquei surpresa de ouvir a grande maioria dos americanos cantando uma conhecida cantiga natalina, chamada The Twelve Days of Christmas,  — os doze dias de Natal – sem terem a menor noção de que esses 12 dias se referem ao período do dia 25 ao dia 6 de janeiro.  Não sabem também que a letra desta conhecida canção traz muitas referências à história da igreja católica na Grã-Bretanha.  É por causa deste simbolismo dos 12 dias de Natal que tradicionalmente nós nos desfazemos dos nossos enfeites natalinos, inclusive da árvore de Natal, só depois do dia 6 de janeiro.  No entanto, nos EUA, ao invés, as pessoas se desfazem de suas árvores de Natal no dia 31 de dezembro e no sul do país, onde morei por muitos anos, a tradição oral é: manter a árvore montada depois do dia primeiro traz má sorte.   Esta atitude sempre me surpreendeu porque aquele é um país cristão e bastante religioso.   Mas lá, já se perdeu a noção dos 12 dias do Natal.

 

Então, vejamos o que a canção natalina a que me referi realmente diz:

 

The Twelve Days of Christmas

 

 

On the first day of Christmas,

my true love sent to me

A partridge in a pear tree.

 

On the second day of Christmas,

my true love sent to me

Two turtle doves,

And a partridge in a pear tree.

 

On the third day of Christmas,

my true love sent to me

Three French hens,

Two turtle doves,

And a partridge in a pear tree.

 

On the fourth day of Christmas,

my true love sent to me

Four calling birds,

Three French hens,

Two turtle doves,

And a partridge in a pear tree.

 

On the fifth day of Christmas,

my true love sent to me

Five golden rings,

Four calling birds,

Three French hens,

Two turtle doves,

And a partridge in a pear tree.

 

On the sixth day of Christmas,

my true love sent to me

Six geese a-laying,

Five golden rings,

Four calling birds,

Three French hens,

Two turtle doves,

And a partridge in a pear tree.

 

On the seventh day of Christmas,

my true love sent to me

Seven swans a-swimming,

Six geese a-laying,

Five golden rings,

Four calling birds,

Three French hens,

Two turtle doves,

And a partridge in a pear tree.

 

On the eighth day of Christmas,

my true love sent to me

Eight maids a-milking,

Seven swans a-swimming,

Six geese a-laying,

Five golden rings,

Four calling birds,

Three French hens,

Two turtle doves,

And a partridge in a pear tree.

 

On the ninth day of Christmas,

my true love sent to me

Nine ladies dancing,

Eight maids a-milking,

Seven swans a-swimming,

Six geese a-laying,

Five golden rings,

Four calling birds,

Three French hens,

Two turtle doves,

And a partridge in a pear tree.

 

On the tenth day of Christmas,

my true love sent to me

Ten lords a-leaping,

Nine ladies dancing,

Eight maids a-milking,

Seven swans a-swimming,

Six geese a-laying,

Five golden rings,

Four calling birds,

Three French hens,

Two turtle doves,

And a partridge in a pear tree.

 

On the eleventh day of Christmas,

my true love sent to me

Eleven pipers piping,

Ten lords a-leaping,

Nine ladies dancing,

Eight maids a-milking,

Seven swans a-swimming,

Six geese a-laying,

Five golden rings,

Four calling birds,

Three French hens,

Two turtle doves,

And a partridge in a pear tree.

 

On the twelfth day of Christmas,

my true love sent to me

Twelve drummers drumming,

Eleven pipers piping,

Ten lords a-leaping,

Nine ladies dancing,

Eight maids a-milking,

Seven swans a-swimming,

Six geese a-laying,

Five golden rings,

Four calling birds,

Three French hens,

Two turtle doves,

And a partridge in a pear tree!

 

 

No 1º dia de Natal meu verdadeiro amor me enviou…
Uma perdiz em uma pereira

No 2º dia de Natal meu verdadeiro amor me enviou…
Duas rolinhas

No 3º dia de Natal meu verdadeiro amor me enviou…
Três galinhas francesas

No 4º dia de Natal meu verdadeiro amor me enviou…
Quatro pássaros

No 5º dia de Natal meu verdadeiro amor me enviou…
Cinco sinos

No 6º dia de Natal meu verdadeiro amor me enviou…
Seis gansos

No 7º dia de Natal meu verdadeiro amor me enviou…
Sete cisnes

No 8º dia de Natal meu verdadeiro amor me enviou…
Oito  jovens que ordenham

No 9º dia de Natal meu verdadeiro amor me enviou…
Nove senhoras dançando

No 10º dia de Natal meu verdadeiro amor me enviou…
Dez senhores saltadores

No 11º dia de Natal meu verdadeiro amor me enviou…
Onze flautistas tocando

No 12º dia de Natal meu verdadeiro amor me enviou…
Doze tocadores de tambor tocando-os

Esta letra vem do tempo em que a Inglaterra proibia a religião católica [1558-1829] e católicos ingleses e irlandeses precisavam achar uma maneira de passar para seus filhos os aprendizados religiosos.  Tornaram-se então grandes especialistas em simbologia – assim como nós no Brasil da ditadura militar do século passado, passamos a falar em código sobre muito do que era proibido pelo governo.  Então, voltando à Inglaterra, esta canção é ao mesmo tempo uma canção natalina e um trava-linguas, uma brincadeira infantil que pretende seduzir as crianças em aprenderem esta simbologia muito especial.  

 

Amor verdadeiro =  Jesus Cristo

Duas rolinhas: o Novo e o Velho Testamentos

Três galinhas francesas = as virtudes teológicas: Fé, Esperança e Caridade

Quatro pássaros = os quatro evangelhos / os quatro evangelistas

Cinco sinos = Pentateuco ou seja, os cinco primeiros livros do Antigo Testamento, que mostram como o homem perdeu o Paraíso

Seis gansos = Seis dias da Criação

Sete cisnes = sete sacramentos

Oito jovens que ordenham = oito beatitudes

Nove senhoras dançando = nove frutos do Espírito Santo: alegria, amor, auto-controle, bondade, fidelidade, docilidade, nobreza de sentimentos, paciência, paz.

Dez senhores salteadores = dez mandamentos

Onze flautistas = onze fiéis discípulos

Doze Tocadores de tambor = doze pontos de fé do Credo dos Apóstolos

 

Lembrando os doze pontos de fé do Credo:

 

1. CREIO em   —  Deus Pai Todo-poderoso,  Criador dos Céus e da terra.

 

2.   E em Jesus Cristo, o seu único Filho, o nosso Senhor;

 

3.   que foi concebido pelo Espírito Santo, nasceu da virgem Maria;

 

4.   padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado;

 

5.   desceu aos inferno, e ao terceiro dia ressuscitou dentre os mortos;

 

6.   subiu ao céu e está assentado a direita de Deus Pai Todo-poderoso;

 

7.   dali virá para julgar os vivos e os mortos.

 

8. Creio no Espírito Santo;

 

9. na santa Igreja católica, a comunhão dos santos;

 

10. o perdão dos pecados;

 

11. a ressurreição do corpo

 

12. e a vida eterna. Amém.”

 

 

Neste Natal que passou cheguei a ouvir algumas vezes esta canção (muito repetitiva e enfadonha) por aí, nas lojas que pretendem ser mais sofisticadas.

 

Feliz Dia de Reis!

 

—–

Nota sobre o altar de Gentile da Fabriano:  Na minha opinião, este não é só o mais belo altar retratando a  Adoração dos Reis Magos do estilo Gótico Internacional, mas talvez o mais belo que conheço, de todos os retábulos representando a Adoração do Reis Magos (são muitos) do período da Renascença e do Barroco europeus.





O que o Brasil tem a ver com as mudanças climáticas?

4 01 2009

aquecimento_global-3

 

Por mais que eu quisesse começar este ano com uma nota sobre os livros que li e estou lendo, com alguma coisa sobre as artes, sinto-me, em vista das chuvas de hoje em Santa Catarina, na obrigação de voltar a falar da imperiosa necessidade que temos de fazer alguma coisa pra diminuir o aquecimento global.  

Qualquer carioca notou que esta primavera que passou foi mais para inverno do que para primavera, com chuvas constantes e muito poucos dias de sol.  Estas mudanças já estavam previstas.  É só darmos uma olhadela no portal da FIOCRUZ, chamado Museu da Vida, para vermos como não houve nenhuma surpresa para aqueles que estão envolvidos diretamente com as ciências do meio ambiente.  Assim sendo, copio e colo aqui o que li no Museu da Vida.

aquecimento-global-4

 

 

O que o Brasil tem a ver com as mudanças climáticas?

O Brasil tem tudo a ver com as mudanças climáticas. Apesar de não estarmos entre os maiores emissores de gases de efeito estufa do mundo, contribuímos significativamente com o total das emissões mundiais.

Além disso, somos donos da maior floresta tropical do mundo, a floresta amazônica. Viva, ela é uma importante “seqüestradora” de carbono e, portanto, uma grande aliada no combate às mudanças climáticas.

Derrubada, ela pode vir a ser uma grande inimiga, liberando grande quantidade de carbono na atmosfera. Cabe a nós decidir o que fazer dela!

E ainda, como dependemos fortemente de recursos naturais diretamente ligados ao clima, como na agricultura e na geração de energia hidrelétrica, podemos ser duramente atingidos pelas mudanças climáticas.

Conclusão: nós brasileiros temos muito o que refletir, debater e fazer para enfrentar as mudanças climáticas. Nesta seção, vamos ver como o Brasil tem contribuído para as mudanças climáticas, os impactos que elas podem ter no país e o que podemos fazer para evitar conseqüências mais drásticas. 

 

aquecimento-global-no-brasil

 

 

– Contribuição brasileira para as mudanças climáticas


O Brasil é responsável por algo em torno de 4% das emissões globais de gás carbônico. É pouco em comparação com os principais países emissores desse gás – Estados Unidos, Rússia, China e Japão –, mas é uma quantidade expressiva diante dos desafios atuais.

As queimadas e o desmatamento na Amazônia respondem por mais da metade das emissões totais brasileiras de gás carbônico.

O uso de combustíveis fósseis nos setores energético e de transporte também contribui bastante para a intensificação do efeito estufa. Por causa dele, o Brasil libera por ano de 80 a 90 milhões de toneladas de carbono.

As hidrelétricas e as usinas de carvão também estão entre as contribuições negativas do Brasil.

As hidrelétricas emitem quantidades expressivas de metano. Já as usinas a carvão mineral causam grande impacto ambiental, não só pelas emissões de gás carbônico, mas também pelos resíduos e pela a poluição resultante de suas atividades. 

 

aquecimento_global

 

– O impacto das mudanças climáticas no Brasil  


Algumas pessoas acreditam que o furacão Catarina, que atingiu o Rio Grande do Sul e Santa Catarina em 2004, e a seca na Amazônia em 2005 sejam conseqüências das mudanças climáticas. Mas não há provas de que isso é verdade.

Por outro lado, relatórios divulgados pelo IPCC em 2007 apontam impactos preocupantes das mudanças climáticas em lugares como a Amazônia, o semi-árido nordestino e as regiões litorâneas do Brasil.

aquecimento-global-3

 

Amazônia


Até agora, a temperatura não tem aumentado de forma preocupante na floresta amazônica. Mas alguns modelos de previsão do clima mostram que a temperatura poderá subir, até 2100, de 4 a 8º C nessa região, e a quantidade de chuvas poderá diminuir, levando a um processo chamado de savanização da Amazônia.

Um dos possíveis impactos desse aumento de temperatura no bioma amazônico é o aumento na freqüência de secas na Amazônia Oriental, com perdas nos ecossistemas, na floresta e na biodiversidade local.

O aumento de temperatura e redução da umidade devem ter impacto no transporte de umidade e de chuvas para o sudeste brasileiro, afetando a geração de energia hidrelétrica nessa região.

Além disso, com a savanização da Amazônia, as condições serão mais favoráveis para o alastramento de queimadas, devido a redução da umidade da floresta.

aquecimentno-tsunami_silencioso_alfredo

 

Nordeste


Parte da região do semi-árido nordestino poderá se tornar árida, devido a redução das chuvas e do aumento da temperatura da região.

A recarga dos lençóis freáticos locais poderá ficar comprometida, sofrendo uma redução grande em sua capacidade de armazenamento.

aquecimento-global-tsunami

 

Sudeste


No Sudeste, o aumento das chuvas previsto deverá ter impacto direto na agricultura, dando origem a inundações e deslizamentos de terra. Cidades como Rio de Janeiro e São Paulo deverão ser afetadas.

Em longo prazo, a savanização da Amazônia ( quer dizer, a mudança de floresta para savana)   poderá diminuir a capacidade da floresta em fornecer umidade ao Sudeste, afetando o regime de chuvas na região.

aquecimento_global-2

 

– Como o Brasil pode ajudar no combate às mudanças drásticas no clima?


Ainda que o Brasil não tenha uma meta definida de redução de emissões de gases de efeito estufa, como os países desenvolvidos signatários do Protocolo de Quioto, estamos comprometidos com a estabilização dos gases de efeito estufa em níveis que assegurem a vida no planeta.

Há claras possibilidades de redução das emissões brasileiras. Uma delas é a simples aplicação e o cumprimento das leis ambientais do país, que proíbem muitas das atividades que levam hoje a queimadas e ao desmatamento. Só isso já teria um grande efeito, reduzindo a área desmatada e, assim, diminuindo muito as emissões brasileiras. 

O reflorestamento também tem grande potencial na redução das emissões brasileiras. Para isso, bastaria promover o replantio em áreas degradas e marginais abundantes no território brasileiro.

As florestas em crescimento absorveriam, através da fotossíntese, o gás carbônico da atmosfera, contribuindo para a redução do efeito estufa.

O Brasil pode contribuir ainda investindo em energia renovável. Apesar de ter quase metade de sua energia baseada em fontes renováveis, ainda há como avançar no uso da energia dos ventos e do Sol.

Deve-se também estimular o uso do álcool e do biodiesel como combustível e investir em sistemas mais eficientes e mais baratos de transporte coletivo, como ônibus e metrô, e na construção de ciclovias seguras. 

Na agricultura, é preciso desenvolver e disseminar entre os agricultores técnicas menos nocivas ao meio ambiente. Além disso, novos cultivos devem ocupar áreas degradadas recuperadas e não biomas que estão ameaçados.

 global_warming_war





Imagem de leitura — Charles Courtney Curran

23 12 2008

charles-courtney-curran-eua-1861-1942-dollys-portrait-1909

Retrato de Dolly, 1909

Charles Courtney Curran, EUA, (1861-1942)

Óleo sobre tela

 

 

 

 

 

Charles Courtney Curran, EUA, (1861-1942), nasceu em Harford, Kentucky em 1861.  Mudou-se para Ohio em 1881, onde estudou por um ano na Escola de Design de Cincinnati.  Em 1882 começou sua carreira brilhante depois de mudar para Nova York e de se increver na National Academy de design.    Ambicioso, vai para Paris, para estudar com Benjamin Constant, Jules Joseph Lefebvre e Henri Lucien Doucet, na Académie Julien.  Quando retorna aos EUA, o pintor ensina no Instituto Pratt em Nova York.  É considerado o mais influente  pintor na retomada da pintura de gênero nos EUA e um dos introdutores do impressionismo no país.

 

 

 

 

 





Festival de Luzes: a outra festa de dezembro

20 12 2008

hannukah-diane-fredgant-handpainted-silk

O Festival de luzes, sd

Diane Fredgant

seda pintada à mão

 

 

Daqui a dois dias, no dia 22 de dezembro, o Hanucá, ou a Festival das Luzes do calendário de festas judaico, será celebrado  É uma festa sempre em dezembro, a data variando de ano para ano que dura por oito dias.  Nestes dias comemora-se a vitória de Israel na primeira batalha pela liberdade religiosa de que se sabe.  A festividade começa com o acender das velas antes do pôr do sol.  A seguir, canta-se a canção ‘Maóz Tsur’.  Depois come-se os deliciosos ‘sonhos’,  recheados com geléia e conta-se  histórias, tudo à luz das velas de Hanucá.

 

O que é Hanucá?

 

Hanucá é a celebração anual da sobrevivência espiritual dos judeus.    Em 167 A .E.C., o imperador greco-sírio Antióhus resolveu destruir o Judaísmo banindo três mitsvót: o Shabat, a Santificação do Novo Mês (estabelece-se o primeiro dia do mês pelo testemunho de duas pessoas que viram o nascer da lua nova) e o Brit Milá, que é a a entrada dos meninos no Pacto de Avraham, através da circuncisão.

 

Shabat: significa que Deus é o Criador.  E é ele que mantém o Universo, que a Sua Torá é o ‘mapa’ da criação, contendo os seus significados e valores.

 

Santificar o Novo Mês: serve para determinar a data dos Feriados Judaicos. Sem isto seria o caos. Por exemplo, Sucót cai no 15º dia de Tishrei. O dia em que isto ocorrerá depende da declaração do primeiro dia de Tishrei.

 

Brit Milá é o símbolo do nosso pacto especial com o Todo-Poderoso. Todos os três mantêm a nossa integridade cultural e eram, portanto, uma ameaça à Cultura Grega.

 

 

menoravelaschanu

 

 

Matitiáhu e os seus 5 filhos, conhecidos como os Macabeus,  em 168 A.C., comandaram um pequeno e inspirado exército de judeus contra o poder esmagador de seus opressores sírios numa luta de morte pelo direito de adorar a Deus à própria maneira tradicional.

 

Em três anos eles conseguiram expulsar os opressores de Israel. A vitória foi um milagre Tendo conseguido recuperar o controle do Templo Sagrado, em Jerusalém, desejaram colocá-lo em funcionamento imediatamente. Precisavam de azeite de oliva, ritualmente puro, para reacender a Grande Menorá do Templo. Porém, somente um frasco de azeite foi encontrado intacto, suficiente para queimar por apenas um dia, no entanto, precisavam de uma quantidade que durasse oito dias, até que o novo azeite, ritualmente puro, pudesse ser produzido. Um milagre ocorreu e aquele azeite, suficiente para um só dia, ardeu por 8 dias.

 

Esta é uma história de bravura e de encantamento  que encheu com justificável orgulho muitas gerações de judeus. Todavia, a tradição judaica hesitou em transformar um triunfo militar numa celebração religiosa. Pois embora a Bíblia considerasse justas algumas guerras, não permitia associar ao culto o derramamento de sangue humano. Ao rei David, um dos maiores heróis do Judaísmo, não foi permitido construir o Templo, porque sua vida fora dedicada aos feitos guerreiros.

 

 

menora-israel

 

 

O simbolismo desta festa é completamente devotado a referências militares. As velas são acesas durante oito noites consecutivas por qualquer um dos pais (algumas famílias permitem às crianças terem a sua vez) numa menorá especialmente planejada para a Festa das Luzes.

 

Daí as velas de Hanucá (ou recipientes com azeite de oliva) serem acesos por oito dias.  Um no 1º dia, dois no 2º, e assim por diante. A primeira vela é colocada no lado direito da menorá e, a cada dia, uma nova vela é acrescentada imediatamente à sua esquerda. Acende-se uma vela na primeira noite, duas na segunda, e assim por diante até que todas as oito se acendam, Uma vela adicional, denominada shamash, é acesa ao mesmo tempo, a fim de ser usada para acender as outras. Em tempos idos sugeriu-se que a ordem fosse invertida: oito velas acesas na primeira noite, sete na segunda, etc. Mas os Rabis da Escola de Hilel se apegaram ao processo que agora se fixou, para refletir a fé de Israel num futuro mais brilhante.

 

A vela extra também foi dotada de um significado especial. A chama se entrega para criar uma chama adicional sem nada perder do seu próprio fulgor. Assim o homem dá de seu amor aos seus semelhantes sem nada perder de si.

 

Na primeira noite recita-se três brahót e duas nas noites seguintes. Acende-se a vela sempre a partir do lado esquerdo (a vela do dia), seguindo em direção ao lado direito da menorá. A menorá deve ter todos os seus ‘braços’ alinhados e na mesma altura. A tradição Ashkenazi é que cada homem acima de 13 anos acenda a sua própria hanukiá, enquanto que a tradição Sefaradi é acender uma única hanukiá por toda a família. As bênçãos podem ser encontradas no Sidur, o livro de preces.

 

Mesmo sendo permitido acender as velas dentro de casa, é preferível acendê-las onde outros possam ver as suas chamas, para divulgar o milagre de Hanucá. Em Israel, muitas pessoas acendem as velas do lado de fora das casas, em caixas de vidro ventiladas feitas especialmente para se colocar a menorá.

 

 

 

menorah

Mosaico Romano da Menorá, 300-500 AC

Artista desconhecido

Encontrado em Tunis, Tunísia

57 x 89.5cm

Museu do Brooklin, Nova York.

 

 

 

Antes do século XX, o Hanucá era um feriado relativamente menor. Contudo, com o crescimento do Natal como o maior feriado no Ocidente e o estabelecimento do estado moderno de Israel, o Hanucá começou a servir crescentemente tanto como celebração da restauração da soberania judaica em Israel e, mais importante, como um feriado para se dar presentes voltado para a família em Dezembro que poderia ser um substituo judaico para o feriado cristão.

 

É importante notar que a substituição pelo Natal não é universalmente aceito, e muitos judeus não tomam parte nesta significação extra naquilo que eles consideram um feriado menor. Crianças judias, primariamente entre os Ashkenazim, também jogam um jogo onde eles giram um pião de quadro faces com letras hebraicas chamado de dreidel (סביבון sevivon em hebraico) .  O dreidel, um pião com quatro lados, tendo as letras hebraicas Nún, Gímel, Hêi e Shín (as iniciais de Nês Gadól Hayá Shám: Um Grande Milagre Aconteceu Lá em Israel.  Este  é o jogo tradicional.  Nos tempos da perseguição, quando estudar Torá era proibido, os judeus estudavam escondidos e, quando os soldados gregos vinham investigar, rodavam o dreidel e fingiam estar apostando.  As regras: Nún – ninguém ganhou; Guímel – o que rodou leva tudo; Hêi – o que rodou leva a metade; Shín – o que rodou tem que ‘colocar na mesa’ o equivalente ao que foi apostado. Ganha quem acumular mais fichas no menor tempo!

 

Este artigo usa e abusa de informações em diversos locais da internet, mas principalmente dos seguintes:

Lugar 1

Lugar 2





Mensagem de Natal, poema de Afonso Louzada

19 12 2008

anita-malfatti-natividade-ost-65x81sd

Natividade, sd

Anita Malfatti, Brasil (1889-1964)

Óleo sobre tela  65 x 81cm

 

 

 

 

 

 

 

MENSAGEM DE NATAL

 

 

                                 Afonso Louzada

 

 

Glória a Deus nas alturas, meus irmãos,

e paz na terra aos homens que são bons.

Todos se dêem fraternalmente as mãos,

abrindo para o amor os corações.

 

Da concórdia os clarins, pelos desvãos,

estão cantando os sacrossantos sons

e se ilumina o mundo dos cristãos

na apoteose triunfal de seus clarões.

 

Glória a Deus nas alturas, paz na terra.

Brilhe a estrela do amor, gloriosamente,

depois da horrenda maldição da guerra.

 

E para sempre a fé que nos irmana

abençoe este mundo impenitente,

para a imortalidade da alma humana.

 

 

Do livro:

 

 

 

SONETOS, Affonso Louzada, Rio de Janeiro, 1956, 2ª edição-aumentada.

 

Affonso Montenegro Louzada – (RJ – 1904 — ?), poeta, ensaísta, crítico, jornalista, teatrólogo, advogado, membro da Sociedade Homens de Letras do Brasil.  Hoje em diversos livros de referencia seu nome é encontrado assim: Afonso Lousada.

 

 

 Obras: 

Peço a palavra, (1934),  – fábulas me versos.

La Fontaine (1937) ensaios sobre fábulas.

Melo Matos, o apóstolo da infância, (1938 )

O cinema e a literatura na educação da criança (1939)

O problema da criança (1940)

Delinqüência infantil (1941)

A ação do Juízo de Menores (1944

Tempo abandonado ( 1945) – versos

Notas sobre a assistência a menores (1945)

Noturnos (1947) – versos

Literatura infantil (1950)

Histórias dos bichos (1954) – fábulas em versos.

 

 

Anita Catarina Malfatti (São Paulo, 2 de dezembro de 1889 — São Paulo, 6 de novembro de 1964) foi uma pintora, desenhista, gravadora e professora brasileira.

 

 





Descoberta: estátuas do reinado Cushe no Sudão, 300 AC

17 12 2008

cartum4

REUTERS/René-Pierre Dissaux/Section Française de la Direction des Antiquités du Soudan/Handout

Três estátuas em pedra datadas do período Meroe (450 a.C. e 300 d.C.) foram descobertas nos sítios arqueológicos do Sudão, na África.  As esculturas, que contêm inscrições da antiga escrita meroítica, são as mais completas já encontradas.  Até hoje só se encontrara fragmentos de peças desta época.  Todas as esculturas encontradas são de um carneiro que sabemos representava o deus Amun, considerado rei dos deuses egípcios e força criadora da vida.  A curiosidade sobre as estátuas descobertas desta vez é que todas têm inscrições muito antigas e difíceis de interpretar.

 

Meroe (ou Meroé) é o nome de uma antiga cidade na margem leste do rio Nilo, na Núbia.  Ficava na região do vale do rio Nilo que hoje é é ocupada pelo Egipto e pelo Sudão, aproximadamnete a  300 km NE de Cartum.  No século VII antes de Cristo, Cartum fora a capital do reino de Cushe por mais de mil anos, ( entre o século VII a.C. e o século IV da nossa era) sabendo-se ser uma das primeiras civilizações do vale do rio Nilo. Neste período os núbios  desenvolveram uma escrita própria, chamada pelos estudiosos de “escrita meroítica”. É a mais antiga língua escrita do Saara meridional.

 

cartum2

A importância das estátuas que foram descobertas há três semanas em el-Hassa, próximo às pirâmides de Meroe, é que suas inscrições estão gravadas numa língua mais antiga do que todas as inscrições que se conhece do Meroe.  Isto as torna de  difícil interpretação.  Mas demonstra uma maior coplexidade e antiguidade da língua, da qual sabemos muito pouco.  “É uma importante descoberta”, afirmou o pesquisador Vincent Rondot à BBC.   

 

Estas estátuas  ainda mostram pela primeira vez uma dedicação real com escrita completa.  Meroe, lembrou o arqueólogo Rondot: é uma das últimas línguas da antiguidade que ainda não entendemos completamente.  Nós conseguimos ler.  Não temos problemas pronunciando as letras, mas não conseguimos ainda entendê-la por completo.  Entendemos algumas palavras longas e os nomes das pessoas mencionadas.  No momento os especialistas estão se valendo de fragmentos encontrados anteriormente para poderem decifrar as novas legendas encontradas.

cartum

REUTERS/René-Pierre Dissaux/Section Française de la Direction des Antiquités du Soudan/Handout

 

Estas escavações são financiadas pelo ministério de relações exteriores da França, e feitas pela seção Francesa do Departamento de Antiguidades do Sudão.   E estão também trazendo à tona informações sobre um rei muito mal conhecido — Amanakharequerem — e que é mencionado nas inscrições das estátuas dos cordeiros.

 

Antes destas descobertas, nós tínhamos só quatro documentos que mencionavam seu nome.  Não sabemos nem  onde ele foi enterrado.   Agora estamos começando a compreender sua importância no reino. – disse Rondot.

 

 

O Sudão tem mais pirâmides do que o Egito.  Mas pouca gente visita estas ruínas arqueológicas por causa dos conflitos internos no país que ocupam seus habitantes há quase 46 anos.   Esses conflitos armados internos fazem qualquer trabalho tanto arqueológico como de turismo, extremamente difícil.

 

 





Imagem de leitura — Henrique Bernardelli

1 12 2008

henrique_bernardelli_-_interior_com_menina_que_le-1876-86-masp-ost-95-x73

Interior com menina que lê, 1876-86

Henrique Bernardelli ( Brasil,  1858 – 1936)

óleo sobre tela, 95 cm x 73 cm

Museu de Arte de São Paulo

 

 

Henrique Bernardelli (Valparaíso, Chile 1858 – Rio de Janeiro RJ 1936). Pintor, desenhista, gravador, professor.  Chegou ao Brasil, com 2 anos de idade, no começo da década de 1860.  A família se estabeleceu no Rio Grande do Sul. Em 1867, transfere-se para o Rio de Janeiro. Três anos depois, matricula-se na Academia Imperial de Belas Artes – Aiba, aluno de Zeferino da Costa (1840 – 1915), Agostinho da Motta (1824 – 1878) e Victor Meirelles (1832 – 1903). Viaja para a Itália em 1878. Em Roma, freqüenta o ateliê de Domenico Morelli (1826 – 1901) com quem estuda até 1886.  Volta ao Brasil no mesmo ano, realiza no Rio de Janeiro uma exposição individual que causa interesse e polêmica no meio local. São apresentadas, entre outras obras, Tarantela, 1886, Maternidade, 1878, Messalina, 1880, Modelo em Repouso, ca.1881 e Ao Meio Dia.

 

Leciona na Escola Nacional de Belas-Artes – Enba de 1891 a 1905, quando não aceita a renovação de seu contrato, alegando que a instituição precisa renovar seus quadros periodicamente. Juntamente com o irmão, passa a lecionar em um ateliê particular, na Rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro, onde estudam, entre outros, Lucílio  de Albuquerque (1877 – 1939) e Georgina de Albuquerque (1885 – 1962), Eugênio Latour (1874 – 1942), Helios Seelinger (1878 – 1965) e Arthur Timóteo da Costa (1882 – 1922).

 

Na década de 1890, realiza importantes trabalhos decorativos, como a pintura de painéis para o interior do Theatro Municipal, os painéis  O Domínio do Homem sobre as Forças da Natureza e A Luta pela Liberdade, para a Biblioteca Nacional , ambos no Rio de Janeiro, e para o Museu Paulista, em São Paulo. Merecem especial destaque os 22 medalhões em afresco que adornam a fachada do atual edifício do Museu Nacional de Belas Artes – MNBA, expostos no Salão da Enba de 1916. Em 1931, diversos pintores insatisfeitos com o modelo de ensino da Enba organizam-se coletivamente criando um grupo voltado ao aprimoramento técnico e a reformulação do ensino artístico, dando-lhe o nome de Núcleo Bernardelli em homenagem aos professores Henrique e  seu irmão Rodolfo Bernardelli, escultor.

 





As diferentes levas imigrantes na literatura brasileira

5 11 2008

quadro_imigracao-ernst-zeuner-rio-dos-sinos-s-leopoldo

Chegada dos imigrantes alemães em 1824

Ernst Zeuner ( Alemanha 1895- Brasil 1967)

óleo sobre tela

 

 

 

 

 

Quase todos os países das Américas têm uma massa de imigrantes que lhes dá características específicas.  O Brasil assim como os EUA, o Canadá, a Argentina tem uma população de origem muito diversa que só nos enriquece.  Cada grupo de imigrantes nestes países veio por não agüentar situações de guerra, de pobreza, de fome, perseguições políticas e religiosas em suas terras natais.  As terras do Novo Mundo eram a oportunidade do Eldorado (por mais defeitos que o país adotivo tivesse), eram a oportunidade de sobrevivência decente.  Este espírito empreendedor de quem veio de terras distantes para as Américas caracteriza todos os recém-chegados que sonham em construir um país diferente de onde vieram e marca seus filhos de maneira visível.

 

O escritor Salim Miguel

O escritor Salim Miguel

Países como os Estados Unidos, o Canadá, o Brasil, a Argentina têm uma grande dívida com esses homens e mulheres corajosos que deixaram suas culturas, suas terras, suas línguas, seu folclore, seus laços de família, seus feriados religiosos, para trás, muitas vezes para nunca mais voltarem a ver pais, irmãos e outros parentes próximos.  Há povos que são conhecidos por terem mandado emigrantes para os quatro cantos do mundo.  Fala-se com freqüência da diáspora dos judeus, assim como se fala da diáspora portuguesa. 

 

 

 

 

 

Só agora no final do século XX e início do XXI, que os brasileiros — tendo adquirido um melhor e mais democrático nível de educação e maior interesse na sua história, tem-se conscientizado da saga vivida por seus antepassados, dos sacrifícios que nossos pais, avós, bisavós fizeram para chegar aqui e suas contribuições para a cultura brasileira.

 

A experiência brasileira de inclusão só se parece pela total diversidade dos que aqui chegaram, com aquela encontrada nos Estados Unidos.  Como no país da América do Norte a educação da população em geral foi mais universal do que no Brasil o fenômeno da imigração, um tópico comum entre os americanos do norte,  só agora  aparece como tema perene na literatura brasileira.  Digo agora mas refiro-me principalmente da segunda metade do século XX até hoje.

 

Foi, portanto, interessante ver as repostas que Salim Miguel deu a Miguel Conde, em entrevista publicada no jornal O Globo no caderno Prosa e verso, de 25 de outubro de 2008.  Salim Miguel para quem ainda não o conhece é um grande escritor brasileiro, catarinense, ( nasceu no Líbano mas mudou-se para o Brasil ainda criancinha) que acaba de lançar mais um romance, Jornada com Rupert, (Record:2008) onde a trama se passa em Blumenau entranhando-se pela colonização alemã na cidade.   Vou transcrever aqui três das perguntas feitas ao escritor na entrevista, porque como ele, acredito que salim-miguel-rupert1nós ainda não exploramos o suficiente na literatura e como identidade cultural  o assunto da colonização, da imigração no Brasil.

 

MC – Nur na escuridão, que está sendo relançado e Jornada com Rupert, seu novo livro, contam histórias de imigrantes no Brasil, um tema recorrente em sua ficção e que faz parte de sua biografia também.  Queria saber como ficção e memória se separam, ou se confundem em sua escrita.

 

Salim Miguel – Em primeiro lugar se há uma coisa que eu tenho muito boa é a memória.  Mas é claro que, nos meus livros o que é contado ao mesmo tempo é e não é a realidade, pois há elementos de ficção que permeiam tudo.  No caso de Nur na escuridão, trabalhei em cima da minha família, embora o livro não seja uma biografia, nem uma autobiografia.  Jornada com Rupert é um pouco diferente porque fala de colonos alemães.  Logo que minha família chegou ao Brasil, nós vivemos em duas comunidades de imigração alemã.  Foram os primeiros lugares onde nós moramos, foi um livro mais difícil de escrever.

 

MC – Jornada com Rupert faz um painel da vida de imigrantes em Santa Catarina, e ao mesmo tempo conta um drama individual, se aproximando em alguns momentos do tom do romance de formação.  O senhor sabia bem, ao começar o romance, que livro queria escrever, e como costurar as duas histórias?

 

Salim Miguel – Eu sempre sei o que pretendo fazer, mas não sei como pretendo fazer.   Não me interesso por ficção histórica, embora goste que nos meus livros o enredo esteja associado a fatos reais da história do Brasil.  Eu queria contar esta história de colonização em Santa Catarina que se estende por um século, mas de um jeito que não fosse linear, que não tivesse um único narrador onisciente.  Por isso, a história é contada na forma de recordações, todas acontecidas em um dia, durante uma viagem de trem do protagonista.

 

– — – — – — – — – — – — – — – — – — – —

 

MC – Vários escritores brasileiros exploraram ficcionalmente a vida dos imigrantes, de Lya Luft até mais recentemente, Cíntia Moscovich.  O senhor se interessa por esses livros?

 

Salim Miguel – Gosto muito dos livros da Lya Luft.  Tenho lido tudo que encontro sobre o tema, de Graça Aranha a Milton Hatoum e Raduan Nassar.  Diante da importância da imigração para o Brasil, acho que nossa literatura e mesmo nossos ensaístas ainda não deram ao tema a atenção devida.   Existe um processo muito rico, de formação de uma sociedade a partir da chegada dos estrangeiros, da convivência deles numa terra nova, que ainda foi pouco explorado em nossa ficção.

 

Julgando-se pela produção de romances, de livros de ficção com o motivo da imigração nestes outros países mencionados, acredito como Salim Miguel que ainda há muito, mas muito a ser explorado pelo escritor brasileiro.  Mãos à obra…

 

 

 

 

 

 





À sombra dos gênios: vida das esposas de Monet, Rodin e Cézanne

4 11 2008

monetparasol21875

Senhora com parassol, 1875

[Retrato de Camille Doncieux Monet,

esposa do pintor]

Claude Monet (França 1840-1926)

Óleo sobre tela  — 119 x 100 cm

National Gallery of Washington, EUA

 

Acaba de ser lançado nos EUA o livro de Ruth Butler, Hidden in the Shadow of the Master: the model wives of Cézanne, Monet and Rodin [Escondidas na sombra do mestre: a esposas-modelo de Cézanne, Monet e Rodin].  Yale Univ. Press:2008.  Tudo indica ser um livro muito interessante porque se propões a detalhar a vida das companheiras deste famosos artistas plásticos; mulheres, cujos rostos, expressões faciais e corporais o mundo conhece tão bem, através dos trabalhos de seus respectivos maridos.  O público freqüentador de museus fica freqüentemente intrigado, esperando que a representação destas senhoras possa revelar as personalidades, que nos são elusivas, quando apreciamos as obras de arte em que elas aparecerem.

 

rose-beuret-auguste_rodin

 

 

 

 

 

 

Primavera: jovem com chapéu de palha, circa 1865

[retrato de Rose Beuret-Rodin,  esposa do escultor]

Auguste Rodin (França 1840-1915)

Bronze

 

 

As heroínas são  Hortense Fiquet  esposa de Paul Cezanne, Camille Doncieux, primeira mulher de Claude Monet e Rose Beuret, com que Auguste Rodin se casa duas semanas antes da morte dela e 50 anos depois do primeiro encontro entre os dois.  Essas três mulheres, vindas de famílias modestas, foram escolhidas por cada um desses artistas para modelos.  Elas três passaram a viver com estes homens, que lhes deram filhos bastardos até que cada um por sua vez se casou com elas (Rodin é o único que não reconhece o filho Auguste Beuret, nascido dois anos depois do escultor estabelecer residência com Rose Beuret).  Juntos cada casal passou pelos anos de dificuldades financeiras que precedem o sucesso e a fama.  Todas estas mulheres têm suas imagens conhecidas do público e, no entanto, estão entre os personagens mais elusivos da história da arte.

 

 

hortensefiquetinastripeby6

Madame Cézanne com saia de listras, 1877

[retrato de Hortense Fiquet-Cézanne, esposa do pintor]

Paul Cézanne (França 1839-1906)

óleo sobre tela, 73 x 56 cm

Museu de Belas Artes de Boston, EUA

 

A autora defende que “estas mulheres não eram simplesmente modelos; elas trouxeram com elas um grande leque de emoções dando ao trabalho de seus companheiros substância emocional e textura que foram elementos que em muito contribuíram para o trabalho que os levou ao reconhecimento profissional.” 

 

hidden2

 

Um livro com uma tese interessante que há muito faltava na compreensão de uma época assim como na compreensão do papel da mulher no final do século XIX, para não dizer no entendimento de como estas personalidades artísticas conseguiram ter uma vida que se assemelhasse a uma vida dentro dos parâmetros considerados mais ou menos comuns da época.  

 

 

———-

25/2/2009  – adiciono este quadro de Maurício de Sousa

 

mauricio-de-sousa-monica-com-sombrinha-1991-acrilica-sobre-tela-127-x-107-ricardo-brennand

Monica com sombrinha, 1991

Maurício de Sousa (Brasil)

Acrílica sobre tela, 127 cm x 107 cm

Instituto Ricardo Brennand, PE