Cantadeiras, de Joaquim Cardozo, poesia para crianças

7 07 2010

 

Vendedores de palmito e de samburás, 1834-1839

Jean-Baptiste Debret ( França, 1768-1848)

Gravura baseada em aquarela, original c. 1825

Da publicação: Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil

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Cantadeiras

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                                                          Joaquim Cardozo

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Vendedor de mel de engenho

Vem voltando vem com cinco

Canequinhos pendurados

Nos grandes bules de zinco.

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Vendendo vem mel de engenho

Que se come com farinha,

Que se bebe dissolvido,

Nas águas da fontainha.

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Ao seu lado caminhando

Também vem o farinheiro

Que fugiu de Muribeca

Sem recurso, sem dinheiro.

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É farinha de mandioca

Da mais branca, da mais limpa,

Que misturada com mel,

Dá gosto mesmo supimpa.

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E os dois vem juntos, bem juntos

E todo o cuidado têm

Pois se não há precaução

Não há mel para ninguém.

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Joaquim Maria Moreira Cardoso (PE,  1897 — 1978) Poeta, contista, desenhista, engenheiro civil, professor universitário e editor de revistas especializadas em arte e arquitetura.

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Obras  

Chuva de caju, 1947  

De uma noite de festa  1971  

O capataz de Salema. Antônio Conselheiro. Marechal, boi de carro.  1975  

O Coronel de Macambira  1963  

O Interior da matéria  1975  

Os Anjos e os demônios de Deus  1973  

Pequena antologia pernambucana  1948  

Poemas  1947  

Poemas selecionados  1996  

Poesias completas  1971  

Prelúdio e elegia de uma despedida  1952  

Signo estrelado  1960  

Um livro aceso e nove canções sombrias  1981 [póstuma]





Hoje é dia de futebol mundial, arte de André Lohte

6 07 2010

Os jogadores de futebol, 1918

André Lohte ( França 1885-1962)

Óleo sobre tela,  50 x 80 cm





O macaco azul, conto de Aluisio de Azevedo

6 07 2010

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O MACACO AZUL

 
 

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                                                        Aluisio de Azevedo

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Ontem, mexendo nos meus papéis velhos, encontrei a seguinte carta:

 

Caro Senhor.

Escrevo estas palavras possuído do maior desespero. Cada vez menos esperança tenho de alcançar o meu sonho dourado. – O seu macaco azul não me sai um instante do pensamento! É horrível! Nem um verso!

Do amigo infeliz

 

                                                             PAULINO

 

Não parece um disparate este bilhete?

 

Pois não é. Ouçam o caso e verão!

 

Uma noite – isto vai há um bom par de anos – conversava eu com o Artur Barreiros no largo da Mãe do Bispo, a respeito dos últimos versos então publicados pelo conselheiro Otaviano Rosa, quando um sujeito de fraque cor de café com leite, veio a pouco e pouco, aproximando-se de nós e deixou-se ficar a pequena distância, com a mão no queixo, ouvindo atentamente o que conversávamos.

 

– O Otaviano, sentenciou o Barreiros, o Otaviano faz magníficos versos, lá isso ninguém lhe pode negar! mas, tem paciência! o Otaviano não é poeta!

 

Eu sustentava precisamente o contrário afiançando que o aplaudido Otaviano fazia maus versos, tendo aliás uma verdadeira alma de poeta, e poeta inspirado.

 

O Barreiros replicou, acumulando em abono da sua opinião uma infinidade de argumentos de que já me não lembro.

 

Eu trepliquei firme, citando os alexandrinos errados do conselheiro.

 

O Barreiros não se deu por vencido e exigiu que eu lhe apontasse alguém no Brasi4 que soubesse arquitetar alexandrinos melhor que S. Ex.ª.

 

Eu respondi com esta frase esmagadora:

 

– Quem? Tu!

 

E acrescentei, dando um piparote na aba do chapéu e segurando o meu contendor, com ambas as mãos pela gola do fraque:

 

– Queres que te fale com franqueza?… Isto de fazer versos inspirados e bem feitos; ou, por outra: isto de ser ou não ser poeta, depende única e exclusivamente de uma cousa muito simples…

 

– O que é?

 

É ter o segredo da poesia! Se o sujeito está senhor do segredo da poesia, faz, brincando, a quantidade de versos que entender, e todos bons, corretos, fáceis, harmoniosos; e, se o sujeito não tem o segredo, escusa de quebrar a cabeça pode ir cuidar de outro ofício, porque com as musas não arranjará nada que preste! Não és do meu parecer?

 

– Sim, nesse ponto estamos de pleno acordo, conveio o Barreiros. Tudo está em possuir o segredo!…

 

E, tomando uma expressão de orgulho concentrado, rematou, abaixando a cabeça e olhando-me por cima das lunetas: – Segredo que qualquer um de nós dois conhece melhor que as palmas da própria mão!…

 

– Segredo que eu me prezo de possuir, como até hoje ninguém o conseguiu, declarei convicto.

 

E com esta frase me despedi e separei-me do Artur. Ele tomou para os lados de Botafogo, onde morava, e eu desci pela rua Guarda Velha.

 

Mal dera sozinho alguns passos, o tal sujeito de fraque cor de café com leite aproximou-se de mim, tocou-me no ombro, e disse-me com suma delicadeza:

 

– Perdão, cavalheiro! Queria desculpar interrompê-lo. Sei que vai estranhar o que lhe vou dizer, mas…

 

– Estou às suas ordens. Pode falar.

 

– É que ainda há pouco quando o senhor conversava com o seu amigo, afirmou a respeito da poesia certa cousa que muito e muito me interessa… Desejo que me explique…

 

Bonito! pensei eu. É algum parente ou algum admirador do conselheiro Otaviano, que vem tomar-me uma satisfação. Bem feito! Quem me manda a mim ter a língua tão comprida?…

 

– Entremos aqui no jardim da fábrica, propôs o meu interlocutor; tomaremos um copo de cerveja enquanto o senhor far-me-á o obséquio de esclarecer o ponto em questão.

 

O tom destas palavras tranqüilizou-me em parte. Concordei e fomos assentar-nos em volta de uma mesinha de ferro, defronte de dois chopes, por baixo de um pequeno grupo de palmeiras.

 

– O senhor, principiou o sujeito, depois de tomar dois goles do seu copo, declarou ainda há pouco que possui o segredo da poesia… Não é verdade?

 

Eu olhei para ele muito sério, sem conseguir perceber onde diabo queria o homem chegar.

 

Não é verdade? insistiu com empenho. Nega que ainda há pouco declarou possuir o segredo dos poetas?

 

– Gracejo!… Foi puro gracejo de minha parte… respondi, sorrindo modestamente. Aquilo foi para mexer com o Barreiros, que – aqui para nós – na prosa é um purista, mas que a respeito de poesia, não sabe distinguir um alexandrino de um decassílabo. Tanto ele como eu nunca fizemos versos; creia!

 

– Ó senhor! por quem é não negue! fale com franqueza!

 

– Mas juro-lhe que estou confessando a verdade…

 

– Não seja egoísta!

 

E o homem chegou a sua cadeira para junto de mim e segurou-me uma das mãos.

 

– Diga! suplicou ele, diga por amor de Deus qual é o tal segredo; e conte que, desde esse momento, o senhor terá em mim o seu amigo mais reconhecido e devotado!

 

– Mas, meu caro senhor, juro-lhe que…

 

O tipo interrompeu-me, tapando-me a boca com a mão, e exclamou deveras comovido:

 

– Ah! Se o senhor soubesse; se o senhor pudesse imaginar quanto tenho até hoje sofrido por causa disto!

 

– Disto o quê? A poesia?

 

– É verdade! Desde que me entendo, procuro a todo o instante fazer versos!… Mas qual! em vão consumo nessa luta de todos os dias os meus melhores esforços e as minhas mais profundas concentrações!… É inútil! Todavia, creia, senhor, o meu maior desejo, toda a ambição de minha alma, foi sempre, como hoje ainda, compor alguns versos, poucos que fossem, fracos muito embora; mas, com um milhão de raios! que fossem versos! e que rimassem! e que estivessem metrificados! e que dissessem alguma cousa!

 

– E nunca até hoje o conseguiu?… interroguei sinceramente pasmo.

 

– Nunca! Nunca! Se o metro não sai mau, é a idéia que não presta; e se a idéia é mais ou menos aceitável, em vão procuro a rima! A rima não chega nem à mão de Deus Padre! Ah! tem sido uma campanha! uma campanha sem tréguas! Não me farto de ler os mestres; sei de cor o compêndio do Castilho; trago na algibeira o Dicionário de consoantes; e não consigo um soneto, uma estrofe, uma quadra! Foi por isso que pensei cá comigo: “Quem sabe se haverá algum mistério, algum segredo, nisto de fazer versos?… algum segredo, de cuja posse dependa em rigor a faculdade de ser poeta?…” Ah! e o que não daria eu para alcançar semelhante segredo?… Matutava nisto justamente, quando o senhor, conversando com o seu amigo, afirmou que o segredo existe com efeito, e melhor ainda, que o senhor o possui, podendo por conseguinte transmiti-lo adiante!

 

– Perdão! Perdão! O senhor está enganado, eu…

 

– Oh! não negue! Não negue por quem é! O senhor tem fechada na mão a minha felicidade! Se não quer que eu enlouqueça confie-me o segredo! Peço-lhe! Suplico-lhe! Dou-lhe em troca a minha vida, se a exige!

 

– Mas, meu Deus! o senhor está completamente iludido… Não existe semelhante cousa!… Juro-lhe que não existe!

 

– Não seja mau! Não insista em recusar um obséquio que lhe custa tão pouco e que vale tanto para mim! Bem sei que há de prezar muito o seu segredo mas dou-lhe minha palavra de honra que me conservarei digno dele até à morte! Vamos! declare! fale! diga logo o que é, ou nunca mais o largarei! nunca mais o deixarei tranqüilo! Diga ou serei eternamente a sua sombra!

 

– Ora esta! Como quer que lhe diga que não sei de semelhante segredo?!

 

– Não mo negue por tudo o que o seu coração mais ama neste mundo!

 

– O senhor tomou a nuvem por Juno! Não compreendeu o sentido de minhas palavras!

 

– O segredo! O segredo! O segredo!

 

Perdi a paciência. Ergui-me e exclamei disposto a fugir:

 

– Quer saber o que mais?! Vá para o diabo que o carregue!

 

– Espere, senhor! Espere! Ouça-me por amor de Deus!

 

– Não me aborreça. Ora bolas!

 

– Hei de persegui-lo até alcançar o segredo!

 

* * *

 

E, como de fato, o tal sujeito acompanhou-me logo com tamanha insistência, que eu, para ver-me livre dele, prometi-lhe afinal que lhe havia de revelar o mistério.

 

No dia seguinte já lá estava o demônio do homem defronte da minha casa e não me largava a porta.

 

Para o restaurante, para o trabalho, para o teatro, para toda a parte, acompanhava-me aquele implacável fraque cor de café com leite, a pedir-me o segredo por todos os modos, de viva voz, por escrito e até por mímica, de longe.

 

Eu vivia já nervoso, doente com aquela obsessão. Cheguei a pensar em queixar-me à polícia ou empreender uma viagem.

 

Ocorreu-me porém, uma idéia feliz, e mal a tive disse ao tipo que estava resolvido a confiar-lhe o segredo.

 

Ele quase perdeu os sentidos de tão contente que ficou. Marcou-me logo uma entrevista em lugar seguro; e, à hora marcada, lá estávamos os dois.

 

Então que é?… perguntou-me o monstro, esfregando as mãos.

 

– Uma cousa muito simples, segredei-lhe eu. Para qualquer pessoa fazer bons versos, seja quem for, basta-lhe o seguinte: – Não pensar no macaco azul. – Está satisfeito?

 

– Não pensar no…

 

– Macaco azul.

 

– Macaco azul? O que é macaco azul…?

 

– Pergunta a quem não lhe sabe responder ao certo. Imagine um grande símio azul ferrete, com as pernas e os braços bem compridos, os olhos pequeninos, os dentes muito brancos, e aí tem o senhor o que é o macaco azul.

 

– Mas que há de comum entre esse mono e a poesia?…

 

– Tudo, visto que, enquanto o senhor estiver com a idéia no macaco azul, não pode compor um verso!

 

– Mas eu nunca pensei em semelhante bicho!…

 

– Parece-lhe; é que às vezes a gente está com ele na cabeça e não dá por isso.

 

– Pois hoje mesmo vou fazer a experiência… Ora quero ver se desta vez…

 

– Faça e verá.

 

* * *

 

No dia seguinte, o pobre homem entrou-me pela casa como um raio. Vinha furioso.

 

– Agora, gritou ele, é que o diabo do bicho não me larga mesmo! É pegar eu na pena, e aí está o maldito a dar-me voltas no miolo!

 

– Tenha paciência! Espere alerta a ocasião em que ele não lhe venha à idéia e aproveite-a logo para escrever seus versos.

 

– Ora! Antes o senhor nunca me falasse no tal bicho! Assim, nem só continuo a não fazer versos, como ainda quebro a cabeça de ver se consigo não pensar no demônio do macaco!

 

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E foi nestas circunstâncias que Paulino me escreveu aquela carta.

 

 

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Aluízio Tancredo Gonçalves de Azevedo, pseudônimos:  Vítor Leal, Pitibri, Gisoflê, Semicúpio dos Lampiões, Acropólio. ( MA, 1857 –  Argentina, 1913), escritor,  novelista, contista, dramaturgo, ensaísta, caricaturista, jornalista e diplomata, membro da Academia Brasileira de Letras.

Obras

A condessa Vesper, 1901  

A Flor de Lis, 1882  

A Mortalha de Alzira, 1891  

A Mulher    

A República, teatro 

Alma no Prego    

As Minas de Salomão    

Casa de Orates , teatro,

Casa de Pensão  1883

Demônios  1893  

Em Flagrante, teatro

Filomena Borges  1884  

Fluxo e Refluxo  1905  

Fritzmack  1889  

Girandola de amores  1900  

Lição para Maridos    

Livro de uma Sogra  1895  

Mattos, Malta ou Matta?  1885  

Memórias de um Condenado  1882  

Mistério da Tijuca  1882  

O Caboclo    

O Cortiço  1890  

O Coruja , novela,1890  

O Crime da Rua Fresca, 1896  

O Homem  1887  

O Inferno    

O Japão  1894  

O Mulato  1881  

O Pensador  1880  

O Touro Negro  1938  

Os Doudos  1879  

Os sonhadores    

Paula Matos  1890  

Pegadas  1897  

República, teatro   

Um Caso de Adultério, teatro  

Uma lágrima de Mulher , 1879  

Venenos que Curam, teatro 





É difícil a adaptação à uma nova tecnologia para leitura

6 07 2010

 





Filhotes fofos: tartarugas

5 07 2010

Foto, Bob Couey/ Sea World San Diego/ AP.

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Filhotinhos de tartaruga marítima  são transferidos para a piscina de crescimento do Sea World, em San Diego, EUA.   A população de tartarugas do mar verdes, uma espécie em perigo de extinção,  aumentou por  82 novos bebês que saíram dos ovos de tatarugas  na Praia de Shipwreck, há 8 meses.  Nasceram sem intervenção do homem.





A experiência de participar de um grupo de leitura

4 07 2010

Leitura de verão, 1958

Donald Moodie (Escócia, 1892-1963)

Óleo sobre tela

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Como um grupo de leitura mudou a minha vida

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Na ocasião do lançamento do Times Book Club, em março de 2010, o jornal britânico, The Times,  publicou um artigo de autoria de Alyson Rudd, em que ela descrevia o que mudara, na sua maneira de ler um livro, depois de ter aderido a um grupo de leitura. 

O convite, ela reconta, veio depois de alguns encontros com  mães das crianças que freqüentavam os primeiros anos da escola, onde Alyson matriculara  seu filho.  “Você não gostaria de participar de um clube de leitura?” um dia lhe perguntaram.   Inicialmente,  o convite lhe pareceu ter o mistério de quem está sendo convidado  para participar de  uma sociedade secreta.  Sentiu-se lisonjeada inicialmente, mas logo preocupada pois não tinha o hábito de ler ficção contemporânea.  Acabou aceitando participar com o objetivo de se aproximar de outras mães de crianças da escola.  Lá se vão dez anos.

O primeiro romance que leu foi  White Teeth [ Dentes Brancos, Cia das Letras, 2003] de Zadie Smith.  Apesar de muito bem escrito Alyson Rudd não gostou dessa leitura:  a autora fez esforço demais em mostrar uma Inglaterra multi-cultural; mostrou  personagens demais e muito distantes da sua realidade.   Não se igualava, por exemplo, à ficção de Gogol que ela acabara de ler.  Mas mesmo assim,  esta foi uma ocasião que ficou marcada em sua vida, e da qual se lembra vividamente até hoje, desde a leitura do livro, o encontro e o debate, ao queijo Brie e às uvas que as componentes do grupo degustaram ao conversarem sobre os problemas do texto.  

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Lendo, 2003

Peter Harrap ( Grã-Bretanha, 1975)

Óleo sobre tela

Não foi uma boa escolha, não é mesmo?”  a mulher que havia sugerido o livro admitiu.  Mas, apesar de ter sido um experiência frustrante, o livro afinal não tinha sido tão terrível e o queijo e o vinho foram muito bons e as novas amigas pareciam bem divertidas.   E assim seguiu-se para o próximo livro:  Four Letters of Love de Niall Williams [Quatro cartas de amor, Rocco:1999].  O título lhe pareceu horrível.  Tinha aquele jeito de ser um romance açucarado, provavelmente monótono.  Uma carta de amor é mais do que suficiente, pensou.   Mas leu o livro, e foi aí que se tornou uma fã incontestável do grupo de leitura:  Quatro cartas de amor se mostrou um romance notável, que flui;  um livro de uma beleza incontestável, que Alyson nunca teria lido se não fosse membro do grupo. 

À primeira vista, um clube de leitura soa contra-intuitivo.  A leitura é uma busca solitária, uma oportunidade para calar o mundo do trabalho ou o barulho do avião, ou da televisão.  Alyson se lembrava de que por anos, depois de devorar um grande romance,  sempre se sentia vazia ao terminá-lo.  Era como se as férias acabassem subitamente e para trás ficassem o mundo novo, a sociedade independente, as atribulações, o  assassinato, o resgate do amor ou o ódio, tudo de que participara intensamente desaparecia com o virar de uma página final.

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Jessie lendo, s/d

Paul Maze ( França/Inglaterra, 1887-1979)

óleo pastel

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Os clubes de livro ou grupos de leitura são uma cura para esse súbito mal, para essa depressão momentânea.  Em vez de se sentir perdido ao terminar um romance cativante, você sente a excitação da antecipação: o que o resto do grupo pensa em fazer desse livro?    Que será que este livro despertou nas outras pessoas?   E tem mais:  não se precisa mais impingir um livro de que se gosta a uma amigo e esperar que ele se decida a lê-lo, para vir a saber do resultado dos seus esforços.   Com um grupo de leitura você conhece um grupo de pessoas que está lendo o mesmo que você, ao mesmo tempo que você.  E você começa a ouvir dicas:  “o livro está ficando chato, ou ele melhorou muito depois de um início lento ou tedioso;  você  já chegou na parte onde o sacerdote… ? Não, não me conte, não estrague tudo….”

O encontro  mensal representa o encerramento de um pequeno ciclo; ele fecha com chave de ouro o processo da leitura, e nos faz esquecer da tristeza de deixar aquele mundo para trás.  Além do que o encontro marca o início de um novo ciclo.  É hora de começar um novo livro.  Em vez pensar ou dizer para alguém que não participou da mesma experiência com suspiro: “Ah, isso me comoveu tanto” e ser olhado com curiosidade como se você fosse um pouco diferente, você pode dizer isso e receber um aceno  de cabeça, de compreensão, sem que muitas palavras sejam trocadas.   

Mulher lendo, 2005

Alex Cree ( Inglaterra, contemporâneo)

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Um grupo de leitura pode ajudar a resolver aqueles pequenos detalhes  que nos irritam porque parecem não fazer sentido numa narrativa.  “Será que o menino vê o assassinato  ou imagina ter visto?”  Juntos, os membros do grupo se ajudam e você monta as pistas.  E você pode até mesmo concluir que o autor foi deliberadamente obtuso, sinuoso, velado.  E se não chegar a uma resposta concreta, pelo menos, você conseguiu compartilhar a sua frustração e, assim, neutralizá-la, sabendo que outras pessoas entendem do que você está falando. 

 A ascensão dos grupos de leitura transformou a maneira como nos sentimos a respeito da leitura propriamente dita.  Onde inicialmente havia geeks agora há os que ditam as tendências sociais.  Livros são o máximo!   Livros viraram moeda comum.  E o eterno  “Para que time você torce?”  pode ser facilmente trocado pelo “O que você está lendo agora?”  numa conversa casual.   É mais interessante descobrir se alguém leu Cormac McCarthy, The Road, [ A Estrada, Alfaguara Brasil: 2007] ou viu o filme.  É claro que não há problema algum em ter feito ambas as coisas, e os grupos de leitura com freqüência vão assistir juntos a versão cinematográfica de um livro e depois decidir qual é o melhor.   E nem sempre é o livro que ganha, um exemplo disso foi o filme baseado no  romance de  Ian McEwan, Atonement , [Reparação, Cia das Letras: 2002].  

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Mulher lendo, 2006

Tina Spratt ( Irlanda, contemporânea)

óleo sobre tela

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No final das contas, o que sobra é a experiência compartilhada.  Já que se pode assistir a qualquer programa de televisão  praticamente a qualquer  momento bastando gravá-lo, por que a grande maioria prefere assistir a EastEnders e Britain’s Got Talent, [ NT: dois programas na televisão inglesa] quando eles vão ao ar?  É porque queremos participar do bate-papo sobre os programas, mais tarde no trabalho ou na escola.  Torna-se uma experiência muito mais divertida, se você souber de milhões de outras pessoas estão rindo ofegantes no mesmo momento que você.  O mesmo acontece com os livros.
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Os grupos de leitura se espalharam como um vírus antes de Oprah e Richard & Judy lançarem suas versões na televisão.   Ambos os programas fizeram grande sucesso porque fizeram o que todos os bons clubes do livro devem fazer:  expandiram os limites de suas audiências. Oprah pediu a uma nação inteira que lesse One Hundred Years of Solitude, de Gabriel García Márquez [Cem anos de solidão, Record: 2009] – e ninguém se assustou.  No programa de Richard & Judy os leitores se entregaram às páginas de Half of a Yellow Sun  de Chimamanda Ngozi Adichie [ Meio sol amarelo, Cia das Letras: 2009].  Esses livros foram escolhidos, não porque eram apostas seguras, mas porque seriam amados.

 

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Mulher lendo, s/d

Richard Combes ( Inglaterra, contemporâneo)

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É menos maçante ler um livro problemático se você não está sozinho e mais agradável devorar um excelente livro se você sabe que poderá compartilhar seus pensamentos, quase que imediatamente, após a sua leitura com pessoas amigas que saberão do que você está falando.   Um bom livro sempre faz a gente se sentir especial, como se o autor nos tivesse em mente enquanto escrevia.  Ser transportado para longe do seu sofá ou da sua espreguiçadeira para a época vitoriana ou para o espaço sideral, é sempre possível.  Mas quando você volta à Terra  e se encontra em sua cadeira predileta, é muito mais agradável poder falar sobre a sua viagem com alguém que também esteve lá.

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Tradução e adaptação de Ladyce West.

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Para o txto original:  The Times





Hoje é dia de futebol mundial, arte de Beryl Cook

3 07 2010

Vovó no Futebol, 1983

Beryl Cook ( Inglaterra, 1926 – 2008)

Óleo sobre madeira, 51 x 51 cm





A civilização amazônica desconhecida

3 07 2010

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A lenda de cidades perdidas na Amazônia  atraiu legiões de exploradores e aventureiros à morte na maior floresta tropical do mundo: haveria um antigo império de cidadelas e tesouros ocultos nas profundezas da selva amazônica?  Conquistadores espanhóis se aventuraram na floresta buscando fortuna e foram seguidos ao longo dos séculos por outros, convencidos de que descobririam uma civilização perdida tão importante quanto a Asteca e a Inca. Alguns chamaram  este local imaginário de El Dorado, outros, de Cidade de Z.

Mas a selva os engoliu e nada foi encontrado.  Passou-se a imaginar que era um mito.   A Amazônia era inóspita demais, diziam estudiosos do século XX, para permitir grandes assentamentos humanos.  Mas quem sonhava  estava certo.  Novas imagens de satélite e outras feitas de avião, revelaram mais de 200 enormes construções geométricas escavadas na Bacia Amazônica Superior, perto da fronteira do Brasil com a Bolívia.

Espalhados por 248 quilômetros, há círculos, quadrados e outras formas geométricas que  formam uma rede de avenidas, valetas e recintos construídos,  muito antes da chegada de Cristóvão Colombo à  América.   Algumas dessas construções datam de 200 a. C., outras são bem mais tardias, do final do século XIII da nossa era.  Os cientistas que as mapearam acreditam que pode haver outras 2.000 construções escondidas embaixo das árvores.

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As estruturas descobertas  pelo desmatamento mostram uma “sofisticada sociedade pré-colombiana construtora de monumentos“, de acordo com a revista Antiquity, onde os autores lembram que “esse povo até agora desconhecido construiu fortificações com um plano geométrico preciso, conectadas por estradas ortogonais retas.”  Chamadas de geóglifos, as figuras estendem-se por uma região de mais de 250 quilômetros e compõem uma rede de trincheiras com 11 metros de largura e barrancos de 1 metro. Acredita-se que eram usadas como fortificações, moradias e para cerimônias. Poderiam ter abrigado um média de 60 mil pessoas.

Essas descobertas demoliram idéias de que os solos da Amazônia eram muito pobres para sustentar uma agricultura extensiva, diz Denise Schaan, co-autora do estudo e antropóloga da Universidade Federal do Pará. Ela disse à revista americana National Geographic que “há muito mais para se descobrir nesses locais. Toda semana achamos novas estruturas.” Muitos dos montes encontrados são de grande simetria e se encontram  inclinados para o norte.  Uma das suposições é de que tenham um possível significado astronômico.

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Geóglifo na Fazenda Atlântica, na BR 364

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As primeiras formas geométricas foram achadas em 1999. Outras descobertas, que foram feitas na região do Xingu, mostram aldeias interligadas conhecidas como “cidades jardins“, com casas e fossos. “As revelações estão explodindo nossas percepções sobre como as Américas realmente eram antes da chegada de Colombo“, diz David Grann, autor de The Lost City of Z. [ A cidade perdida de Z.] E também vingam Percy Fawcett, o britânico que liderou uma expedição para encontrar a Cidade de Z e desapareceu, no percurso.  Todas essas novas descobertas deixam vislumbrar o que poderia ter sido uma civilização antiga ainda desconhecida.   Há quase 260 avenidas, caminhos e barreiras descobertas ao longo da fronteira entre o Brasil e a Bolívia. 

Isso vai em completa oposição à tradicional visão da bacia Amazônica antes da chegada dos europeus por aqui: não havia cidades como as encontradas pelos espanhóis no território Inca.    Agora a grande dúvida, que divide os especialistas,  é saber se os geóglifos e as cidades jardim estão interligados.   Os geóglifos são formados por canais – fossos — cavados de 11 metros de largura e 1 ou 2 metros de profundidade.    E os círculos que eles formam vão de 90 a 300 metros de circunferência.   A idade precisa das suas construções ainda é muito vaga.  Acredita-se que eles tenham sido construídos num período de 700 anos, de 2000 anos atrás até mais ou menos o século XIII. 

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Vista aérea de um geóglifo ao lado de uma estrada.

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Algumas escavações  já trouxeram resultados inesperados, entre eles, cerâmicas e outros sinais de habitações humanas.  Mas estes artefatos só  aparecem em alguns locais e não em outros.  Isso talvez deva ser visto como um indício de que esses locais teriam tido um papel cerimonial.  Pensa-se também em defesa, no entanto estruturas de defesa não necessitam ser construídas com a precisão geométrica apresentada aqui.   Para defesa, escavações em barreiras,  trincheiras ou fossos, não precisam do detalhe de planejamento matemático que estes círculos de demonstram.    E,  já que muitas dessas estruturas estão orientadas para o norte é mais provável ainda que tenham algum significado astronômico.

O certo é que a maioria das grandes civilizações da antiguidade estava enraizada ao longo de um rio importante.  E por causa da densidade da floresta amazônica, este simples fator, comum a quase todas as outras civilizações, foi ignorado.  E no entanto, por que não teriam sido as margens do Amazonas fonte de desenvolvimento para os povos da América do Sul?   

Não há evidência alguma de construções piramidais ou de uma língua escrita desenvolvida  por essa sociedade que construiu os  geóglifos amazônicos.  Mas a intervenção na paisagem, no meio ambiente, através de  construção de fossos e de construções circulares ou quadradas, mostram que este povo era sedentário, que fazia planos, que projetava suas idéias para um futuro longínquo – uma construção dessas não se faz de um dia para o outro — e que era uma sociedade estabelecida na terra, e não formada por tribos nômades.    

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Apesar da proximidade de algumas aldeias Incas a 200 km a oeste dos geóglifos não foram achados ainda nenhum objeto Inca ou de influência Inca no local.   E ainda, esses geóglifos não parecem ter qualquer afinidade com os geóglifos encontrados no Peru, de origem Nazca. 

Para a maioria dos especialistas em estudos andinos e civilizações pré-colombianas, estas descobertas são simplesmente o que há na superfície.    Com o tempo muitas outras descobertas virão, pois os indícios são de que havia um grande número de pessoas no local vivendo de maneira bastante organizada.   Mas isso só o tempo comprovará.

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Fontes: EstadãoA blog about history, The Guardian.





Orlando Teruz, arte brasileira, nossa homenagem à Copa do Mundo

2 07 2010

Futebol, 1965

Orlando Teruz ( Brasil, 1902-1984)

óleo sobre tela,  54 x 65 cm





O galo, poesia de Mauro Mota, uso escolar.

2 07 2010

Johann Leonhard Frisch, Galo, 1763, reproduzido em cartão postal.

 

O Galo

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                                             Mauro Mota

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É a noite negra e é o galo rubro,

da madrugada o industrial.

É a noite negra sobre o mundo

e o galo rubro no quintal.

A noite desce, o galo sobre,

plumas de fogo e de metal,

desfecha golpe sobre golpe

na treva unidimensional.

Afia os esporões e o bico,

canta o seu canto auroreal.

O galo inflama-se e fabrica

a madrugada no quintal.

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Em: Antologia Poética, Mauro Mota, Editora Leitura: 1968, Rio de Janeiro

 

Mauro Ramos da Mota e Albuquerque (Nazaré da Mata, 16 de agosto de 1911 — Recife, 22 de novembro de 1984) foi um jornalista, professor, poeta, cronista, ensaísta e memorialista brasileiro.

Obras:

Elegias (1952)

A tecelã (1956)

Os epitáfios (1959)

Capitão de Fandango (1960, crônica)

O galo e o cata-vento, (1962)

Canto ao meio (1964)

O Pátio vermelho: crônica de uma pensão de estudantes (1968, crônica)

Poemas inéditos (1970)

Itinerário (1975)

Pernambucânia ou cantos da comarca e da memória (1979)

Pernambucânia dois (1980)

Mauro Mota, poesia (2001)

Antologia poética, 1968

Antologia em verso e prosa, 1982.