Para melhor mundo, conto de Natal de Garcia Redondo, texto integral

19 12 2009

 

Ilustração, 1920,  de Jorge Barradas (Lisboa, 1894-1971)

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Para melhor mundo

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                                                        Garcia Redondo

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Nessa manhã de Natal, luminosa e fresca, Mma. Lenoir, ainda em penteador, alegre e gárrula, enfeitava, na sala da biblioteca da sua habitação garrida, a virente araucária minúscula que devia encher de gáudio o pequeno Alberto, cobrindo-a de bibelots policromos e de doçuras apetitosas – quando uma criada entrou no aposento e lhe entregou uma carta.

Mma. Lenoir olhou o sobrescrito e, estranhando a letra, indagou:

— De onde vem isto?

— De casa do pai de V. Exª .

— De casa de meu pai!…

Muito admirada, rasgou o envelope, e passou os olhos pela carta.

Uma palidez súbita substituiu as róseas cores do rosto de Mma. Lenoir, as suas lindas mãos patrícias tremeram e um suspiro abafado escapou-lhe do peito.  Depois, atirando a carta sobre a mesa onde se erguia a araucária, levou as mãos ao rosto e começou a soluçar.

A criada, pasmada e solícita, correra para a ama, e carinhosa, sem conhecer ainda a causa desse pesar imprevisto, conduziu-a docemente para junto de uma poltrona, onde a fez sentar.

E timidamente, respeitosamente, inquiriu:

— Que foi, minha senhora?  Aconteceu alguma coisa ao Sr. Afonso?

Mma. Lenoir não respondeu;  soluçando sempre, sempre com suas mãos no rosto, ensopando em lágrimas o seu fino lenço de batiste dava silenciosamente expansão à sua dor.

A criada, perplexa, desejosa de ser-lhe útil nesse transe doloroso, perguntou ainda:

— Quer que vá buscar o menino Alberto?…  ele já deve estar acordado.

A cabeça de Mma.  Lenoir agitou-se nervosamente e da sua garganta patiu, depois de um grande esforço, esta frase rouca:

—  Não, não, traze-me água para beber.

A criada saiu, cerrando discretamente a porta da biblioteca.

 

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Mma. Lenoir só tinha duas afeições no mundo: seu filho Alberto e seu pai.  Filha única de um velho rico e libertino, cedo perdera a mãe e cedo vira-se entregue aos cuidados de estranhos.

Para ver-se livre de uma criança, cuja presença o constrangia, impedindo-o de dar largas ao seu temperamento fescenino, o velho Afonso Marquet começara pondo a filha em casa de uma instrutora que lhe servia de mãe e de mestra, e acabara encerrando-a em um colégio, onde ia vê-la raramente, compensando as largas ausências com amiudados presentes fascinadores.

A respeito deste regime pouco afável, a criança, que herdara o belo coração materno, tinha uma grande afeição ao pai e amava-o sinceramente.

Assim cresceu, assim se desenvolveu, esquecida e triste, sempre encerrada entre as quatro paredes do mesmo colégio, vendo o pai poucas vezes, sem conhecer as alegrias do lar e os carinhos dos amigos.  Para encher o vácuo de sua alma sentimental e meiga, ilustrava-se, lendo muito, estudando com o prazer e a ânsia de quem procura derivativos para o tédio e distrações aos pesares do isolamento e da reclusão.

Mas, um dia, amanheceu mulher feita e não era mais possível continuar no colégio.  O velho Afonso, bem a contragosto, viu-se forçado a conduzi-la ao seu lar de libertino, onde tanta vez espumara a champanha da orgia e estalara o beijo do amor livre.  Todavia, a presença em sua casa, dessa mulher, dessa linda mulher que não era como as outras, constrangia-o, obrigando-o a mudar de hábitos arraigados, cuja continuação a sua velhice cupidiana e ardente imperiosamente solicitava.

Atormentado pela forçada abstenção dos seus prazeres cômodos, o velho Afonso cogitou em casar a filha.

Era um meio fácil de ver-se livre dela, recuperando a sua ampla liberdade perdida.  E, uma noite, esse pai egoísta e frívolo notou, entre os seus parceiros de baccarat no Clube,  um rapaz viveur e esperto, bem galante, bem distinto, razoavelmente educado e como ele de origem francesa, que, a seu ver, era muito capaz de fazer a felicidade da filha, se ela quisesse ter a complacência de amá-lo um poucochinho.

E com essa idéia fixa, começou a levar o rapaz a casa, a dar-lhe jantares, a pô-lo em contato com a filha.  Sagaz e ambicioso, o galante Lenoir percebeu os intuitos do velho e, como o negócio convinha-lhe em todos os sentidos, fez-se a desejada corte e conseguiu fazer-se amar.

Poucos meses após, o casamento fazia-se, e o casal ia habitar uma linda chácara com que o velho Afonso presenteara a filha.

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A vida conjugal de Mma. Lenoir foi de duração curta e de ventura escassa.  Passada a lua de mel, durante a qual ela apenas entreviu uma nesga do céu da felicidade sonhada, o marido voltava à vida enervante e dissipadora dos clubes, abandonando-a noites inteiras, isolada e desiludida, entregue à insônia e aos sustos.

Felizmente o acaso, esse bom amigo incógnito, que às vezes surge providencialmente para dar lenitivo aos que sofrem, veio libertá-la desse companheiro instável, arrebatando-o à vida, que para ele resumia-se nas emoções que produzem os prazeres frívolos e o retângulo verde da mesa do jogo.  E assim foi, dois anos após de casada, Mma. Lenoir, com apenas dezenove anos, achou-se viúva e em vésperas de ser mãe.

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 A Carta,  1925

Eliseu Visconti ( Brasil, 1866-1944)

Óleo sobre tela,  51 x 69 cm

Coleção Particular

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Quando nasceu o pequeno Alberto, havia três meses que o Sr. Lenoir repousava no Caju, em baixo de uma grande pedra tumular.  Essa criança, que não conhecera o pai e que estava destinada a ser o consolo único da mãe, despertou uma grande comoção piedosa no avô.  Talvez o remorso de não ter consagrado uma afeição mais intensa à filha,  talvez a fadiga produzida pela vida dissoluta que passara, impelisse o velho contrito a dedicar-se com exagero apego ao neto.  Nesse rebento louro concentrava todos os seus afetos; e ele que tanto afastara de si a filha, acabou por não poder passar um dia sem ver o neto, sentando-o nos joelhos acalentando-o com excessos de ternura.  Entre os braços da mãe carinhosa e os joelhos já trêmulos do avô, essa criança avançou pela vida e atingiu os nove anos.

Mma. Lenoir, embora moça, formosa, rica e requestada, achou-se bem na sua viuvez, e preferiu conservar a independência, que ela lhe trouxera, a correr o risco de var para o seu lar tranqüilo um segundo marido igual ao que tivera.  Demais, a sua existência, toda ocupada com o filho, era-lhe agora menos insípida, agradável mesmo.

Via diariamente o pai, que, embora morasse em casa própria, tinha um talher constante à sua mesa e raro deixava de sentar-se entre a filha e o neto, para encher o pequeno de gulodices e fazer-lhe todas as vontades.

Para ter essa criança constantemente feliz e satisfeita, o velho despovoava as prateleiras das lojas de brinquedos e inventava toda sorte de loucuras.  Um pedido de Alberto era uma ordem para o avô, que, na sua indulgência senil, chegava muitas vezes a contrariar a filha para não ver murchar o sorriso vermelho nos lábios do neto.

Tal era a situação de Mma. Lenoir, quando na manhã de 25 de dezembro de 1886, na ocasião em que na sala da sua biblioteca preparava a árvore de Natal, que o velho Afonso ocultamente lhe levara na véspera para surpreender o neto no dia seguinte, recebeu inesperada e brutalmente a notícia, comunicada laconicamente por um criado, do falecimento repentino de seu pai.

E fora essa nova que a pusera em lágrimas, numa aflição angustiada e acabrunhadora.

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Cerca de uma hora ficou Mma. Lenoir no fundo do seu jardim, no interior de um belvedere rústico, a esmagar a sua dor, a conformar-se com a sua triste sorte, ocultando lágrimas e fazendo desaparecer do seu rosto todos os vestígios da tristeza.  Fora aí, entre rosas e madressilvas, que a criada lhe viera explicar como falecera o pai, fulminado por uma congestão cerebral, no momento em que se levantara do leito para ir tomar banho; e fora aí também que a mesma criada, ofegante e aflita, lhe veio comunicar, pouco depois, que o filho, impaciente, fugira do quarto e já estava na biblioteca, encantado e surpreso, a olhar a linda árvore de Natal, que o bom São Nicolau lhe trouxera, esquecendo-se, na precipitação da dádiva de pendurar pelos galhos todos os brinquedos que deixara sobre a mesa.

Dando à fisionomia um ar risonho, Mma. Lenoir atravessou o jardim, reentrou em casa e seguiu para a biblioteca.  E já próxima, abafando os passos, viu, através do vão da porta, o filho, de olhos fixos na carta que ela recebera e onde a triste nova lhe tinha sido comunicada de um modo banal, com a fórmula arcaica, lançada por um criado, dedicado mas pretensioso, sobre uma larga folha de papel comum: “Saiba V. Ex.ª que o Sr. Afonso acaba de partir deste para melhor mundo”.

Sem pensar no que fazia, instintivamente, a pobre mãe precipitou-se para a criança e antes de a abraçar, antes de a beijar, arrancou-lhe a carta das mãos, dizendo-lhe com um grande esforço, a sorrir contrafeita, para disfarçar a emoção:

—  Ah! Seu curioso, então estava lendo a carta que o São Nicolau me escreveu?

E o pequeno, piscando os olhos, num gesto brejeiro:

—  Não é a do São Nicolau, não, mamãe!  É a do Antônio, avisando que o vovô fez viagem.

E alegremente, mexendo nas tetéias espalhadas sobre a mesa, acrescentou:

—  Estou zangado com o vovô, porque não quis levar-nos com ele para o “mundo melhor”.

Um suspiro de alívio e ao mesmo tempo de dor recalcada escapou dos lábios da infeliz mãe;  depois, passeando os seus olhos negros, de novo marejados de lágrimas quentes, pelos livros da biblioteca, disse vagamente, respondendo à observação da criança:

—  Sim, não nos levou com ele, mas mandou-nos todas essas lindas tetéias e jóias que estás vendo. 

O pequeno, muito intrigado, como quem se sentia na pista de um segredo, indagou:

—  Então, o São Nicolau é vovô?

Mma.  Lenoir atrapalhada, presa aos sentimentos mais opostos, enxugou de novo os olhos e, para não dar a perceber o seu enleio, foi então beijar o filho numa explosão de ternura.

E, quando o osculava, atraía-lhe a atenção para os brinquedos, distraindo-o do assunto, que tanto a atormentava.

Mas, ele obstinado e curioso, inquiriu ainda:

—  E onde fica, mamãe, esse “mundo melhor” para onde o vovô seguiu hoje?  Nunca ouvi falar dessa terra!…

Então, a desgraçada mulher, erguendo o braço para o ar, e apontando para a nesga do céu, que se avistava da janela, deixou escapar dos lábios lívidos estas palavras confusas:

—  É lá, meu filho,lá, além, bem além daquelas nuvens brancas…

—  Então, já sei;  é no céu, onde estão Nosso Senhor e …  papai  — disse o pequeno, batendo as mãos de contente. 

E fixou demoradamente os olhos no azul, a ver se divisava por lá a vitória a rodar por entre as nuvens.

 

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Em: Noite de Natal: coletânea de histórias de Natal, ed. Cassiano Nunes e Mário da Silva Briito, São Paulo, Editora Saraiva: 1950

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Manuel Ferreira Garcia Redondo (RJ, RJ 1854 – SP, SP 1916) engenheiro, jornalista, professor, contista e teatrólogo.   Usou os seguintes pseudônimos: Um contemporâneo; Um plebeu, Cabrion,  Pepelet,  Gavarni, Nemo, Childe Harold.

Obras:

 Arminhos, contos, 1882

Mário, teatro, 1882

O dedo de Deus, comédia, 1883

O urso branco, comédia, 1884

Carícia,  1895

A choupana das rosas, contos, 1897

Moléstias e bichos, comédia, 1899

Salada de frutas, 1907

Viagens pelo país da ternura, 1907

Através da Europa, viagem, 1908

Novos contos, 1910

O descobrimento do Brasil, conferência 1911

Cara alegre, humor, 1912

 Na pele do outro, comédia, s.d.

Bom-humor e vida airada, s.d.





Quadrinha de Natal, com pedido a Papai Noel

18 12 2009

Papai Noel com brinquedos e árvore.

Cartão Postal Alemão, década de 1890.

Papai Noel, por favor,
do Natal afasta os medos,
e coloca mais amor
no meio dos teus brinquedos!

(Delcy Rodrigues Canales)





Minha árvore, poema de Natal de Diógenes Pereira de Araújo

17 12 2009

 

Cartão de Natal da Polônia, década de 1950.
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MINHA ÁRVORE

 

                                                                          Diógenes Pereira de Araújo

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Vou armar uma árvore, escondida

no coração, recôndito de mim.

Será planta odorífera: alecrim,

por faces de pessoas preenchida

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Tais faces vou colhê-las no jardim

dos amigos de sempre cuja vida

fazem a minha vida colorida

e perfumada: há rosas e jasmins

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Amigos do passado eu ponho ao centro

amigos do presente mais à mão

para incluir a todos na oração:

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“Senhor, – que trago aqui também por dentro –,

meu coração, com carga especial

transplanta para o teu neste Natal.”

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Diógenes Pereira de Araújo ( SP, 1935).  Advogdo, escritor e poeta.  Blog:  http://diogenespereiradearaujo.blogspot.com

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Prece de Natal, poema de Vicente Guimarães

14 12 2009

 

Presépio africano, desenho

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PRECE DE NATAL

 

                                                             Vicente Guimarães

Natal! Natal!

Jesus nasceu

No céu a estrela

Apareceu.

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Os sinos tocam!

Delém…delém…

Jesus nasceu

Lá em Belém.

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Viva Jesus

O Deus-menino

Que ele abençoe

Nosso destino.

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Jesus nasceu

Lá em Belém

Os sinos tocam

Delém…delém…

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Vicente de Paulo Guimarães, [Vovô Felício] ( Cordisburgo, MG, 1906 – 1981) — Poeta, contista, biógrafo, jornalista, autor de Literatura Infanto-Juvenil (1979), funcionário público, educador, membro da Academia Brasileira de Literatura (1980), prêmio Monteiro Lobato -ABL (1977). Em 1935, Vicente criou em Belo Horizonte a revista “Caretinha”, dedicada a jovens leitores; dois anos depois, foi o responsável pelo suplemento infantil do jornal “O Diário”.  Um dos projetos de sucesso foi a revista “Era uma vez”, que começou a circular em 1947.  Criou também no mesmo ano a Revista do Sesinho, para divertir e educar as crianças.

Obras:

Tranqüilidade

O pequeno pedestre

Campeão de futebol

Os bichos eram diferentes

Frangote desobediente

João Bolinha virou gente

Boa vida de João Bolinha

Histórias divertidas

Lenda da palmeira, 1944

Quinze minutos de poder

Os três irmãos, 1978

Festa de Natal, 1964

Rui, 1949

O pastorzinho de Pouy, 1957

Princesinha do Castelo vermelho

Gurupi

Marisa, a filha da Mireninha

Vida de rua, 1954

Era uma vez uma onça

O tesouro da montanha

Anel de vidro, 1956

História de um bravo, 1960

Gurupi

Ultima aventura do sete de ouros

Aventuras de um cachorrinho vira lata

Princesinha do Castelo Vermelho

História de uma menina pobre

A fama do jabuti

O macaquinho Guili

Bilac, história de um príncipe, 1968

Biografia de Rui Barbosa para a infância, 1965

Joãozito, infância de João Guimarães Rosa, 1971

Nonô, o menino de Diamantina, 1980

O menino do morro – Machado de Assis, 1980

Coleção vovô Felício –  em seis volumes





O peru de Natal, um conto de Mário de Andrade

13 12 2009

Ceia de Natal, 1904/1905

Carl Larsson ( Suécia, 1853-1919)

Aquarela

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O PERU DE NATAL
 

                                                                                             Mário de Andrade

 
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O nosso primeiro Natal de família, depois da morte de meu pai acontecida cinco meses antes, foi de conseqüências decisivas para a felicidade familiar. Nós sempre fôramos familiarmente felizes, nesse sentido muito abstrato da felicidade: gente honesta, sem crimes, lar sem brigas internas nem graves dificuldades econômicas. Mas, devido principalmente à natureza cinzenta de meu pai, ser desprovido de qualquer lirismo, de uma exemplaridade incapaz, acolchoado no medíocre, sempre nos faltara aquele aproveitamento da vida, aquele gosto pelas felicidades materiais, um vinho bom, uma estação de águas, aquisição de geladeira, coisas assim. Meu pai fora de um bom errado, quase dramático, o puro-sangue dos desmancha-prazeres.

Morreu meu pai, sentimos muito, etc. Quando chegamos nas proximidades do Natal, eu já estava que não podia mais pra afastar aquela memória obstruente do morto, que parecia ter sistematizado pra sempre a obrigação de uma lembrança dolorosa em cada almoço, em cada gesto mínimo da família. Uma vez que eu sugerira à mamãe a idéia dela ir ver uma fita no cinema, o que resultou foram lágrimas. Onde se viu ir ao cinema, de luto pesado! A dor já estava sendo cultivada pelas aparências, e eu, que sempre gostara apenas regularmente de meu pai, mais por instinto de filho que por espontaneidade de amor, me via a ponto de aborrecer o bom do morto.

Foi decerto por isto que me nasceu, esta sim, espontaneamente, a idéia de fazer uma das minhas chamadas “loucuras”. Essa fora aliás, e desde muito cedo, a minha esplêndida conquista contra o ambiente familiar. Desde cedinho, desde os tempos de ginásio, em que arranjava regularmente uma reprovação todos os anos; desde o beijo às escondidas, numa prima, aos dez anos, descoberto por Tia Velha, uma detestável de tia; e principalmente desde as lições que dei ou recebi, não sei, de uma criada de parentes: eu consegui no reformatório do lar e na vasta parentagem, a fama conciliatória de “louco”. “É doido, coitado!” falavam. Meus pais falavam com certa tristeza condescendente, o resto da parentagem buscando exemplo para os filhos e provavelmente com aquele prazer dos que se convencem de alguma superioridade. Não tinham doidos entre os filhos. Pois foi o que me salvou, essa fama. Fiz tudo o que a vida me apresentou e o meu ser exigia para se realizar com integridade. E me deixaram fazer tudo, porque eu era doido, coitado. Resultou disso uma existência sem complexos, de que não posso me queixar um nada.

Era costume sempre, na família, a ceia de Natal. Ceia reles, já se imagina: ceia tipo meu pai, castanhas, figos, passas, depois da Missa do Galo. Empanturrados de amêndoas e nozes (quanto discutimos os três manos por causa dos quebra-nozes…), empanturrados de castanhas e monotonias, a gente se abraçava e ia pra cama. Foi lembrando isso que arrebentei com uma das minhas “loucuras”:

— Bom, no Natal, quero comer peru.

Houve um desses espantos que ninguém não imagina. Logo minha tia solteirona e santa, que morava conosco, advertiu que não podíamos convidar ninguém por causa do luto.

— Mas quem falou de convidar ninguém! essa mania… Quando é que a gente já comeu peru em nossa vida! Peru aqui em casa é prato de festa, vem toda essa parentada do diabo…

— Meu filho, não fale assim…

— Pois falo, pronto!

E descarreguei minha gelada indiferença pela nossa parentagem infinita, diz-que vinda de bandeirantes, que bem me importa! Era mesmo o momento pra desenvolver minha teoria de doido, coitado, não perdi a ocasião. Me deu de sopetão uma ternura imensa por mamãe e titia, minhas duas mães, três com minha irmã, as três mães que sempre me divinizaram a vida. Era sempre aquilo: vinha aniversário de alguém e só então faziam peru naquela casa. Peru era prato de festa: uma imundície de parentes já preparados pela tradição, invadiam a casa por causa do peru, das empadinhas e dos doces. Minhas três mães, três dias antes já não sabiam da vida senão trabalhar, trabalhar no preparo de doces e frios finíssimos de bem feitos, a parentagem devorava tudo e ainda levava embrulhinhos pros que não tinham podido vir. As minhas três mães mal podiam de exaustas. Do peru, só no enterro dos ossos, no dia seguinte, é que mamãe com titia ainda provavam num naco de perna, vago, escuro, perdido no arroz alvo. E isso mesmo era mamãe quem servia, catava tudo pro velho e pros filhos. Na verdade ninguém sabia de fato o que era peru em nossa casa, peru resto de festa. Não, não se convidava ninguém, era um peru pra nós, cinco pessoas. E havia de ser com duas farofas, a gorda com os miúdos, e a seca, douradinha, com bastante manteiga. Queria o papo recheado só com a farofa gorda, em que havíamos de ajuntar ameixa preta, nozes e um cálice de xerez, como aprendera na casa da Rose, muito minha companheira. Está claro que omiti onde aprendera a receita, mas todos desconfiaram. E ficaram logo naquele ar de incenso assoprado, se não seria tentação do Dianho aproveitar receita tão gostosa. E cerveja bem gelada, eu garantia quase gritando. É certo que com meus “gostos”, já bastante afinados fora do lar, pensei primeiro num vinho bom, completamente francês. Mas a ternura por mamãe venceu o doido, mamãe adorava cerveja.

— É louco mesmo!…

Quando acabei meus projetos, notei bem, todos estavam felicíssimos, num desejo danado de fazer aquela loucura em que eu estourara. Bem que sabiam, era loucura sim, mas todos se faziam imaginar que eu sozinho é que estava desejando muito aquilo e havia jeito fácil de empurrarem pra cima de mim a… culpa de seus desejos enormes. Sorriam se entreolhando, tímidos como pombas desgarradas, até que minha irmã resolveu o consentimento geral:

— É louco mesmo!…

Comprou-se o peru, fez-se o peru, etc. E depois de uma Missa do Galo bem mal rezada, se deu o nosso mais maravilhoso Natal. Fora engraçado: assim que me lembrara de que finalmente ia fazer mamãe comer peru, não fizera outra coisa aqueles dias que pensar nela, sentir ternura por ela, amar minha velhinha adorada. E meus manos também, estavam no mesmo ritmo violento de amor, todos dominados pela felicidade nova que o peru vinha imprimindo na família. De modo que, ainda disfarçando as coisas, deixei muito sossegado que mamãe cortasse todo o peito do peru. Um momento aliás, ela parou, feito fatias um dos lados do peito da ave, não resistindo àquelas leis de economia que sempre a tinham entorpecido numa quase pobreza sem razão.

— Não senhora, corte inteiro! Só eu como tudo isso!

Era mentira. O amor familiar estava por tal forma incandescente em mim, que até era capaz de comer pouco, só pra que os outros quatro comessem demais. E o diapasão dos outros era o mesmo. Aquele peru comido a sós, redescobria em cada um o que a quotidianidade abafara por completo, amor, paixão de mãe, paixão de filhos. Deus me perdoe mas estou pensando em Jesus… Naquela casa de burgueses bem modestos, estava se realizando um milagre digno do Natal de um Deus. O peito do peru ficou inteiramente reduzido a fatias amplas.

— Eu que sirvo!

“É louco, mesmo” pois por que havia de servir, se sempre mamãe servira naquela casa! Entre risos, os grandes pratos cheios foram passados pra mim e principiei uma distribuição heróica, enquanto mandava meu mano servir a cerveja. Tomei conta logo de um pedaço admirável da “casca”, cheio de gordura e pus no prato. E depois vastas fatias brancas. A voz severizada de mamãe cortou o espaço angustiado com que todos aspiravam pela sua parte no peru:

— Se lembre de seus manos, Juca!

Quando que ela havia de imaginar, a pobre! que aquele era o prato dela, da Mãe, da minha amiga maltratada, que sabia da Rose, que sabia meus crimes, a que eu só lembrava de comunicar o que fazia sofrer! O prato ficou sublime.

— Mamãe, este é o da senhora! Não! não passe não!

Foi quando ela não pode mais com tanta comoção e principiou chorando. Minha tia também, logo percebendo que o novo prato sublime seria o dela, entrou no refrão das lágrimas. E minha irmã, que jamais viu lágrima sem abrir a torneirinha também, se esparramou no choro. Então principiei dizendo muitos desaforos pra não chorar também, tinha dezenove anos… Diabo de família besta que via peru e chorava! coisas assim. Todos se esforçavam por sorrir, mas agora é que a alegria se tornara impossível. É que o pranto evocara por associação a imagem indesejável de meu pai morto. Meu pai, com sua figura cinzenta, vinha pra sempre estragar nosso Natal, fiquei danado.

Bom, principiou-se a comer em silêncio, lutuosos, e o peru estava perfeito. A carne mansa, de um tecido muito tênue boiava fagueira entre os sabores das farofas e do presunto, de vez em quando ferida, inquietada e redesejada, pela intervenção mais violenta da ameixa preta e o estorvo petulante dos pedacinhos de noz. Mas papai sentado ali, gigantesco, incompleto, uma censura, uma chaga, uma incapacidade. E o peru, estava tão gostoso, mamãe por fim sabendo que peru era manjar mesmo digno do Jesusinho nascido.

Principiou uma luta baixa entre o peru e o vulto de papai. Imaginei que gabar o peru era fortalecê-lo na luta, e, está claro, eu tomara decididamente o partido do peru. Mas os defuntos têm meios visguentos, muito hipócritas de vencer: nem bem gabei o peru que a imagem de papai cresceu vitoriosa, insuportavelmente obstruidora.

— Só falta seu pai…

Eu nem comia, nem podia mais gostar daquele peru perfeito, tanto que me interessava aquela luta entre os dois mortos. Cheguei a odiar papai. E nem sei que inspiração genial, de repente me tornou hipócrita e político. Naquele instante que hoje me parece decisivo da nossa família, tomei aparentemente o partido de meu pai. Fingi, triste:

— É mesmo… Mas papai, que queria tanto bem a gente, que morreu de tanto trabalhar pra nós, papai lá no céu há de estar contente… (hesitei, mas resolvi não mencionar mais o peru) contente de ver nós todos reunidos em família.

E todos principiaram muito calmos, falando de papai. A imagem dele foi diminuindo, diminuindo e virou uma estrelinha brilhante do céu. Agora todos comiam o peru com sensualidade, porque papai fora muito bom, sempre se sacrificara tanto por nós, fora um santo que “vocês, meus filhos, nunca poderão pagar o que devem a seu pai”, um santo. Papai virara santo, uma contemplação agradável, uma inestorvável estrelinha do céu. Não prejudicava mais ninguém, puro objeto de contemplação suave. O único morto ali era o peru, dominador, completamente vitorioso.

Minha mãe, minha tia, nós, todos alagados de felicidade. Ia escrever «felicidade gustativa», mas não era só isso não. Era uma felicidade maiúscula, um amor de todos, um esquecimento de outros parentescos distraidores do grande amor familiar. E foi, sei que foi aquele primeiro peru comido no recesso da família, o início de um amor novo, reacomodado, mais completo, mais rico e inventivo, mais complacente e cuidadoso de si. Nasceu de então uma felicidade familiar pra nós que, não sou exclusivista, alguns a terão assim grande, porém mais intensa que a nossa me é impossível conceber.

Mamãe comeu tanto peru que um momento imaginei, aquilo podia lhe fazer mal. Mas logo pensei: ah, que faça! mesmo que ela morra, mas pelo menos que uma vez na vida coma peru de verdade!

A tamanha falta de egoísmo me transportara o nosso infinito amor… Depois vieram umas uvas leves e uns doces, que lá na minha terra levam o nome de “bem-casados”. Mas nem mesmo este nome perigoso se associou à lembrança de meu pai, que o peru já convertera em dignidade, em coisa certa, em culto puro de contemplação.

Levantamos. Eram quase duas horas, todos alegres, bambeados por duas garrafas de cerveja. Todos iam deitar, dormir ou mexer na cama, pouco importa, porque é bom uma insônia feliz. O diabo é que a Rose, católica antes de ser Rose, prometera me esperar com uma champanha. Pra poder sair, menti, falei que ia a uma festa de amigo, beijei mamãe e pisquei pra ela, modo de contar onde é que ia e fazê-la sofrer seu bocado. As outras duas mulheres beijei sem piscar. E agora, Rose!…

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Em: Noite de Natal: coletânea reunindo histórias de Natal, editado por Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito.  Saraiva, SP: 1950

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Mário de Andrade, 1927

Lasar Segall, (Russia 1891, Brasil 1957)

óleo sobre tela

 

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Mário Raul de Morais Andrade (SP, 1893-1945) poeta, romancista, crítico de arte, musicólogo, professor universitário e ensaísta, considerado unanimidade nacional e reconhecido por críticos como o mais importante intelectual brasileiro do século XX. Liderou o movimento modernista no Brasil e teve grande impacto na renovação literária e artística do país, participando ativamente da Semana de Arte Moderna de 22, além de se envolver (de 1934 a 37) com a cultura nacional trabalhando como diretor do Departamento Municipal de Cultura de São Paulo.

Obras:

Há uma Gota de Sangue em Cada Poema, 1917

Paulicéia Desvairada, 1922

A Escrava que Não É Isaura, 1925

Losango Cáqui, 1926

Primeiro Andar, 1926

A Clã do Jabuti, 1927

Amar, Verbo Intransitivo, 1927

Ensaios Sobra a Música Brasileira, 1928

Macunaíma, 1928

Compêndio Da História Da Música, 1929 (Reescrito como Pequena História da Música Brasileira, 1942)

Modinhas Imperiais, 1930

Remate de Males, 1930

Música, Doce Música, 1933

Belasarte, 1934

O Aleijadinho de Álvares De Azevedo, 1935

Lasar Segall, 1935

Música do Brasil, 1941

Poesias, 1941

O Movimento Modernista, 1942

O Baile das Quatro Artes, 1943

Os Filhos da Candinha, 1943

Aspectos da Literatura Brasileira 1943

O Empalhador de Passarinhos, 1944

Lira Paulistana, 1945

O Carro da Miséria, 1947

Contos Novos, 1947

O Banquete, 1978

Dicionário Musical Brasileiro, 1989

Será o Benedito!, 1992





Quadrinha da noite de Natal

12 12 2009

Noite de Natal.

Cartão Postal, década de 20, século XX.

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Há sussurros pelo espaço…
Na terra há luz e cristal,
quando a noite estende o braço,
proclamando que é Natal!

(Cidoca da Silva Velho)





Poema de Natal, Jorge de Lima, 1950

11 12 2009

 Natividade, 1962

Antônio Gomide (SP 1895 — SP 1967)

óleo sobre tela

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Poema de Natal

 

                                                               Jorge de Lima

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ERA UM NATAL.  E um poema de alegria

escrito pela mão de quem se iludia

E nele havia as dádivas do dia,

e nele havia sinos acordados;

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e havia nele tudo o que se espera

com seus anseios sempre contrariados;

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só lhe faltava o que ninguém sabia

porque ficara n’alma que o fizera.

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                                  Publicado em Jornal de Letras, Rio de Janeiro, dezembro de 1950.

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Em: Jorge de Lima: poesias completas, volume IV, Brasília, Aguilar, 1974.

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Jorge Mateus de Lima (União dos Palmares, AL, 23 de abril de 1893 — Rio de Janeiro, 15 de novembro de 1953) foi político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor e pintor brasileiro.

Obras:

Poesia: 

XIV Alexandrinos (1914)

O Mundo do Menino Impossível (1925)

Poemas (1927)

Novos Poemas (1929)

O acendedor de lampiões (1932)

Tempo e Eternidade (1935)

A Túnica Inconsútil (1938)

Anunciação e encontro de Mira-Celi (1943)

Poemas Negros (1947)

Livro de Sonetos (1949)

Obra Poética (1950)

Invenção de Orfeu (1952)

Romance:

O anjo (1934)

Calunga (1935)

A mulher obscura (1939)

Guerra dentro do beco (1950





Natal é partilha, quadrinha.

11 12 2009

Noite de Natal.

Postal alemão, 1920-25.

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Feliz de quem afinal,
consegue, na humana trilha,
ver que o brilho do Natal
surge da luz da partilha!

(Regina Célia de Andrade)





Na Espanha, Festival de presépios de areia

10 12 2009

Foto: Luis Suarez

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Milhares de turistas visitam os presépios de areia, na praia de Las Canteras em Las Palmas na Espanha nesse mes de dezembro. A exposição que reúne trabalhos de sete artistas de cinco países: Karen Fralich (Canadá), Peter Busch (Dinamarca), Fergus Mulvany (Irlanda), Vladimir Kuraev e Alexey Dyakov (Rússia), e Andrei Vazhnyskyv e Iryna Kalyuzhna (Ucrânia).   As esculturas em areia incluem cenas do Antigo e  do Novo Testamento.  Cerca de 180.000 pessoas visitaram a área que ocupa uma área de 600 m². Os artistas responsáveis pelas obras são do Canadá, EUA, Holanda, Irlanda e Rússia.

Foto: Luis Suarez

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Este é o quarto ano seguido que o Comitê de Turismo da Prefeitura das Grandes Canárias reúne alguns dos mais conhecidos e laureados escultures em areia do mundo para representarem cenas religiosas de preferência relacionadas ao Natal.  Presépios, ou como os espanhóis chamam “belenes” têm uma grande tradição nesse país ibérico.





Lapinha, poema de Natal de Wilson W. Rodrigues

10 12 2009

LAPINHA

 

                                                                          Wilson W. Rodrigues

Cristo fugiu do presépio,

veio em meu sonho dormir.

Eu quis cantar de alegria

mas, contentei-me em sorrir.

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Se cantasse, acordaria

e talvez Cristo chorasse.

Era tão belo dormindo,

dei um beijo em sua face.

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Nessa noite de Natal

Deus veio me visitar.

Estava triste, sozinho,

minha festa era sonhar.

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Ai!  Sonho!  Presepe d’alma!

Ai!  Cristo – visita santa!

Dorme, meu Cristo menino,

minha tristeza  acalanta…

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Em:  Bahia Flor: poemas, de Wilson W Rodrigues, Rio de Janeiro, Editora Publicitan: 1948

 

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Wilson Woodrow Rodrigues — poeta, folclorista, jornalista, professor e técnico de educação.  Nasceu em 6 de julho de 1916, na cidade de São Salvador, Bahia.  Filho do Cel. Julio Rodrigues de Sousa e de D. Josina Parente Rodrigues, família do Recôncavo Baiano.  Desde menino revelou vocação para a poesia, tendo publicado as suas primeiras composições em periódicos escolares.  Seu primeiro livro publicado teve as bençãos antecipadas do poeta Jorge de Lima.

Obras: 

 A caveirinha do preá,  Arca ed.: s/d, Rio de Janeiro

Desnovelando, Arca ed., s/d, Rio de Janeiro

O galo da campina, Arca ed,: s/d, Rio de Janeiro

O pintainho, Arca ed.: s/d, Rio de Janeiro

Por que a onça ficou pintada, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

A rãzinha, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

Três potes, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

O bicho-folha, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

A carapuça vermelha, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

Bahia flor, 1948 (poesias)

Folclore Coreográfico do Brasil, 1953

Contos, s/d

Contos do Rei-sol, s/d

Contos dos caminhos, s/d

Pai João, 1952

Sombra de Deus

Pai João, 1952

Lendas do Brasil