A lagartixa — poema, Da Costa e Silva

22 01 2009

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A Lagartixa

 

                                    Da Costa e Silva

 

 

A um só tempo indolente e inquieta, a lagartixa,

Uma réstia de sol buscando a que se aqueça,

À carícia da luz toda estremece e espicha

O pescoço, empinando a indecisa cabeça.

 

Ei-la aquecendo ao sol; mas de repente a bicha

Desatina a correr, sem que a rumo obedeça,

Rápida num rumor de folha que cochicha

Ao vento, pelo chão, numa floresta espessa.

 

Traça uma reta, e pára; e a cabeça abalando,

Olha aqui, olha ali; corre de novo em frente

E outra vez, pára, a erguer a cabeça, espreitando…

 

Mal um inseto vê, detém-se de repente,

Traiçoeira e sutil, os insetos caçando,

A bater, satisfeita, a papada pendente…

 

Em: Poesias completas, Da Costa e Silva, Nova Fronteira: 1985, Rio de Janeiro

 

 

 

Antonio Francisco da Costa e Silva – (Amarante, Piauí, 1885 – Rio de Janeiro, 1950) Poeta.  Começou a compor versos por volta de 1896, tendo seus primeiros poemas publicados em 1901. Todavia, seu primeiro livro de poesia, Sangue, foi lançado só em 1908, primeira obra da última geração simbolista. .  Formou-se pela Faculdade do Direito do Recife. Foi funcionário do Ministério da Fazenda, tendo ocupado os cargos de Delegado do Tesouro no Maranhão, no Amazonas, no Rio Grande do Sul e em São Paulo. Viveu não só na capitais desses estados, mas também, por mais de uma vez, em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro. Jornalista. Exerceu função pública na Presidência da República do Brasil, entre 1931 e 1945, a pedido do então presidente Getúlio Vargas. É o autor da letra do hino do Piauí.  Recolheu-se ao silêncio, demente, pelos últimos 17 anos de vida. Faleceu em 29 de junho de 1950.

 

 

Publicou os seguintes livros de poemas:

 

 

Sangue (1908),

Zodíaco (1917),

Verhaeren (1917),

Pandora (1919)

Verônica (1927)





O Bolo de Reis

7 01 2009

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O bolo de reis ou Epifania,  1774

Jean–Baptiste Greuze (França, 1725-1805)

Óleo sobre tela,  71 x 92 cm

Musée de Fabre,  Montpellier

 

O Natal é uma época que sempre me traz nostalgia.  Há a nostalgia pelo existiu brevemente – ou seja, a nostalgia de um dia ter podido acreditar na lenda natalina do Papai Noel;  há a nostalgia do que nunca existiu — um período de paz e beatitude — que existe só no coração das crianças pequeninas.  E há também no meu caso, a nostalgia, dos cheiros de Natal, das comidas de Natal, da cozinha natalina.

 

Minha avó materna era carioca da gema, nascida no finalzinho do século XIX.  Mas era por sua vez neta e bisneta de portugueses de Viana do Castelo e de galegos de região de Vigo. E muitas das nossas tradições de família vêm por intermédio dela.  Depois que ficou viúva, vovó Albina veio morar conosco.  E para mim o Natal nunca foi o mesmo desde que ela não pode mais orquestrar o cardápio natalino.  O Natal na nossa casa tinha cheiro de festa, sabores esdrúxulos das frutas secas e das cerejas frescas,  tinha peru com pêssegos no Natal, [nunca tivemos bacalhau que eu me lembre], devorávamos os sonhos fresquinhos recheados com geléia e as rabanadas com bastante açúcar e canela, que eram sempre mais gostosas quando já eram “dormidas”.  No Ano Novo tínhamos presunto com rodelas de abacaxi fritas, salada de maionese que também se chamava salada russa, tudo com complementos brasileiríssimos tais como farofa e arroz.  E finalmente o nosso Natal terminava com O Bolo De Reis, que adorávamos porque além de gostoso, trazia 4 prendas dentro dele e prognosticava o ano que se iniciava.   

 

O Bolo de Reis era uma das grandes especialidades de vovó Albina, que começava cedo a sua preparação porque este bolo não era feito com o fermento comum, mas com o fermento “de padaria” —  aquele que a gente precisa misturar com água quente e depois colocar a massa num lugar sem vento (dentro do forno apagado) e deixar o tempo se encarregar de dobrar o tamanho da massa como se por milagre!  O Bolo de Reis levava quatro prendas todas de metal: um dedal (trabalho duro), uma aliança (casamento a vista), uma cruz (pagar pecados) e uma medalha de São Cristóvão (viagens próximas).   Lá em casa, com meu pai cientista, sempre tivemos muito cuidado com a higiene.  Então, estas prendas eram colocadas na água e lá  as deixávamos fervendo até que vovó estivesse pronta para colocá-las na massa do bolo e com este gesto tão simples ajudar a desenhar o futuro de quem tirasse cada brinde no dia 6 de janeiro.   O Bolo de Reis levava muitas coisas crocantes além das partes metálicas mencionadas acima: figos, peras cristalizadas, passas, pinhões, nozes, e uma dezena de outras coisas de que já não me lembro, mas que certamente ajudavam a fechar com chave de ouro o período natalino.

 

Até hoje procuro uma receita deste Bolo de Reis que possa duplicar a deliciosa sensação de comê-lo além da ansiedade da previsão de um futuro como imaginávamos.  Tenho procurado há anos uma receita que duplique para mim este gosto do Natal.  Mas por mais que o faça, não a consegui ainda.  Às vezes acho que minha avó ia colocando coisas a mais, fora da receita, mas ultimamente me pergunto se não é só a minha saudade, a nostalgia de uma infância segura e feliz que não consigo duplicar.  Hoje, já não há mais razão para que eu faça um Bolo de Reis.  A maioria das pessoas à minha volta não tem idéia daquilo a que me refiro.  Que pena!  Não sabem o que perdem!

©Ladyce West, Rio de Janeiro: 2009





Hoje, Dia de Reis, o 12° dia do Natal!

6 01 2009

 

 

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Altar da Adoração dos Reis Magos, 1420-23

Gentile da Fabriano (Itália, 1370 – 1427)

Têmpera sobre madeira, 203 x 282 cm

Uffizi, Florença

 

[nota: abaixo três predellas , contam a vida anterior e posterior à cena retratada. Da esquerda para a direira: O nascimento de Jesus Cristo, A fuga para o Egito e à direita, A apresentação no templo e circuncisão

 

Por vezes falarei aqui neste blog sobre religiões.  Não necessariamente porque estou advogando uma específica, mas simplesmente porque muito do que fazemos e vemos no nosso dia a dia, muito do que pensamos e como pensamos, está direta ou indiretamente relacionado às religiões que formaram a cultura brasileira.  Como historiadora da arte, para mim foi sempre essencial saber em que meio, em que cultura um quadro, uma escultura, um altar, uma imagem litúrgica teria sido feita para poder entender o porquê de certos detalhes.  Assim como mencionei a festa judaica,  o Festival de Luzes, em dezembro de 2008, hoje venho pensando no Natal, e nas festividades que estão aos poucos desaparecendo.

 

Hoje é dia 6 de janeiro, Dia de Reis, ou Dia dos Reis Magos.  Atualmente quando falamos de magos há três imagens que nos vêm à memória, sem relação ao dia de hoje.  1 – pensamos em Paulo Coelho;  2 – pensamos na obra de Tolkien, O senhor dos anéis,  3 – pensamos na obra de J K Rolling, Harry Potter.  Quase nenhuma criança, adolescente, jovem ou adulto se lembra primeiro de Gaspar, Belquior, e Baltazar, os reis que seguiram a estrela de Natal e levaram presentes para o bebê nascido na manjedoura.

 

O Dia de Reis é o décimo-segundo dia de Natal.  E ainda é celebrado em muitas partes do mundo, em lugares onde a tradição da Igreja Ortodoxa grega impera, [aquela que é herdeira e mantenedora das tradições religiosas depois da Queda do Império Romano].  É nela que  é no dia de hoje, lembrando os presentes dados pelos reis magos a Jesus, as pessoas trocam presentes de Natal.

 

Quando morei nos EUA fiquei surpresa de ouvir a grande maioria dos americanos cantando uma conhecida cantiga natalina, chamada The Twelve Days of Christmas,  — os doze dias de Natal – sem terem a menor noção de que esses 12 dias se referem ao período do dia 25 ao dia 6 de janeiro.  Não sabem também que a letra desta conhecida canção traz muitas referências à história da igreja católica na Grã-Bretanha.  É por causa deste simbolismo dos 12 dias de Natal que tradicionalmente nós nos desfazemos dos nossos enfeites natalinos, inclusive da árvore de Natal, só depois do dia 6 de janeiro.  No entanto, nos EUA, ao invés, as pessoas se desfazem de suas árvores de Natal no dia 31 de dezembro e no sul do país, onde morei por muitos anos, a tradição oral é: manter a árvore montada depois do dia primeiro traz má sorte.   Esta atitude sempre me surpreendeu porque aquele é um país cristão e bastante religioso.   Mas lá, já se perdeu a noção dos 12 dias do Natal.

 

Então, vejamos o que a canção natalina a que me referi realmente diz:

 

The Twelve Days of Christmas

 

 

On the first day of Christmas,

my true love sent to me

A partridge in a pear tree.

 

On the second day of Christmas,

my true love sent to me

Two turtle doves,

And a partridge in a pear tree.

 

On the third day of Christmas,

my true love sent to me

Three French hens,

Two turtle doves,

And a partridge in a pear tree.

 

On the fourth day of Christmas,

my true love sent to me

Four calling birds,

Three French hens,

Two turtle doves,

And a partridge in a pear tree.

 

On the fifth day of Christmas,

my true love sent to me

Five golden rings,

Four calling birds,

Three French hens,

Two turtle doves,

And a partridge in a pear tree.

 

On the sixth day of Christmas,

my true love sent to me

Six geese a-laying,

Five golden rings,

Four calling birds,

Three French hens,

Two turtle doves,

And a partridge in a pear tree.

 

On the seventh day of Christmas,

my true love sent to me

Seven swans a-swimming,

Six geese a-laying,

Five golden rings,

Four calling birds,

Three French hens,

Two turtle doves,

And a partridge in a pear tree.

 

On the eighth day of Christmas,

my true love sent to me

Eight maids a-milking,

Seven swans a-swimming,

Six geese a-laying,

Five golden rings,

Four calling birds,

Three French hens,

Two turtle doves,

And a partridge in a pear tree.

 

On the ninth day of Christmas,

my true love sent to me

Nine ladies dancing,

Eight maids a-milking,

Seven swans a-swimming,

Six geese a-laying,

Five golden rings,

Four calling birds,

Three French hens,

Two turtle doves,

And a partridge in a pear tree.

 

On the tenth day of Christmas,

my true love sent to me

Ten lords a-leaping,

Nine ladies dancing,

Eight maids a-milking,

Seven swans a-swimming,

Six geese a-laying,

Five golden rings,

Four calling birds,

Three French hens,

Two turtle doves,

And a partridge in a pear tree.

 

On the eleventh day of Christmas,

my true love sent to me

Eleven pipers piping,

Ten lords a-leaping,

Nine ladies dancing,

Eight maids a-milking,

Seven swans a-swimming,

Six geese a-laying,

Five golden rings,

Four calling birds,

Three French hens,

Two turtle doves,

And a partridge in a pear tree.

 

On the twelfth day of Christmas,

my true love sent to me

Twelve drummers drumming,

Eleven pipers piping,

Ten lords a-leaping,

Nine ladies dancing,

Eight maids a-milking,

Seven swans a-swimming,

Six geese a-laying,

Five golden rings,

Four calling birds,

Three French hens,

Two turtle doves,

And a partridge in a pear tree!

 

 

No 1º dia de Natal meu verdadeiro amor me enviou…
Uma perdiz em uma pereira

No 2º dia de Natal meu verdadeiro amor me enviou…
Duas rolinhas

No 3º dia de Natal meu verdadeiro amor me enviou…
Três galinhas francesas

No 4º dia de Natal meu verdadeiro amor me enviou…
Quatro pássaros

No 5º dia de Natal meu verdadeiro amor me enviou…
Cinco sinos

No 6º dia de Natal meu verdadeiro amor me enviou…
Seis gansos

No 7º dia de Natal meu verdadeiro amor me enviou…
Sete cisnes

No 8º dia de Natal meu verdadeiro amor me enviou…
Oito  jovens que ordenham

No 9º dia de Natal meu verdadeiro amor me enviou…
Nove senhoras dançando

No 10º dia de Natal meu verdadeiro amor me enviou…
Dez senhores saltadores

No 11º dia de Natal meu verdadeiro amor me enviou…
Onze flautistas tocando

No 12º dia de Natal meu verdadeiro amor me enviou…
Doze tocadores de tambor tocando-os

Esta letra vem do tempo em que a Inglaterra proibia a religião católica [1558-1829] e católicos ingleses e irlandeses precisavam achar uma maneira de passar para seus filhos os aprendizados religiosos.  Tornaram-se então grandes especialistas em simbologia – assim como nós no Brasil da ditadura militar do século passado, passamos a falar em código sobre muito do que era proibido pelo governo.  Então, voltando à Inglaterra, esta canção é ao mesmo tempo uma canção natalina e um trava-linguas, uma brincadeira infantil que pretende seduzir as crianças em aprenderem esta simbologia muito especial.  

 

Amor verdadeiro =  Jesus Cristo

Duas rolinhas: o Novo e o Velho Testamentos

Três galinhas francesas = as virtudes teológicas: Fé, Esperança e Caridade

Quatro pássaros = os quatro evangelhos / os quatro evangelistas

Cinco sinos = Pentateuco ou seja, os cinco primeiros livros do Antigo Testamento, que mostram como o homem perdeu o Paraíso

Seis gansos = Seis dias da Criação

Sete cisnes = sete sacramentos

Oito jovens que ordenham = oito beatitudes

Nove senhoras dançando = nove frutos do Espírito Santo: alegria, amor, auto-controle, bondade, fidelidade, docilidade, nobreza de sentimentos, paciência, paz.

Dez senhores salteadores = dez mandamentos

Onze flautistas = onze fiéis discípulos

Doze Tocadores de tambor = doze pontos de fé do Credo dos Apóstolos

 

Lembrando os doze pontos de fé do Credo:

 

1. CREIO em   —  Deus Pai Todo-poderoso,  Criador dos Céus e da terra.

 

2.   E em Jesus Cristo, o seu único Filho, o nosso Senhor;

 

3.   que foi concebido pelo Espírito Santo, nasceu da virgem Maria;

 

4.   padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado;

 

5.   desceu aos inferno, e ao terceiro dia ressuscitou dentre os mortos;

 

6.   subiu ao céu e está assentado a direita de Deus Pai Todo-poderoso;

 

7.   dali virá para julgar os vivos e os mortos.

 

8. Creio no Espírito Santo;

 

9. na santa Igreja católica, a comunhão dos santos;

 

10. o perdão dos pecados;

 

11. a ressurreição do corpo

 

12. e a vida eterna. Amém.”

 

 

Neste Natal que passou cheguei a ouvir algumas vezes esta canção (muito repetitiva e enfadonha) por aí, nas lojas que pretendem ser mais sofisticadas.

 

Feliz Dia de Reis!

 

—–

Nota sobre o altar de Gentile da Fabriano:  Na minha opinião, este não é só o mais belo altar retratando a  Adoração dos Reis Magos do estilo Gótico Internacional, mas talvez o mais belo que conheço, de todos os retábulos representando a Adoração do Reis Magos (são muitos) do período da Renascença e do Barroco europeus.





O que há de errado com este artigo de O GLOBO?

8 12 2008
Primeira página do Caderno Prosa e Verso, O GLOBO, 6/12/2008

Primeira página do Caderno Prosa e Verso, O GLOBO, 6/12/2008

 

No sábado passado, dia 6 de dezembro, o jornal matutino carioca, O GLOBO, apresentou um artigo sobre os romances populares no século XIX no Brasil.  O artigo de Miguel Conde comenta sobre os livros que re-editam histórias populares da época; romances publicados aos capítulos nos jornais do reino, da mesma maneira em que muitas outras obras de peso no século XIX foram publicadas em outras partes do mundo.  Era comum.

O artigo revela ainda alguns hábitos interessantes da leitura no Brasil imperial e colonial e o jornal em espaços diferentes faz uma complementação com uma lista dos livros mais vendidos no Brasil Colônia e também com uma resenha do que havia nos catálogos de três livreiros no século XIX.

Páginas 1 e 2 tratam quase que exclusivamente de hábitos de leitura, assim como de títulos populares no Brasil imperial.  E no entanto, o jornal O GLOBO, preferiu ilustrar suas páginas não com artistas brasileiros mostrando pessoas lendo, mas ao invés, mostrou mais uma vez a mentalidade de colonia cultural ao escolher trabalhos do francês Jean-Auguste Renoir e da americana Mary Cassat, ambos com imagens de mulheres lendo livros.

Página 2 do Caderno Prosa e Verso do Jornal O GLOBO

Página 2 do Caderno Prosa e Verso do Jornal O GLOBO

A pergunta que não cala:  por quê?  Por que um artigo sobre hábitos de leitura no Brasil não é ilustrado com mulheres brasileiras lendo?  Isto leva o leitor ao total desconhecimento de sua própria cultura e ao reconhecimento exclusivamente de outras imagens, iconografias que não têm nada a ver com a realidade brasileira, com o talento dos artistas brasileiros. 

Este tipo de ignorância dos valores culturais brasileiros precisa acabar.  Com este fim, enviei ontem, o seguinte email que aqui transcrevo para Mànya Millen, que imagino ser uma senhora, que está encarregada da editoria do caderno Prosa e Verso. 

Aqui está a transcrição: 

Prezada Mànya Millen,
 
Muito obrigada pelo interessantíssimo artigo Best Sellers REAIS, no Caderno Prosa e Verso que a senhora editora.  O artigo de Miguel Conde foi muito ilustrativo e bem escrito.  Tenho no entanto um problema com as imagens escolhidas para ilustrar um artigo sobre a leitura no Brasil no século XIX.  É um reclamação pequena, mas acredito que importante.
 
Por que não ilustrar este artigo com arte brasileira, de uma mulher lendo?   Estes quadros existem.  E falam mais a nós brasileiros do que o Renoir ou a Mary Cassat que vocês acharam por bem usar.
 
Um dos quadros mais famosos no Brasil é o da Moça lendo de José Ferraz de Almeida Júnior, um pintor brasileiro, que nasceu e morreu no estado de São Paulo, (Brasil 1850-1899).  Este quadro, pintado em 1879, encontra-se no MASP (Museu de Arte de São Paulo) e tenho certeza de que o museu não colocaria obstáculos na sua reprodução pelo O GLOBO. 
 
Na verdade, o mesmo pintor tem alguns outros quadros de mulheres lendo que também poderiam ter sido aproveitados no lugar do ultra batido RENOIR, que não aumenta o conhecimento do brasileiro por sua própria cultura.
 
Bertha Worms, Tarsila do Amaral, Henrique Bernardelli, Aurélio d’Alincourt, Di Cavalcanti entre outros tem quadros bastante conhecidos que seriam uma melhor maneira de transmitir a cultura brasileira e acabar com esta sensação de ex-colônia, cujo único lugar no mundo que importa encontra-se fora do Brasil.
 
Morei muitos anos no estrangeiro.  E posso lhe dizer que nem nos EUA, nem na França, nem mesmo em Portugal, um jornal ao ilustrar um artigo sobre a leitura do país deles ilustraria o artigo com artistas estrangeiros.  Sinto ter que lhes chamar a atenção para este detalhe cultural.  Mas acredito fortemente que é assim que se constrói, que se educa, que se valoriza a cultura brasileira.
 
PS: Esta carta será publicada no meu blog, Peregrina Cultural. ( https://peregrinacultural.wordpress.com.br )
 
 
Atenciosamente,
 
 
Ladyce West
José Ferraz de Almeida Jr (Brasil,1850-1899) Moça com livro, 1879, MASP

José Ferraz de Almeida Jr (Brasil,1850-1899) Moça com livro, s/d, óleo sobre tela, 50 x 61 cm, MASP -- Museu de Arte de São Paulo

 

É este tipo de descuido com o que é nosso que precisa acabar.  E só vai acabar quando pessoas como nós, que conhecemos mais, que sabemos mais, batermos com o pé para dizer:  BASTA!  Não quero mais esta visão neo-colonial do Brasil, como se o centro do mundo estivesse fora daqui.  O meu centro cultural está aqui.  Principalmente quando o assunto é literatura no Brasil, no século XIX.  Então, por quê?  Qual é a razão deste despropósito?





Sinfonia Cotidiana — poema de J. G. de Araújo Jorge

30 11 2008

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Menina com gato e piano, 1967

Di Cavalcanti (Brasil 1897 – 1976)

óleo sobre tela  62 x 51 cm

Coleção Particular

 

 

Sinfonia Cotidiana

 

 

A manhã surge

aos sons do Concerto n.° 1 de Grieg

no rádio madrugador do meu vizinho.

 

A tarde chega

acompanhada pelo Prelúdio n.° 24 de Chopin,

num piano sem lugar.

 

A madrugada se embala

com a música do mar.

 

 

J. G. de Araújo Jorge

 

 

Em: A outra face, Editora Vecchi:1957, Rio de Janeiro

 

 

José Guilherme de Araújo Jorge (AC 1914 – RJ 1987), conhecido como J. G. de Araújo Jorge, foi um poeta e político brasileiro.

 

 

 

 

Obras:

 

 

Meu Céu Interior, 1934 

Bazar De Ritmos, 1935 

Cântico Do Homem Prisioneiro, 1934

Amo!, 1938

Eterno Motivo, 1943

O Canto Da  Terra, 1947

Estrela Da Terra, 1947

Festa de Imagens, 1948

A Outra Face, 1949

Harpa Submersa, 1952

A Sós. . ., 1958

Concerto A 4 Mãos, 1959

Espera.. ., 1960

De Mãos Dadas, 1961

Canto A Friburgo, 1961

Cantiga Do Só, 1964

Cantigas De Menino Grande. 100 Trovas, 1964

Trevos De Quatro Versos . Trovas, 1964

Quatro Damas, 1965

Mensagem, 1966 

Cantigas De Menino Grande. 100 Trovas, 1964

Trevos De Quatro Versos . Trovas, 1964

O Poder Da Flor, 1969

Um Besouro Contra A Vidraça  PROSA, 1942

 Com Letra Minúscula- PROSA, 1961

 

 

 

 

Emiliano Augusto Cavalcanti de Albuquerque e Melo, mais conhecido como Di Cavalcanti (Rio de Janeiro, 6 de setembro de 1897 — Rio de Janeiro, 26 de outubro de 1976) foi um pintor, ilustrador e caricaturista brasileiro.

 

 

Edvard Hagerup Grieg (Noruega 1843 – 1907) compositor norueguês, um dos mais célebres do período romântico e do mundo. As suas peças mais conhecidas são a Suíte Sinfónica Holberg, o concerto para piano e a Suíte Peer Gynt.

 

 

Frédéric Chopin (Polônia 1810 — 1849) foi um pianista grande músico e compositor para piano da era romântica. É amplamente conhecido como um dos maiores compositores para piano e um dos pianistas mais importantes da história. Sua técnica refinada e sua elaboração harmônica vêm sendo comparadas historicamente com as de outros gênios da música, como Mozart e Beethoven, assim como sua duradoura influência na música até os dias de hoje.





Enxurrada — poema de Miguel Reale, para uso escolar

27 11 2008

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A Cidade dos Livros, 1983

François Schuiten (Bélgica, 1956)

Artista de história em quadrinhos

Esta ilustração de: As Cidades Obscuras.

 

Enxurrada

                       

 

                                   Miguel Reale

 

 

 

Batendo e espumejando na calçada,

Celeremente desce em remoinho

Ladeira abaixo a túrbida enxurrada.

 

Negra, arrastando os ramos encontrados,

Cada vez mais se engrossa encapelada

Arremessando aos bueiros com violência

Folhas e areia.  Sobre tal esteira

Cruza e prossegue em grande desalinho.

 

Assim os fortes levam na carreira

Os fracos, folhas mortas da existência

Que os preservam dos bueiros do caminho.

 

 

Miguel Reale (São Bento do Sapucaí, 6 de novembro de 1910 — São Paulo, 14 de abril de 2006) foi um filósofo, jurista, educador e poeta brasileiro.

 

São muitas as suas obras publicadas.  Vamos nos limitar a mencionar aqui suas obras literárias de poesia e prosa.

 

Obras:

 

Poemas do Amor e do Tempo (1965)

Poemas da Noite (1980)

Figuras da Inteligência Brasileira (1984)

Tempo Brasileiro (1997)

Sonetos da Verdade (1984)

Vida Oculta (1990)

Face Oculta de Euclides da Cunha (1993)

Das Letras à Filosofia (1998)

 





Girafa — Poesia infantil de Leonel Neves

24 11 2008

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GIRAFA  

 

Leonel Neves

 

 

Tenho pena da girafa

de pescoço grandalhão:

– Como é que a pobre se abafa,

tendo uma constipação?

 

Coitadinha da Girafa!

 

Quando eu me constipo, posso

arranjar um cachecol.

Mas com aquele pescoço…

Safa!

Pobre da Girafa!

– Vou oferecer-lhe um lençol.

 

 

 

Em: Bichos de trazer para casa: poemas para crianças, Livros Horizonte: 1981, 3ª ed.

 

Carlos Duarte Leonel Neves nasceu em Faro, Portugal, em 1921. Publicou o seu primeiro livro de poesia Janela Aberta, em 1940, mas é somente a partir de 1975 que escreve para crianças.

 





Nariz, nariz, e nariz — Bocage, poesia

23 11 2008

 

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Nariz, nariz, e nariz

                                                         Bocage

Nariz, nariz, e nariz,
Nariz, que nunca se acaba;
Nariz, que se ele desaba,
Fará o mundo infeliz;
Nariz, que Newton não quis
Descrever-lhe a diagonal;
Nariz de massa infernal,
Que, se o cálculo não erra,
Posto entre o Sol e a Terra,
Faria eclipse total!

 

 
bocageManuel Maria de Barbosa l’Hedois du Bocage (Setúbal, 15 de Setembro de 1765 — Lisboa, 21 de Dezembro de 1805), Poeta português, possivelmente, o maior representante do arcadismo lusitano.  Árcade e pré-romântico, sonetista notável, um dos precursores da modernidade em seu país.

 

 

Ilustração no início: cartaz para a peça Cyrano de Bergerac.





O guarda-chuva — poema de Mauro Mota para uso escolar

18 11 2008

Ilustração Mauricio de Sousa

 

 

 

O Guarda-chuva

 

 

Mauro Mota

 

 

Meses e meses recolhida e murcha,

sai de casa, liberta-se da estufa,

a flor guardada ( o guarda-chuva).  Agora,

cresce na mão pluvial, cresce.  Na rua,

sustento o caule de uma grande rosa

negra, que se abre sobre mim na chuva.

 

 

Em: Antologia Poética, Mauro Mota, Rio de Janeiro, Editora Leitura: 1968, P.87

 

 

 

Mauro Ramos da Mota e Albuquerque (Nazaré da Mata, 16 de agosto de 1911 — Recife, 22 de novembro de 1984) foi um jornalista, professor, poeta, cronista, ensaísta e memorialista brasileiro.

 

Obras:

 

Elegias (1952)

A tecelã (1956)

Os epitáfios (1959)

Capitão de Fandango (1960, crônica)

O galo e o cata-vento, (1962)

Canto ao meio (1964)

O Pátio vermelho: crônica de uma pensão de estudantes (1968, crônica)

Poemas inéditos (1970)

Itinerário (1975)

Pernambucânia ou cantos da comarca e da memória (1979)

Pernambucânia dois (1980)

Mauro Mota, poesia (2001)

Antologia poética, 1968

Antologia em verso e prosa, 1982.

 





Compro um barco cheio de vento — poesia para crianças Roseana Murray

9 11 2008

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Compro um barco cheio de vento

                                                           Roseana Murray                                     

 

 

Compro um barco cheio de vento

com velas cor do firmamento

e uma bússola que aponte sempre

para as luas de saturno.

Compro um barco que conheça

caminhos secretos de mares desconhecidos.

Um barco feito de vento

onde caibam todos os meus amigos.

Compro um barco que saiba decifrar

os segredos escondidos

no coração das noites sem luar.

 

Em: Classificados poéticos de Roseana Murray, Miguilim: 1998, Belo Horizonte, 17ª edição.

 

Roseana Murray nasceu no Rio de Janeiro em 1950. Graduou-se em Literatura e Língua Francesa em 1973 (Universidade de Nancy/ Aliança Francesa).

Obras:

Poesia para crianças e jovens

Fábrica de Poesia, ed. Scipionne, 2008

Poemas e Comidinhas, com o Chef André Murray, ed. Paulus, S.P, 2008

Residência no Ar, ed. Paulus, 2007

No Cais do primeiro Amor, ed. Larousse, 2007

Desertos, ed. Objetiva, 2006. ( Finalista do Prêmio Jabuti ) – Altamente Recomedável FNLIJ, 2006

O traço e a traça ed. Scpionne, 2006.

O xale azul da sereia, ed. Larrousse, 2006.

O que cabe no bolso? ed. DCL, 2006.

Paisagens, ed. Lê, 2006.

Pêra, uva ou maçã ed. Scipione, 2005. (Catálogo de Bolonha 2006 e Acervo Básico, F.N.L.I.J).

Rios da Alegria, ed. Moderna, 2005. (Altamente Recomendável, F.N.L.I.J).

Poemas de Céu ed. Miguilim, 2005. (Antigo “Lições de Astronomia”).

Maria Fumaça Cheia de Graça, ed. Larousse, 2005.

Duas Amigas, ed. Paulus, 2005 (reedição).

Lua Cheia Amarela, ed. Dimensão 2004.

Caixinha de Música, ed. Manati, 2004. (Catálogo de Bolonha 2005)

Um Gato Marinheiro, ed. DCL, 2004.

Todas as Cores Dentro do Branco, ed. Nova Fronteira, 2004.

Recados do Corpo e da Alma, ed. FTD, 2003. (Altamente Recomendável F.N.L.I.J)

Luna, Merlin e Outros Habitantes, ed. Miguilim/ Ibeppe, 2002. (Altamente Recomendável, F.N.L.I.J. )

Jardins, ed. Manati, 2001. (Prêmio Academia Brasileira de Letras de Literatura Infantil 2002. )

Caminhos da Magia, ed. DCL, 2001.

Manual da Delicadeza, ed. FTD, 2001.

O Silêncio dos Descobrimentos,  com Elvira Vigna, ed. Paulus, 2000.

Receitas de Olhar, ed. F.T.D, 1997, ( Prêmio O Melhor de Poesia, F.N.L.I.J. )

Carona no Jipe, ed. Memórias Futuras, 1994 e ed. Salamandra, 2006

No final do Arco-Íris, ed. José Olímpio, 1994.

O Mar e os Sonhos, ed. Miguilim,1996, (Altamente Recomendável para a Criança, F.N.L.I.J. )

Paisagens, ed. Lê, 1996.

Felicidade, ed. F.T.D, 1995, (Altamente Recomendável  para a Criança, F.N.L.I.J. )

De que riem os palhaços ed. Memórias Futuras, 1995. Esgotado

Tantos Medos e Outras Coragens, ed. F.T.D, 1994 ( Prêmio O Melhor de Poesia F.N.L.I.J e Lista de Honra do I.B.B.Y. ) Reedição com novas ilustrações em 2007

Qual a Palavra? ed. Nova Fronteira, 1994.

Casas, ed. Formato, 1994. Editado no México, ed. Alfaguara

Dia e Noite, ed. Memórias Futuras, 1994. Esgotado

Artes e Ofícios, ed. F.T.D, 1990, (Prêmio A.P.C.A. e Altamente Recomendável para a Criança, F.N.L.I.J. ) Reedição com novas ilustrações em 2007

Falando de Pássaros e Gatos, editora Paulus, 1987.

Fruta no Ponto, ed. F.T.D, 1986. (Prêmio O Melhor de Poesia. F.N.L.I.J.

Fardo de Carinho, ed. Murinho, 1980 e ed. Lê, 1985.

O Circo, ed. Miguilim/ Ibeppe, 1985.

Lições de Astronomia, ed. Memórias Futuras, 1985. Esgotado

Classificados Poéticos, ed. Miguilim/ Ibeppe, 1984, (Altamente Recomendável para a Criança, F.N.L.I.J, e finalista do Prêmio Bienal. )

No Mundo da Lua, ed. Miguilim/ Ibeppe, 1983.

Contos para crianças e jovens

 

Território de Sonhos, ed. Rocco, Altamente Recomendável FNLIJ, 2006.

Sete Sonhos e um Amigo, ed. FTD, 2004.

Pequenos Contos de Leves Assombros, ed. Quinteto, 2003.

Um Avô e seu Neto, ed. Moderna, 2000.

Terremoto Furacão ed. Paulus, 2000.

Um cachorro para Maya, ed Salamandra, 2000.

Uma História de Fadas e Elfos, ed. Miguilim / Ibeppe, 1998, (Acervo Básico da F.N.L.I.J – criança ).

Três Velhinhas tão velhinhas, ed. Miguilim / Ibeppe, 1996

O Fio da Meada, ed. Memórias Futuras, 1994. Ed. Paulus, 2002

Retratos, ed. Miguilim/ Ibeppe, 1990, Altamente Recomendável para a Criança, F.N.L.I.J. )

O Buraco no Céu ed. Memórias Futuras, 1989.

Poesia

Variações sobre Silêncio e Cordas, com desenhos de Elvira Vigna. E-BOOK, edição artesanal Maurício Rosa, Visconde de Mauá, maio de 2008.

Poesia essencial, ed. Manati, 2002.

15 poemas no livro Um Deus para Dois Mil, de Juan Arias, ed. Vozes (em seis línguas) 1999.

Caravana, inédito, vencedor do Concurso Cidade de Belo Horizonte, 1994.

Pássaros do Absurdo, ed. Tchê ,1990, vencedor do Concurso da Associação Gaúcha de Escritores.

Paredes Vazadas, ed. Memórias Futuras, 1988. Esgotado

Viagens , ed. memórias Futuras, 1984.

Revista Poesia Sempre.

Revista Microfisuras, Espanha

Correspondência

Porta a porta, com Suzana Vargas, ed. Saraiva, 1998, ?Acervo Básico da F.N.L.I.J – jovem).