EUA: economia fraca, bibliotecas públicas em alta.

2 09 2008

 

Hoje o Jornal O GLOBO, publicou na sua coluna Negócios e Cia, editado por Flávia Oliveira,

Biblioteca Municipal, Ilustração Walt Disney.

Biblioteca Municipal, Ilustração Walt Disney.

que as bibliotecas nos EUA estão com grande movimento desde que a economia do país

começou a enfraquecer.   Na verdade, desde o início de 2008 que o uso de bibliotecas públicas nos EUA tem aumentado sistematicamente.  Em Massachusetts, não são só as bibliotecas apresentam maior movimentação.  Há também um maior número de pessoas freqüentando museus.  Programas para crianças em museus e bibliotecas tem tido participação contínua e o uso da internet — que nas bibliotecas públicas americanas é gratuito e de acesso rápido, sendo cada pessoa limitada de 30 minutos a 60 minutos, dependendo do local – está batendo recordes.   

 

 

 

De acordo com Terry Date, jornalista do Eagle Tribune  que entrevistou Eleanor Strang,  diretora da Kelley Library da cidade de Salem, uma cidade com 42.000 pessoas, disse que um dos primeiros sinais de que a economia está fazendo as pessoas cortarem gastos em geral é visto no maior movimento nas bibliotecas públicas.   Até mesmo quem está à procura de trabalho vai à biblioteca para procurar pela internet e colocar seu currículo nas mãos de possíveis empregadores.  Isto porque em geral, desemprego significa corte no serviço rápido da internet.  Assim todos procuram fazer uso do mesmo serviço nas bibliotecas públicas.    Na Kelley Library em Salem, há nove computadores permanentemente ligados com acesso rápido.  O número de usuários subiu mais de 10% no ano.  De 6.341 para 7.041 usuários.  Ou seja, quase 15% da população urbana.

 

O empréstimo de livros e de CDs aumentou 11% em 2007 de 9.618 para 10.642.  Enquanto que o empréstimo de livros através de outras bibliotecas [inter-library loan] subiu mais de 24%.   Crianças visitando a biblioteca para ouvirem contadores de histórias aumentou em 15% e os passes para museus aumentaram em 2% em 2007.

Com o aumento de usuários,  as bibliotecas municipais nos EUA já movimentam seus pedidos aos diretores para aumento também nos gastos com acervo e computadores.   Em Derry, New Hampshire, população: 22.500 pessoas, já houve um aumentou significativo na sua freqüência na bibliboteca municipal e seu Diretor Assistente, Jack Robillard,  providenciou pedido ao comitê municipal da diretoria que aumentassem a capacidade de computadores, para ajudar a quem procura por emprego.  

A história de aumento do uso das bibliotecas públicas americanas atravessa cidades grandes e pequenas e tem aumentado o numero de empregos para bibliotecários, através do país.   A biblioteca pública de Mobile, Alabama, ao sul dos EUA, está agora com uma circulação de 1.800.000 (isso mesmo um milhão e oitocentos mil ) livros, deixando para trás seus tradicionais, 1.200.000 livros emprestados ao ano.  

Na Califórnia, a biblioteca Central de Pasadena, (população 150.000) que em geral tem uma visita mensal de 55.000 pessoas,  só este ano já registrou mais de 60.000 consultas por mês.

 

NOTA

Aqui fica o exemplo e o desafio aos nossos governos municipais.  Principalmente agora, há meses das eleições.  Qual é o plano que o seu vereador, que o seu prefeito, que o seu governador tem para a leitura e o uso das bibliotecas públicas.  Não vote em quem não faz. 





Presente, poema infantil de Matilde Rosa Araújo

31 08 2008

Presente                                 Matilde Rosa Araújo                    

A girafa deu
ao seu
marido
no dia
de Natal
um lenço
colorido
de seda natural.
Que alegria!
– disse o marido –
ponha a pata
nesta pata,
com um pescoço
tão comprido
você não podia
ter-me comprado
uma gravata.

 

Matilde Rosa Araújo (Lisboa 1921 – 2010) pedagoga, escritora e poeta.

 

Obra

O Livro da Tila – poemas para crianças, 10ª edição, Livros Horizonte, 1986;

O Palhaço Verde – novela infantil, 5ª edição, Livros Horizonte, 1984 ; 

História de um Rapaz – conto infantil, 8ª edição, Livros Horizonte, 1986; 

O Cantar da Tila – poemas para a juventude, 8ª edição, Livros Horizonte, 1986; 

O Sol e o Menino dos Pés Frios – contos, 7ª edição, Livros Horizonte, 1986; 

O Reino das Sete Pontas – novela infantil, 2ª edição, Livros Horizonte, 1986; 

Os Quatro Irmãos – 2ª edição, Livros Horizonte, 1983 (ilustrações de Ana Leão); 

História de uma Flor – conto infantil, 1ª edição, Faoj; O Sol Livro – textos para o ensino, 1ª edição, Livros Horizonte, 1976; 

Os Direitos da Criança Livros Horizonte – 1ª edição, Unicef, 1977; 

O Gato Dourado – contos infantis, 3ª edição, Livros Horizonte, 1985; 

As Botas de Meu Pai – contos infantis, 2ª edição, Livros Horizonte, 1981; 

Camões, Poeta Mancebo e Pobre – divulgação, 1ª edição, Prelo Editora, 1978; 

Baladas das Vinte Meninas – poema infantil, Plátano Editora, 1978; 

Joana-Ana – conto infantil, Livros Horizonte, 1981; 

A Escola do Rio Verde – 2ª edição, Livros Horizonte, 198l; 

O Cavaleiro Sem Espada – Livros Horizonte, 1979; 

A Velha do Bosque – Livros Horizonte, 1993; 

A Guitarra da Boneca – Livros Horizonte, 1983; 

As Crianças, Todas as Crianças – Livros Horizonte, 1976; 

A Infância Lembrada – Antologia – Livros Horizonte, 1986; 

A Estrada Fascinante – Livros Horizonte, 1988; Mistérios – Livros Horizonte, 1988; 

Rosalina Foi à Feira – Livraria Arnado, 1994;

O Chão e a Estrela – Editora Verbo  1997; 

As Fadas Verdes – Livraria Civilização, 1994; 

“A Fonte do Real”, in Soares, Luísa Ducla (org.), A Antologia Diferente – De que São Feitos os Sonhos, Porto, Areal, (1986), pp. 30-32; 

Voz Nua, Lisboa, Horizonte, 1986; “A menina do pinhal”, in AAVV, Histórias e Canções em Quatro Estações – Primavera. Lisboa. Lisboa Editora. 1988, pp. 9-24; 

O Passarinho de Maio, Lisboa. Horizonte, 1990; 

O Chão e a Estrela, Lisboa, Verbo, 1994; 

A Estrada Fascinante, Lisboa, Horizonte, 1988 (ensaio).

 

 





Um Homem de palavra, entendendo o Líbano com Nazir Hamad

31 08 2008

 

Se você acha que uma das maneiras de aprender sobre os conflitos religiosos e políticos, sobre os muçulmanos, cristãos e judeus no Oriente Médio pode ser feito através da literatura, há um livro muito interessante que você deve ler.   Ele lhe dará uma visão de todas as mudanças porque passaram as aldeias, os pequenos vilarejos e as sociedades heterogêneas, localizadas em terras que estavam dominadas na passagem do século XIX para o XX, pelos grandes poderes europeus ( França e Inglaterra).  Estes locais, em países que ainda não existiam na época, que faziam parte das grandes terras de territórios franceses e ingleses, ganhos a custa da queda do império otomano, ficavam à volta do Mediterrâneo e hoje formam países inventados pelo europeu, que juntou e dividiu grupos étnicos ao bel prazer.  Estas pessoas que viviam em aldeias seculares, mantendo tradições religiosas não só islâmicas, mas também cristã ortodoxa, cristã e judaica, tiveram que se adaptar freqüentemente à medida que outras invenções territoriais lhes afetaram no que até então tinham sido tradições e maneiras de viver milenares.  Difícil é às vezes, nos lembrarmos de que tudo isto aconteceu só em cem anos.  Mas a narrativa de Nazir Hamad, um conhecido psicanalista libanês radicado na França, sobre o período de meados do século XX dá ao leitor uma idéia clara, fazendo do individual o universal, sobre as raízes dos movimentos que geram os conflitos no Oriente Médio hoje.   Esta pequena aula de história, de história cultural, de antropologia, vem sob a forma de um maravilhoso romance: Um homem de palavra,  Nazir Hamad, [ Rio de Janeiro, Companhia de Freud:2004, 218 páginas], com tradução de Procópio Abreu.

 

 

 

Num outro nível este romance também traz à superfície uma perspectiva que nem sempre me pareceu tão clara: as diferentes visões de identidade, do EU vistas de quem mora numa aldeia e de quem mora numa metrópole.  Uma das mais interessantes observações é que a identidade daqueles que vivem numa aldeia é adquirida mais através do OUTRO do que através de si mesmo.  Trocando em miúdos: porque numa aldeia todos conhecem todos, a identidade de cada um é facilmente construída pelo que os outros pensam de você.   Enquanto numa metrópole, onde ninguém o conhece a identidade de cada um tem que ser vista de dentro para fora.  O sentido do EU se torna mais importante.  Esta então é a grande transição porque passa a região deste romance.  Quando todos sabem que sou um homem bom, porque é assim que eles me vêem, continuo a ser um homem bom.  Mas, se ninguém sabe, se o mundo de repente é diferente, é preciso não só que eu seja um homem bom, mas que eu tenha a potencialidade de mostrar e de admiti-lo para mim mesmo.  É esta mudança psicológica que presenciamos através da trama do livro, sem que uma palavra a respeito seja dita.  

 

Recomendo a leitura deste livro por todos.  Excelente.

 





Germano Almeida surpreende com seu TESTAMENTO do Sr. Napumoceno

27 08 2008

Este livro me apresentou à literatura cabo-verdiana.  E que apresentação!  Fez com que eu quisesse ler mais!   O Testamento do Senhor Napumoceno [ São Paulo, Editora Companhia das Letras:1996]  é  narrado com muito humor.  É também um livro cheio de surpresas.  Napumoceno da Silva Araújo parece ter uma das vidas mais discretas do arquipélago.  Mas quando o seu testamento de 387 páginas é finalmente aberto, aprendemos detalhes de sua vida particular que mostram um outro homem.  Um homem que demonstra uma tremenda habilidade de escrever, que discorre sobre membros da família, sobre seus superiores, seus empregados e ainda mais detalhadamente sobre suas aventuras amorosas.  Tudo é metodicamente descrito e causa tanta surpresa a ponto de ser desacreditado.  Principalmente depois que sua fortuna não passa às mãos do sobrinho, como era esperado, mas à filha, desconhecida de todos, fruto de um relacionamento indiscreto no passado.  E de revelação em revelação, de requisitos estranhos para a sua própria cerimônia funerária a métodos de negócio questionáveis, ficamos sabendo sobre a vida nas ilhas, nas 10 ilhas deste país de 300.000 pessoas.  Um repleto povoado por pequenas cidades, cujas distancias são feitas grandes, muito grandes pelo mar.

 

O escritor Germano Almeida

O escritor Germano Almeida

 

 

 

 

 

Napumoceno representa facilmente Cabo Verde.   Sua solidão, sua maneira metódica, sua vida controlada e reclusa contribuem para que ele mesmo se isole da própria cidade onde mora.  Mesmo depois de ter se tornado um homem de negócios de sucesso, ele ainda é recusado pelo clube local.  Tenho por mim que o sentimento de rejeição  sentido por Napumoceno se assemelhe ao sentimento que o país teve em relação a Portugal. O vazio a volta de sua vida é claramente percebido.   Mas quando ele morre e seu testamento é lido, detalhes suas aventuras vêm à tona.  Só então vizinhos e conhecidos descobrem que sua vida era de fato muito diferente.   Rico em emoções e em gosto pela vida, ele viveu exatamente como uma ilha, isolado, rodeado por um grande vácuo.

 

Numa entrevista dada a Fernando Nunes da ZonaNon: revista de cultura crítica, em 2003, Germano Almeida descreveu a independência de Cabo Verde em 1975, como sendo uma verdadeira revolução causando um crescimento inimaginável de 1975 a 1990 na economia e sociedade do país, resultados que não haviam sido contemplados e que certamente ultrapassaram qualquer expectativa.  O país cresceu nesses 15 anos numa razão maior do que havia crescido nos 500 anos de domínio português.   A alegria, o entusiasmo de descobrir seu próprio potencial outrora desconhecido, as possibilidades a explorar suas riquezas internas formam um excelente paralelo a vida de Napumoceno.  Muito mais rica do que o esperado, passando dos limites e das expectativas que os outros poderiam ter.  

 

Mas este não é um livro político.  Tampouco um livro histórico.  Este é o retrato de um homem na sua complexidade, alguém como nossos vizinhos, nossos amigos e parentes.   Gente que acreditamos  conhecer e que, de repente, sem aviso, mostra um lado, uma habilidade, um dom diferente, conhecido exclusivamente por seu portador.  E nós, leitores, ficamos tais como os conhecidos de Napumoceno, surpresos e embasbacados.  Excelente leitura!

 





Imigrar ou não? Thrity Umrigar em A doçura do mundo — Resenha

23 08 2008

Muitos de meus amigos recomendaram a leitura do livro:  A doçura do mundo de Thrity Umrigar (Editora Nova Fronteira, 2008 ) cujo lançamento foi marcado também pela presença da escritora indiana no Festival Literário de Florianópolis em maio deste ano.  O livro, como todos os outros que li desta autora, é muito bem escrito e diferente de sua fama pelas obras anteriores, esse é um livro alegre, às vezes mesmo até engraçado, com um final feliz ou satisfatório. 

 

A recomendação veio também porque sempre tive curiosidade sobre os problemas desenvolvidos com a identidade cultural de uma pessoa que passa a viver como imigrante.  Por mais que se doure a pílula, por mais que se pinte a realidade de um país contra os aspectos de outro, a verdade é que a não ser que a sua imigração seja feita quando você ainda é muito jovem, quando você ainda está no processo de forjar uma identidade própria, a adaptação a um novo país assim como a adoção dos valores culturais da nova terra podem freqüentemente ser de difícil aceitação intima para o imigrante.

 

Bombaim com seus 18.000.000 de habitantes, o portão da Índia

Bombaim com seus 18.000.000 de habitantes, o portão da Índia

 

Thrity Umrigar é uma imigrante.  Sensível como escritora e objetiva como jornalista, duas profissões que exerce nos Estado Unidos, ela está familiarizada e demonstra isso e em seus livros, com os problemas peculiares da identidade cultural, dos preconceitos, da saber-se de fora, do sentir-se de fora, assim como do saber e sentir-se acolhido.  Ela conhece pela própria experiência todas as idiossincrasias culturais que perduram no imigrante, além de seu sotaque na língua estrangeira.   Assim sua narrativa é verdadeira e aponta para os sentimentos mais delicados que envolvem a imigração.

 

 

Cidade de Cleveland, na parte central dos EUA.

Cidade de Cleveland, na parte central dos EUA.

 

A história deste livro é simples.  Um rapaz, Sorab, nascido em Bombaim tem como sonho ir para os EUA.  Conseguindo entrar para a universidade naquele país ele imigra, primeiro como estudante e depois permanece nos EUA a trabalho.  Seguindo suas aptidões consegue desenvolver uma brilhante carreira.  Neste meio tempo apaixona-se por uma americana com quem se casa e tem um filho.   Seus pais, jovens ainda pelos padrões de hoje, o visitam regularmente.  Até que o pai morre subitamente de um problema cardíaco.  Sua mãe, Tehmina [Tammy para os americanos] se encontra então com uma difícil escolha: aos 66 anos precisa decidir se deverá  imigrar para os EUA e ficar junto ao seu único filho, sua nora e neto, porém numa sociedade que a espanta e surpreende pela diferença de hábitos que seus habitantes demonstram; ou ficar no seu país natal, no apartamento onde sempre morou, rodeada das pessoas que conhece, que também ama e com quem sempre conviveu.  A história se desenrola muito bem aprumada na inteligência e sensibilidade de Tehmina; que se encontra também aterrorizada por tomar esta decisão sozinha.  Desde jovem todas as suas decisões eram balanceadas pela opinião do marido.

 

Muito rico em verdadeiras situações pelas quais um recém-chegado passa num país estrangeiro em que começa a viver, o romance de Thrity Umrigar mantém um ritmo muito bom por quase todo o livro.  Minha única crítica é sobre o fechamento da história.   A escritora parece ter adotado a visão americana de narrativa e leva os dois últimos capítulos fechando cada  fio da meada com uma soluções redundantes para o bom leitor.  Esses detalhes me lembraram os programas de televisão daquele país que conseguem resolver e solucionar os problemas mais amplos e delicados em comédias de 30 minutos.  Fora esta necessidade de aferrolhar os tópicos, de não deixar nada para a imaginação do leitor, não tenho maiores críticas ao livro que certamente deve ser lido por todos aqueles que pensam em imigrar ou que conhecem alguém que o fez.  Esse é um retrato sensível das muitas questões envolvendo o imigrante.

 

 

A escritora Thrity Umrigar.

A escritora Thrity Umrigar.





O Gato — poema infantil de João de Deus Souto Filho

22 08 2008
Gato Kimono, de Jorji Gardener
Gato Kimono, de Jorji Gardener

 

O gato

 

João de Deus Souto Filho

 

 

 

O gato Miguelim,

De rabo malhado

E bigode de espeto,

Só sabe o miado

do meio pro fim.

 

 

De tanto barulho

Que faz este gato,

Miando esquisito

No meio do mato,

A gente só ouve

O firinfinfin…

 

 

 

João de Deus Souto Filho – (MA 1957) geólogo e formado em letras, autor de diversos de livro infantis:  

 

Obra publicada:

 

O Quintal do Seu Nicolau, (1992)

O Aprendiz de Jardineiro – teatro (1992)

O Passeio da Cinderela – teatro (1992)  

 





Terra Natal — poema para 3a série — D. Aquino Correia

18 08 2008

Menino Índio de Mato Grosso.  Foto de MARC FERREZ, 1896.

 

Menino Índio de Mato Grosso. Foto de MARC FERREZ, 1896.

Terra Natal

 

                                    D. Francisco Aquino Correia

 

 

Nasci à beira

Da água ligeira,

Sou paiaguá!

De Sul a Norte,

Tribo mais forte

Que nós não há.

 

Nas mansas águas,

Vive sem mágoas

O paiaguá;

O seu recreio,

O seu enleio

No rio está.

 

Nele me afundo,

Nado no fundo,

Surjo acolá;

E nem há peixe,

Que atrás me deixe,

Sou paiaguá!

 

Se faz soalheira,

Durmo-lhe à beira,

Ao pé do ingá;

Mas se refresca,

Lá vai à pesca

O paiaguá!

 

E quando guio,

À flor do rio,

A minha ubá,

Nem flecha voa,

Como  a canoa

Do paiaguá!

 

Um  dia os brancos,

Dentre os barrancos,

Surgem de lá;

Mas, em  momentos,

Viram quinhentos

Arcos de cá.

 

Na luta ingente,

Que eternamente

Retumbará,

Fez quatrocentas

Mortes cruentas

O paiaguá.

 

Não!  O emboaba,

Em nossa taba,

Não reinará!

Nós coalharemos

A água de remos,

Sou paiaguá!

 

Nas finas proas

Destas canoas,

Triunfará,

Por todo o rio,

O poderio

Do paiaguá!

 

Nasci à beira

Da água ligeira,

Sou paiaguá!

De Sul a Norte,

Tribo mais forte

Que nós não há!

 

 

D. Francisco Aquino Correia ( Cuiabá, MT 1885 – São Paulo – 1956)  arcebispo de Cuiabá.

 

 

Do livro:

 

Vamos estudar?: 3a série primária, Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro,  Agir: 1961. 12a edição.





Bailado Russo — poema infantil de Guilherme de Almeida

14 08 2008

Bailado Russo

 

REYNALDO FONSECA (1925) O Pião – Óleo s/ tela – 70 x 50 cm – ass. sup. esquerdo e verso 2002.

REYNALDO FONSECA (1925) O Pião – Óleo s/ tela – 70 x 50 cm – ass. sup. esquerdo e verso 2002.

 

 

 

 

 

A mão firme e ligeira

puxou com força a fieira:

e o pião

fez uma eclipse tonta

no ar e fincou a ponta

no chão.

 

É o pião com sete listas

de cores imprevistas.

Porém,

nas suas voltas doudas,

não mostra as cores todas

que tem:

 

— fica todo cinzento,

no ardente movimento…

E até

parece estar parado,

teso, paralisado,

de pé.

 

Mas gira.  Até que aos poucos,

Em torvelins tão loucos

assim,

já tonto, baboleia,

e bambo, cambaleia…

Enfim,

Tomba.  E, como uma cobra,

Corre mole e desdobra

então,

em hipérboles lentas,

sete cores violentas,

no chão.

 

Guilherme de Almeida

 

 

Guilherme de Andrade e Almeida (SP 1890- SP 1969) foi um advogado, jornalista, poeta, ensaísta e tradutor brasileiro.

 

 

Obras:

 

Nós (1917);

A dança das horas (1919);

Messidor (1919);

Livro de horas de Soror Dolorosa (1920);

Era uma vez… (1922);

A flauta que eu perdi (1924);

Meu (1925);

Raça (1925);

Encantamento (1925);

Simplicidade (1929);

Você (1931);

Poemas escolhidos (1931);

Acaso (1938);

Poesia vária (1947);

Toda a poesia (1953).

 

Do livro:  Antologia Poética para a infância e a juventude, Henriqueta Lisboa, Rio de Janeiro, INL-MEC, 1961.





A galinha cor de rosa, poema infantil de DUDA MACHADO

11 08 2008
A Galinha Cor de Rosa, de Keith Norval.

A Galinha Cor de Rosa, de Keith Norval.

 

 

A galinha cor-de-rosa

 

Era uma galinha cor-de-rosa,

Metida a chique, toda orgulhosa,

Que detestava pisar no chão

Cheio de lama do galinheiro.

 

Ficava no alto do poleiro

E quando saía do lugar,

Batia as asas para voar.

Mas seus pés acabavam na lama.

 

Aí armava o maior chilique,

Cacarejava, bicava o galo,

E depois, com ar de rainha,

Lavava os pés numa pocinha.

DUDA MACHADO

Do livro:

Histórias com poesia, alguns bichos e Cia. Duda Machado, Editora 34:2003

Carlos Eduardo Lima Machado, Duda Machado, nasceu em Salvador, BA em 1944. poeta professor de literatura e tradutor.  Tem diversos livros infantis entre outros publicados.

 

 

 





Os estados dos corpos — Poema infantil de Dulce Carneiro

10 08 2008

 

Os estados dos Corpos

 

Aprendi hoje na escola

(E confesso: achei custoso!)

Que os corpos têm três estados:

Sólido, líquido e gasoso.

 

Mas tanta atenção prestei,

Que compreendi num instante:

Sólido tem forma própria

E tem volume constante.

 

                   São sólidos o brilhante,

                   O ferro, o cobre, o carvão,

                   A madeira, o vidro, a argila,

                   O papel e o papelão…

 

                   Que o líquido toma a forma

Da vasilha que o contém

                   Compreendi, sem muito esforço,

                   E fiquei sabendo bem!

 

São líquidos, a cerveja,

O vinho, o vinagre, o azeite,

O licor, a limonada,

A tinta, a garapa, o leite…

 

Para aprender gasoso?

Franqueza: custei bastante!

Ele não tem forma própria

E nem volume constante.

 

                   São gasosos a fumaça,

                   O vento, as nuvens, o ar,

                   E o vapor d’água que faz

                   A locomotiva andar…

 

                   Quanto o saber nos eleva!

                   Quanto o saber nos dá gozo!

                   Os corpos têm três estados:

                   Sólido, líquido e gasoso.

 

Dulce Carneiro

 

 

 

Dulce Carneiro (SP 1870- SP 1942)  Poeta e professora.

 

Obras:

 

Folhas

Lições Rimadas

Revoada

 

Encontrado em:

 

Criança Brasileira: segundo livro de leitura, Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro, Agir: 1950.