
Manhã na Terra.
Ó grande noite sonora
caída sobre o Ocidente,
o dia que dissipaste
recolhe-o alguém no Oriente.
Outras quadrinhas neste blog:

Manhã na Terra.
Ó grande noite sonora
caída sobre o Ocidente,
o dia que dissipaste
recolhe-o alguém no Oriente.
Outras quadrinhas neste blog:

São Jorge e o Dragão, 1606-1607
Pieter Paul Rubens ( Bélgica, 1567-1640)
Óleo sobre tela
Museu do Prado, Madri
Espanha
Já que andamos falando do espaço, e que também estamos no mês de abril, quando no dia 23 comemoramos o Dia de São Jorge, lembrei-me, deste trecho delicioso do livro Viagens de João Peralta e Pé de Moleque, de Menotti del Picchia:
Na Casa da Lua
A casa da lua era redonda, toda esmaltada de branco. Seus móveis eram também brancos. Por dentro era igualzinha a esses quartos de crianças tão alvinhos que até parecem leiteria.
— Aqui mora São Jorge, disse o pajem quando instalou lá dentro os dois meninos. Ele anda sempre percorrendo o céu com seu cavalo branco.
— Que pena! Exclamou Joãozinho. Eu gostaria tanto de ver São Jorge!
O pajem sorriu.
— Acho que não seria um bom negócio, porque São Jorge só aparece por aqui quando o dragão tenta comer a luz.
— Quê? O dragão? Que negócio de dragão é esse?
— Os dois meninos estavam tremendo de medo. Então eles eram hospedados numa casa que costumava ser atacada por um dragão?
— Eu não fico aqui… choramingou Pé-de-Moleque.
Joãozinho ficou zangado diante da tremedeira do companheiro.
— Então, onde está sua valentia? Você não tem aí o estilingue?
— Estilingue não mata dragão, suspirou o ex-pretinho. O que eu quero é ir para casa…
— Não tenham medo, disse o pajem. São Jorge não deixa o dragão comer a lua, nem fazer mal a vocês. Podem ficar descansados.
— Mas eu estou com muita fome, choramingou Pé-de-Moleque.
O certo é que, desde a hora em que haviam saído de casa para irem assistir à festa da aviação, não haviam comido nada. Quantas horas se haviam passado? Quantos dias? Eles não sabiam nem podiam saber, porque no céu não havia nem dias nem noites.
O único relógio que tinham para marcar o tempo, e esse infelizmente funcionava muito bem, era o estômago deles. Nessa ocasião bem se podia dizer que o estômago estava dando horas…
Eu também estou com muita fome, disse Joãozinho.
—-
— Aqui não há comida para terráqueos, respondeu o pajem com tristeza, porque ele era muito bonzinho. Nós, os habitantes do Reino do Ar, comemos pastéis de vento, sorvete de geada e bifes de nuvens. Mas eu sei que isso não pode alimentá-los. A única esperança que resta é que a Ursa Maior forneça um pouco de leite. Não creio que a duquesa ventania possa carregar da terra algum alimento até aqui. Em todo o caso vou ver se o leite chegou…
Paulo Menotti Del Picchia (São Paulo, 1892 — 1988) foi um poeta, escritor e pintor modernista brasileiro. Foi deputado estadual em São Paulo. Foi também advogado, tabelião, industrial, político entre outras funções assumidas durante sua vida.
Com Oswald de Andrade, Mário de Andrade e outros jovens artistas e escritores paulistas, participou da Semana de Arte Moderna de Fevereiro de 1922 no Teatro Municipal de São Paulo. Em 1943, foi eleito para a cadeira 28 da Academia Brasileira de Letras, tendo sido suas principais obras Juca Mulato (1917) e Salomé (1940). Um livro seu de elevada popularidade é Máscaras (1920), pela sua nota lírica.
Obras:
A “Semana” Revolucionária Crítica, teoria e história literárias, 1992
A Angústia de D. João, Poesia 1922
A Crise Brasileira: Soluções Nacionais Crítica, teoria e história literárias 1935
A Crise da Democracia Crítica, teoria e história literárias 1931
A Filha do Inca, Romance e Novela 1949
A Longa Viagem Crítica, teoria e história literárias 1970
A Mulher que Pecou Romance e Novela 1922
A Mulher que Pecou Romance e Novela 1923
A Outra Perna do Saci Romance e Novela 1926
A República 3000, 1930
A Revolução Paulista Crítica, teoria e história literárias 1932
A Revolução Paulista Através de um Testemunho do Gabinete do Governador Crítica, teoria e história literárias 1932
A Tormenta, Romance e Novela 1932
A Tragédia de Zilda, Romance e Novela 1927
Angústia de João, Poesia 1925
As Máscaras, Poesia 1920
Chuva de Pedra, Poesia 1925
Curupira e o Carão, Conto 1927
Dente de Ouro, Romance e Novela 1922
Dente de Ouro, Romance e Novela 1925
Flama e Argila, Romance e Novela 1919
Homenagem aos 90 anos, Outros 1982
Jesus: Tragédia Sacra Teatro 1933
Juca Mulato Poesia 1917
Juca Mulato Poesia 1924
Kalum, o Mistério do Sertão Romance e Novela 1936
Kummunká Romance e Novela 1938
Laís Romance e Novela 1921
Máscaras Poesia 1924
Moisés Poesia 1924
Moisés: Poema Bíblico Poesia 1917
Nacionalismo e “Semana de Arte Moderna” Discursos e sermões (textos doutrinários e moralizantes) 1962
Nariz de Cleópatra Crônicas e textos humorísticos 1923
No país das formigas Literatura Infanto-juvenil
Novas Aventuras de Pé-de-Moleque e João Peralta Romance e Novela
O Amor de Dulcinéia Romance e Novela 1931
O Árbrito Romance e Novela 1959
O Crime daquela Noite Romance e Novela 1924
O Curupira e o Carão Crítica, teoria e história literárias
O Dente de Ouro Romance e Novela 1924
O Despertar de São Paulo Crítica, teoria e história literárias 1933
O Deus Sem Rosto Poesia 1968
O Gedeão do Modernismo Crítica, teoria e história literárias 1983
O Governo de Júlio Prestes e o Ensino Primário Crítica, teoria e história literárias
O Homem e a Morte Romance e Novela 1922
O Homem e a Morte Romance e Novela 1924
O Momento Literário Brasileiro Crítica, teoria e história literárias
O Nariz de Cleópatra Romance e Novela 1922
O Nariz de Cleópatra Conto 1924
O Nariz de Cleópatra Conto 1924
O Pão de Moloch Miscelânea 1921
Pelo Amor do Brasil, Discursos Parlamentares Crítica, teoria e história literárias
Pelo Divórcio, s/d
Poemas Poesia 1946
Poemas do Vício e da Virtude Poesia 1913
Poemas Sacros: Moisés e Jesus Poesia 1958
Poesias Poesia 1933
Poesias (1907-1946) Poesia 1958
Por Amor do Brasil Discursos e sermões (textos doutrinários e moralizantes) 1927
Recepção do Dr. Menotti Del Picchia na Academia Brasileira de Letras Discursos e sermões (textos doutrinários e moralizantes) 1944
República dos Estados Unidos do Brasil Poesia 1928
Revolução Paulista, 1932
Salomé Romance e Novela 1940
Seleta em Prosa e Verso Poesia 1974
Sob o Signo de Polumnia Crítica, teoria e história literárias 1959
Soluções Nacionais, 1935
Suprema Conquista Teatro 1921
Tesouro de Cavendish: Romance Histórico Brasileiro Crítica, teoria e história literárias 1928
Toda Nua Romance e Novela
Viagens de João Peralta e Pé-de- Moleque Literatura Infanto-juvenil
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Outra postagem deste livro neste blog: AQUI

O Astronauta
Odylo Costa Filho
Ia um astronauta
pelo céu sozinho
deixou seu foguete,
perdeu seu caminho.
Era tudo branco
— por dentro ou por fora –
porém não chorava,
porque homem não chora.
Pediu: — “Meu Senhor,
acabai com a Guerra,
mesmo que eu não possa
voltar para a Terra!”
Foi Deus, que mandou
um anjo levar
o moço, na Páscoa,
de volta pro lar.
E exércitos de asas
vieram pelo ar
com palmas e rosas
a Guerra acabar.
Odylo Costa, Filho (MA 1914- RJ 1979) – formado em direito, foi diplomata, ensaista, jornalista, cronista, novelista e poeta.
Obras:
Graça Aranha e outros ensaios (1934)
Livro de poemas de 1935, poesia, em colaboração com Henrique Carstens (1936)
Distrito da confusão, crônicas (1945)
A faca e o rio, novela (1965)
Tempo de Lisboa e outros poemas, poesia (1966)
Maranhão: São Luís e Alcântara (1971)
Cantiga incompleta, poesia (1971)
Os bichos do céu, poesia (1972)
Notícias de amor, poesia (1974)
Fagundes Varela, nosso desgraçado irmão, ensaio (1975)
Boca da noite, poesia (1979)
Um solo amor, antologia poética (1979)
Meus meninos e outros meninos, artigos (1981).
Outro poema de Odylo Costa, Filho neste blog:

Jangada
Juvenal Galeno
Minha jangada de vela,
que vento queres levar?
tu queres vento da terra,
ou queres vento do mar?
Minha jangada de vela,
que vento queres levar?
Aqui no meio das ondas,
das verdes ondas do mar
és como que pensativa,
duvidosa a bordejar!
Saudades tens lá das praias,
queres na areia encalhar?
ou no meio do oceano
apraz-te as ondas sulca?
Minha jangada de vela,
que vento queres levar?
Em: Poemas para a infância, Henriqueta Lisboa, Rio de Janeiro, Edições de Ouro, s/d.
———
Juvenal Galeno da Costa e Silva ( Fortaleza, CE 1836 –Fortaleza, CE 1931)
Poeta.
Obras
A Machadada, poesia, 1860
Ao imperador em sua partida para a guerra, poesia, 1872
Canções da Escola, poesia, 1971
Cantigas Populares, poesia, 1969
Cenas cearenses, 1871
Cenas Populares, poesia, 1971
Evaristo Ferreira da Veiga, poesia
Folhetins de Silvanos, poesia, 1891
Lenda e Canções Populares, poesia, 1865
Lira Cearense, poesia, 1972
Medicina caseira, 1897
Novas canções populares, s/d
O eleitor, s/d
O Peregrino, 1862
Porangaba, poesia, 1961
Prelúdios Poéticos, poesia, 1856
Quem com Ferro Fere, com Ferro Será Ferido,teatro, 1861
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—–
NOTA: Em 1920 este poema mais longo, com alguns versos a mais, foi usado como letra para a música JANGADA de Alberto Nepomuceno. Segue,
JANGADA
(1920)
Composição: Alberto Nepomuceno
Minha jangada de vela
Que vento queres levar?
Tu queres vento de terra
Ou queres vento do mar?
Minha jangada de vela
Que vento queres levar?
Aqui no meio das ondas
Das verdes ondas do mar
És como que pensativa
Duvidosa a bordejar!
Minha jangada de vela
Que vento queres levar?
Saudade tens lá das praias
Queres n’areia encalhar?
Ou no meio do oceano
Apraz-te as ondas sulcar?
Minha jangada de vela
Que vento queres levar?
Sobre as vagas, como a garça
Gosto de ver-te adejar
Ou qual donzela no prado
Resvalando a meditar
Ah! Minha jangada de vela
Que vento queres levar?

O sapato perfumado
Ricardo da Cunha Lima
Era uma vez um sapato
totalmente amalucado.
Seu esquisito costume
era usar um bom perfume.
Ele nunca passeava
sem estar bem asseado;
pra isso, sempre passava
perfume por todo lado,
bastando o seu couro inteiro
com fragrâncias do estrangeiro,
e na sola e no cadarço
espalhava água-de-cheiro.
Que eu me lembre se casou
(e que lindo par formou!)
com a meia do garçom,
a qual tinha, por seu lado,
o costume amalucado
de pintar-se com batom.
Em: De cabeça para baixo, São Paulo, Cia das Letras: 2000
Ricardo da Cunha Lima nasceu em São Paulo, em 1966.
Obras
Lambe o dedo e vira a página, 1985
Em busca do tesouro de Magritte, 1988
De cabeça para baixo, 2000
O livro com um parafuso a menos, 1996
O xis da questão, 1997
Cambalhota, 2003
Do avesso, 2006

Voz dos animais
Francisca Júlia
O peru, em meio à bulha
De outras aves em concerto,
Como faz de leque aberto?
— Grulha.
Como faz o pinto, em dia
De chuva, quando se interna
Debaixo da asa materna?
— Pia.
Enquanto alegre passeia
Girando em torno do ninho,
Como faz o passarinho?
— Gorjeia.
E de intervalo em intervalo
Quando a manhã se levanta,
No quintal que faz o galo?
— Canta.
Quando a galinha deseja
Chamar os pintos que aninha,
Como é que faz a galinha?
— Cacareja.
A rã quando a noite baixa,
Que faz ela a toda hora
Dentre os limos em que mora?
— Coaxa.
E quando as narinas incha,
Cheio de gosto e regalo,
Como é que faz o cavalo?
— Rincha.
Que faz o gato, que espia
Uma terrina de sopa
Que fumega sobre a copa?
— Mia.
Com a barriga farta e cheia,
Que faz o burrinho quando
Se está na grama espojando?
— Orneia.
Para o sinal de rebate,
Aviso, alarme ou socorro,
Como é que faz o cachorro?
— Late.
Para que as mágoas embale
Quando tresmalha, sozinha,
Que faz a branca ovelhinha?
— Bale.
Em fugir quando porfia
À garra e aos dentes do gato.
Como faz o pobre rato?
— Chia.
De pé a boca descerra
E alta levanta a cabeça,
Que faz a cabra travessa?
— Berra.
Cheia a boca de babuge
Do milho bom que rumina,
Que faz o boi na campina?
— Muge.
A pomba que grãos debulha.
Como faz, batendo as asas
Sobre o telhado das casas?
— Arrulha.
A voz tremida do grilo
Que vive oculto na grama,
A trilar, como se chama?
— Trilo.
Mas escravos das paixões
Que os fazem bons ou ferozes,
Os homens têm suas vozes
Conforme as ocasiões.
Francisca Júliada Silva Munster (SP 1874 – SP 1920) Poetisa brasileira, autora de obras didáticas e professora.
Obras:
1895 – Mármores, poesia
1899 – Livro da Infância, miscelânea
1903 – Esfinges, poesia
1908 – A Feitiçaria Sob o Ponto de Vista Científico (discurso)
1912 – Alma Infantil (com Júlio César da Silva)- literatura infantil
1921 – Esfinges – 2º ed. (ampliada)
1961—[póstuma] Poesias
PRIMAVERA é uma outra poesia de Francisca Júlia neste blog.

Crepúsculo, s/d
Luiz Pinto (MG, 1939)
óleo sobre madeira 20 x 25 cm
O Outono
IV
Olavo Bilac
Coro das quatro estações:
Há tantos frutos nos ramos,
De tantas formas e cores!
Irmãs! Enquanto dançamos,
Saíram frutos das flores!
O outono:
Sou a sazão mais rica:
A árvore frutifica
Durante esta estação;
No tempo da colheita,
A gente satisfeita
Saúda a Criação.
Concede a Natureza
O premio da riqueza
Ao bom trabalhador,
E enche, contente e ufana,
De júbilo a choupana
De cada lavrador.
Vede como do galho,
Molhado inda de orvalho,
Maduro o fruto cai…
Interrompendo as danças,
Aproveitai, crianças!
Os frutos apanhai!
Coro das quatro estações:
Há tantos frutos nos ramos,
De tantas formas e cores!
Irmãs! Enquanto dançamos,
Saíram frutos das flores!
Outono, da série das Quatro Estações,; Em: Poesias Infantis, Olavo Bilac, Livraria Francisco Alves: 1949, Rio de Janeiro
Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (RJ 1865 — RJ 1918 ) Príncipe dos Poetas Brasileiros – Jornalista, cronista, poeta parnasiano, contista, conferencista, autor de livros didáticos. Escreveu também tanto na época do império como nos primeiros anos da República, textos humorísticos, satíricos que em muito já representavam a visão irreverente, carioca, do mundo. Sua colaboração foi assinada sob diversos pseudônimos, entre eles: Fantásio, Puck, Flamínio, Belial, Tartarin-Le Songeur, Otávio Vilar, etc., e muitas vezes sob seu próprio nome. Membro fundador da Academia Brasileira de Letras. Criou a cadeira 15, cujo patrono é Gonçalves Dias. Sem sombra de duvidas, o maior poeta parnasiano brasileiro.
Obras:
Poesias (1888 )
Crônicas e novelas (1894)
Crítica e fantasia (1904)
Conferências literárias (1906)
Dicionário de rimas (1913)
Tratado de versificação (1910)
Ironia e piedade, crônicas (1916)
Tarde (1919); poesia, org. de Alceu Amoroso Lima (1957), e obras didáticas
——————
Luiz Pinto (Sete Lagoas, MG, 1939), pintor, desenhista, ilustrador e professor brasileiro.
De 1957 até 1960, Luiz estudou com Edgar Walter, Guignard e Marzano. Em 1980, passou a freqüentar com mais regularidade o atelier do artista plástico Edgar Walter, em Petrópolis, RJ, onde definiu sua temática com principal destaque para as paisagens. Entre 1989 e 1990 pela Europa: Itália, Holanda, Portugal, Espanha e França, a fim de aprimorar sua técnica. De regresso ao Brasil começou a ensinar em escolas de arte em São Paulo. Suas telas são normalmente paisagens, com uma visão tipicamente rural e bucólica, lírica.
Ilustração: Jason Chin
As formigas
A sombra d’uma faia, no parque, enquanto o príncipe, que era um menino, corria perseguindo as borboletas, abriu o velho preceptor o seu Virgílio e esqueceu-se de tudo, enlevado na magia dos versos admiráveis.
Os melros cantavam nos ramos, as libélulas esvoaçavam nos ares e ele não ouvia as vozes das aves nem dava pelos insetos: se levantava o s olhos do livro era para repetir com entusiasmo, um hexâmetro sonoro.
Saiu, porém, o príncipe a interrompê-lo com um comentário pueril sobre as pequeninas formigas que tanto se afadigavam conduzindo uma folhinha seca; e disse:
–– Deus devia tê-las feito maiores. São tão pequeninas que cem delas não bastam para arrastar aquela folha que eu levanto da terra e atiro longe com um sopro.

Ilustração: Christine Penkuhn
—
O preceptor que não perdia ensejo de educar o seu imperial discípulo, aproveitando as lições e os exemplos da natureza, disse-lhe:
— Lamenta V.A. que sejam tão pequeninas as formigas… Ah! Meu príncipe, tudo é pequeno na vida: a união é que faz a grandeza. Que é a eternidade? Um conjunto de minutos. Os minutos são as formigas do Tempo. São rápidos e a rapidez com que passam fá-los parecer pequeninos, mas são eles que, reunidos, formam as horas, as horas os dias, os dias compõem a semana, as semanas completam os meses, os meses perfazem os anos, e os anos, Alteza, são os elos dos séculos.
Que é um grão de areia? Terra; uma gota d’água? Oceano; uma centelha? Chama; um grão de trigo? Seara; uma formiguinha? Força.
Quem dá atenção à passagem de um minuto? É uma respiração, um olhar, um sorriso, uma lágrima, um gemido; juntai, porém, muitos minutos e tereis a vida.
Ali vai um rio a correr – as águas passam aceleradas, ninguém as olha. Que fazem eles na corrida? Regam, refrescam, desalteram, brilham, cantam e lá vãp, mais ligeiras que os minutos.
Quereis saber o valor de um minuto, disso que não sentis como não avalias a força da formiga? Entrai de mergulho n’água e tende-vos no fundo – todo o vosso organismo, antes que passe um minuto, estará protestando, a pedir o ar que lhe falta. Ora! O ar de um minuto, que é isso? Direis. É a vida, Alteza.
………………………………………………….
EM: Coelho Neto e a ecologia no Brasil 1898-1928, ed. Eulálio de Oliveira Leandro, Imperatriz, MA, Editora Ética: 2002,
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Outros textos sobre formigas neste blog:

Renque de palmeiras, 1927
Bruno Lechowski (Polônia 1887 – Brasil 1942)
Aquarela
49 x 44 cm
Coleção Wanda Lechowski.
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—
A Notícia
Cassiano Ricardo
Então o vento
lá dentro da serra,
onde apenas havia
o barulho insensato
das coisas sem nome
começou a bater
a bater rataplã
no tambor da manhã.
Então os ecos
saíram das grutas
levando a notícia
por todos os lados.
Então as palmeiras
ao fogo do dia,
em verde tumulto,
pareciam marchar
carregando bandeiras.
Depois veio a Noite
e os morros soturnos
levavam estrelas
por vales e rochas
como uma silente
corrida de tochas…
Em: Martim Cererê.
—
Cassiano Ricardo Leite (São José dos Campos, 26 de julho de 1895 — Rio de Janeiro, 14 de janeiro de 1974) foi um jornalista, poeta e ensaísta brasileiro.
Obras:
Dentro da noite, poesia, 1915
A flauta de Pã, poesia, 1917
Jardim das Hespérides, poesia, 1920
Atalanta, poesia, 1923
A mentirosa de olhos verdes, poesia, 1924
Borrões de verde e amarelo, poesia, 1925
Vamos caçar papagaios, 1926
Martim Cererê, poesia, 1928
Canções da minha ternura, poesia, 1930
Deixa estar, jacaré, poesia, 1931
O Brasil no original, crítica, teoria e história literárias, 1937
O Negro na Bandeira, crítica, teoria e história literárias, 1938
Pedro Luís: visto pelos modernos, crítica, teoria e história literárias, 1939
Academia e a poesia moderna, crítica, teoria e história literárias, 1939
Marcha para Oeste, crítica, teoria e história literárias, 1942
O sangue das horas, poesia, 1943
Paulo Setúbal, o poeta, crítica, teoria e história literárias, 1943
A academia e a língua brasileira, crítica, teoria e história literárias, 1943
Um dia depois do outro (1944-1946), poesia 1947
Poemas murais, 1947-1948, poesia, 1950
A face perdida, poesia, 1950
Vinte e cinco sonetos, poesia, 1952
Poesia na técnica do romance, crítica, teoria e história literárias, 1953
O Tratado de Petrópolis, crítica, teoria e história literárias, 1954
Meu caminho até ontem, poesia, 1955
O arranha-céu de vidro, poesia, 1956
João Torto e a fábula : 1951-1953, poesia 1956
Pequeno Ensaio de Bandeirologia, crítica, teoria e história literárias, 1956
Poesias completas, poesias, 1957
Poesia, poesia, 1959
Martins Fontes, 1959
Homem Cordial, crítica, teoria e história literárias, 1959
Montanha russa, poesia, 1960
A difícil manhã, poesia, 1960
O Indianismo de Gonçalves Dias, 1964
A floresta e a agricultura, crítica, teoria e história literárias, 1964
Algumas Reflexôes Sobre Poética de Vanguarda, 1964
Poesia praxis e 22, crítica, teoria e história literárias, 1966
Jeremias sem-chorar (1964)
Viagem no tempo e no espaço (Memórias) poesia, 1970
Serenata sintética, poesia XX
Sobreviventes, mais um poema Circunstancial , poesia, 1971
Seleta em Prosa e Verso, miscelânea, 1972
Sabiá e sintaxe, crítica, teoria e história literárias, 1974
Invenção de Orfeu (e outros pequenos estudos sobre poesia), poesia, 1974

Capa do livro: Viagens de João Peralta e Pé-de-moleque de Luis Díaz Correa.
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O interrogatório
O rei perguntou aos meninos:
— Quem são vocês?
— Nós somos…
— Eu sou…
— Fale de uma vez. Comece você; e indicou Joãozinho.
— Eu sou um menino brasileiro, filho do Sr. Nazário, um homem muito bom, e me chamo João Peralta.
— O Brasil tem muitos meninos peraltas, disse o rei.
Pé-de-Moleque deu uma risadinha. O rei olhou-o carrancudo e berrou:
— E você tem cara de ser o mais peralta de todos!… Diga, e você quem é?
— Eu sou Pé-de-Moleque, filho da Benedita cozinheira. Ela é muito boa mãe e há de me pregar uma sova bem merecida por ter cometido a tolice de vir parar numa terra onde me chamam de terráqueo! Eu não sou terráqueo, sou brasileiro!
Em: Viagens de João Peralta e Pé-de-Moleque, Menotti Del Pichhia.
—
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O escritor Paulo Menotti del Picchia
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Paulo Menotti Del Picchia (São Paulo, 1892 — 1988) foi um poeta, escritor e pintor modernista brasileiro. Foi deputado estadual em São Paulo. Foi também advogado, tabelião, industrial, político entre outras funções assumidas durante sua vida.
Com Oswald de Andrade, Mário de Andrade e outros jovens artistas e escritores paulistas, participou da Semana de Arte Moderna de Fevereiro de 1922 no Teatro Municipal de São Paulo. Em 1943, foi eleito para a cadeira 28 da Academia Brasileira de Letras, tendo sido suas principais obras Juca Mulato (1917) e Salomé (1940). Um livro seu de elevada popularidade é Máscaras (1920), pela sua nota lírica.
Obras:
A “Semana” Revolucionária Crítica, teoria e história literárias, 1992
A Angústia de D. João, Poesia 1922
A Crise Brasileira: Soluções Nacionais Crítica, teoria e história literárias 1935
A Crise da Democracia Crítica, teoria e história literárias 1931
A Filha do Inca, Romance e Novela 1949
A Longa Viagem Crítica, teoria e história literárias 1970
A Mulher que Pecou Romance e Novela 1922
A Mulher que Pecou Romance e Novela 1923
A Outra Perna do Saci Romance e Novela 1926
A República 3000, 1930
A Revolução Paulista Crítica, teoria e história literárias 1932
A Revolução Paulista Através de um Testemunho do Gabinete do Governador Crítica, teoria e história literárias 1932
A Tormenta, Romance e Novela 1932
A Tragédia de Zilda, Romance e Novela 1927
Angústia de João, Poesia 1925
As Máscaras, Poesia 1920
Chuva de Pedra, Poesia 1925
Curupira e o Carão, Conto 1927
Dente de Ouro, Romance e Novela 1922
Dente de Ouro, Romance e Novela 1925
Flama e Argila, Romance e Novela 1919
Homenagem aos 90 anos, Outros 1982
Jesus: Tragédia Sacra Teatro 1933
Juca Mulato Poesia 1917
Juca Mulato Poesia 1924
Kalum, o Mistério do Sertão Romance e Novela 1936
Kummunká Romance e Novela 1938
Laís Romance e Novela 1921
Máscaras Poesia 1924
Moisés Poesia 1924
Moisés: Poema Bíblico Poesia 1917
Nacionalismo e “Semana de Arte Moderna” Discursos e sermões (textos doutrinários e moralizantes) 1962
Nariz de Cleópatra Crônicas e textos humorísticos 1923
No país das formigas Literatura Infanto-juvenil
Novas Aventuras de Pé-de-Moleque e João Peralta Romance e Novela
O Amor de Dulcinéia Romance e Novela 1931
O Árbrito Romance e Novela 1959
O Crime daquela Noite Romance e Novela 1924
O Curupira e o Carão Crítica, teoria e história literárias
O Dente de Ouro Romance e Novela 1924
O Despertar de São Paulo Crítica, teoria e história literárias 1933
O Deus Sem Rosto Poesia 1968
O Gedeão do Modernismo Crítica, teoria e história literárias 1983
O Governo de Júlio Prestes e o Ensino Primário Crítica, teoria e história literárias
O Homem e a Morte Romance e Novela 1922
O Homem e a Morte Romance e Novela 1924
O Momento Literário Brasileiro Crítica, teoria e história literárias
O Nariz de Cleópatra Romance e Novela 1922
O Nariz de Cleópatra Conto 1924
O Nariz de Cleópatra Conto 1924
O Pão de Moloch Miscelânea 1921
Pelo Amor do Brasil, Discursos Parlamentares Crítica, teoria e história literárias
Pelo Divórcio, s/d
Poemas Poesia 1946
Poemas do Vício e da Virtude Poesia 1913
Poemas Sacros: Moisés e Jesus Poesia 1958
Poesias Poesia 1933
Poesias (1907-1946) Poesia 1958
Por Amor do Brasil Discursos e sermões (textos doutrinários e moralizantes) 1927
Recepção do Dr. Menotti Del Picchia na Academia Brasileira de Letras Discursos e sermões (textos doutrinários e moralizantes) 1944
República dos Estados Unidos do Brasil Poesia 1928
Revolução Paulista, 1932
Salomé Romance e Novela 1940
Seleta em Prosa e Verso Poesia 1974
Sob o Signo de Polumnia Crítica, teoria e história literárias 1959
Soluções Nacionais, 1935
Suprema Conquista Teatro 1921
Tesouro de Cavendish: Romance Histórico Brasileiro Crítica, teoria e história literárias 1928
Toda Nua Romance e Novela
Viagens de João Peralta e Pé-de- Moleque Literatura Infanto-juvenil