Os Arcos da Lapa no Rio de Janeiro

17 08 2009

Lucia de Lima, arcos da lapa, acrílica sobre tela,Os Arcos da Lapa,  2005

Lúcia de Lima ( Brasil, contemporânea)

Acrílica sobre tela

Coleção Particular

 

 

As notícias de hoje me levaram aos Arcos da Lapa no Rio de Janeiro.  Um acidente com o bondinho de Santa Teresa me fez pensar como seria triste a vida nesta cidade sem o bondinho passeando por cima dos Arcos da Lapa, um dos locais mais interessantes e atraentes do Rio de Janeiro.   

Este não é só o símbolo da Lapa, tradicional bairro boêmio da cidade.  Mas um símbolo do Rio de Janeiro.   É,  sem dúvida,  uma das primeiras obras grandiosas da cidade.  Com o passar dos séculos obras gigantescas quase se tornaram lugar comum na cidade, com governantes derrubando morros, fazendo aterros, perfurando montanhas de granito para abrirem longos  túneis urbanos.  Tudo de um gigantismo, de uma grandiosidade, raramente igualadas em qualquer outro lugar do mundo.   

 

arcos da lapa1

 Lagoa do Boqueirão com o Aqueduto da Carioca ao fundo

Leandro Joaquim ( Brasil, c. 1738 – c. 1798)

óleo sobre madeira, originalmente para um dos Pavilhões do Passeio Público.

Museu Histórico Nacional,  Rio de Janeiro

 

 

Os Arcos da Lapa estão entre as primeiras grandes interferências arquitetônicas no Rio de Janeiro.  É a obra de maiores dimensões e maior impacto do período colonial.  Seu nome original — Aqueduto da Carioca — quase explica  sua função.  Essa construção de pedra e argamassa, em estilo romano, com dupla arcada,  42 arcos e óculos, edificada nos anos entre 1744 e 1750, trazia para o centro da cidade as águas do Rio da Carioca.

Mas por incrível que pareça, estes não foram os primeiros arcos construídos como parte do Aqueduto da Carioca.  Os  Arcos que conhecemos hoje, vieram para substituir os Arcos Velhos.  Os primeiros arcos do Rio de Janeiro foram decididos por ordem régia de 1672.  Mas só foram inaugurados em 1723,  junto com o Chafariz da Carioca.  Sua função como a dos Arcos que vemos hoje na cidade era trazer as águas do Rio da Carioca até o Largo da Carioca.   Esta obra,  bastante ambiciosa,  só começou a tomar forma no governo de Ayres de Saldanha [ e Albuquerque] (1719-26).  Mas seu traçado repleto de curvas mostrou-se imprático, sem resistência, chegando às ruínas com grande rapidez.

Foi no governo de Gomes Freire de Andrade,  último governador do Rio de Janeiro (1733 a 1763) — antes de ser criado o Vice-reinado –, que  o Aqueduto da Carioca, que hoje conhecemos, foi construido e inaugurado.

 

eletrificação do bonde_arcosOs arcos, no finalzinho do século XIX, quando os bondes foram eletrificados, 1896.

 

No final do século XIX o sistema de adução das águas do Rio da Carioca tornou-se obsoleto e o aqueduto foi desativado.  Eis que surge, então,  em 1896, a oportunidade de transformar tamanha construção em rota para o bonde elétrico, servindo assim aos moradores do bairro de Santa Teresa.  

 

O bairro possui a única linha urbana remanescente de bondes do Brasil.  A Companhia Ferro-Carril Carioca, que introduziu o serviço de bondes no bairro na década de 1870, eletrificou as linhas em 1896.  E  aproveitou a construção colonial como via de acesso ao bairro. Por ter sido feito onde corria o aqueduto, os bondes de Santa Teresa trafegam usando uma  bitola especial, bastante estreita,  de 1,10m.

 

Arcos-da-Lapa-1925

Os Arcos da Lapa, Cartão Postal, 1925.





Uma lembrança de 1932: Dra. Carlota Pereira de Queiroz

9 07 2009

1 Carlota de Queiroz32sp146Dra. Carlota Pereira de Queiroz

 

Comemorando Revolução Constitucionalista de 1932, nada mais natural do que trazer à lembrança a Dra. Carlota Pereira de Queiroz, primeira deputada federal do Brasil, eleita por São Paulo em 1933.    Sua projeção na política paulista surgiu durante a Revolução Constitucionalista de 1932.  Ela organizou um grupo de 700 mulheres e junto com a Cruz Vermelha deu assistência aos feridos nesta guerra civil.    Esse trabalho serviu de semente para uma vida pública, com deputada federal.   

carlota de queiroz

 

Carlota Pereira de Queiroz nasceu em 13 de fevereiro de 1892, em São Paulo.  Veio de uma família abastada de fazendeiros pelo lado do pai e de uma família de políticos do lado da mãe.   Mas não foi a importância de qualquer uma das famílias que mais a caracterizou.  Foi simplesmente o fato de ser uma mulher moderna e que não aceitava as limitações comumente impostas pela sociedade.  Formou-se pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (1926), com a tese ” Estudos sobre o Câncer“. Interna da terceira cadeira de Clínica Médica da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e chefe do Laboratório de Clínica Pediátrica (1928), como assistente do professor Pinheiro Cintra. Foi comissionada pelo governo de São Paulo em 1929 para estudar Dietética Infantil em centros médicos da Europa.  Sempre exerceu sua profissão.

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Dra.  Carlota Pereira de Queiroz, na Câmara dos Deputados, 1934.

 

Além disso, esta médica fez história no Brasil porque foi a primeira mulher a ser deputada. Nas eleições de 3 de maio de 1933, pela primeira vez em nossa história uma mulher foi eleita para uma cadeira na Câmara dos Deputados. Como parlamentar elaborou o primeiro projeto sobre a criação de serviços sociais no país. Em 1934, elegeu-se novamente, mandato que exerceu até o Golpe de Getúlio Vargas que fechou o Congresso Nacional, em novembro de 1937.   Eleita membro da Academia Nacional de Medicina em 1942, fundou, oito anos depois, a Academia Brasileira de Mulheres Médicas, da qual foi presidente durante alguns anos. Dra. Carlota Pereira de Queiroz faleceu em 17 de abril de 1982.





9 de julho!

9 07 2009
 Cartaz da Revolução Constitucionalista de 1932

Cartaz da Revolução Constitucionalista de 1932

 

1-cartaz-para-enlistamento-1932

 

Que os ventos democráticos continuem a soprar no Brasil de hoje!

 

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São Paulo, Capital, 1932

 

Revolução de 1932 1

 

Foto da rev paulista 32 Rio Una navio a Vapor levou tropas de Juquiá a Cananéia

Navio a vapor, Rio Una, levou tropas de Juquiá a Cananéia, Revolução de 1932.

 

NOTA

Há mais informações neste blog sobre a Revoluçao Paulista de 1932.   Com mais fotos e descrição de eventos de acordo com o diário de meu avô, Gessner Pompílio Pompêo de Barros, transcrito para este blog!





Nossa história na ponta dos dedos, graças a generosidade de José e Guita Mindlin!

5 07 2009

jose_mindlin_biblioteca_436José Mindlin e sua coleção.

 

Tive a oportunidade pela primeira vez de consultar a Coleção Brasiliana, doada pelo empresário e colecionador José Mindlin à Universidade de São Paulo.  Esta é uma extraordinária coleção  Para quem ainda não conhece esta maravilhosa ferramenta de pesquisa ao alcance dos nossos dedinhos a qualquer hora do dia e da noite, vale a pena visitá-la para pelo menos saber o que anda acontecendo de sério na internet. 

Acesse a Coleção Brasiliana   

Esta seleção de livros doados por José e Guita Mindlin, está em processo de digitação e postagem na  internet e  pode ser acessado de qualquer parte do mundo.  Hoje consultei a História do Brasil, por frei Vicente do Salvador, natural da Bahia. Nova edição revista por Capistrano de Abreu, de 1918.  Esta foi a primeira tentativa de relato de uma história do Brasil.  Frei Vicente de Salvador terminou de escrever sua obra sobre as primeiras décadas do Brasil colônia em 1627.  Este também foi o primeiro livro com o qual José Mindlin, aos 13 anos de idade, começou sua coleção.   A Coleção Brasiliana do bibliófilo, que conta com 20 mil títulos entre relatos de viajantes, literatura brasileira e portuguesa, documentos, folhetos e várias primeiras edições de obras importantes, será transferida até o final de 2009 para a Universidade de São Paulo (USP).

Aqui está uma ilustração acompanhando o texto de Frei Vicente do Salvador:

 

Planta da cidade de Salvador, contemporânea da invasão dos holandeses, História do Brasil

Planta da cidade de Salvador, na Bahia, contemporânea à invasão dos holandeses. 

 

A coleção está em processo de digitalização.  Ela é feita por um robô devorador de livros, que lê 2.400 páginas por hora, batizado de Maria Bonita.  “Podemos transformar uma imagem recém tirada do robô em uma página que seja portátil para a web”, explica o engenheiro de computação Vitor Tsujiguchi.  “O usuário vai ver o livro tal como ele é: a imagem do livro original, mas por trás dessa imagem há uma versão digitalizada, como se fosse transcrito. O usuário pode fazer busca por palavra, frase, iluminar trecho, copiar e colar. A pessoa vai poder imprimir em casa, encadernar e colocar na sua estante”, Pedro Puntoni.   O robô reconhece 120 línguas. Até o final do ano o plano é que ele tenha digitalizado 4 mil livros e 30 mil imagens.

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José Mindlin e “Maria Bonita”.

 

Quem está encantado com o trabalho do robô é o professor titular de história do Brasil, Istvan Yancsó, coordenador geral do projeto: “O conceito dessa biblioteca é atender a uma multiplicidade de destinações. É um serviço que a USP vai prestar à nação. Tudo que nós estamos fazendo é sempre em cima da ideia de que é uma colaboração para montagem de alguma coisa que não vai ser a Brasiliana da USP, vai ser uma Brasiliana brasileira”.

 Robo batizado de Maria Bonita, lê 2.400 páginas por hora

O Robô, batizado de Maria Bonita, lê 2.400 páginas por hora.

Os primeiros livros sendo digitalizados são os dos viajantes que percorreram o Brasil nos séculos 16, 17, 18 e 19. Toda a coleção das gravuras de Debret. Depois disso será a vez de todos os livros de história do Brasil e literatura brasileira. Os 17 volumes da primeira edição dos sermões do Padre Vieira, a primeira edição brasileira de “Marília de Dirceu”, de Tomás Antonio Gonzaga – só existem três unidades no mundo. De José de Alencar, a primeira edição do “Guarany”, livro raro.  José Mindlin passou boa parte da vida atrás desse exemplar, um dos únicos existentes e de muitas outras raridades.

Artigo parcialmente baseado no Destak Jornal.





José Veríssimo: Quatro dias em Minas Gerais — texto integral da Revista Kósmos, Outubro 1907

24 06 2009

minasgerais, mineraçãodoouro, eucalol

Mineração do ouro, Minas Gerais, Estampa Eucalol.

 

O artigo de ontem José Veríssimo: Quatro dias em Minas Gerais – texto integral da Revista Kósmos, Nov. 1907, foi o que mais se ocupou com a descrição das minas de manganês que eu procurava.  Mas como em quase todas estas publicações antigas o artigo se dividiu em duas partes.  A que transcrevi ontem que foi a segunda parte.  E a que transcrevo hoje, a primeira parte, publicada no mês de Outubro d e1907.  

 

 

QUATRO DIAS EM MINAS GERAIS

 

 

O que distingue e exalta o jovem e já célebre historiador italiano Sr. Guilherme Ferrero é não ser ele um simples erudito, ou artista, ou literato apenas voltado para a ordem de estudos ou de lucubrações que imediatamente interessam a sua especialidade, se não um espírito curioso de todas as coisas, aberto a todas as impressões, interessado de quanto lhe possa fornecer noções, idéias, sensações à sua inteligência ávida de alargar cada vez mais a compreensão das coisas.  Desta sua feição espiritual deriva seguramente a vida que ele pôs na história romana, refazendo-a a seu modo, e intensamente vivificando-a para nosso gosto espiritual.  

Não lhe bastava, pois, ver nossa capital, já quase uma cidade européia, e que lhe podia dar uma idéia falsa do nosso país.  Era-lhe necessário a impressão direta deste no que ele ainda conserva de original e próprio, a surpreendê-lo em flagrante no seu trabalho de transformação.

Uma rápida excursão a Minas Gerais, de quatro dias, após digressão pouco mais longa pelo Estado de S. Paulo, forneceu-lhe ensejo de do Brasil, que rapidamente visitou, não conhecer apenas a capital.  As capitais, como as salas de visita, dão sempre uma idéia falsa das nações, ou das casas, aos que não passaram delas.  S. Paulo e Minas, duas das mais importantes porções do Brasil, e, não  obstante tão juntas, tão distintas uma da outra, de caracteres tão diversos, teriam oferecido a arguta observação do Sr. Ferrero, um historiador para quem a vida comum, cotidiana, é também história, mais de um precioso elemento de informações e de juízo.

Pelo seu afastamento do litoral, pelo isolamento maior do mundo em que a puseram as suas montanhas, pela maior vida local que dentro dela mesma estas, separando os seus diversos cantões, lhe afeiçoaram, Minas, mais conservadora, mas também mais chã, mais ingênua quiçá mais sincera que S. Paulo, tem com este este  ponto de semelhança, que são dois dos estados mais históricos do Brasil. Por menos que da nossa história saiba o eminente historiador italiano, não ignoraria isto.

Em Minas ele viu primeiro, como era natural e conveniente, minas, as de manganês de Lafayette as de ouro do Morro Velho, em Vila Nova de Lima.

Minas, dr Guilherme Ferrero-2

O historiador italiano, Guilherme Ferrero, Revista Kósmos, Out. 1907.  Fotografia sem notificação de autor.

 

Pela natureza do minério, e pelos aspectos da exploração, e do mesmo sítio  em que esta se faz, é talvez mais interessante a Mina do Morro Velho.

A despeito da ordem cronológica, principiamos, pois, por ela.

Fica esta mina de ouro, uma das mais antigas e mais célebres do Brasil, nas proximidades de Congonhas de Sabará, hoje Vila Nova de Lima, no município de São João d’El-Rey, donde vem à companhia inglesa que a explora o seu título de S. John d’El-Rey Mining Company. Por esta são regularmente exploradas as minas do Morro Velho desde 1834, com fases sucessivas de prosperidade ou menor resultado.  Hoje a exploração está em pleno desenvolvimento e, cremos, sucesso.  É feita já a mais de 1500 metros de profundidade numa rede de galerias bastante amplas, suficientemente arejadas, artificialmente iluminadas a luz elétrica numa extensão de alguns quilômetros.  Desce-se a elas por elevadores e nas últimas em grandes caçambas de ferro que se ainda deixam a desejar como comodidade parecem oferecer toda a segurança, o que é essencial.  Nas mais profundas dessas galerias, onde o ar começa a ser mais escasso, e a imaginação nos faz sofrer do peso de mais de mil metros de rocha sobre as nossas cabeças, cavam-se ainda novos poços, donde vimos sair, à meia luz daquelas cavernas, imperfeitamente iluminadas por parcos focos elétricos, como numa visão dantesca de Gustavo Doré, homens inteiramente nus, literalmente cobertos de lama negra dos poços em perfuração.  Mais adiante outros brocavam o granito com instrumentos movidos a ar comprimido, ou agachados sob as abóbadas mal abertas as iam levantando a golpes de picareta, no meio de um barulho infernal das possantes máquinas que ali nas entranhas da terra, distribuem luz, ar, força necessárias aquele duro labor de ciclopes.  Tudo isso numa temperatura de 38 a 39 graus centígrados, e sob a indizível impressão de que um acidente sempre possível, o surgir inopinado de um veio d’água, uma explosão de gazes, vos pode sepultar, em transes horríveis de um desespero sobrehumano, a quilômetro e meio de superfície do solo, sob milhões de metros cúbicos de granito.

 

Minas primeira seção da vista geral de Morro velho

Primeira seção da vista geral de Morro Velho.  Revista Kosmos, outubro 1907. Fotografia sem nome do autor.

 

Em cima, sobre a mina, estendem-se os edifícios, as oficinas, as usinas da mineração após o trabalho da extração em baixo.  O seu material é de 120 pilões californianos, cujo socar põe em roda um estranho e constante ruído ensurdecedor.  Há ainda aparelhos para o minério e pessoal, bombas, perfuradores, compressores de ar, movido tudo a força hidráulica hidroelétrica e a vapor.  Nas galerias subterrâneas, o minério ou antes a pedra quebrada que o encerra é conduzido por vagonetes de ferro rodando sobre trilhos, puxados por muares, que uma vez descidos aquelas profundezas nunca mais vêem a luz do dia.  Nos seus primeiros 52 anos de existência, (ela tem 72) esta mina do Morro Velho produziu 58.314 quilogramas de ouro no valor de 5.125.000 libras esterlinas, e nos últimos cinco anos, de 1901 a 1905, 13.304.042 gramas no valor de 1.419.051 libras esterlinas.  E no entanto por cada tonelada de pedra extraída não dá senão 18.300 de minério de ouro.  Trabalham nela pouco mais de 2 mil operários,  na sua maioria nacionais.  Chefes, mestres e contra-mestres são todos ingleses.

Minas segunda seção da vista geral do Morro Velho

Segunda seção da vista geral de Morro Velho.  Revista Kósmos, outubro 1907. Fotografia sem nome do autor.

 

A Companhia mantém não longe da confortabilíssima casa do Diretor, um hospital para os seus operários e suas famílias.  Otimamente colocado sobre uma colina, num edifício de um só pavimento todo avarandado, este hospital pode ser modelo no seu gênero, tal é a excelência da sua instalação e a abastança de seus recursos. Dirigem-no dois médicos ingleses.  Como a invejável e largamente hospitaleira residência do Diretor, o amável Sr. Chalmers, é esta casa de saúde, cercada de um parque e jardins admiravelmente cuidados, onde naquele momento havia uma luxuriosa profusão de flores, de soberbas rosas sobretudo. 

Da estação de Honório Bicalho a Morro Velho é uma hora a cavalo, que nós fizemos ao chouto incomodo de burros e bestas.  Salvo no vale do fundo do qual surge Vila Nova de Lima, antiga Congonhas do Campo o Morro Velho, este trecho do sertão não tem nenhuma beleza particular.   Mas vista dos altos que a rodeiam aquela aldeia tem um singular encanto, e o atravessá-la, pelas suas ruas estreitas, ladeirosas e empredadas de matacães roliços, marginadas de velhas e miseráveis casas baixas, feias, de vila colonial, vos trás não sei que sentimento de melancolia.  É o velho Brasil sertanejo, que ainda se demora em desaparecer mas que está evidentemente por pouco.

 

                                                                                  José Veríssimo

Minas, terceira seção da vista geral do morro velho

Terceira  seção da vista geral de Morro Velho.  Revista Kósmos, outubro 1907. Fotografia sem nome do autor.





11 de junho, Dia da Marinha

11 06 2009

cisne branco

Navio Veleiro Cisne Branco.

 

Aproveito o Dia da Marinha — 11 de Junho, dia da Batalha de Riachuelo — para colocar aqui neste blog a letra de um dos mais belos hinos brasileiros.   Não há ocasião melhor para nos lembrarmos desta bela combinação de letra e música.

 

Cisne Branco  —    (Hino da Marinha de Guerra do Brasil)

 

Letra: Antonino M. do Espírito Santo

Música: Benedito X. de Macedo

 

 

Qual cisne branco que em noite de lua

Vai deslizando no lago azul

O meu navio também flutua

Nos verdes mares de norte a sul

 

Linda galera que em noite apagada

Vai navegando no mar imenso

Nos traz saudades da terra amada

Da Pátria minha em que tanto penso

 

Quanta alegria nos traz a volta

À nossa pátria do coração

Estava cumprida a nossa derrota

Temos cumprido nossa missão

 

Linda galera que em noite apagada

Vai navegando no mar imenso

Nos traz saudades da terra amada

Da Pátria minha em que tanto penso

 

Qual linda garça

Que aí vai cruzando os ares

Vai navegando sob um belo céu de anil

Minha galera também vai cortando os mares

Os verdes mares, os mares verdes do Brasil

 

Quanta alegria nos traz a volta

À nossa pátria do coração

Estava cumprida a nossa derrota

Temos cumprido nossa missão

 

Linda galera que em noite apagada

Vai navegando no mar imenso

Nos traz saudades da terra amada

Da Pátria minha em que tanto penso.





11 de junho: Batalha Naval de Riachuelo

11 06 2009

Batalha_riachuelo_victor_meirelles, Museu Histórico Nacional

 

Batalha do Riachuelo,  1872

Victor Meirelles ( SC, 1832- RJ, 1903)

Óleo sobre tela – Monumental: 400 cm x 800 cm

Museu Histórico Nacional,  Rio de Janeiro

 

—–

 

Batalha do Riachuelo, travou-se a 11 de Junho de 1865 às margens do rio Riachuelo, um afluente do rio Paraguai, na província de Corrientes, na Argentina.  Considerada pelos historiadores militares como uma das mais importantes batalhas da Guerra do Paraguai (1864-1865).

Victor Meirelles; ou Victor Meireles; ou Vitor Meirelles, ou ainda Vitor Meireles

 

Victor Meirelles de Lima (Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis SC 1832 – Rio de Janeiro RJ 1903). Pintor, desenhista, professor. Inicia seus estudos artísticos por volta de 1838, com o engenheiro argentino Marciano Moreno. No ano de 1847, muda-se para o Rio de Janeiro e se matricula na Academia Imperial de Belas Artes –  onde, em 1849, inicia o curso de pintura histórica. Em 1852 ganha o prêmio de viagem ao exterior e no ano seguinte segue para a Itália.  Em Roma freqüenta, em 1854, as aulas de Tommaso Minardi (1787 – 1871) e, posteriormente de Nicola Consoni (1814 – 1884), com quem realiza uma série de estudos com modelo vivo. Com a prorrogação da pensão que lhe fora concedida continua sua formação estudando em Paris onde, em 1857, matricula-se na École Superiéure des Beaux-Arts [Escola Superior de Belas Artes], freqüentando as aulas de Leon Cogniet (1794-1880) e, em seguida, recebendo orientações de seu discípulo Andrea Gastaldi (1810-1889). Durante o período em que permanece no exterior corresponde-se com Porto Alegre (1806 – 1879). Retorna ao Brasil em 1861 e, um ano depois, é nomeado professor de pintura histórica da Aiba. Entre os anos de 1869 e 1872 executa duas grandes telas, Passagem do Humaitá e Batalha de Riachuelo. Em 1879 participa da Exposição Geral de Belas Artes, expondo a Batalha dos Guararapes ao lado da Batalha do Avaí de Pedro Américo (1843 – 1905). A apresentação das duas obras gera grande polêmica e um intenso debate no meio artístico. A partir de 1886 passa a se dedicar à execução de panoramas. Entre eles destacam-se: o Panorama Circular da Cidade do Rio de Janeiro, feito na Bélgica, juntamente com Henri Langerock (1830 – 1915) e Entrada da Esquadra Legal no Porto do Rio de Janeiro em 1894, produzida nesse mesmo ano.





Pernambuco, Mato Grosso, Espanha: um giro pela Idade Média

25 05 2009

fOTO Silnei Laise, Flicker

Artesanato pernambucano, foto: Silnei Laise, Flickr.

 

Em 1986 passei férias em Pernambuco.  Queria mostrar a meu marido, estrangeiro, o Brasil.  Ele já conhecia bem — das viagens anuais que fazíamos ao Rio de Janeiro para visitar a minha família —  alguma coisa do estado do Rio de Janeiro e de São Paulo.  Era hora de apresentá-lo a outras variações da cultura brasileira, com a qual ele havia caído de amores.  Nesta peregrinação acabamos numa quarta-feira, na Feira de Caruaru.  Não sou uma pessoa dada a saudosismos, e quando digo que a feira hoje está diferente do que era então, e já na época muita gente me dizia que “já não era lá essas coisas”, é simplesmente uma afirmação como testemunha.   Mas para nós, naquele ano, a Feira de Caruaru foi uma experiência sem igual.  Como qualquer turista e quase todos os brasileiros radicados fora do Brasil, enchi minhas malas com saudades:  uma banda de pífaros, um jogo de xadrez, um presépio, um grupo de retirantes, e  peças solteiras de cerâmica colorida artesanal.  Para acompanhá-las compramos também dezenas de livretos de cordel — cuja história expliquei cuidadosamente para meu marido — e muitas, muitas mesmo, xilogravuras de J Borges, João Marcelo, Otávio e outros.  

 

dsc05235

 

A literatura de cordel conquistou instantaneamente meu cara-metade.  Professor de literatura, ele simplesmente adorou a história toda, dos versos ao dependurar dos livretos nas cordas para secar.  Mas de toda a sua experiência em Caruaru e em Recife, foi sua maneira de sentir o local, o inusitado dos coloridos e dos feirantes, o que mais me surpreendeu, quando o ouvi recontar várias vezes suas aventuras pernambucanas a amigos e colegas de trabalho.  Ele dizia assim: Passei estas férias em Pernambuco. Com esta viagem, hoje posso imaginar como eram as feiras medievais.   Como eram coloridas!  Lá em Caruaru tem de tudo: artistas, livretos, venda de pimentas, de ervas, de produtos de couro, remédios contra veneno de cobra e ungüentos diversos para curar qualquer coisa.  Há saltimbancos, pedintes, equilibristas, contadores de histórias que passam o chapéu.  Cantores de improviso [repentistas] e música por todo lado.  Há muitas representações religiosas e referências constantes ao diabo, ao céu, ao inferno, até ao purgatório!  Enfim, é um mundo quase Felliniano [referência a Federico Fellini o cineasta].  Um mundo de sonhos.”

 

Nunca mais precisei explicar para ele certos hábitos brasileiros, certos problemas: coronéis, capangas, homens de confiança, milícias, posse de terra, analfabetismo, caixeiros viajantes, tropeiros, corrida de jegues e por aí afora.  A imagem da época medieval era ressuscitada e tudo entrava nos eixos.  Para ele foi uma maneira de entender o Brasil, pelo menos enquanto morávamos fora.

 

Adrien Taunay, Vista de Guimarães, 1827, aquarela negra, 33 x 29cm Academia de Ciencias de S Peterburgo, Russia

Vista de Guimarães, 1827

Adrien Taunay

Aquarela monocromática, grisaille.

33 x 29 cm

Academia de Ciências de São Petersburgo

Rússia

 

Lembrei-me deste assunto hoje, porque li à tarde o relato de Hercules Florence, desenhista da expedição chefiada pelo Barão de Langsdorff , sobre a viagem que fez do rio Tietê ao rio Amazonas em 1827.   Trechos de seu texto, com tradução do Visconde de Taunay, foram publicados em As Selvas e o Pantanal: Goiás e Mato Grosso, organizado  por Diaulas Riedel, São Paulo, Cultrix: 1959, na série: Histórias e paisagens do Brasil.  Uma passagem específica me fez parar a leitura e pensar.  Ela relata a visita que a expedição fez a um engenho de açúcar na região da chapada de Guimarães, na, então, província de Mato Grosso.  Quedaram-se no engenho de Domingos José de Azevedo.

 

“Viúvo, tem filhos e filhas, mas com nenhum deles mora.  Vive só com seus escravo em número de trinta, empregados na cultura da cana.  

 

Durante a ceia tornou-se mais comunicativo; contou-nos as canseiras que tivera para fundar o sítio e ganhar algum dinheiro; queixou-se do filho e explicou o modo por que governava sua casa.

 

Depois da comida fomos assistir à ladainha que se reza no alpendre ou sala de entrada, onde para isso se reúnem todos os escravos.  A primeira oração é cantada e começa com estas palavras: Triste coisa é nascer.  Julgo que essa maneira singular de louvar a Deus é composição de nosso anfitrião.  

 

Acabada a reza, mandou por camas sob esse alpendre e deu-nos boas-noites.

 

No dia seguinte disse-nos ao almoço que costumava contar os grãos de café para não ser roubado pelos escravos.

 

Falou-nos na mulher, e ao nos levantarmos da mesa, levou-nos aos seus aposentos, que eram dois quartinhos.  No fundo suspendeu do soalho um alçapão e mostrou-nos uma salinha colocada no primeiro pavimento, escura, úmida e  com uma única janela de grades que dava para o engenho de cana.  “ Aqui em baixo, disse-nos ele, é que eu guardava a mulher, quando tinha que sair de casa.  Ela descia por uma escadinha que eu recolhia, e recebia alimentos pela janela do engenho.

 

Antes de me lembrar de Caruaru, lembrei-me de  A Catedral do Mar, um livro que li há uns dois anos, do escritor espanhol Ildefonso Falcones, lançado no Brasil pela Editora Rocco.  Este é um livro sensacional (depois colocarei aqui algumas notas que fiz sobre sua leitura, em 2007).  Neste livro  seguimos a vida de Arnau Estanyol um homem que nasceu servo e acabou barão na Barcelona do século XIV.  Simultaneamente  acompanhamos a construção da catedral Santa Maria del Mar, na mesma cidade.   Isso mesmo, na idade média.  Nesta narrativa há uma mulher que é presa na propriedade do senhor feudal, e passa a vida num cubículo semelhante ao descrito por Hercules Florence no engenho mato-grossence.  Uma das cenas mais pungentes, que muito me marcou, foi ler como seu filho precisava ficar do lado de fora da casa em que sua mãe se encontrava presa,  chegar próximo à janela com grades,  para  que ela — que mal conseguia alcançá-lo – lhe fizesse um carinho no topo da cabeça, mexendo no seu cabelo de menino.  Em suma, um cafuné era o maior contato a que esta mãe e seu filho tinham o direito.

 

Esta cena voltou vívida à minha memória.  Mas, pensei, isso era na idade média!  E o que Hercules Florence relatou o que viu no Brasil de 150 anos atrás!  E assim, voltei a me lembrar da sensação de ter conhecido a idade média, em pessoa, de conhecê-la por dentro, intimamente, por razões semelhantes as que meu marido sentira  a respeito de sua visita a  Caruaru em 1986.

 

Trajes paulista 1825, aquarela e nanquim, 22 x 18 cm, acad ciencias são petersburgo, russia

Trajes Paulistas, 1825

Adrien Taunay

Aquarela e nanquim

22 x 18 cm

Academia de Ciências de São Petersburgo

Rússia

 

Ao que eu saiba, não temos, ainda, aqui no Brasil, uma visão detalhada e específica do tratamento absurdo que mulheres receberam de seus maridos nos quatro séculos que história que precedem a nossa era.  Mas sabemos que passaram enclausuradas, muitas vezes cobertas da cabeça aos pés, não raro com véus à maneira muçulmana, quase sempre limitadas pelo analfabetismo.  Na nossa literatura contemporânea há alguns autores que parecem ter o cuidado de relatar esta condição:  Ana Miranda e Luiz Antonio de Assis Brasil vêm à mente no momento, mas há outros.  No entanto, é importante que nos lembremos, homens e mulheres, do que já aconteceu, das injustiças cometidas contra mulheres.  Precisamos acabar com qualquer vestígio desses hábitos deploráveis,  para chegarmos com boa consciência ao estado desenvolvido a que aspiramos.  Ainda há muito que fazer para deixarmos de lado de uma vez por todas resquícios da percepção da mulher como propriedade.  

 

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NOTA sobre Domingos José de Azevedo:

A casa do engenho de Domingos José de Azevedo, que parecia tão modesta com apenas 2 quartinhos, era só lá  “no mato”.   Este senhor de engenho mantinha, como a maioria deles, uma outra casa, na capital da província, esta sim, mostrando para o mundo todos os seus bens, todo o seu valor!  Langsdorff em seu próprio relato comenta sobre a visita, descrita acima por Hercules Florence, em que foi recebido pelo senhor de engenho Domingos José de Azevedo, um dos homens mais ricos da região.  [Poder e cotidiano na capitania de Mato Grosso: uma visita aos senhores de engenho no lugar de Guimarães 1751-1818, Maria Amélia Assis Alves Crivelente, Revista demográfica Histórica XXI, II, 2003, segunda época, PP. 129-152].





Aniversário da Lei Áurea, todos devemos celebrar!

13 05 2009

princesa IsabelPrincesa Isabel D’ Orléans e Bragança assinava hoje, há 121 anos a Lei Áurea.

 

LEI ÁUREA

Lei nº 3.353, de 13 de Maio de 1888.

DECLARA EXTINTA A ESCRAVIDÃO NO BRASIL

A PRINCESA IMPERIAL Regente em Nome de Sua Majestade o Imperador o Senhor D. Pedro II, Faz saber a todos os súditos do IMPÉRIO que a Assembléia Geral decretou e Ela sancionou a Lei seguinte:

Art. 1º – É declarada extinta desde a data desta Lei a escravidão no Brasil.

Art. 2º – Revogam-se as disposições em contrário.

 

Manda portanto a todas as autoridades a quem o conhecimento e execução da referida Lei pertencer, que a cumpram e façam cumprir e guardar tão inteiramente, como nela se contém.

O Secretário de Estado dos Negócios d’Agricultura, Comércio e Obras Públicas e Interino dos Negócios Estrangeiros Bacharel Rodrigo Augusto da Silva do Conselho de Sua Majestade o Imperador, o faça imprimir, publicar e correr.

Dada no Palácio do Rio de Janeiro, em 13 de Maio de 1888 – 67º da Independência e do Império.

Carta de Lei, pela qual Vossa Alteza Imperial manda executar o Decreto da Assembléia Geral, que houve por bem sancionar declarando extinta a escravidão no Brasil, como nela se declara.

 

 

Para Vossa Alteza Imperial ver.

Lei_Aurea





Estampa da Primeira Missa, poema de Murilo Araújo

26 04 2009

primeira-missa-1861-victor-meirelles-brasil

Primeira Missa no Brasil, 1861

Victor Meirelles (Brasil 1832- 1903)

Óleo sobre tela, 268 x 358 cm

Museu Nacional de Belas Artes

Rio de Janeiro

 

 

 

Estampa da Primeira Missa

 

Murilo Araújo

 

 

Na terra amanhecida,

entre as ondas a rir jubilosas de luz

e as árvores em flor, se ergue a árvore da Vida –

a Cruz.

 

 

Entre os tupis a marujada ajoelha.

 

 

Uma legião de beija-flores passarinha.

 

 

 

Então “no ilhéu chamado a Coroa Vermelha”

Frei Henrique de Coimbra se aparelha

e em paramentos de ouro beija o altar…

 

 

A alma argentina de uma campainha

se une aos gorjeios da manhã solar.

 

 

Junto aos altos pendões do palmar nunca visto

treme um pendão mais alto, o estandarte de Cristo.

 

 

Longe um som de clarim morre em glória no ar.

 

 

As resinas do mato, onde em onde,

erguem incenso

turibulando pelos troncos bons.

 

 

 

Frei Henrique celebra e é Deus quem lhe responde

na voz do oceano, seu harmônio imenso,

rolando ao longe um turbilhão de sons.

 

 

As campânulas trêmulas nos galhos

tlintam  à brisa

sua matina aos pingos dos orvalhos;

e a várzea que se irisa

oferenda ao Senhor

nas passifloras roxas os martírios

e na água em sono as ânforas dos lírios…

Há um repousório em cada moita em flor.

 

 

São candelabros de ouro os ipês flamejantes!

E ascenderam ao sol corolas delirantes

como se fossem círios

em louvor.

 

 

Quando a hóstia se eleva angelical

sobe com ela o sol no firmamento.

 

 

As borboletas – que deslumbramento! –

com os tucanos e arás de tom violento

pintam no azul policromias vitral…

 

 

Canta a araponga na floresta longa

como um sino a tanger, dominical.

 

 

As naus florem de branco o deserto marinho.

Lembram virgens trazendo, em túnicas de linho,

na alva das velas uma cruz cristã;

e a patena dos sol as consagrou com o vinho

aéreo da manhã.

 

 

Oh hora ingênua da Fé!  Oh primeiro evangelho!

Pero Vaz escreveu que “um índio já bem velho

apontou para a cruz…”  Oh gesto anunciador!

 

 

Cabral e os que domaram os sete mares

Unem as mãos tremendo de fervor.

 

 

E na luz recém-vinda

em bênçãos tutelares,

a terra em flor se alegra em jubileus…

“a terra graciosa” e tão nova e tão linda! –

a terra desde então desposada de Deus.

 

 

Em: Poemas Completos de Murillo Araújo, com introdução de Adonias Filho, Rio de Janeiro, Irmãos Pongetti: 1960, 3 volumes.

 

 

 

Murilo Araújo – ou Murillo Araújo — (MG 1894 – RJ 1980) jornalista, formado em direito.  Poeta, escritor, teatrólogo, ensaísta.

 

 

 

Obras:

 

Poesia:

 

Carrilhões (1917) 

A galera (escrito em 1915, mas publicado anos depois)

Árias de muito longe (1921)

A cidade de ouro (1927)

A iluminação da vida (1927)

A estrela azul (1940)

As sete cores do céu (1941)

A escadaria acesa (1941)

O palhacinho quebrado (1952)

A luz perdida (1952)

O candelabro eterno (1955)

 

 

Prosa:

 

A arte do poeta (1944)

Ontem, ao luar (1951) — uma biografia de Catulo da Paixão Cearense

Aconteceu em nossa terra (pequenos casos de grandes homens)

Quadrantes do Modernismo Brasileiro (1958)

 

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Victor Meirelles; ou Victor Meireles; ou Vitor Meirelles, ou ainda Vitor Meireles

 

Victor Meirelles de Lima (Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis SC 1832 – Rio de Janeiro RJ 1903). Pintor, desenhista, professor. Inicia seus estudos artísticos por volta de 1838, com o engenheiro argentino Marciano Moreno. No ano de 1847, muda-se para o Rio de Janeiro e se matricula na Academia Imperial de Belas Artes –  onde, em 1849, inicia o curso de pintura histórica. Em 1852 ganha o prêmio de viagem ao exterior e no ano seguinte segue para a Itália.  Em Roma freqüenta, em 1854, as aulas de Tommaso Minardi (1787 – 1871) e, posteriormente de Nicola Consoni (1814 – 1884), com quem realiza uma série de estudos com modelo vivo. Com a prorrogação da pensão que lhe fora concedida continua sua formação estudando em Paris onde, em 1857, matricula-se na École Superiéure des Beaux-Arts [Escola Superior de Belas Artes], freqüentando as aulas de Leon Cogniet (1794-1880) e, em seguida, recebendo orientações de seu discípulo Andrea Gastaldi (1810-1889). Durante o período em que permanece no exterior corresponde-se com Porto Alegre (1806 – 1879). Retorna ao Brasil em 1861 e, um ano depois, é nomeado professor de pintura histórica da Aiba. Entre os anos de 1869 e 1872 executa duas grandes telas, Passagem do Humaitá e Batalha de Riachuelo. Em 1879 participa da Exposição Geral de Belas Artes, expondo a Batalha dos Guararapes ao lado da Batalha do Avaí de Pedro Américo (1843 – 1905). A apresentação das duas obras gera grande polêmica e um intenso debate no meio artístico. A partir de 1886 passa a se dedicar à execução de panoramas. Entre eles destacam-se: o Panorama Circular da Cidade do Rio de Janeiro, feito na Bélgica, juntamente com Henri Langerock (1830 – 1915) e Entrada da Esquadra Legal no Porto do Rio de Janeiro em 1894, produzida nesse mesmo ano.