As fogueiras do rei, romance histórico de Pedro Casals

8 02 2010

O tribunal da inquisição, 1812-1814

Francisco Goya (Espanha, 1746-1828)

Museu da Real Academia de São Fernando, Madri

 

Como estudante de mestrado em história da arte participei de um seminário sobre Goya.  Foi o meu primeiro grande contato com a  cultura espanhola.  Naquela época, para trabalhar com a iconografia desse pintor, li  diversos clássicos da literatura espanhola, uma das mais ricas em textos do século XVI ao XVII, os séculos de ouro.  Mas, depois dessa época, só ultimamente tive  a oportunidade  de  rever  e de conhecer alguns clássicos daquele país.

Foi com grande prazer, então, que me entretive com o livro de espionagem de Pedro Casals, intitulado As fogueiras do rei, [Record: 1990].  Apesar de ter sido publicado há vinte anos é um livro que, por ser um romance histórico, não perdeu a atualidade.  Ao que eu saiba, é o único romance do escritor publicado no Brasil, ainda que com o livro La Jerenguilla Casals tenha sido finalista para o prêmio Planeta de 1986 e em 1989 com este  romance aqui discutido.  Em 1992 ganhou o prêmio Ateneu de Sevilha, com o livro: El infante de la noche.

 

As fogueiras do rei  não é só um romance histórico, mas um romance de intriga palaciana, numa época crucial da cultura espanhola.  Uma época importante, simultaneamente para a Inglaterra,  Portugal e até mesmo o Brasil, porque além de tratar da Inquisição, retrata também o período anterior à invasão holandesa no Brasil, ou seja anterior à coroa de Portugal passar para as mãos espanholas.  Desse modo podemos entender com maior clareza  a interdependência dos países europeus, através das ligações matrimoniais  entre diversas famílias reais.  A história se passa no final do século XVI durante o reinado de Felipe II (1527-1598).

Princesa de Éboli, desconheço a autoria.

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Sinceramente, eu não sabia muito a respeito de Felipe II.  Lembrava-me de um retrato dele feito por Ticiano. [Essa é uma das falhas do historiador da arte, às vezes só conhecemos a história por causa das pinturas de época]!   Mas, corrigindo qualquer falha anterior, aprendi, com esse romance um pouco mais sobre Felipe II.  Familiarizei-me com sua vida, suas preocupações e suas conquistas amorosas.   E, principalmente, com a Princesa de Éboli, Doña Ana Mendoza y de La Cerda, uma das grandes aventuras amorosas do rei, que deve ter sido uma mulher fascinante: mesmo tendo tido um ferimento no olhos direito e obrigada a usar uma venda ,  Ana de Mendoza era de uma beleza a que poucos podiam resistir.  Teve dez filhos e uma enormidade de amantes.  É verdade, que para ajudá-la havia muito poder e grande fortuna já que era a  única herdeira de uma poderosa casa nobre da Espanha   E ela é uma das  personagens centrais na trama que se desenrola em As fogueiras do rei.

Felipe II da Espanha e de Portugal,  c. 1550

Ticiano  Vecellio, dito Ticiano  (Itália, c. 1490-1576)

Óleo sobre tela, 185 x 103 cm

Sala da Ilíada,  Palácio Pitti,  Florença

Um auto da fé é a cena em torno da qual a história se desenrola.  Assistindo às punições dos hereges,  está um grupo de especialistas em espionagem e contra-espionagem representando diversos interesses da política interna e externa do reinado.  O leitor acompanha as intrigas e  tentativas mais variadas para a subida ao poder desde a coroa da Inglaterra,  ao meio-irmão de Felipe II, filho bastardo de Carlos V,  D. João da Áustria.  Mas mais interessante ainda do que essa intriga palaciana é o entendimento com que saímos, após a leitura do livro, não só dos judeu-portugueses, dos marranos, dos cristão-novos, mas  suas preocupações e meios de sobrevivência.  E acima de tudo, nos enfronhamos na Inquisição na Espanha para desvendar que ela não foi só uma maneira de estabelecer  o domínio da Igreja Católica contra a religião muçulmano, ou contra os judeus, mas foi, também, uma maneira de evitar o crescimento dos ensinamentos de Lutero, que ameaçavam  tornarem-se populares.  Além disso, fica claro o modo da Inquisição, com suas práticas subjetivas,  deter a subida da burguesia,  um interesse da realeza que o Vaticano protegia das ameaças que a nobreza considerava perigosas, nos exemplos vindos dos Países Baixos, onde a burguesia subia e tomava conta do poder.  Essa  era a preocupação da nobreza, era um futuro, que sem os ensinamentos da Igreja Católica,  poderia vir a acontecer e derrubar o poder das grandes casas nobiliárquicas, mesmo que, na Península Ibérica, estas tivessem muito sangue judeu.

Pedro Casals

Curioso, também,  foi saber que apesar de haver muitos hábitos e costumes considerados desrespeitosos à Igreja,  esses mesmos costumes eram praticados pela realeza e pela classe dominante: astrologia, leituras dos textos de Erasmo,  simpatias as mais diversas oriundas de crendices ligadas às bruxarias.   E aos poucos podemos fazer uma pequena lista das obras impressas, que preenchiam os gabinetes de leitura da nobreza e que eram proibidas pela Santa Inquisição, só para perceber que elas incluem os grandes clássicos da literatura não só espanhola como da portuguesa:  Amadis de Gaula, Palmerim de Inglaterra, Obras de Teresa d’Ávila, Lazarillo de Tormes, A Celestina: tragicomédia de Calixto e Malibeia,  Elogio da Loucura de Erasmo de Roterdão, e assim por diante.

Mais do que um romance de espionagem, As fogueiras do rei é um excelente romance histórico, que leva o leitor a considerar os acontecimentos do século XVI na Espanha sob um novo olhar, um olhar de dentro.   Quem está à procura de um romance que vai além de uma mera distração,  um romance que enriquece o leitor com os detalhes históricos coletados, Pedro Casals oferece bastante conteúdo para um aprendizado rápido e compreensivo.





Na Espanha, Festival de presépios de areia

10 12 2009

Foto: Luis Suarez

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Milhares de turistas visitam os presépios de areia, na praia de Las Canteras em Las Palmas na Espanha nesse mes de dezembro. A exposição que reúne trabalhos de sete artistas de cinco países: Karen Fralich (Canadá), Peter Busch (Dinamarca), Fergus Mulvany (Irlanda), Vladimir Kuraev e Alexey Dyakov (Rússia), e Andrei Vazhnyskyv e Iryna Kalyuzhna (Ucrânia).   As esculturas em areia incluem cenas do Antigo e  do Novo Testamento.  Cerca de 180.000 pessoas visitaram a área que ocupa uma área de 600 m². Os artistas responsáveis pelas obras são do Canadá, EUA, Holanda, Irlanda e Rússia.

Foto: Luis Suarez

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Este é o quarto ano seguido que o Comitê de Turismo da Prefeitura das Grandes Canárias reúne alguns dos mais conhecidos e laureados escultures em areia do mundo para representarem cenas religiosas de preferência relacionadas ao Natal.  Presépios, ou como os espanhóis chamam “belenes” têm uma grande tradição nesse país ibérico.





Novos moluscos em mares espanhóis

24 11 2009

Foto: Agência EFE

Boas novas do arquipelágo das Canárias: pesquisadores espanhóis e cubanos,  trabalhando na costa espanhola, próximo à cidade de Santa Cruz de Tenerife, na ilha de Tenerife,  novas espécies do moluscos.

Foto: Agência EFE.

Vale lembrar que os moluscos são animais invertebrados na sua grande maioria marinhos.  Mas há também alguns de água doce ou terrestres.  Entre os moluscos mais conhecidos estão os caramujos, as ostras e as lulas. 

Foto: Agência EFE.

Das espécies  encontradas nos mares espanhóis a grande novidade são que todas se caracterizam por emitir flashes de luz quando são ameaçadas.





Cartas de viagem: Espanha V

30 09 2009

girassolCampos de girassóis dominam a paisagem rural da Alta Andaluzia, de Jaen a La Carlota.

 

 

25 de outubro

 

Meus queridos,

Deixamos Córdoba em direção a Portugal, ontem à tarde.  No caminho me lembrei que tinha duas cartas e quinze cartões postais para colocar nos Correios.  Já estávamos a caminho. De modo que decidimos parar na primeira cidade que encontrássemos.  Paramos afinal num lugar chamado La Carlota.  Lá, tive uma experiência muito interessante.

La Carlota é cortada em duas pela estrada em que viajávamos.  Depois de ter ido ao lado errado da cidade, finalmente me disseram que eu tinha que atravessar a estrada para lá  achar os Correios, dentro da prefeitura.  Na prefeitura eu os achei do outro lado de um enorme jardim interno cheio de laranjeiras, escondido por filas e filas de pessoas umas indo para a enfermaria da cidadezinha (parecia fila de atendimento médico brasileiro); outras indo para uma caixa receber pensões: uma longa fila de senhoras idosas vestidas de preto.  Havia outras filas, mas com franqueza não me lembro para que, só que o reboliço era enorme, crianças chorando, balbúrdia geral.  Nos Correios eu me deparei com um senhor bem redondinho, que olhou muito intrigado para a minha pilha de cartões, olhou bem para os endereços, coçou a cabeça e apanhou um livro grande, que mais parecia um dicionário do século XIX e pôs-se a procurar por alguma coisa.  Alguns momentos depois ele me disse que não tinha ali os selos necessários para as tarifas das cartas para o Brasil, nem dos cartões postais.  Mas que ele achava que a tabacaria do outro lado da praça talvez tivesse.

 

campiña, la carlota

Região de La Carlota, Espanha. 

 

Esse homenzinho, então, calmamente tirou o avental que trazia por sobre a roupa normal, saiu detrás do balcão,  fez um aceno com a mão para que eu saísse da sala também, colocou um cartaz na porta, “Correios Fechados” e me levou, quase pela mão, até o outro lado da praça à tabacaria em questão.   Na loja eu tive que comprar setenta selos e precisei colá-los lá mesmo.  Cada carta levou cinco selos, cada postal quatro.  Os donos da loja se colocaram à minha disposição imediatamente e nós três começamos a lamber os selos ( que já vêm com cola) e colá-los, tudo na mais perfeita comunhão de interesses.  Conversamos um pouco com o meu brasinhol e depois de dizerem que era bom mesmo que eu estivesse escrevendo para minha mãe “porque mãe é a coisa mais preciosas que temos no mundo”, eles se candidataram a me levar de volta aos Correios onde eu teria que depositar a correspondência numa caixa amarela.   Eu garanti que sabia voltar, e eles relutantemente me deixaram ir.

Quando estou para colocar as cartas na caixa amarelíssima, bem na entrada dos Correios, de lá, sai depressa num passo de jato o homenzinho redondinho, tomou os postais e as cartas de minhas mãos, segurou-os com firmeza e cuidado e me garantiu de uma maneira bem importante que iria “tomar conta dessa correspondência pessoalmente”.

Sabem agora por que eu adoro a Espanha?

 

Saudades e beijinhos, a próxima carta já será de Portugal.  Já quase dá para ver a fronteira! H. se anima, adora Portugal e sente saudades da comida portuguesa!   L.





Cartas de viagem: Espanha IV

19 09 2009

 

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Córdoba, Espanha.

 

Córdoba, outubro de 19…

 

 Meus queridos: 

Córdoba e Granada são duas jóias espanholas.  Decidimos não rever Sevilha desta vez, porque estaremos de volta a Sevilha, tudo permitindo, durante a Semana Santa.

Desta vez visitamos ambas as cidades com uma calma invejável.  Revisitar é também redescobrir.   Nenhuma delas nos deixou desapontados.  Eu estava com medo de que Córdoba não fosse, nesta segunda visita, tão interessante quanto a achei da primeira vez.  Mas a minha memória não me falhou, e ainda a acho um dos lugares mais interessantes que conheço.  Tenho uma afeição inexplicável por ela.

Não faz sentido tentar descrever para  vocês a grandiosidade da arquitetura islâmica na Espanha.  Seria impossível.  O Alhambra é mesmo um castelo das Mil e Uma Noites e os jardins Generalife fazem a maioria dos outros jardins e parques, orgulhos nacionais de outros países, parecerem projetos primitivos.  A mesquita de Córdoba também cai nessa mesma categoria.  São todas obras de príncipes visionários que tinham muito dinheiro, sábios matemáticos nas suas cortes e mão de obra abundante (em grande parte escrava) para construírem para seu desfruto pessoal as maravilhas arquitetônicas que nos restam.  Acho que vocês não devem saber – porque eu também só aprendi agora – que os escravos utilizados pelos califas no sul da Espanha, não eram africanos, como pode vir a nossa mente hoje em dia, mas eram, em sua grande maioria, portugueses e espanhóis, cristãos capturados durante as invasões na península ibérica pelos muçulmanos e feitos escravos nessa época medieval.   

 

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Pátio em Córdoba.

 

Gosto especialmente de Córdoba, por causa de sua atmosfera e também por causa de sua Juderia – bairro judeu da idade média.   A maioria das cidades da Andaluzia e também do resto da península ibérica que estiveram sob controle islâmico tem áreas das cidades de residência para os judeus.  São em geral enclaves interessantíssimos dentro do perímetro urbano, que começaram a ser evacuados pelos judeus quando a Inquisição bateu firme e forte: 1488 na Espanha e 1496 em Portugal. Esses bairros atingiram o seu apogeu durante a dominação islâmica porque os mouros eram mais tolerantes do “povo da Bíblia”, que seus inimigos cristãos.  

A Juderia de Córdoba é um grupo de talvez 30 a 40 ruas bem estreitas (da largura de um carro) e becos.  Tem casas de dois ou três andares dos dois lados, que são todas brancas.  Tão brancas que poderiam ser usadas nos anúncios de “que sabão lava mais branco?”  Em geral, ela tem uma porta bem larga, no centro do prédio, que anteriormente talvez pudesse ser usada por uma carreta de mão.  Este portão leva a um saguão coberto de azulejos decorados com motivos mouriscos.  Esse saguãozinho deixa-nos perceber através de portões de ferro batido os jardins internos das casas.  Esses jardins são tão famosos que os atuais donos dessas casas deixam suas portas abertas para que passantes, como nós, possam ver e desfrutar de seu charme, olhando lá dentro.

 

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Pátio da Juderia, Córdoba.

 

Do lado de fora, essas casas são cobertas de vasos e potes de cerâmica, carregadinhos de plantas, de trepadeiras e choronas, e parecem estar colocadas nas paredes sem nenhuma ordem visível.  Não há grandes áreas de paredes pintadas de branco sem que alguém não coloque ali pelo menos uns vinte potes de plantas, pendurados nas paredes e também há  potes dependurados em arames que vão de lado a lado das ruas, dando a elas, dessa maneira, um teto de verduras, que sombreia o caminho.

Os nomes das ruas são também maravilhosos:  Rua das Flores, Rua da Lua, Esquina do Ouro, Rua dos Judeus, Praça do Burro.  Esses becos e ruas, de vez em quando, se abrem em pracinhas minúsculas, que podem  ter pequeninos monumentos, como encontramos um ao filósofo e astrônomo árabe  Averroes  e outro ao judeu andaluz, Maimonedes, rabino, médico e filósofo.  As ruas mais largas ( um carro e meio de largura) têm laranjeiras dando sombra às diminutas calçadas.  Nesta época do ano essas árvores estão carregadas de frutos.  E que aroma!

Bares e restaurantes freqüentemente usam esses jardins internos  como suas salas de almoço.  Sentados à mesa a gente pode apreciar todos os potes de plantas que populam as paredes internas dessas casas.  De vez em quando, ouve-se alguém cantarolar uma típica melodia andaluza.  

Na Juderia há uma pequena sinagoga do século XIV, uma das pouquíssimas ainda em pé na Espanha ( a outra famosa sinagoga é a de Toledo).  Essa construção também tem à moda das casas e da mesquita, um jardim interno e por incrível que pareça foi construída num estilo bem islâmico de arquitetura semelhante ao encontrado nas mesquitas da época.  A arquitetura cristã em Córdoba deixa muito a desejar.  Preservados também estão os banhos árabes, hoje parte de uma loja de artigos turísticos, que tem quatro de seus cômodos dos fundos tombados, por serem os antigos banhos das cidade.  E há também na Juderia o Museu do Touro – o melhor que conheço na Espanha.   Assim como a Inquisição e a Guerra Civil Espanhola nesse século, a fascinação do espanhol com o touro está na lista daqueles assuntos que qualquer pessoa que queira entender a Espanha, tem que um dia destrinchar.

 

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Plaza de las Tendillas, Córdoba.

 

Mas Córdoba também é o desfile de seus habitantes nas ruas.  Gentes de todas as idades passeiam da Plaza de las Tendillas.  Observar as pessoas, por volta das cinco da tarde, de um dos muitos cafés nessa praça, é o grande passatempo tanto de espanhóis quanto dos turistas que visitam o local. Regado a chocolate quente com churros todos observam e são observados.   Todas as cidades espanholas têm esse fenômeno do andar/desfilar.  Todas as cidades espanholas são, conseqüentemente, dos melhores lugares para se observar pessoas, o comportamento humano.  Cada cidade tem sua personalidade; a mais barroca dessas atividades é a que se desenrola em Barcelona, sem dúvida.  Mas Córdoba é pequena o suficiente para que, depois só de alguns dias, sentada no mesmo café, a gente possa começar a conhecer os transeuntes.  Reconhece-se a senhora que vem passear acompanhada de sua filha, ou a adolescente que fez de tudo, no dia anterior, para ganhar a atenção de um rapaz, que hoje já não está com a camisa vermelha que lhe caía tão bem.  Em Córdoba é mais fácil a gente se sentir como parte da cidade; perde-se logo a noção de estarmos olhando para o cenário de uma peça teatral, como a gente se sente no início. Ao invés, a gente passa a se sentir como um extra numa cena de bar, depois de termos ido lá uma meia dúzia de vezes, e acompanhamos o roteiro da peça imaginária logo ali, debaixo dos nossos narizes.    E, no momento em que a gente se levanta para ir embora, de repente a gente cruza aquela linha imaginária que nos separava de um ator principal.  Como num passe de mágica, passamos a ser um deles, desfilando também na Plaza de las Tendillas, deixando que outros nos olhem e observem.  

 

Beijinhos a todos, e muitas saudades,  L.

 

 PS: Sabem que eu adoro esses 3 pingos da palavra beijinhos?





Cartas de viagem: Espanha III

15 09 2009

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Casa Mila, Barcelona.

 

Barcelona, outubro de 19…

Meus queridos:

Nossa entrada em Barcelona foi uma experiência inesquecível.  Graças ao extraordinário senso de direção de H. só levamos uma hora para chegar ao hotel.  Chegamos no engarrafamento de 16:30.  Ainda não pensamos como os espanhóis.  Não imaginávamos que o engarrafamento dessa hora fosse o de “volta ao trabalho”, ou seja, para o centro da cidade…  Mas, verdade seja dita, não estávamos preparados para as grandes avenidas em que nos metemos que cortam a cidade em fatias de bolo, triangulares; avenidas das quais não se pode sair facilmente, não se pode dobrar à direita ou à esquerda; avenidas que uma vez nelas, você tem que sair do outro lado da cidade quer queira ou não.  Isso com uns malucos não só buzinando, mas achando ruim que você com o seu carro de placa de Paris (que mostra de cara que é estrangeiro) ande meio titubeando!  Se o meu casamento sobreviveu à relação piloto x co-piloto na entrada de Barcelona, vai sobreviver a muita tempestade! (Cá pra nós, não há nada pior que um co-piloto que sabe dirigir mas que acima de tudo se sente correta – como eu!)  Barcelona é uma cidade muito grande, a maior que visitamos dessa vez.

Essa metrópole é uma parte diferente da Espanha.  É uma das Grandes Senhoras Cidades do mundo!  Não é por causa de seu tamanho.  Ou por causa de seu tráfego ou até mesmo por seu comércio (de lojas caríssimas às que só vendem porcarias).  Tampouco é por causa de seus museus, monumentos históricos ou igrejas.  É a atmosfera de Barcelona, cheia de uma energia inebriante e envolvente, que seduz.

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Igreja da Sagrada Família, Barcelona.

 

A impressão é de que nada aqui pode acontecer de uma maneira medíocre.  As coisas aqui ou são grandiosas ou umas bombas, mas o que a gente não conseguirá é ser indiferente a elas.  Essa maneira de ser, de tentar coisas novas, de arriscar-se a fazer um papel ridículo, é magnética.  Barcelona é assim, e como conseqüência há uma variedade grande de coisas inesperadas.  E a única coisa que se pode fazer é ficar deslumbrada.

De cima de um morro a cidade revela todos os seus segredos de terra ao mar.  Monumentos bonitos e horrorosos que passam desapercebidos ao rês do chão aparecem no horizonte; desde a catedral inacabada de Gaudi até a praça monumental de Espanha.

O chão de pé-de-moleque das ruas do bairro gótico esconde embaixo de si mesmo, num museu de escavações, as ruínas da cidade romana.  Carrancas em goteiras e outros monstros observam das fachadas dos edifícios do passado, os pedestres de hoje; enquanto que durante o dia inteiro milhares de pessoas são cuspidas para fora do metrô super moderno, para andarem nas Ramblas – uma série de pequenas ruas que desembocam numa longa avenida que leva ao mar.  Essa população parece andar de sol a sol.

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Bairro gótico, Barcelona.

 

As Ramblas são um capítulo à parte em Barcelona.  A avenida principal, Rambla de Barcelona, tem um calçadão bem no centro, coberto de quiosques vendendo flores e pequenos animais domésticos, jornaleiros colossais com jornais e revistas do mundo inteiro.  Há restaurantes e bares que, apesar de serem localizados nos prédios ao longo da avenida, mantêm grandes barracas onde se pode comer e beber o que aquele restaurante oferece, desde um café até um jantar, com o garçom atravessando um trânsito impossível para nos servir.  É três ou quatro vezes o preço do cardápio, mas pelo menos uma vez vale a pena!

As ruazinhas que saem dessa avenida principal são deliciosas: estreitas e ensebadas;  Elas oferecem uma variedade interessante de gostos e perfumes desde suas lojas de vinhos, em que todo o vinho bebido vem de barricas postas umas sobre as outras nas paredes laterais das lojas, até as lojas de churros onde se pode comprar uma cornucópia dessa fritura em qualquer sabor imaginável!  Essas ruelas também têm restaurantes, pequenas lojas de roupas, caras ou não.  Tudo que existe para ser vendido, achará um lugar por lá.  No entanto, as ruas são tão estreitas que às vezes nem uma Kombi poderia passar.  Como a mercadoria chega às lojas é um fato a ser investigado.  De vez em quando há uma pracinha.  Lá algum dono de um bar próximo coloca umas mesinhas com cadeiras e um povaréu toma champanha ou sangria enquanto que – como em Nova York – alguém toca um saxofone ou violino, passando o chapéu a cada quinze minutos.   Este é o centro da cidade.  É aqui que tudo acontece.  O povo irá, de fato, andar andar nessas ruas 24 horas por dia.  As últimas sessões de cinema em Barcelona começam a 1 hora da manhã.  O jantar é sempre muito tarde.  Nós fomos a restaurantes às 11 horas da noite e tivemos que esperar em fila para vagar uma mesa.  Mas às 7 da manhã as Ramblas já estão cheias de gente.  Às 9 todo o comércio volta a abrir, para fechar às 13 horas.  Nessas horas realmente faz calor.  Faz muito CALOR!   Mesmo agora no final de outubro.  Tudo reabre as 16:30 para fechar às 21 horas.

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Las Ramblas, Barcelona.

 

A energia evidente no movimento da população é uma característica espanhola.  Madri entre outras é uma cidade em que todo mundo anda como se desfilasse nas ruas antes do jantar.  Mas na Catalunha é diferente.  Em Barcelona, a cidade inteira parece estar presa nesse rodamoinho.  Ela efervesce!  Produz energia por si só.  Essa energia, sentida no ar que se respira, complementa bem a forma orgânica de como a cidade parece ter crescido.  Na verdade há muito pouco em Barcelona que pareça simplesmente racional.  Ela cresceu como um cogumelo.  Até parece que os artistas minimalistas com aquela pureza de linhas e de superfícies bem lisas não seriam capazes de terem admiradores por aqui.  Mas não é verdade.  Eles têm.  Não é que a gente não encontre edifícios bem modernos e tecnologia de ponta por todo canto.  Mas há sempre um jeitinho diferente, espremido numa profusão de formas inesperadas no desenho moderno catalão.  Formas orgânicas aparecem em todo canto produzindo uma marca inesquecível não só na arquitetura ( que outro lugar poderia ter produzido um Gaudi?) mas em tudo mais que é criado aqui.   Essa para mim é a mais clara faceta do espírito catalão, a que separa esta região encantadora do resto também maravilhoso da Espanha. 

 

Beijinhos,  L.





Cartas de viagens: Espanha II

2 09 2009

ampurias 6Ampúrias, Costa Brava, Catalunha, Espanha.

 

Barcelona, outubro de 19…

 Meus queridos:

 Nosso amigo Juan vivia me dizendo que eu não poderia dizer que conhecia a Espanha se não conhecesse bem Barcelona.  É claro, eu pensava, ele é catalão!  Mas estava certo!

A nossa entrada na Espanha dessa vez foi tão grandiosa quanto o país merecia, porque viemos da França, seguindo o mar, passando através das montanhas mais baixas dos Pireneus (ainda assim altíssimas).  A costa por lá é muito alta, montanhosa, mas há pequenas praias, lá embaixo, escondidas atrás das rochas escarpadas.

A nossa primeira parada foi em Ampúrias. Essa é uma cidade com ruínas gregas e romanas e um magnífico panorama do Mediterrâneo.  Há chãos de mosaicos muito bonitos além de um pequeno museu com tesouros encontrados durante as escavações. Ampúrias mostra como os antigos, tanto gregos quanto romanos, sabiam escolher a localização de suas cidades.  Sempre que possível eram localizadas nas baías mais bonitas, nas pequenas enseadas.   Em Ampúrias, os romanos se estabeleceram num lugar um pouco mais acima [em altura] do que os gregos, desta maneira tinham uma vista magnífica da praia, do mar: estabeleceram-se num anfiteatro natural.   As localizações das cidades romanas, seus delineados, suas ruas e avenidas, seus edifícios de concreto [afinal foram eles que inventaram o concreto] seu uso de águas e seu tratamento de esgotos, suas fontes e também seus banhos, fazem sempre com que suas ruínas atinjam, mais do que quaisquer outras, o homem moderno.  A gente entende a cidade.  Entende o modo de pensar.  Porque seu traçado e suas prioridades ainda são as mesmas que temos hoje.  Ampúrias é assim.  Lembrou-me Tipaza, as ruínas de Tipaza, na Argélia, que visitei há alguns anos, que ainda considero superiores. Aquelas me levaram às lágrimas, muitas delas, por sua beleza.   Mas isso é outra história…

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Tossa del Mar,  Costa Brava, Catalunha, Espanha.

 

Mais adiante, paramos aqui e ali nas praias de pescadores, nas baías turísticas, indo do extremo dos miradores das montanhas sobre o mar, ao nível baixíssimo de praias pequeninas, de menos de um quilômetro de extensão, cercadas de penhascos ou, às vezes, como em Tossa del Mar, protegidas por castelo e muralha.  

Se a gente não conhecesse nada da história da Espanha até chegar a Barcelona, teríamos já aprendido pelo menos as grandes lições dos gregos aos dias de hoje, tão grande é o número de pequeninos vilarejos, aldeias ou cidades mesmo, que têm isso ou aquilo:  uma igreja, um palácio, ruínas romanas, ruínas gregas, visigóticas e daí por diante.  Pode-se sem exagero passar três a quatro semanas nesta área chamada Costa Brava e não se lamentar.  Há sempre o que ver, o que descobrir, além da excelente comida…  Aos poucos, também, vamos nos acostumando ao catalão.  Para brasileiros é fácil, principalmente para o brasileiro que lê e entende o francês.  Pelo menos dá para adivinhar corretamente a língua escrita.  Mas a falada, é outra história.

Beijinhos a todos e saudades,  L.





Cartas de viagens: Espanha I

30 08 2009

espanha

 

 

Cartas de viagens

 

 

No final do século XX, meu marido e eu embarcamos dos Estados Unidos para Portugal onde ele ensinaria Literatura Americana, na universidade de Coimbra.  Por causa da diferença de períodos acadêmicos entre as instituições universitárias a que estávamos agregados, sobraram um pouco mais de dois meses – de agosto ao final de outubro – em que nenhum de nós precisava se encontrar num lugar específico.  Aproveitamos, então, para passar um pouco mais de um mês na França e o resto do tempo viajando pela Espanha.  Nós dois já estávamos bem familiarizados com ambos os países, principalmente com suas maiores cidades.  Estes dois meses serviram para que aprofundássemos o conhecimento que tínhamos de ambos.  E vimos o período de estadia em Portugal – 2 anos – como tempo suficiente para conhecermos o país do Algarve a Guimarães, como a palma das nossas mãos.  É claro que nem tudo saiu como esperávamos.  Mas muita coisa foi muito mais, muito melhor, do esperávamos.   Estes foram de longe, os mais felizes anos de minha vida adulta.  As cartas que estou selecionando para o blog, são cartas que mandei para membros da família, que muito gentilmente as guardaram.  Sempre me dando o incentivo de publicá-las.  Todas começam com: Meus queridos.  Eram para informação de todos.  Acredito que possam mostrar alguns aspectos interessantes dessa estadia européia.

 Cartas de Espanha

 

Barcelona, Outubro de 19…

 

Meus queridos:

É fato que ando de amores com a Espanha há três anos, quando estive aqui duas vezes no mesmo ano.  Pretendo encher as páginas do meu passaporte com carimbos de entrada na Espanha neste ano que entra.  Ao contrário do ditado português, “De Espanha nem bom vento, nem bom casamento”, eu me vejo achando tudo aqui sensacional.  A Espanha conquista e seduz.  É dramática, energética e vibrante!

Não há como escapar de sua característica principal: a Espanha é a INTENSIDADE em pessoa.  Não há por aqui meio termo, indecisão.  Tudo aqui ou vai ou racha.  É tudo ou nada.  Não sei bem como isso é transmitido aos turistas, mas é.  É uma atitude nacional que se encontra por toda parte.  Está permeada no ar que a gente respira (além de muita poluição!).  Está talvez no barulho das ruas, de noite, às 4 da manhã; ou talvez num bater ritmado e único de palmas que a gente ouve de vez em quando no meio das pessoas. Está certamente no andar das multidões, porque o espanhol anda, anda muito, todos os dias, anda se não mais, pelo menos no final do dia, todo arrumado, num requinte de invejar, pelas ruas, nas horas antes do jantar, talvez um resquício do antigo “trotting”!

Mas essa intensidade, esse drama, a ação e a paixão, não são manifestados pelo lado de fora como a gente poderia imaginar: gestos e cantorias.  A paixão dos espanhóis está sempre sob controle.  Porque os espanhóis são quietos, sérios e orgulhosos.  Eles têm uma maneira muito dignificada.  Projetam uma imagem segura, de quem tem um bom sentido de seu valor.  Têm muito amor próprio.  E cativam com sua bondade e respeito, mas sempre de maneira controlada. 

E é esta tensão entre as forças de dentro – que parecem tão próximas a escaparem — e a sobriedade exterior que os faz como um grupo, e individualmente também, tão atraentes para mim.

 

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Eu nunca tinha me interessado muito por dança flamenca até que vi essas danças em Córdoba 3 anos atrás.  Lá estava eu na minha segunda visita à Espanha, achando que já conhecia um pouco, que  tinha uma boa idéia do país.  Mas fiquei impressionadíssima com a dança flamenca e como disse,  daí por diante, achei a dança flamenca a verdadeira expressão da alma espanhola.  Um ícone, por assim dizer, do que deve ser, ser espanhol.  Pelo menos foi o que na época pensei.  A grande estilização da dança, cheia de cores, ou toda negra; e muito, muito sensual; bem ritmada e agressiva revelaram para mim, naquele espetáculo, a tensão de que falei antes, dessas forças polarizadas: o gesto delicado de uma mão elevada no ar, acompanhado pelo bater dos saltos dos sapatos no chão, um levantar de saias e anáguas com a outra mão e o empurrão para cima do queixo, elevando o nariz e encompridando o pescoço.

A dança é sensual, estonteante.  Tem drama, tem canto torturado, sofrido e muita influência árabe na música.  Ela me pareceu a verdadeira expressão da alma espanhola.  Precisa ser uma cultura milenar, cheia de tradições centenárias, para poder revelar os sentimentos e valores de um povo de maneira tão estilizada.  E, o que ainda é mais impressionante é poder comunicar a qualquer pessoa, inclusive uma estrangeira como eu, essas emoções. 

 

Mas eu achava tudo isso porque, até então, não conhecia Barcelona!

 

Beijos e saudades,  L.





Tuareg, romance/aventura de Alberto Vazquez-Figueroa

23 02 2009

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Tuareg, 2007

Mo Skett (Austrália)

Aquarela sobre papel

 

 

 

Minha fascinação com o deserto, com o norte da África, com os bérberes, data de muito tempo.  Foi parcialmente domada pelo ano que morei em Oran, na Argélia.  Foi naquela época que deixei de lado idéias românticas da vida no local, em grande parte feitas robustas pelos escritores e pintores europeus do século XIX, que conseguiram gravar na minha imaginação cenas de maravilhosos banhos públicos, circundados por paredes cobertas de azulejos com desenhos abstratos e colorido especial; ricos ambientes com dezenas de tapetes grossos de lã, cuja arte de fiação local, transformava em sedosos, brilhantes e macias cobertas protetoras para os pés;  adereços de ouro, pulseiras escravas; roupas de odalisca e tudo mais com que a imaginação romântica de uma adolescente poderia se deslumbrar.  Essas idéias foram rapidamente aparadas, reduzidas quando da minha estadia na moderna cidade de Oran nos anos 80.

 

Mas meu interesse por este pedaço do mundo nunca chegou a se apagar.  E, se quando saí da Argélia havia chegado a um ponto saturação com uma cultura radicalmente oposta à minha – a saturação veio na terceira semana do Ramadã, em que os dias são trocados pelas noites –, saí daquele país ciente de que ainda teria que voltar ao norte da África.  Não quis naquela época emendar a minha viagem com a Tunísia ou os Marrocos porque sabia que era preciso fazer jus aos povos que aí habitavam sem trazer comigo preconceitos desenvolvidos ao longo da minha estadia em Oran.  

 

 

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Tipaza, Argélia: teatro romano

 

 

Houve naquele ano na Argélia duas visitas que me marcaram para sempre e que estarão vívidas na minha imaginação até os meus derradeiros dias: a visita às ruínas romanas de Tipaza e a visita ao deserto de Saara, mais particularmente, ao oásis que abriga cinco cidades, inclusive a cidade de Ghardaia, também chamado de Pentápolis.   Esta passagem pelo deserto foi de uma beleza sem igual, um momento em que tudo se cala diante do espetáculo da natureza.  Sempre imaginei voltar.  

 

Com esta dívida à mim mesma foi com grande satisfação que comecei 2009 com a leitura de um livro surpreendente,  Tuareg, do escritor espanhol Alberto Vazquez-Figueroa (LP&M: 1988, reimpressão, 2008).  Este foi o primeiro livro de Vazquez-Figueroa que li.  Não o conhecia.  Fiquei certamente encantada com sua habilidade narrativa, extremamente evocativa.  Sua descrição do deserto, das paisagens inóspitas que fazem parte do dia a dia dos Tuaregs, é absorvente e sedutora.

 

 

tuareg

 

É importante também reconhecer que Vazquez-Figueroa consegue num enredo simples e linear trazer a tona os problemas da colonização de povos anciães, tais como os Tuaregs: Gacel Sayad – personagem principal do romance — é imensamente desonrado quando assassinam uma pessoa que estava protegida, sob seu teto, no deserto.  Não há maior desonra.   Faz-se necessário que ele puna aqueles que cometeram este ato. E assim começa uma aventura no deserto, uma sequência de perseguições, de dissimulações, truques, golpes, tudo parte de uma perseguição da qual ninguém sai vencedor.  

 

Tomando por base o conhecimento dos princípios que regem as ações de Gacel Sayad, é impossível não simpatizar com ele e reconhecer que para aqueles que vivem no deserto nas circunstâncias em que eles vivem o conceito de país, de fronteira, de nacionalidade não só não existe como não faz sentido.   E mesmo que não se aprove os diversos assassinatos que ele conduz, nossa simpatia e lealdade estão com ele até o final, porque sabemos que são ações baseadas num extraordinário senso de justiça, mesmo que esta justiça seja completamente diferente da aceita pelo leitor.  

 

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Tudo isso é particularmente assessorado por uma belíssima prosa, em que as cenas mais corriqueiras conseguem se transformar em imagens poéticas e sonhadoras:

 

A noite se fechara sobre a planície pedregosa, a primeira hiena riu longe e tímidas estrelas piscaram em um céu que, logo, estaria todo tomado por elas, no belíssimo espetáculo que nunca cansava de admirar.  Eram essas estrelas, das noites de paz, talvez, que o ajudavam a persistir, após um longo dia de calor, tédio e desesperança.  “Os tuareg espetam as estrelas com suas lanças para, com elas, iluminar os caminhos…Um belo ditado do deserto, nada mais que uma frase, mas quem a inventou conhecia bem aquelas noites e aquelas estrelas, e sabia também o que significava contemplá-las horas a fio, de tão perto.

 

Descrições detalhadas do deserto, da experiência do deserto, são,  não só essenciais para o comportamento de Gacel Sayad, mas provavelmente parecem verdadeiramente precisas porque o Vazquez-Figueroa, tendo nascido no Tenerife, passou sua infância no Saara, antes de estabelecer residência em Madri.  

 

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O escritor: Alberto Vazquez-Figueroa

Poucos de seus livros estão traduzidos para o português.  Além de Tuareg encontrei O iguana, não obstante, vou fazer um esforço para ler seus outros livros.  O sucesso de Tuareg, que vendeu mais de dois milhões de exemplares na Espanha e na América Espanhola não vem sem motivo.  É um ótimo livro, em que o entretenimento, a aventura, não tiram de foco considerações mais sérias sobre a colonização e o estupro cultural de povos cujas bases culturais são tão antigas quanto a humanidade.  

 





Os 6 melhores livros publicados na Espanha

12 01 2009

 

alfredo-roldan-madrid-espanha-1965-la-lectura-2005A leitura, 2005

Alfredo Roldán (Espanha, 1965)

 

O portal espanhol Lomás compilou a lista dos melhores 6 livros publicados na Espanha em 2008.

Em primeiro lugar:

La Hermandad de la Buena Suerte do espanhol Fernando Savater

Fernando Fernández-Savater Martín (São Sebastião, 21 de Junho de 1947) é um escritor e filósofo espanhol, catedrático de Ética na Universidade do País Basco.  Muitos de seus livros de filosofia estão traduzidos para o portugês e publicados no Brasil.

 

2        Fiebre Negra do escritor argentino Miguel Rosenzvit

3        La maravillosa vida breve de Óscar Wao do dominicano Junot Diaz

4       Syngué Sabour  de Atiq Rahimi, escritor afegão

5       — La Soledad de los Números primos, do italiano Paolo Giordano, já traduzido e publicado no Brasil como, A Solidão dos Números Primos: Bertrand

6        — Muerte entre poetas da espanhola Angela Vallvey