Quadrinha do caminho da vida

26 02 2013

primeira flor do jardim, ilustração martyPrimeira flor do jardim, ilustração de A. E. Marty.

Do berço à tumba há um caminho,

que todos têm de transpor:

de passo a passo – um espinho,

de légua em légua – uma flor.

(Belmiro Braga )





Tesouro do século XVI encontrado em velho sapato na Holanda

25 02 2013

Tesouro, willy pogany, Tisza Tales

Tesouro, ilustração de Willy Pogany para os Contos de Tisza.

Deve ter sido o medo da perseguição católica que levou o dono de um pequeno tesouro em moedas de prata a enterrá-las dentro de um sapato, na época da Revolta Holandesa, ou como alguns chamam, na época da Guerra dos Oitenta Anos.   Entre 1568 e 1648 o território que é hoje ocupado pela Holanda e parte da Bélgica e que pertencia à Espanha, lutou por sua independência. Os calvinistas que habitavam em grande número o território dos Países Baixos queriam poder manter sua independência religiosa, garantida até então, e temiam que os reis de Espanha viessem a exigir afiliação total ao catolicismo. Esse espírito de revolta foi muito ajudado pelos altos impostos e desemprego generalizado que maltratavam a população. Foram oitenta anos de batalhas e lutas que acabaram com a assinatura do Tratado de Westfália em 1648 e com a unificação e independência da Holanda.

moedasprataholandaefe1Foto agência EFE.

Isso justificaria a causa de se esconder uma coleção – uma pequena fortuna – de 477 moedas dentro de um sapato enterrado no solo. Pouco se sabe sobre essas moedas ou sobre seu dono.  Sabe-se, no entanto que essas economias, foram enterradas depois de 1592, porque essa é a data da mais recente moeda no grupo.  O tesouro conta com grande variedade de moedas de prata: a mais antiga é de 1472 enquanto qu e a mais recente foi cunhada em 1592.

moedasprataholandaefe3Foto agência EFE

Os arqueólogos holandeses encontraram as 477 moedas de prata enterradas na prefeitura de Roterdã, segunda maior cidade do país.  Perguntado sobre o achado, o prefeito da cidade, Ahmed Aboutaleb, se mostrou surpreso com a descoberta e disse que “nunca antes um grupo de arqueólogos tinha descoberto um sapato recheado de dinheiro“. Ainda não foi divulgado o valor atual das moedas encontradas, estima-se em alguns milhares de Euros.

Fonte: Terra





O urubu-rei, texto de Padre Nicolao Badariotti

25 02 2013

Joacilei Lemos Cardoso urubu rei

Urubu rei, s/d

Joacilei Gomes Cardoso (Brasil, 1960)

óleo sobre linho, 140 X 100 cm.

Joacilei Gomes Cardoso

O urubu-rei

Padre Nicolao Badariotti *

Estava um dia um bando de urubus se banqueteando no nojento festim; de repente um deles dá um guincho rouco e todos se afastam e dispõem em círculo numa atitude de respeito. O ar vibra, silvando ao impulso de asas possantes, estremecem as folhas e um  magnífico urubu-rei pousa majestosamente sobre um galho seco; dá um olhar imperioso sobre aquela turba vil e, lançando-se pesadamente ao chão, acode ao banquete, desdenhando todo aquele círculo de rivais invejosos e impotentes…  Era um lindo animal, maior que um peru, escuro na parte superior do corpo e branco debaixo das asas e do peito. A cabeça coberta somente de uma penugem ostentava sete cores; o bico robusto, os olhos largos e expressivos sem a ferocidade de seus congêneres, o pescoço aveludado e adornado dum colar de alvas penas, fazem do urubu-rei um animal soberbo e de nenhum modo merecedor do nome vulgar tão humilhante para ele.

 

[Exemplo de descrição de animais]

Em: Flor do Lácio,[antologia]  Cleófano Lopes de Oliveira, São Paulo, Saraiva: 1964; 7ª edição. (Explicação de textos e Guia de Composição Literária para uso dos cursos normais e secundário), página 93.

————–

*Padre Nicolao Badariotti foi um religioso italiano que descreveu viagem ao Mato Grosso em 1898, sua viagem foi publicada  como Exploração no norte de Mato Grosso, região do Alto Paraguay e Planalto dos Parecis. São Paulo: Escola Typ. Salesiana, 1898.





O corvo e a raposa, poema e fábula, Bocage

24 02 2013

1289703457Ilustração de John Rae.

O corvo e a raposa

Bocage

——————-(tradução de La Fontaine)

 –

É fama que estava o corvo

Sobre uma árvore pousado

E que no sôfrego bico

Tinha um queijo atravessado.

Pelo faro, àquele sítio

Veio a raposa matreira,

A qual, pouco mais ou menos,

Lhe falou desta maneira:

– Bons dias, meu lindo corvo;

És glória desta espessura;

És outra fênix, se acaso

Tens a voz como a figura.

A tais palavras, o corvo,

Com louca, estranha afouteza,

Por mostrar que é bom solista

Abre o bico e solta a presa.

Lança-lhe a mestra o gadanho

E diz: – Meu amigo, aprende

Como vive o lisonjeiro

À custa de quem o atende.

Esta lição vale um queijo;

Tem destas para teu uso.

Rosna então consigo o corvo

Envergonhado e confuso:

– Velhaca, deixou-me em branco;

Fui tolo em fiar-me dela;

Mas este logro me livra

De cair noutra esparrela.





Palavras para lembrar — Tahar Ben Jelloun

24 02 2013

Beside the summer sea

Ao lado do mar de verão,1896

Philip Burne-Jones (Inglaterra, 1861-1926)

Aquarela sobre papel, 46 x 26 cm

Samuel and Mary R. Bancroft Memorial, 1935

Delaware Art Museum, Wilmington, DE

” Um livro é o nascimento de uma viagem, o traçado de um itinerário”.

Tahar Ben Jelloun





A cobra e o gaturamo, fábula de Coelho Neto

23 02 2013

hokusai-katsushika--schlange-und-voeglein-Katsushika Hokusai - Snake and bird - Cobra e pássaro

O pássaro e a cobra, s/d

Katsushika Hokusai ( Japão, 1760-1849)

Pintura sobre papel, 25,6 х 36,3 cm

Coleção Particular

A cobra e o gaturamo

Coelho Neto

O tempo era de grande esterilidade e os animais andavam esfomeados. Uma cobra, que se arrastava, todo o dia, ao sol, pelo areal abrasado, à procura de alguma cousa com que atendesse à fome que lhe roía as entranhas,  perdida toda esperança, enroscou-se em uma pedra e ali deixou-se ficar à espera da morte. Iam-se lhe fechando os olhos de fraqueza, quando um passarinho se pôs a cantar num ramo seco, lançando tão alegres vozes, que a cobra, que era matreira, logo percebeu que tinha  de avir-se com um novato, porque passarinho velho não seria tão indiferente a rolar gorjeios em tempo tão infeliz. Assim, instruída pela experiência, imaginou uma traça astuta e, espichando o pescoço, pôs-se a gemer com altos guaiados: — “Ai! de mim, que vou morrer sem alguém que me valha. Ai! de mim…” – Ouviu-a o gaturamo e, porque era curioso, voou do galho ao chão. Pondo-se diante da cobra, interrogou-a. “Que tendes senhora cobra? Por que assim gemeis tão aflita?” – “Ai! de mim! Fui ali acima à fonte, achei água tão fresca e pus-me a beber tão sôfrega, que engoli um diamante do tamanho de uma noz.  Tenho-o atravessado na garganta e morrerei se não encontrar pessoa de caridade que mo queira tirar. Vale um reino a pedra e eu a darei por prêmio a quem me fizer o benefício de arrancar-ma da goela, onde se encravou.”  — Tufou-se em agrado pretensioso o enfatuado gaturamo e, pensando no tesouro que ali tinha ao alcance do bico, redargüiu à cobra: “Não é pelo que vale o diamante, mas pelo alto preço em que vos tenho, que me ofereço para aliviar-vos. Abri a boca!” – Não se fez a cobra rogar e, tanto que sentiu o passarinho, foi um trago. Então, saciada e rindo – como riem as cobras, — enrodilhou-se de novo e adormeceu, contente.





Imagem de leitura — Henri Manguin

22 02 2013

Henri Manguin (1874-1949) - Le thé à la Flora

Chá na Vila Flora, 1912

Henri Manguin (França, 1874 – 1949)

Óleo sobre tela, 116 x 89 cm

Hahnloser/ Jäggli Stiftung

Henri Charles Manguin nasceu na França em 1874. Fez a Escola de Belas-Artes de Paris, sob o aprendizado de Gustave Moreau.  Inspirado por Matisse de quem foi colega e mais tarde amigo, Rouault e Marquet passa a pintar com as cores dos Fuaves. Foi professor na Academia Ranso.  Viajou  para Nápoles com Marquet. De tempos em tempos ia para Saint-Tropez, e em 1949 estabelece residência definitiva lá. Falece quase depois nesse mesmo ano.





Quadrinha do bom pintor

22 02 2013

artista pintor mickeyMickey quer ser pintor, ilustração de Walt Disney.

O bom pintor, quando pinta
para dar vida à aquarela,
põe mais amor do que tinta
no sentimento da tela.


(José Lucas de Barros)





Manhã na roça, texto de Virgílio Várzea

22 02 2013

EDGAR WALTER (1917-1994)Paisagem com casa de fazenda e animais no interior de Minas,ost,65 X 82. Assinado e datado (1969)Paisagem com casa de fazenda e animais, interior de MG, 1969

Edgar Walter (Brasil, 1917-1994)

óleo sobre tela, 65 x 82 cm

Manhã na Roça

Virgílio Várzea

Uma tênue mancha de claridade argêntea recorta em laca a linha ondulada das colinas verdes. Pouco a pouco, uma poeira de ocre transparente, que se esbate para o alto, cobre todo o horizonte e o sol aponta, deslumbradoramente, como uma gema de ovo flamante. Vapores diáfanos diluem-se lentamente, em meio dos listrões vivos que purpureiam o nascente. Fundem-se no ar tons delicados de azul e rosa; e eleva-se da floresta uma orquestração triunfal. Despertam de súbito, ao alagamento tépido da luz, as culturas adormecidas. Abrem-se as casas. Pelos terreiros, úmidos da serenada da noite, homens de cócoras, em camisa de canjirão na mão, brancos de frio, ordenham as grossas tetas das pacientes e mugidoras vacas, que criam amarradas aos finos paus das parreiras, e que, expelindo fumaça  no ar frígido, ruminam ainda restos de grama numa mansidão ingênua de animal digno. Mulheres de xale pela cabeça chamam as galinhas, com um ruído seco de beiço tremido, fazendo burr e sacodindo-lhes mãos cheias de milho e pirão esfarelado.  Um carro atopetado de mandioca, arrancadas de fresco, empoeiradas de areia, compridas, tortas, com o aspecto e a cor esquisita das plantas que se avolumam e vegetalizam enterradas, chia monotonamente, em direção ao engenho, solavancado pela aspereza do  caminho… E pela compridão majestosa e verde dos alagados e das pastagens, o colorido movimentoso e variado das reses.

 

[Exemplo de vistas movimentadas]

Em: Flor do Lácio,[antologia]  Cleófano Lopes de Oliveira, São Paulo, Saraiva: 1964; 7ª edição. (Explicação de textos e Guia de Composição Literária para uso dos cursos normais e secundário), páginas 59-60.

virgilio varzea1

Virgílio dos Reis Várzea (Brasil,1863 – 1941) escritor, jornalista e político brasileiro. Nasceu em Florianópolis, mas radicou-se no Rio de Janeiro a partir de 1896.  A maioria de suas obras é ambientada em Santa Catarina.  Com Cruz e Sousa publicou o livro Tropos e Fantasias (1885).

Obras:

Traços Azuis, 1884

Tropos e Fantasias,1885, com Cruz e Sousa

Mares e Campos, 1895

Rose Castle, 1895

Santa Catarina: A Ilha, 1900

George Marcial, 1901

O Brigue Flibusteiro, 1904

Nas Ondas





A arte do ensaio muda de cara

21 02 2013

Chatterton-Purdy-PamelaLeitora, s/d

Pamela Chatterton-Purdy (EUA, contemporânea)

www.chatterton-purdyart.com

O  mais recente número da revista New Republic, traz o interessante artigo The New Essayists or the decline of a form, por Adam Kirsch.  Ele demonstra que a morte do ensaio literário, diferente do que se presumia há quase 30 anos, não chegou a existir e que hoje o ensaio está mais vivo do que se poderia esperar. Há um número significativo de volumes de ensaios chegando às listas de mais vendidos.  Algo muito maior do que o sonhado em passado recente. O assunto me interessa porque o ensaio é uma das minhas formas favoritas de leitura e muito já desejei, quando adolescente, pensando que me caberia um espaço nas artes literárias, que esta seria a minha forma de expressão.  Desde os Ensaios de Montaigne, aos de Emerson, aos de Gore Vidal, para dar exemplos genéricos e universais, considero o ensaio como uma forma literária agradabilíssima, em que podemos seguir a maneira de pensar do autor, apreciar seus argumentos e além disso apreciar o estilo e a perspicácia com que um argumento seduz o leitor.  Nem sempre é necessário que se concorde com o autor.  Um bom ensaísta pode ser apreciado pelo método e pela arte literária mesmo que se discorde do conteúdo.

Adam Kirsch lembra, no entanto, que o ensaio mudou de cara. Ele considera quatro livros publicados nos Estados Unidos e descobre que o conceito que tivemos de ensaio já não se aplica.  O ensaio ao que tudo indica passou a ser uma performance e não uma reflexão do autor.  Passou a ser uma crônica, um causo de ficção, deixando para trás aquilo que percebemos no verdadeiro, ou melhor na antiga concepção do ensaio, que é a opinião do autor, que a justifica pelo uso de suas associações, pelo  uso de suas convicções.  O ensaio atual não passa de uma meta linguagem, em que o autor cria um personagem que por sua vez é quem considera diversos aspectos culturais.  Como se Dona Candoca, alterego do colunista Artur Xexeo, com o qual ele expressa opiniões nem sempre das mais eruditas, fosse na verdade a personagem que pensasse e organizasse uma linha de pensamentos e os defendesse.  É o eu de ficção que agora toma o lugar do pensador.  Lembra também que os detalhes do dia a dia do personagem inventado são agora o assunto pelo qual percebemos e debatemos o mundo.   É o reality-show do eu ficcionalizado.  É o tele-ensaio.  Pena.  Para onde foram os pensadores?  Levante-se, por favor, o verdadeiro pensador.

PERGUNTA: Qual é o seu ensaísta brasileiro favorito?

Ah, sim, o meu?  Provavelmente Gilberto Freyre, mas é difícil dizer. Ledo Ivo está muito próximo dele.