A cela do religioso, texto de Aluísio de Azevedo

5 03 2013

64newtes

Monge franciscano lendo, 1661

Rembrandt Harmenszoon van Rijn (Holanda, 1606- 1669)

Óleo sobre tela, 82 x 66 cm

Museu de Arte Sinebrychoff, Helsinque, Finlândia

“A porta abriu-se sem ruído. Ele entrou, e a porta fechou-se de novo, silenciosamente.

O lugar em que o venerando religioso acabava de penetrar, era uma triste cela, sombria e espaçosa, com uma janela gradeada e fechada, e apenas frouxamente esclarecida por uma clarabóia do teto. As paredes, nuas de alto a baixo, tinham uma cor sinistra de osso velho. Em uma delas havia um grande nicho com a imagem da Virgem da Conceição, quase de tamanho natural; a um dos cantos, uma negra estante toscamente feita, pejada de grossos alfarrábios amarelecidos pelo tempo; no centro, uma mesa de madeira escura com um breviário em cima, ao lado de uma candeia de azeite, um pedaço de pão duro e um cilício cru; junto à mesa, um banco de pau”. 

Em: A mortalha de Alzira, Aluísio de Azevedo, publicado pela 1ª vez em 1892, primeiro capítulo, em domínio público.





Canção da Garoa, poesia infantil de Mário Quintana

4 03 2013

chuva, ilustração  Walter CraneIlustração Walter Crane.

Canção da Garoa

Mário Quintana

Em cima do telhado

Pirulin lulin lulin,

Um anjo, todo molhado,

Soluça no seu flautim.

 –

O relógio vai bater:

As molas rangem sem fim.

O retrato na parede

Fica olhando para mim.

 –

E chove sem saber porquê

E tudo foi sempre assim!

Parece que vou sofrer:

Pirulin lulin lulin…

 





A arte referencial e onírica de Leo Brizola

3 03 2013

Barbara Leo Brizola

Bárbara, 2011

Leo Brizola  (Brasil, 1962)

acrílica sobre tela, 160 x 200 cm

Foi através do SOLO ART — link generosamente mandado por minha amiga Vera — que encontrei a arte do mineiro de Belo Horizonte, Leo Brizola.  E gostei.  Resolvi então colocá-lo aqui, dando continuidade ao “artista brasileiro do mês”.  Leo Brizola dialoga com a pintura que o precedeu e  mostra a sua realidade fantástica.

Diana e a velha, Leo BrizolaDiana e a velha, 2011

Leo Brizola (Brasil, 1962)

acrílica sobre tela, 200 x 170 cm

O trabalho de Leo Brizola é onírico.  Mas o diálogo permanente com artistas do passado ajuda a colocar sua visão em foco, tanto na alusão visual, quanto na alusão temática.

Olfato, sd

Olfato

Leo Brizola (Brasil, 1962)

acrílica sobre tela

Leo Brizola demonstra ter um bom senso de humor e grande irrevência quando trata dos assuntos, dos temas que retrata. Observar uma de suas enigmáticas pinturas é simultaneamente se expor a um sorriso e a uma lembrança de alguma outra pintura, mas ser específico. É como se visitássemos o nosso inconsciente coletivo.

– 

albAnunciata

Albanunciata, 2011

Leo Brizola (Brasil, 1962)

acrílica sobre tela

SONY DSCAudição, 2010

Leo Brizola (Brasil, 1962)

acríica sobre tela, 100 x 100 cm

Formado em Artes Plásticas pela Escola Guignard/ Universidade do Estado de Minas Gerais (1981-1987)  e Belas Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais (1983-1985) mostra grande segurança de técnica e tema:  refere-se não só ao passado, mas o utiliza para retratar seu lugar  no presente.





Conhecer o outro é o que a leitura me permite

2 03 2013

julia-beck-self-portrait-1882

Retrato da pintora Julia Beck, 1882

Richard Bergh Malningen (Suécia, 1858-1919 )

óleo sobre tela

Museu Nacional da Suécia, Estocolmo

No início de fevereiro fiz uma postagem sobre o novo livro de David Shields em que ele discursa sobre o valor da literatura [Qual é o valor da leitura literária?] e minha amiga Nanci, que muito me prestigia lendo com atenção este blog, lembrou que na minha postagem eu havia me esquivado de responder à pergunta título.  Pedi a ela um tempinho para responder.  Chegou a hora da verdade.  Não há uma única resposta.  São muitas, assim como muitas fui e sou. A cada fase da vida a leitura literária teve uma ou mais funções.

Livros sempre fizeram parte da minha vida.  Cresci numa família de leitores. Não só meus pais eram leitores, mas tios e avós também.  Desse modo posso dizer que fui programada para fazer da leitura um hábito para a vida toda.  Ponderei sobre a questão e acho que encontrei o meu fio da meada: a leitura literária me permite conhecer o outro, aquele diferente de mim.





Identidade, poema infantil de Carlos Queiroz Telles

1 03 2013

praia, Wesley Snyder

Praia, ilustração de Wesley Snyder.

Identidade

Carlos Queiroz Telles

Cabelos molhados,
sol encharcado,
pele salgada,
vento nos olhos,
areia nos pés.

O corpo sem peso
é nuvem à-toa.
O tempo inexiste.
a vida é uma boa!

Mergulho na água
azul deste céu.
Sou peixe de ar.
Sou ave de mar.

Mergulho em mim mesmo,
silêncio profundo.
Sou eu e sou Deus
de passagen no mundo,
nadando sem rumo
entre conchas e paz.

Em: Sonhos, grilos e paixões, Carlos Queiroz Telles, São Paulo, Moderna: 1990

 





Feliz aniversário, RIO DE JANEIRO!

1 03 2013

Digital StillCameraPão de Açúcar,  Enseada de Botafogo, Baía de Guanabara, Rio de Janeiro.

1º de março

Rio de Janeiro, 448 anos!

Cidade Maravilhosa!





Palavras para lembrar — Mark Haddon

28 02 2013

dimitris voyiazoglou, the horosope reader II

Leitora de horóscopo

Dimitris Voyiazoglou (Grécia/Holanda, contemporâneo)

“Ler é uma conversa.  Todos os livros falam.  Mas um bom livro também escuta”.

Mark Haddon





O gabinete do médico, texto de Aurélio Pinheiro

28 02 2013

Edwaert Collier Vanitas Still Life 17th century. Edwaert CollierVanitas, 1669

Edwaert Collier (Holanda, 1642-1710)

óleo sobre madeira, 32 x 27 cm

O gabinete do médico

Aurélio Pinheiro

O Dr. Elesbão recebeu-nos com um sorriso sereno, em sua fecunda biblioteca, de altas, solenes estantes de mogno. Era uma grande sala, branca, de espiritualizante claridade, com as janelas abertas para o nascente. Sobre a larga mesa de estudos havia livros esparsos, papéis, vários objetos e um tinteiro de prata com uma águia de asas distendidas na ânsia de um vôo fremente. Junto à mesa, num dunquerque de ébano, pousava uma caveira sobre um suporte niquelado. Pelos cantos, colunas de mármopore ostentavam estatuetas e jarrões, e atrás da cadeira do Mestre surgia o busto de Hipócrates, saliente e austero como o de um deus pensativo. Entre duas estantes um pêndulo alto e negro marcava as horas, antecedendo-as de um minuete do tempo do Rei-Sol. Nas paredes dois quadros a óleo: — uma cabeça de velha a sorrir com brandura e uma álacre marinha… Um sofá de molas envolvido em capa de linho branco e algumas cadeiras de jacarandá com espaldares em alto relevo, completavam o severo mobiliário.

Em: Flor do Lácio,[antologia]  Cleófano Lopes de Oliveira, São Paulo, Saraiva: 1964; 7ª edição. (Explicação de textos e Guia de Composição Literária para uso dos cursos normais e secundário), página 23.

Aurélio Waldomiro Pinheiro (RN 1882 – RJ 1938) médico, jornalista, poeta, escritor.Formado em medicina , pela Faculdade de Medicina da Bahia, graduando-se em 1907.  Retorna ao Rio Grande do Norte (Macau), onde além de clinicar colabora com o jornal O Mossoroense.   Em 1910 muda-se para Parintins no Amazonas. Faleceu em Niterói, no Rio de Janeiro em 1932)

Obras:

Gleba tumultuária, prosa, 1927

O desterro de Umberto Saraiva, romance, 1928

Macau, romance, 1932-34

À margem do Amazonas, prosa, 1937

Em busca do ouro, prosa, 1938

Dicionário de sinônimos da língua nacional, s/d





Quadrinha do vento

27 02 2013

vento, andré edoaurd marty, 1919

Vento, cartão postal, ilustração de André Edouard Marty, 1919.

O vento, com seus gemidos,

que só a dor sabe tê-los,

gelado como a saudade,

vem me beijar os cabelos.

(Manuel Lins Caldas) [pseud. Daslak]





Imagem de leitura — Adam Buck

27 02 2013

Mother_and_Child_1

Mãe e filho

Adam Buck ( Irlanda, 1759-1833)

gravura

Victoria & Albert Museum, Londres

Adam Buck nasceu em Cork, na Irlanda, em 1759. Foi um pintor miniaturista trabalhando  entre 1780 e 1790, enquanto ainda morava na Irlanda.  Mudou-se para Londres em 1795. Exerceu grande influência na cultura da época da Regência fazendo  gravuras de trajes contemporâneos, bem como retratos de famílias, no gênero de cenas clássicas e ilustrações para Laurence Sterne ‘s Sentimental Journey.  Foi  professor de pintura, e fez inúmeras exposições de  miniaturas e pequenos retratos de corpo inteiro na Academia Real entre 1795 e 1833. Morreu em Londres em 1833.