Leilão de jardim, poesia infantil de Cecília Meireles

20 02 2013

vendido

Bolinha vende um ramo de flores para Raposo. Ilustração Marjorie Henderson Buell.

Leilão de Jardim

Cecília Meireles

Quem me compra um jardim com flores?

Borboletas de muitas cores,

lavadeiras e passarinhos,

ovos verdes e azuis nos ninhos?

 –

Quem me compra este caracol?

Quem me compra um raio de sol?

Um lagarto entre o muro e a hera,

uma estátua da Primavera?

 –

Quem me compra este formigueiro?

E este sapo, que é jardineiro?

E a cigarra e a sua canção?

E o grilinho dentro do chão?

 –

(Este é o meu leilão.)

 





Curso de História da Arte Moderna em 10 encontros

18 02 2013

2

Mulher com chapéu [Sra. Matisse], 1905

Henri Matisse (França, 1869-1954)

Óleo sobre tela,  79 x 60 cm

Coleção Particular

Curso de Arte Moderna em 10 encontros

Cem anos: do impressionismo à decada de 1970

Historiadora da Arte: Ladyce West  [Peregrina Cultural]

Todas as segundas-feiras das 17:00 às 19:00 horas

Início: 4 de março de 2013

Local: Auditório Helena Lodi, VOZ PLENA

Rua Djalma Ulrich 154, 5º andar, esq. N. Sra. de Copacabana

Informações e inscrições: ladycewest@gmail.com 

Vagas limitadas





Palavras para lembrar — C.S. Lewis

18 02 2013

Min Li

Antes do concerto, 1998

Min Li (China, contemporâneo)

Óleo sobre tela, 77 x 77 cm

www.minlifinearts.com

“Lemos para saber que não estamos sós.”

C.S. Lewis





O bem-te-vi, poema de Reynaldo Valinho Alvarez

18 02 2013

Pássaros na cidade AliceMartinPássaros na cidade, ilustração de Alice Martin.

Bem-te-vi

Reynaldo Valinho Alvarez

Amo tanto esses pássaros da rua,

que vivem como vivo na fumaça,

protagonistas da paisagem baça.

Respiram, como eu próprio, esta mistura,

feita do que há de pior nas criaturas.

No ar, há certo escândalo na graça

com que apesar de tudo, ainda cantam.

O pássaro que passa ara seu vôo

com precisão estética e ultrapassa

o meu próprio desejo de ser livre.

Que preço tem a liberdade? Certo,

o bem-te-vi da esquina, empoleirado

numa antena prosaica, sabe mais

do que posso saber, já que não vôo.

Em: Galope do Tempo, Reynaldo Valinho Alvarez, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro: 1997, p. 79.





Lorenzo Durán, arte com natureza

17 02 2013

Lorenzo Duran,hoja03

Lorenzo Durán Manuel Silva nasceu em Cáceres em 1969.  Hoje vive em  Guadalajara, próximo a Madri, capital da Espanha.  Depois de tentar várias formas de expressão artística,  desenvolveu uma técnica especial,  semelhante à usada  há séculos no Oriente e também na Europa central, de recorte de papel, para produzir trabalhos em folhas secas, de grande minúcia.

http://www.naturayarte.es

Lorenzo Duran, 2-600x400

Lorenzo Duran, 231

Lorenzo Duran, hoja01

Lorenzo Duran, hoja05

Lorenzo Duran, 162

Lorenzo Duran, hoja08

Lorenzo Duran, 26

Lorenzo Duran,hoja02

Lorenzo Duran, hoja07

Lorenzo Duran, article-2219024-158B24BE000005DC-216_966x611Lorenzo Durán.




Palavras para lembrar — Christopher Morley

16 02 2013

Correction_img254-rsz-9af26

Leitora, 2008

Guy Baron (França, 1946)

Óleo sobre tela, 40 x 80 cm

Guy Baron

“Quando você vende um livro a alguém você não vende só 12 onças de papel, tinta e cola – você lhe vende uma vida completamente nova.”

Christopher Morley





Como escrever um romance, texto de Katherine Pancol

16 02 2013

François Fressineir, Belles_Heures

Ponto alto, s/d

François Fressinier (França, 1968)

Técnica mista com pintura a óleo

www.françoisfressinier.com

“Olhou para o computador, um lindo laptop branco que esperava por ela de goela aberta sobre a mesa da cozinha, cheia de livros, faturas, canetas hidrocor, Bics, folhas de papel, migalhas do café da manhã. Seu olhar deslizou sobre o círculo amarelado deixado pelo bule de chá, a tampa do pote de geléia de damasco, um guardanapo enrolado como uma serpente branca…Precisava abrir espaço para poder escrever e deixar sua tese de habilitação de lado. Precisava de tanta coisa, tanta coisa, suspirou, repentinamente cansada diante da idéia de todo o esforço que teria de fazer. Como escolher o tema de um livro? Como criar os personagens? A história? As reviravoltas? Elas se originam nos acontecimentos exteriores ou na revolução dos personagens? Como começar um capítulo? Como organizá-lo? Devia reler seus trabalhos e pesquisas para evocar as façanhas de Rolland, Guilherme, o Conquistador, Ricardo Coração de Leão, Henrique II, pedir ao espírito de Chrétien de Troyes que baixasse sobre ela? Ou se inspirar em Shirley, Hortense, Iris, Philippe, Antoine e Mylène, vesti-los com um hennin medieval, um par de polainas ou tamancos, instalá-los no campo ou no castelo? O cenário muda, as oscilações do coração perduram. O coração bate, idêntico, em Leonor, Scarlett ou Madonna. As pregas de um vestido, as cotas e malha de ferro se desfazem em poeira, mas os sentimentos permanecem. Por onde começar?, repetia Josephine consigo mesma, observando a intensidade da luz daquele mês de janeiro baixar suavemente sobre a cozinha, iluminar com luz pálida aborda da pia e morrer no escorredor. Existe alguns livro de receitas para escrever? Quinhentos gramas de amor, 350gr de referências históricas, um quilo de suor… deixe cozinhar em fogo brando, em forno quente, mexa para evitar que grude ou forme caroços, deixe repousar três meses, seis meses, um ano. Stendhal, segundo dizem, escreveu o Cartouche de Parma em três semanas, Simenon finalizava seus romances em dez dias. Mas durante quanto tempo eles carregaram essas obras consigo e lhes deram alimento ao levantar de manhã, vestir as calças, beber seu café, recolher correspondência, observar a luz da manhã se espalhando sobre a mesa do café da manhã ou contar os grãos de poeira num raio de sol? Deixar o tempo agir. Encontrar seu modo de usar. Beber café como Balzac. Escrever em pé como Hemingway. Encerrada como Colette, quando Willy a trancafiava. Fazer pesquisa como Zola. Usar ópio, um bom tinto, hachiche. Vociferar como Flaubert. Correr, devagar, dormir. Ou não dormir como Proust. E eu? O tecido encerado da toalha da mesa da cozinha, o face a face com a pia, o bule de chá, o tique-taque do relógio, as migalhas do café da manhã e as prestações a pagar! Léautaud dizia: “escreva como quem escreve uma carta, não  releia; não aprecio a grande literatura só gosto da conversação escrita.” A quem posso enviar uma carta? Não tenho nenhum amante me esperando no parque. Não tenho mais marido. Minha melhor amiga mora no mesmo andar que eu.”

Em: Os olhos amarelos dos crocodilos, Katherine Pancol, Rio de Janeiro, Suma das Letras:2012, p.198-199.





Quadrinha da boa pesca

15 02 2013

???????????????????????????????Pescadores, ilustração Walt Disney.

Do peixe, como eu dizia,
sem pretensão de iludi-los,
somente a fotografia
pesava mais de oito quilos!

(José Machado Borges)





Katherine Pancol e a ficção encantada para adultos

14 02 2013

family-ties-ruben-ubiera, acrilica sobre madeira, caixas de charutos, tampas.

Laços de família, s/d

Ruben Ubiera (República Dominicana, 1975)

acrílica sobre madeira

[tampas de caixas de charutos]

www.urbanpopsoul.com

Um milhão de franceses compraram e leram, presume-se, Os olhos amarelos dos crocodilos de Katherine Pancol. Quando soube desses números pensei estarmos falando de um livro para adolescentes.  Tamanha popularidade nos dias de hoje atribui-se com frequência a esses novos leitores. Mas nesse Carnaval arrisquei sua leitura, já que me veio recomendado por uma boa amiga.  Que prazer!

Trata-se de um romance sobre gente comum, fazendo coisas comuns, tomando decisões nem sempre sábias, chegando a resultados surpreendentes.  Essas páginas retratam uma família: uma família e seus correlatos. No centro da narrativa estão duas irmãs – Joséphine e Iris —  que não poderiam ser mais opostas em temperamento,  aparência física, posição social e interesses. Conhecemos seus filhos, seus pais, seus maridos, o padrasto e outros personagens que compõem esse cosmos urbano: amigos, amantes, namorados.   É uma história contemporânea, com personagens que, se não conhecemos, poderíamos vir a conhecer, entre nossos amigos e familiares.  São professores, advogados, comerciantes, adolescentes, cabeleireiros, vendedores, todos de maior ou menor sucesso profissional e, certamente, todos à procura do bem estar, da felicidade.  Katherine Pancol consegue gerenciar um bom leque de personalidades, mostrando como se víssemos numa lâmina de microscópio, um retrato das fragilidades e solidez dos valores da classe média.  Aqui, da classe média francesa, mas cujos objetivos, preocupações e limitações são típicas de qualquer lugar do mundo.

OS_OLHOS_AMARELOS_DOS_CROCODILOS_1333140794P

Mas não é só um retrato da classe média.  Não.  Nessa receita de sucesso há também alguns ingredientes quase fantásticos que nos lembram que uma boa história precisa de mocinhos e vilões, de traição e de amor.  Se analisarmos alguns segmentos poderíamos traçar paralelos com muitos contos de fadas que povoaram nossa infância e que são apreciados até hoje por todos – veja-se o exemplo dos parques de diversões, onde Cinderela e Branca de Neve são sucesso absoluto.  Não que Katherine Pancol esteja contando uma história da carochinha para adultos. Não, não é isso.  Mas nesse romance há cobiça, afronta, roubo, más intenções, injúria tudo na dosagem certa para ser eventualmente corrigido e de extrema satisfação para o leitor.

No centro da história está Joséphine, a anti-heroína por excelência. Um patinho feio.  Um rato de biblioteca. Explorada por todos.  Reticente, compreensiva demais, apagada. Indecisa, altruísta, meditativa. Mas, por quem torcemos do início ao fim.  Nossa Gata Borralheira tem uma paixão: a Idade Média, o século XII.  Sonha com as heroínas da época, com as aventuras dos cavaleiros, com as Cruzadas, com os vilarejos do reino de Aquitânia.  Sua paixão, sua fascinação intelectual, é desprezada por todos à sua volta. Incompreendida, ela quase passa a vida em brancas nuvens, soçobrando de porto em porto, das filhas ao marido, à mãe, à irmã. E no entanto, sabemos que, se há justiça nesse mundo, ela será vingada, assim como acontece com todas as heroínas dos contos clássicos do folclore europeu de onde vieram os contos de Grimm e Andersen.

katherine pancol

Katherine Pancol

A história de Joséphine também dá grande satisfação ao leitor – e acredito que a maioria dos leitores desse romance sejam mulheres – porque é uma história, em que diferentemente dos contos de fadas, o poder transformador, o elemento que eventualmente altera a imagem que Joséphine tem de si mesma, não lhe vem através de fadas madrinhas, mas através de seu crescimento interno, crescimento emocional e descobertas sobre sua própria habilidade de controlar as vicissitudes, os obstáculos imprevisíveis que aparecem em seu caminho. À semelhança de muitos pequenos heróis, de muitos desportistas, políticos, pessoas que chegam a um lugar de prestígio, Joséphine terá que vencer seus próprios medos, seus próprios monstros, para se tornar a mulher cujo potencial antevemos, mas que seus pares não lhe creditam. Uma ótima narrativa, deliciosa mesmo, com um ritmo maravilhoso e algumas lições de vida.  Não se pode esperar mais de um bom entretenimento; afinal um milhão de franceses não poderiam estar errados.





Chuva, poesia infantil de Luísa Ducla Soares

13 02 2013

chuva e gato preto B. Midderigh Bokhorst,

Ilustração alemã, sem autoria, década de 1930.

Chuva

Luísa Ducla Soares

Cai a chuva, ploc, ploc
corre a chuva ploc, ploc
como um cavalo a galope.

Enche a rua, plás, plás
esconde a lua, plás, plás
e leva as folhas atrás.

Risca os vidros, truz, truz
molha os gatos, truz, truz

e até apaga a luz.

Parte as flores, plim, plim
maça a gente plim, plim
parece não ter mais fim.

Em: A Gata Tareca e Outros Poemas Levados da Breca, Luísa Ducla Soares, Teorema: 1990