Tesouro no fundo do mar, na costa da Indonésia

21 06 2011

Um navio que afundou no século XVI na costa de Indonésia acaba de ser encontrado pela companhia privada portuguesa Arqueonautas Worldwide, especializada em explorar sítios submarinos onde há a possibilidade de serem achadas embarcações comerciais que foram a pique em séculos passados.  O navio,  que submergiu em 1580, era chinês carregado com aproximadamente 700.000 peças de porcelana para exportação, avaliadas em US$70.000.000 – setenta milhões de dólares.  A carga foi encontrada a 150 km da costa.

Foto de uma parte da carga encontrada submersa.

O navio, que afundou em águas de 50 m de profundidade, foi originalmente encontrado por pescadores em 2009.  E o governo da Indonésia procurou as companhias Arqueonautas Worldwide  e RM Discovery Inc. para fazerem a recuperação dessa valiosa carga.  Com autorização do governo, ambas as companhias protegem, agora, o local de saqueadores.  O sucesso dessa operação foi divulgado no início dessa semana, onde foi também anunciado que esta é a maior carga de porcelana da dinastia Ming, do período do imperador Wanli (1572 -1620), já encontrada.

A companhia agora procura investidores para poder começar o resgate das peças no final no verão no hemisfério norte.





Göbekli Tepe: a descoberta do Jardim do Éden?

18 06 2011

 

Göbekli Tepe, Turquia

A minha geração estudou história sob a influência do arqueólogo  V. Gordon Childe, responsável pela teoria da Revolução Neolítica, que explicava que a civilização, como a conhecemos, havia sido consequência da agricultura.  De bandos de nômades havíamos passado a uma vida mais sedentária, reunida à volta de vilarejos e cidades, cultivando trigo, cevada e domesticando animais.  A razão para o aparecimento de aglomerados urbanos era simples: precisávamos tocar quintas, plantações, e garantir comida o ano inteiro.   Os ajuntamentos facilitavam a defesa dos interesses grupais:  garantir que  colheitas não fossem parar em mãos inimigas ou roubadas por bandos famintos, ainda nômades, que cruzavam a terra.

Parte do estabelecimento dos seres humanos em cidades e aldeias justificaria assim o aparecimento da hierarquia de comando, de principados, reinos, de classes sociais dominantes e da religião organizada.  Essa visão antropológica do nosso desenvolvimento era abrangente o suficiente para que não a questionássemos.  Além disso ela explicava muito do que não conseguíamos explicar de outra forma.  Foi só na década de 1990, com as primeiras descobertas arqueológicas em Göbekli Tepe, na Turquia, que evidências de outra possibilidade começaram a surgir.   E vieram tão numerosas e de tantas formas diferentes, que a necessidade de revermos de maneira drástica o que imaginávamos ser o desenvolvimento dos seres humanos no Neolítico se fez necessário.  A revista The National Geographic Magazine deste mês foca nas consequências das descobertas de  Göbekli Tepe:  a organização religiosa dos seres humanos talvez não tenha vindo como consequência da Revolução Neolítica, mas ao contrário:  a  necessidade de uma religião organizada pode ter dado origem à agricultura.



Stonehenge, Inglaterra

É uma reviravolta inesperada e fascinante.

Até evidência em contrário, o aparecimento da religião organizada entre os homens aconteceu na Turquia, em Göbekli Tepe, mais ou menos há 11.000 anos atrás.  As fundações desse templo religioso no topo de uma montanha, a 15 km de Şanlıurfa, no Sudeste da Turquia, são incontestáveis.  Haveria outros templos mais antigos?  Não sabemos.  Por ora, a civilização começou aí.  Göbekli Tepe é um templo extraordinário.  Ou melhor, uma série de templos dos quais muito pouco está escavado.   Inicialmente havia sido comparado a Stonehenge, na Inglaterra, por causa de seu desenho quase circular de pedras variadas.  Mas a semelhança com o sítio na Inglaterra para na forma circular.  Göbekli Tepe  foi construído muitos milênios antes de Stonehenge [que foi construído por volta de 2.500 anos aC, ou seja há 4.500 atrás].  Além disso, o complexo arqueológico turco é mais sofisticado.  Suas pedras gigantescas são cortadas com precisão e apresentam baixo-relevos de animais variados:  cobras, raposas, escorpiões, javalis e bandos de gazelas.  Construído uns há 11.600 anos, e 7.000 anos antes das pirâmides do Egito,  Göbekli Tepe  prima por maior sofisticação na construção do que se imaginava para a época, quando comparamos este a outros sítios posteriores.  Hoje, é considerado o primeiro grande monumento arquitetônico da humanidade.

Ilustração de bandos de nômades, como seriam os homens do neolítico.

Como então Göbekli Tepe se encaixa na chamada Revolução do Neolítico, proposta por Childe?  Não se encaixa.   Aquela época importante quando a agricultura tomou conta da nossa vida no planeta, aqueles milênios em que as culturas nômades dedicadas à caça e pesca passaram a plantar e cultivar os animais, não parece se refletir no primeiro grande templo da humanidade.  E isso é só uma das partes desse quebra-cabeças.

Mas o que foi achado em Göbekli Tepe para nos fazer questionar o que parecia certo e lógico?  Localizado na maior colina em toda área, por quilômetros e quilômetros, esse templo consiste de 20 câmaras no subsolo que têm um grande número de pedras de calcário em forma de T.  Muitas dessas pedras e pilares foram decorados com o desenho de animais do campo, em relevo, cinzelados.  As pilastras estão organizadas em círculos de pedras, — quatro foram escavados até agora.  Cada círculo tem não mais do que 30 m de diâmetro.  As pedras que os formam são de aproximadamente 6 metros de altura, pesando entre 12 a 18 toneladas.

Göbekli Tepe, Pedra do sol  [nome dado pelos arqueólogos para distinguí-la de outras pedras].

No entanto, não há vestígios de habitação permanente de seres humanos no local.  Nem mesmo rastros deixados por acampamentos de longa duração, já que nessa época não existiam ainda vilarejos, nem cidades, nem aglomerados humanos de maior complexidade.  Os seres humanos eram nômades, sobrevivendo da caça e pesca e de colheita de frutos da natureza.  Então como construir um monumento desse porte, se era preciso um grande número de pessoas, organizadas, que  exercessem diferentes tarefas?    As pedras da construção de Göbekli Tepe  são encaixadas precisamente, têm formas específicas e eram transportadas de longe, para este local pesando em média 15-16 toneladas cada.  Só isso exigiria uma organização muito mais complexa do que creditamos nossos antepassados de poderem ter exercido, porque tudo isso foi feito numa época em que os seres humanos não conheciam a escrita, o metal, a cerâmica ou a roda.

O que causaria esse grande esforço para se construir um templo, num lugar de tão difícil acesso?  O que havia levado esses povos a construir algo tão ambicioso?  E mais estranho ainda:  a enterrá-lo propositadamente depois de algum tempo e abrir um outro  templo circular um pouco mais adiante, e ao fim de um determinado tempo, enterrá-lo e assim por diante?  Acredita-se haver uns 20 a 40 templos circulares em volta de Göbekli Tepe.   Como o arqueólogo responsável Klaus Schmidt do Instituto de Arqueologia da Alemanha imagina: “bandos de caçadores teriam se juntado no local esporadicamente, através das décadas de construção, vivendo em tendas feitas de peles de animais e caçando os animais locais para alimento”.

Göbekli Tepe, vista de cima.

Os pilares, as colunas de pedra, foram colocados em círculos, num desenho comum a todos.  São pedras de calcário, como grandes colunas, ou grandes Ts.  No meio de cada círculo dois pilares.  As pedras podem ou não ser decoradas com animais estilizados, grande parte deles animais perigosos:  escorpiões armados para o ataque,  javalis agressivos,  leões ferozes.   Não se sabe ainda a razão, mas após uma ou duas décadas, essas construções eram regularmente enterradas, com todos os pilares sob terra, e novos círculos eram construídos dentro do círculo que foi enterrado, com novas pedras.  Às vezes até um terceiro círculo era organizado.   Aí então o grupo todo era enterrado, e um novo círculo, mais adiante era construído.  O local foi construído e reconstruído com círculos de pedras por séculos e séculos.  E ainda mais intrigante: a medida que os séculos passavam as construções  ficaram cada vez piores.  As pedras menos decoradas, com corte mais rústico, e tudo organizado de uma maneira menos cuidadosa.  Ao longo dos séculos o povo que construiu esses templos se tornou cada vez menos apto a fazê-lo.  Os esforços de construção pararam finalmente por volta do ano 8.200 aC.

Göbekli Tepe

Porque nenhuma habitação foi encontrada, o templo parece ter sido construído com um único objetivo: um centro cerimonial.  Os ossos achados nos canteiros arqueológicos, que mostram o que era consumido durante a construção desses círculos, são ossos de gazelas e outros animais caçados muito longe dali e mandados para o local para servirem de alimento.  Não havia nenhuma fonte de água natural no lugar.  Evidentemente havia necessidade de uma boa organização para que essa construção fosse feita e, no entanto, não foram achados ainda quaisquer vestígios de alguma estrutura social com mandantes e mandados.  Quem organizava essas centenas de pessoas necessárias para cinzelar, erguer e arranjar as pedras necessárias?  Klaus Schmidt lembra de maneira bastante enfática o que é tão intrigante:  “Descobrir que povos de caçadores, pescadores e apanhadores de frutos foram capazes de construir Göbekli Tepe  é como descobrir que alguém havia construído um avião 747 com um estilete”.  E no entanto, lá está, o templo fora do contexto temporal a que lhe atribuímos.

Câmara em Göbekli Tepe.

Mesmo que V. Gordon Childe tivesse sido abrangente demais nas suas teorias sobre a Revolução Neolítica, é preciso não descartarmos  o fato de que foi a agricultura que nos permitiu viver agrupados em  aglomerados, aldeias, cidades, reinos.  Com a agricultura também conseguimos prolongar as nossas vidas e chegar a um grande crescimento populacional.  E  poder plantar para colher não é um passo pequeno de desenvolvimento.  Mesmo que os homens neolíticos conseguissem proteger um pedacinho de terra em que o trigo ou cevada selvagens estivessem crescendo, suas sementes quando maduras se comportavam de maneira diferente das sementes dos grãos domesticados.  Isso só foi conseguido milhares de anos  mais tarde.  Os grãos das espécies selvagens se soltam da planta e caem no chão tornando uma tarefa quase impossível coletá-los no ponto preciso de amadurecimento.   Em termos de genética, a verdadeira agricultura de grãos só se deu quando uma área bastante grande de terreno pode ser dedicada ao cultivo de plantas que já haviam sofrido alguma mutação, deixando que os grãos maduros permanecessem nas plantas para a colheita.

Agricultura demanda organização, perseverança, disciplina e estratégias de longo prazo com relação ao retorno sobre o investimento do trabalho.  Como é um passo complexo aconteceu através de milhares de anos, quando povos nômades co-existiram com os sedentários.  Para que se tenha sucesso na agricultura  é necessário defender o investimento  contra a invasão territorial de animais e de outros seres humanos.  O trabalho se torna cooperativo e relativamente complexo, envolvendo um grupo social que exige uma estratificação, uma hierarquia social. Era muito maior o trabalho envolvido no cultivo de qualquer grão e na domesticação de animais  do que simplesmente colher, caçar e pescar.  No entanto, o sedentarismo prevaleceu.  Mas por que?  As vantagens são: pode-se plantar mais do que se consome; pode-se estocar comida para o período de inverno; pode-se trocar o excedente de um alimento de um grupo pelo excedente de alimentos de um outro grupo.   Mais pessoas comem.  O grupo, permanecendo num único lugar pode viver de maneira mais confortável, sem ter que carregar tudo o que lhe pertence.  Pode ter abrigo permanente contra as intempéries climáticas.

Mas nem tudo são flores.  Quando se fez a troca de uma vida de caça, pesca e colheita para uma agrícola, sedentária, o esqueleto humano mudou.   Temporariamente os homens ficaram menores, porque a dieta a que eles estavam acostumados, rica em proteína, também mudou.  Além do que, os animais domesticados também tiveram mudanças radicais sendo menos musculosos, oferecendo menos carne a ser degustada.  Mas, mesmo assim, insistiu-se na agricultura.  Por que?  É uma daquelas perguntas que ainda não pode ser bem respondida.  Há muitas teorias, entre elas a da extinção de animais selvagens pela caça generalizada, pressões populacionais…

Sabemos que a agricultura começou no que chamamos de Crescente Fértil: uma região  de clima temperado, do Oriente Médio irrigada pelos rios Jordão, Eufrates, Tigre e Nilo.  Uma área muito fértil, que é o lugar de nascença da história, da nossa história, da história da humanidade.   Foi aí que mais ou menos a 14.000 anos aC  os homens começavam a ter algum controle sobre a natureza, antes mesmo de conseguirem plantar para comer, antes mesmo de terem domínio sobre plantas e a domesticação de animais.   Foi aí que o mundo despertou.  Dá-se o nome de Crescente Fértil porque essa área, em que diversos povos chegam à agricultura, se desenhada sobre um mapa do mundo, formaria um arco, um crescente, sobre os atuais países: Egito, Israel, Cisjordânia, Líbano, partes da Jordânia, da Síria, do Iraque, da Turquia e do Irã.  É daí, nessa região, nas colinas suaves de Anatolia, que nasce a agricultura e consequentemente a civilização.  A uns poucos passos  de Göbekli Tepe. 

Localização de Göbekli Tepe, na região mais ao norte do Crescente Fértil.

É a proximidade entre o templo de Göbekli Tepe com primeiro cultivo proposital da agricultura que deixa alada a imaginação dos historiadores.  O que fez a população de Göbekli Tepe se organizar para construir um templo antes de mesmo de se organizar para a agricultura?  Obviamente havia uma necessidade emocional, interna, uma necessidade comum aos homens, de reverenciar um deus ou muitos, de idolatrar as forças que os governavam, para cultuar os favores: da caça e pesca abundantes, do renascimento constante de frutos e folhas.  Com a consciência de sua insignificância, de sua pequenez frente à natureza que os dominava, instalou-se  a precisão de um culto, dedicado a um ou mais seres, algo que aliviasse a angústia da incerteza da vida.

Área onde foram encontradas aldeias natufianas, desaparecidas por volta de 10.000 aC.

Antropólogos há muito assumem que a religião organizada surgiu como maneira de resolver problemas entre grupos à proporção que os nômades tiveram que conviver com outros grupos, quando todos se tornavam vizinhos sedentários, usufruindo das mesmas fontes de água limpa, de campos adjacentes, transformados em pequenos fazendeiros, responsáveis pela alimentação de seu grupo tribal.   Vilarejos surgiram, imaginava-se, da necessidade de estruturar as ações comuns que melhoravam a vida do individuo: enterro dos mortos;  abrigo à prova de animais para os membros do grupo,  o uso de plantas medicinais, e assim por diante.  E assumiu-se que só quando um uma visão de ordem celestial comum a um grande grupo apareceu, aí sim, vieram os templos, nas aldeias e nos vilarejos, um sistema religioso capaz de unir esses novos grupos.  Mesmo assim, já havia alguns indícios, raros é verdade, de que talvez essa ordem não estivesse correta: há resquícios de aldeias  datando de 13.000 anos aC , chamadas de Aldeias Natufianas [do período neolítico] que surgiram no Oriente médio, particularmente nas áreas que hoje cobrem os estados de Israel e Palestina,  Líbano, Jordão e oeste da Síria.  Os habitantes dessas aldeias, que viviam em lugar permanente, não eram agricultores, eram colhedores de sementes, de trigo, cevada e centeio, assim como caçadores de gazelas.  Como o professor Ofer Bar-Yosef,  da Universidade de Harvard apontou, a descoberta dessas aldeias foi “um grande sinal  de aviso que deveríamos mudar nossas idéias”. Mas essas aldeias neolíticas começaram a desaparecer por volta de 10.200 aC, quando houve uma pequena idade do gelo, com a queda da temperatura local por mais ou menos 11º centígrados.  As aldeias Natufianas certamente sugerem que a organização em aldeias veio anterior à agricultura.

Beidha, aldeia netufiana, no sul do Jordão, perto de Petra.

À medida que Karl Schmidt organiza e reflete sobre suas escavações em Göbekli Tepe também imagina as causas do aparecimento da agricultura antes mesmo da residência sedentária dos povos nômades. Talvez o templo tivesse sido construído por tribos das áreas ao entorno, num raio de 150 km, que tiveram como objetivo se agruparem, trazerem presentes e dádivas aos deuses, ou a um sacerdote. Certamente haveria alguma ordem social, que nos escapa hoje, que seria responsável pela construção do local e também pela organização dos fiéis. Haveria rituais, cantos, tambores, festas. E com o passar do tempo, da própria necessidade de alimentar os visitantes, agrupados ali para as cerimônias, houvesse aparecido a necessidade de garantir uma certa quantidade de comida. Teria nascido dessa maneira a agricultura nesse canto da Anatolia, sul da Turquia, com o cultivo mais intenso dos melhores grãos? Além das primeiras evidências de domesticação de plantas virem de Nevalı Çori, a 30 km de Göbekli Tepe, há muitos outros indícios deste início de tentaivas agrícolas, na mesma região. Os porcos domesticados pelo homem primeiro aparecem em Cayounu, a 100 km de Göbekli Tepe; gado bovino, caprino e ovino foram domesticados pela primeira vez no leste da Turquia. Todas as sementes de trigo existentes hoje no mundo inteiro são descendentes do einkorn kernel [Triticum boeoticum] cuja evidencia de DNA sugere ter sido domesticado próximo a Karaca Dağ , no sudeste da Turquia.

A visão que temos hoje da região é muito diferente daquela de então. O deserto do Curdistão era, naquela época, um lugar fértil, coberto de vegetação. Os relevos de todo tipo de animal nas pedras no templo atestam sobre esta abundância. Tudo indica que foi o homem, justamente através da agricultura do período neolítico que levou à desertificação: árvores derrubadas, o solo escorrendo com as chuvas, a terra exposta, sem plantio. Tudo o que mantinha verde esse grande oásis à beira de uma região de equilíbrio delicado, foi modificado e acabou sendo devastado. Teria sido esta a primeira grande perda ecológica que tivemos?

O Jardim do Éden, 1612

Jan Brueghel ( Holanda, 1568-1625)

óleo sobre placa de cobre,  50 x 80 cm

Galeria Doria-Pamphili,  Roma

São os contrastes entre esta visão paradisíaca da região — quando Göbekli Tepe foi construído, época em que grupos nômades se saciavam com o que apanhavam na natureza —  e a introdução da agricultura na área, com a devastação do meio ambiente em seguida, que têm levado alguns historiadores a se perguntarem se não seria justamente sobre esses eventos, a descrição da Expulsão de Adão e Eva do Jardim do Éden no Paraíso e sua subseqüente punição: serem obrigados a colher o fruto de seu trabalho, como descrito no primeiro livro do Gênese da Bíblia.  Adão, o caçador, foi levada a arar o solo de onde havia vindo.

Adão e Eva depois da Queda, 1818

Johann Anton Ramboux (Alemanha, 1790-1866)

óleo sobre tela,  115 x 139 cm

Museu Wallraf-Richatz,  Colônia

Que muitos dos relatos bíblicos vez por outra parecem ser comprovados, é fato.    Uma das publicações mais populares  de meados do século passado, que comparava  textos bíblicos às descobertas arqueológicas é o clássico E a Bíblia tinha razão, de 1955, do escritor alemão Werner Keller, um grande best-seller universal.  Muitos outros estudos desde então já apontaram diversas vezes para a área do Curdistão na Turquia como a provável localização do Éden: a oeste da Assíria, exatamente onde se encontra Göbekli Tepe.  Além disso, o Jardim do Éden bíblico está situado entre quatro rios incluindo o Tigre e o Eufrates.  Tom Knox, autor do romance de suspense The Genesis Secret, [Harper Collins: 2009] aponta para seus leitores  outros detalhes interessantes, entre eles, textos sírios, escritos na antiguidade, onde há a menção da Casa do Éden [Beth Eden], como um reino pequenino,  localizado a 75 km de  Göbekli Tepe. Outras referências  sobre a localização de um possível lugar chamado Éden [que na língua da Suméria significa “planalto” ] auxilia na localização do paraíso justamente no planalto de  Haran.

Angelus, 1857-59

Jean- François Millet (França, 1814-1875)

Óleo sobre tela, 55x 66 cm

Musee d’Orsay, Paris

Quando juntamos essas referências,  vem a vontade de dizer que as construções encontradas no sítio arqueológico de Göbekli Tepe, poderiam apontar para um templo localizado dentro do Jardim do Éden.    Mas ainda é muita especulação.  No entanto o que sabemos é que o local foi considerado santo há muitos e muitos milênios.  Inspirou o ser humano à introspecção, ao sagrado, à aceitação do divino em suas vidas.  Templo foi, sem dúvida.  Por si só expressa a necessidade humana de ir ao encontro de um poder maior,  de reconhecer suas próprias limitações e de apelar aos poderes que têm controle sobre nós.  Göbekli Tepe mostra que a necessidade de se agradecer dádivas, de se admitir o que é santo, de se confirmar em grupo a união com o Criador é inerente ao homem e como tal mais antiga do que imaginávamos.  Parece apontar, de fato, para o local do nascimento da religião.

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Esta postagem foi um sumário das idéias demonstradas nos seguintes artigos:

The Birth of Religion, de Charles C. Mann,  The National Geographic Magazine

Göbekli Tepe, em  Ancient Wisdom

Do these mysterious stones mark the site of the Garden of Eden? de Tom Knox,  The Daily Mail

E auxílio dos seguintes blogs: Hubpages; Essay Web; Hubpages (2);  Paleo Playbook, Mr.Guerriero






Rafael Falco, pintor brasileiro. Alguém tem mais informações?

30 05 2011

A morte de Fernão Dias Paes Leme, década de 40

Rafael Falco (Oran, 1885- São Paulo 1967)

Óleo sobre tela

Salão Nobre do Café Seleto, São Paulo *

* — Tudo indica que o Café Seleto foi vendido no final da década de 1970 à companhia de alimentos Sarah Lee.  Resta saber se a pintura continua lá.

Finalmente, depois de quase 3 anos de blog, tenho a oportunidade de ver que um pouquinho da minha garimpagem sobre arte brasileira pode chegar a dar frutos interessantes.  No dia 8 de março de 2009, coloquei uma tela de Rafael Falco, A morte de Fernão Dias Paes Leme, ilustrando o poema de  Afonso Louzada, Fernão Dias Paes Leme.  Como sempre tento ilustrar textos brasileiros com imagens de quadros brasileiros, que se adéquem.  Minha teoria é que se temos diversas informações sobre um momento, um evento ou uma figura histórica, como um bandeirante neste caso, se torna mais fácil para qualquer um de nós memorizar o que  lemos.  Um poema ou um quadro sobre um assunto semelhante pode fazer uma conexão na nossa memória que nos ajudará a lembrar da ocasião ou das informações.  Isso funciona porque alguns de nós têm facilidade para a memória visual, enquanto outros conseguem se lembrar de rimas ou de textos.  Tenho a impressão de que estou certa a este respeito ou as minhas postagens não estariam sendo conectadas a variados blogs e portais de auxílio ao vestibulando.  Isso me dá dupla responsabilidade.

Mas, recentemente fui contatada por familiares – 3ª e 4ª gerações de Rafael Falco  – interessados em informações sobre esse antepassado.  Isso me deu imenso – deixe-me reiterar – IMENSO prazer.  Porque se há coisa de que precisamos no nosso país é de pessoas interessadas, que se proponham a resgatar a história de um artista, de um poeta, às vezes esquecido pelas políticas e preconceitos de época, por ciúmes e inveja de seus contemporâneos, pelo descaso de intelectuais e também pela grande dificuldade de se fazer qualquer pesquisa no Brasil.  Isso faz com que informações sejam descartadas ou nunca usadas.   Como expliquei para esses leitores, eu mesma tenho na família um primo, que é neto de um conhecido escultor brasileiro.  Um escultor figurativo, realista.  Suas obras encontram-se nos parques públicos no Rio de Janeiro, em cidades vizinhas e até mesmo em parques no exterior.  No entanto, pouco se sabe a respeito do escultor e hoje a família, simplesmente para ter uma idéia de quem era esse antepassado, vira e mexe faz um passeio com a intenção de fotografar, colher dados e arrematar informações antes que elas se percam de vez.  E, agora, com a facilidade de se postar um apanhado de informações na internet, fica mais fácil pensar em distribuição de informações.  É importante ir despejando o que se sabe, porque não sabemos que o que às vezes corriqueiro para nós pode ser de maior valia para o nosso vizinho.

Tiradentes ante o carrasco, 1941

Rafael Falco (Oran, 1885- São Paulo 1967)

óleo sobre tela,  70 x 55 cm

Museu da Câmara dos Deputados, Brasília

Assim sendo, volto as minhas atenções ao pintor Rafael Falco.  Eu ia dar essas informações às suas netas, bisnetas e tataranetas respondendo aos comentários delas, mas resolvi fazer a postagem.  E ir mostrando a quem quer que seja como ir aprofundando as pesquisas.

Comecemos com suas datas.  As informações que tenho, são de Júlio Louzada, — um grande colhedor de informações sobre arte brasileira.  Sim, tudo indica que Rafael Falco nasceu em Oran, na Argélia, em 1885.

1)      Nessa época a Argélia era um estado da França. E Oran era uma cidade extremamente cosmopolita com europeus de quase todas as nações vivendo lá, era uma grande resort também.  Então, Rafael Falco, nascido em Oran, era originalmente cidadão francês.  Mas as leis de direito de cidadania são diferentes em cada país, vale a pena verificar se ele era francês mesmo ou se só nasceu em Oran,  filho de estrangeiros., nem sempre o direito à cidadania se aplica nesses casos.   Pelo nome seus pais poderiam ser espanhóis ou italianos.  Nessa época, final do século XIX, Oran era a capital do estado de Oran.  Era um departement – estado — francês e por isso mesmo é possível que haja documentação na França.  Lembrem-se de que a Argélia não era uma colônia francesa, muito pelo contrário, era considerada território francês, dividida em 3 estados todos considerados parte da França.  E só ficou independente na guerra da independência — chamada pelos franceses de guerra civil, já que era uma parte da França se separando da outra.  Essa guerra  levou muitos anos, desde meados da década de 1950 à década de 1960.  Essas informações do final do século XIX devem existir na França.  Uma excelente desculpa para os familiares irem à França ou até aprenderem francês.

2)      Como Rafael Falco já se encontrava ensinando desenho no Brasil, nas primeiras décadas do século XX, é provável que tenha chegado ao Brasil ainda criança, adolescente talvez, mas menor de idade.

3)      Dados dos serviços de imigração devem poder precisar a data de chegada de Rafael Falco ao Brasil.  Deve ter chegado com seus pais.  E como toda sua vida parece ter sido levada na região do ABC paulista, é provável que seus pais tenham entrado no Brasil pelo porto de Santos.  Há listagem dos navios chegados ao Brasil.  Há também muitos portais que ajudam a dar início a essa pesquisa, Genweb-genealogia brasileira é um de muitos.  Depois da internet, a pesquisa precisa ser feita em pessoa.  Mas vale a pena começar pela internet. A busca deve ser feita entre 1885-1900.  Lembrem-se de checar todas as possíveis formas de se escrever os nomes dos pesquisados.

Cédula de CR$ 5.000 cruzeiros-novos  cujo verso exibe gravura baseada no quadro de Rafael Falco, Tiradentes ante seu carrasco, que entrou em circulação em 1974.

O próximo dado certo que temos é que ele viveu por muitos anos, talvez a vida toda em São Carlos, no estado de São Paulo.  Sabemos também que ele ensinou desenho e caligrafia na Escola Normal de São Carlos, onde chegou a publicar um artigo na revista Excelsior: O desenho nas classes primárias. A revista Excelsior era uma publicação da Escola Normal de São Carlos que tratava de manter a memória da escola.  Não tenho certeza,  mas parece que ele foi professor nessa escola desde meados da década de 1910.  Há também a fotografia de uma ilustração dele na revista Excelsior que pode ser checada no link abaixo da dissertação A configuração do habitus professoral para o aluno-mestre: A Escola Normal de São Carlos (1911-1923) de Emerson Correia da Silva  — vá para a página 69.

Gravura feita por Rafael Falco ilustrando um poema de Longfellow.

Lá também Rafael Falco era membro do Centro Espírita de São Carlos e foi nessa cidade que ele ensinou pintura, entre 1918-1923, ao artista plástico Francisco Cimino, na Escola Normal de São Carlos. [Itaú Cultural]

Quanto à sua vida como pintor, coloco aqui o verbete encontrado no Dicionário de Artes Plásticas no Brasil, de Roberto Pontual [Civilização Brasileira:1969]

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Rafael Falco  (? – São Paulo ?)  Pintor.  Participando desde os primeiros SPBA [Salão Paulista de Belas Artes], neles recebeu medalha de bronze (1939), pequena e grande medalha prata (1940, 1941) , e os prêmios Prefeitura de São Paulo (1951 e 1965) e Assembléia Legislativa (1960).  Entre seus trabalhos mais importantes está o quadro Tiradentes ante o carrasco, que se encontra no palácio do Congresso Nacional, em Brasília.  As notas de cinco cruzeiros novos trazem no reverso idêntico tema por ele pintado.   Teodoro Braga reuniu referências bibliográficas a seu respeito em Artistas Pintores no Brasil (1942), tendo a coleção de fascículos  Grandes Personagens da Nossa História ( de publicação iniciada em São Paulo, no ano de 1969) reproduzido trabalhos de sua autoria, inclusive o citado Tiradentes ante o carrasco e A morte de Fernão Dias

Os Pioneiros

Rafael Falco ( Oran, 1885- São Paulo 1967)

óleo

Coleção Dulce Moura de Albuquerque

No texto acima, Roberto Pontual afirma que Teodoro Braga, no livro Artistas Pintores no Brasil (1942) tem dados bibliográficos sobre o pintor.  Eu não tenho em mãos este volume, mas acredito que ele exista tanto na Biblioteca Nacional aqui no Rio de Janeiro como na Biblioteca Municipal de São Paulo.  É só uma questão de procurar.  Não está online.

Outros arquivos que devem conter informações sobre o pintor são os do Salão Paulista de Belas Artes [SPBA].  No ano passado, houve uma exposição em São Paulo,Um Percurso, Uma História – O Salão Paulista de Belas Artes, no Palácio dos Bandeirantes, que reuniu 66 obras de pintores que participaram desses salões, entre 1934 e 2003.  O SPBA já não existe mais.  Mas seus documentos devem ter achado abrigo no Arquivo Histórico de São Paulo.  A curadoria dessa exposição foi de  Ana Cristina Carvalho, do Acervo dos Palácios do Governo paulista.  É possível que ela possa dar maiores informações sobre a localização desses documentos.  Talvez seja bom lembrar que a maioria dos museus não mostra o seu acervo total para o público, francamente não há espaço.  Deste modo será interessante para os familiares, ou qualquer outra pessoa interessada em descobrir mais sobre o pintor, que obtenham — e demora muito tempo — informações sobre suas obras que possam estar nos armários dos porões de museus.

Outra possibilidade de informações está evidentemente relacionada não só ao quadro na Câmara dos Deputados em Brasília, mas também ao contrato para o uso da imagem de Tiradentes ante o carrasco pela Casa da Moeda do Brasil.   Cada um desses documentos certamente contribuirá para o enriquecimento do conhecimento do pintor.

Rafael Falco foi mais importante como pintor do que  a falta de informações sobre sua vida parece dizer.  Foi contemporâneo e colega de muitos dos grandes artistas plásticos do Brasil das primeiras décadas do século passado.  Há uma pequena passagem no livro de Rubem Santos Leão Aquino, Sociedade Brasileira: uma história através dos movimentos sociais: da crise do escravismo ao apogeu do neo-liberalismo, Editora Record: 2002, pág. 433 que cito abaixo que nos dá a idéia da variedade de conhecimentos que este pintor tinha:

“A pintura na década de 1930 consolidou tendências e concepções iniciadas com a Semana da Arte Moderna, de 1922.

Exposições salões e clubes reuniram artistas progressistas, muitas vezes expressando forte crítica social, com imagens de subúrbios e bairros operários, figuras de trabalhadores.

O paulista Cândido Torquato Portinari tornou-se conhecido por pinturas murais, de grandes proporções e executadas por encomendas governamentais.  Ganhou notoriedade desde 1935 quando sua tela Café foi premiada nos Estados Unidos.

Em 1936, o governo encomendou-lhe os murais do Monumento Rodoviário, na Estrada Rio-São Paulo, seguindo-se a portentosa decoração do prédio do Ministério da Educação – a chamada Evolução Econômica do Brasil.

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Seguiram-se outras obras-primas, muitas vezes decorando e valorizando edifícios público se enriquecendo o patrimônio artístico nacional.

Além de Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Alberto da Veiga Guignard, Antônio Parreiras e do judeu-russo Lasar Segall, que já pontificavam desde a década de 1920, juntaram-se Ismael Néry, Iberê Camargo, Cícero Dias, Regina Veiga, Rafael Falco, Alfredo Volpi, Lula Cardoso Ayres, Lucy Citti Ferreira, Djanira e José Pancetti, ex-marinheiro e famoso por suas marinhas. ”

Assim chego ao final dos meus conhecimentos.  Gostaria de receber da família qualquer outra informação que eu não tenha colocado aqui.  E certamente gostaria de ter uma foto do pintor.  Como ele morreu em 1967 deve haver alguma foto dele, já que a fotografia era comum a todos.  Agradeço aos descendentes de Rafael Falco a oportunidade que me deram de expandir o conhecimento sobre mais um pequeno aspecto da arte brasileira e faço votos — e por favor me mantenham informada — de que suas pesquisas tragam muitos frutos e boas surpresas.

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NOTA: O nome do pintor pode aparecer como Rafael Falco, Raphael Falco ou Raphael Gaspar Falco.  Para quem quiser aprofundar a pesquisa essas três variações precisam ser testadas.  Como todos os documentos de época também eram na sua maioria escritos à mão há que decifrá-los.  Também a possibilidade de erros na transcrição de um documento para outro pode gerar diferenças em como se escreve um nome ou sobrenome.





História, mistério e aventura: O último cabalista de Lisboa, de Richard Zimler

24 04 2011

Leitura ritual em sinagoga, iluminura, manuscrito em Emília, na Itália.

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Raramente no grupo de leitura a que pertenço nos dedicamos a livros lançados há muito tempo, porque nem sempre é fácil para os membros conseguirem comprar volumes esgotados.  Mesmo sabendo que o livro é muito bom temos o cuidado de verificar se está disponível nas livrarias antes de o recomendarmos.  Isso nos faz ler principalmente os mais recentes lançamentos.  Foi, portanto com prazer que verificamos que a editora Best Bolso [Grupo Editorial Record] havia lançado O último cabalista de Lisboa, de Richard Zimler, originalmente publicado no Brasil em 1997 e que havia sido muito bem recomendado por amigos leitores.

Valeu à pena seguirmos essa indicação.  O romance de mistério e também histórico passado em Lisboa, em 1506, se concentra num assassinato que acontece ao mesmo tempo em que no centro da capital portuguesa aproximadamente 2000 judeus e cristãos novos são exterminados em praça pública, sacrificados vivos numa grande fogueira.  É na semana dessa horrível, desmesurada ,matança, fato histórico comprovado, instigada pelos Dominicanos, que se passa o assassinato que Berequias Zarco investiga. A vítima era Abraão, seu tio e mentor no estudo da Cabala.

O romance começa com um aceno, uma referência, às tradições românticas do século XIX, quando um autor, antes de desfiar a sua narrativa, a enquadra como vinda da descoberta de um manuscrito recém-encontrado.  Os escritores Bram Stoker (irlandês) e Nathaniel Hawthorne (EUA) são apenas dois nomes que vêm à mente quando penso nesse tipo de gancho na narrativa. Tratando-se de O último cabalista de Lisboa essa introdução é de grande efeito, porque sabemos que as histórias que conhecemos do período da Inquisição em Portugal na época de D. Manoel, O Venturoso,  são escassas e tendenciosas.  Grande parte dos manuscritos – judaicos ou não – que faziam parte da biblioteca de mais de 70.000 volumes da Coroa Portuguesa, desapareceu no terremoto de 1755.  Assim, a suposta descoberta de um manuscrito em Constantinopla, dá, desde o início da narrativa, um cunho de verdade, como um crédito para aliviar a nossa descrença.

É bom afirmar desde logo que este não é um romance religioso.  É principalmente uma história de mistério, de resolução de um crime, que acontece numa semana de grande inquietação social nas comunidades não-cristãs:  judaica e muçulmana, na Lisboa de 1506.  As referências à Cabala – estudo da natureza do que é divino – não são mais do que um pano de fundo, uma ferramenta de uso dramático, que ajuda a apresentar ao leitor, através de liberais pinceladas culturais, alguns aspectos do dia a dia da Alfama moura e judia.  A Cabala permeia o texto através de citações filosóficas de fácil compreensão, tais como “os livros são feitos por letras mágicas”, entre outras.   Torna-se evidente, logo após as primeiras 50 páginas que a intenção de Richard Zimler (um judeu americano naturalizado português que reside na cidade do Porto) é a de escrever um livro de suspense que absorva o leitor de tal maneira que não possa deixá-lo de lado.  E isso ele consegue facilmente.  Também é sua intenção, acredito, manter a memória viva de todos os sacrifícios pelos quais o povo judeu passou.  Mas seu retrato da brutalidade da época, das maneiras rudes da população, dos medos, das doenças, da peste, das crendices, do sexo, tudo que ele descreve, nos leva, a nós também, que não somos judeus, a querermos manter a memória viva dessa e de outras épocas — sobreviventes que somos todos nós dos augúrios do passado — para que chacinas, preconceitos, extermínios não se repitam nunca mais.  Nem pelas nossas mãos, nem pelas de outrem.

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Richard Zimler

O último cabalista de Lisboa apresenta uma história sobre anti-semitismo e os judeus em Portugal.  Somos levados a considerar, mais uma vez, as conseqüências de uma nobreza associada por baixo dos panos ao financiamento dos empréstimos judeus, e acima da mesa à uma religião cega, dominada pelo medo e mantenedora da  ignorância do povo.  Lembramos com esse romance do fiasco das conversões forçadas e das reações às doenças da época.  Temos que confrontar os hábitos porcos, insalubres, violentos e amorais da era das grandes descobertas lusitanas.  E de sobra somos apresentados aos valores das reais e das falsas amizades.  Tudo isso num ritmo frenético, de grande suspense.  Que mais se pode pedir de um romance de mistério?  Leitura gostosa, com passagens violentas, mas de grande lucidez e magia.





Seis quadrinhas escolares sobre Tiradentes por Walter Nieble de Freitas

17 04 2011

6 quadrinhas escolares  para o Dia de Tiradentes

                                               Walter Nieble de Freitas

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Por ter sido descoberto

Por Pedro Álvares Cabral,

O Brasil, caros colegas,

Pertenceu a Portugal.

Ouvi dizer que homens bravos,

Chefiados por Tiradentes,

Receberam nesse tempo,

O nome de inconfidentes.

Os nossos inconfidentes

Nutriam um ideal:

Desejavam separar

O Brasil de Portugal.

Joaquim Silvério dos Reis

Traiu os incoonfidentes,

Destruindo dessa forma,

O sonho de Tiradentes.

No dia Vinte e Um de Abril,

Sob vivas estridentes,

Foi, no Rio de Janeiro,

Enforcado Tiradentes.

O exemplo que Tiradentes

nos deu a Vinte e Um de Abril

É a página mais linda

da História do Brasil.

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Em: 1000 Quadrinhas Escolares, Walter Nieble de Freitas, São Paulo, Difusora Cultural: 1965





A emocionante história da Segunda Guerra Mundial, na arte de Kseniya Simonova

11 03 2011

 

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Kseniya Simonova é uma artista ucraniana, performática, que trabalha com a areia.  Este vídeo é o final de um programa de talentos.  Vale a pena dedicar os 8 minutos desta viagem pelo tempo para vê-lo. 

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Lista das músicas no vídeo:

1. Cirque du Soleil – Jeux d’Eau

2. В.Лебедев-Кумач – Священная война

3. Марк Бернес – Темная ночь

4. Apocalyptica – Harmageddon

5. John Williams – Auschwitz – Birkenau

6. Марк Бернес – Журавли

7. Apocalyptica – Nothing Else Matters

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 Palavras no final:  “Vocês estão sempre próximos”





Neandertais usavam penas como adorno

24 02 2011
Desenho de possível reconstruão do uso de penas por um Neandertal, de  Mauro Cutrona.

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Arqueólogos  trabalhando num sítio arqueológico, ao norte da  Itália, afirmam ter descobertos indícios de que os Neandertais já utilizavam penas para se enfeitar —  talvez até por ritual simbólico —  há 44 mil anos. A pesquisa aumenta o debate sobre quão distantes eram os Neandertais do Homo sapiens.   O arqueólogo Marco Peresani, paleontologista da Universidade de Ferrara, e sua equipe investigaram 660 ossos de aves de 22 espécies diferentes, encontrados com ossadas de Neandertais na Grotta di Fumane — Caverna  da Fumaça,  ao norte do país. Muitos dos ossos de asas dessas aves estavam cortados e raspados onde as penas de voo estariam presas, o que sugere que as penas eram sistematicamente removidas.

Marcas de corte e raspagem são observadas exclusivamente nas asas, indicando a remoção intencional das grandes penas”,  observou Peresani.

Entre as  22 espécies de pássaros encontravam-se uma espécie de urubu barbado (Gypaetus barbatus), o falcão-da-pata-vermelha (Falco vespertinus),o  abutre preto ( Aegypius monachus), a águia dourada (Aquila chrysaetos), o pombo (Columba palumbus) e a gralha alpina (Pyrrhocorax graculus).  A coloração das penas variava entre as cores negra, azul acinzentada e a cinza alaranjada.  As penas removidas dos pássaros eram as remiges, ou seja, as penas das asas,  as mais longas e mais belas e todas. 

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Sítio arqueológico  na Grotta di Fumane.

Assim como se acredita  que os Neandertais usavam conchas como enfeite, Peresani imagina que as penas também possam ter sido ornamentos.   Essa descoberta corrobora as investigações recentes que sugeriam que os Neandertais usariam conchas coloridas de moluscos como jóias.  Os pesquisadores nesse síitio arqueológico acreditam que plumas também eram usadas como adorno pessoal.    Na verdade, outros usos alternativos para essas penas foram descartados ao longo da pesquisa:  muitos dos pássaros que serviram de fonte  para a plumagem, eram pobres fontes de alimento e nesse período as flechas ainda não tinham sido inventadas. 

As espécies que constam nessa pesquisa;  as características anatômicas do elementos usados, e a localização das interferências humanas nessas modificações, indicam um uso muito mais chegado à esfera simbólica e de comportamento dessa população autóctone européia”, escreveram os pesquisadores.  As  descobertas acirram os debates que questiona, se os Neandertais eram uns brutamontes ou tão sofisticados quanto o Homo sapiens.

Essa pesquisa deve ajudar a descartar os preconceitos contra os Neandertais.  “Ela mostra que nossos primos extintos tinham um conceito especial a respeito de sua aparência física e identificação sócio-ambiental, que é algo frequentemente considerado uma prerrogativa dôo homem anatomicamente moderno”,  Peresani concluiu. “Sabemos que o uso de plumas de pássaros era bastante generalizado e que os humanos sempre atribuíram  grande e forte valor a essa prática, quer por sua significância social, quer para jogos, ou até mesmo na produção de objetos ornamentais e cerimoniais” disse Peresani.  “A reconstrução desse aspecto pouco conhecido e em geral bastante ocults entre os humanos já extintos é uma das metas da nossa pesquisa”.

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Fontes: Portal Terra, Discovery, Live Science.

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ARTIGO SOBRE AS JÒIAS DE CONCHAS DOS NEANDERTAIS





A moda:o papel em nossas vidas, na Fashion Week do Rio de Janeiro

13 01 2011

Sally Rosembaum, (EUA, contemporânea), Kathleen minha melhor amiga, óleo.

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Há momentos em que tudo o que fazemos parece convergir numa determinada direção, como se certos assuntos ou ações fossem inevitáveis.  Costumo respeitar essas coincidências e ver o que elas podem me oferecer.   Domingo, na semana em que a Fashion Week começa no Rio de Janeiro, me encontrei lendo com bastante gosto o artigo de  Ulinka Rublack, Renaissance Fashion: The Birth of Power Dressing [Moda na Renascença: o nascimento do vestir para o poder] que foi publicado na revista History Today, de dezembro.

Mathäus Schwarcz com Jakob Fugger, nos escritórios bancários de Fugger, 1517.

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Ulinka Rublack – que é professora na Universidade de Cambridge,  na Inglaterra, de História Européia Moderna — procura apontar para o momento em que a moda passou a ser um item de importância pessoal, que nos distingue e que reforça o status social de cada um.  No processo, ela  nos lembra de uma ou outra figura interessante dos séculos XV e XVI, como Matthäus Schwarz (Augsburgo,1497 – c. 1574).  Esse senhor, cidadão alemão, que trabalhou como contador na famosa firma de Jakob Fugger – [ lembram-se dele?  O primeiro homem a investir no Brasil, em 1503, mandando seu agente Fernão de Noronha para cá? ] —  passou para a história, não por ser um contador extraordinário, mas por ser um apreciador das artes e acima de tudo um dândi.

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Retrato de Mathäus Schwarcz, 1526

Hans Maler ( Alemanha, 1480-1529)

óleo sobre tela, 41 x 33 cm

Museu do Louvre, Paris

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Observando o retrato de Matthäus, mesmo de bandolim na mão, não temos idéia do tamanho de sua vaidade.  Mas o que ele fez de extraordinário, e pelo qual estamos gratos, hoje, cinco séculos mais tarde, foi contratar um artista em 1526 para fazer um livro com todas as roupas que possuía.  Uma espécie de catálogo de suas indumentárias através da vida, que mais tarde ele compilou no que é chamado Klaidungsbüchlein [ O Livro de Roupas].    Foram ao todo 135 aquarelas mostrando suas roupas.  A maioria dessas ilustrações foram feitas por Narziss Renner ( Alemanha 1502-1536) e detalhadamente descritas por Matthäus, de próprio punho.

O livro de roupas de Matthäus Schwarcz.

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Mas Matthäus não ficou só por aí: encomendou duas imagens de si mesmo nu, quando estava no auge de sua boa forma física, dando-se ao trabalho de anotar com precisão a medida de sua cinturinha de vespa.  Ele se preocupava em não ganhar peso que, na sua opinião, era uma indicação de velhice.   Em 1992, o historiador Philippe Braunstein editou a publicação  na França, da autobiografia de Matthäus em um volume, que me parece estar esgotado, mas cuja capa reproduz uma dessas imagens de Matthäus Scwarcz: Un banquier mis à nu : Autobiographie de Matthäus Schwarz, bourgeois d’Ausbourg, Gallimard Jeunesse. [Um banqueiro nu: autobiografia de MatthäusSchwarcz, um burgês de Augsburgo].

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Há detalhes interessantíssimos nas aquarelas e nas descrições: numa das páginas vemos Matthäus com meias vermelhas, acompanhado de um menino, aprendiz de bobo da corte, com um macacão amarelo, com listras pretas.  E  aprendemos também, um pouquinho  sobre nós mesmos, sobre a nossa cultura brasileira: Ulinka Rublack menciona no seu artigo, quando Matthäus saía para cortejar uma donzela levava consigo uma bolsa no formato do coração e da cor verde da esperança.  Portanto a expressão em português usada aqui no Brasil e em Portugal “verde é a cor da esperança” já era usada na Europa no século XVI.

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O livro de roupas de Matthäus Schwarcz.

E foi nesse momento que percebi que os ventos estavam me levando na direção dessa postagem, porque uns dias antes, eu havia relido algumas passagens do livro Magdalena and  Balthazar: an intimate portrait of  life in the 16th century Europe revealed in the Letters of a Nuremberg husband and wife [ Madalena e Baltazar: um retrato íntimo da vida na Europa do século XVI revelado nas cartas de um casal de Nuremberg]; editado e ilustrado por Steven Ozment, Nova York, Simon & Schuster: 1986.  Quem me conhece não deve se surpreender porque sabe que um dos meus passatempos favoritos é a leitura de diários e cartas de pessoas mais ou menos desconhecidas na história.  Não necessariamente as cartas dos reis, mas aqueles diários e cartas de pessoas comuns.

O livro das Boas Maneiras, 1410, De Jacques Legrand, dado a Jean du Berry em 1410, Paris, Bibliothèque nationale, fr. 1023

Passagens das cartas de Madalena para Baltazar vieram à mente.  Numa carta, Madalena escreve para Baltasar que era um comerciante com negócios na Itália e que se encontrava por lá.  Ela mostra os desejos de seu filho: “Você tem que mandar fazer uma bolsa de seda para o Pequeno Baltasar”. Mais tarde:  “O Pequeno Baltasar lhe cumprimenta  e pede a você que lhe traga um par de meias vermelhas e uma bolsa”.  Ainda mais adiante, vemos que o Pequeno Baltasar precisa se sentir à altura de seus colegas ou amigos, porque sua mãe escreve:  “Ele quer  dois pares de meias, um dos quais um precisa ser igual às meias usadas pelos alunos em Altdorf” [ o editor anota que isso queria dizer, meias da cor da pele ou da cor do açafrão].  Como podemos ver pela iluminura do Livro de Boas Maneiras de Jacques Legrand, datado de 1410,  as meias de seda coloridas eram lugar comum na Europa do século XV e XVI.

Retrato de Federico da Montefeltro,  1472

Piero della Francesca ( Toscana, 1416 — 1492)

Óleo sobre madeira, 47 x 33 cm

Galeria Uffizi, Florença

Assim como meias coloridas, chapéus específicos eram objetos de desejo.  O Pequeno Baltasar pede que seu pai lhe traga,  para  a passagem do Ano Novo de 1592, um chapéu.  O pedido demonstra como era importante para ele o uso específico de um determinado modelo de chapéu:  “Querido Pai:  eu imploro que me mande um chapéu coroa italiano para usar na passagem do Ano Novo, prometo que serei bonzinho o tempo todo e que rezarei pelo senhor”.  Não sei como eram os tais chapéus coroa.  Procurei bastante, tanto na internet quanto nas minhas referências em casa, e não encontrei nada específico.  Mas acredito que possa ter sido algo semelhante ao que oDuque de Urbino, Federico da Montefeltro, usava quando retratado por Piero della Francesca em 1472.

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Retrato de jovem, c. 1515

Piero degli Ingannati (Veneza, ativo 1529-1548)

Retrato de Paola Priuli Querini, 1527/28

Palma Vecchio ( Itália, 1480-1528)

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Meias vermelhas, cor de açafrão, casaco de damasco branco, negro, amarelo todos esses detalhes refletiam sim o início de uma grande preocupação com a moda que não estava  limitada ao comportamento janota de Matthäus, da casa Fugger.  Assim como hoje, — e nós aqui  na semana Fashion Week do Rio de Janeiro, ouvimos muito isso  – entre as facetas da moda mais interessantes para o publico em geral, estão as cores da estação.  O mesmo acontecia na época de Mathäus Schwarcz; todos queriam saber da cor da moda.    Ulinka Rublack lembra que amarelo se tornou a cor da moda no início do século XVI, sendo adotada primeiramente pelas pessoas mais abastadas. Por volta de 1520 já quase toda a população de Basel, na Suiça, cidade usada como exemplo, tem itens de vestuário dessa cor.

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Fernando I, de Habsburgo, s/d

Hans Bocksberger, o Velho (Áustria 1510 -1561]

óleo sobre tela, 206 x 109 cm

Museu de  História [Kunsthistorisches Museum], Galeria de Arte

Viena, Áustria

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Assim como hoje, a moda na virada do século XVI também era usada para impressionar.  Acompanhando as peripécias de Matthäus Schwarcz vemos que ele emagreceu alguns quilinhos para estar em forma quando soube que teria a oportunidade de conhecer o Arquiduque Fernando I de Habsburgo, Santo Imperador Romano [1503-1560].  Além disso, ele usou de perspicácia e de psicologia (se bem que essa disciplina não existisse na época) e deixou crescer uma barba, barbeando-se à semelhança do Imperador.  Hoje diríamos que Matthäus usava da técnica de espelhar o imperador, técnica que arrogantemente imaginamos  ser uma “novidade” do mundo da linguagem corporal.  Matthäus conseguiu seu objetivo: o arquiduque gostou e confiou nele.

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Retrato de um homem [ Supeita-se que seja Jan Jacobsz Snoeck],  circa 1530

Jan Gossart, conhecido como Mabuse, (Países Baixos, c. 1478–1532)

National Gallery of Art, Washington DC

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Fez tão boa impressão que o Imperador lhe deu um título, em 1541.  Para comemorar este novo patamar social, teve o seu retrato pintado com um casaco forrado com pele de marta, semelhante ao casaco na pintura de Mabuse, acima.  Este detalhe, a pele de marta, era estritamente reservado às elites: principalmente uma pele como a dele inteiriça, que sabemos medir 60cm e ser toda castanha, por igual, sem manchas.  Como Ulinka Rublack lembra, uma pessoa de menos posses teria um casaco forrado de peles diversas, pequenas, retalhos emendados de diferentes procedências, tamanhos e cores.

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THOMAS_COUTURE_-_Los_Romanos_de_la_Decadencia_(Museo_de_Orsay,_1847._Óleo_sobre_lienzo,_472_x_772_cm)Os Romanos durante a decadência, 1847

Thomas Couture (1815-1879)

Óleo sobre tela,  4,72m x 7,72 m

Paris, Museu d’Orsay

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Na minha época de estudante do Colégio Pedro II a Idade Média era tratada como um grande bloco de séculos sobre os quais se sabia muito pouco.  Estudávamos os feudos como entidades quase estacionárias, cruéis e desumanas.  Essa percepção não era só nossa, brasileira.  Em inglês, por muito tempo, a expressão Dark Ages [Eras Sombrias] era usada para explicar os séculos compreendidos pela queda do Império Romano [476 aD] até a Renascença [1492].  Mais ou menos 1.000 anos.  E a Renascença, esta sim, aparecia milagrosamente, como uma fênix, seus contemporâneos verdadeiros heróis que sozinhos recompunham o universo, ressuscitavam valores e conhecimentos do nada ou do quase nada.

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A universidade medieval.  Desconheço a origem dessa iluminura.

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Mas assim como houve grande avanço nas ciências, na segunda metade do século XX, houve também um avanço enorme no conhecimento sobre esse período obscuro da civilização ocidental, graças às pesquisas e descobertas de estudiosos que garimparam um número enorme de manuscritos; e arqueólogos que não se deixaram levar pela percepção de que não havia nada a ser descoberto.  E aos poucos muito foi trazido à tona. Hoje vislumbramos um período de dez séculos, que não era de todo estagnado, mas um conjunto de sociedades bastante complexas, e muito menos rígidas do que se imaginava quando falávamos dos feudos no período que antecede à Renascença.

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Vendedores de tecidos, em O livro das Boas Maneiras, 1410, de Jacques Legrand, dado a Jean du Berry em 1410, Paris, Bibliothèque nationale, fr. 1023

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O que aconteceu com Matthäus Schwarcz, sua ascensão social,  não foi um resultado exclusivo do investimento que fez em roupas, ou em moda.  Este tipo de marketing pessoal ajudou.  Mas ele provou ter sido um competente contador, pois trabalhava para um dos maiores banqueiros da Europa, Jakob Fugger.  Era também um conhecedor da alma humana, como já vimos, e das artes.  Contrário ao que se acreditava no passado, a mudança de status social era possível no mundo medieval e talvez nem tão rara, principalmente na Idade Média tardia, a partir do século XIV.  O exemplo mais conhecido e documentado de ascensão social é o de Gregório Dati (1362- ?), um homem comum, comerciante de seda, linho, fazendas em geral e pérolas, em Florença.  A leitura de seu diário ajuda a compreensão da ascensão social e econômica  no período da Proto-Renascença, principalmente em se tratando de um homem  sem quaisquer laços com a nobreza ou com as famílias de importância de Florença.  Seu diário, por menor que seja, é repleto de informações curiosas a respeito dos negócios da época e da maneira como ele foi, ao longo da vida, saindo do obscurantismo até obter uma posição social de respeito.  Quantos outros não terão tido semelhante sorte em outras localidades, sem terem deixado lastro?

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Barraca de peixes em feira medieval no Concelho de Constance, na Alemanha, por Ulrich von Richenthal, [1350-60? – 1467], pintada na década de 1460.

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O que notamos da efervescência social no final da Idade Média, digamos de 1350 em diante, são as pequenas amostras de individualidade que pululam aqui  e acolá.  Há um maior número de pessoas que sabe ler e escrever e o comércio, este grande fomentador das mudanças sociais, se intensifica entre pequenos aglomerados, povoados, aldeias e cidades–estado,  incluindo maior contato de todos com produtos diversos e até estrangeiros.  Os não-nobres, os homens comuns, passam a medir a possibilidade de serem apreciados pelas suas próprias características, ao invés de estarem sujeitos exclusivamente aos mandantes da igreja ou do rei.  A ilustração acima, por exemplo, de Ulrich von Richenthal  ( c. 1360- 1467) é um exemplo:  contrário aos costumes da época, Richenthal produziu por conta própria, sem nenhum patrocínio, uma série de desenhos mostrando a vida diária em Constance, como explica Albrecht Classen, no livro Urban Space in the Middle Ages and the Early Modern Age [O espaço urbano na Idade Média e no início da Era Moderna]. E seu orgulho em fazer isso está evidenciado nas linhas de apresentação: “como cidadão e residente de Constance, eu, Ulrich Richenthal, coletei tudo isso.  Eu ou testemunhei tudo isso em pessoa ou ouvi as descrições de religiosos ou pessoas comuns. [a tradução livre, é minha].

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Auto-retrato, 1493

Albrecht Dürer ( Nuremberg 1471 — 1528)

óleo sobre tela, 57 x 45 cm

Museu do Louvre, Paris

Uma outra pista para o aparecimento do “indivíduo” separado da classe social a que pertence é a popularidade do retrato,  da vontade de se ser retratado, para o presente e para a posteridade.  O retrato, como gênero de pintura, havia sido corriqueiro na Roma antiga, seu uso desaparecendo durante a Idade Média.  Mas volta com bastante força, justamente nessa época em que o “indíviduo” começa a se salientar na sociedade que habita, nessa hora em que se começa a dar espaço para exploração dos próprios dotes, das habilidades únicas de cada um.  Albrecht Dürer, o maior pintor da Renascença alemã, é um dos primeiros da classe artesã (essa era a classe dos pintores) a se retratar, uma ato circunscrito aos nobres e abastados.  E se dá a esse luxo diversas vezes na vida, fato até então anômalo no período medieval.

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Retrato de homem, 1500

Ambrogio di Pedris ( Itália, 1455-1508)

óleo sobre madeira, 60x 45 cm

Galleria degli Uffizi, Florença

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Foi justamente nesse período de final do século XV e início do século XVI,  que pessoas comuns, que haviam adquirido mais educação, mais recursos financeiros, que podiam deixar algo para gerações seguintes, com mais tempo de lazer começaram a se preocupar com a noção de posteridade: deixar algo pessoal para seus herdeiros, para as futuras gerações.  Este conceito de posteridade, de perpetuação de uma linha familiar de quem não era nobre  entrou sutilmente, aos pouquinhos, comendo pelas beiradas, no conceito de individualização do período.  E com isso voltamos a Matthäus Schwarcz.  Nos anos de sua adolescência ele foi perguntando aos mais velhos o que vestiam quando eram jovens.  Foi também nesse período que  iniciou um caderno com seus próprios sketches, registrando  suas indumentárias, como um documento para o futuro, para sua própria lembrança.

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Vestimentas na Idade Média.
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Matthäus Schwarcz, apesar do sucesso financeiro e social que obteve,  numa outra época não teria sido uma pessoa importante o suficiente para ter retratos a óleo feitos por artistas habilidosos.  Filho de um comerciante de vinhos, ele estava bem enraizado na classe mercantil.  O que o diferenciou, foi saber fazer um marketing pessoal, usando entre outros meios, o vestuário como ferramenta de ascensão social.   É importante notar que trajes, fora do necessário e funcional, eram dispendiosos.   Mas o vestuário era sempre, como o é hoje, um cartão de visitas.  Os nobres usavam roupas como símbolos de poder e status.  O povo comum se esforçava para “melhorar a aparência” a todo custo, isso não é novidade.   A maioria das pessoas tecia em casa e sabia usar tinturas naturais à base de plantas e minerais para conseguir tonalidades variadas.  Em alguns centros urbanos, as leis suntuárias, que proibiam o uso de excessivo luxo nas vestimentas do homem comum, proibiram  também o uso de certas cores, permitidas só aos nobres.  Na Inglaterra, por exemplo, o uso do tecido escarlate, era prerrogativa da nobreza.  Em toda a Europa, o linho e a lã eram tecidos comuns; algodão e seda eram caros, e mais raros, só aparecendo  com a descoberta de produtos estrangeiros, graças às Cruzadas.  Fazendas aveludadas também eram bastante usadas.  À medida que a classe média aparecia, — como Matthäus Schwarcz demonstra, entre outros — as linhas divisórias entre a nobreza e a classe mercantil se embaralharam, permitindo brechas nessas restrições.

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Matthäus Schwarcz, 1542

Christoph Amberger, (Nurembergue, c. 1500-1562)

óleo sobre tela, 74 x 60 cm

Thyssen-Bornemisza, Madri

Mas Matthäus Schwarcz eventualmente teve que se render aos costumes da época e à medida que envelheceu, fez como todas as pessoas de alguma idade o faziam, vestiu-se de preto e branco, pois não cabia bem a um senhor “brincar” com cores e modelos.  Ele engordou, como podemos ver no retrato de Christofer Amberger.  A Reforma na Alemanha também o afetou e a partir de 1550 o comércio entrou em crise, nos concelhos da Alemanha. Matthäus  Schwarcz, um grande exemplo de homem moderno, que confiou no marketing pessoal, sobreviveu a um derrame [AVC] mas, não temos notícias da data específica de seu falecimento.  Muito devemos a ele, que é lembrado hoje pela extravagância de um catálogo de roupas.  Mas ele também é exemplo da vitalidade econômica e social do início da Renascença, que levará à ascensão da classe média ao poder, logo na segunda metade do século XVI.





Uma viagem por 1905: veja como era a vida cem anos atrás!

8 01 2011



Coloco aqui, hoje,  a título de ilustração,  o vídeo feito de um filme em 1905, na Market Street, em São Francisco, no estado da Califórnia, nos Estados Unidos.  Mais de dois milhões de pessoas já o viram.  Uma  câmera  estava  presa ao bonde. Este vai a uma baixa velocidade mas  não para.  Muito do que é  visto nestes minutos de filmagem foi destruído no ano seguinte, com o grande terremoto de 1906.  É excelente documento da vida nos primeiros anos do século XX.  Cem anos já se passaram desde a tomada dessas cenas.  No entanto, o comportamento das pessoas parece semelhante ao que vemos hoje em muitos lugares.  Há os que “desafiam” o bonde, os que se arriscam.  Provavelmente, nem havia Leis de Trânsito, que era caótico com a convivência, não tão harmoniosa, entre pedestres, bicicletas, charretes, automóveis, cable car, bondes, etc.  Pouquíssimas mulheres são vistas.  É surpreendente a quantidade de automóveis que já existia àquela época e quantas imprudências se cometia. Observem que os bondes que cruzam a rua já possuem tração elétrica!   No final da rua, existe um prédio que está lá até hoje, pois trata-se do terminal de passageiros da Baía de San Francisco. 

A música de fundo é a primeira faixa do Air’s Moon Safari.  O filme original, tinha aquela rapidez dos filmes antigos.  Foi retardado para retratar um ritmo mais realista. 

 Boa Viagem!





Alguns cartões de Natal da antiga União Soviética

7 12 2010
Note-se o foguete, o orgulho das expedições espaciais!  URSS data desconhecida.

Por lá o trenó de Papai Noel em geral é puxado por três cavalos.  URSS, sem data.

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Papai Noel com um samovar nas mãos.  URSS, sem data.

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Com helicóptero ao fundo, Papai Noel chega de trem. URSS, antes de 1990.

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Aqui a árvore de Natal vem dentro de uma boneca Babuska! Antiga URSS.

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Aqui todos dançam na Praça do Kremlim, antiga União Soviética.