Uma lembrança de 1932: Dra. Carlota Pereira de Queiroz

9 07 2009

1 Carlota de Queiroz32sp146Dra. Carlota Pereira de Queiroz

 

Comemorando Revolução Constitucionalista de 1932, nada mais natural do que trazer à lembrança a Dra. Carlota Pereira de Queiroz, primeira deputada federal do Brasil, eleita por São Paulo em 1933.    Sua projeção na política paulista surgiu durante a Revolução Constitucionalista de 1932.  Ela organizou um grupo de 700 mulheres e junto com a Cruz Vermelha deu assistência aos feridos nesta guerra civil.    Esse trabalho serviu de semente para uma vida pública, com deputada federal.   

carlota de queiroz

 

Carlota Pereira de Queiroz nasceu em 13 de fevereiro de 1892, em São Paulo.  Veio de uma família abastada de fazendeiros pelo lado do pai e de uma família de políticos do lado da mãe.   Mas não foi a importância de qualquer uma das famílias que mais a caracterizou.  Foi simplesmente o fato de ser uma mulher moderna e que não aceitava as limitações comumente impostas pela sociedade.  Formou-se pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (1926), com a tese ” Estudos sobre o Câncer“. Interna da terceira cadeira de Clínica Médica da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e chefe do Laboratório de Clínica Pediátrica (1928), como assistente do professor Pinheiro Cintra. Foi comissionada pelo governo de São Paulo em 1929 para estudar Dietética Infantil em centros médicos da Europa.  Sempre exerceu sua profissão.

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Dra.  Carlota Pereira de Queiroz, na Câmara dos Deputados, 1934.

 

Além disso, esta médica fez história no Brasil porque foi a primeira mulher a ser deputada. Nas eleições de 3 de maio de 1933, pela primeira vez em nossa história uma mulher foi eleita para uma cadeira na Câmara dos Deputados. Como parlamentar elaborou o primeiro projeto sobre a criação de serviços sociais no país. Em 1934, elegeu-se novamente, mandato que exerceu até o Golpe de Getúlio Vargas que fechou o Congresso Nacional, em novembro de 1937.   Eleita membro da Academia Nacional de Medicina em 1942, fundou, oito anos depois, a Academia Brasileira de Mulheres Médicas, da qual foi presidente durante alguns anos. Dra. Carlota Pereira de Queiroz faleceu em 17 de abril de 1982.





9 de julho!

9 07 2009
 Cartaz da Revolução Constitucionalista de 1932

Cartaz da Revolução Constitucionalista de 1932

 

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Que os ventos democráticos continuem a soprar no Brasil de hoje!

 

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São Paulo, Capital, 1932

 

Revolução de 1932 1

 

Foto da rev paulista 32 Rio Una navio a Vapor levou tropas de Juquiá a Cananéia

Navio a vapor, Rio Una, levou tropas de Juquiá a Cananéia, Revolução de 1932.

 

NOTA

Há mais informações neste blog sobre a Revoluçao Paulista de 1932.   Com mais fotos e descrição de eventos de acordo com o diário de meu avô, Gessner Pompílio Pompêo de Barros, transcrito para este blog!





Nossa história na ponta dos dedos, graças a generosidade de José e Guita Mindlin!

5 07 2009

jose_mindlin_biblioteca_436José Mindlin e sua coleção.

 

Tive a oportunidade pela primeira vez de consultar a Coleção Brasiliana, doada pelo empresário e colecionador José Mindlin à Universidade de São Paulo.  Esta é uma extraordinária coleção  Para quem ainda não conhece esta maravilhosa ferramenta de pesquisa ao alcance dos nossos dedinhos a qualquer hora do dia e da noite, vale a pena visitá-la para pelo menos saber o que anda acontecendo de sério na internet. 

Acesse a Coleção Brasiliana   

Esta seleção de livros doados por José e Guita Mindlin, está em processo de digitação e postagem na  internet e  pode ser acessado de qualquer parte do mundo.  Hoje consultei a História do Brasil, por frei Vicente do Salvador, natural da Bahia. Nova edição revista por Capistrano de Abreu, de 1918.  Esta foi a primeira tentativa de relato de uma história do Brasil.  Frei Vicente de Salvador terminou de escrever sua obra sobre as primeiras décadas do Brasil colônia em 1627.  Este também foi o primeiro livro com o qual José Mindlin, aos 13 anos de idade, começou sua coleção.   A Coleção Brasiliana do bibliófilo, que conta com 20 mil títulos entre relatos de viajantes, literatura brasileira e portuguesa, documentos, folhetos e várias primeiras edições de obras importantes, será transferida até o final de 2009 para a Universidade de São Paulo (USP).

Aqui está uma ilustração acompanhando o texto de Frei Vicente do Salvador:

 

Planta da cidade de Salvador, contemporânea da invasão dos holandeses, História do Brasil

Planta da cidade de Salvador, na Bahia, contemporânea à invasão dos holandeses. 

 

A coleção está em processo de digitalização.  Ela é feita por um robô devorador de livros, que lê 2.400 páginas por hora, batizado de Maria Bonita.  “Podemos transformar uma imagem recém tirada do robô em uma página que seja portátil para a web”, explica o engenheiro de computação Vitor Tsujiguchi.  “O usuário vai ver o livro tal como ele é: a imagem do livro original, mas por trás dessa imagem há uma versão digitalizada, como se fosse transcrito. O usuário pode fazer busca por palavra, frase, iluminar trecho, copiar e colar. A pessoa vai poder imprimir em casa, encadernar e colocar na sua estante”, Pedro Puntoni.   O robô reconhece 120 línguas. Até o final do ano o plano é que ele tenha digitalizado 4 mil livros e 30 mil imagens.

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José Mindlin e “Maria Bonita”.

 

Quem está encantado com o trabalho do robô é o professor titular de história do Brasil, Istvan Yancsó, coordenador geral do projeto: “O conceito dessa biblioteca é atender a uma multiplicidade de destinações. É um serviço que a USP vai prestar à nação. Tudo que nós estamos fazendo é sempre em cima da ideia de que é uma colaboração para montagem de alguma coisa que não vai ser a Brasiliana da USP, vai ser uma Brasiliana brasileira”.

 Robo batizado de Maria Bonita, lê 2.400 páginas por hora

O Robô, batizado de Maria Bonita, lê 2.400 páginas por hora.

Os primeiros livros sendo digitalizados são os dos viajantes que percorreram o Brasil nos séculos 16, 17, 18 e 19. Toda a coleção das gravuras de Debret. Depois disso será a vez de todos os livros de história do Brasil e literatura brasileira. Os 17 volumes da primeira edição dos sermões do Padre Vieira, a primeira edição brasileira de “Marília de Dirceu”, de Tomás Antonio Gonzaga – só existem três unidades no mundo. De José de Alencar, a primeira edição do “Guarany”, livro raro.  José Mindlin passou boa parte da vida atrás desse exemplar, um dos únicos existentes e de muitas outras raridades.

Artigo parcialmente baseado no Destak Jornal.





Livros decorativos, só?

4 07 2009

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Caixa Econômica Federal, Rio de Janeiro.

 

A postagem de ontem a noite [ Sobre livros e decoração ] me fez pensar muitas vezes no Centro Cultural da Caixa Econômica aqui no Rio de Janeiro.  Este é um lugar que visito regularmente.  Tem grandes exposições e shows.  O último que vi lá foi de Dori Caymmi, no início do mês de junho.  Além do mais, está a uns passos da estação do metrô da Carioca.  Em suma: um lugar fácil de ir, com uma ótima programação.

 

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Hall de entrada do Centro Cultural da Caixa Econômica, RJ.

 

Este Centro Cultural fica no edifício-sede da Caixa na Avenida Almirante Barroso, no centro da cidade.  Sua arquitetura é muito interessante, um pouco grandiosa mas por outro lado o espaço tem mais de 6.000 metros quadrados, um teatro de arena, dois cinemas, três galerias de arte, uma cafeteria, uma bombonière, além de salas de oficinas e ensaios, como bem explica o Portal da Caixa.    Há detalhes de grande charme tais como a escadaria que leva ao mezanino e o grande painel de Bandeira de Mello ocupando boa parte da chegada a este mezanino.  

 

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Café e Livraria do Centro Cultural da Caixa Econômica, RJ.

 

Mas há algo de curioso, um quebra-cabeças sem igual, nesta organização: o Café e Livraria administrado pelo SENAC, no mezanino.  É um café.  Só café.  Não há nenhuma livraria.  Nem biblioteca.  Nem exposição de livros.  Os livros que vemos – e vemos de fato muitos livros nas paredes, são exclusivamente estampados de papel de parede.  Fica um charme sem dúvida, principalmente porque aquece, torna mais habitável uma arquitetura sem alma e sem calor humano, como este gigante saguão que percebemos pelas fotos acima e abaixo.  

 

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Café e Livraria do Centro Cultural da Caixa Econômica no Rio de Janeiro. 

 

Por que, então, o nome: Café e Livraria?   Como livraria?  Os livros não existem a não ser como tromp l’oeil!  É tudo falso.  Por quê?   

O Centro abriu ao público em 2006.  E é possível que originalmente tenham pensado num café/livraria como estava e ainda está tão em moda.  E é quase provável que  até hoje os administradores do CCCEF  não tenham tido a oportunidade de conquistar algum empresário, alguma companhia,  algum visionário que quisesse abrir uma livraria no local.  Não me surpreende.  Há muito pouco tráfico de visitantes e pedestres.  Não me parece um lugar de sucesso para uma livraria, principalmente porque com tantos centros culturais no Rio de Janeiro todos com livrarias quase morrendo de inanição e com o grande número de  portais na internet vendendo livros, há de ser muito difícil manter um negócio de venda de livros, neste lugar.  Mas então, por que manter a idiossincrasia?

 

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Papel de parede com desenho de estante elegante.

 

Porque livros transformam lugares.  Eles dão aconchego e fazem de qualquer ambiente local propício para a troca de idéias, para conversas variadas.  Os livros nos alimentam, suas idéias nos embriagam.  Assim, eles parecem, para as pessoas que deles se rodeiam, trazer um espírito de confraternização semelhante ao que vemos entre amigos depois de uma farta ceia, regada a um bom vinho.  Além disso, eles abafam os sons, tornando qualquer ambiente mais íntimo. 

Nas revistas de decoração estrangeiras eles aparecem com freqüência.  Por que será que por aqui eles só aparecem em números ímpares, casados com outros elementos decorativos, como mencionei anteriormente?   Será que ainda mantemos, no fundo, no fundo, aquela desconfiança da palavra escrita que prevaleceu durante a Inquisição?  Será que continuamos a tradição católica que desconfiava da Reforma de Lutero porque ele pedia que se lesse a Bíblia?  Será que ainda não nos liberamos desta desconfiança sobre a palavra escrita que foi um componente decisivo da nossa história durante a colonização portuguesa no Brasil?





José Veríssimo: Quatro dias em Minas Gerais — texto integral da Revista Kósmos, Outubro 1907

24 06 2009

minasgerais, mineraçãodoouro, eucalol

Mineração do ouro, Minas Gerais, Estampa Eucalol.

 

O artigo de ontem José Veríssimo: Quatro dias em Minas Gerais – texto integral da Revista Kósmos, Nov. 1907, foi o que mais se ocupou com a descrição das minas de manganês que eu procurava.  Mas como em quase todas estas publicações antigas o artigo se dividiu em duas partes.  A que transcrevi ontem que foi a segunda parte.  E a que transcrevo hoje, a primeira parte, publicada no mês de Outubro d e1907.  

 

 

QUATRO DIAS EM MINAS GERAIS

 

 

O que distingue e exalta o jovem e já célebre historiador italiano Sr. Guilherme Ferrero é não ser ele um simples erudito, ou artista, ou literato apenas voltado para a ordem de estudos ou de lucubrações que imediatamente interessam a sua especialidade, se não um espírito curioso de todas as coisas, aberto a todas as impressões, interessado de quanto lhe possa fornecer noções, idéias, sensações à sua inteligência ávida de alargar cada vez mais a compreensão das coisas.  Desta sua feição espiritual deriva seguramente a vida que ele pôs na história romana, refazendo-a a seu modo, e intensamente vivificando-a para nosso gosto espiritual.  

Não lhe bastava, pois, ver nossa capital, já quase uma cidade européia, e que lhe podia dar uma idéia falsa do nosso país.  Era-lhe necessário a impressão direta deste no que ele ainda conserva de original e próprio, a surpreendê-lo em flagrante no seu trabalho de transformação.

Uma rápida excursão a Minas Gerais, de quatro dias, após digressão pouco mais longa pelo Estado de S. Paulo, forneceu-lhe ensejo de do Brasil, que rapidamente visitou, não conhecer apenas a capital.  As capitais, como as salas de visita, dão sempre uma idéia falsa das nações, ou das casas, aos que não passaram delas.  S. Paulo e Minas, duas das mais importantes porções do Brasil, e, não  obstante tão juntas, tão distintas uma da outra, de caracteres tão diversos, teriam oferecido a arguta observação do Sr. Ferrero, um historiador para quem a vida comum, cotidiana, é também história, mais de um precioso elemento de informações e de juízo.

Pelo seu afastamento do litoral, pelo isolamento maior do mundo em que a puseram as suas montanhas, pela maior vida local que dentro dela mesma estas, separando os seus diversos cantões, lhe afeiçoaram, Minas, mais conservadora, mas também mais chã, mais ingênua quiçá mais sincera que S. Paulo, tem com este este  ponto de semelhança, que são dois dos estados mais históricos do Brasil. Por menos que da nossa história saiba o eminente historiador italiano, não ignoraria isto.

Em Minas ele viu primeiro, como era natural e conveniente, minas, as de manganês de Lafayette as de ouro do Morro Velho, em Vila Nova de Lima.

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O historiador italiano, Guilherme Ferrero, Revista Kósmos, Out. 1907.  Fotografia sem notificação de autor.

 

Pela natureza do minério, e pelos aspectos da exploração, e do mesmo sítio  em que esta se faz, é talvez mais interessante a Mina do Morro Velho.

A despeito da ordem cronológica, principiamos, pois, por ela.

Fica esta mina de ouro, uma das mais antigas e mais célebres do Brasil, nas proximidades de Congonhas de Sabará, hoje Vila Nova de Lima, no município de São João d’El-Rey, donde vem à companhia inglesa que a explora o seu título de S. John d’El-Rey Mining Company. Por esta são regularmente exploradas as minas do Morro Velho desde 1834, com fases sucessivas de prosperidade ou menor resultado.  Hoje a exploração está em pleno desenvolvimento e, cremos, sucesso.  É feita já a mais de 1500 metros de profundidade numa rede de galerias bastante amplas, suficientemente arejadas, artificialmente iluminadas a luz elétrica numa extensão de alguns quilômetros.  Desce-se a elas por elevadores e nas últimas em grandes caçambas de ferro que se ainda deixam a desejar como comodidade parecem oferecer toda a segurança, o que é essencial.  Nas mais profundas dessas galerias, onde o ar começa a ser mais escasso, e a imaginação nos faz sofrer do peso de mais de mil metros de rocha sobre as nossas cabeças, cavam-se ainda novos poços, donde vimos sair, à meia luz daquelas cavernas, imperfeitamente iluminadas por parcos focos elétricos, como numa visão dantesca de Gustavo Doré, homens inteiramente nus, literalmente cobertos de lama negra dos poços em perfuração.  Mais adiante outros brocavam o granito com instrumentos movidos a ar comprimido, ou agachados sob as abóbadas mal abertas as iam levantando a golpes de picareta, no meio de um barulho infernal das possantes máquinas que ali nas entranhas da terra, distribuem luz, ar, força necessárias aquele duro labor de ciclopes.  Tudo isso numa temperatura de 38 a 39 graus centígrados, e sob a indizível impressão de que um acidente sempre possível, o surgir inopinado de um veio d’água, uma explosão de gazes, vos pode sepultar, em transes horríveis de um desespero sobrehumano, a quilômetro e meio de superfície do solo, sob milhões de metros cúbicos de granito.

 

Minas primeira seção da vista geral de Morro velho

Primeira seção da vista geral de Morro Velho.  Revista Kosmos, outubro 1907. Fotografia sem nome do autor.

 

Em cima, sobre a mina, estendem-se os edifícios, as oficinas, as usinas da mineração após o trabalho da extração em baixo.  O seu material é de 120 pilões californianos, cujo socar põe em roda um estranho e constante ruído ensurdecedor.  Há ainda aparelhos para o minério e pessoal, bombas, perfuradores, compressores de ar, movido tudo a força hidráulica hidroelétrica e a vapor.  Nas galerias subterrâneas, o minério ou antes a pedra quebrada que o encerra é conduzido por vagonetes de ferro rodando sobre trilhos, puxados por muares, que uma vez descidos aquelas profundezas nunca mais vêem a luz do dia.  Nos seus primeiros 52 anos de existência, (ela tem 72) esta mina do Morro Velho produziu 58.314 quilogramas de ouro no valor de 5.125.000 libras esterlinas, e nos últimos cinco anos, de 1901 a 1905, 13.304.042 gramas no valor de 1.419.051 libras esterlinas.  E no entanto por cada tonelada de pedra extraída não dá senão 18.300 de minério de ouro.  Trabalham nela pouco mais de 2 mil operários,  na sua maioria nacionais.  Chefes, mestres e contra-mestres são todos ingleses.

Minas segunda seção da vista geral do Morro Velho

Segunda seção da vista geral de Morro Velho.  Revista Kósmos, outubro 1907. Fotografia sem nome do autor.

 

A Companhia mantém não longe da confortabilíssima casa do Diretor, um hospital para os seus operários e suas famílias.  Otimamente colocado sobre uma colina, num edifício de um só pavimento todo avarandado, este hospital pode ser modelo no seu gênero, tal é a excelência da sua instalação e a abastança de seus recursos. Dirigem-no dois médicos ingleses.  Como a invejável e largamente hospitaleira residência do Diretor, o amável Sr. Chalmers, é esta casa de saúde, cercada de um parque e jardins admiravelmente cuidados, onde naquele momento havia uma luxuriosa profusão de flores, de soberbas rosas sobretudo. 

Da estação de Honório Bicalho a Morro Velho é uma hora a cavalo, que nós fizemos ao chouto incomodo de burros e bestas.  Salvo no vale do fundo do qual surge Vila Nova de Lima, antiga Congonhas do Campo o Morro Velho, este trecho do sertão não tem nenhuma beleza particular.   Mas vista dos altos que a rodeiam aquela aldeia tem um singular encanto, e o atravessá-la, pelas suas ruas estreitas, ladeirosas e empredadas de matacães roliços, marginadas de velhas e miseráveis casas baixas, feias, de vila colonial, vos trás não sei que sentimento de melancolia.  É o velho Brasil sertanejo, que ainda se demora em desaparecer mas que está evidentemente por pouco.

 

                                                                                  José Veríssimo

Minas, terceira seção da vista geral do morro velho

Terceira  seção da vista geral de Morro Velho.  Revista Kósmos, outubro 1907. Fotografia sem nome do autor.





José Veríssimo: Quatro dias em Minas Gerais – texto integral da Revista Kósmos, Nov. 1907

23 06 2009

 

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Mapa do estado de Minas Gerais.

 

A postagem de anteontem, 1949: a natureza em MG, Francisco de Barros Júnior, lembrou-me do artigo escrito por José Veríssimo para a Revista Kósmos em 1907, que descreve justamente a mineração em Minas Gerais.  Colocarei abaixo o artigo para que todos possam lê-lo:

 

 

QUATRO DIAS EM MINAS GERAIS

 

Não sei se apropriadamente se pode chamar de minas — aberturas subterrâneas, feitas para se tirarem minerais, segundo definem os dicionaristas – às colinas de manganês chamadas Morro da Mina, cuja exploração se faz toda a céu aberto cavando a montanha ou deslocando os blocos de minério que a constituem toda a golpes de enxada ou picareta, como aqui no rio vemos fazer aos cavouqueiros tirando terra ou barro dos nossos morros. E é esta a sua singularidade e preciosidade, que nela a escavação não custa o menor esforço de escavação ou sequer de abertura de galerias, ainda superficiais,  nem mesmo da simples rebusca de um veio a descobrir ou explorar. Todo o morro é mina ou antes mineral; para o aproveitar basta escavá-lo com instrumentos simples e rudimentares, que todo homem sabe manejar, a enxada, o alveão,  a picareta da base ao cimo, faldas a cima, desagregando com extrema facilidade os torrões vermelho escuro com laivos negros que os compõem.  O Morro da Mina, que é certamente uma das curiosidades de Minas, está situado a 5 kilometros a leste de

 

Minas, vista geral

Fotografia do Morro da Mina, Revista Kosmos, 1907.  Sem atribuição de fotográfo. 

 

Queluz de Minas, a 12 horas pouco mais ou menos do Rio pela Estrada de Ferro Central do Brasil, a qual se liga por um ramal de 7 kilometros.  O ponto culminante do Morro da Mina está a 1114 metros de altitude, tendo a linha férrea de contorno da jazida a altitude média de 1050 metros. 

A exploração como disse a cima é toda a céu aberto, e as cabeceiras de ataque estão em uma série de degraus formando outros tantos andares, cuja extensão total é de pouco mais de um quilômetro.  Cada um desses andares é servido por linhas Decauville para vagonetes, exceto o primeiro que o é diretamente pelos carros da Central. Para os andares superiores, em cada cabeceira de trabalho, os vagonetes recebem o minério extraído, o levam a grandes calhas — para depósito, por onde o minério corre diretamente para dentro dos carros da Central que os trazem ao porto de embarque.

É interessante esse modo de carregamento que permite encher cada vagão com cerca de 40.000 quilos em 6 ou 8 minutos no máximo.  O serviço está organizado de modo a serem diariamente assim carregadas 1.000 toneladas.  

O embaraço único para pleno desenvolvimento dessa incomparável exploração mineira está na dificuldade que até aqui tem encontrado de meios d transporte, pois são ainda insuficientes os que lhe oferece a Estrada de Ferro Central.  Acredita porem o diretor engenheiro desta exploração, Dr. Joaquim de Almeida Lustosa, de quem são estas informações, que a atual inteligente e segura orientação e direção daquela Estrada promete para breve um grande aumento na sua capacidade de transporte.

O pessoal efetivo na mina é de cerca de 150 trabalhadores, nacionais e italianos. O minério em todos os carregamentos acusa a média de 50% de manganês metálico.

 

Minas, galeria de passagem para vagonetes Galeria de passagem para vagonetes no Morro da Mina, Revista Kosmos, 1907, fotografia sem atribuição de autor.

 

A jazida está avaliada em cinco milhões de toneladas disponíveis para os primeiros cem metros verticais, a contar de cima para baixo; ficando ainda outros cem metros acima do talvegue do vale, constituindo uma reserva provável de outros tantos milhões de toneladas.  

Em suma, uma imensa riqueza à flor da terra, cujo aproveitamento por esta singular e felicíssima circunstancia quase não dá trabalho e despesa, se o compararmos com o de outros minérios.   E apenas começado a explorar em Minas Gerais o manganês há uma dúzia de anos, em 1894, a sua exportação nos dez primeiros atingiu a 190.591.465 quilogramas.

No outro dia amanhecemos em Cordisburgo, nome meio latino, meio germânico desagradavelmente destoante da costumada anomástica geográfica indígena.

De Cordisburgo à Gruta de Maquine a distância é mais ou menos a mesma que de Honório Bicalho a Morro Velho, uma hora ou um quarto a cavalo, por um terreno mais ondulado do que realmente acidentado, de cujas medianas alturas se descortina por vezes um infindo e belo horizonte, todo rodeado de montanhas que a enorme distância faz azuis.

A gruta de Maquiné, já descrita por Lund e outros, é realmente uma maravilha.  A larga entrada toda de rocha viva, rodeada e coroada de vegetação circundante, lembra um desses grosseiros e robustos pórticos das grandiosas construções pelasgicas, reveladas por Schieliemann.  Passada ela, está-se numa vasta sala, que é de si mesmo pela amplidão e aspecto estranho uma maravilha.  Uma abertura no fundo, à direita leva à outra sala já escura, onde seria impossível andar sem luz.  Começam a aparecer as estalactites e  estalagmites de quartzo, de formas variadas e estranhas, que se repetem em todas as outras salas ou salões, fingindo animais, cadeiras, caras humanas, púlpitos, candelabros, segundo os afeiçoava a imaginação dos visitantes.  Mas tudo estranho, maravilhoso, como vistas de um mundo irreal.  As numerosas luzes que levávamos e as vozes que refletindo-se e repercutindo naquelas abóbadas altas e sonoras produziam um singular efeito.  Nalguns trechos os cristais de quartzo tocados pela luz brilhavam como miríades de diamantes.  A impressão era de assombro. 

A gruta é imensa percorrendo-a rapidamente levamos umas duas boas horas, e creio que três mil homens não ficariam muito apertados nela.

Daí o trecho da viagem mais interessante é a travessia da Mantiqueira, uma lindíssima região a lapestre por mais de mil metros acima do nível do mar  Em alguns pontos o descortino de vastas extensões montanhosas abaixo de nós é realmente magnífico, e a construção desta linha férrea parte da Central do Brasil, recomenda justamente os engenheiros que a realizam.  Aliás, toda a linha férrea por nós percorrida em mais de 1.500 quilômetros é um documento da sua capacidade, como da boa administração dessa nossa grande via férrea.  Não se pode bastante louvar a excelente conservação de toda ela, a regularidade dos seus serviços, o asseio de suas estações, a disciplina do seu pessoal.  Pena é que a sua extrema direção curvilínea se assim posso chamar a sua extraordinária abundância em curvas, determinada pela natureza do terreno por onde correm seus trilhos, lhe não permitam senão excepcionalmente e intermitentemente as grandes velocidades de certas ferrovias estrangeiras.

 

Minas, carregamento de minerio

Carregamento de minério.  Revista Kosmos, 1907, fotografia sem atribuição de autor.

 

A tarde do terceiro dia chegamos a Belo Horizonte, entre o espocar de bombas e os vivas de uma grande multidão aglomerada na estação.  Vista de longe, ao chegar, Belo Horizonte apresenta o aspecto de uma grande cidade.  Dela já tive ocasião de escrever.

“Monumento da vontade e do esforço de uma geração a quem ela só basta para recomendar à nossa estima, Belo Horizonte pela sua posição felicissimamente  escolhida e belíssima, justificando cabalmente o seu nome, apresenta-se já, não obstante a sua minguada população (os cálculos mais generosos não lhe dão mais de 25 mil habitantes) com o aspecto de uma grande e formosa cidade.  Nada, com efeito, a não ser população, elemento aliás principal, lhe falta para isso:  num sítio lindíssimo, e que lhe avantaja magnificamente as proporções atuais, foi traçada a cidade, segundo os preceitos mais modernos e mais bem recomendados em tais criações, serviços municipais exemplares, arruamentos magníficos, excelentemente arborizados, construções custosas e caprichosas, edificação pública suntuária, jardins,  parques, iluminação elétrica, viação urbana ótima.  E tudo isso foi feito apenas em dez anos ou ainda em menos, por um povo que se não presumia quisesse competir com o Yankee em atividade febril.”

De Belo Horizonte, entretanto, vimos muito pouco.  O Dr. João Pinheiro, presidente do Estado, tinha a peito mostrar a seus hóspedes de um dia, principalmente ao mais ilustre deles, um dos aspectos da sua esclarecida administração, a sua preocupação direta e singular dos problemas econômicos em cuja solução ele crê o estado imediata e grandemente interessado.  Para isso íamos de antemão convidados à colônia do Barreiro e ao campo de experiência agrícola de Gameleira.  Eram uns quarenta quilômetros ida e volta que tínhamos de fazer, a cavalo ou de carro, conforma as preferências de cada um e que fizemos.

O primeiro daqueles lugares é o de uma velha fazenda abandonada por imprestável, tanto eram suas terras julgadas “cansadas” segundo a expressão local.

O empreendimento do Dr. João Pinheiro, e que não é só uma empresa oficial de funcionamento burocrático mas que ele acompanha de perto com amor de autor cioso do bom resultado da sua obra e interesse de um administrador zelosíssimo do seu bom renome e do sucesso de seus projetos governativos, aponta a mais de um fim.  Primeiro promover de uma maneira inteligente e eficaz a imigração para Minas Gerais mediante a criação de muitos núcleos coloniais dos quais o de Barreiro é um, onde se deparam ao colono condições de êxito tais que o tentamen não possa absolutamente malograr. Este sucesso conseguido, e tudo faz crer que o seja, estará lançada a semente fecunda da colonização mineira, isto é, criado o movimento inicial da corrente de imigração de que o estado precisa para o aproveitamento de suas indizíveis riquezas.  Segundo, mostrar praticamente ao mesmo indígena desanimado da lavoura pelo cansaço da terra, que em face dos modernos processos agrícolas não há terras cansadas e imprestáveis, e que numa velha fazenda abandonada se pode ainda fazer florescentes lavouras.  Esta segunda parte do seu projeto já o Dr. João Pinheiro a realizou ou está em via de realizar plenamente.  Vimos os campos da bela fazenda admiravelmente lavrados pelo arado e outros instrumentos aratórios, cientificamente adubados, com magníficas plantações de arroz, batatas inglesas e cebolas, que pelos cálculos feitos em nossa presença, e que nos pareceram de exatidão rigorosa, devem pagar sobejamente o trabalho da cultura.  Não há dúvida que essas fazendas velhas que os nossos agricultores  têm abandonado à invasão do mato ou vendido a vilíssimo preço podem ainda ser campo de uma considerável e proveitosa atividade agrícola.  E provando-o experimentalmente o Dr. João Pinheiro não só uma utilíssima lição de coisas ao seu estado mas ao Brasil todo, especialmente aos que no outrora riquíssimo vale do Paraíba abandonaram fazendas e terras, com aquele pretexto de cansadas.

 

Minas, parte central da jazida mostrando 3 planos de ataque

Parte central da jazida, mostrando os três planos de ataque.  Revista Kosmos, 1907, fotografia sem atribuição de autor.

 

A primeira parte do seu programa conta o Dr. João Pinheiro resolveu-a dando a cada imigrante com família, com casa para habitar, e boa casa, um lote com 5 hectares dos quais dois já plantados, e o resto já arroteado, e mais os instrumentos e apetrechos necessários à sua vida agrícola.  O colono não será desanimado pela necessidade de tudo fazer por si e terá, um prazo razoável, três anos, creio, para pagar a despesa com ele feita.  O produto que de sua lavoura colher, ou venderá livremente a quem lhe parecer, ou o entregará ao Estado pelos preços do mercado.  

Tal é, nas suas linhas bem gerais, o sistema do Dr. João Pinheiro.  Eu o vi discuti-lo um dia inteiro com o Sr. Guilherme Ferrero e com Mme Ferrero, ambos muito versados em questões econômicas e ambos com idéias sociais e econômicas contrárias a do estadista mineiro, cujo talvez exagerado protecionismo (pois ele funda o sucesso do seu sistema numa tarifa protecionista que eleve até a proibição o imposto de entrada dos gêneros que as suas colônias devam produzir) ambos combateram com razões que a mim, anti-protecionista como eles, me pareceram fortes.

O Dr. João Pinheiro, ao contrário da maioria dos nossos improvisados estadistas, é um homem de estudo e experiência, do livro e do campo, de pensamento e de atividade prática.  É proprietário de uma grande fábrica de cerâmica e fazendeiro, e sempre se ocupou principalmente desta feição de sua atividade.  Este homem prático, porém, e é isto que a meus olhos o distingue e enobrece,  é também um ideólogo, no bom sentido da palavra.  Um estadista sem idéias, ou sem a capacidade de as apreciar e compreender, é apenas um burocrata ou um politicante vulgar.  Mas na ideologia do Sr. João Pinheiro, há uma força, que é a convicção e o entusiasmo necessário, indispensáveis à realização dos planos como o seu.  O perigo que eu neste vejo é o de todos os grandes planos governativos, do mesmo gênero, que se enriquecem e engrandecem o Estado, prejudicam e empobrecem o indivíduo.

Era na essência o motivo da oposição de Ferrero e sua senhora, que antepõem, e eu estou com eles, o bem do indivíduo ao do Estado.  A eles parecia que os sacrifícios que ia fazer o Estado em bem de seu povoamento e do progresso da sua estacionária e rotineira lavoura, teriam ao cabo de pesar sobre o contribuinte, que desde já viam ameaçados de novos impostos para os pagar.  

 

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Segundo plano de ataque da mina.  Revista Kosmos, 1907, fotografia sem atribuição de autor.

 

Respondia-lhes convencido e seguro de si o Sr. João Pinheiro que esses sacrifícios eram apenas aparentes e momentâneos, pois de fato o mesmo colono reembolsava o estado do que lhe houvesse custado, e o argumento da riqueza pública, que o povoamento e o desenvolvimento da lavoura forçosamente determinariam, garantiria o bem-estar das populações.

Em teoria parece-me ter toda a razão o Presidente de Minas, mas eu não sei se da experiência de todos os  povos, e nossa mesma, não resulta a verificação de que o enriquecimento e prosperidade do Estado nem sempre corresponde, antes nunca corresponde, o bem-estar do indivíduo cada vez mais sacrificado a ele.  Para alterar a ordem destes valores, requerer-se-iam estadistas inspirados de um espírito novo, como quero crer seja o Dr. João Pinheiro, capazes de se emanciparem da superstição, do fetichismo do estado, Moloch moderno a quem é sacrificado inconsiderada e levianamente o individuo, a pretexto de uma grandeza e prosperidade daquele que rari ssimamente aproveita a este.

De Barreiro, a fazenda velha transformada em futurosa colônia agrícola, fomos a Gameleira que é há um tempo um campo de experiências da nova agricultura e uma escola prática de trabalhos rurais.  Não só se fazem ali com saber e método tais experiências, das quais já vimos explêndidos resultados, como pode ali o agricultor conhecer, ver funcionar e aprender a manejar os mais variados e eficazes instrumentos de lavoura, de toda a espécie e utilidade.

Quem, como nós, acabava de atravessar quilômetros e quilômetros, horas e horas, de caminho de ferro, sem quase ver gente, e apenas alguma rara e escassa lavoura, não podia deixar de dar razão ao atual chefe deste grande e riquíssimo Estado de Minas no seu propósito de promover oficialmente o povoamento do seu solo, pois apesar dos seus 3 milhões de habitantes, a maior população de um estado do Brasil, a impressão que dá Minas a quem o percorre em 3 ou 4 dias de caminho de ferro não está longe da de um deserto.  

                                                                                              José Veríssimo

 

Em: Revista Kósmos,  Novembro de 1907, Ano IV, Número 11.

 

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José Veríssimo

 

José Veríssimo Dias de Matos (Óbidos, PA, 1857 — Rio de Janeiro, RJ, 1916) foi um escritor, crítico, educador, jornalista, sociólogo, sócio do IHGB, sócio-fundador da ABL, diretor da Revista Brasileira, professor, diretor do Colégio Pedro II.  Como escritor, a sua obra é das mais notáveis, destacando-se os vários estudos sociológicos, históricos e econômicos sobre a Amazônia e as suas séries de história e crítica literárias. Na Introdução à sua História da literatura brasileira tem-se uma primeira revelação de todas as vicissitudes por que havia de passar uma literatura que se nutriu por muito tempo da tradição, do espírito e de fórmulas de outras literaturas, principalmente do que lhe vinha de Portugal e da França.  Usou também os pseudônimos: Cândido e José Verega.

 

 

Obras:

 

 

Primeiras páginas, 1878

Emílio Litré, 1881

Carlos Gomes, 1882

Cenas da vida amazônica, ensaio social, 1886

Questão de limites, história, 1889

Estudos brasileiros, 2 séries, 1889-1904

Educação nacional, educação, 1890

A religião dos tupis-guaranis, 1891

A Amazônia, 1892

Domingos Soares Ferreira Penna, 1895

A pesca na Amazônia, história, 1895

Ginásio nacional, 1896

O século XIX, 1899

Pará e Amazonas, 1899

Estudos de literatura, 6 séries, 1901-1907

A instrução pública e a imprensa, educação, 1901  

Homens e coisas estrangeiras, 3 séries, 1902-1908

Que é literatura e outros escritos, 1907

Interesses da Amazônia, 1915

História da literatura brasileira, 1916

Letras e literatos (póstuma), 1936

 

Em domínio Público e  pronta para leitura na internet: História da literatura brasileira 





1949: a natureza em MG, Francisco de Barros Júnior

21 06 2009

minasgerais, mineraçãodomanganês,eucalol

Estampa Eucalol: Mineração do manganês em Minas Gerais

          No meio do debate sobre desmatamento versus preservação, a semana que passou foi pontuada por palavras do presidente Lula, favorecendo o desmatamento em função de um possível progresso.  Os resultados de planos como esse infelizmente não trazem as benfeitorias sociais de longo prazo tão anunciadas.  Isso já foi demonstrado dezenas de vezes por estudiosos do assunto.  Hoje, esses são discursos difíceis de serem aceitos por qualquer um de nós,  brasileiros, que se importa com o meio ambiente.  É quase inacreditável que mesmo com as conseqüências já bastante conhecidas e  prejudiciais ao planeta, haja líderes eleitos, como os nossos, que ainda defendam o desmatamento.  É um discurso antigo.

          Vale lembrar algumas mudanças que já se fizeram notar no nosso meio ambiente, mudanças que ocorreram através da exploração de minerais, de minério de ferro, de manganês, de ouro, que contribuíram para alguns dos problemas do meio ambiente enfrentados no  Brasil, nos dias de hoje.  Não especifico, aqui, mudanças no meio ambiente através de séculos de exploração, mas das mudanças que ocorreram, nos últimos 50, 60 anos. 

 Transcrevo a seguir, um pequeno texto, publicado em 1949, de Francisco de Barros Júnior para consideração.  

alberto da veiga guignard,Sabará, 1949,osm 38x47,

Sabará, 1949

Guignard (Brasil 1896-1962)

Óleo sobre madeira, 38 x 47 cm

          De um lado, o Paraíba demandando, em saltos e corredeiras através das gargantas da serra, as planícies campistas.  Do outro, a majestosa Mantiqueira coberta de pastagens que substituíram as matas, de onde saíram as caviúnas e jacarandás para as preciosas arcas, mesas e camas entalhadas, que adornavam os lares de nossos maiores, e que nos mesmos lugares há mais de cem anos devem ainda estar nas salas , quartos e alpendres daquela fazenda da margem esquerda, situada a meia encosta.  Com seu pomar onde avultam as enormes mangueiras, com a grande casa senhorial assobradada, ostentando portais e janelas em arco, discretamente velada pelo renque de altíssimas palmeiras imperiais, com os muros do “quadrado” em que viviam os escravos, com as grandes cocheiras e estábulos, os quartos de arreios, os galpões onde talvez ainda durmam poeirentos, os banguês e berlindas ricamente decorados e os amplos terreiros de largas lajes, são um testemunho do fausto em que viviam seus orgulhosos senhores.

          Usando do privilégio de narrador, vamos prosseguir de dia, pois se continuássemos pelo mesmo trem, nada veríamos da terra mineira.  Façamos de conta que, vindos pelo noturno paulista, tomamos em Barra do Piraí o primeiro rápido mineiro, ruma a Belo Horizonte.

          A locomotiva galga lerda e resfolegante os aclives máximos, fazendo-nos mergulhar com freqüência nas trevas de curtos túneis.  A terra é montanhosa, dificilmente se vê uma planície, e o coração dos que pela primeira vez viajam por essas paragens fica constantemente apertado, quando o desengonçado comboio passa em vertiginosa velocidade a cavaleiro de insondáveis abismos…

          Passamos pela linda Juiz de Fora a que seus filhos chamam orgulhosamente de “Manchester Mineira”, e que julgam rival da Capital, pelo seu comércio e convívio social selecionado…  Depois, Palmira, hoje Santos Dumont, em homenagem ao genial patrício nascido em fazenda de seu município.  Cidade pequena e graciosamente espalhada por duas colinas, o que lhe dá um aspecto de mimoso presépio.  È o refúgio das vítimas do cruel bacilo de Koch, graças ao ameno clima de seus novecentos metros de altitude.

          Agora, Barbacena, alcandorada no tope da montanha, e que nos aparece de grande distância, vestida de branco.  À chegada, passamos pelos imponentes edifícios do Patronato Agrícola, de administração federal, onde os barbacenenses vão buscar ótimos legumes, figos, uvas, ameixas, e saborosos caquis.

          Até aqui, a zona pastoril, terra do leite, manteiga e queijos deliciosos.  A seguir mergulhamos no domínio das matérias-primas, por cuja porta – Lafaiete – sai o manganês puríssimo de suas inesgotáveis jazidas.  Intermináveis comboios estão nos desvios, abarrotados desse precioso minério, esperando linha para descer até o Rio, e de lá no bojo de transatlânticos, irão para a América do Norte, endurecer o aço dos canhões e das couraças…  Sobre diversas colinas íngremes, à nossa direita, está Congonhas do Campo, em cujas igrejas se perpetuou o gênio do Aleijadinho, essa tosca encarnação de Miguel Ângelo, arquiteto, pintor e escultor.

          Pelas estradas marginais, trotam em fila dezenas de cargueiros carregados de carvão vegetal para alimento dos altos fornos de Itabirito, que, na penumbra da tarde, lançam para o céu o fogacho rubro de suas entranhas, de onde escorre o ferro moldando-se em lingotes, que irão para a insaciável indústria paulista.

          As necessidades da siderurgia vêm devastando as matas há muitos anos, e de longe deve estar chegando esse carvão.  Os caçadores dessa zona têm de ir a grandes distâncias para encontrar codornas e perdizes, afugentadas com as plantações de capim gordura, em cujo meio não podem viver.

          É noite fechada, e a poderosa iluminação da capital projeta-se contra nuvens baixas, localizando-a a muitos quilômetros.

          Os apressados despem o guarda-pó ainda muito em uso nesse Estado, reúnem embrulhos e malas que arrumam sobre os bancos, e muito antes de chegar à plataforma, já estão com meio corpo fora da janela chamando pelos carregadores, na ânsia de serem os primeiros a desembarcar.  Demoro-me bastante para retirar a bagagem despachada, e minha atenção vai para um carrinho que roda em direção a um vagão de bagagem, especial, ligado ao noturno, já pronto para descer rumo ao Rio.  Cercam-no cinco ou seis soldados e vários sujeitos carrancudos com ares de ferrabrazes de opereta.  Nele, vão quatro ou cinco caixotes fortemente arqueados e lacrados, e sou rudemente afastado por um dos referidos capangas, quando pretendo aproximar-me do misterioso cortejo…  È meia tonelada de ouro puro em lingotes, produto de todo um mês de trabalho nas minas de Morro Velho, destinados aos cofres do Banco do Brasil.  Deixa o ilustre itinerante sua obscura morada onde viveu milhões de anos a três mil e seiscentos metros abaixo da superfície do mar, na mais profunda mina do mundo, para um palácio confortável, onde terá uma corte vigilante e respeitosa.

          Começa o reinado de sua majestade o Ouro!

          Terra Brasileira!

          Nossa terra!…

 

***

Em: Caçando e pescando por todo o Brasil, 3ª série: Planalto Mineiro, O São Francisco e Bahia, Francisco de Barros Júnior, São Paulo, Melhoramentos: 1949, 2ª edição, páginas 25-28.

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Mina de Manganês em Conselheiro Lafaiete, MG.

Francisco Carvalho de Barros Júnior (Campinas, 14 de dezembro de 1883 — 1969) foi um escritor e naturalista brasileiro que ganhou em 1961 o Prêmio Jabuti de Literatura, na categorua de literatura infanto-juvenil.

Francisco Carvalho de Barros Júnior, patrono da cadeira n° 16 da Academia Jundiaiense de Letras, colaborou em vários jornais e revistas e é o autor da série Caçando e Pescando Por Todo o Brasil, um relato de viagens pelo Brasil na primeira metade do século XX, descrevendo diversos aspectos das regiões visitadas (entre outros botânica, animais e populações caboclas e indígenas).

Obras:

Série Caçando e Pescando Por Todo o Brasil

Primeira série: Brasil-Sul, 1945

Segunda Série: Mato Grosso Goiás, 1947

Terceira Série: Planalto Mineiro – o São Francisco e a Bahia, 1949

Quarta Série: Norte,  Nordeste,  Marajó, Grandes Lagos, o Madeira, o Mamoré, 1950

Quinta Série: Purus e Acre, 1952

Sexta Série: Araguaia e Tocantins, 1952

Tragédias Caboclas, 1955, contos  

Três Garotos em Férias no Rio Tietê, 1951, infanto-juvenil

Três Escoteiros em Férias no Rio Paraná, infanto-juvenil

Três Escoteiros em Férias no Rio Paraguai, infanto-juvenil

Três Escoteiros em Férias no Rio Aquidauana, infanto-juvenil

guignardAlberto da Veiga Guignard

 

Alberto da Veiga Guignard (Nova Friburgo, 25 de fevereiro de 1896Belo Horizonte, 25 de junho de 1962) foi pintor, professor, desenhista, ilustrador e gravador mas acima de tudo um famoso pintor brasileiro, conhecido principalmente por retratar paisagens mineiras. Fluminense por nascimento, mas mineiro por opção, registrou, na maioria dos seus quadros, as belezas naturais de Minas Gerais, em especial de Ouro Preto: «Ouro Preto é a sua cidade, amor, inspiração.»  É o próprio pintor que faz, por escrito, nesta singela frase, sua declaração de amor à histórica cidade mineira, antiga capital do Estado, berço de Aleijadinho e inspiração de tantos outros artistas. Guignard participou dos Salões de 1924, 1929, 1939 e 1942, no Rio de Janeiro; realizou algumas exposições individuais dentro e fora do país; marcou presença na 1ª Bienal de São Paulo. Houve, ainda, várias exposições após sua morte, a maioria delas em Belo Horizonte.

Texto: Pitoresco





No RJ, talvez a mais bela biblioteca no mundo!

12 06 2009

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Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro.

 

Seria redundante dizer que gosto de bibliotecas, e não me encabulo de visitá-las quando viajo pelo mundo.  Bibliotecas assim como igrejas, museus e palácios podem dizer muito a respeito do lugar em que estamos.

Tenho, é verdade, uma outra razão para gostar de bibliotecas:  foi na Biblioteca do Congresso em Washington DC que conheci meu marido.  Assim, sempre olho com carinho para esses salões de leitura.

Qual não foi a minha surpresa, e orgulho também,  ao  descobrir que o Real Gabinete Português de Leitura, aqui no centro da minha cidade natal,  está entre as bibliotecas selecionadas pelo blog Curious Expeditions como uma das mais belas bibliotecas do mundo, se não a mais bela, de acordo com o texto.  O blog selecionou as mais belas bibliotecas e mostrou  uma senhora coleção de fotografias desses lugares espalhados pelo mundo.  Julgando pelas imagens que vi, teria sido realmente difícil dizer qual a mais sedutora…  mas eles elegeram a biblioteca situada no Centro Antigo da cidade do Rio de Janeiro: Real Gabinete Português de Leitura — a maior biblioteca de autores portugueses fora de Portugal.

Convido a todos vocês que gostam de livros e de bibliotecas para darem um pulinho neste endereço sedutor:  Curious Expeditions

NOTA:  é irônico que os portugueses, que por três séculos proibiram a imprensa e bibliotecas no Brasil,  enquanto dispunham de grandes e belos exemplos em casa, são os autores justamente desse exemplo de biblioteca, no Rio de Janeiro, que ainda foi considerada mais bonita do que as existentes em Portugal!   Aliás, Portugal aparece na lista com muito mais do que o Real Gabinete Português de Leitura, pois  sabiam, e provavelmente ainda sabem, construir belas bibliotecas.  Uma das mais belas bibliotecas que já visitei foi a da Universidade de Coimbra.  Mas quase tudo em Coimbra, nos anos que morei lá, teve um toque de mágica.  É um lugar encantador!

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SERVIÇO:

REAL GABINETE PORTUGUÊS DE LEITURA
Rua Luís de Camões, 30 
Centro
Rio de Janeiro – RJ – CEP: 20051-020
Telefone: (+ 55 21) 2221-3138
Tel/Fax:   (+ 55 21) 2221-2960
Horário de funcionamento: de segunda a sexta-feira, das 9 às 18 horas.




11 de junho: Batalha Naval de Riachuelo

11 06 2009

Batalha_riachuelo_victor_meirelles, Museu Histórico Nacional

 

Batalha do Riachuelo,  1872

Victor Meirelles ( SC, 1832- RJ, 1903)

Óleo sobre tela – Monumental: 400 cm x 800 cm

Museu Histórico Nacional,  Rio de Janeiro

 

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Batalha do Riachuelo, travou-se a 11 de Junho de 1865 às margens do rio Riachuelo, um afluente do rio Paraguai, na província de Corrientes, na Argentina.  Considerada pelos historiadores militares como uma das mais importantes batalhas da Guerra do Paraguai (1864-1865).

Victor Meirelles; ou Victor Meireles; ou Vitor Meirelles, ou ainda Vitor Meireles

 

Victor Meirelles de Lima (Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis SC 1832 – Rio de Janeiro RJ 1903). Pintor, desenhista, professor. Inicia seus estudos artísticos por volta de 1838, com o engenheiro argentino Marciano Moreno. No ano de 1847, muda-se para o Rio de Janeiro e se matricula na Academia Imperial de Belas Artes –  onde, em 1849, inicia o curso de pintura histórica. Em 1852 ganha o prêmio de viagem ao exterior e no ano seguinte segue para a Itália.  Em Roma freqüenta, em 1854, as aulas de Tommaso Minardi (1787 – 1871) e, posteriormente de Nicola Consoni (1814 – 1884), com quem realiza uma série de estudos com modelo vivo. Com a prorrogação da pensão que lhe fora concedida continua sua formação estudando em Paris onde, em 1857, matricula-se na École Superiéure des Beaux-Arts [Escola Superior de Belas Artes], freqüentando as aulas de Leon Cogniet (1794-1880) e, em seguida, recebendo orientações de seu discípulo Andrea Gastaldi (1810-1889). Durante o período em que permanece no exterior corresponde-se com Porto Alegre (1806 – 1879). Retorna ao Brasil em 1861 e, um ano depois, é nomeado professor de pintura histórica da Aiba. Entre os anos de 1869 e 1872 executa duas grandes telas, Passagem do Humaitá e Batalha de Riachuelo. Em 1879 participa da Exposição Geral de Belas Artes, expondo a Batalha dos Guararapes ao lado da Batalha do Avaí de Pedro Américo (1843 – 1905). A apresentação das duas obras gera grande polêmica e um intenso debate no meio artístico. A partir de 1886 passa a se dedicar à execução de panoramas. Entre eles destacam-se: o Panorama Circular da Cidade do Rio de Janeiro, feito na Bélgica, juntamente com Henri Langerock (1830 – 1915) e Entrada da Esquadra Legal no Porto do Rio de Janeiro em 1894, produzida nesse mesmo ano.





Quadrinha sobre Ecologia, uso escolar

11 06 2009

floresta diminuindo

Papa-capim e um amigo, ilustração: Maurício de Sousa

 

Vêm das fábricas descendo

impurezas em excesso.

A Natureza morrendo…

Chamam a isto progresso?

 

(Luiz Evandro Innocêncio)