As palavras, poema para uso escolar de Eugênio de Andrade

22 06 2010
Homem escrevendo, ilustração, Oliver Ray.

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As palavras

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                                                                       Eugênio de Andrade

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São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

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Eugênio de Andrade

Eugênio de Andrade, (Portugal, 1923[1] — 2005), pseudônimo de José Fontinhas.  Poeta, escritor e ensaísta português.

Obras:

Poesia:

Adolescente, 1942

Pureza, 1945

As Mãos e os Frutos, 1948

Os Amantes sem Dinheiro, 1950

As Palavras Interditas, 1951

Até Amanhã, 1956, 13ª edição, 2002.

Coração do Dia, 1958

Mar de Setembro, 1961

Ostinato Rigore, 1964

Obscuro Domínio, 1971

Véspera de Água, 1973

Escrita da Terra, 1974

Homenagens e outros Epitáfios, 1974

Limiar dos pássaros, 1976

Primeiros Poemas, 1977

Memória Doutro Rio, 1978

Matéria Solar, 1980

O Peso da Sombra, 1982

Branco no Branco, 1984

Vertentes do Olhar, 1987

O Outro Nome da Terra, 1988

Contra a Obscuridade, 1988

Rente ao Dizer, 1992

Ofício de Paciência, 1994.

O Sal da Língua, 1995

Pequeno Formato, 1997

Os Lugares do Lume, 1998

Os Sulcos da Sede, 2001

Prosa

Os Afluentes do Silêncio, 1968

Rosto Precário, 1979

À Sombra da Memória,1993

Literatura Infantil

História da Égua Branca, 1977

Aquela Nuvem e Outras, 1986





21 de junho: Solstício de inverno

21 06 2010
Zé Carioca visita o Rio Grande do Sul, ilustração Walt Disney.

Hoje, dia 21 de junho,  às 03h46m (madrugada) tivemos o Solstício de Inverno no Hemisfério Sul e o Solstício de Verão para o Hemisfério Norte. Popularmente falamos que o Inverno começa oficialmente nesta data para nós aqui no Brasil e para todo hemisfério sul.

Época de comer pipoca enrolado em um cobertor e assistir um bom filme, quem sabe um vinho e um bom papo. Ou simplesmente um bom chocolate quente. Mas, você sabe por que isto ocorre? Por que é diferente em cada hemisfério? Algumas pessoas pensam que o Inverno é quando nosso planeta fica mais distante do Sol, ou mesmo porque o nosso hemisfério fica mais afastado. Isto não é verdade.

A causa das estações do ano, Primavera, Verão, Outono e Inverno e o fato de serem diferentes em cada hemisfério, está relacionada ao eixo inclinado da Terra em relação ao plano da eclíptica e sua órbita ao redor do Sol. As estações do ano do Verão e Inverno são os chamados pontos de Solstícios.

As estações do ano da Primavera e Outono são os chamados pontos de Equinócios. Um dos 14 movimentos que nosso planeta executa é o de Translação. Este movimento é a trajetória ligeiramente elíptica que a Terra realiza em torno do Sol. Para dar uma volta completa ela demora aproximadamente 365 dias e 6 horas e o faz a uma velocidade de 30 km/s, ou seja, a cada segundo nosso planeta percorre uma distancia de 30 km no espaço. Rapidinha não é? E você pensou que estava parado sentado no sofá de sua casa…

A diferença de 6 horas é acumulada e compensada a cada 4 anos com um ano bissexto, incluindo um dia no mês de Fevereiro.

Mais informações em SOMOS TODOS UM.





Fernando Mendonça, arte brasileira, nossa homenagem à Copa do Mundo

21 06 2010

Jogo de Futebol, s/d

Fernando Mendonça ( Brasil, Maranhão, contemporâneo)

Tecnica mista





Quadrinha infantil sobre a abelha

21 06 2010

A abelha trabalha sempre,

Não pára, não é vadia;

Faz esse mel tão gostoso

Que toda gente aprecia.





Um tecido único, naturalmente dourado, da seda de um milhão de aranhas

21 06 2010

Tecido de seda de aranha.  Cor natural.  Foto: American Museum of Natural History/R. Mickens.

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Hoje me lembrei de um artigo que eu havia lido no New York Times, sobre um tecido de seda de aranhas e que eu traduzia, quando uma pane no meu computador levou todo o meu trabalho para o éter.  Num sábado com um  único compromisso: ir ao jogo de vôlei Brasil x Coréia do Sul no Maracanãzinho, encontrei tempo suficiente para resgatar o assunto.  Procurei na rede  postagens brasileiras sobre os assunto, mas encontrei uma única enttrada no Boca Aberta.  Por que então postar?  Porque esta é uma oportunidade única de se conhecer um tecido feito de seda de fios de aranha.  Não há outro no mundo.  Mas sua fama é milenar.

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O tecido que foi exibido no Museu de História Natural  em Nova York é raro.  Foi feito com o fio de seda produzido por mais de um milhão de aranhas .  Para produzi-lo  um grupo de 70 pessoas, em Madagascar,  levou  4 anos coletando as aranhas que produzem este fio, enquanto um outro grupo de mais ou menos 12 trabalhadores extraia, cada um deles, aproximadamente 243 metros de cada aranha.  O resultado foi um tecido de 335 cm por  122 cm de largura.  Isso para fazer o único tecido de grandes proporções de seda de aranha no mundo, nos dias de hoje.

A seda da aranha é muito elástica e muito forte, incrivelmente forte mesmo de comparada ao aço ou ao Kevlar “[NT: Kevlar é uma fibra sintética muito resistente — marca registrada da Dupont}. Afirma Simon Peers, que é um dos líderes do projeto.  “ Há pesquisas no mundo inteiro hoje que tentam duplicar as propriedades de tensão do fio da aranha e aplicá-lo a  todo tipo de projeto da medicina à industria.  Mas ninguém ainda teve sucesso em conseguir todos as propriedades da seda da aranha”.

Simon Peers  teve essa idéia depois que soube de um missionário francês, Jacob Paul Camboué,  que trabalhou com aranhas em Madagascar no final do século XIX. Camboué construiu com auxílio de um sócio, M. Nogué,  uma pequena máquina de tecer à mão para extrair a seda de até 24 aranhas ao mesmo tempo, sem machucá-las.  O tecido obtido deu para fazer por esse processo um jogo completo de cama que  foi exposto na Exposição Universal de Paris em 1898, e depois perdido.   Antes de Camboué, na década de 1890, em Madagascar o fio de seda da aranha só era usado, na tradição secular, como fio para redes de pesca bastante rudimentares. 


As aranhas tecedeiras [Nephila madagascariensis] .

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Simon Peers então se propôs e conseguiu fazer uma réplica dessa máquina têxtil para 24 aranhas que foi usada no final do século XIX.  Junto com Nicholas Godley eles coletaram as primeiras 20 aranhas e as colocaram na máquina e começaram a rodá-la.  Para surpresa dos dois um belo e finíssimo fio de ouro começou a ser fabricado. 

O primeiro projeto do Comboué foi feito da maneira mais primitive possível.  As aranhas [Nephila madagascariensis ] eram colocadas numa caixa de fósforo e por um pequena compressão no seu abdome podiam extrair e enrolar num carretel movido à mão o fio que às vezes atingia até 450 metros.  Graças a invenção de M. Nougé que permite o fio de ser enrolado automaticamente e e e suas notas da construção da máquina que foi possível trançar e dobrar o fio de uma maneira prática e rápida.  Isso é feito por uma máquina difícil de descrever em que as aranhas são presas pela garganta, enquanto fabricam o fio.  Elas aceitam esta prisão de maneira bastante passive, e enquanto a seda é retirada elas permanecem completamente imóveis.  Mas para fazer um tecido de um tamanho razoável Peers e Godley tiveram que aumentar bastante o projeto.  14.000 aranhas dão aproximadamente  28 gramas de seda e o tecido exposto no museu, pesa 1.180 gramas.   Os números são gigantescos.  Assim, jovens meninas de Madagascar ião diariamente a um parque próximo à escola que freqüentavam e coletavam 300 a 400 aranhas.  Essas aranhas eram colocadas em cestos com tampas de madeira, para o transporte.   Em geral, depois de serem postas na máquina, e a seda retirada, as aranhas são recolocadas de volta no parque por algumas semanas.  Pode-se retirar a seda da mesma aranha passado algum tempo de Godley menciona que “é como um presente que se renova, que você continua recebendo”.  A seda quando é coletada já vem com a cor dourada e não precisa pentear nem de qualquer outro tipo de tratamento antes de ser usada na trama.  

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Para conseguir a quantidade de seda de que necessitavam,  Godley e Peers empregaram dezenas de pessoas para pegarem as aranhas: coletar e colocá-las na máquina.  “Tivemos que procurar pessoas que se interessassem em trabalhar com as aranhas, porque elas mordem”.   No final do projeto foram usadas mais de um milhão de aranhas fêmeas para conseguirem a seda necessária.  Essas aranhas  são membros da família Nephila genus e encontradas nos trópicos.  São de fácil identificação: grandes teias douradas, que podem ser vistas entre postes de luz ou telefone, ou entre fios de luz e que podem chegar em tamanho à largura de uma estrada para um carro.  Os fios dourados só são produzidos durante a estação das chuvas, por isso os trabalhadores as coletam entre outubro a junho.  O milhão de aranhas usado no projeto,  foi coletado em Antananarivo, capital de Madagascar e  arredores.

Precisa ser dito o quão intrigante é ver que as aranhas usadas no processo parecerem dóceis ao se deixarem ser manuseadas.  Por que elas são conhecidas por sua ferocidade, pelo menos contra os seres de seu próprio meio.  Só aranhas fêmeas produzem o fio de seda.  Elas, em geral, degustam seus parceiros depois do acasalamento e comem também com alguma freqüência, outras aranhas fêmeas mais fracas do que elas mesmas.  Quase toda a seda é feita dos casulos de lagartas da seda, mas de tempos em tempos, as pessoas tentaram fazer seda do fio de aranha.  Um dos grandes problemas é o canibalismo das aranhas que se devoram quando cativas, e colocadas num único ambiente, o que não acontece com as lagartas. 

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Há muito tempo pesquisadores tentam entender as propriedades da seda de aranha que são únicas,que as fazem mais fortes do que se fossem feitas com fios de aço ou Kevlar e ainda por cima muito mais flexíveis, se esticando até 40 % além do seu comprimento normal sem quebrar.  O fio também é mais forte do que o aço e à prova d’água.  Infelizmente a seda de aranha é muito difícil de ser produzida em grande quantidade. 

E é claro que gastar 4 anos produzindo um único tecido de seda de aranha não é muito prático para os cientistas tentando estudar todos os aspectos dessa seda, nem companhias que gostariam de manufaturar um tecido que pudesse ter uso biomédico, — no campo de batalha, nas viagens espaciais, em coletes à prova de bala,  ou como simples alternativa ao Kevlar — poderiam fazer isso.  Alguns pesquisadores tentaram inserir alguns genes de aranha em bactérias ( até mesmo vacas e cabras) para a produção de seda, mas até hoje, essas tentativas têm tido pouco sucesso.

Parte do problema de produzir a seda da aranha em laboratório é que ela começa como uma proteína líquida que é produzida por uma glândula especial no abdome da aranha.   A aranha usa de força em suas pequenas rocas para re-arrumar a estrutura molecular da proteína e torná-la  em seda.

Quando se fala de uma aranha produzir seda, estamos , na verdade, falando em como ela aplica suas forces para produzir a transformação de um líquido em sólido,” disse o conhecedor de seda Todd Blackledge da Universidade de Akron, que não teve participação no projeto do tecido.  “Os cientistas não conseguem duplicar o que as aranhas fazem tão bem.  A cada ano que passa estamos cada vez mais próximo de poder produzir essa seda em grande quantidade, mas ainda falta chegarmos lá”.  

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Tecendo.

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O tecido em exposição foi feito com um desenho e pássaros e flores baseado na longa tradição tecedeira da região montanhosa de Madagascar.  Essa arte tecelã era reservada só para as pessoas da família real e das classes mais altas, como o povo Merina.  Seda natural de lagarta há muito que é utilizada em Madagascar, mas não há lá nenhuma tradição de tecelagem com seda de aranha.   O tecido ficou em exposição em Nova York por seis meses e está agora em Londres onde também ficará exposto ao público por algum tempo antes de passear pelo mundo de museu em museu.





Cláudio Tozzi, arte brasileira, nossa homenagem à Copa do Mundo

20 06 2010

A dança do futebol, 1997

Cláudio Tozzi ( Brasil, 1944)

Acrílica e óleo sobre tela, 245 x 190 cm





Simpatia, poesia infantil de Afonso Schmidt

20 06 2010
Menino com cachorro, ilustração Mark Arian.

Simpatia

                                             Afonso Schmidt

Numa tarde longa e mansa,

os dois pela estrafa vão:

o cão estima a criança,

e a criança estima o cão.

Que delicada aliança

dos seres da criação:

uma risonha criança,

um robustíssimo cão.

Deus percebeu a lembrança

e sorriu lá na amplidão:

ele gosta da criança,

que trata bem o seu cão.

Por isso, na tarde mansa,

os dois felizes lá vão:

a delicada criança

e o robustíssimo cão.

Em: Poesia brasileira para a înfância, Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, São Paulo, Saraiva:1968

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Afonso Schmidt

 

Afonso Schmidt (Cubatão, SP 1890 – SP, SP 1964) poeta, romancista, contista, biógrafo, jornalista.  Como jornalista trabalhou para  A Voz do Povo, em 1920, no Rio de Janeiro.  Para Folha da Noite,  Diário de Santos e A Tribuna, em Santos. Em São Paulo trabalhou na Folha da Noite e O Estado de S.Paulo.  Neste último trabalhou de 1924 até 1963.  Recebeu o prêmio da  revista O Cruzeiro em 1950 pelo romance Menino Felipe.   A União Brasileira de Escritores lhe premiou com o Juca Pato – Intelectual do Ano em 1963.  Foi sócio fundador do Sindicato dos Jornalistas do Estado de S. Paulo, membro da Academia Paulista de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.

Obras: 

Lírios roxos, 1904

Miniaturas, 1905

Janelas Abertas (poesia), 1911

Lusitânia (ato em verso), 1916

Evangelho dos Livres (panfleto), 1920

Mocidade, 1921

Brutalidade (contos), 1922

Ao relento, 1922

Janelas Abertas (versos) – Edição Aumentada (Menção Honrosa da Academia Brasileira de Letras, 1923

Os Impunes (novelas), 1923

As Levianas (peça em três atos), 1925

O Dragão e as Virgens (romance, 1927

Cânticos Revolucionários (panfletos), 1930

A nova conflagração, 1931

Garoa, 1931

Os Negros (crônicas), 1932

Garoa (poesia), 1932

Poesias, 1934

Carne para Canhão (peça em três atos), 1934

Pirapora (contos), 1934

Curiango (contos), 1935

Zanzalás (uma novela de tempos futuros), 1936

A Vida de Paulo Eiró (biografia), 1940

A Marcha (Romance da Abolição), 1941

O Tesouro de Cananéia (contos), 1941

No Reino do Céu (novela), 1942

A Sombra de Júlio Frank (biografia),1942

A árvore das lágrimas, 1942

Colônia Cecília (Uma aventura anarquista na América), 1942

O Assalto (Romance do ouro e do sal), 1945

Poesias (edição definitiva), 1945.

O Retrato de Valentina (novela), 1947

A Primeira Viagem (viagem), 1947

Menino Felipe (romance), 1950

Saltimbancos (romance), 1950

Aventuras de Indalécio (romance), 1951

Os Boêmios (contos), 1952

Dedo nos Lábios (novelas), 1953

O Gigante Invisível (divulgação), 1953

Carantonhas (novela juvenil), s/d

São Paulo dos Meus Amores (crônicas), 1954

A Marcha (romance da Abolição,  história em quadrinhos), 1955

Mistérios de São Paulo (reminiscência), 1955

Bom Tempo (memórias), 1956

A Datilógrafa (romance), 1958

A Locomotiva (romance), 1960

Mirita e o Ladrão (romance), 1960

O Retrato de Valentina (novela), 1961

O Canudo, 1963

O enigma de João Ramalho, 1963

O passarinho verde, s/d

Zamir, s/d





Mário Zanini, arte brasileira, nossa homenagem à Copa do Mundo

19 06 2010

Futebol, s/d.

Mário Zanini ( Brasil, 1907-1971)

Óleo sobre tela, 60 x 73 cm





Imagem de leitura — Osman Hamdi Bey

19 06 2010

O teólogo, 1907

Osman Hamdi Bey (Turquia, 1842 — 1910)

Óleo sobre tela, 90 x 113 cm

Coleção Feyyaz Berker, Turquia

Osman Hamdi Bey (Istambul, 1842 — Istambul, 24 de fevereiro de 1910) foi  um estadista intelectual, connoisseur das artes e um importante pintor realista turco do século XIX.  Foi também um grande arqueólogo e é considerado um dos pioneiros na profissão de curador de museus na Turquia.   Fundador do Museu Arqueológico de Istambul e da Academia de Belas Artes (Sanayi-i Nefise Mektebi )de Istambul,conhecida hoje como Universidasde Mimar Sinan de Belas Artes.  Osman Hamdi Bey foi um dos mais famosos artistas árabes oitocentistas.  Três de seus trabalhos – O repouso das ciganas, Soldado do Mar Negro à espera, e Morte de um soldado — foram expostos na Exposição Universal de Paris em 1881.   Como diretor do Museum Imperial, em 1882 ele conseguiu desenvolver e redigir novas leis para proteção do patrimônio arqueológico da Turquia.





Relato de viagem de George Gardner, 1839-1840 — Goiás

19 06 2010

Distrito da Chapada, 1827

Adrien Taunay ( França, 1803-1828)

Aquarela,  42 x 32 cm

Academia de Ciências de São Petersburgo, Rússia

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George Gardner foi um botânico, zoológo e médico, enfim um naturalista inglês. Nasceu em 1812 e faleceu em 1849.  Chegou ao Brasil em 1836 e passou 3 anos e meio aqui.  Percorreu algumas regiões do Nordeste e do Brasil Central.  Registrou suas impressões no livro Viagens no Brasil cujo título é: Viagens no interior do Brasil: principalmente nas províncias do norte e nos distritos do ouro e do diamante durante os anos de 1836-1841, publicado em 1846, 1849 e em 1973, todas essas edições em inglês, sendo traduzida para o português apenas em 1942 e reeditada em 1975.  Aqui está um trechinho:

          “No dia 10 de fevereiro de 1840 partimos de Natividade, com o intuito de ir até a vila de Arraias, cerca de trinta léguas ao sudeste.  Tínhamos feito todos os preparativos para partir no segundo dia do mês, mas passamos pelo aborrecimento de saber que um dos cavalos desaparecera, o que nos deteve ali por oito dias mais.  Verificamos, afinal, que alguém o levara de empréstimo, porque quatro dias depois de nossa partida foi encontrado perto do lugar donde o haviam tirado, sendo então enviado, para me alcançar em caminho, pelo meu amigo, o juiz de órfãos.

          Saindo de Natividade e contornando a serra em direção do sul, chegamos à margem de pequena corrente chamada riacho Salobro, que corre para o oeste desemboca no rio Manuel Alves;  suas águas são salobras durante o tempo da seca.  Os fardos tiveram de ser passados todos por sobre uma tosca espécie de ponte chamada pinguela, feita do tronco de duas árvores; e, como o rio e suas margens eram fundos,tivemos não pouca dificuldade em fazer os animais atravessar a nado.  Ficamos por essa noite na Fazenda das Três Léguas, por ser essa a distância da vila, como o nome indica.  Na manhã seguinte,  após légua e meia de caminho,  chegamos novamente às margens do rio  Manuel Alves, mais fundo e largo do que no lugar onde primeiro o atravessamos: aqui, porém, tivemos a dita de encontrar canoa e, segurando cada qual um dos cabrestos, puxaram os animais a nado, dois de cada vez.  Antes que nossa bagagem fosse transportada para o lado oposto, passou por sobre nós, vinda do  nordeste, grande trovoada que nos encharcou.   À vista disso, pareceu-me que o melhor era seguirmos imediatamente para a primeira casa, légua e meia distante dali, onde pernoitamos.

          A região entre a vila e o rio é quase toda uma planície baixa, de campos abertos, pântanos e tratos de terra escassamente cobertos de árvores.  Alguns belos arbustos florescentes e umas poucas orquídeas terrestres foram colhidas na jornada.

          Deste lugar, em dois dias e meio, vencemos mais de dez léguas para chegar ao Arraial da Conceição.  Na noite de 12 dormimos em uma grande fazenda de criação de gado, chamada São Bento, impedidos que fomos de partir à tarde por motivo de forte tempestade.  Até uma légua do arraial a região ainda é aberta e baixa; ao depois torna-se montanhosa, mas montanhas baixas e por vezes rochosas.  Tão rara é a população desses  distritos, que entre São Bento e o Arraial, em uma distância pelo menos de vinte milhas, só encontramos uma casa.  A maior parte deste distrito apenas se presta à criação de gado; mas há também grande porção admiravelmente propícia a plantações de várias espécies.

Palmeiras Buriti, Quilombo, na Chapada, 1827

Adrien Taunay ( França, 1803- 1828)

Aquarela, 41 x 32 cm

Academia de Ciências de São Petersburgo, Rússia.

 O Arraial da Conceição tem uma população de cerca de CE m almas; mas há no lugar muitas casas, pertencentes a fazendeiros, que só as ocupam ao tempo das principais festas da igreja.  Negros e mulatos formam a maioria da população residente e poucos brancos vimos nos quatro dias em que lá estivemos.

          A vila assenta em uma baixada entre duas colinas, mas a região em torno é geralmente plana.  As casas erguem-se quase todas, em duas ruas compridas, com duas igrejas, uma das quais em ruínas.  A água de que Arraial se abastece vem de pequeno regato; água má, de sabor salobro, que parece ter alguma influência na produção do bócio, tão comum na zona do oeste da serra Geral, que é, até onde pude verificar, cercada de pedra calcária semelhante à que existe em Natividade.  As águas que manam nestas rochas são todas mais ou menos salinas e, onde quer que são bebidas pelos habitantes, aí se encontra o bócio.  Ao longo da parte oriental da serra, ao contrário, raramente se encontram casos desta doença; e aí, pelo menos nas partes por mim visitadas, não há pedra calcária, nem são os riachos impregnados de matéria salina.

          O solo dos arredores da aldeia, em uma extensão de cerca de uma légua, dá evidentes mostras de ter sido escavado em busca de ouro e, por tudo quanto ouvi, muito deste metal aí se encontrou antigamente.

          O pouco que hoje se acha mal compensa os labores da procura.  O solo em que se encontra é de argila e cascalho, restos, evidentemente, de primitivas rochas, onde o ouro aparece ou em partículas diminutas, ou em grãos de todos os tamanhos, chegando alguns deles, ao que se diz, ao peso de várias onças.  Acredita-se também na existência de ricos veios na rocha sólida, que consiste principalmente de quartzo; mas não se podem explorar em profundidade, por falta de meios de remover a água que se acumula.  Informou-me o vigário, talvez com exagero, que a pouca distância da aldeia existe uma mina tão rica, que um pequeno balde de terra dá quase um quarto de onça de ouro.  Disse mais, que a mina não tem mais de vinte pés de profundidade, mas teve de ser abandonada por muito tempo devido ao influxo de uma nascente de água.

          O único meio de se livrarem da água era postar em diferentes alturas certo número de homens que passassem a água de um para o outro em pequenos baldes.  Perguntando-lhes eu por que não faziam uso de bombas, disseram-me que já haviam ouvido falar em tal coisa, mas nunca a tinham visto.  Porque os mecânicos do lugar eram a tal ponto ignorantes, que não sabiam fabricar tão simples instrumentos.

          Do vigário recebi muitas provas de bondade durante minha visita.  Era um homem em extremo benevolente e muito estimado do povo.  Embora avançado em anos, mostrava-se de temperamento ativo, muito mais ativo, com efeito, que o comum da gente de sua classe e da gente de todo o país.

          Era a única pessoa daquelas paragens que assinava um jornal do Rio; mas pela irregularidade dos correios, davam-se longos intervalos em sua entrega.  O vigário deu-me uma apresentação a um dos homens mais influentes nos arredores da vila Arraias e que era seu amigo íntimo.

          Dentro dos últimos vinte anos sentiram-se dois ligeiros abalos sísmicos em Natividade e Conceição, o primeiro em 1826 e o segundo em 1834: o tremor de terra, ainda que de curta duração, foi nitidamente perceptível em ambos os lugares.  Também foram os únicos lugares do Brasil onde soube que tais fenômenos se tinham observado.

          Partimos de Conceição na manhã de 17 de fevereiro, vencendo quatro longas léguas para chegar, quando a tarde estava avançada, às margens do rio da Palma”. ….