As brasas de Sándor Márai: solilóquio sobre a amizade

9 12 2012

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Caçadores no bosque, 1880

Antoni Piotrowski (Polônia, 1853-1924)

Óleo sobre tela, 127 x 170cm

Christie’s Auction House, junho 2009

Um pequeno romance de grande impacto, As Brasas de Sándor Márai revolve em torno da amizade de dois homens, amizade de infância.  A trama é simples: um confronto entre dois amigos após quarenta e um anos de separação.  Um evento, que se esclarece ao longo da segunda metade do livro, foi o ponto de fricção entre eles.  O encontro entre os dois, cuidadosamente encenado por Henrik, um militar aposentado do exército do antigo império austro-húngaro,  leva ao clímax do romance, quando, num penoso e intenso solilóquio,  ele descortina as nuances de emoções e comportamentos, que explicam e justificam o evento que  levou ao término da amizade.

Nesse monólogo raramente interrompido por Konrad, o amigo que o visita, e que agora reside em Londres,  Henrik  explora suas reações ao longo dos anos, depois da separação dele, do amigo e de Krisztina, sua esposa.  A trama traz ao proscênio o melhor que a literatura tem a dar: um estudo das emoções humanas.  Como componentes da trama, fazendo parte do cenário, trazidos vez por outra para o foco de luz no palco, estão o amor, a inveja, a traição, a honra e o dever.

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No entanto há uma extensa metáfora  nessa encenação, que se passa no ano de 1919, logo após a desintegração do império austro-húngaro.   Ambos os amigos vêm de famílias com nobreza, mas Henrik pertence a uma família mais importante, mais chegada à realeza húngara, enquanto Konrad vem de uma família nobre  empobrecida, cujos laços nobiliárquicos estavam enraizados na Polônia e que precisa vender terras para poder mantê-lo na escola militar.  Há um desequilíbrio de classe social e financeiro entre os dois que faz um paralelo direto com a realidade daquele império formado em 1867, entre a casa dos Habsburgos e a família real da Hungria.  Quando Sándor Márai caracteriza a amizade como um dever, na fala de Henrik, ele fala de amigos ou de nações?  E Konrad lembra a Henrik, que tudo que juraram defender, já não existe, mas Henrik só admite que o modo de vida do qual fazia parte talvez não exista mais ao final da narrativa.

Konrad é retratado não só como passional como indigno de confiança, como quando toca piano, uma peça de Chopin, de quem era parente distante, e se transforma. Falsidade e deslealdade eram características atribuídas a povos não húngaros. Para Henrik, ou melhor, para o verdadeiro húngaro, Konrad prova ser dessa estirpe desleal, assim como por extensão sua própria mãe e Krisztina, sua esposa.    Ainda que a presença de Konrad pareça quase acidental na trama, já que é o monólogo de Henrik que revela a complexidade de seus sentimentos e de suas ações, Konrad é essencial pois torna-se o avesso, a imagem espelhada, de Henrik.  Assim vemos os dois lados do império austro-húngaro: a nobreza traída, e os que dela escaparam, mesmo que a grandes penas.   Diferente do esperado esta é uma história escrita não por quem venceu a guerra, mas por quem a perdeu.

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Sándor Márai

Eventualmente Henrik reconhece que há coisas piores do que o sofrimento e a morte, entre elas, a perda do amor-próprio. E isto também pode ser visto não só como sua descoberta pessoal depois de passar quarenta e um anos analisando os eventos que levaram ao final dessa amizade, como pode ser considerado o retrato daqueles que por orgulho, dívida, dever resistiram à dissolução do império.

Como eixo da trama está Krisztina, traída duas vezes: por Henrik e por Konrad.  Uma mulher enigmática, estrangeira, pobre, que receia seus próprios pensamentos e mantém um estranho diário,  documento  íntimo, cuja importância Henrik cultiva através dos anos e que ao final se faz totalmente desnecessário.  Ela também pode ser vista por dois ângulos: traída por dois homens e traidora dos dois.  Que versão adotar?

As brasas é uma obra que nos leva a pensar em círculos.  A considerar as desventuras do ser humano.  É apropriado perguntar se precisamos de tanto sofrimento.  De tanta angústia auto-imposta. E vale lembrar que as conotações de valores como dever, dívida, lealdade, mesmo que possam ser consideradas absolutas por uns, terão sempre uma dualidade, um reverso que pode não ser esperado.





Cosimo de Medici, memórias de um líder renascentista, onde o passado e presente se falam

25 11 2012

Retrato póstumo de Cosimo de Medici, o velho, 1518

[Cosimo de Medici 1389-1464]

Jacopo Pontomo (Pontorme, 1494- Florença, 1557)

óleo sobre tela, 86 x 65 cm

Galeria Uffizi, Florença

Fiquei encantada com a leitura de Cosimo de Medici, memórias de um líder renascentista, de Luiz Felipe D’Ávila,  onde encontrei um autor  que através da ficção de memórias  foi capaz de transmitir,  de maneira fascinante e eficaz,  a vida diária de Florença no início do período renascentista. Cosimo viveu de 1389 a 1464 e foi o patriarca da influente família de banqueiros de Florença, que teve muitas vezes o destino da história ocidental nas mãos por bem mais de dois séculos.

Escrever sobre qualquer um dos Medici poderia ser simplesmente a repetição de toda a pesquisa já feita sobre os membros da família.  Historiadores do mundo inteiro já passaram horas debruçados sobre suas vidas.  No entanto, uma coisa deliciosa sobre esta narrativa é a contemporaneidade das preocupações de Cosimo, que se encontra,  escolhendo entre opções muito semelhantes as que fazemos nos dias de hoje.

Quando eu ainda ensinava história da arte na universidade eu abria o período da civilização romana, com afirmações de efeito e para chamar atenção dos alunos, mas que tinham muito de verdade.  Dizia: “olhem bem para esta cidade romana: tem edifícios de apartamentos, tem sistema de água e esgotos, tem mercados, tem ruas.  Desde os  romanos, nada mudou.  Continuamos a construir cidades da mesma forma que eles faziam. Tantos séculos já se passaram, o que é que vocês vão fazer para mostrar que aprendemos alguma coisa nesse tempo todo?”  É claro que inicialmente os alunos achavam que este exagero era demasiado, mas à medida que o semestre  passava e as aulas se aprofundavam, os paralelos entre o que viam e o que tínhamos no nosso dia a dia se intensificavam, para descrença de todos.

Assim como a beleza está nos olhos de quem vê, a história esta nos olhos de quem se volta para o passado.  Ler historiadores do século XIX , de meados do século XX e contemporâneos ilustra a subjetividade da história, que se mostra tão precisa quanto um livro de memórias.  Mas isso não invalida o estudo.  Pelo contrário, mostra as forças filosóficas que esculpiram a maneira de pensar de historiadores e de seu tempo, e mostra, sobretudo, o ser humano.  Verdade não existe.  É relativa.   Assim, a contemporaneidade de um momento histórico é parte da seleção feita por aquele historiador.

A fascinante contemporaneidade de  Cosimo de Medici, memórias de um líder renascentista, é parte da reflexão do nosso momento sobre o passado.  Isso dá relevância à leitura, porque podemos nos ver, ver onde poderíamos mudar: o que já deu ou não certo.  A vida no século XV era muito semelhante a que vivemos hoje, dadas as devidas proporções.  E não são poucas as passagens em que podemos fazer um paralelo direto.  Encontramos também sábios conselhos de Cosimo, que se usados por nós, hoje, ainda seriam de grande valia. Vejamos como a passagem seguinte, onde o autor explica a movimentação econômica na “Wall Street” de Florença, a Porta Rossa:

Na rua Porta Rossa, os comerciantes levantam empréstimos,descontam cartas de crédito, trocam mercadorias por dinheiro, recebem e pagam contas, requisitam os serviços dos bancos para intermediar a compra e venda de vários produtos, tais como livros, seda, lã, jóias, escravos e animais. As conversas e transações com os nossos clientes são excelente indicadores sobre os negócios, a política e as oportunidades comerciais existentes nas cidades e países em que atuamos”.

Luiz Felipe D’Ávila

Mais além a sabedoria de quem administrava um dos mais importantes bancos da história:

A ostentação e a vaidade exagerada refletem certo desvio de caráter. Ela é uma  manifestação de um espírito volúvel e escravizado pelos desejos. Não me recordo de ter conhecido pessoas honestas e confiáveis que gostam da ostentação ou que são extremamente vaidosas. No banco, os clientes que mais nos preocupam são aqueles que adoram ostentar.  Costumam se endividar para satisfazer suas vaidades e alimentar os seus vícios, ignorando a capacidade de  honrar os seus empréstimos. Na política são atraídos pelo poder e não pelo senso do dever;  são pessoas voláteis que mudam de opinião e de lado conforme os seus interesses imediatistas.  Por isso são facilmente seduzidas e corrompidas.  Toda vaidade tem um preço; ela é o calcanhar-de-aquiles do ser humano”.

Perdoem-me a obviedade, mas estávamos descrevendo os nossos políticos?

Voltando ao livro de Luiz Felipe D’Ávila: é uma jóia.  Pouco difundido.  Precisava ter tido mais marketing.  Publicado em 2008 só agora chegou às minhas mãos, e ainda por acaso. É uma pena.  Qualquer um interessado em história, em uma boa narrativa, e em saber mais dessa família de banqueiros; qualquer um que se interesse em saber sobre as comissões artísticas de muitas das obras de arte da Renascença italiana, que fazem parte do nosso arquivo visual da época,  tem o dever de prestigiar esse pesquisador brasileiro.  Foi um prazer ler estas 150 páginas ricamente ilustradas.





Um jogo de espelhos em Amsterdam de Ian McEwan

12 11 2012

Prinsengracht, Amsterdam, 2009

Mark Christian Soetebier (Holanda, contemporâneo)

Aquarela sobre papel

The Watercolor Gallery

Amsterdam* é um romance centrado em dois personagens, o editor de um jornal, Vernon Halliday e o compositor Clive Linley,  um verdadeiro par de personalidades que se assemelham mais do que imaginamos a principio e cujas reações se complementam, movendo a trama do romance num crescendo cantábile até um final surpreendente.  Apesar de parecerem distintos, com profissões, estados civis e temperamentos diversos, esses dois amigos de longa data se completam.  Conhecemos a dupla, logo na abertura da narrativa, no enterro de Molly, a amante que ambos tiveram em comum.  Daí em diante começamos a compreender as diversas maneiras em que esses homens de meia idade tiveram suas vidas emaranhadas num labirinto de interconexões.

Usando desse artífice Ian McEwan consegue em meras 184 páginas fazer um verdadeiro ensaio na forma de ficção sobre alguns problemas éticos que nos afligem.  A que custo devemos perseguir o sucesso profissional?  Quando a ambição passa dos limites?  Temos direito à censura antecipada? O que separa a vida privada da vida pública?  Testemunhar uma tentativa de crime incorre em obrigações sociais?  A eutanásia pode ser encomendada?  Esses e outros assuntos estão constantemente nos assediando.  Enquanto escrevo essa resenha acompanho no rádio o caso do ex-diretor do CIA que pediu demissão por uma traição amorosa, enquanto o jornal da manhã mostrava a diretoria da BBC embaraçada com os escândalos de pedofilia.  E na semana passada o Congresso brasileiro passou a lei Carolina Dieckmann  de proteção à privacidade de pessoas públicas na internet.  Esses são assuntos de hoje, do dia a dia, que já estavam na pauta de Ian McEwan em 1998, quando esse romance foi publicado.

Toda a tensão nesse romance tem como base o pequeno número de personagens.  Em primeiro plano aparecem as conturbadas emoções manifestadas pelos desejos de Vernon e Clive. É grande a ambição de ambos, que já chegaram ao ápice de suas carreiras e podem olhar para o futuro ocaso de suas vidas com o sentimento de dever cumprido.  Mas a morte de Molly, ainda jovem, os desestabiliza.  São obrigados a incluir em seus horizontes seus próprios fins.  Vemos também se imiscuir entre eles recalques e desejos deixados de lado e agora relembrados nessa amizade.  Em comum eles têm não só a mesma amante mas a traição, já que ambos conheciam e eram amigos do marido de Molly.

Ian McEwan

Esta é uma amizade repleta de inveja, raiva, fidelidade,  ódio, culpa; de uma gama enorme de sentimentos  contraditórios e complementares.  Essas emoções que os unem, inicialmente aparecem em cores brandas, se intensificando à medida que o romance se desenvolve.  Mas é a competitividade entre eles, já existente desde os tempos de Molly, que eventualmente os arma e prova até o último momento o quanto esses dois amigos se assemelham.  Amsterdam é um excelente ensaio sobre as emoções que afligem o ser humano de hoje, homens complexos e destemidos, ambiciosos e egoístas.  É uma janela na alma humana corroída pela liberação de antigas regras éticas.

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* Os dicionários nos dizem que a forma Amsterdam – com a letra “m” no final não existe em português.  O correto seria Amsterdã, no Brasil, ou Amsterdão em Portugal.  Essa grafia é um anglicismo inútil, porque não adiciona nenhuma outra conotação para uma palavra muito bem grafada em português, e fica a pergunta: por que um livro editado no Brasil a usa?  Depois reclamamos que as pessoas não sabem mais escrever … é por essas e outras.





Helen Simonson e “O Major Pettigrew”, um revolucionário dos costumes sociais

28 10 2012

Aldeia inglesa

Peta Carley ( EUA, contemporânea)

óleo sobre tela

Uma preciosa contribuição à ficção inglesa contemporânea foi feita por Helen Simonson na aventura  passada no interior da Inglaterra, onde um major do exército britânico de 68 anos, aposentado e viúvo, se encontra, para surpresa própria, na expectativa de um novo romance com a dona de uma loja de conveniência em um pequeno vilarejo em Sussex.   A última façanha do Major Pettigrew [Rocco: 2010] é uma narrativa recheada de grande senso de humor, que nos leva do sorriso à gargalhada sonora; onde testemunhamos as dificuldades das decisões apropriadas e os tropeços sociais do protagonista, que por timidez, por limitações da boa educação atrapalha-se quando mais quer impressionar, numa clássica tensão entre desejo de acerto e comportamento social antagônico, como rege a comédia inglesa.

Ainda que pertencente à tradição da comédia de costumes tão bem explorada por Jane Austen,  Major Pettigrew divide com “Mr. Darcy” do romance do século XIX algumas poucas  características: o interesse pela pessoa inesperada; aptidão de ignorar os costumes sociais da época; inabilidade de se expressar da melhor maneira possível em circunstâncias delicadas e a galhardia.   Enquanto em Orgulho e Preconceito sorrimos mentalmente com as observações de “Lizzie”, neste romance, podemos rir às gargalhadas com a deficiência de coordenação entre a vontade e a ação do herói e pretendente amoroso.

A tensão nessa comédia é grande, causada pelo frequente embaraço do personagem.  A pressão entre a situação vivida e a vontade do Major é tanta que muitas vezes Pettigrew lembra em seu comportamento Basil Fawlty, personagem principal do programa Fawlty Towers da BBC, da década de 1970, onde no texto escrito e desempenhado por John Cleese há descompasso semelhante, se bem que na comédia para a televisão as ambições de Basil Fawlty, gerenciando seu pequeno hotel não tenham nada em comum com as situações vividas pelo major aposentado.

Muitos são os herdeiros literários de Jane Austen e eles se diferenciam não só pelo nível da crítica social como também pela época em que escrevem, porque as caracterizações na comédia de costumes dependem disso.  No século XX tivemos, entre outros, duas grandes mestras nessa arte: Barbara Pym e Elizabeth Bowen.  Helen Simonson parece mais relacionada a Barbara Pym.  Não tem o tom às vezes soturno de Elizabeth Bowen.  Como Barbara Pym, Helen Simonson manteve a trama na pequena aldeia, em personagens comuns aos vilarejos ingleses e ainda na característica de que a realidade e os planos feitos pelos personagens quase sempre têm somente um certo grau de sucesso e frequentemente aquele que não era esperado. A arte de retratar as pequenas frustrações do cotidiano de qualquer individuo, sem cair no dramalhão ou no ridículo é uma das características mais cativantes da literatura inglesa desse gênero.  Vidas prescritas pelas circunstâncias sociais, a traição de segredos mantidos a sete chaves, a transformação das vidas de personagens quando forças incontidas sobem à superfície são alguns dos pontos em comum entre todas essas escritoras.  A mestria das meias-palavras, do ofuscamento, das reticências, tão tipicamente ingleses, são nuances que nem sempre conseguem ser transportadas para outra língua ou cultura.  E aqui se faz necessário aplaudir a excelente tradução de Waldéa Barcellos que não poupa esforços para transmitir a insinuação maldosa dos personagens, o artifício literário  do não dito pelo dito.

Helen Simonson

Além do tremendo senso de humor, da análise sagaz de tipos que todos nós conhecemos, há outros aspectos que fazem dessa publicação um deleite.  Este romance é sobretudo contemporâneo nas situações, nos preconceitos, na realidade de uma Inglaterra pós império colonial.  Ter que aceitar súditos de países colonizados está na agenda social de todos  os países europeus colonizadores que no final do século XX, por causa da integração na Comunidade Europeia, tiveram que abdicar de suas colônias na África e na Ásia.  Cada um fechou o domínio colonial de maneira diferente, mas todos tiveram que aceitar em seu território muitos cidadãos que não tinham o perfil visual e cultural dos países sede.  Consequentemente temos na Europa hoje a abundância de coloridos de peles, de religiões outrora estrangeiras, de costumes alimentares diferenciados.  Como essa aceitação se faz na Inglaterra é um dos assuntos tratados por Helen Simonson, assim como: problemas de heranças, entre pais e filhos, e expectativas que temos de amigos e que eles têm de nós.  Tudo  habilmente administrado por uma escritora que diverte e dá ao leitor uma pausa e espaço para refletir sobre esse novo mundo: uma bem-vinda moratória aos jargões óbvios do politicamente correto.  Por tudo isso,  este é um livro para ser lido e degustado.





A dama e o unicórnio de Tracy Chevalier, uma leitura leve

15 10 2012

Tapeçaria da Série A Dama e o Unicórnio, c. 1470-1475

Museu de Arte Medieval, França

Tracy Chevalier me encantou há alguns anos com sua Moça com Brinco de Pérola, que li muito antes do filme ter chegado aos cinemas.  Mais tarde li o romance  Viva Chama, que apesar de interessante já não me pareceu tão evocativo de uma era.   Por isso mesmo deixei passar um bom tempo para ler A dama e o unicórnio.  Raramente a boa experiência de leitura de um autor se duplica na leitura seguinte se ainda estou sob o feitiço do primeiro encontro.  E temi que este livro sobre as famosas tapeçarias francesas da proto-renascença  pudesse me trazer descontentamento.   Posso garantir no entanto que este é um livro charmoso, agradável e um testemunho da grande criatividade da autora que se revela muito hábil ao imaginar as situações que poderiam ter levado à produção das tapeçarias assim como as vidas dos artesãos que as teceram.

O encanto do livro Moça com brinco de pérola não se repetiu.  Mas também não saí ao final dessa leitura desapontada: esta é uma narrativa leve, sensual, que tem o mérito de respeitar aquilo que se sabe hoje sobre as tapeçarias em questão. E ainda, este é um romance que traz aos olhos do século XXI, aos não historiadores, a quem não precisa refletir sobre as condições de vida e de trabalho no século XV, uma perspectiva de como seria a vida de então, com suas restrições, suas liberdades, as regras das guildas artesanais, o papel do monastério de freiras na vida de uma mulher.  Porque sua pesquisa foi bem feita, Tracy Chavalier instrui ao mesmo tempo que assume o papel de uma Sherazade.

Se por um lado a trama é tênue e previsível, por outro ela se salva pela acuidade na representação do trabalho artesão e de fatos históricos.  Isso  releva quaisquer faltas no comportamento quase licencioso retratado em alguns personagens femininos, comportamento  inexato pelo que se sabe serem as normas vigentes na época.  Não obstante,  A dama e o unicórnio oferece um entretenimento leve e informativo.





O labirinto em Serena, de Ian McEwan

4 10 2012

Relatividade, 1953

M. C. Escher (Holanda, 1898-1972)

Litografia

Inicialmente pensei que a imagem mais apropriada para ilustrar o livro Serena de Ian McEwan fosse uma das paisagens de Estaque do pintor francês e fundador do cubismo, Georges Braque, tal como Viaduto de Estaque ilustrado abaixo.   Nesta tela vemos uma paisagem com algumas casas rodeadas de vegetação e um viaduto romano ao fundo.  Nós compreendemos a cena, e ainda a vemos mais completa, porque somos instruídos — através da criativa maneira de pintar desenvolvida pelos cubistas, inspirados por Cézanne —  sobre as demais facetas da paisagem que revela diversos elementos vistos por diferentes ângulos, que não estariam dentro das nossas possibilidades entrever.  Com o  uso de múltiplas perspectivas Georges Braque neste caso permite que  conheçamos “o outro lado da lua”, ou seja: os dois lados de um telhado que nossa visão não permitiria perceber, ou a fachada de uma casa,  que ele levanta  ligeiramente,  por cima das casas na frente, para que vejamos a série de janelas paralelas corridas.  Essa visão compreensiva, giroscópica,  do tema, dos objetos ou pessoas retratadas, explorada pelos cubistas constitui em grande parte a maneira narrativa de Ian McEwan.

Viaduto de Estaque, 1908

Georges Braque (França, 1882-1963)

óleo sobre tela, 72 x 59 cm

Museu de Arte Moderna, Centro Pompidou, Paris

Mas à medida que o texto avançou e certamente depois que cheguei ao fim do romance,  a visão cubista, ainda que interessante,  não me satisfez.  Porque é um texto que se renova, que se reencontra e que recomeça.  É um labirinto com alguns becos, algumas passagens em múltiplos níveis, com algumas realidades paralelas, como se estivéssemos num jogo digital e uma vez ou outra achássemos a porta que nos leva direto até o próximo nível, sem termos que lutar com o dragão ou algum inimigo inesperado.  Esta é uma história que vai e volta e se aprofunda em diversos níveis sem que saibamos por que estamos sendo levados por aquele caminho e de repente, parecemos voltar ao ponto inicial como em um rondó musical ou em uma fita de Möebius.  E foi pensando nela que acabei selecionando uma das muitas gravuras de M. C. Escher para dar o tom visual do que acontece com o leitor de Serena.  Escolhi a gravura Relatividade, uma litografia cuja primeira tiragem foi feita em 1953, porque esse artista holandês é quem, nas artes plásticas, de meu conhecimento, melhor exemplifica a minha experiência ao terminar esse texto.

É a habilidade narrativa de McEwan que permite que se chegue ao final da trama capaz de entender os diversos níveis em que ela se desenvolve. E ser surpreendido.  Totalmente surpreendido.  Este é um romance, um thriller, que aparenta tratar de espionagem na década de 60 do século passado. Espionagem envolvendo o fabuloso serviço inglês MI5 já bastante caracterizado na literatura, no cinema e em programas televisivos pela sua invencibilidade.   Não há nenhum James Bond, mesmo em se tratando de Londres, cidade onde Serena,  que acabou de terminar o curso superior numa excelente universidade inglesa, arranja seu primeiro emprego.  A jovem é a nossa porta de entrada para esta aventura literária que insiste em parecer simples e direta.  Até que, em certo momento, temos a sensação de que talvez não estejamos lendo coma atenção necessária.  No meu caso foi lá pela página 140, quando parei e voltei ao início.  Mas tive relatos de outros leitores, talvez mais sensíveis, mais perceptíveis, que o fizeram umas 50 páginas antes.  De qualquer modo, o leitor sente que  há algo no ar mas não sabe onde, nem o quê, nem o porquê. E assim se desenrola a narrativa.

Ian McEwan

Mais do que um thriller, Serena é um livro sobre ficção.  Sobre diversos níveis de ficção. Sobre a ficção que encontramos no dia a dia, na fabricação de quem somos, no contar e recontar de nossos movimentos de nossas ações.  Temos a ficção de espiões e a ficção de quem escreve ficção.  Este é um   romance baseado no ato de simular, na habilidade do fingimento.  Ian McEwan explora aqui  a tênua linha que define realidade.  Este romance é uma ode à imaginação.  À nossa habilidade, à capacidade humana de iludir e de aceitar ser iludida.  A narrativa é um quebra-cabeça, um Cubo de Rubik com faces de espelhos, onde tudo se encaixa, a qualquer momento em qualquer hora,  porque tudo, absolutamente tudo não passa de ficção.  Uma narrativa brilhante.

Minha objeção está na personagem que achei o menos crível dos elementos.  Mas como acreditar em um personagem que nos ajuda a construir o ficcional?  Como julgar aquele que nos faz crer e que nos ajuda a descrer. Este é o impasse a que chegamos.  E a mensagem é simples: não creia, não acredite.  Tudo não passa de ficção.  Nem mesmo eu, nem você que me lê, nem Serena.





E a noite roda, de Alexandra Lucas Coelho

29 09 2012

Rua de Jerusalem, s/d

Noel Harry Leaver (Inglaterra, 1889-1951)

aquarela e lápis sobre cartão, 38  x 27 cm

Coleção Particular

No fim de semana passado a escritora portuguesa Alexandra Lucas Coelho me fez companhia através de seu romance E a noite roda (Tinta da China:2012).  Ele foi a distração que me deixou em casa, por mais tempo do que deveria, para chegar ao fim desse romance de prosa deliciosa.  Cheguei a marcar pequenas passagens encantadoras dessa narrativa bem ritmada que se farta do uso de elipses e contrastes para descrever de maneira sutil e precisa o encanto dos momentos fugazes.

E a noite roda é um romance à moda antiga: trata-se do retrato de um relacionamento amoroso de início ao fim.  Sabemos desde sua primeira página que a história não terá um desfecho feliz.  Mesmo assim vamos em frente. O objetivo é entender a jornalista catalã especializada no Oriente Médio, protagonista do mal fadado romance, que desvenda para o leitor sua vida pessoal e profissional simultaneamente, sem cair em pieguismos amorosos.

Alexandra Lucas Coelho logo de início consegue imprimir no leitor a sensação de perigo e eletricidade que jornalistas sentem ao cobrir eventos em áreas de iminente conflito.  Suas descrições sucintas das passagens pelos pontos de inspeção policial complementadas pelas descrições das belas paisagens do Oriente Médio são tão bem interligadas, que o cotidiano próximo à Porta de Damasco consegue ser simultaneamente poético e cruel.  Por duas vezes vivi em lugares no mundo em que pressões políticas colocavam nossas vidas diárias em alerta permanente.   E a descrição feita por Alexandra Lucas Coelho da vida em Israel e Gaza me lembrou com bastante acuidade muitas das experiências que tive no exterior.  Por aí, esse primeiro romance da jornalista portuguesa me fascinou de imediato  e me levou à nostalgia dos tempos em que descobri, por experiência, que o simples viver – acordar, beber água, comer e dormir —  é um ato de sobrevivência que não está garantido a centenas de milhares, milhões mesmo, de pessoas no mundo.  É difícil explicar as razões dessa nostalgia, mas há algo de viver  à beira do abismo, vizinha do perigo, que embriaga e  dá a sensação de estarmos vivos.  VIVOS!  Alertas!  Viver com os cinco sentidos estimulados, com a necessidade de sobreviver exarcebada  é viciante, porque a adrenalina se faz presente  e transforma a nossa percepção do mundo ao redor.  Para mim, experiências semelhantes me trouxeram a  certeza de que preciso de pouco para viver bem.  Viver à beira do abismo leva muitos ao romance imediato, à paixão intensa e fugidia.  É o que acontece com os dois jornalistas envolvidos nesse romance.

Alexandra Lucas Coelho

Este é um romance leve, o retrato de uma paixão.  Há dois únicos personagens de importância, os outros são apenas pano de fundo.  No início temos mais detalhes da vida profissional dos jornalistas, da maneira como a profissão é exercida, da política envolvida nas cochias da morte de Yasser Arafat.  Mas a partir do momento em que o romance se desenvolve, tornando-se mais intenso, perdemos o contato que havíamos estabelecido com as vidas profissionais dos protagonistas.  Passamos  simplesmente a acompanhar  o caso amoroso.  É aí que o ritmo da leitura se desacelera.  Meu gosto teria sido pela continuidade do retrato das experiências profissionais e amorosas, mas isso não acontece.  Ao final temos um romance bem escrito, com passagens de beleza incontestável.  Recomendo sua leitura: ligeira e deliciosa.





Escrevendo resenhas de livros: crítica positiva ou negativa?

24 08 2012

Aisha lendo Joseph Campbell, 2000

Milé Murtanovski (Canadá, 1979)

Aquarela,  57 x 57 cm

Milé Murtanovski

O artigo de J. Robert Lennon, How to write a bad review, do dia 18 de agosto deste ano, publicado na Salon, aborda um tema digno de reflexão: o papel a crítica nos romances de ficção.  Desde que a internet se tornou a sala de estar para o encontro de ideias e de gostos literários, vejo resenhas de livros de toda espécie.  A prática é mais acentuada nos Estados Unidos que têm longa tradição de incentivo nas escolas secundárias e no nível universitário à crítica de texto e à total liberdade de expressão.  Em suma, não há por lá os parâmetros que enfrentamos aqui no Brasil, quer na crítica literária, quer na campanha política, nem tampouco nas regras da publicidade.  Parâmetros que limitam  a comparação explícita de produtos semelhantes de diferentes marcas, que proíbem a menção de um concorrente em campanha política.  Essa distorção brasileira, que tenta abrandar a competição e evitar a priori o que poderia ser considerado competição “desleal” leva a que não se possa debater verdadeiramente qualquer assunto, muito menos uma obra de ficção.

Meu passado como leitora/crítica inclui resenhas publicadas para jornais americanos, algumas das quais chegaram até a ser mencionadas como blurb nas contracapas de edições mais populares de livros criticados por mim  – cito, como exemplo, a contracapa de The Road to Lichfield, de Penelope Lively.   Meu hábito de escrever resenhas vem de longa data, como já expliquei anteriormente no blog: faço-as porque elas me ajudam a finalizar, a sedimentar a leitura de um livro.  Quando a Amazon apareceu abrindo seu espaço para resenhas e até listas de recomendação, passei a escrever lá sobre livros que lia. Até listas de livros recomendados cheguei a fazer sobre assuntos diversos.

Café, década de 1920

Gerda Wegener (Dinamarca, 1886-1940)

gravura

O hábito veio comigo para o Brasil. Depois de me familiarizar com publicações brasileiras, coloquei algumas opiniões no portal da livraria online Submarino.  Qual não foi a minha surpresa ao verificar que pelas regras do portal, eu não poderia fazer comparações com qualquer outro livro [mesmo que do mesmo autor] e que as resenhas mais críticas, mostrando o meu desgosto ou desprezo pelo que acabara de ler, não poderiam e não foram publicadas.   Na época — e já lá se vão uns quase dez anos — fiquei pasma com o cerceamento à minha liberdade de expressão.

Comparando a experiência que tive entre esses semelhantes portais (ambas livrarias na rede que aceitavam a opinião dos leitores) havia uma evidente tentativa de censura a qualquer opinião negativa no Brasil.  Isso justificava, em parte,  a  insossa lista de opiniões sobre livros no portal da companhia brasileira.  Críticas ou opiniões que se limitavam a expressões adolescentes quer na idade ou na mente.  “AMEI!” ou pior ainda,” acho que vou gostar, ainda não li”  eram frases comuns encontradas nas supostas opiniões sobre livros de diversos autores.  Não sei se o portal Submarino mudou sua política quanto a opiniões dos leitores.  Não sei, porque me desinteressei de colocar minhas opiniões por lá.  E agora, já a caminho do quinto ano do blog, coloco minhas resenhas aqui e assim como no portal SKOOB onde nunca tive minhas opiniões limitadas ou censuradas.

Leitora, [La Liseuse] 1873

Jules Dalou (França, 1838-1902)

Terracota

Museu  de Arte, Rhode Island School of Design, EUA

Diferente do que propõe o autor J. Robert Lennon há alguns anos não escrevo resenhas de livros de que não gosto.  Já tive essa fase, e causei algum espanto quando desbaratei com um livro de contos da premiada Nadine Gordimer por achá-los previsíveis demais e outra em que reclamei dos lugares comuns na prosa de Isabel Allende.  A decisão de não escrever sobre aquilo de que não gosto vem dos últimos vinte anos. Não tenho a verve da ironia, do sarcasmo bem controlado, da palavra destruidora em uma única nota que vemos nos grandes críticos literários ou de arte. Esse dom me escapa. Ainda este mês, fiz uma pequena homenagem ao crítico de arte Robert Hughes, cujo falecimento havia sido anunciado.  Homenagem merecida por ele ter sido tão consistente na defesa de suas opiniões, mantendo-as claras, irônicas ou sarcásticas quando assim achava necessário.  Ele brindava o espírito crítico, o posicionamento sem apelos ao politicamente correto.  Muitos outros grandes críticos conseguem surpreender e suscitam um sorriso de reconhecimento por um ponto de vista sagaz, acurado, mesmerizante.  Isso acontecia com Gore Vidal, Oscar Wilde ou até mesmo Eça de Queiroz.  Minhas limitações não me deixam escrever assim, ainda que aprecie quem consiga se posicionar de maneira lúcida e aguda ao analisar um livro, uma obra de arte.

Por outro lado, depois que percebi o alcance que uma crítica colocada na rede pode ter, desisti de escrever resenhas de livros de que não gosto, de promovê-los mesmo que negativamente. Seria um absurdo fazer propaganda para algo que não endosso. Decidi então examinar porque certos livros se mostram interessantes na leitura e procuro explorar esse aspecto e incentivar as boas características do que leio ao longo do caminho.

Sem título

Carmen Segovia (Espanha, 1978)

www.carmensegovia.net

J. Robert Lennon menciona o grande número de críticas literárias que apareceram na rede desde a popularização dos blogs. Tanto nos Estados Unidos – de onde ele escreve – quanto no Brasil, onde nos encontramos, houve uma verdadeira inflação de resenhas literárias nos últimos dez anos.  Parece que todo mundo descobriu que pode dar a sua opinião.  E todos esperam que suas opiniões sejam lidas e apreciadas.  Deixamos de ficar calados e saímos à procura de “gente como a gente” nessa aventura coletiva da internet.  Esse fenômeno tem tudo para mudar o comportamento de todos os envolvidos: leitores e escritores.  Mas como está sendo usado?

Diferente dos Estados Unidos, a grande maioria dos usuários ativos na internet no Brasil  —   e certamente daqueles que se dispõem a escrever resenhas — são jovens.  Há uma timidez  no Brasil ao uso da internet por aqueles acima dos quarenta anos, e aversão generalizada por pessoas que temem a exposição demasiada, pelejam pela privacidade, como se não pudéssemos controlar aquilo que colocamos na rede.  Isso aumenta o domínio dos jovens nas discussões online, nos comentários, nos blogs, nas críticas.  Esses jovens críticos literários parecem estar ainda no processo de formação acadêmica na escola ou na faculdade. Testam suas habilidades e opiniões; procuram a identidade de suas cabeças pensantes.

A grande leitura do dia, 1950

Jean Hélion (França, 1904-1987)

óleo sobre tela, 128 x 190 cm

Coleção Particular

Nos portais dedicados à leitura, grande parte simplesmente copia e cola sinopses, menciona sem caracterização que adoraram a leitura, com uma ocasional menção da trama.  Parecem querer mostrar que leram os livros, mas fica por aí.  E há os que sentem a obrigação de mencionar autores clássicos, quando não filósofos, sedimentando suas opiniões nas raízes do passado, na boa atuação acadêmica, como se ter opiniões só fosse válido se nos mostrássemos eruditos. Refletem assim a posição acadêmica de praxe.  Na pressa de se mostrarem sábios ligam-se ao anacronismo da divisão de profetas da direita e da esquerda. Como se o mundo ainda se dividisse assim. Mas não é culpa deles.  É nossa.  Porque aceitamos diariamente esse tipo de discurso.

Há uma divisão marcante, cá, do lado de baixo do Equador,  entre Literatura e literatura, entre o que “Vale a pena ler” e o que “Não serve para nada”.  Uma divisão que desvenda um intelectualismo preconceituoso, uma hierarquização proporcional à elitização da cultura, um enfoque incompatível com a educação ampla e com o livre acesso digital.  Isso distancia bastante os intelectuais dos amantes da ficção.  Nos jornais, nos cadernos dedicados aos livros, cansamos de ver críticos esnobando o leitor médio, para dar espaço unicamente a alguma tese linguística do momento, alguma visão crítica europeia, que tira o chapéu para o filósofo da moda de esquerda ou para o filósofo que abandonou “os poderes nefastos da direita”.   Pouco se fala no prazer da leitura, nos motivos ou nas razões para nos deliciarmos, para refletirmos por algumas horas ou alguns dias, envolvidos por uma obra de ficção.  A leitura por esses supostos analistas da literatura não parece sedutora, não acorda sentimentos, não sacia fomes, não embriaga.

Robin com o amigo Trixie, em Torquay, 1952

Peter Samuelson (Inglaterra, 1912-1996)

óleo sobre tela, 64 x 84 cms

Coleção Particular

E, no entanto, são justamente as pessoas que não se interessam pelas teorias da moda, pelo filósofo do momento que agitam o mundo das publicações.  São esses leitores, que não se veem refletidos nos cadernos literários dos jornais, que mantêm editores, agentes e livrarias no azul, pessoas que compram livros recomendados por amigos, na mais preciosa das propagandas, o boca a boca, e que fazem de seus autores preferidos casos de sucesso literário, além, muito além da “mídia especializada”.  Diversos nomes ilustram essa divisão entre o que alguns consideram bons e o que o público aclama. A nossa história contemporânea de publicações está repleta desses fenômenos ignorados pela crítica, mas aplaudidos pelo público:  Rosa Montero, Muriel Barbery, Paolo Giordano, Fal Azevedo, Ronaldo Wrobel, Frances de Pontes Peebles, Maria Dueñas são só alguns dos que vêm à mente no momento. E não adianta dizer que o publico é inculto.  Aquele que hoje vai a uma livraria e compra um volume para leitura não é inculto.  É muitas vezes mais letrado do que os próprios críticos que se esforçam em preservar um preciosismo antiquado e segmentar as camadas de leitores, sem lhes dar crédito.  Todos perdem com essa cegueira que nos aflige: leitores, futuros leitores, autores, editores.  E nós também perdemos espaço para trocar ideias, para encontrar pessoas de gostos semelhantes, para analisarmos pela experiência o sentido da leitura.  Daí a crescente necessidade de grupos de leitura,  como recentemente mostrou o jornal O Globo do Rio de Janeiro, onde opinamos num ambiente de camaradagem, em que todos são iguais e respeitam diferentes pontos de vista.

Quanto às críticas literárias que destroem autores e livros, digam-me:  — Para quê e para quem?   Mas se você acredita que deve de fato destruir um livro, faça-o seguindo as poucas regras que J. Robert Lennon coloca em seu texto:

1 – Coloque a obra em contexto, de preferência lendo o maior número de títulos do autor.

2 – Tenha humildade quando mostrar sua opinião.

3 – Se o escritor é novato, ainda está no terceiro ou quarto livro, dê a ele crédito.

4 – Não critique o trabalho de seu inimigo

5 – Não seja um idiota

6 – Seja ponderado

7 – Lembre-se que o mundo da crítica literária é pequeno e não se importe quando alguém abominar o seu livro.





O feitiço de Dulce Maria Cardoso em O Retorno

11 08 2012

Paisagem de cidade portuguesa

Lewis Schnellmann (EUA, contemp.)

Acrílica sobre tela, 60 x 90 cm

www.schnellmanfredi.net

Acabo de ler O Retorno, da escritora portuguesa Dulce Maria Cardoso.  Estou encantada.  Bati o livro como se fosse manjar dos céus.  É poético.  Tem uma linguagem singular que se saboreia como poucas e canta melodias sonoras aos nossos ouvidos.  O mundo descrito pelos olhos adolescentes de Rui também tem deslumbramento, lições de vida, sabedoria, solidão e surpresa. Além, é claro, de um retrato peculiar de diversos subprodutos da colonização, sobretudo os preconceitos.  Estes vemos de maneira generalizada: de toda parte, dos brancos, dos pretos, dos portugueses da Europa e dos que procuraram dias melhores para suas famílias nas terras das colônias.  O preconceito, qualquer que seja é fartamente ilustrado nessa obra.  Filhos do medo, do futuro, do desconhecido, medo do presente e do passado, preconceitos afligem a todos os personagens brancos, pretos, portugueses de colônia e da metrópole, sãos e doentes, comunistas e revolucionários.  Todos, sem exceção sofrem do mal. Que lição a escritora nos dá!

E tudo é retratado com palavra precisa e sutil. Delicada, quase inocente, pelos olhos de quem está aprendendo sobre a vida e a mostra com o frescor do descobrimento, da habilidade de superação, da destemida inocência dos adolescentes.

São poucos os livros de amadurecimento, livros de “passagem” como se diz em inglês,  significando passagem da vida de adolescente à adulta,  que conseguem seduzir tanto.  Dulce Maria Cardoso domina a narrativa como poucos escritores o fazem.  Envolve, segura, puxa, carrega e administra o leitor com mestria através dos sentimentos antagônicos de emigrantes e de retornados, de colonizadores e colonizados.  Esse é um tema riquíssimo que dominou  grande produção da literatura do século XX  e que certamente ainda estará no seio da literatura contemporânea pois trata de identidade, da plenitude da existência, das questões do ser.  Encontrei nesse romance uma das mais vívidas descrições das dezenas de facetas do deslocamento emocional entre imigrantes e colonizados. Entre emigrantes e aqueles que permanecem em suas terras natais.  Narrado com uma linguagem excepcionalmente bela, cantante, sonora que traz a beleza de trinos de passarinhos, O Retorno é um concerto especial aos nossos ouvidos, trazendo um português casto, entremeado de expressões angolanas — algumas delas velhas conhecidas dos romances de Agualusa e de Ondjaki —  que reverberam nessa narrativa como uma lembrança constante da riqueza dessa nossa, sim de nós todos, língua portuguesa.

Dulce Maria Cardoso

Uma leitura saborosa que descortina o complexo feixe de sentimentos daqueles que emigram para a sobrevivência, adotam uma terra desconhecida, uma cultura diferente para enraizar a família e se descobrem à beira do abismo quando, o que consideravam seu, por direito de trabalho suado e honesto, são obrigados a deixar para trás e  ao retornarem à terra natal ainda não são considerados bem-vindos.  Uma situação complexa, moderna e gritantemente injusta.  O dilema dos “retornados” em Portugal foi dilacerante aos corações dos que voltaram.  Seria interessante, do ponto de vista antropológico, ver como a independência de antigas colônias europeias foi encarada em outros países colonizadores como Inglaterra, França, Bélgica, Holanda, na segunda metade do século XX.

Ainda teremos muito que ler sobre o assunto e outros escritores europeus, tenho certeza, se dedicarão ao tema.  Isso não tira, no entanto, a importância da indicação de O Retorno para a introdução dessa problemática aos leitores brasileiros.  No Brasil, o livro sai numa edição primorosa da Tinta da China, em capa dura, com fitinha de cetim para marcar a leitura e a preços compatíveis com o mercado, competindo de igual para igual com livros produzidos com muito menos cuidado.  Foi um prazer total, desde o volume em si à leitura desde texto impecável. Recomendo a todos os leitores, universalmente, jovens e adultos.  É um romance delicioso e significativo.  Um tesouro!

VEJA ENTREVISTA COM A AUTORA






O medo do novo e o conhecimento: “O pintor de retratos” de Luiz Antonio de Assis Brasil

28 04 2012

A paisagem do fotógrafo, 2008

Michael Orwick (EUA, 1975)

óleo

http://michaelorwick.blogspot.com

O novo, o encontro com o desconhecido, sempre causa ansiedade.  O mundo é mais confortável, a vida é mais segura se sabemos o que nos espera, como agir e que reação ter em diferentes circunstâncias.  Assim como hoje debatemos o futuro do livro em papel por causa das publicações digitais, no século XIX, com o aparecimento da fotografia, os pintores, antes de descobrirem como essa nova tecnologia iria auxiliá-los, temeram por seu futuro profissional.  É nessa virada de tecnologia, quando a fotografia parece interferir com a pintura,  que se enraíza o romance O Pintor de Retratos, de Luiz Antonio de Assis Brasil, [LPM:2001/2005, 5ª edição].

Luiz Antonio de Assis Brasil sempre me cativa com sua linguagem despojada, quase seca, em que consegue em uma frase, não muito longa, passar um mundo de informações e capturar sentimentos.   Com excelente domínio da narrativa, com poucos traços e não mais que duas centenas de páginas, ele conta a vida inteira de um homem, um pintor de retratos, italiano, que confrontado com a fotografia, perde a noção que tem de si próprio.  Diante da devastadora imagem, cara a cara com aquele retrato de si mesmo, fotografado pelo grande Félix Nadar, nosso herói se desintegra emocionalmente e num momento de desvario, emigra para o Brasil, onde se estabelece na mais meridional das províncias, na terra das revoluções.  O Rio Grande de Sul o acolhe desconfiado, mas é lá que finalmente acredita renascer, crescer e finalmente apresentar a imagem exterior que, fotografada, mostraria ao mundo como ele é, ou o que ele pensa de si mesmo.   Se consegue ou não, o leitor só descobre no final, mas como toda boa história é o meio, é o processo que fascina.

Arraigado à pintura por tradição familiar, treino e medo da nova tecnologia, Sandro Lanari chega à letárgica Porto Alegre determinado a ganhar a vida como pintor e obcecado pela imagem de Sarah Bernhardt que viu em Paris fotografada por Nadar.   Quando consegue fixar sua atenção numa jovem que se parece com a atriz francesa, entreabre-se o caminho do crescimento, mas terá ainda muito chão a percorrer até se conciliar com a vida no Novo Mundo.  Só quando aceita trabalhar, vagando de estância em estância, retratando senhores da terra, começa sua verdadeira introdução à vida brasileira, ao novo continente e a si próprio.  Mergulha em um mundo tão diferente daquele em que foi criado que acaba por se despir dos conhecimentos profissionais, reconhecendo-os válidos exclusivamente para o solo europeu. Na água do banho vão também seus preconceitos.  A caminhada brasileira, por ironia do destino e pela própria sobrevivência, transforma-o em fotógrafo.

E vai ser como fotógrafo que conseguirá a essência do que desejava expressar em seu trabalho.  Num campo de batalha gaúcho, fotografando o lado vitorioso,  Sandro Lanari vence  uma batalha pessoal, consegue a expressão máxima de sua arte,  uma obra que o faz, finalmente, poder erguer a cabeça com orgulho: capturou o lampejo de vida nos olhos de quem fotografava.  Daí por diante, pazes feitas com a fotografia, tem sucesso garantido.  Torna-se um  respeitado membro da comunidade,  pai de quatro filhas, imigrante abastado.   Para ter certeza de seu sucesso, só lhe falta a última e única constatação de sua legítima identidade, uma nova visita a Félix Nadar.

Luiz Antonio de Assis Brasil

Com um final inesperado, O pintor de retratos nos faz refletir sobre a autoestima, a visão  que temos de nós mesmos, contrastada com a imagem que os outros têm de nós; sobre o preconceito e o medo do novo, do desconhecido; sobre a nossa própria aceitação.  Tudo isso colorido pela paisagem gaúcha de antanho, pelos costumes peculiares de época, com um sabor histórico na medida certa.  Uma leitura que nos enriquece e deleita.