Histórias da Independência do Brasil para a semana da pátria

5 09 2009

Carybé, batalha de Piraja, projeto para muralBatalha de Pirajá, desenho de projeto para mural.

Carybé (Brasil, 1911-1997)

 

O Corneteiro de Pirajá

 

por Viriato Correia

 

Quando se proclamou a independência foi a Bahia que mais custou a sair do jugo de Portugal.

O general Madeira de Melo não quis obedecer ao governo brasileiro. Para ele o Brasil era uma propriedade dos portugueses e, portanto, aos por­tugueses devia continuar sujeito, sem nenhum direito de libertar-se. 

E comandando grandes forças armadas, compostas de gente portuguesa, tomou conta da província e não consentiu que os baianos gozassem, como os outros brasileiros, da independência proclamada. 

Aquilo feriu a fundo o coração dos patriotas da Bahia. Era pela força que Madeira queria impor o jugo de Portugal, só pela força a província proclamaria a sua liberdade. 

E a Bahia inteira, a Bahia brasileira, pegou em armas para bater-se contra os inimigos da independência. 

Foram penosos os primeiros encontros. Madeira é que tinha armas, munições, navios e dinheiro que lhe vinham constantemente de Portugal. 

O governo brasileiro estava no momento cheio de dificuldades e quase não podia ajudar os patriotas baianos.

Os patriotas baianos, porém, defendiam-se e resistiam como leões.

A melhor maneira de vencer as forças de Madeira era encurralá-las de modo que não pudessem receber auxílios. Para isso os baianos formaram postos de ataque aqui, ali, além, por toda a região que na Bahia se conhece pelo nome de Recôncavo.

Um desses postos, justamente o mais forte deles, o mais destemido, aquele em que se reuniam os mais valentes defensores da terra baiana, era o de Pirajá.

Um dia, quando o general Madeira abriu os olhos, Pirajá estava embaraçando os passos do seu exército. O general não podia receber víveres e reforços: tinham-lhe sido tomados os caminhos de terra e mar.

Era necessário, portanto, destruir Pirajá o mais de­pressa possível.

******

E as forças portuguesas atiram-se contra o posto brasileiro.

É a 8 de novembro de 1822, antes de raiar a manhã.

Deve ser segura, infalível a vitória. As tropas de Madeira, além de bem armadas e mais numerosas, vão fazer o ataque de surpresa.

Está ainda escuro quando os batalhões inimigos de­sembarcam cautelosamente nas praias de Itacaranhas e Plataforma, ao mesmo tempo que, pelos outros lados, o grosso do exército avança rapidamente.

Quando as sentinelas baianas, colocadas em Coqueiro e Bate-Folha, percebem o avanço, não é mais possível fazer nada. 

É ao clarear do dia que pipocam os primeiros tiros.

Pirajá inteiro ergue-se para a peleja.

Começa o combate. Madeira, em pessoa, dirige os seus corpos. O que ele pretende é investir por Itacaranhas para cortar a retaguarda dos brasileiros. Mas os nossos vão resistindo e resistindo heroicamente.

 Uma hora inteira de fogo.

O general português, surpreendido com aquela resistência, ordena que novas centenas de soldados avancem. Mas os baianos não se deixam vencer.

Mais uma hora de fogo.

Os portugueses vão pouco a pouco conquistando o terreno.

 Barros Falcão, que comanda os nossos, percebe claramente a vitória inevitável do inimigo. Mas é preciso lutar. E luta-se mais uma hora.

Madeira está inquieto com a resistência. Agora ordena a novos corpos que avancem em grandes massas. Mas o fogo das linhas brasileiras não cessa um instante.

Novos corpos investem contra os nossos.   Outra hora de peleja e de fogo.

 ******

Havia cinco horas que aquilo durava. Os portugueses tinham ganho tanto terreno que, em poucos momentos, os brasileiros estariam num círculo de balas.

Um minuto mais vai dar-se a ruína completa dos baianos. Não há mais resistência possível. Continuar a luta é sacrificar inutilmente centenas de vidas.

Barros Falcão, de um galope, percebe que chegou o momento de retirar-se. A dois passos está Luís Lopes, o cometa, que ele conservou sempre ao seu lado, esperando aquele instante desesperador.

 —  Toque retirada!   ordena.

O cometa não se move.

 —  Toque retirada, já lhe disse!   grita o comandante pela segunda vez.

O cometa vira-lhe as costas.

Barros Falcão avança de espada em punho para obrigar o insubordinado a cumprir as suas ordens, mas, nesse momento, Luís Lopes cola a cometa à boca e claros sons metálicos retinem nos ares.

O comandante agita-se, surpreendido. — Que é isso?  que é isso?

Não é o sinal de retirada que está ouvindo. É que a corneta está soprando loucamente no espaço é o sinal de “avançar cavalaria e degolar”.

Pararam todos, alarmados: o comandante, os oficiais, os soldados. Que cavalaria é aquela que aquele doido está mandando avançar?

 ******

No exército português é brutal a surpresa. É a confusão. E o pavor.

É a debandada louca.

Fogem todos alucinadamente daquela cavalaria que não existe.

 

Fogem todos, todos feridos por aquele toque de corneta que vale mais do que cinco horas de tiroteio, mais do que a própria voz dos canhões.

 

Em: Meu Torrão : contos da história pátria, Viriato Correa, 1953, 4ª edição.

 

Viriato_correia

 

Manuel Viriato Correia Baima do Lago Filho (Pirapemas, MA 1884 — Rio de Janeiro, RJ 1967) – Pseudônimos: Viriato Correia, Pequeno Polegar, Tibúrcio da Anunciação. Diplomado em direito, jornalista, contista, romancista, teatrólogo, autor de literatura infantil e crônicas históricas, professor de teatro, membro da ABL e político brasileiro.

 

Obras:

Minaretes,  contos, 1903

Era uma vez…, infanto-juvenil, 1908

Contos do sertão, contos, 1912

Sertaneja, teatro, 1915

Manjerona, teatro, 1916

Morena, teatro, 1917

Sol do sertão, teatro, 1918

Juriti, teatro, 1919

O Mistério, teatro,  1920

Sapequinha, teatro, 1920

Novelas doidas, contos, 1921

Contos da história do Brasil, infanto-juvenil,  1921

Terra de Santa Cruz, crônica histórica, 1921

Histórias da nossa história,crônica histórica, 1921

Nossa gente, teatro, 1924

Zuzú, teatro,  1924

Uma noite de baile, infanto-juvenil,1926

Balaiada, romance, 1927

Brasil dos meus avós, crônica histórica, 1927

Baú velho, crônica histórica,  1927

Pequetita, teatro, 1927

Histórias ásperas, contos, 1928

Varinha de condão, infanto-juvenil, 1928

A Arca de Noé, infanto-juvenil, 1930

A descoberta do Brasil, infanto-juvenil,1930

A macacada, infanto-juvenil, 1931

Bombonzinho, teatro,  1931

Os meus bichinhos, infanto-juvenil, 1931

No reino da bicharada, infanto-juvenil, 1931

Quando Jesus nasceu, infanto-juvenil, 1931

Gaveta de sapateiro, crônica histórica,  1932

Sansão, teatro, 1932

Maria, teatro, 1933

Alcovas da história, crônica histórica,  1934

História do Brasil para crianças, infanto-juvenil, 1934

Mata galego, crônica histórica, 1934

Meu torrão, infanto-juvenil,1935

Bicho papão, teatro, 1936

Casa de Belchior, crônica histórica, 1936

O homem da cabeça de ouro, teatro, 1936

Bichos e bichinhos, infanto-juvenil, 1938

Carneiro de batalhão, teatro, 1938

Cazuza, infanto-juvenil, 1938

A Marquesa de Santos, teatro, 1938

No país da bicharada, infanto-juvenil, 1938

História de Caramuru, infanto-juvenil, 1939

O país do pau de tinta, crônica histórica, 1939

O caçador de esmeraldas, teatro, 1940

Rei de papelão, teatro, 1941

Pobre diabo, teatro, 1942

O príncipe encantador, teatro, 1943

O gato comeu, teatro, 1943

À sombra dos laranjais, teatro, 1944

A bandeira das esmeraldas, infanto-juvenil, 1945

Estão cantando as cigarras, teatro, 1945

Venha a nós, teatro, 1946

As belas histórias da História do Brasil, infanto-juvenil, 1948

Dinheiro é dinheiro, teatro, 1949

Curiosidades da história do Brasil, crônica histórica, 1955

O grande amor de Gonçalves Dias, teatro, 1959.

História da liberdade do Brasil, crônica histórica, 1962





O Brasil, poema de Renato Sêneca Fleury, para o dia da Pátria

2 09 2009

José Pancetti, Igreja de Santo Antonio da Barra, 1951, ost, 60 x 73 cm MNBAIgreja de Santo Antônio da Barra, 1951

José Pancetti ( Brasil, 1902-1958)

Óleo sobre tela,  60 x 73 cm

Museu Nacional de Belas Artes,  Rio de Janeiro

 

 

O BRASIL

 

                                  Renato Sêneca Fleury

 

 

Perguntei ao céu tão lindo,

— Por que é todo cor de anil?

Ele me disse, sorrindo:

— Eu sou o céu do Brasil!

 

Perguntei ao Sol, então,

A causa de tanta luz.

— Sou a glorificação

Da Terra de Santa Cruz!

 

Depois perguntei à Lua:

— Por que noites de luar?

— É para enfeitar a tua

Grande Pátria à beira-mar.

 

Perguntei às claras fontes:

— Por que correis sem cessar?

— Nós brotamos destes montes

Para a terra fecundar!

 

Então eu disse à floresta:

— És tão bela, verde inteira!

Ela respondeu em festa:

— Sou a mata brasileira!

 

Perguntei depois às aves:

— Por que estais a cantar?

— Cantamos canções suaves

Para tua Pátria saudar.

 

Céu e sol, luar e cantos,

Florestas e fontes mil

Enchem de eternos encantos

És minha Pátria, — o Brasil!

 

 

 

 

Renato Sêneca de Sá Fleury ( SP 1895- SP 1980) Pseudônimo: R. S. Fleury, ensaísta, pedagogo, escritor de Literatura Infantil, professor, professor catedrático de Pedagogia e Psicologia, jornalista, membro da Academia de Ciências e Letras de São Paulo, membro fundador do Centro Sorocabano de Letras.

 

 

Obras:

 

Anchieta    

Ao Passo das Caravanas    

Barão do Rio Branco,  1947  

Contos e Lendas Orientais  1941  

Francisco Adolfo de Varnhagen  1952  

História do Pai João  1939  

José Bonifácio    

Osvaldo Cruz    

Rui Barbosa

Almirante Tamandaré

Santos Dumont

A Vingança do João de Barro/ A Jóia Encantada/ Quem faz o Bem

Ao Passo das Caravanas

As Amoras de Ouro

Breves Histórias Orientais

Cálculo Escolar, 1945

Como é bom trabalhar!

Consultor Popular da Língua Portuguesa

Contos e lendas do deserto

Contos e lendas orientais

Correspondência para todos, 1944

D. Pedro II, 1967

Duque de Caxias,

Emendas à gramática

Gusmão, o padre voador, 1957

Heroínas e mártires brasileiras

História do Corcundinha

Histórias de Bichos, 1940

No reino dos bichos, 1940

O caminho de ouro, 1957

O esposo, a esposa, os filhos

O Padre Feijó

O Padre Gusmão

O Pássaro de ouro

O Pequeno polegar

Os vasos de ouro e as rosas do dragão

Proezas na roça

Prudente de Morais

Visconde de Mauá

 —-

 

Giuseppe Gianinni Pancetti (Campinas SP 1902 – Rio de Janeiro RJ 1958). Pintor. Muda-se para a Itália em 1913. Em 1919, ingressa na Marinha Mercante italiana e viaja por três meses pelo Mediterrâneo. Em 1920, de volta para o Brasil, executa diversos ofícios; trabalhando em fábrica de tecidos, como ourives e garçom, entre outros. Conhece o pintor Adolfo Fonzari (1880-1959) e auxilia-o na pintura decorativa de uma residência. Em 1922, alista-se na Marinha de Guerra brasileira, onde trabalha por mais de vinte anos. Em 1933 ingressa no Núcleo Bernardelli e recebe orientação de Manoel Santiago (1897-1987), Edson Motta (1910-1981), Rescála (1910-1986) e principalmente do pintor polonês Bruno Lechowski (1887-1941). Participa das exposições do Salão Nacional de Belas Artes, sendo premiado em várias edições. É considerado um dos principais pintores de marinhas do país.
Fonte: Itaú Cultural





Cartas de viagens: Espanha II

2 09 2009

ampurias 6Ampúrias, Costa Brava, Catalunha, Espanha.

 

Barcelona, outubro de 19…

 Meus queridos:

 Nosso amigo Juan vivia me dizendo que eu não poderia dizer que conhecia a Espanha se não conhecesse bem Barcelona.  É claro, eu pensava, ele é catalão!  Mas estava certo!

A nossa entrada na Espanha dessa vez foi tão grandiosa quanto o país merecia, porque viemos da França, seguindo o mar, passando através das montanhas mais baixas dos Pireneus (ainda assim altíssimas).  A costa por lá é muito alta, montanhosa, mas há pequenas praias, lá embaixo, escondidas atrás das rochas escarpadas.

A nossa primeira parada foi em Ampúrias. Essa é uma cidade com ruínas gregas e romanas e um magnífico panorama do Mediterrâneo.  Há chãos de mosaicos muito bonitos além de um pequeno museu com tesouros encontrados durante as escavações. Ampúrias mostra como os antigos, tanto gregos quanto romanos, sabiam escolher a localização de suas cidades.  Sempre que possível eram localizadas nas baías mais bonitas, nas pequenas enseadas.   Em Ampúrias, os romanos se estabeleceram num lugar um pouco mais acima [em altura] do que os gregos, desta maneira tinham uma vista magnífica da praia, do mar: estabeleceram-se num anfiteatro natural.   As localizações das cidades romanas, seus delineados, suas ruas e avenidas, seus edifícios de concreto [afinal foram eles que inventaram o concreto] seu uso de águas e seu tratamento de esgotos, suas fontes e também seus banhos, fazem sempre com que suas ruínas atinjam, mais do que quaisquer outras, o homem moderno.  A gente entende a cidade.  Entende o modo de pensar.  Porque seu traçado e suas prioridades ainda são as mesmas que temos hoje.  Ampúrias é assim.  Lembrou-me Tipaza, as ruínas de Tipaza, na Argélia, que visitei há alguns anos, que ainda considero superiores. Aquelas me levaram às lágrimas, muitas delas, por sua beleza.   Mas isso é outra história…

 tossa del mar, costa-brava

Tossa del Mar,  Costa Brava, Catalunha, Espanha.

 

Mais adiante, paramos aqui e ali nas praias de pescadores, nas baías turísticas, indo do extremo dos miradores das montanhas sobre o mar, ao nível baixíssimo de praias pequeninas, de menos de um quilômetro de extensão, cercadas de penhascos ou, às vezes, como em Tossa del Mar, protegidas por castelo e muralha.  

Se a gente não conhecesse nada da história da Espanha até chegar a Barcelona, teríamos já aprendido pelo menos as grandes lições dos gregos aos dias de hoje, tão grande é o número de pequeninos vilarejos, aldeias ou cidades mesmo, que têm isso ou aquilo:  uma igreja, um palácio, ruínas romanas, ruínas gregas, visigóticas e daí por diante.  Pode-se sem exagero passar três a quatro semanas nesta área chamada Costa Brava e não se lamentar.  Há sempre o que ver, o que descobrir, além da excelente comida…  Aos poucos, também, vamos nos acostumando ao catalão.  Para brasileiros é fácil, principalmente para o brasileiro que lê e entende o francês.  Pelo menos dá para adivinhar corretamente a língua escrita.  Mas a falada, é outra história.

Beijinhos a todos e saudades,  L.





Imagem de leitura: Jean-Honoré Fragonard

1 09 2009

Jean-Honore-Fragonard, Retrato de jovem, tb conhecido como O estudo, 1769, ost,82x66 Louvre

Retrato de jovem, ou O estudo, 1769

Jean-Honoré Fragonard  (França, 1732-1806)

Óleo sobre tela, 82 x 66 cm

Museu do Louvre, Paris

 

Jean-Honoré Fragonard,  (França, 1732-1806),  estudou com François Boucher, que o ajudou a desenvolver o estilo predileto da corte francesa.   Infelizmente com a Revolução Francesa de 1789, Fragonard perdeu toda sua clientela, toda a nobreza que o apoiava.  Juntou todos os seus quadros, saiu de Paris, e voltou para Grasse, sua terra natal, onde foi recebido com carinho.  Aos poucos desenvolveu uma clientela mais modesta mas patriótica.  Passou para a história mais conhecido por suas cenas românticas, cenas frívolas e felizes, representantes do gosto da corte no século XVIII na França, também chamado de período Rococó.  Fragonard foi um excelente pintor, preso numa época de grandes reviravoltas políticas.





Quadrinha infantil sobre guardar segredos, uso escolar

31 08 2009

passarinho 4

 

O teu segredo famoso

eu bem o sei, direitinho…

chegou depressa, ditoso,

nas asas de um passarinho.

 

(Luiz Pereira de Faro)





Cartas de viagens: Espanha I

30 08 2009

espanha

 

 

Cartas de viagens

 

 

No final do século XX, meu marido e eu embarcamos dos Estados Unidos para Portugal onde ele ensinaria Literatura Americana, na universidade de Coimbra.  Por causa da diferença de períodos acadêmicos entre as instituições universitárias a que estávamos agregados, sobraram um pouco mais de dois meses – de agosto ao final de outubro – em que nenhum de nós precisava se encontrar num lugar específico.  Aproveitamos, então, para passar um pouco mais de um mês na França e o resto do tempo viajando pela Espanha.  Nós dois já estávamos bem familiarizados com ambos os países, principalmente com suas maiores cidades.  Estes dois meses serviram para que aprofundássemos o conhecimento que tínhamos de ambos.  E vimos o período de estadia em Portugal – 2 anos – como tempo suficiente para conhecermos o país do Algarve a Guimarães, como a palma das nossas mãos.  É claro que nem tudo saiu como esperávamos.  Mas muita coisa foi muito mais, muito melhor, do esperávamos.   Estes foram de longe, os mais felizes anos de minha vida adulta.  As cartas que estou selecionando para o blog, são cartas que mandei para membros da família, que muito gentilmente as guardaram.  Sempre me dando o incentivo de publicá-las.  Todas começam com: Meus queridos.  Eram para informação de todos.  Acredito que possam mostrar alguns aspectos interessantes dessa estadia européia.

 Cartas de Espanha

 

Barcelona, Outubro de 19…

 

Meus queridos:

É fato que ando de amores com a Espanha há três anos, quando estive aqui duas vezes no mesmo ano.  Pretendo encher as páginas do meu passaporte com carimbos de entrada na Espanha neste ano que entra.  Ao contrário do ditado português, “De Espanha nem bom vento, nem bom casamento”, eu me vejo achando tudo aqui sensacional.  A Espanha conquista e seduz.  É dramática, energética e vibrante!

Não há como escapar de sua característica principal: a Espanha é a INTENSIDADE em pessoa.  Não há por aqui meio termo, indecisão.  Tudo aqui ou vai ou racha.  É tudo ou nada.  Não sei bem como isso é transmitido aos turistas, mas é.  É uma atitude nacional que se encontra por toda parte.  Está permeada no ar que a gente respira (além de muita poluição!).  Está talvez no barulho das ruas, de noite, às 4 da manhã; ou talvez num bater ritmado e único de palmas que a gente ouve de vez em quando no meio das pessoas. Está certamente no andar das multidões, porque o espanhol anda, anda muito, todos os dias, anda se não mais, pelo menos no final do dia, todo arrumado, num requinte de invejar, pelas ruas, nas horas antes do jantar, talvez um resquício do antigo “trotting”!

Mas essa intensidade, esse drama, a ação e a paixão, não são manifestados pelo lado de fora como a gente poderia imaginar: gestos e cantorias.  A paixão dos espanhóis está sempre sob controle.  Porque os espanhóis são quietos, sérios e orgulhosos.  Eles têm uma maneira muito dignificada.  Projetam uma imagem segura, de quem tem um bom sentido de seu valor.  Têm muito amor próprio.  E cativam com sua bondade e respeito, mas sempre de maneira controlada. 

E é esta tensão entre as forças de dentro – que parecem tão próximas a escaparem — e a sobriedade exterior que os faz como um grupo, e individualmente também, tão atraentes para mim.

 

flamenco-pic

 

Eu nunca tinha me interessado muito por dança flamenca até que vi essas danças em Córdoba 3 anos atrás.  Lá estava eu na minha segunda visita à Espanha, achando que já conhecia um pouco, que  tinha uma boa idéia do país.  Mas fiquei impressionadíssima com a dança flamenca e como disse,  daí por diante, achei a dança flamenca a verdadeira expressão da alma espanhola.  Um ícone, por assim dizer, do que deve ser, ser espanhol.  Pelo menos foi o que na época pensei.  A grande estilização da dança, cheia de cores, ou toda negra; e muito, muito sensual; bem ritmada e agressiva revelaram para mim, naquele espetáculo, a tensão de que falei antes, dessas forças polarizadas: o gesto delicado de uma mão elevada no ar, acompanhado pelo bater dos saltos dos sapatos no chão, um levantar de saias e anáguas com a outra mão e o empurrão para cima do queixo, elevando o nariz e encompridando o pescoço.

A dança é sensual, estonteante.  Tem drama, tem canto torturado, sofrido e muita influência árabe na música.  Ela me pareceu a verdadeira expressão da alma espanhola.  Precisa ser uma cultura milenar, cheia de tradições centenárias, para poder revelar os sentimentos e valores de um povo de maneira tão estilizada.  E, o que ainda é mais impressionante é poder comunicar a qualquer pessoa, inclusive uma estrangeira como eu, essas emoções. 

 

Mas eu achava tudo isso porque, até então, não conhecia Barcelona!

 

Beijos e saudades,  L.





Poetas no museu: Raquel Naveira

29 08 2009

venus_velazquez

Vênus do espelho, 1650  [Também conhecida como Vênus Rockeby]

Diego Velázquez  (Espanha 1599-1660)

Óleo sobre tela,  122,5 x 177 cm

National Gallery, Londres.

 

 

Vênus ao espelho

 

[inspirado num quadro de Velazquez]

                       

                                       Raquel Naveira

 

 

Nua,

Reclinada sobre musgo de veludo,

Vênus mira-se ao espelho,

Quadro de cristal polido,

Seguro por Cupido.

 

Adorna os cabelos com violetas singelas,

Morde maçã

E canela,

Acaricia os seios

Que brilham como luas.

 

Toda ela é úmida:

Anêmona de primavera,

Espuma marinha,

Rosa encharcada;

A umidade é o princípio que gera

E fecunda

Criaturas nacaradas.

 

Momento de banho,

De repouso,

De idéia clara;

Contemplar-se

É seu gozo.

Tão atraente,

Tão fora de qualquer limite,

Como vencer essa força dissolvente?

Quem não seria seduzido por ela?

Quem quebraria esse espelho ardente?

Que mortal,

Que divindade defenderia a honra

E a arte? 

 

 

 

 

Em: Stella Maia e outros poemas, Campo Grande, MS; Editora UCDB:2001

 

raquel naveira

 

Raquel Naveira (Campo Grande, MS 1957) Poetisa, ensaísta, graduada em Letras e Direito, professora no Curso de Letras da Universidade Católica Dom Bosco de Campo Grande (MS), mestranda em Comunicação e Letras, na Universidade Presbiteriana Mackienzie (SP), e empresária de turismo (Pousada Dom Aquino, em Campo Grande – MS), Raquel Naveira destaca-se por seu talento e engajamento nas atividades culturais do centro-oeste brasileiro.  A escritora tem recebido reconhecimento nacional através de inúmeras premiações e várias indicações para prêmios. Em sua obra, são constantes a religiosidade, o misticismo e os temas épicos.

 Obra:

Via Sacra, poesia, 1989

Fonte luminosa, poesia, 1990

Nunca Te-vi, poesia, 1991

Fiandeira, ensaios, 1992

Guerra entre irmãos, poesia, 1993

Canção dos mistérios, poesia, 1994

Sob os cedros do Senhor, poesia, 1994

Abadia, poesia, 1995

Mulher Samaritana, 1996

Maria Madalena, prosa poética, 1996

Caraguatá, poesia, 1996

Pele de jambo, infanto-juvenil, 1996

O arado e a estrela, poesia, 1997

Intimidades transvistas, 1997

Rute e a sogra Noemi, prosa poética, 1998

A casa da Tecla, poesia, 1998

Senhora, poesia, 1999

Stella Maia e outros poemas, 2001

Casa e castelo, poesia, 2002

Maria Egipcíaca, poesia, 2002

Tecelã de tramas: ensaios sobre interdisciplinaridade, ensaios, 2004

Portão de ferro, poesia, 2006

Literatura e Drogas e outros ensaios, crítica literária, 2007





Encontrado novo tesouro Viking que muda perspectiva histórica

29 08 2009

vikings

 

O maior e mais importante tesouro viking encontrado na Grã-Bretanha desde 1840 será exibido em exposições em Londres e York após cuidadosos trabalhos de reparação.  O tesouro de mil anos, provavelmente enterrado às pressas por um nobre viking em Northumbria durante a invasão dos anglo-saxões, poderia indicar segredos históricos que estavam perdidos, afirmou um especialista do Museu Britânico.

Os especialistas acreditam que as peças poderiam redesenhar as linhas históricas da conquista anglo-saxônica sobre os vikings durante o século X. O achado inclui objetos do Afeganistão, Irlanda, Rússia e Escandinávia, sublinhando a disseminação global dos contatos culturais durante a época medieval.

O Museu Britânico e o Museu York Trust, em Yorkshire, adquiriram as peças raras em conjunto por um milhão de libras. O tesouro foi descoberto com detector de metais em um campo de Harrogate, no norte de Yorkshire.

O tesouro inclui uma taça de prata com valor estimado em mais de £ 200.000, e  617 moedas de prata e fragmentos diversos, lingotes e anéis.  

Especialistas esperam que o processo de limpeza das peças revele detalhes cruciais sobre a era viking.  Exames preliminares indicam que o tesouro data de 927 ou 928. Conservadores já forneceram explicações interessantíssimas: o copo, que foi dourado dentro e por fora, provavelmente pertenceu a uma igreja, pois sua decoração exterior é um símbolo viking usado para representar Jesus Cristo. Algumas das moedas, podem ainda dar novas informações: nesta época acreditava-se que  partes da Grã-Bretanha [Staffordshire e Yorkshire]  já tivessem escapado do domínio viking, mas, há moedas, dentre essas achadas, que mostram que os vikings ainda cunhando sua própria moeda nessas regiões dominadas.  Uma dessas moedas, com a inscrição “Rorivacastr”, deve ter originado em Roceter, no século X [Staffordshire], na fronteira viking  com os anglo-saxões.

Gareth Williams, curador de moedas medievais e especialista da cultura viking no Museu Britânico, disse que esta moeda, especificamente, mostra que a região ainda deveria estar sob controle viking, apesar de os anglo-saxões já a considerarem sob seu domínio, na época.  Acrescentou, que foi verdadeiramente excepcional encontrar,  um vasto leque de moedas a partir de lugares distantes como a Escandinávia, Europa continental, Tashkent e Afeganistão.

Nada parecido foi encontrado há mais de 150 anos. O tamanho e variedade de material nos dá uma visão da história política, da diversidade cultural do mundo viking e das influências cultural e econômica nesta área, no período“, disse ele.  “Novas informações históricas inigualáveis virão com o estudo cuidadoso desse material nos próximos anos.

 

viking

 

David Whelan, e seu filho, André, de Leeds, que descobriram o pacote enterrado, disseram que, inicialmente, parecia um dia azarado, quando foram para o campo, munidos de seus detectores de metal, numa manhã de sábado, em janeiro. Eles tinham sido proibidos de entrar em duas fazendas e haviam brigado entre si antes de visitarem a contragosto o campo, que já haviam explorado e só haviam descoberto botões na área.  

 Pai e filho descobriram, então, um tesouro tão raro que é apenas o segundo desse tipo encontrado na Grã-Bretanha.    É possível que o tesouro pertencesse a um rico Viking que o enterrou durante os tumultos, depois da conquista de Northumbria, em 927 pelo rei anglo-saxão Athelstane.   O tesouro ficará em exposição no Museu de Yorkshire, em York, de 17 de setembro até novembro, quando será transferido para o Museu Britânico.

 

Fontes:  The IndependentTerra





Nova imagem da nebulosa Trífida

29 08 2009

Trifida

Foto: ESO  — Observatório Europeu do Sul

 

Uma nova imagem da nebulosa Trífida, divulgada pelo Observatório Europeu do Sul (ESO, na sigla em inglês), confirma porque este corpo cósmico é considerado o favorito para observações entre os astrônomos. Trífida é chamada pelos especialistas de “fábrica de estrelas massivas” devido à quantidade de estrelas densas que se formam em seu interior.

Além disso, ela é composta por uma rara combinação de três formas diferentes de nebulosas que intriga os cientistas: nebulosa de emissão, nebulosa de reflexão e nebulosa escura. O nome Trífida deriva do latim “trifidus”, que significa “dividido em três – uma referência aos três lóbulos que compõem a nuvem gigante.

Trífida possui um diâmetro de quase 25 anos-luz e está localizada a milhares de anos-luz de distância da Terra, na constelação de Sagitário. A nebulosa apresenta de forma convincente as primeiras fases da vida de uma estrela, desde a gestação até o nascimento.

Trífida foi observada pela primeira vez pelo francês Charles Messier em junho de 1764. Porém, o nome atual foi dado pelo astrônomo inglês John Herschel 60 anos depois, quando ele observou que faixas de poeira cósmica parecem dividir a nebulosa em três lóbulos.

 

FONTE:  Portal Terra





Tudo Está ao Nosso Alcance, disse Ralph Waldo Emerson, e Flávia Medina da Cunha demonstra!

28 08 2009

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Não queria deixar de divulgar aqui a maravilhosa notícia da jovem brasileira, morando em São Gonçalo, RJ,  que vai estudar em Harvard com bolsa de estudos total.  Produto de escolas públicas, e filha de professores, ela com perseverança conseguiu atingir um objetivo desejado por  muitos.  Que sirva de exemplo para tantos outros alunos e professores de todo o território nacional.

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 Uma gonçalense de 18 anos é a única estudante brasileira aprovada para estudar na Universidade de Harvard, no EUA, este ano. E com bolsa integral. A façanha de Flávia Medina da Cunha é considerada tão especial que será tema de palestra de orientadores educacionais, nesta quarta-feira de manhã, no auditório do Colégio Militar do Rio de Janeiro, na Tijuca, onde ela cursou o Ensino Médio.

 Na mesma época dos exigentes exames para Harvard, ela passou nos vestibulares da UFRJ, UFF e Uerj e na prova de admissão da Academia da Força Aérea (AFA). “Estudei tantas horas que perdi a conta de quantas”, confessa Flávia, que vai cursar Engenharia Química. Ela já havia começado o curso na UFRJ.

 

Flávia Medina da Cunha

Flávia Medina da Cunha

Fã da obra de Machado de Assis, ela precisou se debruçadar sobre livros especializados na cultura norte-americana. Flávia obteve ainda 90% de bolsa na Universidade da Pensilvânia. “Fiquei na lista de espera da Yale University, Duke University, Rice University e Tufts”, enumerou Flávia, cujos dois irmãos estudam na Escola Naval. Os pais, que são professores, estão orgulhosos, mas não escondem a preocupação. “O coração está apertado, mas ela é perseverante e carismática”, conta a mãe, Gilza da Cunha, 57 anos.

 Em Harvard, a estudante terá alojamento, refeição e receberá US$ 3 mil (R$ 5,3 mil) por mês, além da oportunidade de emprego no campus. Flávia embarca hoje à noite no voo 860 da United Airlines. Na bagagem, a bandeira do Brasil e a medalha de Santo Antônio. No coração, a saudade de casa. “Não vou chorar”, avisa Flávia.

 

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Campus universitário de Harvard.

“Muita gente sonha em ir à Disney e realiza o sonho. Por que não sonhar em aprimorar os conhecimentos no exterior?”, lança o desafio o gerente de pesquisas do escritório da Harvard no Brasil, Tomás Amorim. Interessados em vaga na universidade em que estudou o presidente dos EUA Barack Obama devem acessar o endereços http://www.admissions.college.harvard.edu/apply/international/faq.html. É necessário fluência em inglês. Cursos como de Flávia custam R$ 92,5 mil por ano.

 

FONTE;  JORNAL O DIA — dia 19 de agosto de 2009