Chekhov e o comportamento das pessoas cultas

1 04 2013

konstantin-korovin (Russia 1897-1950) In a Boat 1888 Tretyakov Gallery, Moscou

Em um barco, 1888

Konstantin Korovin (Rússia, 1897-1950)

óleo sobre tela

Galeria Tretyakov, Moscou

Passei os olhos na revista eletrônica Brain Pickings e me deparei com um artigo curioso de Maria Popova baseado nas cartas que Anton Chekhov [Anton Chekhov on the eight qualities of cultured people].  Nesse artigo ela mostra o escritor russo descrevendo, para sua família, as características para se viver numa sociedade culta.  O artigo é bastante charmoso com longas citações escritor.  Não vou tentar traduzí-las, mas as listo abaixo, uma breve apreciação do que lá é dito, como indicativo de seu julgamento. E considerando que essa lista foi feita em 1886, parece incrível que possa continuar sendo relevante.

E assim ele lista:

As pessoas cultas, em minha opinião,  preenchem as seguintes condições:

1 – Respeitam a personalidade alheia. Elas não brigam por coisa insignificante e desculpam inconveniências tais como temperatura ambiente, refeição mal feita, brincadeiras de humor duvidoso e a presença de desconhecidos em suas casas.

2 – Têm simpatia para além dos pedintes e gatos.  São sensíveis ao que os olhos não vêem.  Passam a noite em claro para ajudar ao próximo.

3 – Elas respeitam os bens dos outros, e por isso mesmo, pagam suas dívidas.

4 — As pessoas cultas são sinceras e não gostam de mentir, nem mesmo as pequeninas mentiras.  Acreditam que a mentira seja um insulto ao ouvinte e o coloca numa posição inferior à de quem mente.  Não falam demais e, por respeito aos ouvidos dos outros, preferem ficar caladas do que falar.

5 – As pessoas cultas não falam mal de si mesmas para ganhar a compaixão dos outros. Elas não abusam da boa vontade dos outros. Eles não dizem “ninguém me entende”.

6 – Elas não mostram uma vaidade vã. Elas não procuram os diamantes falsos tais como conhecer celebridades, ser reconhecido nos bares… Se fazem um bem não saem por aí divulgando-o, e não se vangloriam de ter entrada em círculos ou lugares onde outros não são admitidos.

7 – Se elas têm talento, elas o respeitam e sacrificam tudo para esse fim.  Têm orgulho de seu talento.  São exigentes.

8 – Elas desenvolvem um senso estético próprio. Elas mantêm higiene rigorosa em todos os aspectos de suas vidas.  Não bebem a toda hora. Elas querem “mens sana in corpore sano” – uma mente sã, em um corpo são.

Espero que todos nós nos lembremos desses conselhos de Chekhov.  Acredito que muitos de nós, quer na vida pública ou privada, possamos dar um renovado lustro em regras tão simples e por vezes tão negligenciadas.





Retrato na praia, poema de Carlos Pena Filho

31 03 2013

Emily Patrick

Joelhos de menina, s/d

Emily Patrick (Inglaterra, contemporânea)

gravura de pintura da artista

www.emilypatrick.com

Retrato na praia

Carlos Pena Filho

Ei-la ao sol, como um claro desafio

ao tenuíssimo azul predominante.

Debruçada na areia e assim, diante

do mar, é um animal rude e bravio.

Bem perto, há um comentário sobre estio,

mormaço e sonolência. Lá, distante,

muito vagos indícios de um navio

que ela talvez contemple nesse instante.

Mas o importante mesmo é o sol, que esse desliza

por seu corpo salgado, enxuto e belo,

como se nuvem fosse, ou quase brisa.

E desce por seus braços, e rodeia

seu brevíssimo e branco tornozelo,

onde se aquece e cresce, e se incendeia.

Em: Melhores Poemas de Carlos Pena Filho, seleção de Edilberto Coutinho, São Paulo, Editora Global:1983, p.80

Carlos Pena Filho

Carlos Pena Filho ( PE 1929-PE 1960) poeta brasileiro.

Obras:

O tempo da busca, 1952

Memórias do boi Serapião, 1956

A vertigem lúcida, 1958

Livro geral, 1959





Novos rumos na ficção científica?

30 03 2013

books logo rodney mathews

Ilustração de Rodney Mathews.

Um artigo interessante no Irish Times sobre a literatura de ficção científica, The new future od sci-fi,  atraiu a minha atenção nessa semana que passou.  Há muito que se fala da dificuldade de classificação das obras de ficção científica.  A fantasia e a ficção científica parecem se misturar em muitos momentos. Mas não importa, algumas obras acabam saindo da prateleira estritamente reservada às literaturas de gênero e entram para a categoria de clássicos da literatura mundial.  Desde de o século XIX que não faltam exemplos desse tipo de ficção considerada hoje parte integral, e essencial de uma boa educação.  Lá estão enfileirados nessas prateleiras  livros que estabeleceram o ramo da ficção científica  Frankenstein de Mary Shelley (1818), ao longo das obras do popularíssimo Júlio Verne, considerado o autor mais traduzido no mundo ( 148 línguas) com títulos como Viagem ao Centro da Terra (1864) Vinte Mil Léguas Submarinas (1870),  A Volta ao Mundo em Oitenta Dias (1873). No reino da fantasia, há também exemplos brilhantes do passado: As viagens de Gulliver, de Jonathan Swift (1726) parecem ter aberto essa porta para o mundo moderno, ainda que a tradição do gênero venha desde a antiguidade. A criação literária classificada como fantasia parece ser mais inclusiva do que a ficção científica, e conta com contribuição no século XIX, de George MacDonald com Phantastes (1858) e de diversos outros que ocasionalmente embarcaram nessa nave, como William Morris The Well at the World’s End (1892), The Wood Beyond the World (1892) livros que foram de grande influência para autores como C. S. Lewis e J.R.R. Tolkien.

Mas aonde cai realmente a linha divisória que separa a ficção científica do resto da literatura?   E será essa uma questão importante?  Aparentemente escritores contemporâneos resolveram a questão simplesmente escrevendo.  E no processo não deram atenção a quaisquer limitações,  combinando a bel prazer características de ambos os gêneros para preencher suas necessidades narrativas.  O resultado é uma nova geração de escritores de ficção científica que não se enquadra perfeitamente aos moldes anteriormente determinados. Esses autores, ainda que não estejam ligados a qualquer movimento ou causa, parecem ter encontrado um meio de renovar um gênero considerado estagnado há algum tempo.  Se você está curioso faça uso da lista de autores selecionados por Gareth L Powell  para mostrar essa nova geração que é feita de escritores de diversas nacionalidades.  E  boa leitura!

Escritores:  Adam Christopher  autor de Empire State e Seven Wonders, Aliette de Bodard com a trilogia Obsidian and Blood;  Lauren Beukes autora de In Moxyland Zoo City;  Chuck Wendig com seu Black Birds ;  Lavie TidharLou Morgan,Emma Newman, com o título Between Two Thorns; Kim Lakin-Smith com o livro Cyber Circus e Tim Maughan.





Como escrever um romance, texto de Katherine Pancol

16 02 2013

François Fressineir, Belles_Heures

Ponto alto, s/d

François Fressinier (França, 1968)

Técnica mista com pintura a óleo

www.françoisfressinier.com

“Olhou para o computador, um lindo laptop branco que esperava por ela de goela aberta sobre a mesa da cozinha, cheia de livros, faturas, canetas hidrocor, Bics, folhas de papel, migalhas do café da manhã. Seu olhar deslizou sobre o círculo amarelado deixado pelo bule de chá, a tampa do pote de geléia de damasco, um guardanapo enrolado como uma serpente branca…Precisava abrir espaço para poder escrever e deixar sua tese de habilitação de lado. Precisava de tanta coisa, tanta coisa, suspirou, repentinamente cansada diante da idéia de todo o esforço que teria de fazer. Como escolher o tema de um livro? Como criar os personagens? A história? As reviravoltas? Elas se originam nos acontecimentos exteriores ou na revolução dos personagens? Como começar um capítulo? Como organizá-lo? Devia reler seus trabalhos e pesquisas para evocar as façanhas de Rolland, Guilherme, o Conquistador, Ricardo Coração de Leão, Henrique II, pedir ao espírito de Chrétien de Troyes que baixasse sobre ela? Ou se inspirar em Shirley, Hortense, Iris, Philippe, Antoine e Mylène, vesti-los com um hennin medieval, um par de polainas ou tamancos, instalá-los no campo ou no castelo? O cenário muda, as oscilações do coração perduram. O coração bate, idêntico, em Leonor, Scarlett ou Madonna. As pregas de um vestido, as cotas e malha de ferro se desfazem em poeira, mas os sentimentos permanecem. Por onde começar?, repetia Josephine consigo mesma, observando a intensidade da luz daquele mês de janeiro baixar suavemente sobre a cozinha, iluminar com luz pálida aborda da pia e morrer no escorredor. Existe alguns livro de receitas para escrever? Quinhentos gramas de amor, 350gr de referências históricas, um quilo de suor… deixe cozinhar em fogo brando, em forno quente, mexa para evitar que grude ou forme caroços, deixe repousar três meses, seis meses, um ano. Stendhal, segundo dizem, escreveu o Cartouche de Parma em três semanas, Simenon finalizava seus romances em dez dias. Mas durante quanto tempo eles carregaram essas obras consigo e lhes deram alimento ao levantar de manhã, vestir as calças, beber seu café, recolher correspondência, observar a luz da manhã se espalhando sobre a mesa do café da manhã ou contar os grãos de poeira num raio de sol? Deixar o tempo agir. Encontrar seu modo de usar. Beber café como Balzac. Escrever em pé como Hemingway. Encerrada como Colette, quando Willy a trancafiava. Fazer pesquisa como Zola. Usar ópio, um bom tinto, hachiche. Vociferar como Flaubert. Correr, devagar, dormir. Ou não dormir como Proust. E eu? O tecido encerado da toalha da mesa da cozinha, o face a face com a pia, o bule de chá, o tique-taque do relógio, as migalhas do café da manhã e as prestações a pagar! Léautaud dizia: “escreva como quem escreve uma carta, não  releia; não aprecio a grande literatura só gosto da conversação escrita.” A quem posso enviar uma carta? Não tenho nenhum amante me esperando no parque. Não tenho mais marido. Minha melhor amiga mora no mesmo andar que eu.”

Em: Os olhos amarelos dos crocodilos, Katherine Pancol, Rio de Janeiro, Suma das Letras:2012, p.198-199.





Imagem de leitura — Géza Vörös

13 02 2013

Géza Vörös, na sala1

Na sala, s/d

Géza Vörös (Hungria, 1897-1957)

óleo sobre tela

Geza Vörös nasceu em Nagydobrony, na Hungria em 1897.  Estudou na Academia de Belas Artes de Budapeste. Aos 19 anos expôs seu primeiro trabalho.  Morou em Nagybánya e Szolnok, ambas colônias de arte na Hungria. Foi nesse período que conheceu sua futura esposa, Anna, que se tornou o principal modelo para suas pinturas de figurativas. Fez bastante sucesso com as suas naturezas-mortas e  pinturas de interiores também. Em 1927, foi a Paris, a estudo.  Lá conheceu Matisse que daí por diante exerceu  grande influência sobre ele: veja os contrastes ousados de cores e os detalhes ornamentais. Morreu em Budapeste em 1957.





O silêncio na biblioteca é importante

8 02 2013

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Ilustração Walt Disney.

Numa pesquisa feita nos Estados Unidos sobre o que os usuários das bibliotecas públicas mais gostam nos serviços apresentados está o silêncio para ler.  Um mundo de quietude parece ser tão importante quanto acesso livre a computadores e à internet.  Os resultados dessa enquete foram surpreendentes para  Laura Miller que  publicou um pequeno artigo na revista Salon sobre o fato.  Eu também aprecio a certeza de que estarei num lugar quieto, sem conversas, quando vou à minha biblioteca. Gosto de saber que não serei incomodada com cochichos e conversinhas, que ainda há ilhas de quietude nas metrópoles, quietude ainda maior do que a que encontro em  minha casa, onde o telefone com ofertas mais variadas parece estar sempre chamando.

Aqui estão os resultados: os serviços mais apreciados nas bibliotecas públicas:

80% considerou – bibliotecárias que ajudem a encontrar informações.

80% considerou – empréstimo de livros

77% considerou – livre acesso a computadores e à internet

76% considerou – lugar silencioso para adultos e crianças

Este último item, só 1% a menos do que acesso à internet.  VIVA!  Há pessoas com os mesmos gostos que eu!





Quadrinha do meu jardim

6 02 2013

jardim, portão, Ethel Blains ,House and Garden 1921-04Jardim, ilustração de Ethel Blains, capa da Revista House & Garden, Abril 1921.

Melhor entretenimento
não existe para mim:
é ver, a cada momento,
mais flores no meu jardim!
(Giva da Rocha)




Qual é o valor da leitura literária?

6 02 2013

Christophe Vacher ( França) Estudo noturnoEstudo noturno, s/d

Christophe Vacher (França, 1966)

aquarela sobre papel, 23 x 34 cm

www.vacher.com

Uma questão antiga: qual é o valor da literatura para quem a lê?  O que ela faz?  Por que motivo devemos ler romances?  Essas perguntas voltam a ser debatidas no livro How Literature Saved My Life [Como a literatura salvou a minha vida] de David Shields, recentemente resenhado por André Alexis para o The Globe & Mail.  A pergunta central do livro de Davis Shields parece ser: o que acontece conosco quando lemos?  E a tentativa de responder a essa pergunta  uma, duas ou múltiplas vezes, produz a coletânea de pequenos ensaios esmiuçando o papel da literatura na vida do leitor.

André Alexis nota que o livro de Shields  começa com a frase: “Toda crítica é uma forma de autobiografia”, [“All criticism is a form of autobiography.”]. Concordo.  E isso me levou não só a ler o resto da resenha, como a colocar o livro de David Shields na minha lista de desejados.

Mas achei também interessante outras afirmações que aparecem no livro:

A literatura nos permite adquirir uma perspectiva sobre aspectos daquilo que é mais assustador no ser humano.

● A literatura mantem tudo — o que pensamos, queremos, sonhamos, tudo o que amedronta — no ar, em equilíbrio.

Essas questões me levaram a procurar entre minhas anotações, afirmações que ajudam a definir o papel que a literatura tem para o leitor.

Acho bastante pertinente e contemporânea a visão do professor de literatura Santi Tafarella, que no blog Prometheus Unbound, afirma que o que a literatura nos traz de importante:

● Des-familiarização e a linguagem carregada são duas das coisas que encontramos na literatura. [Defamiliarization and charged language: these are two of the things we go to literature for]. Desfamiliarização é a procura e o achado daquilo que não nos é conhecido.  Ou seja, travamos um diálogo com um mundo desconhecido. E linguagem carregada, é aquela em que cada palavra pode ter além dos valores tradicionais e convencionais, aqueles emotivos em que o contexto e as variações trazem nuances ao entendimento que nos enriquecem.

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Sem título

Marina V. Chulovich (Rússia, 1956)

óleo sobre tela

Por outro lado a crença de que a literatura preserva os ideais do ser humano tais como amor, fé, liberdade parece ser generalizado e um conceito que alguns imaginam voltar até o período grego.

O autor inglês C. S. Lewis, é citado como tendo dito que,

● A literatura soma à realidade, não a descreve simplesmente.  Ela enriquece a vida cotidiana e a alimenta; e sobre esse aspecto, ela irriga os desertos em que nossas vidas se transformaram.

E se não me engano Horácio na Arte Poética, diz que:

a literatura une o útil ao agradável: deleita e instrui ao mesmo tempo.

Há muitas maneiras de se ver como e porque devemos dedicar nosso tempo à literatura. Cada um tem uma opinião, cada época vê o papel da literatura na vida do homem de uma maneira diferente.

Você tem uma opinião?  Gostaria de dizer por que a literatura é importante para você?  Que papel ela tem na sua vida?  E que papel ela tem na vida de todos?





O amor materno, texto de Garcia Redondo

5 02 2013

mãe e filho, 1922, John Rae

Mãe e filho no jardim, ilustração de John Rae, 1922.

O Amor Materno

Garcia Redondo

No fundo da chácara, numa touceira de arbustos, um menino encontrou um ninho, onde três avezinhas mal emplumadas dormiam. Contente do seu achado e no desejo inconsciente de se apoderar dele, o menino meteu o braço por entre a trama dos galhos e das folhas e aproximou a mão cobiçosa dos pobres inocentes, que logo ergueram para ele o biquinho e o sussurro duma asa que lhe roçou pelo rosto.  Depois sentiu que essa asa lhe batia nos olhos e que um bico audaz lhe espicaçava o rosto. Tímido, receoso dessa inesperada agressão, retirou o braço e olhou. Era um tico-tico, a mãe da avezinhas no ninho, que defendia a prole, e continuou a atacar o menino, enquanto ele permaneceu junto à touceira de arbustos. Saindo dali, muito admirado da audácia e da coragem  dessa ave minúscula, o menino contou o caso à mãe. E a mãe lhe disse:

— Não há que estranhar, meu filho: essa avezinha faz pelos filhos o que eu faria por ti.

 

[Exemplo de narrativa demonstrativa]

Em: Flor do Lácio, Cleófano Lopes de Oliveira, São Paulo, Saraiva:1964, página 202.





Juntos,depois do divórcio e da morte que os separaram: os retratos de Henrique VIII e Catarina de Aragão

2 02 2013

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Retrato de Catarina de Aragão, primeira esposa de Henrique VIII, óleo sobre madeira, artista desconhecido Lambeth Castle.

A tradição dizia que o retrato a óleo [acima] em uma das salas particulares do Palácio de Lambeth mostrava a sexta esposa de Henrique VIII, Catarina Parr (1512-1548).  Mas especialistas da National Portrait Gallery  de Londres, que foram ao palácio, residência oficial do Bispo de Canterbury, com a intenção de estudar o retrato de William Warham (1450-1532), arcebispo de Canterbury no século XVI, parte de um projeto titulado: Fazendo Arte na Inglaterra Tudor, ficaram interessados no retrato da dama, parte da decoração da sala íntima da residência, desde o século XIX.  Examinaram o Retrato de Catherine Parr  e notaram algumas discrepâncias, colocando em dúvida a atribuição.  Alguns detalhes não se encaixavam:  a moldura do quadro era obviamente de data anterior ao casamento de Catarina Parr.  As roupas da rainha consorte também pareciam ser antiquadas, para o período supostamente retratado e por fim, a pessoa retratada tinha uma semelhança enorme com a primeira esposa de Henrique VIII, Catarina de Aragão (1485-1536).  Os especialistas pediram, então,  ao  atual arcebispo de Canterbury e aos Comissários da Igreja, o empréstimo do quadro para  submetê-lo a uma análise técnica mais aprofundada. O bispo permitiu, começando assim o projeto da nova atribuição de um antigo quadro.

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Retrato de Henrique VIII, óleo sobre madeira, c. 1520, artista desconhecido, National Portrait Gallery, Londres.

Os testes logo mostraram que os especialistas tinham razão em querer examinar o quadro com cuidado. Submetido a raios-X e luz infra-vermelha o painel – é um óleo sobre painel de madeira – mostrou surpresas.  A equipe descobriu que, se removida, a pintura de fundo mostraria o fundo original, uma pintura de um painel [um pano de fundo] de seda adamascada verde, semelhante ao de um retrato de Henrique VIII, pintado em 1520, e parte da coleção da National Portrait Gallery em Londres.   O exame de raio-X do adorno de cabeça de Catarina Parr  mostrou que ele fora alterado, que originalmente havia um véu, ítem semelhante aos usados na época de Catarina de Aragão.  Além disso suas feições haviam sido modificadas.  As evidências ajudaram à conclusão de que era de fato um retrato de Catarina de Aragão, que se tornou a primeira esposa de Henrique VIII, depois que seu irmão mais velho Artur, que ela havia esposado em 1501, morreu.

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Catarina de Aragão em outro retrato na National Portrait Gallery em Londres.

Além das análises feitas na pintura em si, Charlotte Bolland, curadora da National Portrait Gallery de Londres, lembrou que  até mesmo a moldura do quadro ajudou a refazer a identificação da pessoa retratada.  “Ficou imediatamente aparente que se tratava de uma moldura bem mais antiga, produzida de uma maneira relativamente rara, típica do início do século XVI, um tipo de moldura que havia ficado fora de moda”.   Alguns detalhes do acabamento decorativo da moldura sobreviveram, entre a pintura posterior e a folha de ouro.  Isso foi de grande valia para a equipe de especialistas do museu porque molduras com acabamentos da época Tudor são extremamente raras.  A moldura combina detalhes pintados em ouro com faixas coloridas em azul e vermelho, que eram pintadas com pigmentos de azurite e vermillion.  Como uma grande parte do acabamento original foi recuperado, a equipe de reatauração da National Portrait Gallery conseguiu reconstruir as áreas perdidas ou prejudicadas.  A restauração do contraste de cores usados na moldura dessa obra ajuda na compreensão dos valores estéticos da época.  Outro aspecto considerado foi o vestuário: o que aparece,  já não era usado na época de Catarina Parr, que nasceu em 1512, três anos depois do casamento de Catarina de Aragão com Henrique VIII.  Além disso havia as características faciais em maior harmonia com Catarina de Aragão do que com Catarina Parr.

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Retrato de Catherine Parr, sexta esposa de Henrique VIII.

Numa ironia do destino, hoje os retratos de Henrique VIII e Catarina de Aragão estão expostos lado a lado na National Portrait Gallery em Londres.  Para quem se lembra, esse casamento acabou em divórcio,  servindo de marco para a separação da família real inglesa da igreja católica. “Henrique VIII e Catarina de Aragão foram casados por 24 anos e durante esse período seus retratos teriam sido mostrados em conjunto, como rei e rainha da Inglaterra”, observou Charlotte Boland.

A princesa espanhola Catarina de Aragão foi a primeira esposa de Henrique VIII.  Ela havia sido anteriormente casada, aos 15 anos de idade,  com Artur o irmão mais novo de Henrique VIII. Mas Artur morreu seis meses depois do casamento. Ela ficou viúva aos 16 anos.  Henrique VIII, então herdeiro do trono, casou-se com Catarina de Aragão, que foi coroada rainha da Inglaterra em uma cerimônia de coroação conjunta com seu marido.

Pouco depois de seu casamento Catarina ficou grávida, mas deu à luz uma filha natimorta em janeiro de 1510. A gravidez subseqüente resultou no nascimento do Infante D. Henrique em 1511 e houve grande festa, mas ele morreu  depois de 52 dias de nascimento. Catarina de Aragão depois teve um aborto espontâneo, seguido por um outro filho de vida curta,  mas em fevereiro de 1516, deu à luz uma filha saudável, Maria.  E a criança sobreviveu.

Henrique VIII ainda amava a sua esposa, mas ficou frustrado com a falta de um herdeiro masculino e tomou várias amantes, entre eles Maria Bolena, irmã de Ana Bolena.  Ana se recusou a se tornar amante de Henrique VIII, mas ele foi insistente e  ela sucumbiu. A preocupação de Henrique VIII com um filho só aumentou.

453px-Mary_I_by_Master_JohnMaria I de Inglaterra, por Mestre John, óleo sobre painel de carvalho, 1544, National Portrait Gallery, Londres.

Esta preocupação tornou-se ainda maior quando ele leu em Levítico que se um homem se casasse com a mulher de seu irmão, o casal permaneceria sem filhos. Apesar de ter uma filha, Henry ainda se sentia “sem filhos” por não ter um filho homem.  Henrique VIII então pediu ao papa para que anulasse seu casamento. Quando  Catarina – uma católica devota – soube disso, ela mesma também apelou para o Papa, defendendo sua posição, contra o divórcio. Ela argumentou que, como ela e Artur nunca haviam consumado o casamento, eles não eram marido e mulher de fato.

Essa briga continuou por seis anos e as coisas chegaram a um ponto em 1533, quando Ana Bolena engravidou e Henry decidiu que a única maneira de se casar com ela seria rejeitar o poder do Papa na Inglaterra. E conseguiu que Thomas Cranmer,  arcebispo de Canterbury, anulasse o casamento.

769px-Catherine_Aragon_Henri_VIII_by_Henry_Nelson_ONeilCatarina de Aragão implora a Henrique VIII contra o divórcio, s/d

[pintura do século XIX]

Henry Nelson O’Neil (Rússia, 1817- Inglaterra, 1880)

óleo sobre tela, 42 x 65 cm

Museu e Galeria de Arte de Birmingham, Inglaterra

Catarina teve que renunciar seu título de Rainha e ser conhecida como a Viúva Princesa de Gales, o que rejeitou para o resto de sua vida.

Catarina e sua filha Mary foram separadas e ela foi forçada a deixar a corte real, vivendo em casas senhoriais úmidas e castelos com apenas uma meia dúzia de servos. Dizia-se que sofreu problemas de saúde por esse motivo, mas nunca se queixou, e passou grande parte de seu tempo rezando. A filha de Catarina e Henry tornou-se rainha Maria I de Inglaterra em 1553 e era conhecida por sua brutal perseguição aos protestantes – ganhando o apelido de “Bloody Mary” [Maria Sangrenta].

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Lembrando as esposas de Henrique VIII:

Catarina de Aragão (Espanha, 1485-1536)

Ana Bolena ( Inglaterra, 1501-1536)

Jane Seymour ( Inglaterra, 1508-1537)

Ana de Cleves ( Alemanha, 1515-1557)

Catarina Howard (Inglaterra, c. 1518–1524 –  1542)

Catarina Parr ( Inglaterra, 1512-1548)

Esta postagem é em comemoração à exposição dos quadros de Henrique VIII e Catarina de Aragão, juntos, a partir do dia 23 de janeiro de 2013, na National Portrait Gallery em Londres.

Fontes: National Portrait Gallery. The Daily Mail