Dona Feia, poesia de Ernani Vieira

13 07 2013

Haydéa Santiago,Vestido Novo, 1937,ost,65 x 50Vestido novo, 1937

Haydéa Santiago (Brasil, 1896-1980)

óleo sobre tela,  65 x 50 cm

Dona Feia

Ernani Vieira

Feia e boa. Nasceu de uma saudade

E vive uma saudade a reviver…

Foge dessa alegria da Cidade

— para a Cidade não n’a conhecer…

Nossa Senhora de uma Soledade

dentro da soledade a padecer,

a feia — assim como a necessidade

que tenho, há tanto tempo, de a querer…

Tem a Dor e a Ilusão por companheiras

de sua vida, e guarda n’alma, quieta,

a virtude monástica das freiras.

E não sabe afinal, entre ilusões,

que tem a glória de envolver um Poeta

na mais pura de todas as paixões…

Em: A lira da minha terra: poetas antigos e contemporâneos no Pará, selecionado por Clóvis Meira,  sem indicação de editora, Belém: 1993





Minuto de sabedoria — Camilo Castelo Branco

12 07 2013

Scheiber_Hugo-(Hungria, 1873-1950)Lendo as notícias no banco,guache, coleção particularLendo notícias num banco, s/d

Hugo Scheiber (Hungria, 1873-1950)

Guache

Coleção Particular

“Em coisas insignificantes é que um verdadeiro amigo se avalia.”

ng2176888   Camilo Castelo Branco (Portugal, 1825-1890)





Imagem de leitura — John Michael Carter

11 07 2013

Casal veneziano

John Michael Carter (EUA, contemporâneo)

óleo sobre tela, 30 x 40cm

www.johnmichaelcarter.com

John Michael Carter nasceu  em Chicago nos Estados Unidos.  Estudou na American Academy of Art de Chicago, continuando seus estudos em Los Angeles no Art Center College of Design.  Ensinou pintura e desenho na Universidade de Kentucky e também na Scottsdale Artists School, Dallas Art League e Arts Club de Cincinnati.





O vendedor de cocadas, texto de Marques Rebelo

7 05 2013

artigos.imagens.A0110.I00173 O vendedor de cocada

Darcy Cruz (Brasil, 1931)

óleo sobre tela, 50 x 70 cm

Ibac

9 de fevereiro [1941]

Cavalete ao ombro, grande baú pintado no cocuruto da cabeça pixaim, com uma folha de laranjeira contra os lábios, o doceiro emitia esperadíssimos sons anunciando-se à freguesia. Cocada brancas e pretas, quindins, bons-bocados, papos-de-anjo, pastéis de nata, bolinhos de cará, beijus, balas de ovo, de leite de coco, de guaco – ótimas para a tosse! Um universo de açúcar.

Era velho o preto, chamava mamãe de Iaiá, tinha sempre uma bala de quebra para Cristinha. Sua hora era pelo meio do dia, quando o sol ia a pino. Três vezes passava o padeiro empurrando a barulhenta carrocinha aprovisonadora. Deixava-se entregue à vigilância de um moleque e lá ia, peludo e bigodudo, de casa em casa, a cesta coberta com um pano braço que já fora saco de farinha. Pão francês, pão alemão, pão italiano (um pouco massudo), pão-de-provença, de milho, de forma, de ovo, pão trançado, pão-cacete e periquitos – a três por um tostão, obrigatórios nas merendas escolares – e roscas de barão, rosquinhas de manteiga, caramujos, tarecos, cavacos, joelhinhos, bolachas de água e sal. Tudo quente, cheiroso, estalando – a vida abundante, solícita, módica, vida provinciana para sempre extinta”.

Em: A mudança, Marques Rebelo, 2º volume de O Espelho Partido, São Paulo, Martins: 1962





Minuto de sabedoria — Jacques-Bénigne Bossuet

3 05 2013

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Sem título

Chad Weston Barksdale ( EUA, 1972)

“A felicidade humana é composta por tantas peças que algo está sempre em falta.”

ncd01384Jacques-Bénigne Bossuet (França, 1627-1704)





Os livros que definiram primeira década do século

15 04 2013

Marta Astrain (Espanha, contemp) Marta lendo na camaMarta lendo, 2010

Marta Astrain (Espanha, 1959)

óleo sobre tela, 38 x 46 cm

www.martaastrain.com

The Telegraph of London publicou esta semana uma lista dos cem livros que definiram a primeira década do século XXI.  Gosto de ver essas listas. Todas as listas sempre mostram falhas e são criações da cultura que as criou.  Mas fiquei surpresa ao constatar que concordo com um grande número dos livros citados.  Não vou repetir aqui a lista.  Isso vocês poderão ver consultando o jornal diretamente.  Coloco aqui os livros com que concordo.  Importante lembrar que a lista não pretende listar o que há de melhor na literatura.  Mas os livros que marcaram a década.  Primeiro listo aqueles mencionados pelo jornal, cuja importância é inegável.  São 13 dos 100 que eles listaram.    Depois coloco sete adições à lista, que ficou reduzida a 20 livros.

Selecionei 13 livros de acordo com o THE TELEGRAPH, mas não na ordem do jornal, e adicionei outros 7 que marcaram a minha década:

1 – Harry Potter – a série, de J.K. Rowland. O fenômeno da série de livros Harry Potter foi colocado em primeiríssimo lugar.  Concordo com essa classificação.  Será impossível no futuro desassociar  essas aventuras dos primeiros anos no século XXI.

2 – O código Da Vinci, Dan Brown.  Foi realmente um dos maiores livros virais da década.

3 —  Os detetives selvagens, Roberto Bolaño.

4 —  Deus, um delírio, Richard Dawkins

5 —  Dentes Brancos,  Zadie Smith

6 – Reparação, Ian McEwan

7 – Os homens que não amavam as mulheres,  Stieg Larsson

8 – O ponto da virada, Malcolm Gladwell

9 – O caçador de pipas, Khaled Hosseine

10 – Freakonomics,  Steven Levitt &  Stephen J Dubner

11 — A linha da beleza de Alan Hollinghurst

12 – Não me abandone jamais,  de Kazuo Ishiguro

13 – Agência nº 1 de Detetives – Alexander Mc Call-Smith

Minhas adições:

14 – O universo numa casca de noz, Stephen Hawkins

15 – Seis Graus, Mark Lynas

16 – A louca da casa, Rosa Montero

17 – 1421: o ano em que a China descobriu o mundo, Gavin Menzies

18 – Equador, Miguel Sousa Tavares

19 – Budapeste, Chico Buarque de Holanda

20 – A catedral do mar, Ildefonso Falcones





O caboclo, o padre e o estudante conto folclórico do Brasil, Luiz da Câmara Cascudo

10 04 2013

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Padre, 1977

Fernando Botero (Colômbia, 1932)

Óleo sobre tela

O caboclo, o padre e o estudante

Um estudante e um padre viajavam pelo sertão, tendo como bagageiro um caboclo. Deram-lhe numa casa um pequeno queijo de cabra. Não sabendo como dividí-lo, mesmo porque chegaria um pequenino pedaço para cada um, o padre resolveu que todos dormissem e o queijo seria daquele que tivesse, durante a noite, o sonho mais bonito, pensando engabelar todos com os seus recursos oratórios. Todos aceitaram e foram dormir. À noite, o caboclo acordou, foi ao queijo e comeu-o.

Pela manhã, os três sentaram à mesa para tomar café e cada qual teve de contar o seu sonho. O frade disse ter sonhado com a escada de Jacob e descreveu-a brilhantemente. Por ela, ele subia triunfalmente para o céu. O estudante, então, narrou que sonhara já dentro do céu à espera do padre que subia. O caboclo sorriu e falou:

– Eu sonhei que vi seu padre subindo a escada e seu doutor lá dentro do céu, rodeado de amigos. Eu ficava na terra e gritava:

Seu doutor, seu padre, o queijo! Vosmincês esqueceram o queijo.

Então, vosmincês respondiam de longe, do céu:

– Come o queijo, caboclo! Come o queijo, caboclo! Nós estamos no céu, não queremos queijo.

O sonho foi tão forte que eu pensei que era de verdade, levantei-me, enquanto vosmincês dormiam, e comi o queijo…

Em: Contos Tradicionais do Brasil (folclore) de Luís da Câmara Cascudo, Rio de Janeiro, Ediouro:1967





Descoberta arqueológica: provável centro administrativo de Ur

7 04 2013

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Esta foto, distribuída pela Universidade de Manchester, mostra a placa de barro com um fiel se aproxiamndo de um local sagrado.Foto: AP

Nessa semana arqueólogos britânicos revelaram  ter encontrado um complexo de construções nas proximidades de onde se situava a antiga cidade de Ur, no Iraque.  A estrutura de 4 mil anos provavelmente serviu como um centro administrativo de Ur, capital da Suméria, uma civilização que surgiu há 5 mil anos na Mesopotâmia.   As descobertas do grupo inglês são do período em que Abraão teria vivido no local.

O local está a 20 Km do local onde Sir Leonard Woolley descobriu as fabulosas “Tumbas Reais” de Ur nos anos 20 do século passado.  Nessa época as descobertas surpreenderam o mundo pela construção de alguns salões erguidos à volta de um pátio.  Ur, como sabemos, foi  o último local de residência das dinastias reais do povo sumério, uma civilização fundadora das mais antigas cidades do mundo.

A escavação, que foi feita por cientistas da Universidade de Manchester, liderada  pelo Professor  Stuart Campbell e Dr Jane Moon, revelou uma área do tamanho aproximado de um campo de futebol, ou melhor, 80 metros em cada lado.  O local da pesquisa foi determinado por imagens de satélite, antes mesmo das escavações começarem. Descobertas desse tamanho e tão antigas são raras.

Os objetos encontrados devem ajudar a esclarecer a história das civilizações que ocuparam a região na Antiguidade.  O local, hoje árido e de aspecto desolador, foi o lugar de nascimento das cidades.  Os objetos encontrados foram provisoriamente datados  em aproximadamente 2.000  a.C., ou seja,  da época em que a cidade de Ur foi saqueada e a  última dinastia real da Suméria caiu.

 As escavações começaram no mês passado com seis arqueólogos britânicos e quatro pesquisadores iraquianos na província de Thi Qar, a cerca de 320 quilômetros ao sul de Bagdá. Uma das descobertas é uma placa de uma pessoa com uma túnica esvoaçante se aproximando de um templo: provavelmente um fiel  em culto religioso.  Em seguida o grupo irá analisar os restos de plantas e de animais encontrados no local para ajudar no entendimento sobre os materiais naturais comercializados na época.   A região tinha grande vitalidade econômica há 4.000 anos.  O terreno, provavelmente  pantanoso, porque o Golfo começava muito mais ao norte, proporcionava matéria prima para o comércio marítimo  que era vultuoso:  riquezas naturais eram trocadas entre a Índia e os países da Península Árabe.

De acordo com o arqueólogo britânico, a missão só foi possível graças à relativa estabilidade no sul do país. O time de Campbell é o primeiro grupo de cientistas britânicos a fazer escavações no Iraque desde a década de 1980.

FONTES: TERRA e PHYS-ORG





Trova do pantanal

6 04 2013

Wander melo,TUIUIUS-2009,ast-120x80Tuiuius, 2009

Wander Melo (Brasil, contemporâneo)

Acrílica sobre tela, 120 x 80 cm

http://wmeloarts.blogspot.com.br

Em bando sutil, as garças,

pontilhando o lamaçal,

são quais pérolas esparsas, 

adornando o pantanal.

 –

(Dorothy Jansson Moretti)





Boicote político no Salon du Livre: um ato de auto-destruição

6 04 2013

Emile Verhaeren écrivant

Escritor Emile Verhaeren, 1915

Theo van Rysselberghe (Bélgica, 1862-1926)

Óleo sobre tela,  46 x 55 cm

Christie’s  Auction House

Ontem estava passando os olhos no jornal Le Monde e encontrei a notícia,[Des écrivains roumains boycottent le Salon Du Livre] já antiga, do dia 22 de março, onde o repórter Mirel Bran narrava  que os escritores romenos boicotaram o Salão de Livro em Paris: a Romênia era convidada de honra.  Terminei a leitura incrédula.  Como?  O que esses escritores imaginam ter feito?  Estão contra a administração do Salão do Livro? Foram mal tratados pelos franceses? Foram ignorados? Não. Nada disso.  Então, o que justifica essa atitude?  Eles protestam.  Não contra os franceses.  Tampouco contra o Salão do Livro. Protestam contra o governo deles.  Queriam denunciar a política do país.

Mas que diabos de leitura eles fizeram que imagina que seus atos teriam um impacto significativo? Esse foi um ato de auto-destruição.  Nada mais.  Quem imaginou e levou avante esta demonstração de resistência ao governo de seu país não entendeu a razão ou a importância da imensa oportunidade que esses escritores tiveram nas mãos, de projetar a sua literatura para o mundo.  Usaram sim o espelho retrovisor, olharam para trás.  Pensaram pequeno demais, portadores de antolhos culturais.

Porque vamos e venhamos: quem conhece a literatura romena?  Outros romenos.  Talvez uns poucos especialistas.  E agora, certamente menos pessoas irão conhecer.  Porque ninguém vai aprender romeno de uma hora para outra, por simpatia.  Esses escritores escolheram não promulgar suas idéias para uma Europa literata, leitora, ávida por novas experiências, por novos autores. Eles fecharam o teatro, cancelaram o espetáculo, depois de venderem  todos os lugares.  Escolheram encolher-se ao tamanho da Romênia. Definitivamente um ato de auto-destruição.  Porque a política local não irá mudar por esse motivo.  Quem imagina isso ainda não viveu tempo suficiente para ser um escritor, para dissertar sobre a condição humana. E perderam a grande oportunidade de terem suas vozes ouvidas por gente que poderia escutá-las com consideração e respeito.

Igualo esse ato ao das grandes ondas de protesto que temos no Brasil na época das eleições quando uns e outros imaginam que ao votar nulo ou em branco calarão ou modificarão a maneira com que a política é tratada no país.  Isso não vai acontecer. Isso é de uma inocência política que chega a doer.  Isso é abster-se na hora em que a sua opinião conta.  É um erro de interpretação do contexto de suas ações. É outro ato de auto-destruição.  Triste constatar que muitos não enxergam a irrelevância dessa postura.  São truques teatrais, mais pantomimas do que uma grande ópera. É engodo, bazófia. Charlatanaria política.  Uma ilusão à qual cabeças pensantes não podem se render.