Anjo bom, poema de Martins d’Alvarez para o dia do Mestre! 15 de outubro

7 10 2008
Ilustração Mauricio de Sousa

Ilustração Maurício de Sousa

 

 Anjo Bom

 

Martins d’Alvarez

 

 

Minha mestra mora aqui

dentro do meu coração.

Foi este anjo bom que, um dia,

vendo que eu nada sabia,

que tudo olhava e não via,

me conduziu pela mão.

 

Linda fada, com ternura,

pôs-se o mundo a me mostrar:

— a terra, — os espinhos e flores,

— o céu ardendo em fulgores;

— a vida cheia de amores;

— todo o mistério do mar.

 

Santa, ensinou-me a ser boa,

a ser alegre e feliz:

— a praticar a virtude;

— a cultivar a saúde;

— a enfeitar a juventude

com meus sonhos infantis.

 

— Minha mestra, minha amiga,

a ti, minha gratidão.

Pelo bem que me tens feito,

terás meu culto e respeito

no templo do amor-perfeito

que guardo no coração.

 

 

Vocabulário:

 

Ternura – carinho

Fulgores – brilhos, clarões

Juventude – mocidade

Mistério – segredo

 

Encontrado em:

 

Leituras Infantis, 2° livro, Theobaldo Miranda Santos, Agir: 1962, Rio de Janeiro

 

José Martins D’Alvarez   (CE 1904)  Poeta, romancista, jornalista, diplomado em Farmacia e Odontologia, professor, membro da Academia Cearense de Letras.

 

 

Obras:

 

“Choro verde: a ronda das horas verdes”, 1930 (versos).

“Quarta-feira de cinzas”, 1932 (novela).

 “Vitral”, 1934 (poemas).

“Morro do moinho” 1937 (romance)

“0 Norte Canta”, 1941 (poesia popular).

“No Mundo da Lua”, 1942 (poesia para crianças).

“Chama infinita, 1949 (poesias)

“O nordeste que o sul não conhece 1953 (ensaio)

“Ritmos e legendas” 1959 (poesias escolhidas)

“Roteiro sentimental: geopolítica do Brasil” 1967 (poesias escolhidas)

“Poesia do cotidiano”, 1977 (poesias)

Outros poemas de Martins d’Alvarez neste blog:

 

JOÃO e MARIA ; AMIGOS ; SÚPLICA





Imagem de leitura — Conrad Kiesel

6 10 2008

A lição, 1877, Conrad Kiesel (Alemanha 1846-1921) OST, Coleção Particular

 

 

Apesar de formado em arquitetura, Conrad Kiesel tornou-se um dos maiores escultores e pintores da Alemanha de sua época.  Aluno de Wilhelm Sohn, superou o mestre na  representação pictórica de tecidos e de cores.  





A cidade amanheceu radiante. Revolução de 1932

6 10 2008

 

 

 

 

 

30 de setembro de 1932

 

A cidade amanheceu radiante: os boatos de pacificação se alastraram desde as 7 horas da manhã.  Em verdade, porém, o que há é um armistício para entendimentos entre São Paulo e a Ditadura, o qual será levado a efeito ainda hoje ou amanhã.  Jornais publicam hoje haver sido assinado o armistício e terem entrado em confabulações para a par os representantes de São Paulo e da Ditadura.  

 

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Transcrição do Diário de Gessner Pompílio Pompêo de Barros (MT 1896 – RJ 1960), Itapetininga, SP, página 149 em referência à Revolução Constitucionalista de 1932.

 

 





Salman Rushdie continua seduzindo…

5 10 2008
Escritor Salman Rushdie

Escritor Salman Rushdie

 

No próximo dia 14 de outubro teremos a divulgação do Man Booker Prize, o maior prêmio literário da Inglaterra e na opinião de muitos o maior prêmio literário do mundo ocidental.  No início de setembro deste ano, no dia 9, a lista dos que estavam concorrendo ao prêmio foi divulgada pela maioria dos jornais de língua inglesa.  Este ano, para o prêmio de romance, a lista ficou reduzida a estes seis títulos e autores, surpreendendo os amantes de Salman Rushdie, que tenho certeza contavam que o The Enchantress of Florence, estivesse entre os seis livros finalistas. 

 

Em 2008 os 6 finalistas para o Man Booker Prize são:

 

Aravind Adiga, The White Tiger, Editora: Atlantic – O TIGRE BRANCO – ainda sem trad.                           

 

Sebastian Barry,  The Secret Scripture, Editora: Faber & Faber – TESTAMENTO SECRETO – ainda sem trad.

                        

Amitav Ghosh, Sea of Poppies, Editor: John Murray – MAR DE PAPOULAS – ainda sem trad.                                 

 

Linda Grant,  The Clothes on Their Backs, Editora:Virago – AS ROUPAS COM QUE SE VESTEM– ainda sem trad.

 

Philip Hensher, The Northern Clemency, Editora: Fourth Estate – A CLEMÊNCIA VEM DO NORTE – ainda sem trad.

           

Steve Toltz, A Fraction of the Whole, Editora: Hamish Hamilton – UM PEDACINHO DO TODO – ainda sem trad.

 

Midnight's Children, de Salman Rushdie, o melhor de todos

 

 

 

A razão da surpresa é simples: em julho deste ano, o Man Booker Prize, como parte das comemorações de seus 40 anos de existência, anunciou uma competição extra.  Pediam que se votasse no melhor livro de todos os que já haviam ganho o Man Booker Prize no passado.  Só uma outra vez havia a mesma entidade feito uma seleção semelhante.  Fora em 1993.  Supreendemente, Salman Rushdie e seu Midnight’s Children –[ Os Filhos da Meia-noite,  Cia das Letras], ganhou o voto de O MELHOR MAN BOOKER PRIZE, as duas vezes, em 1993 e em 2008. 

 

Originalmente Os Filhos da Meia-noite tinha sido escolhido como melhor livro do ano de 1981.  E em 1993, ganhou por voto popular a posição de Melhor Man Booker Prize até então.  Quando a competição foi repetida em 2008, o livro voltou a ganhar a honra, ainda por voto popular.  Ao término da competição, no dia 8 de julho, com os 7800 votos  tabulados, o livro de Salman Rushdie ganhou com 36% dos votos.  Os eleitores foram em sua maioria da Grã-Bretanha (37%) e dos EUA (27%).

 

Os finalistas, que concorreram com Os Filhos da Meia-noite foram:

 

Pat Barker, The Ghost RoadA estrada fantasma, 1995, sem tradução

Peter Carey —  Oscar e Lucinda ( Record) — 1988

JM Coetzee —  Desonra (Cia das Letras) — 1999

JG Farrell — The Siege of KrishnapurA tomada de Krishnapur, 1973, sem tradução

Nadine Gordimer — The Conservationist – 1974 , O conservacionista, sem tradução

 

Dada a grande popularidade de Salman Rushdie foi recebida com grande surpresa a noticia de que seu livro The Enchantress of Florence, que estava entre os 12 da lista longa do Booker, não tivesse ficado entre os 6 finalistas.  Este seria mais um Man Booker Prize para o escritor indiano que tem um constante namoro com este prêmio literário.  Vejamos:

 

The Enchantress of Florence, 2008, entre os 12 finalistas.

Man Booker International Prize 2007, concorrente – prêmio dado de 2 em 2 anos

Shalimar The Clown, 2005, entre os 12 finalilstas

The Moor’s Last Sigh, 1995, entre os 6 finalistas

The Satanic Verses, 1988, entre os 6 finalistas

Shame, 1983, entre os 6 finalistas

Midnight’s Children, 1981, vencedor

 

 

É então com grande antecipação que esperamos os resultados do Man Booker Prize,  deste ano.  Meu voto vai para Amitav Ghosh.  Mas veremos!





Imagem de leitura — Adolf Fényes

5 10 2008
Mulher lendo no pátio, s/d, Adolf Fenyes (Hungria 1867-1945), OST

Mulher lendo no pátio, s/d, Adolf Fenyes (Hungria 1867-1945), OST

 

Adolf FényesPintor húngaro, Adolf Fényes (Hungria 1867 – 1945) estudou em Budapeste, Weimar e Paris, voltando a fixar residência em Weimar durante algum tempo.  Finalmente, voltou a Budapeste.  Sua primeira exposição foi em 1895.





Pé de vento, poesia de Olegário Mariano, poema infantil

5 10 2008

 

Pé de vento…

 

Olegário Mariano

 

Ágil, violento,

De copa em copa,

Salta, galopa,

Relincha o vento.

 

Corcel alado,

Solta as crinas,

Desce às campinas

Desenfreado…

 

Transpõe barrancas,

Vales, penhascos,

Nas nuvens brancas

Imprime os cascos.

 

Da terra fura

Fundo as entranhas,

Na noite escura

Galga as montanhas,

 

Tolda os remansos,

Muda em cachoeiras

As cabeceiras

Dos rios mansos…

 

Arranca os galhos,

Pelos caminhos,

Deixa em frangalhos

Frondes e ninhos.

 

De salto em salto.

Revoluteia…

Lambe o planalto,

Dança na areia…

 

Na amaldiçoada

Força que o agita,

De cambulhada

Se precipita…

 

Pende o arvoredo

Num murmúrio:

“Meu Deus!  Que medo!

Que horror!  Que frio!”

 

Diz um arbusto:

“Por que me levas?

Tremo de susto

Dentro das trevas.”

 

Uma andorinha,

De asa quebrada:

“Morro sozinha,

Solta na estrada!”

 

Pobre tropeiro

Se desengana:

“Rolou do outeiro

Minha choupana!”

 

Vozes de magoas

Despedaçadas

Choram nas águas

E nas ramadas…

 

Uivam nas furnas

Feras aflitas,

Sob infinitas

Sombras noturnas…

 

E o vento nessa

Marcha selvagem,

Corta, atravessa,

Rasga a paisagem.

 

E segue o rumo

Do movimento,

Subindo a prumo

No firmamento,

 

Até que rola,

No último açoite,

Como uma bola

Dentro da noite…

 

 

Olegário Mariano Carneiro da Cunha, (PE1889 —  RJ 1958). Poeta, político e diplomata brasileiro.

 

Obras:

 

Angelus (1911)

Sonetos (1921)

Evangelho da sombra e do silêncio (1913)

Água corrente, com uma carta prefácio de Olavo Bilac (1917)

Últimas cigarras (1920)

Castelos na areia (1922)

Cidade maravilhosa (1923)

Bataclan, crônicas em verso (1927)

Canto da minha terra (1931)

Destino (1931)

Poemas de amor e de saudade (1932)

Teatro (1932)

Antologia de tradutores (1932)

Poesias escolhidas (1932)

O amor na poesia brasileira (1933)

Vida Caixa de brinquedos, crônicas em verso (1933)

O enamorado da vida, com prefácio de Júlio Dantas (1937)

Abolição da escravatura e os homens do norte, conferência (1939)

Em louvor da língua portuguesa (1940)

A vida que já vivi, memórias (1945)

Quando vem baixando o crepúsculo (1945)

Cantigas de encurtar caminho (1949)

Tangará conta histórias, poesia infantil (1953)

Toda uma vida de poesia, 2 vols. (1957)

 

 

 





Metralharam o avião da ditadura. Revolução de 1932

4 10 2008

 

Ataque à fortaleza.  1932Ataque à fortaleza. 1932

 

29 de setembro de 1932

 

 

Nos dias anteriores houve relativa calma.  Alguns boatos somente.  Fala-se que esteve iminente a ocupação de Campinas pelas tropas federais e que as trincheiras que guarneciam aquela cidade eram nos arrabaldes, tanto que as tropas iam de bonde para o front!  Hoje corre com insistência o boato da ocupação pelas forças federais da cidade de Ribeirão Preto o que causou certo abatimento entre a população paulista.  Fala-se que o combate do setor na frente de Campinas é decisivo.  Voou sobre esta cidade um avião da ditadura.  Metralharam-no e fugiu sem ter bombardeado.

 

 

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Transcrição do Diário de Gessner Pompílio Pompêo de Barros (MT 1896 – RJ 1960), Itapetininga, SP, página 148 em referência à Revolução Constitucionalista de 1932.

 

Tunel da Mantiqueira, 1932.





Imagem de leitura — Aurélio d’Allincourt

4 10 2008
Pausa na leitura, 1964, Aurélio d'Allincourt, (Brasil 1919-1990), ost

Pausa na leitura, 1964, Aurélio d'Alincourt (Brasil 1919-1990), OST

 

Aurélio D’Alincourt (Rio de Janeiro RJ 1919 – idem 1990). Pintor, desenhista, ilustrador e professor. Começa a pintar em 1942, sob a orientação de Oswaldo Teixeira e Carlos Chambelland. Em 1952, viaja para Paris, França, onde cursa a Académie de la Grande Chaumière. De volta ao Rio de Janeiro, atua como membro da Academia Brasileira de Belas Artes, em 1956 e faz ilustrações para a revista O Cruzeiro, entre 1957 e 1960. Além disso, passa a lecionar pintura no Instituto de Belas Artes.

 

Fonte: Itaú Cultural

 





Amigos, poema de Martins d’Alvarez — poesia infantil

3 10 2008
Ilustração de Eva Furnari

Ilustração de Eva Furnari

 

Amigos

 

Martins d’Alvarez

 

 

“Se entre os amigos encontrei cachorros,

Entre os cachorros encontrei-te, amigo!”

 

 

Costumamos chamar o cão de amigo,

no sentido mais nobre da amizade.

Realmente, na bonança ou no perigo,

o cão é o nosso amigo de verdade.

 

Meu cão nunca falseia o que lhe digo

nem finge amor nem trai a honestidade

nem mesmo se revolta, se o castigo

nos momentos de estúpida crueldade.

 

Tenho pela amizade amor profundo!

Pelos amigos vivo, luto e morro…

Mas, tenho recebido, neste mundo,

 

de tanto amigo tanta ingratidão,

que chamar qualquer deles de cachorro,

seria ser injusto com meu cão!

 

 

 

José Martins D’Alvarez   (CE 1904)  Poeta, romancista, jornalista, diplomado em Farmacia e Odontologia, professor, membro da Academia Cearense de Letras.

 

 

Obras:

 

“Choro verde: a ronda das horas verdes”, 1930 (versos).

“Quarta-feira de cinzas”, 1932 (novela).

 “Vitral”, 1934 (poemas).

“Morro do moinho” 1937 (romance)

“0 Norte Canta”, 1941 (poesia popular).

“No Mundo da Lua”, 1942 (poesia para crianças).

“Chama infinita, 1949 (poesias)

“O nordeste que o sul não conhece 1953 (ensaio)

“Ritmos e legendas” 1959 (poesias escolhidas)

“Roteiro sentimental: geopolítica do Brasil” 1967 (poesias escolhidas)

“Poesia do cotidiano”, 1977 (poesias)

 

 

Outros poemas de Mastins d’Alvarez neste blog:

 

SÚPLICA ; ANJO BOM ; JOÃO E MARIA





Onde está o leitor ou a leitora nas artes plásticas brasileiras?

3 10 2008

José Ferraz de Almeida Jr (Brasil,1850-1899) Moça com livro, 1879, MASP

 

 Moça com livro, 1879

José Ferraz de Almeida Júnior ( Brasil, 1850-1899)

óleo sobre tela

Museu de Arte de São Paulo

 

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Coleciono imagens de pessoas lendo.  A maioria foi feita por pintores europeus até o final do século XIX e depois deste período os artistas americanos passam à frente dos europeus na representação de homens, mulheres e crianças lendo.  Acredito que isto se deva ao número muito maior de artistas americanos, i.e., a classe dos artistas plásticos nos EUA ocupa uma maior percentagem da população do que o grupo de europeus em relação à população européia.  Provavelmente uma conseqüência na educação mais democrática, mais universal  no país da América do Norte. Mas, este não é o assunto nesta postagem. 

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José Ferraz de Almeida Jr, (Brasil 1850-1899), Moça lendo carta

Saudade, 1899, [Moça lendo carta]

José Ferraz de Almeida Jr ( Brasil 1850-1899)

óleo sobre tela, 197 x 101 cm

Pinacoteca do Estado de São Paulo [PESP]

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Meu tópico é questionar: por que um tema comum na Europa e nos países da América do Norte é praticamente inexistente nas artes plásticas brasileiras?  Uma opinião sem qualquer estudo específico seria de que no Brasil as pessoas não leriam tanto.  E também de que havia muito menos artistas em relação à população brasileira do que no resto do mundo.  Ou seja a proporção não permitiria a abundância de imagens, a necessidade de variações de temas.

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O tópico da mulher lendo, esta eterna musa inspiradora dos europeus e americanos, então, ainda restringe mais a imaginária brasileira.  No Brasil, a imagem da mulher leitora mal aparece na pintura do século XIX e aparece de maneira bem resumida durante o século XX.   A fascinação dos artistas estrangeiros pela mulher lendo poderia ter sido causada por diversos motivos:

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José Ferraz de Almeida Júnior, (Brasil 1850-1899) Familia reunida em casa do interior

 Família reunida em casa do interior, s/d

José Ferraz de Almeida Júnior (Brasil 1850-1899)

óleo sobre tela

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1) A  modelo, mesmo sofrendo de um preconceito comum — de que esta mulher teria uma posição social duvidosa —  associada à uma mulher fácil, de princípios morais flexíveis — nos países mencionados anteriormente, mesmo sendo pobre  esta mulher era alfabetizada o suficiente para poder posar convincentemente como leitora.  

 

2) É verdade que o tema permite também que pessoas que não são modelos profissionais, tais como irmãs, mães e esposas de pintores, pudessem  facilmente se submeter a este papel de modelo, porque ler em geral é feito numa posição parada e confortável.  Ou seja mulher não profissional pode posar lendo.  

 

3) A fascinação quase erótica vista pelos artistas estrangeiros na pintura da mulher que se abandona ao ato privado da leitura parece ser mais provocativa lá fora do que no Brasil.  A sensualidade da mulher-leitora passa desapercebida no Brasil.  Talvez porque a maioria das mulheres brasileiras, mesmo das famílias mais abastadas, que se encontravam fora das grandes cidades, era analfabeta.  E analfabeta permaneceu até muitos anos dentro do século XX.

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José Ferraz de Almeida Júnior (Brasil 1850-1899) Moça lendo em Itu.

 Moça lendo em Itu, sd

José Ferraz de Almeida Júnior ( Brasil 1850-1899)

óleo sobre tela

 

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No Brasil, a imagem da mulher leitora mal aparece na pintura do século XIX e aparece de maneira bem resumida durante o século XX.  A maior exceção à regra é do pintor paulista José Ferraz de Almeida Júnior ( 1850-1859) de quem conheço pelo menos quatro pinturas a óleo com o tema.

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Recentemente tive a oportunidade de ler o livro: O Retrato do Rei de Ana Miranda e me senti emocionada o suficiente para copiar algumas passagens que reproduzo aqui, descrevendo o tipo de consideração dada a quem queria ler.

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Bertha Worms (Brasil 1868-1937) Menina com livro, desenho

 Menina com livro, s/d

Bertha Worms ( Brasil 1868-1937)

desenho

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 Esta passagem ilustra bem o nível retrógrado da sociedade portuguesa, que não condizia mesmo com o resto da Europa neste sentido, principalmente porque a Mariana do romance é de uma classe social que na Europa já estaria lendo pelo menos o seu missal.  E explica a nossa herança cultural.

 

Ainda menina, Mariana recebera, uma noite, ordem de seu pai, dom Afonso, para que fosse à sala de livraria. Ela entrara, assustada. Sempre que o pai tinha uma repreensão ou castigo para as filhas chamava-as a tal lugar. O barão, em pé, diante da mesa, parecera-lhe um gigante. Batendo ritmadamente o chicote na mão, perguntara se ela estava pretendendo aprender a ler. Apontara com o chicote para um volume sobre a mesa, uma cartilha das primeiras letras. Mariana abaixara os olhos, sentindo o sangue tomar-lhe o rosto. Dom Afonso pegara o livro e aproximara-o da chama da vela. A cartilha demorou a pegar fogo e lentamente foi-se consumindo. “Cuida-te com os teus desejos”, o pai dissera. “Se eles te tomam, e não tu a eles, vais arder no fogo do inferno.” Em seu quarto a velha aia Sofia a esperava, com uma vara na mão. “Tira a roupa”, dissera a alemã. “Essas meninas da colônia são educadas como vacas. Que mal há em saber ler? As freiras não aprendem nos conventos? Na minha terra todas as mulheres sabem letras.” “Sabeis ler, dona Sofia?”  “Cala-te, menina. Tira a roupa.” Mariana, nua, curvada sobre o baú, esperara.“ Trata de gritar bem alto para que teu pai ouça”, Sofia sussurrara. E aplicara, sem nenhuma força, vinte vergastadas nas costas de Mariana, para cumprir a ordem do pai.

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Tarsila do Amaral (Brasil 1890-1973) Beatriz lendo, 1965

Beatriz lendo, 1965

Tarsila do Amaral ( Brasil, 1890-1973) 

óleo sobre tela

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Na história Mariana é mal vista através do padre local, justamente por parecer saber ler.  Ele suspeita que comunhão com o diabo por carregar um livro para a missa, todos os dias.  A dupla ironia é que ela realmente não sabe ler, mas não admite esta fraqueza para ninguém e continua sua solitária missão de “leitora” através de sua vida.   Aqui está uma passagem dos pensamentos de Frei Francisco no livro sobre a estranha dona Mariana. Estamos no Rio de Janeiro em 1707.

 

Nunca usava decotes como os das mulheres das Minas, vestia quase sempre saia e casaco pretos. Ás vezes aparecia com pintura e cabeleira, como os sodomas do palácio do governador. Costuma ser distraída e gostava de apreciar o horizonte. Falava com estranhos. Entrava nas igrejas, rezava ajoelhada. Andava com o nariz para o alto e olhava as pessoas nos olhos. Despertava vontade de fornicar, pois tinha carnes; mais dava medo. Às vezes a fidalga ficava olhando um livro de capa preta, que Lourenço não sabia dizer o que era, mas talvez fosse um missal.

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e no parágrafo seguinte:
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Frei Francisco interessou-se especialmente por esta última informação, que poderia esclarecer de vez o caráter de dona Mariana. Muitas pessoas se interessavam pelos livros de poesias e ensaios, abandonando as leituras de obras religiosas; não para adquirirem sabedoria filosófica, mas para se desavergonharem. Buscavam na Arte de amar apenas os trechos obscenos. Ovídio ensinava às esposas como enganar seus maridos em celas alugadas; suas mulheres ostentavam infidelidade e os homens uma complacência cornuda. A obra de Ovídio reduzia uma grande civilização a um galinheiro. A maioria dos livros continha um amontoado de sujeiras, arrotos de desbraguilhamentos. Os poetas costumam ser uma gente de natureza maliciosa. Descreviam príncipes em atividades obscenas nos alcouces, nobres em atitudes indignas nas camas, alcoviteiras ensinando moças a tornarem seus amantes generosos, velhos seduzindo meninas, exoterismo mundano, cumplicidade de salão; cantava-se gente da sarjeta em versos langorosos, padres eram difamados. Filósofos ensinavam como apanhar adolescentes no circo. Imperadores invadiam cidades vestidos como mulheres e deleitavam-se com escravos. O que achavam as pessoas, por acaso, que os poetas escreviam sobre as tendas esfumaçadas de César? Discussões sobre táticas de guerra? Meditações? Preferiam descrever vasos de vinho, coroas de pâmpanos, lascívia as bailarinas orientais e homens deitados na mesma cama.

 Em:  O retrato do rei, ANA MIRANDA, Cia das Letras:1991, São Paulo. páginas 87-88

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Adalberto Lutkemeyer (Brasil, RS) Mulher com livro, 1983

 Mulher com livro, 1983

Adalberto Lutkemeyer ( Brasil, RS, contemporâneo)

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É claro, reconheço que estamos tratando de ficção.  Mas Ana Miranda já provou que sua pesquisa histórica é exemplar.

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Duas ou três semanas depois de ler este livro, encontrei uma história semelhante no romance de Luiz Antonio de Assis Brasil, Manhã Transfigurada, em que o noivo de uma jovem no interior do Rio Grande do Sul, desconfia de sua “pureza” por sabê-la leitora de um livro de poemas…

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Seriam só estas as razões para tão poucas imagens de pessoas lendo na pintura brasileira?