Giuseppe Arcimboldo (Milão 1527-1593)
Óleo sobre tela
Museu do Louvre, Paris
O Imperador D. Pedro I, 1826
Manuel de Araújo Porto-alegre (Brasil, 1806-1879)
Óleo sobre tela
Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro
—-
PROCLAMAÇÃO – DE 8 DE SETEMBRO DE 1822
Sobre a divisa do Brasil – Independência ou Morte.
HONRADOS PAULISTANOS
O amor que Eu consagro ao Brazil em geral, e à vossa Provincia em particular, por ser aquella, que perante Mim e o Mundo inteiro fez conhecer primeiro que todos o systema machiavelico, desorganisador e faccioso das Côrtes de Lisboa, Me obrigou a vir entre vós fazer consolidar a fraternal união e tranquilidade, que vacillava e era ameaçada por desorganizadores, que em breve conhecereis, fechada que seja a Devassa, a que Mandei proceder. Quando Eu mais que contente estava junto de vós, chegam noticias, que de Lisboa os traidores da Nação, os infames Deputados pretendem fazer atacar ao Brazil, e tirar-lhe do seu seio seu Defensor: Cumpre-Me como tal tomar todas as medidas, que Minha Imaginação Me suggerir; e para que estas sejam tomadas com aquella madureza, que em taes crises se requer, Sou obrigado para servir ao Meu Idolo, o Brazil, a separar-Me de vós (o que muito Sinto), indo para o Rio ouvir Meus Conselheiros, e Providenciar sobre negocios de tão alta monta. Eu vos Asseguro que cousa nenhuma Me poderia ser mais sensivel do que o golpe que Minha Alma soffre, separando-Me de Meus Amigos Paulistanos, a quem o Brazil e Eu Devemos os bens, que gozamos, e Esperamos gozar de uma Constituição liberal e judiciosa, Agora, paulistanos, só vos resta conservardes união entre vós, não só por ser esse o dever de todos os bons Brazileiros, mas tambem porque a Nossa Patria está ameaçada de soffrer uma guerra, que não só nos ha de ser feita pelas Tropas, que de Portugal forem mandadas, mas igualmente pelos seus servis partidistas, e vis emissarios, que entre Nós existem atraiçoando-Nos. Quando as Autoridades vos não administrarem aquella Justiça imparcial, que dellas deve ser inseparavel, representai-Me, que eu Providenciarei. A Divisa do Brazil deve ser – INDEPENDENCIA OU MORTE – Sabei que, quando Trato da Causa Publica, não tenho amigos, e validos em occasião alguma.
Existi tranquillos: acautelai-vos dos facciosos sectarios das Côrtes de Lisboa; e contai em toda a occasião com o vosso Defensor Perpetuo. – Paço, em 8 de Setembro de 1822.
PRINCIPE REGENTE´
——-
Manuel José de Araújo Porto-alegre, primeiro e único barão de Santo Ângelo (Rio Pardo, 2 de novembro de 1806 — Lisboa, 29 de dezembro de 1879), escritor, pintor, caricaturista, arquiteto, crítico e historiador de arte, professor e diplomata brasileiro.
À direita, no canto superior, hoje orgulhosamente mostro o selo do certificado de TOP 100 em Cultura. Isso quer dizer que este blog, através de vocês, foi votado como dos melhores no setor de cultura. Eram muitos os candidatos. Muito blogs de grande impacto e conteúdo. Sinto-me grata, feliz, esfuziante, de ver que a PEREGRINA CULTURAL está entre o cem bogs mais votados pelo público.
FASE II
Agora, o julgamento dos melhores dentre os 100 mais votados passa para juízes acadêmicos. É a segunda etapa do processo. Qualquer que seja o resultado, estou orgulhosíssima de ter chegado até aqui. Só me resta um:
Capa de revista, 1939
EM CAMINHO
Zalina Rolim
SOU filha de lavradores;
Moro longe da cidade;
Amo os pássaros e as flores
E tenho oito anos de idade.
Quereis seguir-me à campina?
A tarde convida e chama,
O calor do sol declina,
E o horizonte é um panorama.
Neste samburá de vime
Levo coisa apetitosa;
mas, ai! que ninguém se anime
A meter-lhe a mão curiosa.
É o jantar do papaizinho;
Manjares de fino gosto;
Carne, legumes, toucinho,
Tudo fresco e bem disposto.
Papai trabalha na roça;
O dia inteiro labuta;
Tem a pele rija e grossa
E a alma afeita à luta.
Mas leal, franco, modesto
Como ele, não há no mundo:
Vive de trabalho honesto,
Cavando o solo fecundo.
Acorda ao nascer da aurora,
Abre a janela de manso,
E o campo e os ares explora
Da vista aguda num lanço.
Depois, nos ombros a enxada,
Abraça a Mamãe, sorrindo,
Beija-me a face rosada
E vai-se ao labor infindo.
Em casa também se lida
Daqui, dali, todo o instante,
Que o trabalho é lei da vida
E nada tem de humilhante.
Depois do trabalho, estudo;
Abro os meus livros e leio;
Eles me falam de tudo
O que eu desejo e receio.
Contam-me histórias bonitas,
Falam da terra e dos ares,
De vastidões infinitas,
De rios, campos e mares.
Mamãe diz que são modelos
De amigos leais e finos;
Que a gente deve atendê-los
Como aos maternais ensinos.
E agora, adeus, até breve.
Eis-me de novo a caminho:
Não esfrie o vento leve
O jantar do papaizinho.
Maria Zalina Rolim Xavier de Toledo — nasceu em Botucatu (SP), em 20 de julho de 1869.
Professora alfabetizadora transferiu-se com a família para São Paulo em 1893.
Educadora, entre 1896 e 1897, exerceu o cargo de vice-inspetora, do Jardim da Infância anexo à Escola Normal Caetano de Campos, em São Paulo.
Escreveu para diversas revistas femininas e jornais como A Mensageira, O Itapetininga, Correio Paulistano e A Província de São Paulo.
Faleceu em São Paulo, em 24 de junho de 1961.
Obras:
1893 – O coração
1897 – Livro das Crianças
1903 – Livro da saudade (organizado nesta data para publicação póstuma)
Mas, prometeram ligar o VELOX amanhã!!!!!
E as caixas de livros estão desocupando a sala.
Faltam ainda as novas estantes.
E descobri que precisamos de uma broca elétrica mais potente.
Faltam ainda detalhes de organização doméstica, pequenas coisinhas que no fundo fazem a vida funcionar mais tranquilamente do que sem elas.
O gás precisa ser ligado. Temos comido fora. Já está velha esta experiência de feijão com arroz que outros fazem… rs..
Mas é tudo controlável, principalmente se se espera ficar neste local por algum tempo…
Fora isso cansaço. Gripe indo embora com remédios do médico amigo. Energia voltando … Antes do fim de semana volto com toda a corda…
Caixa Econômica Federal, Rio de Janeiro.
A postagem de ontem a noite [ Sobre livros e decoração ] me fez pensar muitas vezes no Centro Cultural da Caixa Econômica aqui no Rio de Janeiro. Este é um lugar que visito regularmente. Tem grandes exposições e shows. O último que vi lá foi de Dori Caymmi, no início do mês de junho. Além do mais, está a uns passos da estação do metrô da Carioca. Em suma: um lugar fácil de ir, com uma ótima programação.
Hall de entrada do Centro Cultural da Caixa Econômica, RJ.
Este Centro Cultural fica no edifício-sede da Caixa na Avenida Almirante Barroso, no centro da cidade. Sua arquitetura é muito interessante, um pouco grandiosa mas por outro lado o espaço tem mais de 6.000 metros quadrados, um teatro de arena, dois cinemas, três galerias de arte, uma cafeteria, uma bombonière, além de salas de oficinas e ensaios, como bem explica o Portal da Caixa. Há detalhes de grande charme tais como a escadaria que leva ao mezanino e o grande painel de Bandeira de Mello ocupando boa parte da chegada a este mezanino.
Café e Livraria do Centro Cultural da Caixa Econômica, RJ.
Mas há algo de curioso, um quebra-cabeças sem igual, nesta organização: o Café e Livraria administrado pelo SENAC, no mezanino. É um café. Só café. Não há nenhuma livraria. Nem biblioteca. Nem exposição de livros. Os livros que vemos – e vemos de fato muitos livros nas paredes, são exclusivamente estampados de papel de parede. Fica um charme sem dúvida, principalmente porque aquece, torna mais habitável uma arquitetura sem alma e sem calor humano, como este gigante saguão que percebemos pelas fotos acima e abaixo.
Café e Livraria do Centro Cultural da Caixa Econômica no Rio de Janeiro.
Por que, então, o nome: Café e Livraria? Como livraria? Os livros não existem a não ser como tromp l’oeil! É tudo falso. Por quê?
O Centro abriu ao público em 2006. E é possível que originalmente tenham pensado num café/livraria como estava e ainda está tão em moda. E é quase provável que até hoje os administradores do CCCEF não tenham tido a oportunidade de conquistar algum empresário, alguma companhia, algum visionário que quisesse abrir uma livraria no local. Não me surpreende. Há muito pouco tráfico de visitantes e pedestres. Não me parece um lugar de sucesso para uma livraria, principalmente porque com tantos centros culturais no Rio de Janeiro todos com livrarias quase morrendo de inanição e com o grande número de portais na internet vendendo livros, há de ser muito difícil manter um negócio de venda de livros, neste lugar. Mas então, por que manter a idiossincrasia?
Papel de parede com desenho de estante elegante.
Porque livros transformam lugares. Eles dão aconchego e fazem de qualquer ambiente local propício para a troca de idéias, para conversas variadas. Os livros nos alimentam, suas idéias nos embriagam. Assim, eles parecem, para as pessoas que deles se rodeiam, trazer um espírito de confraternização semelhante ao que vemos entre amigos depois de uma farta ceia, regada a um bom vinho. Além disso, eles abafam os sons, tornando qualquer ambiente mais íntimo.
Nas revistas de decoração estrangeiras eles aparecem com freqüência. Por que será que por aqui eles só aparecem em números ímpares, casados com outros elementos decorativos, como mencionei anteriormente? Será que ainda mantemos, no fundo, no fundo, aquela desconfiança da palavra escrita que prevaleceu durante a Inquisição? Será que continuamos a tradição católica que desconfiava da Reforma de Lutero porque ele pedia que se lesse a Bíblia? Será que ainda não nos liberamos desta desconfiança sobre a palavra escrita que foi um componente decisivo da nossa história durante a colonização portuguesa no Brasil?
O Cavalo e o burro, ilustração de Frances Barlow, metade do século XVII.
O cavalo e o burro
Monteiro Lobato
O cavalo e o burro seguiam juntos para a cidade. O cavalo contente da vida, folgando com uma carga de quatro arrobas apenas, e o burro — coitado! gemendo sob o peso de oito. Em certo ponto, o burro parou e disse:
— Não posso mais! Esta carga excede às minhas forças e o remédio é repartirmos o peso irmãmente, seis arrobas para cada um.
O cavalo deu um pinote e relichou uma gargalhada.
— Ingênuo! Quer então que eu arque com seis arrobas quando posso tão bem continuar com as quatro? Tenho cara de tolo?
O burro gemeu:
— Egoísta, Lembre-se que se eu morrer você terá que seguir com a carga de quatro arrobas e mais a minha.
O cavalo pilheriou de novo e a coisa ficou por isso. Logo adiante, porém, o burro tropica, vem ao chão e rebenta.
Chegam os tropeiros, maldizem a sorte e sem demora arrumam com as oito arrobas do burro sobre as quatro do cavalo egoísta. E como o cavalo refuga, dão-lhe de chicote em cima, sem dó nem piedade.
— Bem feito! exclamou o papagaio. Quem mandou ser mais burro que o pobre burro e não compreender que o verdadeiro egoísmo era aliviá-lo da carga em excesso? Tome! Gema dobrado agora…
***
Em: Criança Brasileira, Theobaldo Miranda Santos, Quarto Livro de Leitura: de acordo com os novos programas do ensino primário. Rio de Janeiro, Agir: 1949.
VOCABULÁRIO:
Folgando: descansando, alegrando-se; excede: ultrapassa; arque: aguente; tropica: tropeça; maldizem: lamentam; refuga: rejeita.
—
José Bento Monteiro Lobato, (Taubaté, SP, 1882 – 1948). Escritor, contista; dedicou-se à literatura infantil. Foi um dos fundadores da Companhia Editora Nacional. Chamava-se José Renato Monteiro Lobato e alterou o nome posteriormente para José Bento.
Obras:
A Barca de Gleyre, 1944
A Caçada da Onça, 1924
A ceia dos acusados, 1936
A Chave do Tamanho, 1942
A Correspondência entre Monteiro Lobato e Lima Barreto, 1955
A Epopéia Americana, 1940
A Menina do Narizinho Arrebitado, 1924
Alice no País do Espelho, 1933
América, 1932
Aritmética da Emília, 1935
As caçadas de Pedrinho, 1933
Aventuras de Hans Staden, 1927
Caçada da Onça, 1925
Cidades Mortas, 1919
Contos Leves, 1935
Contos Pesados, 1940
Conversa entre Amigos, 1986
D. Quixote das crianças, 1936
Emília no País da Gramática, 1934
Escândalo do Petróleo, 1936
Fábulas, 1922
Fábulas de Narizinho, 1923
Ferro, 1931
Filosofia da vida, 1937
Formação da mentalidade, 1940
Geografia de Dona Benta, 1935
História da civilização, 1946
História da filosofia, 1935
História da literatura mundial, 1941
História das Invenções, 1935
História do Mundo para crianças, 1933
Histórias de Tia Nastácia, 1937
How Henry Ford is Regarded in Brazil, 1926
Idéias de Jeca Tatu, 1919
Jeca-Tatuzinho, 1925
Lucia, ou a Menina de Narizinho Arrebitado, 1921
Memórias de Emília, 1936
Mister Slang e o Brasil, 1927
Mundo da Lua, 1923
Na Antevéspera, 1933
Narizinho Arrebitado, 1923
Negrinha, 1920
Novas Reinações de Narizinho, 1933
O Choque das Raças ou O Presidente Negro, 1926
O Garimpeiro do Rio das Garças, 1930
O livro da jangal, 1941
O Macaco que Se Fez Homem, 1923
O Marquês de Rabicó, 1922
O Minotauro, 1939
O pequeno César, 1935
O Picapau Amarelo, 1939
O pó de pirlimpimpim, 1931
O Poço do Visconde, 1937
O presidente negro, 1926
O Saci, 1918
Onda Verde, 1923
Os Doze Trabalhos de Hércules, 1944
Os grandes pensadores, 1939
Os Negros, 1924
Prefácios e Entrevistas, 1946
Problema Vital, 1918
Reforma da Natureza, 1941
Reinações de Narizinho, 1931
Serões de Dona Benta, 1937
Urupês, 1918
Viagem ao Céu, 1932
——-
Francis Barlow ( Inglaterra, 1626? – 1704) Pintor, gravador e ilustrador. Seu primeiro trabalho foi como ilustrador do livro Theophila, de Edward Benlowe, publicado em 1652. Em 1666 ilustrou e publicou uma edição das Fábulas de Esopo, que mais tarde, em 1687 foi republicada e depois mais uma vez em 1668. A versão de 1687 aparece com várias outras fábulas e ilustrações adicionais. Barlow trabalhou em Londres a partir de 1653 como pintor de animais , pássaros e da vida campestre. Tudo indica que morreu na pobreza. Foi sepultado em 11 de agosto de 1704, mas não se sabe ao certo a data de seu falecimento.
—
Esta fábula de Monteiro Lobato é uma das centenas de variações feitas através dos séculos da fábulas de Esopo, escritor grego, que viveu no século VI AC. Suas fábulas foram reunidas e atribuídas a ele, por Demétrius em 325 AC. Desde então tornaram-se clássicos da cultura ocidental e muitos escritores como Monteiro Lobato, re-escreveram e ficaram famosos por recriarem estas histórias, o que mostra a universalidade dos textos, das emoções descritas e da moral neles exemplificada. Entre os mais famosos escritores que recriaram as Fábulas de Esopo estão Fedro e La Fontaine. Nota, interessante sobre este texto especificamente: na fábula grega o incidente ocorre entre uma mula e um burro.
Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro.
Seria redundante dizer que gosto de bibliotecas, e não me encabulo de visitá-las quando viajo pelo mundo. Bibliotecas assim como igrejas, museus e palácios podem dizer muito a respeito do lugar em que estamos.
Tenho, é verdade, uma outra razão para gostar de bibliotecas: foi na Biblioteca do Congresso em Washington DC que conheci meu marido. Assim, sempre olho com carinho para esses salões de leitura.
Qual não foi a minha surpresa, e orgulho também, ao descobrir que o Real Gabinete Português de Leitura, aqui no centro da minha cidade natal, está entre as bibliotecas selecionadas pelo blog Curious Expeditions como uma das mais belas bibliotecas do mundo, se não a mais bela, de acordo com o texto. O blog selecionou as mais belas bibliotecas e mostrou uma senhora coleção de fotografias desses lugares espalhados pelo mundo. Julgando pelas imagens que vi, teria sido realmente difícil dizer qual a mais sedutora… mas eles elegeram a biblioteca situada no Centro Antigo da cidade do Rio de Janeiro: Real Gabinete Português de Leitura — a maior biblioteca de autores portugueses fora de Portugal.
Convido a todos vocês que gostam de livros e de bibliotecas para darem um pulinho neste endereço sedutor: Curious Expeditions.
NOTA: é irônico que os portugueses, que por três séculos proibiram a imprensa e bibliotecas no Brasil, enquanto dispunham de grandes e belos exemplos em casa, são os autores justamente desse exemplo de biblioteca, no Rio de Janeiro, que ainda foi considerada mais bonita do que as existentes em Portugal! Aliás, Portugal aparece na lista com muito mais do que o Real Gabinete Português de Leitura, pois sabiam, e provavelmente ainda sabem, construir belas bibliotecas. Uma das mais belas bibliotecas que já visitei foi a da Universidade de Coimbra. Mas quase tudo em Coimbra, nos anos que morei lá, teve um toque de mágica. É um lugar encantador!
SERVIÇO:

D. Joana Liberal Cunha, 1892
José Ferraz de Almeida Júnior ( Brasil 1850-1899)
óleo sobre tela
Pinacoteca do Estado de São Paulo
Como postei no dia 3 de maio estou elaborando sobre as excelentes informações do ProfessoVanderlei Vicente sobre os 5 livros do romantismo necessários para o vestibular, publicado no Portal Terra. Meu objetivo é ajudar aqueles que precisam destas leituras não só a entenderem um pouquinho mais do romantismo no Brasil, mas conseguirem se lembrar de alguns detalhes das obras mencionadas. e leitura essencial para quem está para fazer o vestibular. O artigo original estará sempre em itálico azul.
Inocência (1872), de Visconde de Taunay – “Uma das mais exploradas temáticas do Romantismo é a do amor proibido. Essa é a tônica do romance Inocência, que explora a paixão entre os personagens Cirino, um falso médico que atendia no interior do Brasil; e Inocência, jovem prometida por seu pai a um morador da região, Manecão Doca. Num desfecho trágico, a morte de Cirino impede a consagração do amor e, provavelmente, serve como motivador para a morte da melancólica Inocência”.

Inocência foi o segundo romance publicado por Alfredo d’Escragnolle Taunay em 1872 e o terceiro livro. Antes, ele havia publicado em francês, La Retraite de Lagune, em 1871, que foi mais tarde traduzido para o português por Salvador Mendonça em 1874. A Retirada da Laguna: ocorrida entre 08 de Maio e 11 de Junho de 1867, durante a Guerra do Paraguai, teve início na fazenda Laguna, no Paraguai, e percorreu uma vasta área compreendida pelos actuais municípios de Bela Vista, Antônio João, Guia Lopes e Nioaque, no território do atual Estado do Mato Grosso do Sul. Esta “reportagem” histórica por si só já teria garantido um lugar nas história das letras brasileiras ao futuro Visconde de Taunay, não tivesse ele outros e muitos atributos com os quais enriqueceu o panorama intelectual do Brasil. O romance A Mocidade de Trajano, havia sido publicado em 1871, sob o pseudônimo Sílvio Dinarte, um de muitos pseudônimos que usou durante sua carreira literária.
O romance Inocência é justamente localizado no interior do Brasil, em região conhecida por Taunay nas suas perambulações como engenheiro militar e oficial do exército na Campanha do Paraguai. É uma história que se desentola na confluência dos Estados de Mato Grosso, Minas Gerais, Goiás e São Paulo.

Mapa do Estado do Mato Grosso do Sul. Em vermelho a localização do atual munícipio de Inocência, que se diz localizado exatamente onde o romance do Visconde de Taunay se desenrola.
Abre-se com esse romance a literatura regionalista, também explorada por outros autores românticos, mas nunca com a riqueza e o detalhe lingüístico encontrados aqui.
A fascinação lingüística que permeou a vida intelectual de Taunay demonstra não só grande cultura literária mas principalmente sua grande contribuição às nossas letras, focando no tipo do sertanejo, com seus costumes, suas crendices, cultura, desconfiança e seu linguajar. Foi de grande valia a atenção que Taunay deu a diferentes expressões regionais, ao linguajar do povo e até mesmo à invenção de novos termos, um pouco mais timidamente do que Guimarães Rosa, mas igualmente criterioso quanto ao “descobrir” de um novo vocábulo com um significado bem específico.
Ilustração: Guilherme Valpeteris.–
Também foi um grande observador da paisagem brasileira. Provavelmente sua experiência artística — pois era um excelente pintor — muito lhe ajudou em transmitir, nas vívidas descrições das belezas locais, aquilo que via nas diversas regiões do país que visitou. Taunay escreveu sobre o que conhecera. Aproveitou o interesse que tinha sobre a natureza para introduzir nesse romance a figura do cientista estrangeiro que vem ao Brasil à procura de fauna e flora exóticas. O naturalista Meyer, alemão, que serve de contraponto à cultura sertaneja de Pereira – pai de Inocência — enquanto procura por borboletas exóticas ou desconhecidas dos livros de ciências europeus. Sua presença no romance coloca em primeiro plano os opostos da vida rural e da vida urbana européia, sem nunca menosprezar os valores sertanejos. Meyer acaba encontrando uma rara borboleta branca e a nomeia em homenagem a Inocência, jovem cuja beleza e pureza, o europeu aprecia. Apesar de existirem algumas borboletas brancas na Mata Atlântica e outras nas densas florestas brasileiras da região amazônica, a borboleta descrita e nomeada pelo naturalista alemão no romance Inocência é pura ficção.

Capítulo XXI
– …………………
Meyer, que estava sentado na soleira da porta com as compridas pernas encolhidas, ergueu-se precipitadamente ao avistar Cirino e correu ao seu encontro.
Trazia o coração no rosto, um coração cheio de alegria e triunfo.
— Oh! Sr. Doutor, exclamou todo risonho, venha ver uma preciosidade… uma descoberta… espécie nova… não há em parte alguma… Ouviu? Coisa assim vale um tesouro… e fui eu que o descobri!… Nem sequer Juque me ajudou… pois estava deitado e dormindo… Não é verdade, Sr. Pereira?
— Veja, murmurava o mineiro, que barulhada faz ele com o tal aniceto… Ao menos, se fosse um animal grande!
— É uma espécie… nova… completamente nova! Mas já tem nome… Batizei-a logo… Vou-lhe mostrar… Espere um instante…
E entrando na sala, voltou sem demora com uma caixinha quadrada de folha-de-flandres, que trazia com toda reverência e cujo tampo abriu cuidadosamente.
Da própria garganta saiu um grito de admiração, que Cirino acompanhou, embora com menos entusiasmo.
Pregada em larga tábua de pita, via-se formosa e grande borboleta, com asas meio abertas, como que dispostas a tomar vôo.
Eram essas asas de maravilhoso colorido; as superiores do branco mais puro e luzidio; as de baixo de um azul metálico de brilho vivíssimo.
Dir-se-ia a combinação aprimorada dos dois mais belos lepidópteros das matas virgens do Rio de Janeiro, Laertes e Adônis, estes, azuis como cerúleo cantinho do céu, aqueles, alvinitentes como pétalas de magnólia recém-desabrochada.
Era sem contestação lindíssimo espécime, verdadeiro capricho da esplêndida natureza daqueles paramos. Também Meyer não tinha mão em si de contente.
— Este inseto, prelecionou ele como se o ouvissem dois profissionais da matéria, pertence à falange das Helicônias. Denominei-a logo, Papilo Innocentia, em honra à filha do Sr. Pereira, de quem tenho recebido tão bom tratamento. Tributo todo o respeito ao grande sábio Linneu – e Meyer levou a mão ao chapéu – mas a sua classificação já está um pouco velha. A classe é, pois, Diurna; a falange, Helicônia; o gênero, Papilio e a espécie, Innocentia, espécie minha e cuja glória ninguém mais me pode tirar… Daqui vou hoje mesmo, oficiar ao secretário perpétuo da Sociedade Entomológica de Magdeburgo, participando-lhe fato tão importante para mim e para a sábia Germânia.
– ………………
Inocência foi um romance que atingiu uma enorme popularidade. Não só aqui, na sua terra natal. Mas foi traduzidos para muitas línguas: francês, alemão, italiano, dinamarquês, sueco, polonês, espanhol e japonês. Foi publicado na maioria dos países como folhetim , em leitura diária de jornais. Taunay com esse romance atingiu um público universal que seguiu passo a passo a história de amor infeliz, a paisagem exótica, os costumes sertanejos. Até os dias de hoje Inocência é considerado um dos mais belos romances brasileiros.
——-
![taunay_interna[1] taunay_interna[1]](https://peregrinacultural.com/wp-content/uploads/2009/06/taunay_interna1.jpg?w=510)
Alfredo Maria Adriano d’Escragnolle Taunay, Visconde com grandeza de Taunay, (Rio de Janeiro, 22 de fevereiro de 1843 — Rio de Janeiro, 25 de janeiro de 1899), nasceu em uma família aristocrática de origem francesa no Rio de Janeiro. Foi professor, engenheiro militar e político, historiador, pintor e romancista. Freqüentou o Colégio Pedro II onde se bacharelou em Letras, em 1858, aos 15 anos de idade. Logo depois estudou Física e Matemática na Escola Militar, no Rio de Janeiro, tornando-se bacharel em Matemática e Ciências Naturais em 1863. Em 1862, iniciou o curso de engenharia militar. Combateu na Guerra do Paraguai como engenheiro militar, de 1864 a 1870. Após seu retorno ao Rio de Janeiro, lecionou no Colégio Militar e iniciou simultaneamente sua carreira como político do Segundo Império. Atingiu o posto de major em 1875. Foi eleito para a Câmara dos Deputados pela província de Goiás em 1872, cargo para o qual seria reeleito em 1875. Foi presidente da província de Santa Catarina, nomeado em 26 de abril de 1876. Assumiu o cargo de 7 de junho de 1876 a 2 de janeiro de 1877, quando o passou ao vice-presidente Hermínio Francisco do Espírito Santo, que o concluiu em 3 de janeiro de 1877. Retirou-se da vida política em 1878, inconformado com a queda do Partido Conservador, saindo do país para estudar na Europa, retornando em 1880. Em 1881 foi eleito deputado pelo estado de Santa Catarina, e em 1885 foi nomeado presidente da província do Paraná, exercendo o cargo de 29 de setembro de 1885 a 3 de maio de 1886. Em 1886 torna a ser deputado, novamente pela província de Santa Catarina. Foi feito Visconde de Taunay por D. Pedro II em 6 de setembro de 1889.
Concluiu o monumento aos heróis catarinenses da Guerra do Paraguai, que inaugurou em 1 de janeiro de 1877, no Largo do Palácio, atual Praça Quinze de Novembro. Foi ainda Deputado Geral por Goiás, de 1876 a 1878, e também por Santa Catarina, de 1882 a 1884. Foi Senador por Santa Catarina, escolhido de uma lista tríplice pelo Imperador em 6 de setembro de 1886, sucedendo Jesuíno Lamego da Costa.
Taunay foi um autor prolífico, produzindo ficção, sociologia, música (compondo e tocando), história e outros assuntos mais. Na ficção é considerado pelos críticos o Inocência como seu melhor livro. Com a proclamação da república em 1889, Taunay deixou a política para sempre. Faleceu diabético no dia 25 de janeiro de 1899.
Obras:
A Campanha da Cordilheira, 1869
La Retraite de Laguna, 1871 (em francês, traduzido como “A retirada da Laguna”)
A Retirada da Laguna
Inocência, romance, 1872
Lágrimas do Coração: manuscrito de uma mulher, romance, 1873
Histórias brasileiras, 1874
Ouro sobre Azul, romance, 1875
Narrativas militares, 1878
Estudos críticos, 2 vols., 1881 e 1883
Céus e terras do Brasil, 1882
Amélia Smith, drama, 1886
No Declínio, romance, 1889
O Encilhamento, romance, 1894
Reminiscências, memórias, 1908 (póstumo)
—
O romance Inocência encontra-se em domínio público. Para acessá-lo clique AQUI.

Bandeira brasileira, s/d
Olavo Campos
Madeira reciclada
Ao vento, assim, desfraldada,
numa data alvissareira,
lembra a Pátria idolatrada
— a Bandeira Brasileira.
(Moyses Augusto Torres)