Anna Gavalda, lembra — Irmãos: uma relação mais que especial

11 08 2011

Uma igreja no campo, 1879

Paul Gauguin (França 1848-1903)

óleo sobre tela, 13 x 19 cm

Coleção Particular

As memórias que mais me embalavam quando eu morava fora do Brasil eram sempre baseadas no convívio com meus dois irmãos.  Quando nós três estávamos juntos, principalmente ao redor da mesa na casa de minha mãe, era como se estivéssemos num mundo à parte: velhas piadas reapresentadas, mensagens taquigráficas com um piscar de olhos e a nossa maneira peculiar de ver o mundo.  Tudo o que nos identificava estava à mostra.  As minhas visitas eram de algumas semanas, às vezes um mês, e meus irmãos sempre arranjavam um jeito de passarem pela casa de minha mãe depois do trabalho, na hora do almoço, num momento de folga para que pudéssemos reatar laços vividos na infância.  Ríamos muito.  Sempre.  E às vezes bastava um começar para os outros entrarem em sintonia.  Minhas cunhadas pareciam às vezes não acreditar nos idiotas em que seus maridos conseguiam se tornar, tão infantis, tão crianças.    Eram momentos mágicos.  Hoje parecem mais mágicos depois da morte súbita de meu irmão mais novo.

Uma bela escapada, de Anna Gavalda [Rocco: 2011] é um pequeno romance, delicado, límpido, que retrata especificamente esse relacionamento mágico entre irmãos. O casamento de um primo no campo, alavanca o encontro dos irmãos Garance, Simon, Lola e Vincente : duas moças e dois rapazes; dois solteiros, uma divorciada e um casado.  Eles passam juntos um fim de semana inesquecível, depois de escaparem dos festejos matrimoniais onde se encontraram.  É através dos olhos de Garance, a terceira da prole, que nos familiarizamos com o grupo. Com a escrita simples, accessível, característica da autora, os quatro irmãos aparecem como personagens completos, que Gavalda assina com sua conhecida habilidade de desenvolver retratos de pessoas comuns, com defeitos e qualidades que reconhecemos.  Seu forte, nos livros anteriores, permanece:  o uso de palavras corriqueiras e precisas para pincelar como numa tela, obra impressionista, o canto do cisne da juventude e a entrada, inescapável, da fase madura.

Anna Gavalda

A narrativa se dá através de pequenas anedotas, de vinhetas de comportamento.  Nelas percebemos um texto que descortina uma deslumbrante alegria de viver, ressalta o prazer da liberdade e assinala para o poder das pequenas alegrias, dos momentos breves, mas plenos, que preenchem nossos dias.  Entremeado entre fantasia e memórias de tempos melhores, Uma bela escapada é um livro de passagem, que define o momento de transição entre o jovem adulto ao adulto amadurecido.   Anna Gavalda, uma das mais queridas autoras francesas, relembra mais uma vez que seus textos não são tão fáceis quanto parecem.  Apesar de velada, a crítica social, de costumes, está presente ainda que oblíqua.   Mas mais importante ainda do que isso é a sua habilidade de descrever a felicidade, de demonstrar os pequenos nadas que nos fazem venturosos.   Leitura extremamente agradável e exuberante, com o toque de leveza caracteristicamente francês.  Um descanso para a mente, um fôlego para a alma.





A medida do mundo, de Daniel Kehlmann

2 08 2011

Vista das cordilheiras e dos monumentos dos povos indígenas da América, Paris, 1810, Alexandre von Humboldt.

Férias são para se fazer o que não se faz no cotidiano, para alargar horizontes, experimentar novos caminhos.  Apesar de não ter tirado férias, formalmente, passei o mês de julho brincando fora da caixa.  Minhas pseudo-férias incluíram uma vida repleta de  exposições de arte, festival do cinema feminino, mesas-redondas literárias e científicas, concertos, visitas com amigos que há tempos não via.  Um julho delicioso,  cheio de atividades que me tiraram da rotina, alimentaram o descanso, aliviaram a tensão.  Foi assim que encontrei e acabei me deliciando com o romance de Daniel Kehlmann,  A medida do mundo, [Cia das Letras: 2007].

Talvez tenha sido sincronicidade ler esse romance alemão um dia depois de ter assistido ao arrebatador filme de Woody Allen, Meia-noite em Paris [2011].  O que une estas duas obras é justamente a visita que se faz a uma época passada [cada qual num século e em países diferentes], a um específico local que borbulha com novas idéias, teorias.  Em ambas as obras sentimos a eletricidade dos principais pensadores que se interconectam, trocam idéias, se referem uns aos outros e nos fazem desejar que tivéssemos sido contemporâneos de seus protagonistas: Kant, Daguerre, Goethe, entram e saem das páginas desse romance com a facilidade com que uma limusine leva Gil [Owen Wilson] das ruas de Paris contemporânea aos encontros com os mais famosos escritores e artistas radicados naquela cidade nas primeiras décadas do século XX.

A medida do mundo é um romance baseado nas biografias de dois dos maiores cientistas que por razões diferentes saem de suas zonas de conforto e medem o mundo:  Humboldt vem para a América do Sul e mede tudo o que vê, das montanhas às margens dos rios.  Sua procura é incessante.  Ambientada no Novo Mundo a narrativa assume característica de uma aventura exacerbada por um realismo fantástico.  Gauss, por outro lado, nunca saiu de seu torrão natal: mede o mundo através de equações matemáticas ancoradas nas estrelas e por indução.  Assim como a narrativa de Humboldt parece espelhar a aventura sul-americana, o estilo literário que envolve a vida de Gauss reflete sua vida mais precisamente dimensionada. Suas vidas aparecem em capítulos intercalados, com uma narrativa bem-humorada e cativante, não se tem em nenhum momento a sensação de estranheza, mesmo tendo o autor deliberadamente diferenciado a maneira de retratá-los.

Daniel Kehlmann

Daniel Kehlmann trata todo o texto com cativante ironia e humor, além de fazer com poucas e precisas pinceladas, um retrato da efervescência intelectual da época.  Acabamos percebendo que mentes brilhantes podem vir em qualquer formato. As vidas de Gauss e Humboldt são comparadas e contrastadas dando-nos uma visão generosa das diferentes maneiras de se atingir objetivos pessoais. Esse não é um livro em que descobrimos detalhes biográficos da vida de cada cientista: essa não é a proposta.  Temos sim, ao final do romance, uma percepção rica das dificuldades corriqueiras da época, fartamente adubadas pela extraordinária imaginação do autor que nos lembra de cheiros e sons; do desconforto das viagens em carruagens, das dores de noites dormidas em desconfortáveis colchões;  da arrogância da nobreza e de sua filantropia.  Tudo retratado com leveza e ironia.  Uma leitura deliciosa diferente do que se poderia esperar de um romance histórico, de uma biografia ou até mesmo de um livro sobre cientistas.  Invista nessa leitura, não se arrependerá.





O oficial dos casamentos, de Anthony Capella: as muitas formas de sedução

17 05 2011

Ilustração de capa de revista, Coby Whitmore (EUA, 1913-1988)

O oficial dos casamentos, de Anthony Capella [Record: 2011] em primeira leitura parece mais um livro feito para as férias, para ser lido na praia, sob a sombra de uma barraca, maresia salgando a pele e um copo de mate gelado na mão.  Parece leve, cheio de humor, quase inconseqüente.  Sua narrativa é rápida, ritmada e transporta o leitor facilmente pelos aromas da culinária italiana [um perigo ler esse livro se você está de dieta], e também evoca com facilidade a paisagem napolitana, assim como o charme e a beleza das mulheres nativas. Chega perto de poder ser lido, simplesmente assim, sem compromisso.  Afinal, o tema central, parece ser o romance entre a italiana Lívia Pertini e o oficial inglês James Gould.  

A narrativa faz jus à tradição literária inglesa iniciada no século XVIII em que o narrador descreve as observações de um estranho quer na cidade de Londres, quer num país até então desconhecido.  Suas observações do povo local, dos costumes e hábitos que lhes são caros, interpretados pela perspectiva do visitante são fonte de grande entretenimento, humor e surpresa quanto aos costumes locais levados a sério pela população.   Um dos mais radicais exemplos desse gênero literário está exemplificado nas Viagens de Gulliver do irlandês Jonathan Swift, cuja primeira publicação data de 1726.  

 

No texto de Anthony Capella, acompanhamos as observações de James Gould sobre a Itália, a vida em Nápoles, os costumes locais.  Membro das forças inglesas que lutavam com os aliados contra os nazistas no sul da Itália, James Gould se encontra subitamente responsável pelas entrevistas que permitiriam ou não a oficiais ingleses se casarem com italianas.  A necessidade dessa função surge do enorme número de oficiais britânicos que se enamoram das belas italianas e pedem permissão para casar.  Por sua vez, as autoridades inglesas não vêem com bons olhos esses casamentos por acharem que um homem casado não iria lutar com o mesmo empenho que um solteiro. 

Eis que a viúva e maître de cozinha, Lívia Pertini entra em sua vida, como cozinheira de James.  E suas delícias culinárias, os aromas de sua comida, a textura de sua massa, a excentricidade de suas bebidas abrem, para ele, as portas de um mundo novo e inebriante onde todos os sentidos parecem se imiscuir em uma única e plena experiência sensual.  Nessa aventura culinária ecos de outro escritor inglês setecentista, Henry Fielding com seu A História de Tom Jones publicado em 1749 vêm à mente nas cenas em que Lívia ensina James a comer ervilhas ou escargots.

Mas, há uma mudança de tom e uma mudança de atmosfera mais ou menos a três quartos do fim.  Até então tudo parece uma comédia romântica.  De um momento para o outro, como aconteceu na vida real, com a explosão do Vesúvio, o romance dá uma virada, deixa de ser tão bem humorado.  A guerra chega ao primeiro plano e com ela vêm outras seduções.  Talvez melhor descritas como o lado negro, o reverso do que até então se apresentara.  E aparece a sedução pela exploração, a sedução por extorsão, a sedução como arma de guerra.

Anthony Capella

Não é surpresa saber que esse romance já está a caminho de se tornar um filme.  De fato, por ser uma história passada na guerra, por seu alto astral e bom humor, tudo nela lembra os filmes dos anos 40 do século passado – também de guerra – com Katherine Hepburn, Cary Grant e outras estrelas Hollywoodianas das telas em preto e branco, em que romances bem humorados com fox-trot na vitrola, aconteciam inesperadamente.   Há quem possa comparar esse livro a dois outros romances, também ingleses, da década de 90, O bandolim de Corelli, de Louis de Bernières, publicado em 1994  [no Brasil, Record:1998] e de Chocolate, de Joanne Harris, publicado em 1999 [ no Brasil, Record: 2001],  que também viraram filmes.  Mas acho essas comparações superficiais.  Porque nenhum desses dois títulos parece ter o cuidado de um subtexto como o que transparece no romance de Capella.

O Oficial de casamentos examina o tema da sedução de diversos pontos de vista e se torna até mesmo um curioso quebra-cabeças para o leitor atento diferenciar todos os tipos de sedução retratados no romance, tal como nos distraímos quando temos em frente de nós um desenho com a pergunta: quantos triângulos você vê na figura acima?   Este é um bom romance, de fácil leitura.  Bom entretenimento.  E a gente ainda aprende uma ou duas coisas sobre a história da Segunda Guerra na Itália.   Bem documentado.  Para maiores detalhes o autor também colocou documentos na sua página na web. [ www.anthonycapella.com]  Recomendo.





História, mistério e aventura: O último cabalista de Lisboa, de Richard Zimler

24 04 2011

Leitura ritual em sinagoga, iluminura, manuscrito em Emília, na Itália.

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Raramente no grupo de leitura a que pertenço nos dedicamos a livros lançados há muito tempo, porque nem sempre é fácil para os membros conseguirem comprar volumes esgotados.  Mesmo sabendo que o livro é muito bom temos o cuidado de verificar se está disponível nas livrarias antes de o recomendarmos.  Isso nos faz ler principalmente os mais recentes lançamentos.  Foi, portanto com prazer que verificamos que a editora Best Bolso [Grupo Editorial Record] havia lançado O último cabalista de Lisboa, de Richard Zimler, originalmente publicado no Brasil em 1997 e que havia sido muito bem recomendado por amigos leitores.

Valeu à pena seguirmos essa indicação.  O romance de mistério e também histórico passado em Lisboa, em 1506, se concentra num assassinato que acontece ao mesmo tempo em que no centro da capital portuguesa aproximadamente 2000 judeus e cristãos novos são exterminados em praça pública, sacrificados vivos numa grande fogueira.  É na semana dessa horrível, desmesurada ,matança, fato histórico comprovado, instigada pelos Dominicanos, que se passa o assassinato que Berequias Zarco investiga. A vítima era Abraão, seu tio e mentor no estudo da Cabala.

O romance começa com um aceno, uma referência, às tradições românticas do século XIX, quando um autor, antes de desfiar a sua narrativa, a enquadra como vinda da descoberta de um manuscrito recém-encontrado.  Os escritores Bram Stoker (irlandês) e Nathaniel Hawthorne (EUA) são apenas dois nomes que vêm à mente quando penso nesse tipo de gancho na narrativa. Tratando-se de O último cabalista de Lisboa essa introdução é de grande efeito, porque sabemos que as histórias que conhecemos do período da Inquisição em Portugal na época de D. Manoel, O Venturoso,  são escassas e tendenciosas.  Grande parte dos manuscritos – judaicos ou não – que faziam parte da biblioteca de mais de 70.000 volumes da Coroa Portuguesa, desapareceu no terremoto de 1755.  Assim, a suposta descoberta de um manuscrito em Constantinopla, dá, desde o início da narrativa, um cunho de verdade, como um crédito para aliviar a nossa descrença.

É bom afirmar desde logo que este não é um romance religioso.  É principalmente uma história de mistério, de resolução de um crime, que acontece numa semana de grande inquietação social nas comunidades não-cristãs:  judaica e muçulmana, na Lisboa de 1506.  As referências à Cabala – estudo da natureza do que é divino – não são mais do que um pano de fundo, uma ferramenta de uso dramático, que ajuda a apresentar ao leitor, através de liberais pinceladas culturais, alguns aspectos do dia a dia da Alfama moura e judia.  A Cabala permeia o texto através de citações filosóficas de fácil compreensão, tais como “os livros são feitos por letras mágicas”, entre outras.   Torna-se evidente, logo após as primeiras 50 páginas que a intenção de Richard Zimler (um judeu americano naturalizado português que reside na cidade do Porto) é a de escrever um livro de suspense que absorva o leitor de tal maneira que não possa deixá-lo de lado.  E isso ele consegue facilmente.  Também é sua intenção, acredito, manter a memória viva de todos os sacrifícios pelos quais o povo judeu passou.  Mas seu retrato da brutalidade da época, das maneiras rudes da população, dos medos, das doenças, da peste, das crendices, do sexo, tudo que ele descreve, nos leva, a nós também, que não somos judeus, a querermos manter a memória viva dessa e de outras épocas — sobreviventes que somos todos nós dos augúrios do passado — para que chacinas, preconceitos, extermínios não se repitam nunca mais.  Nem pelas nossas mãos, nem pelas de outrem.

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Richard Zimler

O último cabalista de Lisboa apresenta uma história sobre anti-semitismo e os judeus em Portugal.  Somos levados a considerar, mais uma vez, as conseqüências de uma nobreza associada por baixo dos panos ao financiamento dos empréstimos judeus, e acima da mesa à uma religião cega, dominada pelo medo e mantenedora da  ignorância do povo.  Lembramos com esse romance do fiasco das conversões forçadas e das reações às doenças da época.  Temos que confrontar os hábitos porcos, insalubres, violentos e amorais da era das grandes descobertas lusitanas.  E de sobra somos apresentados aos valores das reais e das falsas amizades.  Tudo isso num ritmo frenético, de grande suspense.  Que mais se pode pedir de um romance de mistério?  Leitura gostosa, com passagens violentas, mas de grande lucidez e magia.





Bullying: um crime social, onde todos têm sua dose de culpa, como mostrou Alonso Cueto

9 04 2011

Ilustração, Complete Well Being.

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Na época em que comecei a faculdade era comum acreditarmos no conceito de que grande parte dos artistas – quer nas artes visuais, como nas literárias e outras – estava sempre alguns anos à frente da grande maioria das pessoas,  da sociedade em geral.  É possível que nas últimas décadas esse assunto tenha desaparecido ou tenha se tornado arcaico: a comunicação instantânea parece desestabilizar o preceito.  Quase não temos tempo de digerir o que nos aparece e, ainda, o que é novo hoje já se torna velho em questão de horas.  

Os eventos da semana no Rio de Janeiro – a execução de crianças por um homem desequilibrado que havia claramente sofrido de bullying na escola, como mostrou o jornal O GLOBO de hoje.  [ “De berço de rua a cova de indigente”, Caderno Especial, página 8] — não nos deixam parar de pensar nesse tipo de abuso.  Lendo esse artigo me lembrei dessa questão do artista estar preocupado com algum aspecto social que muitos ainda não sentiram.   Lembrei-me de como o autor de um romance, que por estar atento aos passos da sociedade, aos detalhes do dia a dia, projeta no seu trabalho, o entendimento, a discussão ou atualização de assuntos que nem sempre estão na “boca do povo”.   Foi pensando nesses passos um pouquinho à frente da sociedade que voltei a minha atenção ao  romance de Alonso Cueto, O sussurro da mulher baleia, [Planeta: 2007]  já resenhado aqui nesse blog,  em 3 de janeiro de 2010:  Alonso Cueto brilha com O sussurro da mulher baleia .  O romance que foi finalista  em 2007 do Prêmio Planeta-Casa América de Narrativa Ibero-Americana, aborda justamente o tópico do bullying na escola e as conseqüências que este bullying pode trazer.  Mostra claramente como esse é um crime social, em que  praticantes e vítimas sofrem.  Também são aqueles que se calam são vítimas.  Todos, todos que permitem que o bullying aconteça sofrem.  É uma doença social, virulenta e às vezes mortal.

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O sussurro da mulher baleia é uma leitura necessária a quem deseja entender melhor os efeitos prolongados desse sofrimento.  Sua narrativa é dinâmica, moderna e não parece, talvez por ser de tão fácil leitura, tratar de um assunto tão importante e de tanto peso emocional.  Mas Alonso Cueto consegue mostrar como o bullying é um crime social. Cueto mostra como esses dois lados de uma mesma moeda afetaram duas meninas na escola, que eram amigas.   Ele revela também, numa cena final de grande sensibilidade,  como essa situação escolar é carregada através da vida de ambas as protagonistas e como o sofrimento de cada uma encontra repercussão na outra, fazendo-as interdependentes emocionalmente.  Recomendo mais uma vez a leitura desse romance não só pela atualidade do tema, mas pelo que sabemos ser verdade em casos de sofrimento contínuo de jovens adolescentes.  Se você ainda não parou para pensar nesse assunto e se ainda não leu este romance, faça-o.  Esta é a hora.





O mundo mágico de Célestine Hitiura Vaite

26 03 2011

Mercado de Papeete, Taiti, 2008

Roy Boston

Aquarela,  55 x 35 cm

Aquanetart

Há muito tempo não me acontece de ler um livro e ficar tão encantada que me precipitei a  procurar por outro do mesmo autor.  E ainda mais, acabar a leitura do segundo volume e me sentir tão feliz quanto na primeira vez.  Mas foi exatamente isso que me aconteceu quando li, com a recomendação de um livreiro conhecido, A flor do Taiti de Celéstine Hitiura Vaite [Rocco: 2011]. 

Minha apresentação ao trabalho dessa escritora taitiana deu-se “fora de ordem”, ou seja, li o segundo livro antes de ler o primeiro Os sabores da fruta-pão [Rocco: 2006].  Apesar de terem em comum os mesmos personagens, nada impediu o deleite de qualquer um dos volumes em separado.   São obras totalmente independentes, em que os mesmos personagens reaparecem com suas deliciosas filosofias de vida, maneiras de viver, dizeres na ponta da língua…

O mundo que se apresenta ao leitor de Célestine Hitiura Vaite tem o encanto da simplicidade, do saber popular, da vida “como ela é vivida” por milhões de pessoas no mundo.  Pode-se dizer que a escritora passa ao leitor um mundo realista, porque nele as menores decisões são avaliadas, contadas e elas levam não a conseqüências operáticas, desastrosas ou de grande sucesso, mas levam — de uma maneira ou outra —  ao desenvolvimento da história como acontece na maioria de nossas vidas: nem grandes tragédias, nem grandes transformações. 

Nesse aspecto, Célestine Hitiura Vaite lembra em estilo de narrativa os escritores ingleses.  Interessante, que mesmo tendo sido criada com o francês, — o Taiti ainda faz parte da comunidade francesa, é um “país do francês ultramarino”  – a autora declara na contracapa que se sente mais à vontade escrevendo em inglês.  Se sofreu ou não influência de escritores ingleses tais como Jane Austen, Barbara Pym, Alexander McCall Smith não vem ao caso, o que importa e notarmos que a mesma consideração para as pequenas decisões, para as nuances de comportamento que caracterizam os escritores acima mencionados estão presentes no trabalho dessa taitiana.

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Em A flor do Taiti, nos encontramos com uma família daquele país, onde a personagem principal, Materena Mahi, é uma apresentadora de um popular programa de rádio.  Ela e o marido estão prestes a se tornarem avós e esse evento em suas vidas transforma o dia a dia e os personagens retratados.  Em Os sabores da fruta-pão  nos confrontamos com o relacionamento de Materena e sua única filha – ela tem outros dois meninos.  São outros tempos.  Ela ainda não é apresentadora de rádio e seus filhos ainda estão dando bastante trabalho.  Todos são mais jovens, inclusive Pito, o marido, cujo comportamento em qualquer um dos volumes, levou essa leitora a boas gargalhadas.  Retratada está a sabedoria popular e vemos como a sensibilidade de Materena consegue caminhar por entre assuntos difíceis e espinhosos com a delicadeza e graça.

Apesar de a autora não se dedicar a problemas sociológicos, há através dos dois livros lançados no Brasil (originalmente é uma trilogia) um alerta para alguns problemas sociais, entre eles o grande número de crianças nascidas de pais franceses  radicados no arquipélago durante o serviço militar e que voltam para a França sem reconhecerem os filhos das ligações amorosas no local.  Vemos também a discriminação entre classes sociais, prevalente praticamente no mundo inteiro, assim como o descaso dos homens – todos centrados nos seus próprios umbigos — para com os trabalhos femininos.  No entanto, tudo isso é retratado com muito bom humor e com delicada franqueza.  O que acaba por exaltar a nossa familiaridade com esses assuntos acentuando o alto astral dessas comédias humanas. 

Ambos, A flor do Taiti e Os sabores da fruta-pão,  são romances de costumes que giram em torno de sentimentos e de dúvidas universais.  Não se perdem no retrato da pobreza de uma região do país, nem tampouco tentam solucionar ou delatar problemas socioeconômicos.  Mas em questão está o realismo emocional de uma família que faz tudo para sobreviver bem e que leva a vida tão agradável quanto o absolutamente possível.  Não há como sair de nenhum desses dois romances, sem estarmos felizes com a natureza humana e com a vida em geral. 

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Celestine Hitiura Vaite

Esses são livros de grande entretenimento; eles contribuem para nos sentirmos bem ao final da leitura.  Os personagens são todos mais ou menos nossos conhecidos.  Eles nos surpreendem porque temos que aceitar que são em geral de bom caráter, mesmo as tias fofoqueiras, ou os companheiros machistas de Pito no trabalho.  Conhecemos a todos, mesmo antes de lermos uma única palavra dos romances.  Reconhecemos seus trejeitos e modo de pensar, assim como podemos reconhecer muitos personagens de novelas televisivas.  Mas é  a mágica narrativa da autora nos leva a aceitá-los exatamente como são: defeitos e qualidades inclusos. 

Em abril temos uma semana de feriados: Semana Santa, Tiradentes, Descobrimento, etc.  Se você está pensando em levar alguma boa leitura, leve e feliz para o seu feriado, não deixe de considerar esses dois livros.  Não vai se arrepender.  

NOTA:  Há duas grandes contribuições para o sucesso desse livro:  a tradução de Léa Viveiros de Castro e as capas de Flor Opazo, que saem da mesmice de retratar o Taiti como Gauguin o fez.   Parabéns às duas.





Papa-livros, leitura para fevereiro: Jeff em Veneza, morte em Varanasi, de Geoff Dyer

26 01 2011

 

Mulher contemplando o mar , 1933

Max Beckmann (Alemanha, 1884 – EUA, 1950)

Óleo sobre tela

Museu Ludwig, em empréstimo do Museu de Arte de Bremen

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A partir deste mês vou colocar aqui, a escolha que o grupo Papa-livros fez para leitura e discussão.  Assim aqueles que quiserem acompanhar as nossas leituras estarão a postos.

Leitura para FEVEREIRO, discussão a partir do dia 21.

SINOPSE ( com texto das descrições das editoras brasileiras e portuguesa):

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O jornalista Jeff Atman está em Veneza para cobrir a abertura da Bienal de Arte. Espera ver muitas obras de arte, ir a muitas festas e beber muitos bellinis. Não espera conhecer a sedutora irresistível galerista americana e  Laura, que irá mudar completamente a sua curta estadia na cidade e o faz protagonista de um romance incandescente que provoca mudanças e revelações radicais.

 Outra cidade, outro trabalho: desta vez nas margens do Ganges, em Varanasi. Por entre as multidões, os ghats e o caos da mais sagrada cidade hindu, espera-o um tipo diferente de transformação.  Nessa segunda história, um narrador misterioso, que pode ser ou não o mesmo Atman visto em Veneza, tem sua estada ampliada na Índia, em uma missão jornalística. Mas o que seriam apenas alguns dias transformam-se em meses. Assim, entre turistas e peregrinos nas margens do rio Ganges, em Varanasi, a cidade mais sagrada da Índia, ele passa de ator a observador. Torna-se testemunha do romance de um casal de turistas e de episódios que refletem prazeres aos quais renunciaria.

Pontuado por meditações sobre o amor erótico e o anseio espiritual, Jeff em Veneza, Morte em Varanasi confirma Geoff Dyer como um dos mais notáveis escritores da Grã-Bretanha. Com diversas referências a clássicos como Morte em Veneza, de Thomas Mann; O fio da navalha, de Somerset Maugham, e Venice Observed, de Mary McCarthy, foi saudado pela crítica como um livro divertido, elegante, sensual, engraçado, bem-construído e absolutamente fascinante.  

Nessas duas aventuras  o autor aborda o desejo em todas as suas manifestações: o desejo de sensações, de fuga e de se tornar outra pessoa, seja por meio do amor ou da arte, seja através do entorpecimento ou da transformação espiritual. O resultado é um livro repleto de alusões aos mitos sobre essas duas velhas cidades debruçadas sobre a água, que se tornaram ícones da arte ocidental e da religiosidade oriental.

Uma narrativa muito bela sobre amor erótico e desejo espiritual, Jeff em Veneza, Morte em Varanasi é divertido, elegante, sensual, cômico, engenhoso e absolutamente cativante. Consagra Geoff Dyer como um dos mais provocantes e originais escritores britânicos.

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Título: Jeff em Veneza, Morte em Varanasi 

Autor: Geoff Dyer 

Tradução:  José Rubens Siqueira

Editora: Intrinseca 

ISBN: 9788598078861 

Número de Páginas: 320   

 





Numas palhinhas deitado, poesia de João Saraiva

24 12 2010

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Natal, década  1960-70

Di Cavalcanti (Brasil 1897 – 1976)

óleo sobre tela

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Numas palhinhas deitado

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                              João Saraiva

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Numas palhinhas deitado,

abrindo os olhos à luz,

loiro, gordinho, rosado,

nasce o Menino Jesus.

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Uma vaquinha bafeja

seu lindo corpo divino,

de mansinho, que a não veja

e não se assuste o Menino.

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Meia-noite. Canta o galo.

Por essa Judéia além

dormem os que hão de matá-lo

quando for homem também.

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E, pensativa, a Mãe Pura

ouve, fitando Jesus,

os rouxinóis na espessura

de um cedro que há de ser cruz!…

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Extraído de “O Natal na Poesia”, artigo de Dom Marcos Barbosa publicado no Jornal do Brasil de 24/12/81

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João Baptista Pinto Saraiva (1866-1948), pseudôniomo: Belonaria, poeta português, nascido na cidade do Porto.

Obras:

Serenatas: primeiros versos, poesia, 1886

Sátiras, poesia, 1905

Líricas e sátiras, poesia, 1916

Máscaras: tríptico em versos, poesia, 1925

O grêmio literário: figuras e episódios de outros tempos, prosa, 1934

Sinfaníadas, poesia, 1938





Os dois leões, fábula de Florian

18 10 2010
Ilustração do livro de Nicholas Barnaud Delphinas, O livro de Lambspring, de 1625.

OS DOIS LEÕES

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Um dia dois leões, sob um sol muito forte, chegaram a um grande lago morrendo de sede.  Este era um lago enorme, com muita água, o bastante para saciar a sede de muitos animais. Mas, apesar de sentirem muita sede, motivo que os levara a procurar por uma fonte de água, quando chegaram à beira do lago, nenhum dos dois quis a companhia do outro.  O orgulho e a vaidade falaram mais alto.  Cada um queria ser o primeiro a beber da água, sem dar chance ao outro.  Eles se olharam com muita maldade.  Encresparam as jubas para a luta, e seus corpos se encurvaram de maneira ameaçadora, prontos.  Cada qual se preparou para um bote mortal.  Altercaram-se com rugidos aterradores, alertando toda a vizinhança.  Engalfinharam-se numa luta sem igual.  Os dois, igualmente fortes e ferozes, atracaram-se rolando pelo chão.  Machucaram-se um ao outro, cada um ferindo o inimigo sem piedade.  Ao final, caíram exaustos lado a lado.  Cada qual com o corpo coberto de feridas e sangrando, com muitas  marcas deixadas pelo rival.  Cada um se arrastou devagarinho  até as margens do lago.  Os dois beberam da água cristalina ao mesmo tempo, e também caíram mortos no mesmo lugar.  Acabaram, lado a lado, juntos na morte tal como não o haviam sido na vida.   

Jean-Pierre Claris de Florian (França,1755 — 1794) foi um poeta, teatrólogo e escritor francês. Entrou para a Académie Française em 1788.  Foi preso durante a Revolução Francesa, mas sua vida foi poupada graças a intervenção de Robespierre.  Hoje é mais conhecido por suas fábulas do que por seus romances e peças teatrais que, no entanto, foram o que lhe fizeram conhecido e apreciado em seu tempo.   Além de suas popularíssimas fábulas, recontadas até hoje, na maioria dos países de cultura ocidental, Florian foi também responsável por alguns bons adágios que passaram a ser moeda corrente de linguagem na França e até no exterior.  Entre eles está o que conhecemos no Brasil:  Ri melhor quem ri por último.





A costureira e o cangaceiro, de Frances de Pontes Peebles

1 10 2010

 

O Cangaceiro, 1988

Aldemir Martins ( Brasil, 1922-2006)

Acrílica sobre tela, 55 x 46 cm

Este ano, pelas minhas contas, li 39 livros de ficção tanto brasileira quanto estrangeira, e acho que acabei de ler o melhor de 2010.  Se não for o melhor ficarei surpresa.  Isso me levará a considerar  o ano extraordinário pela riqueza de bons textos: significa que ainda vou ter surpresas mais espetaculares do que tive com o livro de Frances de Pontes Peebles, intitulado A Costureira e o Cangaceiro [Nova Fronteira: 2009].  Foram 616 páginas que virei com prazer, curiosidade, ansiedade pelo desfecho e ainda fiquei com o gosto de “quero-mais”.

Este é um romance enraizado no estado de Pernambuco, que segue a vida de duas irmãs nascidas no início do século XX numa pequena cidade do interior do estado.  Emília só pensa em sair dali.  Faz de tudo para o conseguir.  Luzia que, ainda criança sofreu um acidente que a deixou com uma deficiência física, se vê sem futuro.  Mas a vida traz surpresas para ambas.  Cada qual persegue e procura um sonho, uma maneira de se realizar.  Seus caminhos são muito diversos, mas mesmo assim há uma forte conexão entre elas, que sem se falarem conseguem se manter “em contato” uma com a outra.  Nesse ínterim, a história do Brasil,  que no início do século parecia uma simples continuação do século XIX, dá uma guinada e Vargas sobe ao poder.  A vida de cada uma é inesperadamente virada pelo avesso com essa mudança feita lá no sudeste do país, por um gaúcho.   Ao longo do caminho, aprendemos muito sobre o Brasil, sobre a política regional de Pernambuco, sobre a oligarquia brasileira.  Ao fechar o volume, compreendemos que além de seguirmos as peripécias dessas duas mulheres fortes e corajosas, seguimos também os caminhos do país e em particular do estado de Pernambuco.  Finalmente compreende-se  a duplicidade das vidas urbana e do sertão em Pernambuco, que como irmãs gêmeas xifópagas, não podem ou conseguem viver separadamente.

Raramente temos um romance brasileiro – um romance histórico – com a precisão de detalhes dados de forma interessante sobre um específico período.  O que Frances de Pontes Peebles faz, é criar duas personagens críveis, na base de “gente como a gente”, e colocá-las interagindo com a sociedade brasileira já estabelecida.  As duas irmãs encontram por si só os caminhos que as levam a viver e sobreviver num mundo que só tem horizontes muito limitados para cada uma delas.  E nessa luta, nessa garra de não sucumbir às demandas sociais, nessa ânsia que ambas demonstram de sair do patamar em que ficariam, caso permanecessem na pequenina Taquaritinga do Norte, aprendemos sobre o Brasil, sobre a sociedade brasileira de uma época em que mal se votava e que nem as mulheres tinham direito ao voto. 

O que faz esse romance tão especial?  São muitas as razões: a voz narrativa, forte, sedutora.  Mas há mais: personagens interessantes e complexos: não nos encontramos com os típicos estereótipos nordestinos quer nos personagens, quer na paisagem; cada detalhe descrito encontra sua razão de ser ao longo da narrativa, até mesmo os que parecem estar lá para dar uma ambientação; na falta de outra documentação, a reconstituição histórica é maravilhosamente baseada nos trajes de época—que marcam a vida da costureira e nos levam através das décadas em questão.  Não há excessos.  Os detalhes fazem a história e seus personagens tridimensionais, o roteiro se mostra bem amarrado, e parece incrível dizer-se isso de um romance de mais de 600 páginas: mas é sucinto.  Como uma boa costureira, Frances de Pontes Peebles não dá ponto sem nó. 

Frances de Pontes Peebles

É necessário ressaltar a excelente tradução de Maria Helena Rouanet, cujo texto em português é riquíssimo em vocabulário e flui com uma destreza de mestre.  Uma das melhores traduções que encontrei recentemente de romances estrangeiros.   Frances de Pontes Peebles nasceu no Brasil,  mas passou grande parte de sua vida nos Estados Unidos.  Filha de mãe brasileira e de pai americano ela se sente mais à vontade no uso da língua inglesa.  E antes deste romance – que é o seu primeiro,  já havia publicado contos nos Estados Unidos.  Hoje ela mora no Brasil e quem quiser pode seguir suas aventuras aqui: http://francesdepontespeebles.com/

Não perca essa leitura.  Você vai adorar!   O meu grupo de leitura aprovou este romance por unanimidade.  É realmente muito bom.