TÊNIS, poema de Guilherme de Almeida, infantil

21 07 2008

 

TÊNIS

 

A titia

borda e espia

o gato branco, enroscado

no feltro verde da mesa

e acordado,

com certeza.

 

Um novelo

cai.  E, ao vê-lo,

o gato bate na bola

e a bola, branca de neve,

pula e rola,

fofa e leve…

 

Silenciosa,

vagarosa,

 uma duas angolinhas…  

a bola solta uma lenta,

longa linha

que se aumenta.

 

Pouco a pouco,

no mais louco

desnorteante corrupio,

a bola desaparece.

Mas o fio

Cresce… cresce…

 

 

Guilherme de Almeida

 

 

 

Guilherme de Andrade e Almeida – (SP 1890 — SP 1969) foi um advogado, jornalista, poeta, ensaísta e tradutor brasileiro.

 

Principais Obras

Poesia

Nós (1917);

A dança das horas (1919);

Messidor (1919);

Livro de horas de Soror Dolorosa (1920);

Era uma vez… (1922);

A flauta que eu perdi (1924);

Meu (1925);

Raça (1925);

Encantamento (1925);

Simplicidade (1929);

Você (1931);

Poemas escolhidos (1931);

Acaso (1938);

Poesia vária (1947);

Toda a poesia (1953).

Ensaios:

Do sentimento nacionalista na poesia brasileira, (1926);

Ritmo, elemento de expressão (1926)

 





O Patinho, poema infantil: Francisca Júlia

18 07 2008

 

O PATINHO

 

 

O pintainho do pato,

galante, amarelo e novo,

mal saiu da casca do ovo,

busca as águas do regato.

 

Todo ele, tão lindo e louro,

enquanto nas águas bóia,

tem a graça de uma jóia

feita em ouro.

 

 

 

Francisca Júlia

 

 

Francisca Júlia da Silva Munster (SP 1871 – SP 1920)  Poetisa brasileira.

 

 

 

Obras:

 

 

1895 – Mármores

1899 – Livro da Infância

1903 – Esfinges

1908 – A Feitiçaria Sob o Ponto de Vista Científico (discurso)

1912 – Alma Infantil (com Júlio César da Silva)

1921 – Esfinges – 2º ed. (ampliada)

 





BASTOS TIGRE, poema infantil: Os Dentes

17 07 2008

 

OS DENTES

 

Devemos os nossos dentes

Zelar com o maior rigor.

Ser, com eles, negligentes,

Causa sempre dissabor.

 

            Deles tudo se remova

            Que os possa prejudicar,

            Limpando-os com água e escova

            Pela manhã e ao deitar.

 

E toda atenção é pouca

No cuidá-los muito bem.

Se entra a vida pela boca,

Entra a moléstia também.

 

            A cárie apenas começa?

            Não se dê parte de fraco:

Vá-se ao dentista depressa

Que sempre a cárie é um “buraco”.

 

Dos dentes mantendo o asseio

Podemos ficar contentes,

Pois quase não há receio

De chorar com dor de dentes.

 

 

 

Bastos Tigre

 

 

Manuel Bastos Tigre (PE 1882 – RJ 1957) — foi um bibliotecário, jornalista, poeta, compositor, humorista e destacado publicitário brasileiro.

 

Obras publicadas:

 

Saguão da Posteridade, 1902.

Versos Perversos, 1905.

O Maxixe, 1906.

Moinhos de Vento, 1913.

O Rapadura, 1915.

Grão de Bico, 1915.

Bolhas de Sabão, 1919.

Arlequim, 1922.

Fonte da Carioca, 1922.

Ver e Amar, 1922.

Penso, logo… eis isto, 1923.

A Ceia dos Coronéis, 1924.

Meu bebê, 1924.

Poemas da Primeira Infância, 1925.

Brinquedos de Natal, 1925.

Chantez Clair, 1926.

Zig-Zag, 1926.

Carnaval: poemas em louvor ao Momo, 1932.

Poesias Humorísticas, 1933.

Entardecer, 1935.

As Parábolas de Cristo, 1937.

Getúlio Vargas, 1937.

Uma Coisa e Outra, 1937.

Li-Vi-Ouvi, 1938.

Senhorita Vitamina, 1942.

Recitália, 1943.

Martins Fontes, 1943.

Aconteceu ou Podia ter Acontecido, 1944.

Cancionário, 1946.

Conceitos e Preceitos, 1946.

Musa Gaiata, 1949.

Sol de Inverno, 1955.

 

 

Do livro:

 

Criança Brasileira: segundo livro de leitura, Theobaldo Miranda Santos, Agir: 1950, Rio de Janeiro.





Correspondência de Fernando Pessoa vai ser leiloada

17 07 2008

 

Num artigo publicado ontem, 15/7/2008, no New York Times, por Michael Kimmelman, soube da gritaria, da confusão lusitana ao redor da venda da correspondência de Fernando Pessoa ao escritor britânico Aleister Crowley.  Esta correspondência do poeta português com o místico escritor britânico foi iniciada em 1930.  Sua venda, negociada pelos herdeiros de Fernando Pessoa, está marcada para o período de alta visibilidade na Europa, o outono, que é a estação de abertura dos eventos culturais do ano e será feita em leilão público.  A confusão é gerada pela reclamação de alguns da saída do país de documentos de tal importância.

 

Mas, é justamente de vendas como esta, que a Biblioteca Nacional de Portugal pode se beneficiar, como já o fez no ano passado quando arrematou, para seu acervo, cadernos de notas de Fernando Pessoa.  Como Kimmelman em seu artigo lembra, a maior parte da obra de Pessoa está em manuscritos, nunca tendo sido publicada — diz-se que chegam aos 30.000, ainda guardados em baús na última moradia do escritor. 

 

A decisão dos herdeiros de venderem pelo maior e melhor preço estes documentos é volátil.  Recentemente o ministro da cultura de Portugal, José Antonio Pinto Ribeiro, lembrou, numa conferência aberta ao público na Casa Fernando Pessoa, que o estado português tem o poder de manter dentro de seu território qualquer objeto (e os manuscritos se enquadram aqui) que achar ser necessário para o patrimônio nacional.  A mensagem, bem entendida por Manuela Nogueira, a sobrinha de Fernando Pessoa, que se encontrava na audiência, era de que ela não se sentisse muito confiante, porque a qualquer momento o governo poderia decidir que tais documentos eram do interesse cultural do país e não só proibir sua venda, como também tombar tais documentos, e nada dar aos herdeiros em troca. 

 

Manuela Nogueira já estava preparada para a luta.  Já havia fotografado tudo que pretendia vender de modo que cópias estarão sempre abertas para estudiosos, não importando o destino final dos originais.  Além do que, um contrato já havia sido assinado por ela e pela casa de leilões.

 

O artigo de Michael Kimmelman continua então com considerações sobre Pessoa e sobre a alma portuguesa, inclusive opiniões sobre a última, com uma breve entrevista sublinhando as opiniões de Inês Pedrosa, a escritora que esteve recentemente aqui em Paraty, na FLIP [Feira Literária Internacional de Paraty] deste ano.  O artigo revela também algumas opiniões de Jerônimo Pizarro diretor da Casa Fernando Pessoa, em Lisboa.  Mas, o assunto pelo qual tenho interesse aqui é diferente daquele enfatizado pelo New York Times, que se mostrou mais interessado em mostrar a forma peculiar, culturalmente falando, de pensar dos portugueses – um artigo até bastante irônico. O que me interessa é ponderar sobre os diversos direitos envolvidos neste caso, para que possamos, no futuro, pensar em como resolver situações semelhantes que certamente ocorrerão na tentativa de preservação de uma cultura brasileira:

 

1° – Tanto no Brasil como em Portugal seria necessário tornar mais claras as regras estabelecidas para dar prioridade ao que deve ou não ser preservado dentro do país.

 

2° – Acredito que os herdeiros têm todo o direito de vender os documentos.  Muitos autores, com herdeiros, fazem projetos de vida contando com esta possibilidade de renda para as gerações futuras, assim como os grandes donos de terras o fazem.

 

3° – Também acredito que o governo tem todo o direito de comprar os documentos.  Se são de tamanha importância como se diz, tenho certeza que qualquer governo acharia os meios de comprá-los no leilão, ou seja ao valor estabelecido pelo mercado.

 

4° – Onde há vontade há um meio.  O governo pode se juntar a diversas ONGs culturais para comprar os documentos e mantê-los na Biblioteca Nacional ou em alguma outra instituição pública de acesso livre aos estudiosos.

 

5° – Nada impede que um grupo de intelectuais e outros interessados, que hoje choram e gritam lamentando a perda física dos documentos, não se cotizem para comprá-los e depois doá-los ao país.  Acho que as pessoas têm que aprender a colocar o dinheiro onde insistem ser um bom investimento, quer seja cultural ou econômico.

 

6° – Não há nada mais injusto do que o governo proibir alguém de vender algum objeto ou documento por o haver declarado Patrimônio Nacional, tombá-lo e não indenizar o atual dono do patrimônio ao preço de mercado.

 

7° – Se nenhuma destas possibilidades aparecerem, por que os documentos não podem sair do país e serem velados por uma outra instituição de responsabilidade social como seria o caso de uma biblioteca especializada em manuscritos de grandes autores?

 

8° – Último, estive vendo, no outro dia que a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro é a 7ª maior biblioteca do mundo.  ALÔ !!!!  Diretores da BN, está na hora de aumentarmos o nosso patrimônio!  Tenho certeza de que Portugal preferiria que nós  brasileiros – da mesma pátria, porque afinal nossa língua é nossa pátria – fossemos os guardiões destes documentos.  Melhor do que qualquer outro país que se interessar possa, não é mesmo?





As Profissões — poema infantil de Nelson Nunes da Costa

16 07 2008

 

AS PROFISSÕES

 

— Sou lavrador — cavo a terra

Para depois semear.

 

— Eu, pescador, passo a vida

Na canoa sobre o mar.

 

                                   — Mitigo as dores da vida

                                   Sou solícita enfermeira.

 

— Eu sou  mecânico perito,

Não sei de melhor carreira.

 

                                   — Operário, desde cedo,

                                   Que começa o meu labor.

 

— Nos incêndios, o bombeiro,

Revela o grande valor.

 

                                   — Eu sou médico excelente,

                                   Tenho curas assombrosas.

 

— Na cozinha, ao fogo ardente,

Faço comidas gostosas.

 

                                   — Comerciante zeloso,

                                   Não me afasto do balcão.

 

— Eu sou modista afamada,

Pois coso com perfeição.

 

                                   — Sacerdote caridoso,

                                   Eu trabalho pela cruz.

 

— Aprendiz de carpinteiro,

Eu sou o que foi Jesus.

 

                                   Toda profissão é nobre

                                   Exercida com carinho,

                                   Só o homem preguiçoso

                                   Acha o trabalho mesquinho.

 

 

Nelson Costa

 

Nelson Nunes da Costa ( RJ 1899 – 1976) Jornalista, professor, Membro da Academia Carioca de Letras.  Estudioso da Historiografia carioca foi diretor do departamento de História e Documentação do Município do Rio de Janeiro.  Cronista, jornalista, professor, contista e escritor.  

 

Algumas obras:

 

Bonecos e bonecas Conto, 1922  

Páginas cariocas Crítica, teoria e história literárias, 1924  

Rio de ontem e de hoje Crítica, teoria e história literárias, 1958  

O Rio através dos séculos: a história da cidade em seu 4° centenário, 1965

 

 

Do livro:

 

Criança brasileira: segundo livro de leitura, Theobaldo Miranda Santos, Agir: 1950, Rio de Janeiro.

 

 

 

 





Vozes dos animais, poema de Pedro Diniz

13 07 2008
Animais da fazenda, ilustração de Steve Morrison

Animais da fazenda, ilustração de Steve Morrison

 

 

VOZES DOS ANIMAIS

 

Muge a vaca; berra o touro;

Grasna a rã; ruge o leão;

O gato mia; uiva o lobo;

Também uiva e ladra o cão.

 

Relincha o nobre cavalo;

Os elefantes dão urros;

A tímida ovelha bala;

Zurrar é próprio dos burros.

 

Sabem as aves ligeiras

O canto seu variar:

Fazem às vezes gorjeios

Às vezes põem-se a chilrar.

 

Bramam os tigres, as onças;

Pia, pia o pintinho;

Cucurica e canta o galo;

Late e gane o cachorrinho.

 

A vitelinha dá berros;

O cordeirinho, balidos;

O macaquinho dá guinchos;

A criancinha vagidos.

 

 

Pedro Diniz

 

 

 

Criança brasileira, Theobaldo Miranda Santos, Agir: 1950, Rio de Janeiro





João Bolinha virou gente: Apresentação – Vicente Guimarães

8 07 2008

 

 

João Bolina não quer estudar  -- Ilustração de Rodolfo

João Bolinha não quer estudar -- Ilustração de Rodolfo

APRESENTAÇÃO

 

Sabem quem eu sou?  João Bolinha,

Boneco desengonçado;

Com quem brincar eu não tinha.

Pois vivia desprezado.

 

Entre a turma tagarela

Era um boneco prudente;

Um dia, que coisa bela!

Com a luz do sol, virei gente.

 

De boneco de bolinha

Passei a ser um menino,

Mudou-se toda, todinha

A rota do meu destino.

 

Terei lucrado ou perdido?

Não posso lhe responder:

Depois de o livro ter lido,

Tudo você vai saber.

 

Que lhe sirva de lição

Esta simples vida minha;

Eis o que, de coração,

Lhe deseja o João Bolinha.

 

 

João Bolinha virou gente, Vicente Guimarães (Vovô Felício), Editora Minerva: s/d,  Rio de Janeiro, página 5.

 

 

 

 

 

 

 

Ilustração:  Rodolfo, Rio de Janeiro

 

Vicente de Paulo Guimarães ( MG 1906-1981) Poeta, contista, biógrafo, jornalista, autor de Literatura Infanto-Juvenil (1979), funcionário público, educador, membro da Academia Brasileira de Literatura (1980), prêmio Monteiro Lobato -ABL (1977).

 

 





Frei Antonio de Santa Maria Jaboatão

7 07 2008

 

Frei franciscano,

Frei franciscano por José Cisneros, Cortesia da Comissão Histórica do condado de Bexar, Texas

Aniversário de morte –  em 7 de julho de 1779, morreu em Salvador,  Frei Antonio de Santa Maria Jaboatão, um dos nossos primeiros historiadores. Brasileiro, nasceu em Santo Amaro do Jaboatão, 1695 – Recife.   Frade franciscano, professou fé,  em 12 de dezembro de 1717, ordenando-se em 1725 no convento de  Santo Antonio do Paraguaçu,  em Salvador na Bahia.  Depois voltou a Pernambuco.    Ocupou vários cargos dentro da ordem franciscana.  Foi um genealogista, historiador, orador, poeta e cronista brasileiro.  Sua principal obra é o Novo Orbe Seráfico Brasílico também chamado de Crônica dos Frades Menores da Província do Brasil (1761).  Deixou outras obras, algumas inéditas.   Entre as publicadas, (sempre em Lisboa) estão:  Discurso histórico, geográfico, genealógico, político e encomiástico, recitado em a nova celebridade, que dedicaram os pardos de Pernambuco ao santo da sua cor o B. Gonçalo Garcia ( 1751);  Sermão de Santo Antonio, em o dia do Corpo de Deus, Lisboa (1751);  Sermão de S. Pedro Martyr, pregado na matriz do Corpo Santo do Recife, Lisboa (1751);  Jaboatão Místico” (coletânea de sermões) (1761); “Catálogo Genealógico das Famílias Brasileiras” (1768).

 

Hoje: Patrono da Cadeira n° 2 da Academia Pernambucana de Letras.

 

 

 

Fonte: Dicionário brasileiro de datas históricas, ed. José Teixeira de Oliveira, ed. Vozes:2002, Petrópolis

 

 

 

Décimas

 

 

 

 

                                                           Por Colbert e Sebastião

                                                           Duas grandes monarquias,

                                                           Em Letras e Regalias

                                                           Famosas no mundo estão:

                                                           Portugal e França, são;

                                                           E sendo lá, como o é,

                                                           Primeiro o douto Colbert,

                                                           Em pontos de bom reger,

                                                           Cá também o deve ser

                                                           Um Sebastião José.

 

 

                                                           Ministros de um Reino tais

                                                           Zelosos e verdadeiros,

                                                           Assim como são primeiros,

                                                           Deviam ser imortais;

                                                           Vindo ser glórias fatais

                                                           Lá o Rei Cristianíssimo,

                                                           Cá o nosso Fidelíssimo

                                                           Por este que o Céu lhe deu,

                                                           Faz que seja por troféu

                                                           Seu governo felicíssimo.

 

 

                                                           Oh que dita singular!

                                                           Para a nossa Academia

                                                           Alto Padrão na Bahia,

                                                           Vejo a Fama levantar!

                                                            Nele se lê sem notar

                                                            Das outras as várias cenas,

                                                           Que a nossa com outras penas,

                                                           Faça eterna a sua glória,

                                                           Viva sempre na memória,

                                                           Pois tem tão grande Mecenas.

 





Suícidio ou assassinato de Cláudio Manoel da Costa?

4 07 2008
Maysa de Castro

Mariana, MG — foto: Maysa de Castro

 

Hoje é aniversário de morte  — 219 anos — de Cláudio Manoel da Costa, (Mariana, MG, 5/6/1729 — Ouro Preto, MG, 4/7/1789),  poeta brasileiro e inconfidente.  Nasceu nos arredores da cidade de Mariana, no Sítio de Vargem do Itacolomi, em Ribeirão do Carmo. Fez os primeiros estudos em Vila Rica; veio depois para o Rio de Janeiro, onde cursou Filosofia no Colégio dos Jesuítas.  Aos 20 anos, foi estudar em Portugal, na Universidade de Coimbra, onde se diplomou em Cânones, em 1753.   Exerceu a advocacia, tornando-se excelente jurista, bastante renomado e abastado fazendeiro, senhor de três fazendas.  Foi juiz medidor de terras da Câmara de Vila Rica.  Exerceu o cargo de procurador da Coroa e desembargador.  Por incumbência da Câmara de Ouro Preto elaborou “carta topográfica de Vila Rica e seu termo” em 1758. Foi secretário do Conde de Bobadela, Gomes Freire de Andrade, ( Alentejo, 1685 — Rio de Janeiro, 1763), militar português e governador de Minas Gerais.  Cláudio Manoel da Costa, também escreveu sob o cognome de Glauceste Satúrnnio, nome árcade, que adotou depois de fundar a Arcádia Ultramarina.  Membro da Conspiração Mineira, que pregava a independência de Minas Gerais do domínio português, acusado pela Devassa, foi preso e interrogado uma só vez pelos juizes de Alçada, no dia 2 de julho de 1789.   Morreu na prisão, na Casa de Contos, em Vila Rica hoje, Ouro Preto.  Se foi assassinado ou se realmente cometeu o suicídio aos 60 anos enforcando-se na cadeia, ainda é um assunto debatido por historiadores até os dias de hoje.   Excelente poeta, Cláudio Manoel da Costa, mantém  a tradição de Luiz Vaz de Camões na poesia, mas serve de conexão entre a poesia Barroca brasileira e o Arcadismo.

 

É o patrono da Cadeira n. 8, na Academia Brasileira de Letras,  por escolha do fundador Alberto de Oliveira.

Morreu solteiro.  Deixou filhos naturais.

TRÊS SONETOS 

 

 

LXXX

 

Quando cheios de gosto, e de alegria

Estes campos diviso florescentes,

Então me vêm as lágrimas ardentes

Com mais ânsia, mais dor, mais agonia.

 

Aquele mesmo objeto, que desvia

Do humano peito as mágoas inclementes,

Esse mesmo em imagens diferentes

Toda a minha tristeza desafia.

 

Se das flores a bela contextura

Esmalta o campo na melhor fragrância,

Para dar uma idéia da ventura;

 

Como, ó Céus, para os ver terei constância,

Se cada flor me lembra a formosura

Da bela causadora de minha ânsia?

 

Cláudio Manuel da Costa

 

 

 

XXXIII

 

Aqui sobre esta pedra, áspera, e dura,

Teu nome hei de estampar, ó Francelisa,

A ver, se o bruto mármore eterniza

A tua, mais que ingrata, formosura.

 

Já cintilam teus olhos: a figura

Avultando já vai; quanto indecisa

Pasmou na efígie a idéia, se divisa

No engraçado relevo da escultura.

 

Teu rosto aqui se mostra; eu não duvido,

Acuses meu delírio, quando trato

De deixar nesta pedra o vulto erguido;

 

É tosca a prata, o ouro é menos grato;

Contemplo o teu rigor: oh que advertido!

Só me dá esta penha o teu retrato!

 

Cláudio Manuel da Costa

VII

 

Onde estou? Este sítio desconheço:

Quem fez tão diferente aquele prado?

Tudo outra natureza tem tomado;

E em contemplá-lo tímido esmoreço.

 

Uma fonte aqui houve; eu não me esqueço

De estar a ela um dia reclinado:

Ali em vale um monte está mudado:

Quanto pode dos anos o progresso!

 

Árvores aqui vi tão florescentes,

Que faziam perpétua a primavera:

Nem troncos vejo agora decadentes.

 

Eu me engano: a região esta não era:

Mas que venho a estranhar, se estão presentes

Meus males, com que tudo degenera!

 

Cláudio Manuel da Costa

 





Passarinhos — um poema de Zalina Rolim

1 07 2008

paisagem

 

A um passarinho que andava

Cantando pelo jardim,

Foi perguntar Elisinha

  Quem é que te cuida assim?

 

Onde achas doce alimento,

Coisas nutritivas, sãs?

— Tenho bichinhos gostosos

Figos, laranjas, romãs.

 

— E quando estás fatigado,

Onde é que vais descansar?

— Qual de nós não tem seu ninho?

Nosso ninho é o nosso lar.

 

— E sede não sentes nunca?

— Tenho rio e ribeirão,

E gotinhas de sereno,

Que as folhas verdes me dão.

 

— E no inverno não te falta

Agasalho contra o frio?

— Tenho penas que me cobrem,

Tenho agasalho macio.

 

— E quando não há bichinhos,

Grãos e frutinhas não há?

— Há uma boa criancinha

Que pão e alpiste me dá.

 

 

Passarinhos, de Zalina Rolim  (Brasil, 1869-1961)

 

 

Zalina Rolim

Maria Zalina Rolim Xavier de Toledo nasceu em Botucatu (SP), em 20 de julho de 1869.
Professora alfabetizadora, transferiu-se com a família para São Paulo em 1893.
Educadora, entre 1896 e 1897, exerceu o cargo de vice-inspetora, do Jardim da Infância anexo à Escola Normal Caetano de Campos, em São Paulo.
Escreveu para diversas revistas femininas e jornais como A Mensageira, O Itapetininga, Correio Paulistano e A Província de São Paulo.
Faleceu em São Paulo, em 24 de junho de 1961.

Obras:

1893 – O coração
1897 – Livro das Crianças
1903 – Livro da saudade (organizado nesta data para publicação póstuma)