O deserto dos tártaros: Dino Buzzati

24 02 2009

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Paisagem com vilarejo à distância,

Pieter Stevens (Antuérpia, 1567-1624)

Nanquim sobre papel e aguada cinza

22 x 32cm

 

 

 

 

Senti-me como Miss Marple, um dos personagens mais conhecidos dos livros de Agatha Christie, uma senhora que resolve crimes pela lógica e pelo conhecimento que tem da natureza humana ao ler O deserto dos Tártaros de Dino Buzatti [São Paulo, Clube do Livro: s/d].  Para Miss Marple um ingrediente necessário na arte de desvendar mistérios é a catalogação mental que faz das pessoas à sua volta: umas sempre lembram outras e seu comportamento consequentemente não deve ser diferente.  Assim, todos os problemas que aparecem na região da aldeia de St. Mary Mead, residência da boa detetive,  podem ser resolvidos pelo trabalho extraordinário de associações entre pessoas que ela executa.

 

Em O deserto dos Tártaros também fiz minhas associações à maneira de Miss Marple.  À medida que lia imagens de quadros e filmes que assisti vieram a preencher a minha imaginação.  A história quase simples e previsível é a de um homem, de um país desconhecido, numa época qualquer, que ao entrar para o exército, tem como  sua primeira missão,  uma permanência indefinida numa estação fronteiriça,  enfiada atrás das montanhas de mais difícil ultrapassagem.  O objetivo final é o Forte Bastiani, obra protetora de uma fronteira esquecida.  Lá o marasmo impera e se entranha por tudo e por todos.  Visivelmente alerta para a estranheza do forte, Drogo, o personagem principal desta aventura, pede para ser colocado em outro local.  Mas depois de uma conversa com um superior aceita ficar por quatro meses.  Estes aos poucos se transformam em quinze anos, graças à acomodação de Drogo, graças às escolhas que faz durante sua estadia e ao estranhamento que sente quando depois de quatro anos no forte volta à cidade natal, onde já não reconhece nada, nem mesmo a si mesmo.

 

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A primeira associação que tive veio pela descrição inicial da viagem de Drogo rumo ao Forte Bastiani.  Não consegui tirar da minha memória as paisagens maneiristas do século XVI.  Principalmente as da Europa do norte, tais como as de Pieter Stevens.  

 

Lá se vão Giovanni Drogo e seu cavalo, diminutos, no flanco das montanhas que se tornam sempre maiores e mais selvagens.  Ele continua subindo para chegar ao forte ainda durante o dia, porém mais rápidas que ele, do fundo, de onde rumoreja o riacho, mais rápidas que ele sobem as sombras.  A um certo ponto elas estão justamente à altura de Drogo, na vertente oposta da garganta; parecem por um instante reduzir sua corrida, como que para não desencorajá-lo, depois deslizam por cima dos penhascos e dos rochedos, e o cavaleiro permanece embaixo.

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Mais adiante, quando Drogo começa a achar razões para permanecer no forte lembrei-me incessantemente de um dos filmes mais extraordinários que já vi, um filme do espanhol Luis Buñuel, Anjo Exterminador, 1962.   O roteiro, a história, o vazio são paralelos perfeitos para o Deserto dos Tártaros:   Após uma extravagante e farta refeição, os convidados se sentem estranhamente incapazes de deixar a sala de jantar e, nos dias que se seguem, pouco a pouco, caem as máscaras de civilização e virtude e o grupo passa a viver como animais. 

 

E enquanto as sombras do outro lado da montanha, depois da fronteira mexiam com a imaginação dos soldados no forte, suas descrições mexiam com as minhas memórias das paisagens desertas de De Chirico, um pintor também italiano e contemporâneo de Dino Buzzati:  Interrompeu-se porque do alto de um paredão cinzento, pendente sobre eles, chegara um som de desmoronamento.  Ouviam-se os baques dos rochedos que explodiam contra os penhascos e ricocheteavam com ímpeto selvagem pelo abismo, entre nuvens de poeira.  Um estrondo de trovão repercutia de parede a parede.  No coração dos despenhadeiros, o misterioso desmoronamento continuou por alguns instantes, mas exauriu-se nos profundos canais antes de chegar embaixo; nos cascalhos, por onde subiam os soldados, só chegaram duas ou três pedrinhas.

 

 

 

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A angústia da partida, 1913-1914

Giorgio De Chirico (Itália, 1888-1978)

Óleo sobre tela

Albright-Knox Art Gallery Búfalo, EUA

 

E assim fui de memória em memória saindo do mundo da literatura para o mundo das artes plásticas, até o final do livro peregrinando pelas imagens desérticas, pelo sentido de desalento e de paralisação, até que cheguei às minhas memórias do conto The Beast in the Jungle, 1903, de Henry James (EUA 1843 – Inglaterra 1916) que no Brasil foi editado como um pequeno livro com o título de  A Fera na Selva: a história de um homem a quem nada absolutamente acontecera, como resultado das decisões que tomara ou que deixara de tomar, sempre à espera de um grande evento. 

 

 

Afinal a que todas essas conexões me levam?  O que elas têm em comum é a exploração do fantástico, da fantasia pessoal, do imaginário individual.  Apesar de alguns críticos ligarem a obra de Dino Buzzati  a escritores como Kafka, Sartre e Camus, principalmente nesta obra O deserto dos Tártaros, originalmente publicado em 1940, na minha opinião esta história, com o desenvolvimento dado, pertence mais ao campo da fantasia do imaginário,  algo mais fluido e menos desesperador, mais na tradição de Edgar Allan Poe e de outros autores transcendentalistas.   Quer coloquemos este livro entre os surrealistas ou os transcendentalistas, não importa.  É simplesmente um livro que deve ser lido, pela narrativa, pela abstração e pelo descobrimento de nós mesmos.

 

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O escritor Dino Buzzati (1906-1972)





Tuareg, romance/aventura de Alberto Vazquez-Figueroa

23 02 2009

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Tuareg, 2007

Mo Skett (Austrália)

Aquarela sobre papel

 

 

 

Minha fascinação com o deserto, com o norte da África, com os bérberes, data de muito tempo.  Foi parcialmente domada pelo ano que morei em Oran, na Argélia.  Foi naquela época que deixei de lado idéias românticas da vida no local, em grande parte feitas robustas pelos escritores e pintores europeus do século XIX, que conseguiram gravar na minha imaginação cenas de maravilhosos banhos públicos, circundados por paredes cobertas de azulejos com desenhos abstratos e colorido especial; ricos ambientes com dezenas de tapetes grossos de lã, cuja arte de fiação local, transformava em sedosos, brilhantes e macias cobertas protetoras para os pés;  adereços de ouro, pulseiras escravas; roupas de odalisca e tudo mais com que a imaginação romântica de uma adolescente poderia se deslumbrar.  Essas idéias foram rapidamente aparadas, reduzidas quando da minha estadia na moderna cidade de Oran nos anos 80.

 

Mas meu interesse por este pedaço do mundo nunca chegou a se apagar.  E, se quando saí da Argélia havia chegado a um ponto saturação com uma cultura radicalmente oposta à minha – a saturação veio na terceira semana do Ramadã, em que os dias são trocados pelas noites –, saí daquele país ciente de que ainda teria que voltar ao norte da África.  Não quis naquela época emendar a minha viagem com a Tunísia ou os Marrocos porque sabia que era preciso fazer jus aos povos que aí habitavam sem trazer comigo preconceitos desenvolvidos ao longo da minha estadia em Oran.  

 

 

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Tipaza, Argélia: teatro romano

 

 

Houve naquele ano na Argélia duas visitas que me marcaram para sempre e que estarão vívidas na minha imaginação até os meus derradeiros dias: a visita às ruínas romanas de Tipaza e a visita ao deserto de Saara, mais particularmente, ao oásis que abriga cinco cidades, inclusive a cidade de Ghardaia, também chamado de Pentápolis.   Esta passagem pelo deserto foi de uma beleza sem igual, um momento em que tudo se cala diante do espetáculo da natureza.  Sempre imaginei voltar.  

 

Com esta dívida à mim mesma foi com grande satisfação que comecei 2009 com a leitura de um livro surpreendente,  Tuareg, do escritor espanhol Alberto Vazquez-Figueroa (LP&M: 1988, reimpressão, 2008).  Este foi o primeiro livro de Vazquez-Figueroa que li.  Não o conhecia.  Fiquei certamente encantada com sua habilidade narrativa, extremamente evocativa.  Sua descrição do deserto, das paisagens inóspitas que fazem parte do dia a dia dos Tuaregs, é absorvente e sedutora.

 

 

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É importante também reconhecer que Vazquez-Figueroa consegue num enredo simples e linear trazer a tona os problemas da colonização de povos anciães, tais como os Tuaregs: Gacel Sayad – personagem principal do romance — é imensamente desonrado quando assassinam uma pessoa que estava protegida, sob seu teto, no deserto.  Não há maior desonra.   Faz-se necessário que ele puna aqueles que cometeram este ato. E assim começa uma aventura no deserto, uma sequência de perseguições, de dissimulações, truques, golpes, tudo parte de uma perseguição da qual ninguém sai vencedor.  

 

Tomando por base o conhecimento dos princípios que regem as ações de Gacel Sayad, é impossível não simpatizar com ele e reconhecer que para aqueles que vivem no deserto nas circunstâncias em que eles vivem o conceito de país, de fronteira, de nacionalidade não só não existe como não faz sentido.   E mesmo que não se aprove os diversos assassinatos que ele conduz, nossa simpatia e lealdade estão com ele até o final, porque sabemos que são ações baseadas num extraordinário senso de justiça, mesmo que esta justiça seja completamente diferente da aceita pelo leitor.  

 

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Tudo isso é particularmente assessorado por uma belíssima prosa, em que as cenas mais corriqueiras conseguem se transformar em imagens poéticas e sonhadoras:

 

A noite se fechara sobre a planície pedregosa, a primeira hiena riu longe e tímidas estrelas piscaram em um céu que, logo, estaria todo tomado por elas, no belíssimo espetáculo que nunca cansava de admirar.  Eram essas estrelas, das noites de paz, talvez, que o ajudavam a persistir, após um longo dia de calor, tédio e desesperança.  “Os tuareg espetam as estrelas com suas lanças para, com elas, iluminar os caminhos…Um belo ditado do deserto, nada mais que uma frase, mas quem a inventou conhecia bem aquelas noites e aquelas estrelas, e sabia também o que significava contemplá-las horas a fio, de tão perto.

 

Descrições detalhadas do deserto, da experiência do deserto, são,  não só essenciais para o comportamento de Gacel Sayad, mas provavelmente parecem verdadeiramente precisas porque o Vazquez-Figueroa, tendo nascido no Tenerife, passou sua infância no Saara, antes de estabelecer residência em Madri.  

 

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O escritor: Alberto Vazquez-Figueroa

Poucos de seus livros estão traduzidos para o português.  Além de Tuareg encontrei O iguana, não obstante, vou fazer um esforço para ler seus outros livros.  O sucesso de Tuareg, que vendeu mais de dois milhões de exemplares na Espanha e na América Espanhola não vem sem motivo.  É um ótimo livro, em que o entretenimento, a aventura, não tiram de foco considerações mais sérias sobre a colonização e o estupro cultural de povos cujas bases culturais são tão antigas quanto a humanidade.  

 





Romances celulares, você leria?

22 02 2009

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Há dois meses, no final de 2008 li uma reportagem de Dana Goodyear na revista The New Yorker que me deixou ao mesmo tempo feliz e preocupada.  O artigo chamado Carta do Japão: eu romances, considera que em 2007 quatro dos cinco romances mais vendidos no Japão haviam sido escritos em telefones celulares.  

 

Dana Goodyear centralizou seu artigo na experiência de Mone uma jovem de 21 anos que em março de 2006, achando-se casada, sem muito o que fazer, começou a escrever um romance, em grande parte baseado nos seus próprios diários de adolescente.  Na casa de sua mãe, à espera do marido completar um curso em Tóquio,  Mone se acomodou em sua antiga cama e começou a escrever seu romance no telefone celular.  Neste mesmo dia ela começou a postar o que escrevia num portal japonês chamado Maho i-Land ( A Ilha Mágica), sem nunca dar uma segunda olhadela no que havia escrito nem pensando num roteiro.  No terceiro dia de postagem Mone começou a ter contato com leitores de sua prosa que já se encontravam intrigados com as aventuras de Saki, personagem que narra o romance em questão.  O Sonho Eterno, nome que dera aos seus escritos, havia conquistado leitores que lhe pediam mais capítulos.

 

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Em meados de abril Mone havia terminado seu primeiro romance, dezenove dias depois de ter iniciado o trabalho.  Nesta altura, seu marido também acabara o curso e ela voltou a Tóquio.   Eis que de repente ela se vê procurado por uma casa editorial que queria publicar seu romance como um livro comum.  Em dezembro de 2006, o livro,  O Sonho Eterno, com aproximadamente 300 páginas foi lançado e distribuído pela Tohan, transformando-se imediatamente num dos dez mais vendidos livros do Japão em 2007.  No final daquele ano, romances escritos em telefones celulares haviam tomado 4 dos 5 primeiros lugares de mais vendidos em ficção.  O romance Linha vermelha de Mei, vendeu 1.800.000 exemplares, e ficou em segundo lugar para o romance Céu de Amor, de autoria de Mike, conseguiu o primeiro lugar em vendas.  

 

Estes escritores hoje em dia chamados de escritores de celulares conseguiram depois deste sucesso serem completamente reconhecidos como parte de um movimento cultural.  Inicialmente houve um grande rebuliço nas letras japonesas.  Muitos temiam que esta literatura, em grande parte direcionada a adolescentes viesse a acabar com a tradicional arte da escrita japonesa.  Mas logo descobriram que este não é o caso. 

 

Para jovens japoneses, e especialmente para meninas, os celulares são sofisticados, baratos e há mais de dez anos facilmente conectáveis com a internet.  Na verdade, 82% dos japoneses entre 10 e 21 anos de idade usam telefone celular.  Há uma geração inteira crescendo acostumada ao uso do celular como um mundo deles portátil, por onde eles compram, usam a internet, jogam videogames, vêem televisão em portais na web explicitamente dedicados aos celulares. 

 

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Este fenômeno daqui a pouco deixará de ser só japonês.  Com os novos IPhone e com serviços de entrega de textos como Twitter, os hábitos americanos estão no momento se desenvolvendo paralelamente aos japoneses.  Há nos EUA dois portais Quillpill e Textnovel, ambos ainda em beta, que oferecem modelos para a escrita e a leitura de ficção em celulares.  

 

A indústria editorial japonesa que havia encolhido por mais de 20% nos últimos 11 anos, abraçou o fenômeno da ficção celular com gosto.  Editoras já começam a contratar escritores para este tipo de ficção, e a distribuir capítulos dessas histórias por uma pequena taxa.  É a volta dos seriados, tal qual muito livros do século XIX foram escritos, com a diferença de terem sido publicados nos jornais.  Em 2007, 98 romances originalmente produzidos em celulares foram publicados em forma de livro.   Mais uma vez a internet mostra também como o a rede de conhecimentos de uma pessoa pode servir de base para o apoio inicial e para o sucesso mais tarde de um membro da sociedade.  Como Yoshida – um executivo em tecnologia – descreve, é um esforço coletivo.  Seus fãs lhe dão apoio e o encorajam a continuar no seu processo criador,  — eles ajudam na criação.   Depois eles compram o livro para re-afirmar aquela conexão, aquela “amizade” que têm com o autor.  

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Sozinhas estas jovens adolescentes escritoras e leitoras de ficção no celular estão mudando os costumes tradicionais.  Agora, para esta geração o sinal da tribo, é gostar de ler.  

 

Com tanto sucesso em ficção,  por que eu fiquei ao mesmo tempo feliz e preocupada?  Feliz, porque acho que qualquer incentivo à leitura é positivo. A leitura expande os conhecimentos, a imaginação.  Ela fertiliza o cérebro, ela nos mantem flexíveis nos modos de pensar, de ver e de calcular.   Preocupada, bem, fiquei mais com a escala da diferença tecnológica brasileira.  Por mais que tenhamos grandes cérebros trabalhando no Brasil em tecnologia, tenho a sensação de que o abismo entre as sociedades mais desenvolvidas tecnologicamente e nós se aprofunda.  Contrariando muitas projeções de desenvolvimento e de capacitação.  Isso é preocupante.   E muito.

 





A chave do relógio, poema de Joaquim José Teixeira

15 02 2009

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A CHAVE DO RELÓGIO

                                                

                                                 Joaquim José Teixeira

 

 

                                            Fábula

 

 

 

A um relógio dava corda

Chavinha de áureo metal.

E mui vaidosa do impulso

Parar não quis afinal.

 

Forçou, pois, e desta força

Dentro a mola arrebentou,

E do tempo o mecanismo

Sem movimento ficou.

 

Resolvam, mandem governos

Nas raias do seu poder,

Vejam bem nesta chavinha

Que não basta o só querer.

 

 

Em: Poetas cariocas em 400 anos, editado por Frederico Trotta, Editora Vecchi:1965, Rio de Janeiro.

 

 

Joaquim José Teixeira (RJ 1811- RJ 1885) poeta, romancista, teatrólogo tradutor, conferencista, diplomado em letras e direito, magistrado.  Foi presidente da Província de Sergipe; do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e um dos fundadores do Instituto dos Advogados – Colaborou em vários jornais e revistas.  Traduziu Goethe, Molière, La Fontaine.  Usou o cognome: Papagaio.

 

 

Obras:

 

A Aposta, teatro   

A Heroína do Pará, romance e novela 

Elogio Dramático, poesia 1840  

Mata escura, romance, 1849

A sobrinha do cônego, romance, 1850

Fábulas, poesia 1864  

Versos, poesia, 1865

A Memória de Rita Manuela Duque-Estrada Teixeira, poesia 1873  

A Rica de Honra, teatro   

As Eleições, teatro   

As noites do cemitério,   tradução   

Camões, teatro   

Conferências literárias. Crítica, teoria e história literárias, 1874  

La fontaine e suas fabulas, ensaio, 1874  

O Barricida, teatro   

O Juiz de Paz, teatro   

O Ministro e seu Secretário, teatro   

O Ministro Traidor, teatro   

O Novo Gil Brás, romance e novela   

Os Compadres, teatro   

Os Dois Descontentes, teatro   

Pastoral, implorando um óbolo dos fieis para a reconstrução do seminário, 1894  

Pensamentos, poesia, 1878

Prometeu, tradução 1879  

Quelques Essais, crítica, teoria e história literárias,  1877  

Razão de recurso, apresentada no Tribunal da Relação da Corte pelo advogado de Domingos Moutinho. 1866  

Romances, romance e novela 1876  

Tartufo,  tradução 1880  

Três Dias de Ministro, teatro

 





A bananeira — poema de Sabino de Campos

13 02 2009

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Bananeiras, sd

J. Inácio (Brasil)

Acrílica sobre tela, 70 x 60 cm

 

A Bananeira

 

Humilde, em meio à flora, a bananeira,

Sozinha, transplantada em terra boa,

Vive ocultando à Natureza inteira

O seu destino de morrer à toa.

 

E parece feliz, bebendo as águas

Do céu, para o consolo das raízes,

Como se viessem transformar-lhe as mágoas

Nos encantos das árvores felizes.

 

O sol enche-lhe as palmas de pepitas

De ouro, na exaltação do amor violento,

E ela paneja suas largas fitas,

As folhas verdes balançando ao vento…

 

Outras vezes, a chuva, como um véu

Desatado de nuvem passageira,

Cai das vitrinas rútilas do céu

Para vestir de noiva a bananeira.

 

Noiva, mas noiva-mãe, toda pureza,

Pois sem amor, sem mácula e empecilhos,

Faz rebentar à luz da Natureza,

Na terra, em torno, a vida de seus filhos.

 

Pende-lhe, em breve, o cacho, de ouro ou prata,

Dos frutos bons…  Depois, a golpes brutos,

A bananeira cai em terra ingrata,

Pela desdita de ter dado frutos.

 

 

João Pessoa, Paraíba, 10-7- 1940

 

 

Em: Natureza: versos, Pongetti: 1960, Rio de Janeiro

 

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Sabino de Campos, Retrato a bico de pena, por Seth, 1947.

 

Sabino de Campos (Amargosa, BA, 1893– ? ),  poeta, romancista e contista.

 

Obras:

 

Jardim do silêncio, 1919, (poesia)

Sinfonia bárbara, 1932,  (poesia)

Catimbó: um romance nordestino, 1945 (romance e novela)

Os amigos de Jesus, 1955 (romance e novela)

Lucas, o demônio negro, 1956 – romance biográfico de Lucas da Feira (romance e novela)

Natureza, 1960 (poesia)

Cantigas que o vento leva, 1964, (poesia)

Contos da terra verde, 1966 (contos)

Fui à fonte beber água, 1968 (poesia)

A voz dos tempos, memórias, 1971

Cantanto pelos caminhos, 1975

Autor,  junto de Manoel Tranqüilo Bastos, do hino da cidade de Cachoeira, BA





Resenha: 24 horas na vida de uma mulher — Stefan Zweig

1 02 2009

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Roulette em Monte Carlo, c. 1900

SEM  [Georges Goursat]  (França 1863-1934)

 

 

Foi com ansiedade e saudosismo, que li ontem, de uma só sentada, 24 horas na vida de uma mulher – um dos trabalhos mais conhecidos de Stefan Zweig.  Sempre me senti bastante familiarizada com o autor, não porque houvesse lido qualquer de seus trabalhos, mas porque seus livros faziam parte de uma pequena coleção de capa dura e letras pretas, talvez meia dúzia de volumes, que habitaram por muitas décadas as estantes da casa de meus pais.  Lembro-me principalmente da vida de Maria Antonieta cujo volume recordo nas mãos de minha mãe, em leitura e re-leituras.  E é claro, crescendo aqui no Brasil, quem não se lembraria pelo menos do título do volume Brasil país do futuro, expressão fartamente popularizada na política e peça de despedida do autor austríaco, que refugiado em Petrópolis, suicida-se em 1942 junto com sua segunda esposa.  Meus pais eram leitores de Zweig, que admiravam.  Mas, por razões desconhecidas, eu nunca o havia lido.

 

Em 2006, a  New York Times Review of Books publicou um artigo, de Joan Acocella, acompanhando a re-edição de Zweig nos EUA, que lembrava aos leitores de hoje sobre a injustiça do esquecimento de Stefan Zweig, um escritor excepcional do início do século XX, cujos contos e romances ficaram conhecidos pelos retratos psicológicos dos personagens.   Joan Acocella lembrou também da linguagem precisa do autor, de sua sutileza e gentil narrativa.  

 

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A tradução de Lya Luft, nesta edição da LP&M é maravilhosa.  Não há nunca a sensação de que a obra foi traduzida.  Há uma cadência, uma expressão lingüística que coloca de fato Zweig no meio dos escritores da Europa germânica, eslávica.  Sua maneira de escrever, suas preocupações lembraram-me em muito os romances de Sándor Màrai.    O estilo e as preocupações dos cidadãos do antigo  império austro-húngaro são palpáveis nos trabalhos de ambos escritores.

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Acho, no entanto, que pelo menos neste livro 24-horas na vida de uma mulher, dito um dos livros favoritos de Sigmund Freud, o retrato psicológico do jogador obsessivo, talvez mesmo, pela popularidade dos estudos psicológicos através do século XX, perde um pouco do viço, da novidade.  A história é previsível.  Ligeiramente datada.  Mas o estilo, a maneira de escrever — ah! — estes aspectos estilísticos são fenomenais.  Chega a ser difícil separar um único trecho, um parágrafo para ilustrar a beleza, a claridade do texto.

 

“…Nunca no teatro fitei com tamanha atenção o rosto de um ator como olhei aquele semblante, onde, como luz e sombra sobre uma paisagem, ocorria uma incessante alternância de todas as cores e sentimentos.  Nunca segui um jogo com tamanha intensidade como no reflexo daquela estranha excitação.  Se alguém me observasse nesse instante teria considerado meu olhar fixo como uma hipnose, meu estado se parecia com isso – eu simplesmente não conseguia afastar os olhos daquela expressão facial, e tudo o  mais que havia no salão, luzes, rostos, pessoas e olhares, apenas me envolvia sem forma como uma fumaça amarela no meio da qual estava aquele rosto, chama entre chamas.  Eu não ouvia nada, nada sentia, não percebia gente ao meu lado, outras mãos que se estendiam de repente como antenas…”

 

A maneira precisa e envolvente com que Stefan Zweig caracteriza seus personagens, nos faz presa fácil, incapazes que somos, de nos separar de seu estilo mesmerizante.  Certamente encontramos no escritor um grande mestre da escrita.  E se este pequeno romance é um bom exemplo do resto de sua obra, Zweig é com certeza um escritor que não merece cair no esquecimento.





Imagem de leitura — Paul-Émile Félix Raissiguier

15 01 2009

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O livro secreto, 1924

Paul-Émile Félix Raissiguier

França, (1851-1932)

Gravura

 

 

Paul-Émile Félix Raissiguier nasceu em Oran, na Argélia, quando a Argélia ainda contribuía para o território francês com três estados, também chamados de a dispensa de França.  Pintor versátil de paisagens, pertencendo à última geração do século XIX / XX de pintores orientalistas.  Também se dedicou a outros meios de expressão inclusive a gravura Art Déco como a que ilustramos acima.  





Ora direis ouvir pipocas — poesia de Francisco Azevedo

14 01 2009

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Ilustração: Maurício de Sousa.

 

ORA  DIREIS  OUVIR  PIPOCAS

 

                                                 Francisco Azevedo

 

 

 

Ouço os grãos que rebentam

feito gente

sementes germinadas

no alumínio

fundo escuro

da panela.

 

Flores brancas

súbitas

de perfume quente

pelo fio sinuoso

da fumaça.

 

Flores doces

salgadas

servidas na hora

(não em buquês

mas em punhados).

 

Flores atômicas

nascidas do fogo

numa explosão

sem haste.

 

                                       (New York, 1982)

 

 

Em: A casa dos arcos, Francisco Azevedo, Paz e Terra: 1984, Rio de Janeiro

 

 

 

Francisco Azevedo, (Rio de Janeiro, RJ , 23/2/1951) —  formado em direito, diplomata, escritor, roteirista, cinematógrafo e poeta.  

 

Obras:

 

Contra os moinhos de vento, (poesia e prosa) 1979

A casa dos arcos, (poesia) 1984

O arroz de palma, (romance) 2008

Unha e carne (teatro)

A casa de Anaïs Nin (teatro)





Os 6 melhores livros publicados na Espanha

12 01 2009

 

alfredo-roldan-madrid-espanha-1965-la-lectura-2005A leitura, 2005

Alfredo Roldán (Espanha, 1965)

 

O portal espanhol Lomás compilou a lista dos melhores 6 livros publicados na Espanha em 2008.

Em primeiro lugar:

La Hermandad de la Buena Suerte do espanhol Fernando Savater

Fernando Fernández-Savater Martín (São Sebastião, 21 de Junho de 1947) é um escritor e filósofo espanhol, catedrático de Ética na Universidade do País Basco.  Muitos de seus livros de filosofia estão traduzidos para o portugês e publicados no Brasil.

 

2        Fiebre Negra do escritor argentino Miguel Rosenzvit

3        La maravillosa vida breve de Óscar Wao do dominicano Junot Diaz

4       Syngué Sabour  de Atiq Rahimi, escritor afegão

5       — La Soledad de los Números primos, do italiano Paolo Giordano, já traduzido e publicado no Brasil como, A Solidão dos Números Primos: Bertrand

6        — Muerte entre poetas da espanhola Angela Vallvey





Os melhores livros de 2008 na França

12 01 2009

 

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Marcel Dyf  (França, 1899 – 1985)

Óleo sobre tela 53 x 65cm

 

 

 

 

 

É melhor ficar de olho!  2009 é o ano da França no Brasil. O primeiro ministro francês estará visitando o Brasil ainda uma vez, para comemorar.  É possível que as nossas editoras se empolguem e publiquem alguns dos livros que vêm movimentando a cena literária na França.  Poderemos, portanto, ficar na expectativa de alguns dos títulos listados abaixo;  pelo menos os que foram escritos originalmente em francês

 

 

Os melhores livros de 2008 na França de acordo com a revista LIRE.

 

1 – O Melhor do ano

 

France: ce que le jour doit à la nuit  de Yasmina Khadra  — ao que eu saiba, este título ainda não está traduzido para o português do Brasil, mas imagino que seja publicado pela Sa Editora que publicou por aqui outros títulos do mesmo autor: O atentado, As andorinhas de Cabul e As sirenas de Bagdá.   Yasmina Khadra é o pseudônimo do escritor argelino, Mohammed Moulessehoul um official do exército da Argélia que adotou um nome de mulher para escapar da censura militar.  Apesar de ter tido sucesso com diversos livros na Argélia, Moulessehoul só veio a revelar sua identidade em 2001, quando deixou o exército e partiu para exílio e reclusão na França. an officer in the Algerian army, adopted a woman’s pseudonym to avoid military censorship. Despite the publication of many successful novels in Algeria, Moulessehoul only revealed his true identity in 2001 after leaving the army and going into exile and seclusion in France.

 

 

2 –  La Route de Cormac McCarthy  — original em inglês; este já se encontra publicado no Brasil,  pela Alfaguara Brasil: A estrada.

 

3 —  Le déferlantes de Claudie Gallay  — original em francês, ainda não traduzido.

 

4 —  La montagne volante de Christoph Ransmayr – original em alemão; ainda não traduzido.

 

5    Les anées de Annie Ernaux – original em francês, nenhum dos livros dela traduzidos para o português.

 

6    Zone de Mathias Enard – original em francês, nenhum dos livros dele traduzidos para o português

 

7 —  La vie em sourdine de David Lodge, original em inglês;  muitos de seus livros já foram traduzidos, mas não este.

 

8 —  Beautiful people. Saint Laurent Leggerfeld.  Splendeurs et misères de la mode   de Alicia Drake – original em inglês, sem tradução

 

9 —  Le soldat et le gramophone de Sasa Stanisic, original em servo-croata, ainda não traduzido no Brasil.  Já publicado em Portugal, Como o soldado conserta o gramofone: Círculo de leitores.

 

10 – La meilleur part des hommes de  Tristan Garcia – original em francês, sem tradução.