Arte e medicina, vira e volta elas se encontram!

6 01 2010

 

IIlustração,  Walt Disney.  Pateta vai à galeria de arte.

Desde os meus primeiros anos de estudo em história da arte, que sei que de vez em quando um eventual médico resolve explicar o que está representado nas telas por doenças ou problemas de saúde dos pintores.  Eu me lembro de um famoso médico dizendo que os impressionistas continuaram um estilo que só poderia ter sido iniciado por alguém que precisasse  de óculos, porque só olhos  míopes viam, assim,  tudo um pouco embaçado;  lembro-me de um outro querendo explicar as imagens alongadas de El Greco como demonstração de que o pintor sofria de astigmatismo.    Mas há muito tempo que não vejo o contrário, um médico que preconiza as doenças sofridas pelos modelos de algumas pinturas famosas.  E é exatamente isso que o Dr. Tito Franco [que ironia, uma combinação de dois dos maiores ditadores do século XX!], um médico italiano, resolveu fazer, de acordo com a notícia da agência EFE,  que copio e colo aqui, a seguir.  Estas descobertas não me convencem,  jogo-as para escanteio, como uma curiosidade, mas acredito que haja muita gente interessada no assunto.  Aqui está:

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 Médico detecta doenças em retratados em obras de arte

 

Um médico italiano diz ter descoberto sinais de diferentes doenças nos personagens retratados em famosas obras de arte como a “Mona Lisa“, de Leonardo da Vinci, ou “As Meninas“, de Velázquez.   Em declarações ao jornal britânico The Times, Tito Franco, professor de Anatomia Patológica da Universidade de Palermo, disse que esses sinais de doença vão desde más-formações ósseas até cálculos renais.    “Olho a arte com um olhar diferente do de um especialista em arte, como um matemático escuta a música de modo diferente de um crítico musical”, explica Franco, que analisou uma centena de obras, desde esculturas egípcias a produções contemporâneas.

Mona Lisa ou A Gioconda,  1503-1506

Leonardo da Vinci (1452-1519)

óleo sobre madeira  77 x 53 cm

Museu do Louvre, Paris.

 

A “Mona Lisa“, de Leonardo da Vinci, apresenta em torno de seu olho esquerdo, segundo Franco, sintomas de xantelasma, um conjunto de pequenos tumores benignos ou depósito de gordura situados ao redor das pálpebras e que podem indicar níveis elevados de colesterol.  Nas mãos da Gioconda parece haver, acrescenta o médico, lipomas subcutâneos, ou seja, tumores benignos compostos por tecido adiposo.

 As meninas, ou A Família de Filipe IV,  1656

Diego Velazquez ( 1599-1657)

óleo sobre tela,  318 cm x 276cm

Museu do Prado, Madri

Em “As Meninas“, Franco diz ter descoberto que o personagem principal, a infanta Margarita, parece vítima da chamada síndrome de Albright, doença genética que “inclui puberdade precoce, baixa estatura, doenças ósseas e problemas hormonais“.

 

Escola de Atenas, 1511

Rafael Sanzio ( 1483-1520)

Pintura mural, afresco,  500 x 700 cm

Palácio Apostólico,  Vaticano

Em “A Escola de Atenas“, de Rafael, há uma pessoa identificada como o filósofo Heráclito sentada em escadas com os joelhos muito inchados, o que, segundo Franco, “claramente é consequência de um excesso de ácido úrico típico de quem sofre com cálculos renais.

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Madona do Parto, 1467

Piero della Francesca, ( 1416-1492)

Afresco,  206 x 203 cm

Igreja de Santa Maria a Nomentana, Monterchi

 

E a famosa Madonna do Parto, de Piero della Francesca, mostra sintomas de bócio, inchaço da glândula tireóide “típico de pessoas que bebiam água de poço” durante a Idade Média e que sofriam carência de iodo, diz Franco.

É pode ser…

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 NOTA DA PEREGRINA:  Na figura de Heráclito, mencionada acima, no afresco de Rafael, A Escola de Atenas, é de conhecimento comum, que a cabeça é feita pelo retrato (rosto) de Michelangelo. 

 

Fonte: Terra





Imagem de leitura — Teodoro Nuñez Ureta

5 01 2010

A leitura, 1930

Teodoro Nuñez Ureta ( Peru, 1912 – 1988)

Teodoro Nuñez Ureta, nasceu em Arequipa, Peru em 1912.  Autodidata.  No entanto, graças a seu pai que trabalhava numa livraria na cidade, Nuñez Ureta foi exposto à obras dos grandes pintores internacionais, através dos livros de arte que seu pai trazia para casa.   Quando terminou a escola secundária, ainda não foi se dedicar à pintura exclusivamente.  Ao invés, foi para a Universidade Nacional de San Agustin, onde se formou como Doutor de Filosofia e Letras com uma tese sobre o grotesco e o cômico na arte.  Daí por diante passou a ensinar na universidade na cadeira de História da Arte e Estética  (1936-1950).  Foi um homem brilhante, excedendo-se tanto nas artes plásticas, principalmente com a pintura mural, como na´escrita e na pesquisa em história da arte.  Em 1943 ganha um concurso nacional na imprensa e mais tarde, no mesmo ano, segue para os EUA patrocinado pela Fundação Guggenheim.  O resultado deste período de pesquisas foi imdeidato, em 1945 publica o livro:  A Academia e a Arte Moderna.  Muda-se para Lima e em 1959 é premiado pelo mural que pintou para o Ministério de Economia Finanças e Comércio em 1954.  Foi diretor da Escola Nacional de Belas Artes em Lima (1973-1976).  Faleceu em Lima, em 1988.





Imagem de leitura — Félix Vallotton

3 01 2010

A leitura abandonada, 1924

Félix Vallotton  (Suiça, 1864-1925)

óleo sobre tela

Paris, Musée de Beaux-Arts

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Félix Vallotton nasceu em Lausanne, na Suíça em 28/12/1865, numa família de classe média alta.  Aos dezessete anos foi para Paris onde estudou na Academia Julian.  Começou sua carreira artística pintando retratos, fazendo-se conhecer mais tarde por cenas de interior (pintura de gênero).  Foi por aqui que desenvolveu sua maneira própria de pintar, seu estilo caraterístico:  trabalhando com pequenas e precisas pinceladas, prestando atenção aos detalhes.  Começou a se interessar pela gravura em metal em 1897, mas se apaixonou pela xilogravura e produziu um  grande número de xilogravuras e ficando bastante famoso com elas.  Também desenhou muitos pôsteres.  Em 1897, ele se desvencilhou dos laços que havia mantido com a Societé de Artistes Français e entrou no Salon des Indépendents, onde foi inicialmente muito atacado pelos críticos mais conservadores.   Juntou-se ao movimento dos Nabis e participou de suas exposições.  Em 1900 ganhou a cidadania francesa.  Expos freqüentemente na companhia de Bonnard, Vuillard e Rouseel.   Morreu em Paris, em 19/12/1925.





Imagem de leitura — Frans Hals

29 12 2009

Menino lendo

Frans Hals ( Antuérpia, 1583- Holanda, 1666)

óleo sobre tela  76 x 63  cm

Coleção  Dr. Oscar Reinhardt (Winterthur)

Frans Hals nasceu em Flandres, numa família de artesãos têxteis.  A família logo emigrou para a Holanda, depois da Queda de Antuérpia ( 1584-1585) para o domínio espanhol.  Estudou com  Karel van Mander em Haarlem entre 1600 e 1603.  Já em 1610, tornou-se mestre nas guildas de São Lucas e em 1644 foi eleito diácono. Só se conhece 300 e poucos de seus quadros, todos pintados depois que Frans Hals completou 30 anos de idade.  Mas é sem sombra de dúvida o maior pintor holandês de retratos, até hoje.





Subúrbio, texto de Lima Barreto do livro CLARA DOS ANJOS

29 12 2009

A lavadeira, 1920

Anita Malfatti ( Brasil 1889-1964)

óleo sobre tela, 37 x 50 cm

Coleção Particular

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Clara dos Anjos de Lima Barreto, escrito em 1922, no ano de morte do autor e só publicado postumamente em 1948, era uma leitura que me faltava.  Graças a amigos astutos, rápidos no empréstimo de obras sensacionais, passei, o período das festas, atracada com diversos livros que valeram a pena ler. Entre eles, esta primorosa obra de um pouco mais que cento e poucas páginas.  Há na narrativa muitas e muitas passagens que retratam bem o carioca e o Rio de Janeiro.  Lima Barreto é mordaz na avaliação do comportamento humano e incomparável nas descrições tanto de personalidades como da paisagem física e emocional da antiga capital do Brasil.  Há uma descrição, no capítulo VII , dos subúrbios cariocas que vale a leitura mesmo que fora do contexto da obra.  Hoje, 90 anos depois da publicação de Clara dos Anjos, os subúrbios cariocas já não lembram tanto a descrição que se segue.  Mas ainda encontramos esta mesma realidade mais adiante, nas comunidades carentes que seguem a beira da Via Dutra, ou até mesmo nos pontos mais altos dos morros cariocas.  O texto parcial se encontra abaixo.  As fotos que a acompanham foram retiradas do Flicker do contribuinte Antolog.

CAPÍTULO VII

 

O subúrbio propriamente dito é uma longa faixa de terra que se alonga, desde o Rocha ou São Francisco Xavier, até Sapopemba, tendo para eixo a linha férrea da Central. 

Para os lados, não se aprofunda muito, sobretudo quando encontra colinas e montanhas que tenham a sua expansão; mas, assim mesmo, o subúrbio continua invadindo, com as suas azinhagas e trilhos, charnecas e morrotes.  Passamos por um lugar que supomos deserto, e olhamos, por acaso, o fundo de uma grota, donde brotam ainda árvores de capoeira, lá damos com um casebre tosco, que, para ser alcançado, torna-se preciso descer uma ladeirota quase a prumo; andamos mais e levantamos o olhar para um canto do horizonte e lá vemos, em cima de uma elevação, um ou mais barracões, para os quais não topamos logo da primeira vista com a ladeira de acesso. 

Há casas, casinhas,  casebres, barracões, choças, por toda a parte onde se possa fincar quatro estacas de pau e uni-las por paredes duvidosas. Todo o material para estas construções serve: são latas de fósforos distendidas, telhas velhas, folhas de zinco, e, para as nervuras das paredes de taipa, o bambu, que não é barato.

 

Estação de Trem de Marechal Hermes, RJ.  Foto: Antolog/Flicker

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Há verdadeiros aldeamentos dessas barracas, nas coroas dos morros, que as árvores e os bambuais escondem aos olhos dos transeuntes.  Nelas, há sempre uma bica para todos os habitantes e nenhuma espécie de esgoto.  Toda essa população pobríssima, vive sob a ameaça constante da varíola e, quando ela dá para aquelas bandas, é um verdadeiro flagelo.

Afastando-nos do eixo da zona suburbana, logo o aspecto das ruas muda.  Não há mais gradis de ferros, nem casas com tendências aristocráticas: há o barracão, a choça e uma ou outra casa que tal.  Tudo isto muito espaçado e separado; entretanto, encontram-se por vezes, “correres” de pequenas casas, de duas janelas e porta ao centro, formando o que chamamos “avenida”.

As ruas distantes da linha da Central vivem cheias de tabuleiros de grama e de capim, que são aproveitados pelas famílias para coradouro.  De manhã até a noite, ficam povoadas de toda espécie de pequenos animais domésticos: galinhas, patos, marrecos, cabritos, carneiros e porcos, sem esquecer os cães, que, com todos aqueles, fraternizam.

Quando chega a tardinha, de cada portão se ouve o “toque de reunir”: “Mimoso”!  É um bode que a dona chama.  “Sereia”!  É uma leitoa que uma criança faz entrar em casa; e assim por diante.

Carneiros, cabritos, marrecos, galinhas, perus – tudo entra pela porta principal, atravessa a casa toda e vai se recolher ao quintalejo aos fundos.

Se acontece faltar um dos seus “bichos”, a dona da casa faz um barulho de todos os diabos, descompõe os filhos e filhas, atribui o furto à vizinha tal.  Esta vem a saber, e eis um bate-boca formado, que às vezes desanda em pugilato entre os maridos.

 

 Estação de Madureira, Rio de Janeiro.  Foto: Flicker/Antolog

A gente pobre é difícil de se suportar mutuamente; por qualquer ninharia, encontrando ponto de honra, brigando, especialmente as mulheres.

O estado de irritabilidade, provindo das constantes dificuldades por que passam, a incapacidade de encontrar fora de seu habitual campo de visão motivo para explicar o seu mal-estar, fazem-nas descarregar as suas queixas, em forma de desaforos velados, nas vizinhas com que antipatizam por lhes parecer mais felizes.  Todas elas se têm na mais alta conta, provindas da mais alta prosápia; mas são pobríssimas e necessitadas.  Uma diferença acidental de cor é causa para que possa se julgar superior à vizinha; o fato do marido desta ganhar mais do que o daquela é outro.  Um “belchior” de mesquinharias açula-lhes a vaidade e alimenta-lhes o despeito.

Em geral essas brigas duram pouco.  Lá vem uma moléstia num dos pequenos desta, e logo aquela a socorre com os seus vidros de homeopatia.

Por esse intrincado labirinto de ruas e bibocas é que vive uma grande parte da população da cidade, a cuja existência o governo fecha os olhos, embora lhes cobre atrozes impostos, empregados em obras inúteis e suntuárias noutros pontos do Rio de Janeiro.

 ***

 

 

 

Afonso Henriques de Lima Barreto (Rio de Janeiro, 13 de maio de 1881 – Rio de Janeiro, 1 de Novembro de 1922), jornalista e escritor.

Obras:

1905 – O Subterrâneo do Morro do Castelo

1909 – Recordações do Escrivão Isaías Caminha

1911 – O Homem que Sabia Javanês e outros contos

1915 – Triste Fim de Policarpo Quaresma

1919 – Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá

1920 – Cemitério dos Vivos

1920 – Histórias e Sonhos

1923 – Os Bruzundangas

1948 – Clara dos Anjos (póstumo)

1952 – Outras Histórias e Contos Argelinos

1953 – Coisas do Reino de Jambom





Imagem de leitura — Ada Shirley Fox

21 12 2009

A lição no jardim, 1900

Ada Shirley Fox [née Holland] , Inglaterra

óleo sobre tela





Firmo, o vaqueiro, conto de Natal de Coelho Neto, texto integral

21 12 2009

A vida no campo, vaquejada, 1960

Ernest Zeuner ( Alemanha, 1898 — Brasil, 1967)

Têmpera sobre papel,  25,5 cm  x 36,5 cm

Museu Ado Malagoli, Porto Alegre, RS

Firmo, o vaqueiro

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Coelho Neto

Sentados na soleira da palhoça, em face do verde campo, à hora vesperal em que os rebanhos recolhem, o velho Firmo e eu fumávamos, relembrando passagens alegres da vida de outrora.

Firmo era meu companheiro quando eu ia passar as férias na roça.  O que ele sabia de histórias, e como as contava fazendo a voz enternecida e meiga para imitar as princesas que imploravam ou arremetendo com vozeirão terrível para que eu tivesse a impressão exata do bradar horrível dos gigantes antropófagos.  E não só história dos livros, outras sabia que eu jamais em letras vira: a que descrevia a vara branca seduzindo o remador do Itapicuru e o conto do sucupira, com que no bom tempo faziam cessar a minha impertinência.  Algumas eram inventadas por ele, diziam;  outras o velho Firmo, vaqueano e andejo, aprendera por esses sertões de Deus por onde caminhara.

Andava pelos oitenta anos, mas quem o visse a cavalo, no campo, não lhe daria tanta idade.  O diabo era o reumatismo que não lhe deixava as pernas.  No seu tempo ninguém levava o melhor ao Firmo do Curral Novo.  Raparigas, que uma vez o viam montado no garboso fábrica, o laço em volta da cinta, a aguilhada firme sobre a coxa coberta de couro cru, perdiam-se de amor por ele.

Era um caboclo atirado, musculoso e rijo: grandes olhos negros brilhavam no seu rosto queimado pelos verões e os cachos do seu cabelo rolavam-lhe pelos ombros largos.

Velho, embora, “ninguém lhe chegava ao pé sem muito jeito”, como ele próprio dizia sorrindo som os seus dentes limados, agudos como pontas de frechas.  Apesar de alquebrado e enfermo andava com arrogância e notava-se-lhe na voz, áspera e forte, o hábito de comando.

Em tempos de festa, quando vinham para a mesma eira moças do lugar e moças de mais longe, Firmo saltava na roda, sapateando, rasgando na viola a tirana dos campeiros, e quem ousava pegar no verso do caboclo?!  As tabaroas morenas sorriam com os olhos fascinados e unidas desfaziam-se das flores para que o cantador as fosse pisando no sapateado… por isso o Firmo andava sempre de ponta com os companheiros e, mais uma vez, o descante acabou varrido à faca; mas quem ficasse do lado do caboclo podia estar descansado – nunca fugiu de arreliam fosse com um, fosse com dez ou mais.

Mãezinha, a velha mucama de casa, quando o via passar no caminho, curvado pitando o seu cachimbo de taquara, dizia maliciosa:

—  Isso, ahn!  isso, foi o diabo!

Firmo “vivia encostado no tempo de dantes”, a saudade era o seu conforto.  “Hoje em dia qu’é que a gente vê? má língua e moleza só”, dizia e citava os valentes de antanho e mostrava as velhas gabando-lhes a beleza que a idade fanara: “Serapião, homem que nem o diabo!… Ana Rosa, essa curumba… foi mulata de dengue, era um motim aqui em cima por causa dela.  Filomena, com essa cara de peixe moqueado, teve o seu luxo e foi gente…  Eu também pisei duro, ora!”

Firmo vivia das recordações.  Passava os dias caminhando de um para o outro lado, visitando as palhoças, ou à beira do rio para ver e ouvir as lavadeiras, quando não se metia a fazer bodoques para as crianças.

À tarde sentava-se em um pilão quebrado, à porta da casa, e deixava-se estar inerte, os olhos ao longe: “Estava vivendo…” dizia quando eu lhe perguntava que fazia ali sozinho.  Estávamos, às vezes, sentados juntos, ele a contar-me histórias, quando nos chegava, nítido e agudo, o grito do campeiro.  Firmo calava-se, um estremecimento agitava-o, os olhos dilatados recobravam o brilho antigo e punha-se de pé, devassando a paisagem triste, à luz crepuscular.

De repente aprecia a nuvem de poeira anunciando o gado que chegava…  uma mancha vermelha, uma mancha negra, outra e logo o magote, os bois juntos, emaranhando os chifres: um mugia, outros imitavam-no levantando os focinhos ou ferravam-se às marradas, sendo, às vezes, necessária a intervenção do vaqueiro que apartava os dois à ponta de vara.  E a marcha aproximava-se morosa.

Firmo ficava enlevado acompanhando os movimentos da manada, inclinando-se para um lado, para o outro, aspirando sôfrego.  De repente batia as palmas e juntava, logo em seguida, as mãos na boca à guisa de porta-voz, bradando:

—  Eh! eh! eh! cou!  ruma!  ruma!  Eh! cou…

E ficava longo tempo excitado, a olhar.  Não perdia uma só das peripécias e, se um touro espirrava, correndo aos galões pela campina, o velho entrava a bramar do outeiro, tão alto, tão alto, que as raparigas, que andavam na eira recolhendo a roupa ou socando o arroz, paravam assustadas erguendo os olhos para o lado da palhoça do vaqueiro velho.  Mas ninguém o acomodava antes de ser laçado o boi fujão e quando o vaqueiro aparecia, arrastando o animal laçado,  Firmo suspirava baixinho:

—  Ah!  Nossa Senhora!  meu tempo!

*  *  *

Camponês com cavalo, 1948

José Marques Campão (Brasil, 1892-1949)

óleo sobre tela, 54 x 65 cm

Coleção Particular

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Foi pelo Natal que o vi pela última vez.  Começavam os preparativos da festa, quando cheguei ao sitio.  Nas casas dos escravos, às vezes, à noite, ensaiavam as crianças.  Na eira os rapazolas preparavam jiraus; colhia-se o arroz novo para os presepes e de todos  os lados, mal o sol fugia, começavam as toadas das cantigas ao Deus Menino e as falas dos infantes que figuravam no Mistério.

Firmo estava doente, mal podia mover-se: passava os dias na rede.  Subi a vê-lo, uma noite justamente na véspera do grande dia. Encontrei-o deitado, fumando, os olhos semi-cerrados.

—  Eh! vaqueiro velho…  Então que é isso?!

—  Estou derrubado, patrãozinho.

—  Mas que diabo tem você?

— Moléstia má, patrãozinho; parece que desta feita vou mesmo.

—  Ora qual…

—  Eu é que sei como me sinto, patrãozinho.  Se até o pito me faz nojo…

—  Pois eu preparei uma surpresa que te vai fazer mais bem do que todas as mezinhas de mãe Tude.   Quem está aí fora?  adivinha…

—  Ah! Patrãozinho, alguma alma boa…  Quem há-de ser?!

—  Raimundinho.

O velho sacudiu-se novamente na rede e, voltando-se para a porta com um sorriso, perguntou:

—  E onde está esse negro que não entra?

—   Boa noite à gente da casa!  Disse da porta o cafuzo.

— Entra, negro!

O cafuzo, um codoense da fama, atravessou o limiar da porta:

— Então, tio Firmo, a febre pode mais, hein?!

—  Sim porque eu não vi quando ela entrou… quando não!  Então, negro, que é que vamos fazendo?…

— Vim fazer minha festa.  Dizem que vão queimar fogaréus em Curral Novo

—  Como vai Noca?

—  Boa.

—  E Ana?  está na cidade, mais o pai?

—  Hen, hen, afirmou o cafuzo.

—  Negro, você não vai daqui hoje.  Ah!  Patrãozinho, vosmecê vai ver o que é um diabo.  Negro, ajunta a madeira ali atrás da arca…

—  Está encordoada?

—  O danado!  Onde você viu viola sem corda?   e afinada, ajunta.

—  O codoense agachou-se, apanhou a viola do vaqueiro e logo correu os dedos ágeis pelas cordas.

—  Passa p’ra luz, cafuzo.

—  Lá vou…

Sentou-se no centro da mesa, cruzou as pernas e, tombando a cabeça, gemeu a toada sertaneja.

—  Anda com Deus.

— Lá vai;  pigarreou e desferiu:

“ No coração de quem ama

Nasce uma flor que envenena”

— Eh!  gritou o Firmo entusiasmado, concluindo a quadra:

“Morena, essa flor que mata

Chama-se paixão, morena…”

— Pega, negro… não deixa o verso no chão!

De fora, contínuo e doce, vinha o coro longínquo das crianças em louvor de Jesus e, de vez em vez, reboava o mugido de um touro.

Quando o cafuzo descansou a viola, Firmo disse da rede com esforço, arrastando a voz fraca:

— Canta, canta mais, cafuzo…  Quem não tem Nosso Pai ouve a cantiga.  Canta.

Era tarde quando desci o outeiro.  Raimundinho lá ficou cantando.

No dia seguinte, à hora em que saía o gado, estava eu debruçado à varanda quando vi o cafuzo que preparava o animal viageiro:

—  Raimundinho, como vai ele?…

De longe apontou a palhoça:

—  Sim.

O braço caiu-lhe, olhou-me algum tempo comovido; depois saltando para o animal, levou o polegar à boca fazendo estalar a unha nos dentes:  “ Às quatro da manhã…  Atirei um verso e disse, para bulir com ele:  Pega, velho!  Não respondeu.  Tio Firmo, mesmo velho e doente, não era homem para deixar um verso no chão…  Fui ver, coitado!  Estava morto”.  E deu esporas para que não lhe visse as lágrimas.

Subi ao outeiro…  Pobre Firmo!  Lá estava no fundo da rede, cercado de gente.  Guardara o sorriso, morrera feliz, ouvindo os cantos do seu tempo e bem perto de casa o mugido dos rebanhos.  E bem que o choraram nessa noite os grandes bois, e diziam, entretanto, que eles estavam louvando o Senhor Menino; chorando o companheiro é que eles estavam, os grandes bois que pressentem todas as desgraças e que vêem a Morte passar, à noite, com a foice de rastro, através das campinas!  Bem que choraram nessa noite os bois: decerto viram a morte entrar na cabana de Firmo.

*  *  *  *  *

Henrique Maximiano Coelho Neto (Caxias, 21 de fevereiro de 1864 — Rio de Janeiro, 28 de novembro de 1934) escritor, político, professor, romancista, contista, crítico, teatrólogo, memorialista e poeta.  Usou entre outros os  seguintes pseudônimos:  Anselmo Ribas, Caliban, Ariel, Amador Santelmo, Blanco Canabarro, Charles Rouget, Democ, N. Puck, Tartarin, Fur-Fur, Manés.  Foi provavelmente o prosador brasileiro mais lido nas primeiras décadas do século XX, tendo sofrido furiosos ataques do Modernismo posterior à Semana de Arte Moderna de 1922, o que provavelmente colaborou no injusto esquecimento que o mercado editorial e os leitores brasileiros tem-lhe reservado. Para o cinema, escreveu o que seria o primeiro filme brasileiro em série, Os mistérios do Rio de Janeiro, do qual só foi terminado e lançado o primeiro episódio.

Obras:

Romance Bárbaro (1914)

O Mistério (1920)

Fogo fátuo, romance, (1929)

Álbum de Caliban, contos, (1897)

Contos da vida e da morte, contos, (1927)

Mano, Livro da Saudade, romance, (1924)

A cidade maravilhosa, contos, (1928)

O polvo, romance (1924)

A descoberta da Índia, narrativa histórica, (1898)

O Fruto, contos, (1895)

O rei fantasma, romance, (1895)

O Rajá de Pendjab (1898)

Rapsódias, contos, (1891)

Sertão (1897)

A Bico de Penna

Água de Juventa, contos,

Romanceiro (1898)

Theatro, vol. I – Os Raios X (1897), O Relicário (1899), O Diabo no corpo(1899)

Theatro, vol. II – As Estações, Ao Luar, Ironia, A Mulher, Fim de Raça (1900)

Theatro, vol. IV – Quebranto (1908), comédia em 3 actos, e o sainete Nuvem

Theatro, vol. V – O dinheiro, Bonança (1909), e o Intruso

Fabulário

O Arara, (1905)

Jardim das Oliveiras, (1908)

Esfinge, romance, 1908

Inverno em Flor, romance, (1897)

Apólogos, contos para crianças

Miragem, romance, (1895)

Mysterios do Natal, contos para crianças

O Morto, Memórias de um Fuzilado, romance, (1898)

Rei Negro (1914)

Capital Federal, Impressões de um Sertanejo, romance, (1893)

A Conquista, romance, (1899)

Tormenta, romance, (1901)

Tréva

Banzo, contos, (1913)

Turbilhão (1904)

O meu dia

As Sete Dores de Nossa Senhora

Balladilhas, contos, (1894)

Pastoral

Vida Mundana, contos, (1919)

Patinho torto (1917)

Às quintas

Scenas e perfis

Feira livre

Immortalidade, lenda, romance, (1926)

O Paraíso (1898)

Bazar

Fogo Fátuo (1930)

fogo de vista (1923)

Theatro lyrico

os pombos

Teatrinho (1905), coletânea de textos dramáticos para crianças, parceria com Olavo Bilac

Teatro infantil, data ignorada, nova coletânea com o mesmo tema





O peru de Natal, um conto de Mário de Andrade

13 12 2009

Ceia de Natal, 1904/1905

Carl Larsson ( Suécia, 1853-1919)

Aquarela

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O PERU DE NATAL
 

                                                                                             Mário de Andrade

 
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O nosso primeiro Natal de família, depois da morte de meu pai acontecida cinco meses antes, foi de conseqüências decisivas para a felicidade familiar. Nós sempre fôramos familiarmente felizes, nesse sentido muito abstrato da felicidade: gente honesta, sem crimes, lar sem brigas internas nem graves dificuldades econômicas. Mas, devido principalmente à natureza cinzenta de meu pai, ser desprovido de qualquer lirismo, de uma exemplaridade incapaz, acolchoado no medíocre, sempre nos faltara aquele aproveitamento da vida, aquele gosto pelas felicidades materiais, um vinho bom, uma estação de águas, aquisição de geladeira, coisas assim. Meu pai fora de um bom errado, quase dramático, o puro-sangue dos desmancha-prazeres.

Morreu meu pai, sentimos muito, etc. Quando chegamos nas proximidades do Natal, eu já estava que não podia mais pra afastar aquela memória obstruente do morto, que parecia ter sistematizado pra sempre a obrigação de uma lembrança dolorosa em cada almoço, em cada gesto mínimo da família. Uma vez que eu sugerira à mamãe a idéia dela ir ver uma fita no cinema, o que resultou foram lágrimas. Onde se viu ir ao cinema, de luto pesado! A dor já estava sendo cultivada pelas aparências, e eu, que sempre gostara apenas regularmente de meu pai, mais por instinto de filho que por espontaneidade de amor, me via a ponto de aborrecer o bom do morto.

Foi decerto por isto que me nasceu, esta sim, espontaneamente, a idéia de fazer uma das minhas chamadas “loucuras”. Essa fora aliás, e desde muito cedo, a minha esplêndida conquista contra o ambiente familiar. Desde cedinho, desde os tempos de ginásio, em que arranjava regularmente uma reprovação todos os anos; desde o beijo às escondidas, numa prima, aos dez anos, descoberto por Tia Velha, uma detestável de tia; e principalmente desde as lições que dei ou recebi, não sei, de uma criada de parentes: eu consegui no reformatório do lar e na vasta parentagem, a fama conciliatória de “louco”. “É doido, coitado!” falavam. Meus pais falavam com certa tristeza condescendente, o resto da parentagem buscando exemplo para os filhos e provavelmente com aquele prazer dos que se convencem de alguma superioridade. Não tinham doidos entre os filhos. Pois foi o que me salvou, essa fama. Fiz tudo o que a vida me apresentou e o meu ser exigia para se realizar com integridade. E me deixaram fazer tudo, porque eu era doido, coitado. Resultou disso uma existência sem complexos, de que não posso me queixar um nada.

Era costume sempre, na família, a ceia de Natal. Ceia reles, já se imagina: ceia tipo meu pai, castanhas, figos, passas, depois da Missa do Galo. Empanturrados de amêndoas e nozes (quanto discutimos os três manos por causa dos quebra-nozes…), empanturrados de castanhas e monotonias, a gente se abraçava e ia pra cama. Foi lembrando isso que arrebentei com uma das minhas “loucuras”:

— Bom, no Natal, quero comer peru.

Houve um desses espantos que ninguém não imagina. Logo minha tia solteirona e santa, que morava conosco, advertiu que não podíamos convidar ninguém por causa do luto.

— Mas quem falou de convidar ninguém! essa mania… Quando é que a gente já comeu peru em nossa vida! Peru aqui em casa é prato de festa, vem toda essa parentada do diabo…

— Meu filho, não fale assim…

— Pois falo, pronto!

E descarreguei minha gelada indiferença pela nossa parentagem infinita, diz-que vinda de bandeirantes, que bem me importa! Era mesmo o momento pra desenvolver minha teoria de doido, coitado, não perdi a ocasião. Me deu de sopetão uma ternura imensa por mamãe e titia, minhas duas mães, três com minha irmã, as três mães que sempre me divinizaram a vida. Era sempre aquilo: vinha aniversário de alguém e só então faziam peru naquela casa. Peru era prato de festa: uma imundície de parentes já preparados pela tradição, invadiam a casa por causa do peru, das empadinhas e dos doces. Minhas três mães, três dias antes já não sabiam da vida senão trabalhar, trabalhar no preparo de doces e frios finíssimos de bem feitos, a parentagem devorava tudo e ainda levava embrulhinhos pros que não tinham podido vir. As minhas três mães mal podiam de exaustas. Do peru, só no enterro dos ossos, no dia seguinte, é que mamãe com titia ainda provavam num naco de perna, vago, escuro, perdido no arroz alvo. E isso mesmo era mamãe quem servia, catava tudo pro velho e pros filhos. Na verdade ninguém sabia de fato o que era peru em nossa casa, peru resto de festa. Não, não se convidava ninguém, era um peru pra nós, cinco pessoas. E havia de ser com duas farofas, a gorda com os miúdos, e a seca, douradinha, com bastante manteiga. Queria o papo recheado só com a farofa gorda, em que havíamos de ajuntar ameixa preta, nozes e um cálice de xerez, como aprendera na casa da Rose, muito minha companheira. Está claro que omiti onde aprendera a receita, mas todos desconfiaram. E ficaram logo naquele ar de incenso assoprado, se não seria tentação do Dianho aproveitar receita tão gostosa. E cerveja bem gelada, eu garantia quase gritando. É certo que com meus “gostos”, já bastante afinados fora do lar, pensei primeiro num vinho bom, completamente francês. Mas a ternura por mamãe venceu o doido, mamãe adorava cerveja.

— É louco mesmo!…

Quando acabei meus projetos, notei bem, todos estavam felicíssimos, num desejo danado de fazer aquela loucura em que eu estourara. Bem que sabiam, era loucura sim, mas todos se faziam imaginar que eu sozinho é que estava desejando muito aquilo e havia jeito fácil de empurrarem pra cima de mim a… culpa de seus desejos enormes. Sorriam se entreolhando, tímidos como pombas desgarradas, até que minha irmã resolveu o consentimento geral:

— É louco mesmo!…

Comprou-se o peru, fez-se o peru, etc. E depois de uma Missa do Galo bem mal rezada, se deu o nosso mais maravilhoso Natal. Fora engraçado: assim que me lembrara de que finalmente ia fazer mamãe comer peru, não fizera outra coisa aqueles dias que pensar nela, sentir ternura por ela, amar minha velhinha adorada. E meus manos também, estavam no mesmo ritmo violento de amor, todos dominados pela felicidade nova que o peru vinha imprimindo na família. De modo que, ainda disfarçando as coisas, deixei muito sossegado que mamãe cortasse todo o peito do peru. Um momento aliás, ela parou, feito fatias um dos lados do peito da ave, não resistindo àquelas leis de economia que sempre a tinham entorpecido numa quase pobreza sem razão.

— Não senhora, corte inteiro! Só eu como tudo isso!

Era mentira. O amor familiar estava por tal forma incandescente em mim, que até era capaz de comer pouco, só pra que os outros quatro comessem demais. E o diapasão dos outros era o mesmo. Aquele peru comido a sós, redescobria em cada um o que a quotidianidade abafara por completo, amor, paixão de mãe, paixão de filhos. Deus me perdoe mas estou pensando em Jesus… Naquela casa de burgueses bem modestos, estava se realizando um milagre digno do Natal de um Deus. O peito do peru ficou inteiramente reduzido a fatias amplas.

— Eu que sirvo!

“É louco, mesmo” pois por que havia de servir, se sempre mamãe servira naquela casa! Entre risos, os grandes pratos cheios foram passados pra mim e principiei uma distribuição heróica, enquanto mandava meu mano servir a cerveja. Tomei conta logo de um pedaço admirável da “casca”, cheio de gordura e pus no prato. E depois vastas fatias brancas. A voz severizada de mamãe cortou o espaço angustiado com que todos aspiravam pela sua parte no peru:

— Se lembre de seus manos, Juca!

Quando que ela havia de imaginar, a pobre! que aquele era o prato dela, da Mãe, da minha amiga maltratada, que sabia da Rose, que sabia meus crimes, a que eu só lembrava de comunicar o que fazia sofrer! O prato ficou sublime.

— Mamãe, este é o da senhora! Não! não passe não!

Foi quando ela não pode mais com tanta comoção e principiou chorando. Minha tia também, logo percebendo que o novo prato sublime seria o dela, entrou no refrão das lágrimas. E minha irmã, que jamais viu lágrima sem abrir a torneirinha também, se esparramou no choro. Então principiei dizendo muitos desaforos pra não chorar também, tinha dezenove anos… Diabo de família besta que via peru e chorava! coisas assim. Todos se esforçavam por sorrir, mas agora é que a alegria se tornara impossível. É que o pranto evocara por associação a imagem indesejável de meu pai morto. Meu pai, com sua figura cinzenta, vinha pra sempre estragar nosso Natal, fiquei danado.

Bom, principiou-se a comer em silêncio, lutuosos, e o peru estava perfeito. A carne mansa, de um tecido muito tênue boiava fagueira entre os sabores das farofas e do presunto, de vez em quando ferida, inquietada e redesejada, pela intervenção mais violenta da ameixa preta e o estorvo petulante dos pedacinhos de noz. Mas papai sentado ali, gigantesco, incompleto, uma censura, uma chaga, uma incapacidade. E o peru, estava tão gostoso, mamãe por fim sabendo que peru era manjar mesmo digno do Jesusinho nascido.

Principiou uma luta baixa entre o peru e o vulto de papai. Imaginei que gabar o peru era fortalecê-lo na luta, e, está claro, eu tomara decididamente o partido do peru. Mas os defuntos têm meios visguentos, muito hipócritas de vencer: nem bem gabei o peru que a imagem de papai cresceu vitoriosa, insuportavelmente obstruidora.

— Só falta seu pai…

Eu nem comia, nem podia mais gostar daquele peru perfeito, tanto que me interessava aquela luta entre os dois mortos. Cheguei a odiar papai. E nem sei que inspiração genial, de repente me tornou hipócrita e político. Naquele instante que hoje me parece decisivo da nossa família, tomei aparentemente o partido de meu pai. Fingi, triste:

— É mesmo… Mas papai, que queria tanto bem a gente, que morreu de tanto trabalhar pra nós, papai lá no céu há de estar contente… (hesitei, mas resolvi não mencionar mais o peru) contente de ver nós todos reunidos em família.

E todos principiaram muito calmos, falando de papai. A imagem dele foi diminuindo, diminuindo e virou uma estrelinha brilhante do céu. Agora todos comiam o peru com sensualidade, porque papai fora muito bom, sempre se sacrificara tanto por nós, fora um santo que “vocês, meus filhos, nunca poderão pagar o que devem a seu pai”, um santo. Papai virara santo, uma contemplação agradável, uma inestorvável estrelinha do céu. Não prejudicava mais ninguém, puro objeto de contemplação suave. O único morto ali era o peru, dominador, completamente vitorioso.

Minha mãe, minha tia, nós, todos alagados de felicidade. Ia escrever «felicidade gustativa», mas não era só isso não. Era uma felicidade maiúscula, um amor de todos, um esquecimento de outros parentescos distraidores do grande amor familiar. E foi, sei que foi aquele primeiro peru comido no recesso da família, o início de um amor novo, reacomodado, mais completo, mais rico e inventivo, mais complacente e cuidadoso de si. Nasceu de então uma felicidade familiar pra nós que, não sou exclusivista, alguns a terão assim grande, porém mais intensa que a nossa me é impossível conceber.

Mamãe comeu tanto peru que um momento imaginei, aquilo podia lhe fazer mal. Mas logo pensei: ah, que faça! mesmo que ela morra, mas pelo menos que uma vez na vida coma peru de verdade!

A tamanha falta de egoísmo me transportara o nosso infinito amor… Depois vieram umas uvas leves e uns doces, que lá na minha terra levam o nome de “bem-casados”. Mas nem mesmo este nome perigoso se associou à lembrança de meu pai, que o peru já convertera em dignidade, em coisa certa, em culto puro de contemplação.

Levantamos. Eram quase duas horas, todos alegres, bambeados por duas garrafas de cerveja. Todos iam deitar, dormir ou mexer na cama, pouco importa, porque é bom uma insônia feliz. O diabo é que a Rose, católica antes de ser Rose, prometera me esperar com uma champanha. Pra poder sair, menti, falei que ia a uma festa de amigo, beijei mamãe e pisquei pra ela, modo de contar onde é que ia e fazê-la sofrer seu bocado. As outras duas mulheres beijei sem piscar. E agora, Rose!…

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Em: Noite de Natal: coletânea reunindo histórias de Natal, editado por Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito.  Saraiva, SP: 1950

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Mário de Andrade, 1927

Lasar Segall, (Russia 1891, Brasil 1957)

óleo sobre tela

 

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Mário Raul de Morais Andrade (SP, 1893-1945) poeta, romancista, crítico de arte, musicólogo, professor universitário e ensaísta, considerado unanimidade nacional e reconhecido por críticos como o mais importante intelectual brasileiro do século XX. Liderou o movimento modernista no Brasil e teve grande impacto na renovação literária e artística do país, participando ativamente da Semana de Arte Moderna de 22, além de se envolver (de 1934 a 37) com a cultura nacional trabalhando como diretor do Departamento Municipal de Cultura de São Paulo.

Obras:

Há uma Gota de Sangue em Cada Poema, 1917

Paulicéia Desvairada, 1922

A Escrava que Não É Isaura, 1925

Losango Cáqui, 1926

Primeiro Andar, 1926

A Clã do Jabuti, 1927

Amar, Verbo Intransitivo, 1927

Ensaios Sobra a Música Brasileira, 1928

Macunaíma, 1928

Compêndio Da História Da Música, 1929 (Reescrito como Pequena História da Música Brasileira, 1942)

Modinhas Imperiais, 1930

Remate de Males, 1930

Música, Doce Música, 1933

Belasarte, 1934

O Aleijadinho de Álvares De Azevedo, 1935

Lasar Segall, 1935

Música do Brasil, 1941

Poesias, 1941

O Movimento Modernista, 1942

O Baile das Quatro Artes, 1943

Os Filhos da Candinha, 1943

Aspectos da Literatura Brasileira 1943

O Empalhador de Passarinhos, 1944

Lira Paulistana, 1945

O Carro da Miséria, 1947

Contos Novos, 1947

O Banquete, 1978

Dicionário Musical Brasileiro, 1989

Será o Benedito!, 1992





Imagem de leitura — Arnaldo Sinatti

12 12 2009

Romance na praia, s/d

Arnaldo Sinatti (Brasil, 1935-1999)

óleo sobre tela, 27 x 19 cm





Livro mais antigo da Escócia em exibição

11 12 2009

O livro de salmos celta, visto na foto, é o livro mais antigo da Escócia.  Ele estará exibido pelos próximos três meses na Universidade de Edimburgo.  O manuscrito tem salmos em latim e ilustrações celtas.  Foi provavelmente produzido no monastério de Iona, no século XI e tem o tamanho de um livro de bolso.   Trabalhos como esse eram em geral dedicados a alguém importante, como, por exemplo,  a Santa Margaret, Rainha da Escócia. O livro faz parte de uma exposição de reabertura da biblioteca universitária após uma reforma e esta é a primeira vez em 1.000 anos que está sendo visto por qualquer pessoa que não tivesse ligações com a biblioteca.   O livro é repleto de iluminuras que mantiveram a cor vívida através dos anos, justamente porque o livro não foi exposto ao público.   O volume foi doado à Universidade de Edimburgo no século XVII.

Fonte: BBC