Aguapés, de Jhumpa Lahiri, sem prumo

31 07 2014

paul olson. providence riProvidence, RI

Paul Olson (EUA, contemporâneo)

 

 

Aguapés é um romance de leitura fácil, mais ou menos engajante, com uma história de pouco interesse e completamente sem prumo.  É chocho. Quem escreveu a sinopse que aparece no site da editora Biblioteca Azul, selo da Editora Globo, não leu o livro que eu li. É a história de um homem e sua família, indiano, radicado em Providence, no estado de Rhode Island (EUA), engenheiro ambiental . Sua vida é tão comum quanto a de qualquer um: sem grandes eventos, sem grandes emoções, exceto pela sua retidão de caráter.

É sim, uma história de dois irmãos próximos, de temperamentos diferentes. Dois irmãos muito diferentes: Udayan é um revolucionário maoísta, ativo em Calcutá, nos anos 60. Subhash seu irmão mais velho nada tem a ver com política, sai da Índia para os EUA. Mas, apesar de vidas diversas, não há um embate, onde temperamentos opostos se confrontem. Subhash, por sair da Índia, parece, no início, se revoltar contra as tradições ancestrais. Enquanto Udayan, ainda morando na casa dos pais, dá a impressão de ser aquele mais perto do ideal familiar. Um dia seus destinos se unem por imprevisto inevitável. A partir daí, Subhash, cuja vida acompanhamos até os 70 anos, se transforma no mantenedor da família, reformulando todos e quaisquer objetivos e gols em sua existência em favor da próxima geração. Seu sacrifício é imenso. Abnegação total. O dever sempre falando mais alto.

 

AGUAPES__1402072354P

 

Mas a figura central do romance não é nenhum dos irmãos. Eles são a moldura. A força motora é a enigmática esposa de Subhash cujo comportamento inimaginável permeia toda trama. Uma figura sem qualquer carisma que acaba ditando a vida de todos à sua volta.

O período de setenta anos cobertos nesse romance passa superficialmente pelos marcos da época, no ocidente. Uma ou outra menção ao presidente do EUA é o que situa a passagem de tempo. Há muita coisa que não é necessária nessa história e muita coisa que deveria aparecer e não está lá. Todos os personagens, talvez por serem tratados superficialmente, são incompreensíveis e não ganham a simpatia do leitor. Há foco demorado no que não é importante – como o “affair” de Subhash com uma americana – ou o final passado na Irlanda, que me pareceu “product placement” [anúncio] da agência de turismo do país.

 

lahiri portraitJhumpa Lahiri

 

Fraco. Não recomendo. Foi a escolha do meu grupo de leitura para este mês em homenagem a autora que participa da FLIP [Festa Literária Internacional de Paraty] agora em julho. Pena.





No cinema, um romance epistolar indiano que encanta: “The Lunchbox”

27 03 2014

Christine Comyn -- contemplaçãoContemplação

Christine Comyn (Bélgica, 1957)

Aquarela sobre papel

Em 2008 quando terminei a leitura de A Trégua de Mário Benedetti sabia que havia lido um romance que me afetara profundamente. Mas não tinha imaginado que de quando em quando, me lembraria dessa obra pequenina e potente do escritor uruguaio.  Hoje, passados seis anos, sua presença ainda se faz sentir.  Sábado, quando saí do cinema depois de ver o filme indiano The Lunchbox, quase imediatamente me lembrei dos pequeninos capítulos, quase parágrafos únicos, verdadeiras pedras preciosas de sutileza, que compõem  A Trégua, fazendo do romance a joia rara que me encantou.

Há inúmeros paralelos entre o filme indiano e o romance uruguaio. Ambos são brilhantes. São sutis nas emoções que revelam. E tratam de ritos de passagem.  Em geral usamos esse termo para descrever a literatura centrada em um adolescente que por uma determinada aventura se torna adulto, como no livro de J. D. Salinger, O apanhador no campo de centeio. Mas aqui trata-se de homens adultos à beira da aposentadoria, que por motivos diversos se encontram em situações semelhantes, capazes, talvez, de reencontrar o gosto pela vida. Em ambas as obras, mesmo que por diferentes meios, a sutileza dos sentimentos é tocante.

original_668564

Em meio a pilhas de papéis nas mesas dos escritórios, vivendo em um estado quase mecânico, em total solidão, os personagens principais do livro e do filme passam pela vida quase desapercebidos, resignados, incapazes de reivindicar uma existência melhor.  Competentes, mas com suas vidas sem brilho.  E eis que por uma pequena intervenção do destino um raio de luz passa por uma porta entreaberta trazendo a possibilidade de outra vida.  Talvez.  A narrativa em ambos os casos é por meio de elipses, no texto são as entradas no diário de Martín Santomé; no filme são os recados deixados por Irrfan Khan no papel de Saajan Fernandez. Irmãos na delicadeza dos sentimentos, na sutileza da narrativa essas duas obras primas dificilmente são esquecidas.

No filme a extraordinária interpretação de Irrfan Khan, que preenche o seu papel com uma simples mudança no olhar precisa ser ressaltada. E a beleza de Nimrat Kaur, um boa atriz com certeza, não pode ser ignorada. Um belíssimo filme,  poesia em imagens.  Se tiver a oportunidade, não perca.





Planos de escrita, texto de Plínio Bastos

4 12 2012

Gari Melchers, O sermão, 1886,  ost, [EUA, 1860-1932]

O sermão, 1886

Gari Melchers (EUA, 1860-1932)

óleo sobre tela,  159 x 219 cm

Smithsonian American Art Museum, Washington DC

“ O professor saiu da janela e sentou-se à mesinha onde estavam seus livros.  Abriu o bloco de papel branco; experimentou a caneta tinteiro; desenhou um arremedo de templo grego bem no alto da página.  Primeiro faria um esboço do seu livro, sobre o qual ainda há pouco pensara tanto, anotando as cenas principais, as personagens que iria criar ou reproduzir, as ideias que precisava desenvolver. Mais tarde, quando voltasse para casa, completaria o que estivesse apenas esboçado. O cenário do livro seria Santo Estefânio, cujo nome talvez trocasse, e a história se desenvolveria partindo de um núcleo: seu amor de quarentão pela jovem Madalena, amor que recordaria sua paixão por Lenora, paixão que o faria refluir à sua pequena cidade do nordeste, à Elsie, a protestante, e à sua igrejinha, que ficava de frente para a lagoa enorme de águas tranquilas. Adolescente, rapaz, quarentão, nos meios mais diferentes, o seu amor não variava de estilo, seguia sempre os mesmos caminhos, embora diferisse o objeto do seu amor. E mostraria no livro, sem piedade para consigo mesmo, a constância das situações ridículas em que se enleiava sempre que se apaixonava. A cena da festa de natal na Igreja dos protestantes, o rosto em fogo, sem saber onde colocar as mãos, atento aos movimentos e à expressão do rosto do Pastor, sem ânimo para fugir, as irmãs de Elsie cochichando, contendo o riso, olhando de soslaio em sua direção. E depois a passagem do Pastor, alto e seco, pelo tapete que ia do púlpito à porta de entrada, acompanhado da esposa, Elsie de olhos brilhantes, sorrindo e sem ohar para os lados, as irmãs de cabeça baixa, contendo o riso, e ele sem poder fugir, morrer, não existir, tal como era o seu desejo naquele momento”.

Em: A estrela e o professor, Plínio Bastos, Rio de Janeiro, Liv. Império: 1956.

Plínio Bastos, (Brasil) professor, romancista, poeta e historiador.

Obras:

A vida comercial, 1954

A Estrela e o Professor, romance, 1956

Talvez Alguém se Salve, romance, 1958

Um Crime, romance, 1961

Justiça Triste, romance, 1962

História do Mundo, história, 1960

História do Brasil, história, 1959

As Grandes Mitologias do Mundo, 1959

Galeria de brasileiros ilustres, biografias, 1953





E a noite roda, de Alexandra Lucas Coelho

29 09 2012

Rua de Jerusalem, s/d

Noel Harry Leaver (Inglaterra, 1889-1951)

aquarela e lápis sobre cartão, 38  x 27 cm

Coleção Particular

No fim de semana passado a escritora portuguesa Alexandra Lucas Coelho me fez companhia através de seu romance E a noite roda (Tinta da China:2012).  Ele foi a distração que me deixou em casa, por mais tempo do que deveria, para chegar ao fim desse romance de prosa deliciosa.  Cheguei a marcar pequenas passagens encantadoras dessa narrativa bem ritmada que se farta do uso de elipses e contrastes para descrever de maneira sutil e precisa o encanto dos momentos fugazes.

E a noite roda é um romance à moda antiga: trata-se do retrato de um relacionamento amoroso de início ao fim.  Sabemos desde sua primeira página que a história não terá um desfecho feliz.  Mesmo assim vamos em frente. O objetivo é entender a jornalista catalã especializada no Oriente Médio, protagonista do mal fadado romance, que desvenda para o leitor sua vida pessoal e profissional simultaneamente, sem cair em pieguismos amorosos.

Alexandra Lucas Coelho logo de início consegue imprimir no leitor a sensação de perigo e eletricidade que jornalistas sentem ao cobrir eventos em áreas de iminente conflito.  Suas descrições sucintas das passagens pelos pontos de inspeção policial complementadas pelas descrições das belas paisagens do Oriente Médio são tão bem interligadas, que o cotidiano próximo à Porta de Damasco consegue ser simultaneamente poético e cruel.  Por duas vezes vivi em lugares no mundo em que pressões políticas colocavam nossas vidas diárias em alerta permanente.   E a descrição feita por Alexandra Lucas Coelho da vida em Israel e Gaza me lembrou com bastante acuidade muitas das experiências que tive no exterior.  Por aí, esse primeiro romance da jornalista portuguesa me fascinou de imediato  e me levou à nostalgia dos tempos em que descobri, por experiência, que o simples viver – acordar, beber água, comer e dormir —  é um ato de sobrevivência que não está garantido a centenas de milhares, milhões mesmo, de pessoas no mundo.  É difícil explicar as razões dessa nostalgia, mas há algo de viver  à beira do abismo, vizinha do perigo, que embriaga e  dá a sensação de estarmos vivos.  VIVOS!  Alertas!  Viver com os cinco sentidos estimulados, com a necessidade de sobreviver exarcebada  é viciante, porque a adrenalina se faz presente  e transforma a nossa percepção do mundo ao redor.  Para mim, experiências semelhantes me trouxeram a  certeza de que preciso de pouco para viver bem.  Viver à beira do abismo leva muitos ao romance imediato, à paixão intensa e fugidia.  É o que acontece com os dois jornalistas envolvidos nesse romance.

Alexandra Lucas Coelho

Este é um romance leve, o retrato de uma paixão.  Há dois únicos personagens de importância, os outros são apenas pano de fundo.  No início temos mais detalhes da vida profissional dos jornalistas, da maneira como a profissão é exercida, da política envolvida nas cochias da morte de Yasser Arafat.  Mas a partir do momento em que o romance se desenvolve, tornando-se mais intenso, perdemos o contato que havíamos estabelecido com as vidas profissionais dos protagonistas.  Passamos  simplesmente a acompanhar  o caso amoroso.  É aí que o ritmo da leitura se desacelera.  Meu gosto teria sido pela continuidade do retrato das experiências profissionais e amorosas, mas isso não acontece.  Ao final temos um romance bem escrito, com passagens de beleza incontestável.  Recomendo sua leitura: ligeira e deliciosa.





A rua Paissandu, no Flamengo, na década de 1930 — Ronaldo Wrobel

16 09 2011

Rua Paissandu, no bairro do Flamengo, década de 1930, Rio de Janeiro.  Cartão postal.

Coloco aqui uma das muitas passagens evocativas da época de 1930, encontradas no romance de Ronaldo Wrobel, Traduzindo Hannah.

“Os bairros do Rio de Janeiro eram tão diferentes uns dos outros que se tinha a impressão de cruzar continentes dentro de um bonde.  Do Relógio da Glória para o sul, por exemplo, já não se viam as ruas abarrotadas e barulhentas do centro, com seus prédios encardidos e letreiros comerciais.  No centro, a pressa não tinha hora; já no Flamengo, a hora não tinha pressa.  O silêncio reinava nas ruas sombreadas por árvores onde senhoras puxavam seus cachorrinhos empertigados.  Carrões deslizavam suavemente entre palacetes não raro ocupados por embaixadas e repartições de alto nível enquanto, nas praças, babás uniformizadas tomavam conta de suas crianças promissoras. 

Max gostava de contemplar as palmeiras que ladeavam a rua Paissandu desde o Palácio Guanabara até a rua Marquês de Abrantes.  Aqueles troncos esguios tinham visto coches com marquesas e barões, broches e tiaras antes que o automóvel infestasse a cidade e a monarquia brasileira se exilasse em museus.  Pois as palmeiras da rua Paissandu não tinham se curvado à modernidade:  nenhuma república saberia roubar sua altivez ou a nobreza daquelas folhagens que se abriam como asas soberanas.  Perto dali ficava o campo do Fluminense com suas torcidas estrondosas.  A cada gol os pássaros disparavam dos galhos em revoadas que adentravam a saleta onde Max descansava ao fim do dia, instalado em sua bergère, ao som da risonha criançada que as mães só tiravam da rua depois da Hora do Brasil. Então escolhia um Haydn ou Mozart, deixando a agulha da vitrola surtir seus melodiosos efeitos enquanto comia algo leve na mesa da copa.  Puxava a manta depois das dez, lendo até adormecer no quarto de fundos, ninado pelos gatos vadios que, lá fora, se enroscavam na escuridão.

Dois andares, a nova casa de Max era grudada nas vizinhas feito irmã siamesa.  Custara uma pechincha porque um velho muito velho estava para morrer e os filhos queriam apressar o negócio, tendo aceitado a oficina da Praça Onze como parte do pagamento.  Inacreditável!  O resto Max ia pagando mês a mês avalizado por ninguém menos que o Capitão Avelar.  Perto da bergère, uma estante de jacarandá compunha com a mesa redonda deixada pelo antigo dono.  Max comprou quatro cadeiras de palhinha e uma fruteira de porcelana portuguesa sempre cheia de maçãs, laranjas e bananas.  Na cozinha mantinha as provisões de sal e açúcar que os vizinhos vinham-lhe pedir em cordiais incursões, para depois revisitá-lo com fatias de bolo ou pudim.   Calçava chinelos para não arranhar o parquê bicolor nem estragar o tapete arraiolo em seu quarto.  Agora, sim, Max tinha uma casa decente.”

Traduzindo Hannah, Ronaldo Wrobel, Rio de Janeiro, Record:2010, Pp- 151-2





A solução de Rosa Montero: consideração para com o nosso semelhante, em Instruções para salvar o mundo

14 09 2011

A bebedora de absinto, 1901

Pablo Picasso (Espanha, 1881-1973)

Óleo sobre tela,

Hermitage, São Petersburgo, Rússia

Meu primeiro contato com Rosa Montero foi através do fantástico História do rei transparente [Ediouro: 2006], que devorei em dois dias.  Amei!  Mais tarde, vim a ler A louca da casa, [Ediouro: 2004],  Histórias de mulheres [Agir: 2008], A filha do canibal [Ediouro:2007] e agora, este mês, Instruções para salvar o mundo [Record: 2010].  O que surpreende nessa escritora espanhola é o camaleonismo, ou melhor, como cada um de seus livros parece ter um estilo diverso, um narrador diferente, um tema inesperado.  O que os une, a todos, é uma voz narrativa que carrega o leitor por tortuosos e imaginativos caminhos.  Essa também é a característica de Instruções para salvar o mundo.

Quatro personagens principais preenchem o espaço desse romance.   Três são o centro do drama:  Matias, um taxista viúvo, que agoniza diariamente pela perda de sua esposa para o câncer;  Daniel um médico frustrado,  mais ambicioso do que sua capacidade de  dedicação profissional e com a satisfação na vida pessoal inexistente  e Fatma,  natural de Serra Leone, belíssima mulher e prostituta.   Eles parecem ter pouco em comum, mas invadem o nosso mundo imaginário quando suas vidas se mostram interligadas, apesar de extremamente solitárias.  Em contraponto, quase que preenchendo o papel que seria do coro numa tragédia grega, temos Cérebro, cognome de uma ex-professora universitária, uma cientista, cuja linha de pensamento nos mostra o caminho de Rosa Montero.  Cérebro não só é minha personagem favorita pela clareza de seu raciocínio, como é também quem dá a dimensão da tragédia que testemunhamos.  Aos poucos, e graças à força narrativa da autora, esses dois homens e duas mulheres nos envolvem e participamos silenciosamente da absoluta solidão em que vivem,  presenciamos o desespero calado que os corrói.   A falta de perspectiva de uma vida melhor parece inviável para cada um.  E sufoca.

Os personagens vivem num caos emocional que praticamente os deixa anestesiados para a vida cotidiana.  Ou, porque não conseguem perceber nada além do vazio interno que os preenche,  ou porque se dopam, ou se retiram do momento atual, do presente,  para algum lugar  íntimo, interior, onde podem sobreviver as penas de um cotidiano irreparável, como acontece com Fatma.  O mundo externo, fora dessas emoções contidas e reprimidas, está também presente no caos das mudanças climáticas que os rodeiam, refletido no calor fora de época da cidade.  Todos quatro são cidadãos de uma gigante metrópole, igual a dezenas de outras, parecidas com aquelas em que vivemos.  E, como muitos desses cidadãos, como habitantes dessas zonas urbanas, eles passam a vida paralisados nas suas angústias, entorpecidos nas suas emoções.

Rosa Montero

A solução de Rosa Montero para saciar esse desespero interno de cada um é a bondade.  A bondade com o nosso semelhante, o desprendimento.  Talvez uma solução por demais ingênua e idealista para essa leitora.  Algo de irreal, de conto de fadas nessa solução me dá pausa.  Sinto-me crítica.  Talvez eu mesma já esteja, como os personagens da trama, cáustica, amarga, incrédula para considerar tal sugestão com o peso que uma autora como Rosa Montero merece.   Este é o grande senão que tenho com o romance.   As questões sobre o que está acontecendo com a humanidade, o que está acontecendo com o lugar em que vivemos que inevitavelmente temos que levar em conta ao longo da leitura de Instruções para salvar o mundo não só são difíceis de responder, mas também impossíveis de serem solucionadas por ato tão simples e pequeno, quanto esse romance.    Mas fica aqui a minha admiração por quem tem a coragem de levantar essas questões.

Aqui, uma entrevista da autora em espanhol, legendada:






Traduzindo Hannah, de Ronaldo Wrobel, até agora o melhor livro do ano

24 08 2011

Canal do Mangue, Rio de Janeiro, década de 1930.  Flickr — Rio antigamente

Se me coubesse a votação para um prêmio nacional de literatura — melhor livro do ano — ele iria para Traduzindo Hannah de Ronaldo Wrobel [Record:2010].  O livro já foi um dos finalistas, este ano, do Prêmio São Paulo, nessa mesma categoria, quando o vencedor foi  Passageiro do fim do dia de Rubens Figueiredo.  Mesmo assim, continuo convencida de que o romance de Ronaldo Wrobel, escancara as portas para novos rumos da literatura brasileira contemporânea.   O que faz esse livro merecer tanto entusiasmo?  Tema, estilo, narrativa, leveza, humor, ironia e pesquisa. 

O tema é um retrato de grupos de imigrantes judeus que chegaram ao Brasil nas primeiras décadas do século XX, fugidos de desastrosas realidades: guerra, fome, desemprego, perseguição.  Tais como milhares de outros imigrantes, que ao longo dos séculos vieram se estabelecer no país.   Acentuando a narrativa, trazendo-a para o nível de deleite literário, está o estilo de Ronaldo Wrobel, leve e solto, com uma refrescante e fértil maneira de expressão: imagens, figuras de linguagem soam novas, soam belas e vivazes.  Permeando todo o texto há uma leve ironia, um humor fugaz que nos faz sorrir, quase rir em certos trechos sem, no entanto, termos diante de nós nada mais do que a mera e justa comédia humana.  Sua pesquisa foi preciosa, o que tornou fácil imaginar as andanças pelas ruas do Rio de Janeiro, pela Lapa, pelo Catete, pela Praça Onze, mesmo que hoje esses locais sejam tão diferentes. 

A história tem início na década de 1930. Max Kutner sapateiro, imigrante e judeu polonês, que já havia estabelecido uma pequena clientela no centro do Rio de Janeiro, é convocado, durante o governo Vargas, para trabalhar na censura de cartas.   Traduzir do iídiche para o português passa a ser sua segunda ocupação.   Ele se enfronha na intimidade da comunidade judaica através das cartas que traduz.  No processo, também se familiariza com as irmãs, Hannah e Guita, do Rio de Janeiro e de Buenos Aires, e se interessa em conhecer Hannah.  Quando isso acontece, descobre que ela não era bem a pessoa que ele imaginava ser quando lia sua correspondência. 

Ronaldo Wrobel

Deste momento em diante passamos a uma grande aventura em terras cariocas.  Num ritmo galopante, vamos de espionagem a contra-espionagem.  A cada capítulo uma surpresa e um aprofundamento da trama.  Como num teste de visão, vamos corrigindo nossas lentes, passo a passo, enquanto acompanhamos o progresso de Max Kutner que, como nós, precisa acertar a combinação de lentes para ver, entender, compreender e digerir tudo que o rodeava.  Traduzindo Hannah é uma pequena obra-prima burlesca, inteligente e histórica.  Não deixe de ler.  Um deleite!

UMA ENTREVISTA COM O AUTOR





Um dia, romance de David Nicholls, uma excepcional viagem pela vida

8 08 2011

Regent Street, Londres, 2009

Keith Hornblower ( Inglaterra, contemporâneo)

aquarela

http://keithhornblower.wordpress.com

Quando uma amiga sugeriu que eu lesse Um dia de David Nicholls e descreveu esse romance como uma história que se passava no mesmo dia de diferentes anos, pensei imediatamente no filme de Robert Mulligan, Tudo bem no ano que vem,  [Same time next year], [1978] sucesso comprovado como filme e peça teatral. Lendo na orelha do livro [Intrínseca:2011] o envolvimento do autor britânico com o teatro comecei a leitura desconfiada de que estaria me envolvendo com uma alusão, uma paródia, uma re-adaptação da peça do autor canadense Bernard  Slate.  Erro meu!  Este romance é completamente diferente.  E, tem mais, é mais profundo, significativo do que a comédia a que me referi.  Como na peça teatral, este romance também tem um humor inerente.  Como na peça teatral, vemos os mesmos personagens crescerem, se desenvolverem: atores de comédias urbanas que se desenvolvem através do trabalho, dos casamentos, das desventuras amorosas. Mas estas são as únicas semelhanças.

Hoje são raros os livros que me emocionam de uma maneira profunda, que me levam às lagrimas como esse fez em seus capítulos finais.  Muita leitura, a dose normal de descontentamento, experiência acumulada têm contribuído para que seja difícil encontrar um autor que me comova, sem que eu sinta que minhas emoções foram manipuladas inescrupulosamente.  Mas esse romance, que parece sem pretensões,  com uma narrativa entremeada por diálogos corriqueiros, com grande dinamismo, removeu barreiras à minha sensibilidade e se tornou pessoal.  Com um desenrolar inesperado ele atinge o leitor como um soco no estômago.  E essa leitora, se encontrou ao final, depois de reler o último capítulo, como Dexter, um dos personagens da trama, controlando um pequeno ataque de pânico, como se meus pés estivessem se apoiando numa fina camada de gelo prestes a se partir.  O abismo está aqui, em qualquer lugar, a qualquer hora.

É possível que com esse romance, David Nicholls possa vir a ser considerado o retratista de uma geração.  Mas acredito que ele seja mais do que isso, pois sua mensagem: Carpe Diem é universal e não tem prazo de validade.  Mas, afinal, o que é este romance?  É a vida de dois personagens, através de vinte anos.  Passa-se na Inglaterra.  Um homem e uma mulher, que se conhecem no dia da colação de grau na faculdade, têm um mundo de possibilidades, um horizonte aberto, um número irrestrito de escolhas a fazer.  Eles se conhecem e mantêm um relacionamento ora estreito, ora distante através dos anos.  Aos poucos, no passo da vida, testemunhamos suas opções, o aproveitamento que fazem do que lhes é ofertado, o que procuram e o que ignoram.  Acompanhamos o desenrolar de suas vidas e nos afeiçoamos a eles, mesmo que o retrato de Emma e Dexter, a cada passagem do dia 15 de julho, data da formatura universitária, seja feito com candura fotográfica.

David Nicholls

Torna-se impossível, no entanto, para o leitor não refletir sobre sua própria vida, suas escolhas, oportunidades e medos.  Ler Um dia pede um exame de consciência, um exercício de terapia psicológica.  Temos que encarar nossa cronologia, nossos passos.  E depois ainda perguntar:  E agora?  Por esses questionamentos, esse é um romance a ser lido e pensado.  Conversado e debatido.  Será a minha sugestão para o meu grupo de leitura no próximo mês.  Imperdível.





A medida do mundo, de Daniel Kehlmann

2 08 2011

Vista das cordilheiras e dos monumentos dos povos indígenas da América, Paris, 1810, Alexandre von Humboldt.

Férias são para se fazer o que não se faz no cotidiano, para alargar horizontes, experimentar novos caminhos.  Apesar de não ter tirado férias, formalmente, passei o mês de julho brincando fora da caixa.  Minhas pseudo-férias incluíram uma vida repleta de  exposições de arte, festival do cinema feminino, mesas-redondas literárias e científicas, concertos, visitas com amigos que há tempos não via.  Um julho delicioso,  cheio de atividades que me tiraram da rotina, alimentaram o descanso, aliviaram a tensão.  Foi assim que encontrei e acabei me deliciando com o romance de Daniel Kehlmann,  A medida do mundo, [Cia das Letras: 2007].

Talvez tenha sido sincronicidade ler esse romance alemão um dia depois de ter assistido ao arrebatador filme de Woody Allen, Meia-noite em Paris [2011].  O que une estas duas obras é justamente a visita que se faz a uma época passada [cada qual num século e em países diferentes], a um específico local que borbulha com novas idéias, teorias.  Em ambas as obras sentimos a eletricidade dos principais pensadores que se interconectam, trocam idéias, se referem uns aos outros e nos fazem desejar que tivéssemos sido contemporâneos de seus protagonistas: Kant, Daguerre, Goethe, entram e saem das páginas desse romance com a facilidade com que uma limusine leva Gil [Owen Wilson] das ruas de Paris contemporânea aos encontros com os mais famosos escritores e artistas radicados naquela cidade nas primeiras décadas do século XX.

A medida do mundo é um romance baseado nas biografias de dois dos maiores cientistas que por razões diferentes saem de suas zonas de conforto e medem o mundo:  Humboldt vem para a América do Sul e mede tudo o que vê, das montanhas às margens dos rios.  Sua procura é incessante.  Ambientada no Novo Mundo a narrativa assume característica de uma aventura exacerbada por um realismo fantástico.  Gauss, por outro lado, nunca saiu de seu torrão natal: mede o mundo através de equações matemáticas ancoradas nas estrelas e por indução.  Assim como a narrativa de Humboldt parece espelhar a aventura sul-americana, o estilo literário que envolve a vida de Gauss reflete sua vida mais precisamente dimensionada. Suas vidas aparecem em capítulos intercalados, com uma narrativa bem-humorada e cativante, não se tem em nenhum momento a sensação de estranheza, mesmo tendo o autor deliberadamente diferenciado a maneira de retratá-los.

Daniel Kehlmann

Daniel Kehlmann trata todo o texto com cativante ironia e humor, além de fazer com poucas e precisas pinceladas, um retrato da efervescência intelectual da época.  Acabamos percebendo que mentes brilhantes podem vir em qualquer formato. As vidas de Gauss e Humboldt são comparadas e contrastadas dando-nos uma visão generosa das diferentes maneiras de se atingir objetivos pessoais. Esse não é um livro em que descobrimos detalhes biográficos da vida de cada cientista: essa não é a proposta.  Temos sim, ao final do romance, uma percepção rica das dificuldades corriqueiras da época, fartamente adubadas pela extraordinária imaginação do autor que nos lembra de cheiros e sons; do desconforto das viagens em carruagens, das dores de noites dormidas em desconfortáveis colchões;  da arrogância da nobreza e de sua filantropia.  Tudo retratado com leveza e ironia.  Uma leitura deliciosa diferente do que se poderia esperar de um romance histórico, de uma biografia ou até mesmo de um livro sobre cientistas.  Invista nessa leitura, não se arrependerá.





Bullying: um crime social, onde todos têm sua dose de culpa, como mostrou Alonso Cueto

9 04 2011

Ilustração, Complete Well Being.

—-

—-

Na época em que comecei a faculdade era comum acreditarmos no conceito de que grande parte dos artistas – quer nas artes visuais, como nas literárias e outras – estava sempre alguns anos à frente da grande maioria das pessoas,  da sociedade em geral.  É possível que nas últimas décadas esse assunto tenha desaparecido ou tenha se tornado arcaico: a comunicação instantânea parece desestabilizar o preceito.  Quase não temos tempo de digerir o que nos aparece e, ainda, o que é novo hoje já se torna velho em questão de horas.  

Os eventos da semana no Rio de Janeiro – a execução de crianças por um homem desequilibrado que havia claramente sofrido de bullying na escola, como mostrou o jornal O GLOBO de hoje.  [ “De berço de rua a cova de indigente”, Caderno Especial, página 8] — não nos deixam parar de pensar nesse tipo de abuso.  Lendo esse artigo me lembrei dessa questão do artista estar preocupado com algum aspecto social que muitos ainda não sentiram.   Lembrei-me de como o autor de um romance, que por estar atento aos passos da sociedade, aos detalhes do dia a dia, projeta no seu trabalho, o entendimento, a discussão ou atualização de assuntos que nem sempre estão na “boca do povo”.   Foi pensando nesses passos um pouquinho à frente da sociedade que voltei a minha atenção ao  romance de Alonso Cueto, O sussurro da mulher baleia, [Planeta: 2007]  já resenhado aqui nesse blog,  em 3 de janeiro de 2010:  Alonso Cueto brilha com O sussurro da mulher baleia .  O romance que foi finalista  em 2007 do Prêmio Planeta-Casa América de Narrativa Ibero-Americana, aborda justamente o tópico do bullying na escola e as conseqüências que este bullying pode trazer.  Mostra claramente como esse é um crime social, em que  praticantes e vítimas sofrem.  Também são aqueles que se calam são vítimas.  Todos, todos que permitem que o bullying aconteça sofrem.  É uma doença social, virulenta e às vezes mortal.

—-

—-

—- 

O sussurro da mulher baleia é uma leitura necessária a quem deseja entender melhor os efeitos prolongados desse sofrimento.  Sua narrativa é dinâmica, moderna e não parece, talvez por ser de tão fácil leitura, tratar de um assunto tão importante e de tanto peso emocional.  Mas Alonso Cueto consegue mostrar como o bullying é um crime social. Cueto mostra como esses dois lados de uma mesma moeda afetaram duas meninas na escola, que eram amigas.   Ele revela também, numa cena final de grande sensibilidade,  como essa situação escolar é carregada através da vida de ambas as protagonistas e como o sofrimento de cada uma encontra repercussão na outra, fazendo-as interdependentes emocionalmente.  Recomendo mais uma vez a leitura desse romance não só pela atualidade do tema, mas pelo que sabemos ser verdade em casos de sofrimento contínuo de jovens adolescentes.  Se você ainda não parou para pensar nesse assunto e se ainda não leu este romance, faça-o.  Esta é a hora.