A mochila, poesia de Reynaldo Valinho Alvarez

30 06 2014

 

 

elizabeth beckerIlustração de Elizabeth Becker.

 

 

A mochila

Reynaldo Valinho Alvarez

 

Carrego na mochila, entre outros trastes,

três ou quatro verdades importantes.

O resto é de mentiras. São contrastes

que entrego às outras partes contrastantes.

A lira não me vale. São desastres

o que encontro nos outros caminhantes.

Na terra devastada, erguem-se as hastes

das lanças e dos canos fumegantes.

A mochila me pesa. As três verdades

ou quatro, já não sei, não pesam tanto,

mude-se o tempo e mudem-se as vontades.

O que me dói ou pesa, ou o que é um espanto

é que um modesto grama de inverdades

valha um tonel de torpe desengano.

 

 

Em: Galope do tempo, Reynaldo Valinho Alvarez, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro: 1997, p. 55





A árvore das palavras de Teolinda Gersão

28 06 2014

 

 

Acacias-in-Flower-Moralana-Scenic-Drive-800x531Kevin watersAcácias em flor na estrada cênica Moralana [Austrália]

Kevin Waters (Austrália, contemporâneo)

 

 

A leitura de A árvore das palavras me fascinou pela linguagem na primeira parte do romance, quando vemos o mundo através das impressões de Gita, menina crescendo em Moçambique nos anos anteriores à independência. Filha de uma portuguesa que se casa por conveniência com Laureano Capítulo, moçambicano, Gita, branca, de olhos claros, tem um relacionamento de cumplicidade com seu pai, de distanciamento com a mãe e de aproximação emocional com os negros do país.  O romance dividido em três partes com diferentes narradores, nesta primeira voz narrativa é de grande apelo emocional, fascinante mesmo, sobretudo quando percebemos a aproximação da menina aos africanos e seus costumes.

Na segunda parte conhecemos o mundo de Amélia, a portuguesa, que ganha a vida em Lourenço Marques [hoje Maputo] como costureira.  Sabemos suas ambições e frustrações. Os sonhos. A amargura. A desilusão financeira e emocional.  Descobrimos como decide se casar e ir de encontro ao desconhecido.  Mas, sobretudo somos apresentados à sua enorme inveja, aos ciúmes do sucesso dos outros, de qualquer outro.  Nessa parte também aprendemos, em menor detalhe é verdade, sobre os sonhos de Laureano Capítulo, quando procura uma esposa para formar uma família, com uma mulher decente, e que por ela se apaixonou simplesmente pela fotografia mandada de Portugal.

 

 

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Na terceira parte vemos Gita jovem adulta, resolvendo sua vida da melhor maneira que lhe é possível, re-avaliando o papel de Amélia em sua vida, tentando entendê-la. Seus primeiros romances e frustrações amorosas são pinceladas impressionistas. Moçambique cresce. É hora da independência.  O poder de Lisboa está desgastado, não vale nada. Voltamos a saber dos personagens secundários que fizeram parte de sua vida de criança. Tudo indica que eles aparecem unicamente para que se feche o ciclo narrativo e para que se vislumbre o futuro de um país descolonizado. Eles não fizeram parte ativa da trama nem na primeira parte nem na ultima.

O romance prende a atenção. É uma lição de prosa poética. Mas a narrativa oblíqua,  ainda que belíssima, fica sem direção. Há um único conflito que se resolve na segunda parte.  A história peca pela falta de diálogos, pela caracterização indireta dos personagens, com exceção de Amélia.  Essa sim, é um verdadeiro camafeu, um loquaz perfil de mulher, principalmente quando se apresenta com toda a pequenez de pensamento e emoção, e com toda sua aversão à verdade.  De fato, é justamente Amélia que é a personagem complexa da história,  a mais interessante. Todos os outros,  de Laureano a Gita, de Roberto a Loia não são desenvolvidos o suficiente para que se entenda suas angústias, suas frustrações no plano emocional.  Fazem parte de um pano de fundo.  Se éramos para saber tanto de Amélia e das possíveis frustrações e preconceitos do português vivendo na colônia, porque então ela praticamente não aparece na primeira parte e definitivamente não se encontra na terceira e última parte do romance?

Teolinda-Gersao2Teolinda Gersão

Por esses motivos, pela falta de tensão na trama, pela falta de resolução não posso considerar este romance uma obra prima de Teolinda Gersão. Desconheço suas outras publicações. Sei que é autora que já ganhou uma dezena de prêmios de literatura em Portugal. Mas fora sua prosa poética, pouco restou para mim de A árvore das palavras.





Refeições literárias, de quais você se lembra?

19 04 2014

Pierre-Auguste_Renoir_-_Luncheon_of_the_Boating_Party_-_Google_Art_ProjectO almoço dos canoeiros, 1881

Pierre-Auguste Renoir (França, 1841-1919)

óleo sobre tela, 130 x 173 cm

The Phillips Collection, Washigton DC

A revista Smithsonian Magazine deste mês traz um artigo intrigante de Erin Corneliussen.  O artigo refere-se ao novo livro de fotografias de Dinah Fried, intitulado Fictitious Dishes [Pratos fictícios]. As fotografias retratam refeições como descritas em conhecidas obras literárias. Elas trazem também as citações que as criaram. Muito interessante ver como uma frase de Herman Melville em Moby Dick sobre sopa de amêijoas; uma frase de Sylvia Plath sobre abacates; ou ainda talvez o mais famoso chá do mundo, o chá de Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll podem servir de inspiração para fotografias interessantes que nos remetem de volta à leitura. Sugiro que você clique no link aqui embaixo para ver as fotos.

Depois de ler o artigo e ver as fotos tentei me lembrar de cenas ou frases nas literaturas de língua portuguesa que mais me tivessem marcado.  Não tive muito sucesso, exceto por me lembrar que havia algumas cenas deliciosas em Senhora de José de Alencar.  Transcrevo portanto uma de algumas encontradas no romance.

Um bom domingo de Páscoa a todos vocês.

“Frutas da estação: abacaxis, figos e laranjas seletas, rivalizando com as maçãs, peras e uvas de importação, ornavam principalmente a refeição meridiana que os costumes estrangeiros substituíram à nossa brasileira merenda da tarde, usada pelos bons avós.

Havia também profusão de massas ligeiras, como empadinhas, camarões e ostras recheadas; além de queijos de vários países e doces de calda ou cristalizados. Os melhores vinhos de sobremesa desde o Xerez até o Moscatel de Setúbal, desde o Champanhe até o Constança, estavam ali tentando o paladar, uns com seu rótulo eloquente, outros com o topázio que brilhava através das facetas do cristal lapidado.

– Não tenho a menor disposição! disse Fernando obedecendo ao gesto de Aurélia e sentando-se à mesa.

– Ora! disse a moça com volubilidade. Para provar frutas e doces não é preciso ter fome; faça como os passarinhos. O que prefere? Um figo, uma pera, ou o abacaxi?

– É preciso que eu tome alguma cousa? perguntou Fernando com seriedade.

– É indispensável.

– Nesse caso tomarei um figo.

– Aqui tem; um figo e uma pera; é apenas um casal.

Seixas inclinou a cabeça; colocou o prato diante de si, e comeu as duas frutas, pausada e friamente, como um homem que exerce uma ação mecânica. Nada em sua fisionomia revelava a sensação agradável do paladar.

Aurélia que esmagava entre os lábios purpurinos bagos de uva moscatel, seguia com os olhos os movimentos automáticos de Fernando, e se não adivinhava, confusamente pressentia o motivo que atuava sobre seu marido.

Ergueu-se então da mesa, e saindo fora, à beirada da casa, onde já fazia sombra, divertiu-se em dar de comer aos canários e sabiás, que festejaram sua chegada com uma brilhante abertura de trinados e gorjeios.

Pensava Aurélia que sua presença porventura acanhava ao marido; e buscava aquele pretexto para arredar-se um instante e deixá-lo mais livre de cerimônias. Desvaneceu-se porém essa idéia do seu espírito, quando espiando pela fresta da janela, viu Seixas imóvel, com os olhos fitos na parede fronteira, e completamente absorto.

Depois do lanche, Aurélia convidou o marido para darem uma volta pelo jardim; mas havia senhoras nas janelas da vizinhança, e a moça não quis expor-se aos olhares curiosos. Ela não era a noiva feliz e amada; mas as outras a supunham, e tanto bastava para que seu pudor a recatasse às vistas dos estranhos.

Em: Senhora, José de Alencar, 1875, em domínio público.

 

 

Veja as fotos dessas refeições e seus respectivos livros.





Palavras para lembrar — Elie Wiesel

31 03 2014

Antonio Vidal RollandJovem lendo

Antonio Vidal Rolland (Espanha, 1889-1970)

“Há uma diferença entre um livro de duzentas páginas desde o início e um livro de duzentas páginas que são o resultado de um original de oitocentas páginas. As seiscentas estão lá. Só que você não as vê.”

Elie Wiesel





No cinema, um romance epistolar indiano que encanta: “The Lunchbox”

27 03 2014

Christine Comyn -- contemplaçãoContemplação

Christine Comyn (Bélgica, 1957)

Aquarela sobre papel

Em 2008 quando terminei a leitura de A Trégua de Mário Benedetti sabia que havia lido um romance que me afetara profundamente. Mas não tinha imaginado que de quando em quando, me lembraria dessa obra pequenina e potente do escritor uruguaio.  Hoje, passados seis anos, sua presença ainda se faz sentir.  Sábado, quando saí do cinema depois de ver o filme indiano The Lunchbox, quase imediatamente me lembrei dos pequeninos capítulos, quase parágrafos únicos, verdadeiras pedras preciosas de sutileza, que compõem  A Trégua, fazendo do romance a joia rara que me encantou.

Há inúmeros paralelos entre o filme indiano e o romance uruguaio. Ambos são brilhantes. São sutis nas emoções que revelam. E tratam de ritos de passagem.  Em geral usamos esse termo para descrever a literatura centrada em um adolescente que por uma determinada aventura se torna adulto, como no livro de J. D. Salinger, O apanhador no campo de centeio. Mas aqui trata-se de homens adultos à beira da aposentadoria, que por motivos diversos se encontram em situações semelhantes, capazes, talvez, de reencontrar o gosto pela vida. Em ambas as obras, mesmo que por diferentes meios, a sutileza dos sentimentos é tocante.

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Em meio a pilhas de papéis nas mesas dos escritórios, vivendo em um estado quase mecânico, em total solidão, os personagens principais do livro e do filme passam pela vida quase desapercebidos, resignados, incapazes de reivindicar uma existência melhor.  Competentes, mas com suas vidas sem brilho.  E eis que por uma pequena intervenção do destino um raio de luz passa por uma porta entreaberta trazendo a possibilidade de outra vida.  Talvez.  A narrativa em ambos os casos é por meio de elipses, no texto são as entradas no diário de Martín Santomé; no filme são os recados deixados por Irrfan Khan no papel de Saajan Fernandez. Irmãos na delicadeza dos sentimentos, na sutileza da narrativa essas duas obras primas dificilmente são esquecidas.

No filme a extraordinária interpretação de Irrfan Khan, que preenche o seu papel com uma simples mudança no olhar precisa ser ressaltada. E a beleza de Nimrat Kaur, um boa atriz com certeza, não pode ser ignorada. Um belíssimo filme,  poesia em imagens.  Se tiver a oportunidade, não perca.





A boa literatura de além-mar

18 03 2014

OLYMPUS DIGITAL CAMERALeitora e flores, 2004

Márcio Melo (Brasil, contemporâneo)

acrílica sobre tela, 76 x 61 cm

www.marciomelo.com

Nos dias de hoje tenho mais prazer com a literatura lusitana do que com a produzida no Brasil.  São raros os escritores brasileiros cuja ficção me dá prazer. Acontece com a literatura, o que acontece com o cinema, estamos em pontos opostos sobre a percepção do que é qualidade. A produção nacional não me seduz. Nos dois casos me parece que escritores e diretores falam para seus colegas, escrevem e filmam obras para que seus colegas leiam ou assistam e não para um público, como eu (e são muitos de nós nesse barco) sedento por uma boa história, contada de maneira criativa mas sem didatismo político para que aceitemos goela abaixo essa ou aquela nova moda. A história bem contada, bem narrada, que aquece a alma do leitor existe nas exceções brasileiras, e as resenhas nesse blog mostram os nomes de autores brasileiros que aprecio.  Por aqui, no entanto, estamos fortemente dominados pela teoria de que a arte resolve problemas sociológicos. Não é o caso e nunca foi.  Literatura ou cinema com agenda política é  coisa adolescente e entediante. Com o passar dos anos se perde, é encafifada com teias de aranha, esquecida nas prateleiras inalcançáveis das bibliotecas até ser tema de alguma dissertação para um estudante de doutorado.

Deve ser por isso que a literatura produzida nas duas últimas décadas, em outras versões da minha língua materna, me atrai tanto.  Não falo só de Portugal, mas dos países de língua portuguesa do continente africano.  Com eles não me sinto lendo tratados sociológicos sobre personagens que trilham a periferia da sociedade. O encantamento que tenho com Miguel Sousa Tavares, Dulce Maria Cardoso, Ondjaki, Saramago, Agualusa, Felipa Melo, Gonçalo M. Tavares, Germano Almeida, Mia Couto entre outros raramente encontra eco dentro de mim pelo que é produzido deste lado do Atlântico.

Hoje isso acontece ainda uma vez mais. Hoje, estou cantando, enrolando a língua no prazer de pronunciar as palavras que conheço, mas que me vêm com conotações diferenciadas, com usos criativos.  Estou degustando a prosa de José Luís Peixoto.  O que me agrada? A linguagem entre o coloquial e o clássico; a maneira econômica e pausada de narrar; a inversão de imagens que surpreende a narrativa [como no texto abaixo quando diz:  “Os barulhos faziam-lhe perguntas…”] Uma escrita quase poética, com elipses que deixam espaço para a nossa imaginação.  O livro chama-se Livro.

“(1960)

O comboio era incompreendido pelo Galopim.

Encostado à janela, de boca aberta via os campos a passarem e sentia o barulho do comboio no encosto, no rabo sentado, nos pés dentro dos sapatos. As nuvens afastavam-se mais devagar do que as árvores, que passavam a zunir.  Olha um rapaz lá além a guardar meia dúzia de ovelhas. Galopim apontava para a janela, mas os outros rapazes da sua idade pouco ligavam. Usava um fato cinzento que lhe tinha sido oferecido por uma viúva. É uma boa vantagem terem o mesmo tamanho, disse a viúva. Mas não tinham. O Galopim era encorpado, mas o falecido, velho grande, era mais encorpado ainda. As calças presas por um cinto, faziam foles na zona da cintura. As mangas do casaco chegavam-lhe quase às pontas dos dedos. A viúva também disse que era uma boa vantagem calçarem o mesmo número, mas também não calçavam. Os sapatos iam seguros por palmilhas de cartão, ásperas.

A cidade, os olhos de Galopim rebolavam-se pela cidade. Os barulhos faziam-lhe perguntas a que não sabia responder. As casas levantavam-se diante dele.  Os pombos acalmavam-no em voos sobre praças e avenidas. Ao longo dos passeios, evitando e ultrapassando pessoas desconhecidas, o Galopim seguia os outros rapazes de sua idade.  E entraram numa porta aberta, subiram por umas escadas estreitas, degraus de madeira gasta, que cheiravam a musgo seco e que escureciam.

O Galopim continuou a segurar a maleta quase vazia. Estava ligeiramente despenteado. Tentou escutar com muita atenção aquilo que foi dito pelo rapaz da sua idade, muito sério, e pela mulher do peito para cima, que estava sentada atrás de um balcão.

Somos oito.

Mas havia um gato, peludo, que passava pelas pernas dos outros rapazes da sua idade, pelas suas, e que, com um pulo, chegou a subir para cima do balcão. O Galopim deixou de escutar a conversa para seguir os movimentos do bicho. A mulher não se interessou quando estendeu a chave ao rapaz com quem tinha estado a falar. No fundo de um corredor, atrás de uma porta, estava o quarto: meia dúzia de beliches de ferro, um canto do teto desmoronado, nuvens negras de umidade nas paredes, uma mesa pequena e velha. Os rapazes da idade do Galopim estavam alegres. No dia seguinte, iam às sortes. Aos olhos deles, a cidade parecia azeite de fritar. Era quase de noite.”

Mais tarde o capítulo seguinte começa encantador:

“(1964)

As paredes estavam mais resignadas que os pombos.

Era uma hora prateada. O fim da tarde atravessava o tempo e entrava pela porta aberta do quintal. O fim da tarde atravessava o vento. Ouvia-se o restolhar das folhas das árvores, ao longe, mas ouvia-se também as asas dos pombos a riscarem o ar, gemidos cortados, mas ouvia-se também o lume a arder, as chamas a fazerem estalar o madeiro, mas ouvia-se também a água”.

Ou o início da segunda parte deste capítulo:

“O Mondego tinha excelentes margens para vomitar.”

Em: Livro, José Luís Peixoto, São Paulo, Cia das Letras: 2012, pp: 71-72; 75, 76.

A narrativa surpreende não só pelo conteúdo mas pela maneira como é mostrado.  Ainda não acabei de ler o livro, mas já antecipo uma leitura que terá me satisfeito quando chegar ao final.





Palavras para lembrar — Stéphane Mallarmé

5 02 2014

Nicole Ladrak, readingMoça lendo

Nicole Ladrak (Holanda, contemporânea)

Pintura em tecido, 115 x 130 cm

www.nicoleladrak.nl

“Tudo no mundo existe para, algum dia, terminar em um livro.”

Stéphane  Mallarmé (1842-1898)





Livro, um ótimo presente!

15 12 2013

WolfgangALT Leitora com bebe e gato, Wolfgang Alt (2012, ost, 60x80cm).Leitora com bebê e gato, 2012

Wolfgang Alt ( Alemanha, contemporâneo)

óleo sobre tela, 60 x 80 cm

Este foi um ano difícil para manter a leitura de 3 a 4 livros ficção de  por mês. Acabei lendo um pouco mais que isso, mas a maioria de não-ficção, em inglês ou francês, porque grande parte das áreas que me interessam não têm viabilidade comercial para as editoras por falta de público no Brasil. Mesmo assim tenho alguns livros para recomendar no campo da ficção como presentes de Natal. Recomendo também um de não-ficção. Todos têm resenha completa aqui, siga o link em cada título listado para maior detalhamento.

Nota: A peregrina é uma leitora assídua, há muitos anos e bastante exigente. Não recebe livros de graça para fazer resenhas, nem é paga por nenhuma casa editorial para se manifestar a respeito dos títulos listados.

Ficção:

Nihonjin, Oscar Nakasato

O melhor livro de ficção brasileira que li este ano. A história se desenvolve em torno da imigração japonesa no Brasil. A questão da identidade do imigrante e o caso especial dos japoneses.  Um poema em prosa.

Os olhos amarelos dos crocodilos, Katherine Pancol

O primeiro de uma trilogia da escritora francesa que teve sucesso internacional. É um livro que não se consegue deixar de lado.  As “aventuras” contemporâneas levam a questões de autoestima e sucesso. .  Há um pouco de fantasia. Muito bom.

O silêncio das montanhas, Khaled Hosseini

Definitivamente um romance mais complexo do que foi o O Caçador de Pipas do mesmo autor.  Achei O silêncio das montanhas mais rico e profundo, dando uma visão diferente sobre a vida no Afeganistão contemporâneo.

O ancião que saiu pela janela e desapareceu, Jonas Jonasson

Esta é uma grande viagem de aventuras extraordinárias de um dos personagens mais incríveis que encontrei recentemente. Divertidíssimo, uma narrativa que consegue compreender o século XX inteiro. Entretenimento da melhor qualidade.

Acabadora, Michela Murgia

Belíssima história que nos leva a ponderar sobre a eutanásia e sobre a ética.  Texto sensível. Recomendo.

O advogado do diabo, Morris West

Este é um clássico de meados do século passado que continua relevante.  Foca no que é necessário para que a igreja considere alguém santo.  Mas no meio do caminho nos mostra como viver.  Está em edição de bolso.

Não-Ficção

A vida não é justa, Andréa Pachá

Coletânea de casos considerados pela juíza Andréa Pachá que nos mostram que a vida de todo mundo é muito mais interessante do que o roteiro de qualquer novela.  Ótima visão da maneira de viver dos brasileiros.





A natureza humana em O advogado do diabo de Morris West

9 11 2013

José LIMA, Interior de Igreja, OST, Capela da Ordem III de S. Francisco, Olinda, PE, 1972, 60x73cm,Interior de Igreja, 1972

[Capela da Ordem Terceira de São Francisco, Olinda, PE]

José Lima (Brasil,?-?)

óleo sobre tela, 63 x 70 cm

Eu já havia lido O advogado do Diabo de Morris West na minha adolescência.  Tinha gostado.  Mas,  por causa do novo papa, Francisco I,  a conversa no grupo de leitura caiu sobre a Igreja Católica e resolvemos voltar a este livro. Os dezessete membros do grupo já haviam lido esse romance na adolescência, o que atesta para sua popularidade.  Este e As Sandálias do Pescador do mesmo autor. Qual não foi então a minha surpresa, ao descobrir enquanto lia o romance, que eu não me lembrava de quase nada da história! Foi como ler um novo livro. E que livro!  Prazer do início ao fim.

Morris West não foi um autor popular por demagogia ou marketing. É um ótimo escritor. Cuida dos personagens. Introduz nuances psicológicas, problemas sociais, e, além disso, é um excelente observador da natureza humana, de suas frustrações e insatisfações.  Conhece e retrata os valores de cada personagem com abundância de detalhes e economia de palavras que fazem um texto enxuto, preciso e ponderado. Encantador.

O título O advogado do Diabo – por favor, não confundir com o filme mais recente com o mesmo nome que não tem nada a ver com este livro – se refere ao processo dentro da Igreja Católica pelo qual todos aqueles que estão sendo considerados para beatificação precisam passar. Entendo que esse processo sofreu mudanças depois das reformas trazidas à Igreja pelo Papa João XXIII, mas o romance de Morris West é anterior a 1963 e nele vemos a Igreja Católica como ainda operava depois da Segunda Guerra Mundial. Mas então, qual a razão do título?  A Igreja não pode confiar só no que seus fiéis lhe dizem. Precisa ter certeza de que os milagres aconteceram, de que os candidatos eram dignos.  Chamavam de advogado do Diabo, aquele membro da própria igreja, que é designado para descobrir as falhas de caráter, de ações, de intenções de quem é considerado para beatificação. O advogado do Diabo é o religioso que tem como dever provar que o candidato à santificação não deveria ser santificado. É o promotor digamos assim e não o advogado de defesa do candidato à santificação.

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Este é o enredo.  Aparente.  Mas  o texto pode e deve ser lido em diferentes níveis.  Além da perseguição à verdadeira vida do possível santo, processo que corre como em um livro policial, vemos o mundo pelos olhos de um homem submerso em uma crise emocional e de identidade: o Monsenhor Maredith Blaise, católico de nacionalidade inglesa, que há muito mora na Itália, está distante do mundo e de si. Encarregado da investigação e diagnosticado com câncer terminal, encontra-se contrabalançando duas empreitadas distintas — viver com dignidade e julgar a santidade de outrem — certo ele só tem a certeza de que o futuro é de dias contados. Portanto, aproxima-se dessa investigação de maneira distante e duvida do acerto de sua escolha.  Temos uma visão do que lhe aflige pelas palavras do Cardeal Eugenio Marotta que, ao lhe dar a missão de advogado do diabo, o descreve assim: “Não há paixão na sua vida, meu filho. O senhor nunca amou uma mulher, nem odiou um homem, nem sentiu piedade por uma criança. Apartou-se demasiado tempo e é, agora, um estranho no seio da família humana. Jamais pediu nada nem deu nada. Jamais conheceu a dignidade da privação nem a gratidão de um sofrimento compartilhado com outrem. Eis aí a sua enfermidade. Eis aí a cruz que o senhor talhou para os próprios ombros. Aí é que começam não só as suas dúvidas, como também os seus temores…pois um homem que não pode amar o seu semelhante tampouco pode amar a Deus”.

Confrontado, mais tarde, com a vida do milagroso Giàcomo Nerone, enquanto julga a possibilidade de beatificação, o monsenhor tem a oportunidade de fazer amigos e desfrutar do calor de suas companhias: Aurélio, o Bispo de Valenta se mostra uma pessoa interessante e genuinamente solícito; enquanto a seriedade e determinação do judeu e médico da aldeia Aldo Meyer movem sua admiração.  Tecidos nessas amizades estão os verdadeiros sentimentos de Meredith Blaise que reaparecem e tomam vigor, na mesma proporção em que seu corpo se deteriora. Mas a meio caminho floresce a compaixão, o amor ao próximo e o entendimento de que as pessoas são o que são e tudo o que se pode fazer é mostrar a elas as escolhas que têm.  Cada qual tomará o seu caminho e será responsável por ele.

morris westMorris West (1916-1999)

Publicado em 1959, nem a Igreja nem o mundo são mais os mesmos que aparecem no romance. Mas isso não afeta o seu entendimento, o prazer da leitura e, sobretudo os princípios humanistas expostos tão sucinta e claramente pelo autor. Tudo embalado em uma das mais interessantes narrativas que encontrei nos últimos tempos: Morris West consegue fazer dos vários e muitos habitantes da pequena  Gemello Minore— do candidato a santo ao padre local e sua empregada; do médico à amante do “santo” e seu filho bastardo; da já-nem-tão-jovem condessa ao seu companheiro homossexual e pintor medíocre  — , faz de todos, verdadeiros personagens, tridimensionais, com dilemas morais e de sobrevivência que os leva a ações nem sempre lógicas; mas mesmo que não simpatizemos com eles ou seus problemas, conseguimos entendê-los graças à habilíssima narrativa com que nos são apresentados.  A prosa refinada, com alguns parágrafos que nos fazem querer recortar o livro, separá-los e meditar sobre suas implicações, é a cereja do bolo.  Este é um romance policial, histórico,  psicológico; rico em questões de ética, pronto para o debate moral. Como um bom livro acaba mais ou menos em aberto, deixando que o leitor defina por si e para si o verdadeiro significado do que lhe é apresentado. Um romance que entrega muito mais do que se espera.  E como tal, prova o grande escritor que o produziu.  Segue então, muito recomendado.  Vou reler outros do autor.





Uma manhã, texto de Pardal Mallet

28 10 2013

ELISEU VISCONTI, LEITURA OST, 1917, 56X46 COL PARTLeitura, 1917

Eliseu Visconti (Itália, 1866 – Brasil,1944)

óleo sobre tela, 56 x 46 cm

Coleção Particular

“Como no relógio da parede soassem quatro horas, Nenê, num movimento de desânimo, deixou escorregar-lhe pelo corpo abaixo o jornal que estava a ler distraidamente. Algum pensamento triste acabrunhava-a. Tanto que por sob as madeixas sedosas da franja adivinham-se umas rugazinhas pequeninas a franzir-lhe a testa, aproximando-lhe os sobrolhos levemente arqueados. Veio-lhe um gesto grande de inquietação e com o pezinho delicado batia febrilmente no assoalho. Depois o braço torneado e alvadio, nas curvaturas graciosas fortemente desenhado pela manga estreita do casaco, apoiou-se ao encosto da cadeira de balanço para suster mais comodamente a cabeça gentil dos traços finos numa pureza ideal de Juno. E dali seus olhos verde-azulados — imensos lagos de ternura a desafiar os pescadores do amor, volveram-se languidamente, absortos na contemplação daquele quadro holandês todo feito com a mansuetude da vida caseira.

A luz viva de um sol, que ao termo da viagem galopava ligeiro com pressas de pernoitar na grande hospedaria do ocaso, entrava francamente pelas janelas abertas clareando aquele salão de gosto antigo, de uma grande prodigalidade de madeiras severas e embaciadas, sem o falso brilho dos vernizes. No fundo escuro paredes forradas em imitação de grandes panos de carvalho embutidos em largos caixilhos de mogno; e a harmonizar-se com elas uma pesada mobília Luís XIV de altos espaldares cheios de obras de entalhe. Apenas como nota vibrante e alegre — o refrangir dos cristais e dos serviços de eletro-prata a rebrilhar no grande armário envidraçado; e no centro da casa a mesa elástica já convenientemente preparada para o jantar com a toalha alvejante e o branco luzidio dos pratos dentre os quais se erguia, a tocar quase no lustre bronzeado, a fruteira de bacará — pirâmide alaranjada que se terminava floridamente num grande ramo de crótons.

No meio deste espetáculo, como a imagem da vida, sonolenta nas paixões, petrificada em sua impassibilidade, o vulto nobre e altivo de d. Augusta. Sentada junto à janela oposta, em uma cadeira baixa a contrastar com a uniformidade da mobília, tendo junto a si uma pequena mesa de costura sobre a qual repousava uma cestinha de vime, entretinha-se em alinhavar umas camisinhas de criança que ia jogando no chão à medida que as aprontava. Suas mãos longas e delicadas de aristocrata moviam-se em grande volubilidade. E por sobre tudo isto a sua cabeça de velha que atravessou uma existência calma, nua de desgostos, conservando a sua pele acetinada, tendo apenas branqueado os cabelos ao suceder dos anos.

Uns cabelos formosos e bastos que penteava em grandes bandos por cima das orelhas às quais se suspendiam uns compridos brincos de charão.

E Nenê esquecia-se do tempo. Achava aquilo tão bonito. Vinha-lhe uma sensação boa de felicidade a beijar-lhe o colo quase nu sob o rendilhado do casaco. Encolhe-se toda na cadeira num gesto elegante de gata friorenta e deixou que o seu olhar boiasse a flux do lago de mansidões. Para que incomodar-se? Ela sentia-se tão bem naquele descanso do organismo inteiro. Demais não estava com fome. Não valia a pena inquietar-se por tão pouco. O jantar podia muito bem ser demorado um bocadinho. E deixou que a embalasse o oscilar da cadeira, seu pezinho delicado surgindo de entre as saias a desenhar-lhe os contornos sensuais da perna”

[Prim-

Em: O Hóspede, Pardal Mallet, Rio de Janeiro:1887, primeiro capítulo, EM DOMÍNIO PÚBLICO