O cavalinho branco, poema infantil de Eloí E. Bocheco

27 08 2008

 

CAVALINHO BRANCO

 

 

Eloí E. Bocheco

 

O cavalinho branco

come estrelas e

raios de luar.

De noite,

o relincho do cavalinho

brilha tanto

que dá pra enxergar:

os piolhos da cobra,

a cicatriz no pé

da centopéia,

a unha encravada

do tamanduá,

o pesadelo da coruja

e até os ninhos

dos sabiás nas árvores.

Ontem o cavalinho

deu um relincho

tão iluminado

que clareou

a outra ponta do mundo.                                      

 

Do livro: Ô de casa, Griphus, 2000

 

Eloí Elisabete Bocheco, Campos Novos, SC — professora, formada em Letras pela Universidade de Passo Fundo – RS.  

Obras:

 

Uni… duni…téia… (1998 )

Ô de casa (2000)

O abraço mágico (2002)





Minha Terra — Poema infantil — LUIZ PEIXOTO — 3a série

23 08 2008
Nicolas Antoine Taunay (França 1755-1830) Vista do Rio de Janeiro

Nicolas Antoine Taunay (França 1755-1830) Vista do Rio de Janeiro, Instituto Ricardo Brennand, Recife

 

MINHA TERRA

 

 

Luiz Peixoto

 

 

Minha terra

tem uma índia morena

toda enfeitada de penas,

que anda caçando ao luar.

 

Minha terra

tem também uma palmeira,

parece a rede maneira,

ao vento se balançar.

 

Minha terra,

que tem do céu a beleza,

que tem do mar a tristeza,

tem outra coisa também:

 

Minha terra,

na sua simplicidade,

tem a palavra saudade,

que as outras terras não têm.

 

 

 

 

Luiz Carlos Peixoto de Castro, (RJ 1889 – RJ 1973). Foi poeta, letrista, cenógrafo, teatrólogo, diretor de teatro, pintor, caricaturista e escultor.





Terra Natal — poema para 3a série — D. Aquino Correia

18 08 2008

Menino Índio de Mato Grosso.  Foto de MARC FERREZ, 1896.

 

Menino Índio de Mato Grosso. Foto de MARC FERREZ, 1896.

Terra Natal

 

                                    D. Francisco Aquino Correia

 

 

Nasci à beira

Da água ligeira,

Sou paiaguá!

De Sul a Norte,

Tribo mais forte

Que nós não há.

 

Nas mansas águas,

Vive sem mágoas

O paiaguá;

O seu recreio,

O seu enleio

No rio está.

 

Nele me afundo,

Nado no fundo,

Surjo acolá;

E nem há peixe,

Que atrás me deixe,

Sou paiaguá!

 

Se faz soalheira,

Durmo-lhe à beira,

Ao pé do ingá;

Mas se refresca,

Lá vai à pesca

O paiaguá!

 

E quando guio,

À flor do rio,

A minha ubá,

Nem flecha voa,

Como  a canoa

Do paiaguá!

 

Um  dia os brancos,

Dentre os barrancos,

Surgem de lá;

Mas, em  momentos,

Viram quinhentos

Arcos de cá.

 

Na luta ingente,

Que eternamente

Retumbará,

Fez quatrocentas

Mortes cruentas

O paiaguá.

 

Não!  O emboaba,

Em nossa taba,

Não reinará!

Nós coalharemos

A água de remos,

Sou paiaguá!

 

Nas finas proas

Destas canoas,

Triunfará,

Por todo o rio,

O poderio

Do paiaguá!

 

Nasci à beira

Da água ligeira,

Sou paiaguá!

De Sul a Norte,

Tribo mais forte

Que nós não há!

 

 

D. Francisco Aquino Correia ( Cuiabá, MT 1885 – São Paulo – 1956)  arcebispo de Cuiabá.

 

 

Do livro:

 

Vamos estudar?: 3a série primária, Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro,  Agir: 1961. 12a edição.





Bailado Russo — poema infantil de Guilherme de Almeida

14 08 2008

Bailado Russo

 

REYNALDO FONSECA (1925) O Pião – Óleo s/ tela – 70 x 50 cm – ass. sup. esquerdo e verso 2002.

REYNALDO FONSECA (1925) O Pião – Óleo s/ tela – 70 x 50 cm – ass. sup. esquerdo e verso 2002.

 

 

 

 

 

A mão firme e ligeira

puxou com força a fieira:

e o pião

fez uma eclipse tonta

no ar e fincou a ponta

no chão.

 

É o pião com sete listas

de cores imprevistas.

Porém,

nas suas voltas doudas,

não mostra as cores todas

que tem:

 

— fica todo cinzento,

no ardente movimento…

E até

parece estar parado,

teso, paralisado,

de pé.

 

Mas gira.  Até que aos poucos,

Em torvelins tão loucos

assim,

já tonto, baboleia,

e bambo, cambaleia…

Enfim,

Tomba.  E, como uma cobra,

Corre mole e desdobra

então,

em hipérboles lentas,

sete cores violentas,

no chão.

 

Guilherme de Almeida

 

 

Guilherme de Andrade e Almeida (SP 1890- SP 1969) foi um advogado, jornalista, poeta, ensaísta e tradutor brasileiro.

 

 

Obras:

 

Nós (1917);

A dança das horas (1919);

Messidor (1919);

Livro de horas de Soror Dolorosa (1920);

Era uma vez… (1922);

A flauta que eu perdi (1924);

Meu (1925);

Raça (1925);

Encantamento (1925);

Simplicidade (1929);

Você (1931);

Poemas escolhidos (1931);

Acaso (1938);

Poesia vária (1947);

Toda a poesia (1953).

 

Do livro:  Antologia Poética para a infância e a juventude, Henriqueta Lisboa, Rio de Janeiro, INL-MEC, 1961.





A galinha cor de rosa, poema infantil de DUDA MACHADO

11 08 2008
A Galinha Cor de Rosa, de Keith Norval.

A Galinha Cor de Rosa, de Keith Norval.

 

 

A galinha cor-de-rosa

 

Era uma galinha cor-de-rosa,

Metida a chique, toda orgulhosa,

Que detestava pisar no chão

Cheio de lama do galinheiro.

 

Ficava no alto do poleiro

E quando saía do lugar,

Batia as asas para voar.

Mas seus pés acabavam na lama.

 

Aí armava o maior chilique,

Cacarejava, bicava o galo,

E depois, com ar de rainha,

Lavava os pés numa pocinha.

DUDA MACHADO

Do livro:

Histórias com poesia, alguns bichos e Cia. Duda Machado, Editora 34:2003

Carlos Eduardo Lima Machado, Duda Machado, nasceu em Salvador, BA em 1944. poeta professor de literatura e tradutor.  Tem diversos livros infantis entre outros publicados.

 

 

 





Uma volta no sertão com Aleilton Fonseca: Nhô Guimarães

7 08 2008
José Ferraz de Almeida Júnior, (Brasil 1850-1899), Caipira picando fumo, 1893, ost, Pinacoteca do Estado de São Paulo

José Ferraz de Almeida Júnior, (Brasil 1850-1899), Caipira picando fumo, 1893, ost, Pinacoteca do Estado de São Paulo

 

Foi com imenso prazer que passei os dois últimos dias às voltas com o romance Nhô Guimarães, de Aleilton Fonseca, publicado em 2006, pela Editora Bertrand Brasil.  O romance leva o subtítulo Romance: homenagem a Guimarães Rosa.  Confesso que este foi o meu primeiro contato com o escritor.  Uma amiga recomendou calorosamente o livro.  E fiquei feliz de tê-lo feito porque quem saiu lucrando fui eu!

 

A primeira vista eu não teria por minha espontânea vontade selecionado este livro para ler.  Simplesmente porque não acredito em homenagens do gênero.  Em geral as obras feitas com esta intenção não passam de imitações de estilo que parecem bastante pedestres para até mesmo o leitor menos sofisticado.  E quando feitas para homenagear  um escritor cujo estilo foi único, responsável por uma marca indelével na literatura brasileira do século passado, o perigo, a tentação da pura imitação parecem ainda mais sedutores.  Mas confesso que Aleilton Fonseca me surpreendeu.  Seu romance Nhô Guimarães consegue se situar sozinho e ganhar um lugar de destaque na produção literária da virada do século, sem qualquer traço de imitação.

 

Acredito que deva ter sido difícil para o autor decidir se valeria à pena ou não colocar o subtítulo.  Se não o colocasse, muitos teriam simplesmente ignorado o livro com a rápida leitura do estilo dizendo: Mas quem que ele pensa que é?  Um Guimarães Rosa? Por outro lado, colocando o subtítulo há sempre a tentação, para quem lê o livro, de dizer: o autor recriou o grande autor Guimarães Rosa, como se de repente, por alguma clonagem pudéssemos esperar um texto de Guimarães Rosa.  Esse romance não merece nenhuma das duas ponderações.

 

 Aleilton Fonseca tem um estilo próprio.  Possui uma maneira de narrar elegante e sedutora.  Sua linguagem tem muito do espírito de Guimarães Rosa, mas não o imita.  O que ambas têm em comum é a grande naturalidade, a sensação de que as palavras vem da alma brasileira.  Só assim podemos explicar porque palavras não encontradas no nosso dia a dia parecem ter sempre existido, são imediatamente compreendidas como se refletissem um mundo que nós temos em comum; quase que uma meta-linguagem radicada no nosso inconsciente coletivo.

 

Este é quase um livro de contos.  Aleilton Fonseca trabalha numa das tradições mais antigas da narrativa, que é a aparência de transcrição de uma narrativa oral interligando diversos causos.  Não difere do que encontramos nas Mil e Uma Noites, no Decameron e em muitas outras obras clássicas. 

 

Há dois personagens centrais:  Nhô Guimarães e Manu que trocam histórias, causos do sertão, das gentes do interior, de suas maneiras, modos, vinganças e paixões.  Tudo com muita aceitação da natureza humana.  Estes são interlocutores convictos de que cada ser humano tem  seu destino e  sua maneira de ser.  Não há julgamentos necessariamente, simplesmente uma constatação da inevitabilidade das voltas que o mundo dá.  Manu é uma excelente contadora de histórias, sozinha, ela nos conta como o narrador precisa render com o assunto: quem proseia precisa imaginar, palavrear, distrair o parceiro.  Isto é o certo, as novidades boas e compridas.  A verdade é só um começo.  O melhor mesmo da história é o capricho da prosa [p.40].

 

Aleiton Fonseca certamente regeu com mestria a prosa cantada do sertão.  Com ele é um grande prazer nos enveredarmos nos caminhos do interior; nos detalhes das vidas contadas e cantadas e nos embrenharmos nas tramas ora trágicas, ora cômicas, mas acima de tudo humanas, que revelam a riqueza das experiências sertanejas.  Nota dez para este livro!  Vá, compre-o.  Você não vai se arrepender.

O escritor Aleilton Fonseca

O escritor Aleilton Fonseca





A boneca — poesia infantil de Olavo Bilac

2 08 2008
A boneca quebrada ilustração de Cristina Rosetti

A boneca quebrada ilustração de Christina Rossetti

 

 

A  BONECA

 

 

Deixando a bola e a peteca,

Com que inda há pouco brincavam,

Por causa de uma boneca,

Duas meninas brigavam.

 

Dizia a primeira: “É minha!”

  “É minha!” a outra gritava;

E nenhuma se continha,

Nem a boneca largava.

 

Quem mais sofria (coitada!)

Era a boneca. Já tinha

Toda a roupa estraçalhada,

E amarrotada a carinha.

 

Tanto puxaram por ela,

Que a pobre rasgou-se ao meio,

Perdendo a estopa amarela

Que lhe formava o recheio.

 

E, ao fim de tanta fadiga,

Voltando à bola e à peteca,

Ambas, por causa da briga,

Ficaram sem a boneca…

 

                                                        Olavo Bilac

 

 

Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (RJ 1865 — RJ 1918 ) Príncipe dos Poetas BrasileirosJornalista, cronista, poeta parnasiano, contista, conferencista, autor de livros didáticos.  Escreveu também tanto na época do império como nos primeiros anos da República, textos humorísticos, satíricos que em muito já representavam a visão irreverente, carioca, do mundo.  Sua colaboração foi assinada sob diversos pseudônimos, entre eles: Fantásio, Puck, Flamínio, Belial, Tartarin-Le Songeur, Otávio Vilar, etc., e muitas vezes sob seu próprio nome.  Membro fundador da Academia Brasileira de Letras. Criou a cadeira 15, cujo patrono é Gonçalves Dias.  Sem sombra de duvidas, o maior poeta parnasiano brasileiro. 

 

 

Muito antes de Fernando Pessoa dizer que sua pátria era sua língua, já Olavo Bilac havia proclamado:  A Pátria não é a raça, não é o meio, não é o conjunto dos aparelhos econômicos e políticos: é o idioma criado ou herdado pelo povo.

 

Obras:

 

Poesias (1888 )

Crônicas e novelas (1894)

Crítica e fantasia (1904)

Conferências literárias (1906)

Dicionário de rimas (1913)

Tratado de versificação (1910)

Ironia e piedade, crônicas (1916)

Tarde (1919); Poesia, org. de Alceu Amoroso Lima (1957), e obras didáticas.

Outras ilustrações de Christina Rossetti neste blog:

 

Gato e Rato

Os músicos de Bremen

 

 





Xadrez — poesia infantil de Sidonio Muralha

31 07 2008

 

 

 

Xadrez    

 

 

É branca a gata gatinha

É branca como farinha.

É preto o gato gatão

É preto como o carvão.

E os filhos, gatos gatinhos,

São todos aos quadradinhos.

Os quadradinhos branquinhos

Fazem lembrar mãe gatinha

Que é branca como a farinha.

Os quadradinhos pretinhos

Fazem lembrar pai gatão

Que é preto como carvão

Se é branca a gata gatinha

E é preto o gato gatão,

Como é que são os gatinhos?

Os gatinhos eles são,

São todos aos quadradinhos.  

 

Sidonio Muralha, (Lisboa, 1920 – Curitiba, 1982)

 

 

Do livro:

A televisão da bicharada, Sidonio Muralha. Global: 1997, São Paulo. Originalmente publicado em 1962.

 

 





Carlos Drummond de Andrade poesia para crianças!

30 07 2008

 

PARÊMIA DE CAVALO

 

Cavalo ruano corre todo o ano

Cavalo baio mais veloz que o raio

Cavalo branco veja lá se é manco

Cavalo pedrês compro dois por mês

Cavalo rosilho quero com filho

Cavalo alazão a minha paixão

Cavalo inteiro amanse primeiro

Cavalo de sela mas não pra donzela

Cavalo preto chave de soneto

Cavalo de tiro não rincho, suspiro

Cavalo de circo não corre uma vírgula

Cavalo de raça rolo de fumaça

Cavalo de pobre é vintém de cobre

Cavalo baiano eu dou pra fulano

Cavalo paulista não abaixa a crista

Cavalo mineiro dizem que é matreiro

Cavalo do sul chispa até no azul

Cavalo inglês fica pra outra vez.

 

 

 

 

Carlos Drummond de Andrade

 

 

Carlos Drummond de Andrade (MG 1902 – RJ 1987) – Poeta, escritor, contista, cronista, jornalista, pensador brasileiro.

 

Ilustração:

CAVALOS, José Lutz Seraph Lutzemberger ( Brasil -1882-1951) aquarela.





Paisagem do sertão, de Luis Delfino, poesia infantil

29 07 2008
Cena de interior, 1891; Armando Vianna (Brasil 1897-1992) aquarela

Cena de interior, 1981; Armando Vianna (Brasil 1897-1992) aquarela

 

 

PAISAGEM DO SERTÃO

 

Pelo sapê furado da palhoça

Milhões de astros agarram-se luzindo;

O pai há muito madrugou na roça.

A mãe prepara o almoço.  O dia é lindo.

 

Canta a cigarra; o porco cheira; engrossa

O fumo dos tições; anda zunindo

À porta um marimbondo e fazem troça

As crianças com um ramo o perseguindo.

 

Correm, chilram, vozeiam, tropeçando

Num velho pote; a mãe zangada ralha,

A avó lhes lança um olhar inquieta e brando.

 

No chão, um galo ajunta o milho e espalha,

Enquanto a um canto, as plumas arrufando,

Põe a galinha no jacá de palha.

 

Luís Delfino

 

 

Do livro: Vamos estudar, de Theobaldo Miranda Santos, 3ª série; Agir: 1952, Rio de Janeiro.

 

 

Luís Delfino dos Santos (SC 1834 – RJ 1910)—Formado em medicina, tornou-se político e poeta brasileiro, foi Senador por Santa Catarina.  Prolífico poeta, escreveu mais de 5000 poemas.  Publicou-os em jornais e revistas da época.  Sua obra, em livros, foi toda publicada postumamente.