A pesca das estrelas — Wilson W. Rodrigues

11 07 2008

Céu estrelado, 2007, Douglas Soares ( MG, Brasil)

Céu estrelado, 2007, Douglas Soares ( MG, Brasil)

 

Hoje, arrumando uma prateleira de livros que quase não uso, deparei-me com um volume comprado num sebo, de Wilson W. Rodrigues, poeta brasileiro, sobre quem sei muito pouco.  Não tenho nenhuma de suas poesias, mas além de poeta, Wilson W. Rodrigues foi um folclorista, arrecadando histórias e compilando-as.  Aproveito para repassar aqui um trechinho mínimo encontrado pela manhã.

 

 

 

 

 

 

 

 

A PESCA DAS ESTRELAS

 

            Pai João menino foi à pescaria.  E estava alegre porque os negros diziam que iam pescar estrelas na lagoa onde morrera o Quiçambé.

            Quando chegaram, as águas do lago estavam cheinhas de estrelas.  Tomaram as canoas e jogaram as redes.

            — A pesca vai ser boa.

            O moleque só queria uma estrela ou uma estrelinha.

            Quando puxaram a rede, ela veio cheia, mas todas as estrelas se transformaram em peixes.

 

 

Pai João menino, de Wilson W. Rodrigues, Editora Publicitan (Coleção Mãe Maria, vol.2): s/d, Rio de Janeiro, página 97.  [texto datado, Distrito Federal, 1949]

 

 

Wilson Woodrow Rodrigues, nasceu em 1916 em Salvador, BA.  Foi poeta, folclorista e jornalista.

Obras:

 

A caveirinha do preá,  Arca ed.: s/d, Rio de Janeiro

Desnovelando, Arca ed., s/d, Rio de Janeiro

O galo da campina, Arca ed,: s/d, Rio de Janeiro

O pintainho, Arca ed.: s/d, Rio de Janeiro

Por que a onça ficou pintada, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

A rãzinha, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

Três potes, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

O bicho-folha, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

A carapuça vermelha, Arca ed:s/d, Rio de Janeiro

Bahia flor, 1948 (poesias)

Folclore Coreográfico do Brasil, 1953

Contos, s/d

Contos do Rei-sol, s/d

Contos dos caminhos, s/d

Pai João, 1952

 

 





Um mestre da sutileza: Mario Benedetti

10 07 2008

 

 

Homem sentado lendo, 2004, Ivan Dario Hernandez (Venezuela, 1955)

Homem sentado lendo, 2004, Ivan Dario Hernandez (Venezuela, 1955)

Há dois dias luto com a minha inabilidade de escrever sobre este pequeno grande livro, A Trégua, do escritor uruguaio Mário Benedetti, originalmente publicado em 1960. Talvez antes dos dias de hoje eu não tivesse a maturidade para apreciar a complexa realidade emocional de Martín Santomé, protagonista da história.  Para fazer justiça a este texto triste, irônico e inigualável, e ainda por cima, tão correto psicologicamente, é preciso uma certa vivência, uma apreciação das limitações de vida que nos são impostas e simultaneamente que impomos a nos mesmos! 

 

Benedetti é um mestre da sutileza.  A leveza com que retrata a angústia pessoal, existencial de Martin Santomé é usada de maneira tão precisa quanto imagino o gesto de um cirurgião usando laser, cortando  finas camadas de pele, desvendando sentimentos só encontrados no mitocôndrias das tormentas pessoais.

 

O livro é narrado através das entradas num diário de Martin Santomé, um homem comum, da classe média, que enviuvando cedo, educa seus três filhos sem voltar a se casar.  Suas perspectivas de felicidade parecem ter-se esgotado.  Mas há uma sincera acomodação a esta realidade talvez nem tão promissora.

 

Em poucas páginas entendemos o abismo que sente em relação a seus três filhos e a difícil situação familiar que eles têm entre si.  Em poucas entradas em seu diário compreendemos a mesmice e a solidão deste empregado de uma firma de autopeças que depois de 25 anos de trabalho diário encontra-se à beira da aposentadoria, sem nenhuma perspectiva de poder mudar o seu destino.  Na verdade, este questionamento interno, existencial, parece sempre subjugado aos rituais burocráticos, à luta pela simples sobrevivência.

 

Eis que aparece Laura Avellaneda, uma jovem, da idade de seus filhos, que assim como  Martín conjuga da falta de perspectiva na vida, aparecendo mais acomodada do que seus anos de juventude nos levariam a considerar típicos.  Um relacionamento entre eles começa — a trégua — a que o título se refere, o hiato, na sua luta constante pela sobrevivência.

 

Este romance traz uma renovação na vida dele e uma esperança na dela.  A história, no entanto, é mais sobre a realidade psicológica de Martin do que sobre o romance.  E lê-lo é um prazer inesgotável. Devorei o livro.  É pequeno: 186 páginas.  Uma beleza!

Mas, a pergunta que me perseguiu foi: por que acredito que este livro não poderia ter sido escrito por um autor brasileiro?  Já quebrei a cabeça querendo respondê-la e não estou satisfeita com as minhas respostas, apesar de acreditar que a melancolia, que a aceitação de uma vida muito regrada e limitada, que o conformismo deste homem de 50 anos não são nossos.  Não pertencem ao campo psicológico da cultura brasileira, que no meu entender está ligada à fênix, a ave que renasce das cinzas.   Porém, é uma impressão apenas.

 

 

 

 





A mágica de Luanda pelos olhos de Ondjaki

9 07 2008

 

Agora que as férias de julho estão aí e que talvez haja um ou dois fins de semana de inverno, pelo menos aqui no Rio de Janeiro, com um pouquinho de frio pedindo para uma tarde dentro de casa, nada melhor do que um livro que pode e deve ser lido por toda família, dos avós, aos pais, aos adolescentes.  Recomendo para isto, o maravilhoso Os da minha rua, do autor angolano Ondjaki, publicado no Brasil pela editora Língua Geral.  Eu já estava familiarizada com a sua escrita, através do seu livro Bom dia, camaradas, que também é um livro para ser lido por todos da casa.  Para esta tarefa de alegrar a todos, recomendo, no entanto,  o volume Os da minha rua, porque é composto de pequenas e deliciosas histórias que podem ser lidas rapidamente e que trazem um prazer instantâneo, um sentimento de leveza e a esperança de que as coisas podem melhorar, qualquer que seja o futuro.

 

Foi gratificante ver que gostei tanto deste livro quanto do anterior.  Ás vezes é difícil lermos a segunda obra de um escritor de que gostamos muito.  Sempre corremos o risco de ficarmos um pouquinho desapontados.   Mas este volume de vinte e duas historietas  está carregado da mesma linguagem encantadora que havia me seduzido no primeiro trabalho de Ondjaki que li.  Como no livro anterior, vemos a realidade de Luanda, pós-guerra, através dos olhos de uma criança.  Suas observações são simultaneamente  líricas, engraçadas, inteligentes e surpresas.  Há uma grande inocência no questionamento do narrador que nos remonta à nossa própria infância ou à infância que gostaríamos de ter tido.  Suas observações sobre o mundo à sua volta  fazem com que tenhamos sempre um sorriso nos lábios, e enquanto acompanhamos as peripécias dos vizinhos do nosso pequeno herói,  assim como reações de alguns dos integrantes de sua família, compartilhamos com ele o prazer das descobertas.  Voltamos por momentos a relembrar, a redescobrir a mágica da vida a nosso redor.  Este livro faz a gente sorrir e sonhar enquanto conhece um pouco da vida e da cultura de Angola.  Os da minha rua  tem a dose certa de encantamento e esperança que todos nós podemos usar de vez em quando.

O escritor Ondjaki

O escritor Ondjaki





A elegância do ouriço — Muriel Barbery

8 07 2008
 
 
 Ceci n’est pas une pipe, René Magritte ( Bélgica, 1898-1967)
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 Acabo de ler A Elegância do Ouriçode Muriel Barbery, escritora francesa, que encanta com um texto divertido e irônico. A história se passa num elegante bairro de Paris e é narrada por duas personagens diferentes: conhecemos Paloma, uma adolescente esperta, que percebe mais do mundo à sua volta do que deixa transparecer, principalmente em relação à sua família, aos seus amigos e à sociedade em geral; e Renée, zeladora do edifício onde Paloma mora, leitora inveterada, bastante mordaz, que tem sempre uma resposta pronta para qualquer ocasião, que também percebe à sua volta muito mais do que os moradores do edifício lhe dão crédito. É através dos olhos delas que somos apresentados a uma gama de moradores do prédio, parisienses com suas maneiras de viver, congeladas por séculos de civilização. Vemos também o quanto têm em comum estas duas personalidades que se revelam através da narrativa. ——–A história se passa quase inteiramente no edifício à Rua de Grenelle, 7, onde ambas residem. Paloma e Renée passam a vida preocupadas em apagar os traços de suas existências e têm bastante sucesso em se tornarem quase invisíveis aos outros, apesar de terem vidas interiores muito ricas e de quase não perderem nada do que acontece ao seu redor, principalmente quanto às intenções das pessoas que conhecem e seus preconceitos. Elas se protegem contra qualquer indiscrição, contra qualquer comportamento, que possa levá-las a serem descobertas, que possa revelá-las como as pessoas sensíveis que são inteligentes, cultas e mordazes na caracterização dos habitantes do edifício e da sociedade francesa em geral.—-

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Os capítulos do livro, com as impressões de cada uma, são intercalados e assim sabemos de seus pensamentos mais íntimos. Eles nos orientam na narrativa. Visualmente o livro também é dividido. Cada narradora tem seu texto em tipografia diferente, facilitando o reconhecimento das diferentes vozes narrativas. Paloma e Renée são ambas pessoas que não se encontram nem se enquadram entre a maioria na sociedade. E lá pelas tantas acabam estabelecendo uma amizade entre elas, atravessando barreiras culturais e sociais estabelecidas há séculos e descobrem que têm muito em comum quando percebem e analisam o mundo à sua volta.—

Só são descobertas por um novo residente, um oriental, um japonês, que se muda e passa a viver neste abrigo de alto luxo da burguesia parisiense. Sua chegada ao edifício causa muita curiosidade da parte de seus moradores mais tradicionais. Ele, no entanto, assume que é realmente uma pessoa de fora, apesar de usar precisa e corretamente a língua francesa. Como um estranho no ninho, por assim dizer, como uma pessoa de fora, que não precisa nem saber, nem se limitar às regras sociais estabelecidas, ele consegue estender sua amizade às duas mulheres que conhecemos, compreendendo-as e deixando suas personalidades florescerem.—

O livro é cheio de observações de muito humor sobre a vida moderna; divertidas descrições do que é esperado no comportamento de cada um e irônicas coincidências que geram preciosas observações sobre literatura, escrita, envelhecimento, psicanálise, e muitos outros aspectos do dia a dia atual. Tudo isto vem bem empacotado numa maravilhosa escolha de vocabulário, contrastes irônicos e num tom jocoso, sem igual. Eu me achei não só sorrindo, mas em algumas ocasiões rindo comigo mesma, para espanto de qualquer pessoa próxima, com as divertidas observações de Paloma e Renée. E se você é uma dessas pessoas, como eu, que gosta de marcar uma passagem particularmente irônica, ou que seleciona uma frase espetacular, que sublinha seu livro a lápis, para poder voltar mais tarde e encontrar um trecho específico, é melhor ter uma apontador próximo e um lápis ao alcance da mão, porque você acabará se resignando a um livro cheio de anotações e de marcas de colchetes e parênteses.

Muitas vezes, durante a leitura, eu me encontrei pensando nos quadros do pintor belga René Magritte. As observações de Paloma e Renée são tão bem colocadas que se parecem com a superimposição de imagens característica dos trabalhos de maior humor e ironia do pintor. É só nos lembrarmos de um de seus quadros [ele fez muitas versões do mesmo] mais conhecidos: Ceci n’est pas une pipe, [Isto não é um cachimbo] para entendermos como trabalha o humor presente neste livro de Muriel Barbery. Magritte, assim com Renée e Paloma, está sempre brincando com o significado das palavras ou com o significado das imagens, colocando-as juntas e nos obrigando, frequentemente, a pensar visualmente por causa de suas justaposições.

E me pergunto se a autora não teria homenageado o pintor já que uma das personagens principais se chama Renée, a forma feminina do primeiro nome de Magritte. Tão jocoso quanto os nomes que a autora escolheu para as duas irmãs, moradoras do prédio, Paloma e Colombe, que têm como seus primeiros nomes duas palavras com o mesmo significado: pomba, em línguas diferentes. Esta possibilidade ainda se torna mais crível quando nos lembramos de que a autora é professora de filosofia e certamente estaria familiarizada com os trocadilhos visuais que Magritte se empenhou em aprimorar. No final do século XX, os quadros deste pintor ilustraram muito conceitos de filosofia e linguística. Tenho certeza que na próxima vez que vier a ler este livro ainda serei capaz de encontrar mais “coincidências” interessantes que me escaparam na primeira leitura.

Leio muito. E faz algum tempo que não encontro um livro que me deixasse tão encantada, tão absorvida. Recomendo com muitas estrelas. É definitivamente um livro para quem gosta de livros e de ideias.





João Bolinha virou gente: Apresentação – Vicente Guimarães

8 07 2008

 

 

João Bolina não quer estudar  -- Ilustração de Rodolfo

João Bolinha não quer estudar -- Ilustração de Rodolfo

APRESENTAÇÃO

 

Sabem quem eu sou?  João Bolinha,

Boneco desengonçado;

Com quem brincar eu não tinha.

Pois vivia desprezado.

 

Entre a turma tagarela

Era um boneco prudente;

Um dia, que coisa bela!

Com a luz do sol, virei gente.

 

De boneco de bolinha

Passei a ser um menino,

Mudou-se toda, todinha

A rota do meu destino.

 

Terei lucrado ou perdido?

Não posso lhe responder:

Depois de o livro ter lido,

Tudo você vai saber.

 

Que lhe sirva de lição

Esta simples vida minha;

Eis o que, de coração,

Lhe deseja o João Bolinha.

 

 

João Bolinha virou gente, Vicente Guimarães (Vovô Felício), Editora Minerva: s/d,  Rio de Janeiro, página 5.

 

 

 

 

 

 

 

Ilustração:  Rodolfo, Rio de Janeiro

 

Vicente de Paulo Guimarães ( MG 1906-1981) Poeta, contista, biógrafo, jornalista, autor de Literatura Infanto-Juvenil (1979), funcionário público, educador, membro da Academia Brasileira de Literatura (1980), prêmio Monteiro Lobato -ABL (1977).

 

 





Frei Antonio de Santa Maria Jaboatão

7 07 2008

 

Frei franciscano,

Frei franciscano por José Cisneros, Cortesia da Comissão Histórica do condado de Bexar, Texas

Aniversário de morte –  em 7 de julho de 1779, morreu em Salvador,  Frei Antonio de Santa Maria Jaboatão, um dos nossos primeiros historiadores. Brasileiro, nasceu em Santo Amaro do Jaboatão, 1695 – Recife.   Frade franciscano, professou fé,  em 12 de dezembro de 1717, ordenando-se em 1725 no convento de  Santo Antonio do Paraguaçu,  em Salvador na Bahia.  Depois voltou a Pernambuco.    Ocupou vários cargos dentro da ordem franciscana.  Foi um genealogista, historiador, orador, poeta e cronista brasileiro.  Sua principal obra é o Novo Orbe Seráfico Brasílico também chamado de Crônica dos Frades Menores da Província do Brasil (1761).  Deixou outras obras, algumas inéditas.   Entre as publicadas, (sempre em Lisboa) estão:  Discurso histórico, geográfico, genealógico, político e encomiástico, recitado em a nova celebridade, que dedicaram os pardos de Pernambuco ao santo da sua cor o B. Gonçalo Garcia ( 1751);  Sermão de Santo Antonio, em o dia do Corpo de Deus, Lisboa (1751);  Sermão de S. Pedro Martyr, pregado na matriz do Corpo Santo do Recife, Lisboa (1751);  Jaboatão Místico” (coletânea de sermões) (1761); “Catálogo Genealógico das Famílias Brasileiras” (1768).

 

Hoje: Patrono da Cadeira n° 2 da Academia Pernambucana de Letras.

 

 

 

Fonte: Dicionário brasileiro de datas históricas, ed. José Teixeira de Oliveira, ed. Vozes:2002, Petrópolis

 

 

 

Décimas

 

 

 

 

                                                           Por Colbert e Sebastião

                                                           Duas grandes monarquias,

                                                           Em Letras e Regalias

                                                           Famosas no mundo estão:

                                                           Portugal e França, são;

                                                           E sendo lá, como o é,

                                                           Primeiro o douto Colbert,

                                                           Em pontos de bom reger,

                                                           Cá também o deve ser

                                                           Um Sebastião José.

 

 

                                                           Ministros de um Reino tais

                                                           Zelosos e verdadeiros,

                                                           Assim como são primeiros,

                                                           Deviam ser imortais;

                                                           Vindo ser glórias fatais

                                                           Lá o Rei Cristianíssimo,

                                                           Cá o nosso Fidelíssimo

                                                           Por este que o Céu lhe deu,

                                                           Faz que seja por troféu

                                                           Seu governo felicíssimo.

 

 

                                                           Oh que dita singular!

                                                           Para a nossa Academia

                                                           Alto Padrão na Bahia,

                                                           Vejo a Fama levantar!

                                                            Nele se lê sem notar

                                                            Das outras as várias cenas,

                                                           Que a nossa com outras penas,

                                                           Faça eterna a sua glória,

                                                           Viva sempre na memória,

                                                           Pois tem tão grande Mecenas.

 





Preço da fama para os atores: O caçador de pipas

5 07 2008
Ilustração de Mariângela Haddad

Ilustração de Mariângela Haddad

Uma das grandes vantagens da internet é que hoje podemos ouvir os nossos programas de rádio favoritos, mesmo que estejamos a milhares de quilômetros da estação de rádio que nos acolhia quando morávamos aqui, ali ou acolá.  Acabou-se a dependência na HORA DO BRASIL, na VOA (Voice of America) ou na BBC (Bristish Broadcasting Company) para se saber o que os outros estão fazendo, dizendo ou armando.  Agora, é só ligarmos nossos computadores e nos conectarmos com nossa estação de rádio predileta e notícias, músicas e comentários vão saindo dos nossos alto-falantes como se estivéssemos em outro lugar.

 

Nem sempre consigo seguir um dos meus programas favoritos nos EUA:  All Things Considered, da NPR (National Public Radio) nos EUA.  Mas há dois dias ouvi uma reportagem interessante sobre o menino Zekeria Ebrahimi, que fez o Jovem Amir, no filme O caçador de pipas.  Mesmo depois de muito tempo, ele ainda não conseguiu ter uma vida normal desde que participou da produção do filme.

 

 

Amir e Hassam conversam, foto de divulgação do filme

Amir e Hassam conversam, foto de divulgação do filme

 

Desde o início, durante as filmagens algumas polêmicas surgiram.  O diretor, Marc Forster, tentando dar à tela a maior veracidade possível, contratou atores que se enquadrassem nas restritas descrições do livro sobre etnia, idade, dialeto, sotaque e até mesmo a paisagem montanhosa, que apesar de ter sido filmada na China, retrata uma realidade muito próxima daquela encontrada no país dos talebãs. 

 

No início do filme há a cena que transforma o personagem principal e que o leva, 30 anos mais tarde, a vir redimir seus pecados:  o estupro de Hassam por um grupo de meninos.  Esta cena — a violação de Hassam, o caçador de pipas do título — não é só o ponto de partida da culpa do narrador, Amir, testemunha do estupro que nada faz, mas também um eloqüente retrato da maneira como minorias étnicas —  como os Hazaras, minoria xiita– são tratadas.

 

Este espelho realista foi mais acertado do que o governo do Afeganistão e sua minoria religiosa poderiam aceitar.   Como a bruxa de Branca de Neve eles  não conseguiram se ver nem na descrição do livro, nem nas imagens do filme.  E logo veio a censura.  O filme não pode ser projetado no país. “Há cenas que exibem atos de violência sexual que são etnicamente orientadas“, explicou o vice-ministro da Cultura Najib Malalai.

 

Mas, estamos nos tempos da aldeia global, da comunicação eletrônica, cópias piratas foram feitas e circuladas pelo país, enfrentando a censura Talebã governamental religiosa.  Cópias pirateadas apareceram em todo canto. 

 

Andrew H.  Walker

Khaled Hosseini com Zekeria Ebrhimi. Foto: Andrew H. Walker

 

Com a censura no Afeganistão a Paramount tratou da segurança pessoal de seus pequenos atores: mudou as três crianças do território afegão para os Emirados Árabes.  Lá, desde novembro de 2007, elas encontraram refúgio e permaneceram acompanhadas de um guardião cada.  Paramount colocou os meninos em escolas particulares, alugou apartamentos para eles, pagou às famílias um salário mensal e arranjou emprego para os guardiões.   

 

Mas, passado algum tempo, Zekeria Ebrahimi voltou à terra natal, saudoso da família.  Infelizmente, ele agora se encontra incapaz de ir à escola ou deixar sua própria casa. Afegãos que viram o filme consideram a película como um insulto e acham que a cultura nacional foi preconceituosamente mal representada.  Além disso, eles atribuem ao filme o aumento das tensões entre minorias no país, que há décadas dividem os habitantes.  

 

O medo de que Zekeria possa cair nas mãos de revoltosos continua.  O menino teve que sair da escola em que se inscreveu em Cabul porque colegas de turma da minoria Hazara queriam matá-lo, linchá-lo, o quanto antes.  A família se mudou.  Mas a ida para um outro bairro de nada adiantou.  As perseguições continuaram.  Zekeria não vai mais à escola e não sai de casa.  Está sendo educado em casa por seu tio.  A família, representada pela tia Waheeda Ebrahimi, quer mais proteção.  Quer emigrar para os EUA, o único lugar em que acreditam poderão viver em paz.

 

Mas nestes tempos de vacas magras nos EUA e de medo de imigrantes de origem muçulmana, há limites sérios sobre o que a Paramount pode fazer.  A companhia preferiria que a família toda fosse para o Dubai.  Neste meio tempo, preso por uma situação em que não tem nenhum controle, Zekeria leva uma vida de prisioneiro em sua própria casa, em seu próprio país.  

 

Vale lembrar as palavras do vice-ministro da cultura sobre a proibição da projeção do filme no país e perguntar a ele se a visão de um lado, não se aplicaria também à uma visão do outro lado, já que tanto o personagem Amir quanto Zekeria são da minoria Pashtu.

 

Um membro de uma etnia que é agredido por pessoas de uma etnia diferente leva a crer que esta etnia está ligada a esse tipo de ato“, declarou Malalai. “É um ato cultural, isso não pode ser aceito“, acrescentou.

 

NOTA: O filme O caçador de pipas é baseado no romance de Khaled Hosseini do mesmo nome.

 

 

Ilustração de Mariângela Haddad

Ilustração de Mariângela Haddad

 

 

 

 

 

 

 

 

 





Mangás são os preferidos dos adolescentes franceses no verão de 2008

4 07 2008

 

Hoje, passando rapidamente pelos portais de leitura da França, para contrabalançar as notícias da FLIP de Parati, encontrei a lista dos ítens de leitura mais vendidos na França para adolescentes.  Como na semana passada coloquei aqui a lista da Inglaterra e a do Brasil, nada mais justo do que adicionar os preferidos dos franceses. 

 

Astérix e Obélix, os heróis gauleses.

Astérix e Obélix, os heróis gauleses.

 

Os livros mais populares para a juventude na França, em 2008

 

 

1 —      Naruto, Volume  37, de Masashi Kishimoto (não está a venda em português – Panini)

 

2 —      Death Note, Volume 11, de Tsugumi Ohba —  No Brasil :  Death Note: Concordância – vol. 11   de Tsugumi Ohba

 

3 —      Hunter X Hunter, Volume  24, de Yoshihiro Togashi  — JBC

 

4       Les Chevaliers d’Emeraude, Volume 5 : L’Ile des Lézards de Anne Robillard

 

5 —      Le Monde de Narnia de C-S Lewis  As Crônicas de Nárnia, Martins Fontes

 

6       35 kilos d’espoir de Anna Gavalda

 

7 —      La Cabane Magique, Volume 1 : La vallée des dinosaures de Mary Pope Osborne

 

8 —      Journal d’un chat assassin de Anne Fine –  Diário de um Gato Assassino, SM

 

9 —      Humanitude : Comprendre la vieillesse, prendre soin des Hommes vieux

de Yves Gineste (Auteur), Jérôme Pellissier

 

10 —    La Sixième de Susan Morgenstern

 

 

Em azul os títulos encontrados em português.

 

Observe-se a popularidade dos Mangás.





Suícidio ou assassinato de Cláudio Manoel da Costa?

4 07 2008
Maysa de Castro

Mariana, MG — foto: Maysa de Castro

 

Hoje é aniversário de morte  — 219 anos — de Cláudio Manoel da Costa, (Mariana, MG, 5/6/1729 — Ouro Preto, MG, 4/7/1789),  poeta brasileiro e inconfidente.  Nasceu nos arredores da cidade de Mariana, no Sítio de Vargem do Itacolomi, em Ribeirão do Carmo. Fez os primeiros estudos em Vila Rica; veio depois para o Rio de Janeiro, onde cursou Filosofia no Colégio dos Jesuítas.  Aos 20 anos, foi estudar em Portugal, na Universidade de Coimbra, onde se diplomou em Cânones, em 1753.   Exerceu a advocacia, tornando-se excelente jurista, bastante renomado e abastado fazendeiro, senhor de três fazendas.  Foi juiz medidor de terras da Câmara de Vila Rica.  Exerceu o cargo de procurador da Coroa e desembargador.  Por incumbência da Câmara de Ouro Preto elaborou “carta topográfica de Vila Rica e seu termo” em 1758. Foi secretário do Conde de Bobadela, Gomes Freire de Andrade, ( Alentejo, 1685 — Rio de Janeiro, 1763), militar português e governador de Minas Gerais.  Cláudio Manoel da Costa, também escreveu sob o cognome de Glauceste Satúrnnio, nome árcade, que adotou depois de fundar a Arcádia Ultramarina.  Membro da Conspiração Mineira, que pregava a independência de Minas Gerais do domínio português, acusado pela Devassa, foi preso e interrogado uma só vez pelos juizes de Alçada, no dia 2 de julho de 1789.   Morreu na prisão, na Casa de Contos, em Vila Rica hoje, Ouro Preto.  Se foi assassinado ou se realmente cometeu o suicídio aos 60 anos enforcando-se na cadeia, ainda é um assunto debatido por historiadores até os dias de hoje.   Excelente poeta, Cláudio Manoel da Costa, mantém  a tradição de Luiz Vaz de Camões na poesia, mas serve de conexão entre a poesia Barroca brasileira e o Arcadismo.

 

É o patrono da Cadeira n. 8, na Academia Brasileira de Letras,  por escolha do fundador Alberto de Oliveira.

Morreu solteiro.  Deixou filhos naturais.

TRÊS SONETOS 

 

 

LXXX

 

Quando cheios de gosto, e de alegria

Estes campos diviso florescentes,

Então me vêm as lágrimas ardentes

Com mais ânsia, mais dor, mais agonia.

 

Aquele mesmo objeto, que desvia

Do humano peito as mágoas inclementes,

Esse mesmo em imagens diferentes

Toda a minha tristeza desafia.

 

Se das flores a bela contextura

Esmalta o campo na melhor fragrância,

Para dar uma idéia da ventura;

 

Como, ó Céus, para os ver terei constância,

Se cada flor me lembra a formosura

Da bela causadora de minha ânsia?

 

Cláudio Manuel da Costa

 

 

 

XXXIII

 

Aqui sobre esta pedra, áspera, e dura,

Teu nome hei de estampar, ó Francelisa,

A ver, se o bruto mármore eterniza

A tua, mais que ingrata, formosura.

 

Já cintilam teus olhos: a figura

Avultando já vai; quanto indecisa

Pasmou na efígie a idéia, se divisa

No engraçado relevo da escultura.

 

Teu rosto aqui se mostra; eu não duvido,

Acuses meu delírio, quando trato

De deixar nesta pedra o vulto erguido;

 

É tosca a prata, o ouro é menos grato;

Contemplo o teu rigor: oh que advertido!

Só me dá esta penha o teu retrato!

 

Cláudio Manuel da Costa

VII

 

Onde estou? Este sítio desconheço:

Quem fez tão diferente aquele prado?

Tudo outra natureza tem tomado;

E em contemplá-lo tímido esmoreço.

 

Uma fonte aqui houve; eu não me esqueço

De estar a ela um dia reclinado:

Ali em vale um monte está mudado:

Quanto pode dos anos o progresso!

 

Árvores aqui vi tão florescentes,

Que faziam perpétua a primavera:

Nem troncos vejo agora decadentes.

 

Eu me engano: a região esta não era:

Mas que venho a estranhar, se estão presentes

Meus males, com que tudo degenera!

 

Cláudio Manuel da Costa

 





Você conhece os 10 mais importantes intelectuais de 2008?

2 07 2008

 

A revista inglesa Prospect, fundada em 1995, tem feito jus ao seu slogan: “a conversa inteligente da Grã-Bretanha”.  Sempre apresenta uma faceta diferente da visão mundial e gosto de seguir suas reportagens.  Junto com a revista Foreign Policy, a Prospect  faz de tempos em tempos uma enquête para descobrir quem seus leitores consideram ser os 100 maiores pensadores da atualidade.  A última tomada de pulso foi em 2005 quando Noam Chomsky, professor de Linguística  no MIT, foi o primeiro colocado.  Seguido de Umberto Eco, escritor, crítico e professor de semiótica em segundo lugar e por Richard Dawkins, eminente zoólogo, professor da Universidade de Oxford.  Seguiram-se Vaclav Havel, escritor e dramaturgo, Christopher Hitchens,  jornalista e crítico literário, Paul Krugman, economista e jornalista,  Jürgen Habermas, filósofo e sociólogo,  Amartya Sen, economista laureado com o Nobel, Jared Diamond,  biólogo evolucionário, fisiologista, biogeógrafo e Salman Rushdie, escritor.  Estes foram os dez primeiros colocados há três anos. 

 

Quando a revista fez a mesma enquête este ano, ficou surpresa ao receber mais de meio milhão de votos, e mais ainda com o resultado da pesquisa.  A lista publicada agora, no mês de julho, mostra que os nomes dos 10 mais votados são todos de intelectuais muçulmanos.   Os organizadores logo procuraram saber se havia um hacker atrás da votação, e que tipo de campanhas haviam sido montadas e para que nomes.   E é claro que o vencedor deste ano, Fethullah Güllen, escritor, pensador e filósofo Suni, teve uma grande campanha por votos dentro da Turquia, a partir de maio quando Zaman o jornal de maior circulação no país e associado ao movimento de Güllen, publicou que havia esta competição para pensadores influentes.   Como explica Tom Nuttal em uns dos artigos deste mês na revista, antes de publicarem a lista, Prospect e Foreign Policy se certificaram da validade dos votos e das campanhas existentes.

 

 

  

 

 

 

 

 

 

Fethullah Güllen

Veja: 

https://peregrinacultural.wordpress.com/2008/07/16/fethullah-gulen-%E2%80%93-quem-e-o-intelectual-n%C2%B0-1-do-mundo/

 

https://peregrinacultural.wordpress.com/2008/08/12/muhammad-yunus-quem-e-segundo-mais-votado-intelectual/

 

  

 

Houve campanhas a favor de Mario Vargas Llosa, de Al Gore, Gary Gasparov, para dar alguns nomes, mas nenhuma delas vingou.  Provavelmente porque nenhuma destas campanhas teve a disciplina entre seus seguidores de manter o interesse pela votação vivo e a disciplina de arrecadar votos, que os seguidores de Güllen tiveram.  Cada eleitor poderia sugerir 5 nomes.  Mesmo assim, como é amplamente explicado em considerações sobre a lista, nenhuma campanha, poderia justificar o posicionamento de 10 muçulmanos entre os maiores e mais influentes pensadores do momento. 

 

O que estamos testemunhando, como diz Tom Nuttal, é a emergência de um novo tipo de intelectual, aquele que tem uma grande corrente de amigos e seguidores, que podem ser facilmente mobilizados.  Entre os nomes que apareceram entre os 10 mais votados estão também Yusuf al-Qaradawi, Amr Khaled .  Yusuf al-Qaradawi que já tinha aparecido na lista em 2005, subindo da posição 56 para a 3ª colocação e  Amr Khaled religioso muçulmano e produtor de programas televisos, que entrou na lista este ano, obtendo a 6ª posição.  Ambos seguidores próximos de Güllen com campanhas angariando votos, bem organizadas no Facebook.  Muhammad Yunus, economista e banqueiro em Bangladesh e Shirin Ebadi, advogada e ativista sobre direitos humanos no Iran, foram ambos agraciados com o Nobel da Paz e também tiveram bastante sucesso.

 

Os outros nomes entre os 10 mais votados em 2008 são: o escritor Orhan Pamuk;  Aitzaz Ahsan, advogado, membro da Suprema Corte do Paquistão e ativista em direitos humanos;  Abdolkarim Soroush o filósofo,  Rumi estudioso; Tariq Ramadan professor universitário e pensador muçulmano e Mahmood Mamdani, antropólogo e sociólogo,

 

A lista completa dos 100 mais votados se encontra aqui.  Em parênteses a colocação de cada um na enquête de 2005.  Asterisco significa que esta é a primeira vez que esta pessoa está sendo citada. 

 

 

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