As palavras, poesia de Eugênio de Andrade

21 05 2014

 

 

Leitura no jardim, Norman Price, St_ Nicholas 1917-05Leitura no jardim, ilustração de Norman Price, capa da revista St. Nicholas, maio de 1917.

 

 

As palavras

 

Eugênio de Andrade

São como cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

 

 





Segredo, poesia infantil de Henriqueta Lisboa

19 05 2014

 

 

passarinhos no muro

 

Segredo

 

Henriqueta Lisboa

 

Andorinha no fio
escutou um segredo.
Foi à torre da igreja,
cochichou com o sino.

E o sino bem alto:
delém-dem
delém-dem
delém-dem
dem-dem!

Toda a cidade
ficou sabendo.





Os sapatinhos, poesia infantil de Walter Nieble de Freitas

22 04 2014

sapateiroIlustração de livro escolar britânico da década de 1950. Veja.

 

Os sapatinhos

Walter Nieble de Freitas

Sapateiro, bate sola,

Bate sola, sem parar,

Faze já os sapatinhos

Para o “seu” doutor calçar.

Bate sola, martelinho,

Vamos, pois, bem trabalhar:

São três horas e às quatro

“Seu” doutor vai-se casar.

Bate sola, martelinho,

Bate sola sem cessar:

“Seu” doutor é a pessoa

Mais ilustre do lugar!

Quando à noite “seu” doutor

Com a noiva for dançar:

— Que lindíssimos sapatos!

Toda gente vai falar.

Em: Barquinhos de Papel: poesias infantis, Walter Nieble de Freitas, São Paulo, Difusora Cultural:1961, pp. 45-46

 

 

NB: Agradeço ao blog Tú Lisa, yo Conda, a referência à ilustração usada nesta postagem.

 





O Maracujá, poesia de Sônia Carneiro Leão

10 04 2014

 

Aquarela_Passiflora_edulis_01Ilustração botânica do maracujá [Passiflora edulis Sims] de Maria Cecília Tomasi.

O Maracujá

Sônia Carneiro Leão

Pego o maracujá e me assusto

Tão dura e tão oca

essa fruta mais louca

me deixa perplexa

de tão desconexa.

Sua carne é só casca.

Seu ventre, sementes.

Sua polpa tão pouca,

não dá pros meus dentes,

Maracujá intrigante,

enrugado, velhinho,

de gosto aceso, bacante,

como o do vinho.

Quero morder, não consigo.

Chupar, tão pouco não posso.

Que fazer, então, contigo,

com o teu paradoxo?

Ninguém o fura com o dedo

para evitar contusão,

esconde dentro o segredo

o doce-azedo da paixão.

Respeitamos o non-sense

da sua concepção.

Em: Respostas ao Criador Das Frutas, Sônia Carneiro Leão, auto-publicação,Holos Design,  ilustrado por Renata Vilanova, p. 13.

 –

Sônia Carneiro Leão nasceu no Rio de Janeiro, mas reside em Recife.  Psicanalista, escritora, poetisa, contista  e tradutora.

 





Natureza maravilhosa — besouro dourado

6 04 2014

besouro douradoCharidotella sexpunctata, nativo dos Estados Unidos.

Esse inseto pequenino — entre 5 e 7 milímetros de tamanho — costuma ser encontrado nas folhas de uma planta conhecida por aqui como glória-da-manhã, que é o seu quitute favorito. No entanto, existem algumas particularidades que tornam o C. sexpunctataainda mais interessante, como uma película transparente que o recobre e que pode mudar de cor.

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Jacques Le Goff: um adeus sentido

3 04 2014

540px-Roi_de_France_Louis_IX_en_mer_vers_TunisSão Luís rumo à Tunísia, em sua segunda cruzada, depois de 1332, antes de 1350.

Mahiet, Mestre do Missal de Cambrai

Cambrai, Bibliothèque municipale ms. no. 224

Há pessoas que nos influenciam apesar de nunca as termos visto ou encontrado.  Devo muito a Jacques Le Goff, o grande historiador que faleceu dia 1º aos noventa anos, em seu país de origem, França. Não, ele não sabia da minha existência. Nunca trocamos uma palavra em carta, email, telefone. Ao que eu saiba não temos amigos em comum. Mas seus livros fizeram parte da minha vida, uma grande parte da minha vida.

Não fui uma criança prodígio. Não descobri em tenra idade aquela habilidade que outros dissessem, “vá estudar história da arte …  Você tem sensibilidade nata para o assunto“. Pelo contrário, cheguei aqui por caminhos tortos, becos sem saída, pela constante reinvenção e redirecionamento dos meus objetivos. Quem hoje examinasse os meus boletins dos anos de adolescência descobriria que minhas notas em história não eram boas.  Ninguém poderia imaginar que este seria o caminho a ser traçado no futuro.  Não.  O oposto parecia apontar no horizonte.  Pensei seriamente em fazer medicina, isso depois de pensar em ser astrônoma e engenheira naval.  O curso de letras que foi a entrada para as ciências humanas, não havia sido minha primeira escolha. E a história da arte aconteceu de surpresa, caminho conduzido em parte por uma excelente professora de literatura, na Universidade Federal Fluminense, que ao ensinar Balzac trouxe para a sala de aula imagens de quadros franceses da época. Ideias trocadas, informações sobre pintores e descobri que havia a tal história da arte.  Que influência bons professores exercem sobre seus alunos!

785px-Boethius_initial_consolation_philosophyInicial iluminada, Boécio ensinando a seus alunos, 1325

Manuscrito: Consolação da filosofia, Itália (?)

MS Hunter 374 (V.1.11), Glasgow University Library

Há mais de uma maneira de se ensinar. Minha paixão pela história só se acendeu, através de dois grandes historiadores cujos livros, lidos paulatinamente, parágrafo a parágrafo, incendiaram minha imaginação e me acompanharam desde então a qualquer hora, em qualquer momento: Arnold J. Toynbee e Jacques Le Goff.  Toynbee já havia morrido quando fui apresentada ao seu trabalho. Um bom escritor vive para sempre através de seus leitores, e sua prosa era de fácil entendimento. Apaixonante sua visão da imensa continuidade da história, para não falar de sua erudição.  Jacques Le Goff foi o outro historiador que marcou a minha formação principalmente aquela formação pós-universitária, quando temos a liberdade de ir atrás dos pequenos detalhes que nos deixam curiosos, sem a preocupação de preencher um currículo ou uma determinada etapa da vida.  Jacques Le Goff foi aquele historiador de quem eu esperava as novas publicações com ansiedade. Foi ele quem fez a história europeia pós-império romano viva para mim. Concentrando-se no homem comum ele coloriu o mundo pré-renascentista de tal maneira e com tanta precisão que podemos nele ver as raízes de muito das nossas vidas diárias hoje.  Não sou medievalista.  Minha porção de especialização formal é a era moderna europeia: 1860-1945. Pelo menos foi assim que deixei os bancos universitários.  Mas a cada nova contribuição de Le Goff e de todos aqueles que ele formou mais me virei para a Europa medieval, esses grandes e sedutores séculos. Séculos que parecem cantos de sereia nos levando a profundezas enigmáticas. Mesmerizantes.  É portanto com muito pesar que recebo a noticia de que não poderemos mais contar com suas brilhantes publicações.  Registro então o vazio que sinto pelo que não virá, e o agradecimento pela riqueza do que ele nos deu.

 





Cartilhas medievais desde 787

30 03 2014

schoolbookCartilha escolar do século X [dos anos 900 — a 999].

Hoje, chamamos os anos preenchendo os séculos VIII e IX de Renascença Carolíngia. É o período da primeira unificação europeia depois do Império Romano, sob a tutela de Carlos Magno anos 768-814 e sob o reinado de seu sucessor, rei Luís, o Pio, 814-840. Para poder unificar uma área tão grande, Carlos Magno dedicou-se à estandardização do ensino do latim, língua corrente, numa época em que as próprias língua latinas se formavam e a cada geração mais se distinguiam entre si e se distanciavam umas das outras. Era um problema: estudiosos de um lado do império não conseguiam se comunicar com outros do outro lado. A língua comum era o latim, como havia sido no tempo dos romanos, 400 anos antes, mas o latim estava agora tomando as características dos dialetos locais. Até mesmo os padres, responsáveis e mantenedores nessa época de todo o conhecimento na Europa ocidental, já não estavam mais fluentes no latim padrão. Usavam as bíblias no latim vulgar que já mostrava o perfil, ainda que seminal, das novas línguas latinas.

400px-Frankish_Empire_481_to_814-pt.svgEuropa Carolíngia.


Havia outro problema: falta de escribas qualificados que pudessem fazer cópias confiáveis dos livros clássicos do pensamento latino. Além disso, era muito pequeno número de pessoas alfabetizadas que pudessem ser treinadas como escribas. Foi assim que surgiu a Carta do Pensamento Moderno, em 787. Que ainda mostra algumas das características do ensino encontrado no século XX, mil e quatrocentos anos mais tarde. Dentre os esforços culturais de Carlos Magno estavam a padronização dos currículos e da língua latina.  Foram feitas também as primeiras cartilhas em latim, quando as letras minúsculas próximas das que usamos hoje foram utilizadas.





A estrela polar — poesia de Vinícius de Moraes

14 12 2013

noite, ceu, estrelas,Nicolas Gouny - cueillir des étoilesIlustração de Nicolas Gouny.

A estrela polar

Vinicius de Moraes

Eu vi a estrela polar

Chorando em cima do mar

Eu vi a estrela polar

Nas costas de Portugal!

Desde então não seja Vênus

A mais pura das estrelas

A estrela polar não brilha

Se humilha no firmamento

Parece uma criancinha

Enjeitada pelo frio

Estrelinha franciscana

Teresinha, mariana

Perdida no Polo Norte

De toda a tristeza humana.

Em: Poemas para a Infância – antologia escolar – de Henriqueta Lisboa, Rio de Janeiro, Edições de Ouro, s.d., p.18.





Lições de 3 países para o ensino público

2 12 2013

???????????????????????????????Grupo escolar de Patópolis, ilustração de Walt Disney.

Acabo de comprar em versão eletrônica o livro The Smartest Kids in the World: And How They Got That Way  de Amanda Ripley considerado pelo New York Times um dos melhores livros de não-ficção publicados nos EUA em 2013.  A lista completa pode ser vista aqui: 100 notable books of 2013. O assunto é de interesse: há muito que me preocupo com a educação das crianças no Brasil e consolo a minha ansiedade me familiarizando com o que outros países fazem. Digamos que minha curiosidade no assunto tornou-se um hobby.  Por isso mesmo investi meus quase R$29.00 para satisfazer a minha curiosidade sobre os modos de educação de três diferentes países que estão entre os melhores colocados em todos os testes internacionais medidores de desempenho escolar: Finlândia, Coréia do Sul e Polônia.

Antes mesmo de me enfronhar nessa leitura  já me surpreendi com o pouco vislumbrado pela resenha de  Annie Murphy Paul.  Na Finlândia a escola analisada não é ultra moderna, e seus alunos não estão usando os últimos lançamentos do mundo virtual em classe.  A escola é “escura e fria, suja com mesas em filas e um quadro-negro antiquado.  Não há um iPad ou tela interativa à vista”.  O que a escola tem  são “professores brilhantes, talentosos, que estão bem treinados e amam seus empregos”.  Há a garantia de um ensino de qualidade desde o início. A profissão de professor é valorizada e “apenas os melhores alunos  se inscrevem em programas de formação de professores“.

???????????????????????????????Chico Bento vai à escola. Ilustração Maurício de Sousa.

Na Coréia do Sul parece que a dedicação total dos estudantes e de suas famílias é o que leva aos resultados fenomenais dos testes internacionais.  Os alunos depois das aulas formais, dedicam o resto das horas de seu dia a estudar com tutores rigorosos e exigentes. O hábito de estudar muito depois da escola gera uma pressão acadêmica tão forte que funcionários do governo e administradores das escolas pensam em impor um toque de recolher do estudo às 22 horas. Mas tanto os estudantes quanto seus pais sabem que para passar nos rigorosos exames do país é necessário fazer-se grandes sacrifícios. A persistência nos estudos diários e intensos por horas a fio é a solução.

A Polônia apostou em professores bem treinados, num currículo rigoroso e num exame desafiador exigido de todos os que acabam certos estágios de formação.  Tanto alunos quanto suas famílias entendem que o que importa são as oportunidades de vida no futuro para suas crianças e não se importam de sacrificar nem mesmo o tempo dedicado aos esportes.

O interessante é notar que nenhum desses países, que agora conseguem os melhores resultados na educação de suas crianças, era conhecido como uma superpotência educacional duas décadas passadas.  Mas seus governos, aliados aos pais, mudaram os sistemas educacionais e conseguiram resultados expressivos. Nesses países as crianças são educadas para fazerem argumentos complexos, e resolverem problemas cujas soluções desconhecem. Elas aprendem a pensar e a usar da disciplina do estudo.  Só assim poderão crescer seguros de um lugar ao sol na sociedade moderna.





Reminiscências da vida colegial, texto José de Alencar

14 10 2013

1 - escola Nikolai Bogdanov-Belsky (1868-1945) 1

Aula de aritmética, s.d.

Nicolai Bogdanov-Belsky (Rússia 1868-1945)

óleo sobre tela

II — REMINISCÊNCIAS DA VIDA COLEGIAL

 No ano de 1840 frequentava eu o Colégio de Instrução Elementar, estabelecido à rua do Lavradio n. 17, e dirigido pelo Sr. Januário Matheus Ferreira, a cuja memória eu tributo a maior veneração.Depois daquele que é para nós meninos a encarnação de Deus e o nosso humano Criador, foi esse o primeiro homem que me incutiu respeito, em que macatei o símbolo das autoridades. Quando me recolho da labutação diária com o espírito mais desprendido das preocupações do presente, e sucede-me ao passar pela rua do Lavradio pôr os olhos na tabuleta do colégio que ainda lá está na sacada do n. 17, mas com diversa designação; transporto-me insensivelmente àquele tempo, em que de fraque e boné, com os livros sobraçados, eu esperava ali na calçada fronteira o toque da sineta que anunciava a abertura das aulas. Toda minha vida colegial se desenha no espírito com tão vivas cores, que parecem frescas de ontem, e todavia mais de trinta anos já lhes pairaram sobre. Vejo o enxame dos meninos, alvoroçando na loja, que servia de saguão; assisto aos manejos da cabala para a próxima eleição do monitor geral; ouço o tropel do bando que sobe as escadas, e se dispersa no vasto salão onde cada um busca o seu banco numerado. Mas o que sobretudo assoma nessa tela é o vulto grave de Januário Matheus Ferreira, como eu o via passeando diante da classe, com um livro na mão e a cabeça reclinada pelo hábito da reflexão.Usava ele de sapatos rinchadores; nenhum dos alunos do seu colégio ouvia de longe aquele som particular, na volta de um corredor, que não sentisse um involuntário sobressalto.

Januário era talvez ríspido e severo em demasia; porém, nenhum professor o excedeu no zelo e entusiasmo com que desempenhava o seu árduo ministério. Identificava-se com o discípulo; transmitia-lhe suas emoções e tinha o dom de criar no coração infantil os mais nobres estímulos, educando o espírito com a emulação escolástica para os grandes certames da inteligência.Os modestos triunfos, que todos nós obtemos na escola, e que não vêm ainda travados de fel como as mentidas ovações do mundo; essas primícias literárias tão puras, devo-as a ele, a meu respeitável mestre que talvez deixou em meu ânimo o gérmen dessa fértil ambição de correr após uma luz que nos foge; ilusão que felizmente já dissipou-se. Dividia-se o diretor por todas as classes embora tivesse cada uma seu professor especial; desse modo andava sempre ao corrente do aproveitamento de seus alunos, e trazia os mestres como os discípulos em constante inspeção. Quando, nesse revezamento de lições, que ele de propósito salteava, acontecia achar atrasada alguma classe, demorava-se com ela dias e semanas, até que obtinha adiantá-la e só então a restituía ao respectivo professor. Meado, o ano, porém, o melhor dos cuidados do diretor voltava-se para as últimas classes, que ele se esmerava em preparar para os exames. Eram estes dias de gala e de honra para o colégio, visitado por quanto havia na Corte de ilustre em política e letras. Pertencia eu à sexta classe, e havia conquistado a frente da mesma, não por superioridade intelectual, sim por mais assídua aplicação e maior desejo de aprender. Januario exultava a cada uma de minhas vitórias, como se fora ele próprio que estivesse no banco dos alunos a disputar-lhes o lugar, em vez de achar-se como professor dirigindo os seus discípulos.

Como e porque sou romancista, José de Alencar, Rio de Janeiro, Leuzinger: 1893 em DOMÍNIO PÚBLICO