Calor carioca desagrada o Marquês do Lavradio

8 09 2009

palacio - paço

Palácio dos Vice-reis, mais tarde Paço Imperial,  Rio de Janeiro.

 

Hoje, às 9:30 da manhã o termômetro marcava 30 graus em Copacabana. Um vento quente e forte adicionava bastante desagravo ao pedestre. Isso para o mês de setembro, ainda antes do início oficial da primavera é fora do comum. É claro que devemos muito dessas variações climáticas ao desmatamento. Mas o calor insuportável é as vezes bem carioca mesmo. Hoje ele me lembrou uma carta do Marquês do Lavradio, quando tinha acabado de chegar ao Rio de Janeiro em 1770, vindo da Bahia, um lugar que considero ainda mais quente!

Aqui está um trecho da carta nº 176 do Marquês do Lavradio a seu filho Conde de Vila Verde:

Carta de Amizade Escrita
Ao Conde de Vila Verde
Em Lisboa
20 de fevereiro de 1770

Meu querido filho, e senhor do meu coração ….

……………………………………

Parece-me que desta vez fica bem satisfeita a sua curiosidade de você sobre esta matéria agora darei conta do que a terra me parece, e como eu tenho me achado nela, é situada esta Capital em um baixa toda cheia de pântano rodeada de inacessíveis montes, é raro o sítio onde cavando-se 4 palmos de profundidade se não encontre logo infinita água conservem-se todo o ano infinitas lagoas as quais com o extraordinário calor do sol se lhes corrompem as águas, onde nasce estamos respirando um ar sumamente impuro, é raro o dia em que não sejamos visitados de duas três e mais trovoadas o calor é tão extensivo que ainda quando se está em casa sem se fazer nenhum excesso se está continuamente metido em um suor, de forma que eu ao principio entendi que todos estávamos sincopados; o comercio é muito pouco, a preguiça desses habitantes sumamente extraordinária, e esta os tem reduzido à decadência e miséria em que se acham estes povos.

Eu logo ao terceiro dia da minha chegada fui atacado de uma das moléstias da Terra que me causou bastante cuidado, porém com a continuação dos banhos e de várias outras impertinências tenho conseguido alguma melhoria; acho-me já coberto desde o pescoço até a cintura de uma espécie de brotoeja que não me deixa sossegar nem de dia, nem de noite fazendo-me parecer que estou cheio de pontas agudas de alfinetes que continuamente me estão penetrando, finalmente depois que cheguei ainda não passou um só dia em que pudesse dizer que me achava bom, e o pior é ter que passar por este tormento três anos que receio me faltem as forças para resistir.

……..

Ilmº e Exmº Senhor Conde de Vila Verde

                                                                          Marquês do Lavradio

 

 

Em: Cartas do Rio de Janeiro, Marquês do Lavradio,  Rio de Janeiro, Editora SEEC [Secretaria do Estado de Educação e Cultura]: 1978.  Carta 176.

 

lavradio

 

Marquês do Lavradio — D. Luís de Almeida Portugal Soares de Alarcão d’Eça e Melo Silva Mascarenhas – 11.º vice-rei do Brasil (1769-1778). Substituiu Antônio Rolim de Moura Tavares como vice-rei do Brasil. Em seu governo incentivou o teatro e fundou uma academia científica para o estudo dos recursos naturais do país. Fez obras militares necessárias à defesa do Rio de Janeiro, construiu as fortalezas do Pico e do Leme e abriu novas ruas, como a que conserva o seu nome. Enviou tropas e armamentos para o Sul do Brasil, onde durante seu governo ocorreram a recuperação do Rio Grande do Sul, a ocupação temporária da Ilha de Santa Catarina pelos espanhóis e a perda da Colônia do Sacramento.





Poetas no museu: Ladyce West

6 09 2009

Bez Batti, FLORAÇÂOFloração

João Bez Batti (RS, Brasil, contemporâneo)

 

 

 

Presença Invisível                

 

 

                                      Ao contemplar a obra  de João Bez Batti

                                      no Instituto Moreira Sales, RJ,  Novembro de 2006

 

 

 

Senti a presença invisível

De mãos grossas, calejadas,

Que acariciaram a pedra, 

O basalto negro

Ou vermelho,

Ou até mesmo o mármore.

 

Constatei mesmerizada

Que trouxeram à superfície

A essência;

Que libertaram, a Michelangelo,

A forma presa no seixo,

O orgânico escondido,

Inerte,

Meio-solto,

Quase-aprisionado.

 

Mãos que revelaram os escravos encapsulados,

Seres encarcerados no mesozóico,

Como se, conhecendo o desastre de Pompéia

Depois do escarro fulminante do Vesúvio,

Soubessem encontrar:

O cactos florescente, o cágado,

A abóbora moranga.  

Caracóis.

E bólidos petrificados.

 

Estas mãos, que brincam

Sedutoramente

Com o poder divino,

Conhecem o conteúdo,

A alma invisível da pedra.

Descobrem o cascalho gaúcho,

Chocam os grandes ovos de rio,

E parem os seres cativos nas  pedras,

Como Eva o tinha sido na costela de Adão.

 

E o que surpreende: estas mãos,

Que revelam o coração do basalto

Regurgitado  pela Terra,

Lixado pelas águas,

Rolado, burilado e aveludado pelo tempo,

São humanas.

Mãos peãs.

Agraciadas pela arte da divinação,

Que brincando de Deus,

Mostram o divino em todos nós.

 

 

© Ladyce West, 2006, Rio de Janeiro





Quadrinha infantil pela Semana da Pátria

6 09 2009

independencia menino maluquinho

Ilustração: Ziraldo

 

A Pátria, meus coleguinhas,

É o recanto onde nascemos;

É a família, o Lar, a Escola…

É a Terra onde vivemos!

 

(Walter Nieble de Freitas)





FERIADÃO: hora de ver Gesto Obsceno

6 09 2009

gesto obsceno 1

 

Não sou dada a filmes violentos.  Em geral nem me atrevo a ir ver algum filme que tenha fama de violento.  Gesto Obsceno, que trata da violência, é um filme que assisti com muito prazer, sem ficar arrepiada.  É um filme muito, muito bom, em que a violência mostrada, não é nem maior nem menor do que a que sofremos no dia a dia de qualquer grande cidade, considerando as diferenças culturais de cada país.

Esta é uma história sobre a violência, sobre o ser humano.  É um thriller, que me deixou na beira da poltrona, tensa, e desejosa de vingança.  Talvez, este filme tenha sido até mais potente na sua mensagem sobre a violência a que nós todos nos acostumamos, porque retrata pessoas como a audiência, pessoas comuns.  Se não é um retrato de nossa família, são certamente pessoas parecidíssimas com as que conhecemos.  Gente que trabalha, frustrada com o trabalho, com a vida, limitada por dinheiro e por espaço para viver, com seus pequenos rituais de prazer e grandes frustrações familiares e burocráticas. 

 

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O enredo é extremamente simples: um casal arrumando algumas compras no carro, congestiona o trânsito.  Atrás, um outro carro espera. Impaciente, o motorista reclama e buzina muito.  A mulher perde a paciência com o motorista reclamão e faz um gesto obsceno.  Furioso ele avança, quase a atropela e arranca a porta do carro, que estava aberta, para o meio da rua. Daí por diante começa o pesadelo de Michael Klienhouse (Gal Zaid), o marido. Ele, que havia deixado de trabalhar para escrever um livro, que vivia uma pacata, desesperada, frustrante vida, tem então que procurar o dono do carro infrator para que seu seguro pague pelo estrago.  

Inesperadamente, Michael se vê num emaranhado burocrático da polícia.  Que por seu turno é semelhante ao emaranhado burocrático em que sua mãe se encontra sobre o espólio do marido.  O mundo não faz o menor sentido para ele, nem para sua esposa.  Esse homem comum, que até então só armazenava frustrações, começa a tomar decisões que o levam a solucionar problemas por suas próprias mãos.  

Há diversos níveis de violência na vida desses cidadãos.  Desde a briga entre meninos na escola, até as notícias de ataques suicidas pela televisão, passando é claro – tratando-se de Israel – pelos alarmes de defesa civil, que pontuam a semana em que o Holocausto é lembrado.  

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A identificação da platéia com Michael cresce à medida que se entende que, por trás dessa aparência de bobão, há um homem muito esperto e capaz.  Há também um homem correto, honesto.  Um homem que ama seu filho.  E também, um homem que, apesar das tentações, mantém-se fiel ao casamento.  Enfim, um homem de família, que obedece aos costumes, as tradições.  Um tipo que, por aqui, conhecemos bem: o cara que para no sinal vermelho, que paga suas contas, que vive dentro de suas possibilidades e por isso mesmo precisa ser respeitado.  

É bom frisar que em nenhum momento há uma apologia da violência, nem um comentário contra a violência.  Este é um filme de  constatação.  E mostra como alguns podem vir a reagir quando submetidos ao seu terror.

E como um bom thriller, o final é catártico.  Vale a pena!  Não é à toa que este filme ganhou alguns prêmios. Gesto Obsceno levou a Menção Especial e Prêmio da Crítica Festival de Miami 2008, ganhou o prêmio de Melhor Filme Israelense Festival de Haifa 2006 e foi indicado a 5 Prêmios pela Academia de Cinema de Israel, incluindo: Melhor Direção, Ator (Gal Zaid), Atriz (Keren Mor) e Ator Coadjuvante (Asher Tzarfati).

 

Recomendadíssimo!

 gesto obsceno

 

 

FICHA TÉCNICA

 

Diretor: Tzahi Grad

Elenco: Ya’ackov Ayali, Ania Bukstein, Tal Grushka, Rivka Michaeli, Keren Mor, Asher Tzarfati, Gal Zaid.

Produção: David Cohen, Tzahi Grad, Ijo Shani, Isaac Shani, Gal Zaid

Roteiro: Gal Zaid, Ya’ackov Ayali

Fotografia: Shai Goldman

Duração: 95 min.

Ano: 2006

País: Israel

Gênero: Comédia

Cor: Colorido

Distribuidora: Moviemobz

Classificação: 14 anos





Quadrinha infantil sobre guardar segredos, uso escolar

31 08 2009

passarinho 4

 

O teu segredo famoso

eu bem o sei, direitinho…

chegou depressa, ditoso,

nas asas de um passarinho.

 

(Luiz Pereira de Faro)





Poetas no museu: Raquel Naveira

29 08 2009

venus_velazquez

Vênus do espelho, 1650  [Também conhecida como Vênus Rockeby]

Diego Velázquez  (Espanha 1599-1660)

Óleo sobre tela,  122,5 x 177 cm

National Gallery, Londres.

 

 

Vênus ao espelho

 

[inspirado num quadro de Velazquez]

                       

                                       Raquel Naveira

 

 

Nua,

Reclinada sobre musgo de veludo,

Vênus mira-se ao espelho,

Quadro de cristal polido,

Seguro por Cupido.

 

Adorna os cabelos com violetas singelas,

Morde maçã

E canela,

Acaricia os seios

Que brilham como luas.

 

Toda ela é úmida:

Anêmona de primavera,

Espuma marinha,

Rosa encharcada;

A umidade é o princípio que gera

E fecunda

Criaturas nacaradas.

 

Momento de banho,

De repouso,

De idéia clara;

Contemplar-se

É seu gozo.

Tão atraente,

Tão fora de qualquer limite,

Como vencer essa força dissolvente?

Quem não seria seduzido por ela?

Quem quebraria esse espelho ardente?

Que mortal,

Que divindade defenderia a honra

E a arte? 

 

 

 

 

Em: Stella Maia e outros poemas, Campo Grande, MS; Editora UCDB:2001

 

raquel naveira

 

Raquel Naveira (Campo Grande, MS 1957) Poetisa, ensaísta, graduada em Letras e Direito, professora no Curso de Letras da Universidade Católica Dom Bosco de Campo Grande (MS), mestranda em Comunicação e Letras, na Universidade Presbiteriana Mackienzie (SP), e empresária de turismo (Pousada Dom Aquino, em Campo Grande – MS), Raquel Naveira destaca-se por seu talento e engajamento nas atividades culturais do centro-oeste brasileiro.  A escritora tem recebido reconhecimento nacional através de inúmeras premiações e várias indicações para prêmios. Em sua obra, são constantes a religiosidade, o misticismo e os temas épicos.

 Obra:

Via Sacra, poesia, 1989

Fonte luminosa, poesia, 1990

Nunca Te-vi, poesia, 1991

Fiandeira, ensaios, 1992

Guerra entre irmãos, poesia, 1993

Canção dos mistérios, poesia, 1994

Sob os cedros do Senhor, poesia, 1994

Abadia, poesia, 1995

Mulher Samaritana, 1996

Maria Madalena, prosa poética, 1996

Caraguatá, poesia, 1996

Pele de jambo, infanto-juvenil, 1996

O arado e a estrela, poesia, 1997

Intimidades transvistas, 1997

Rute e a sogra Noemi, prosa poética, 1998

A casa da Tecla, poesia, 1998

Senhora, poesia, 1999

Stella Maia e outros poemas, 2001

Casa e castelo, poesia, 2002

Maria Egipcíaca, poesia, 2002

Tecelã de tramas: ensaios sobre interdisciplinaridade, ensaios, 2004

Portão de ferro, poesia, 2006

Literatura e Drogas e outros ensaios, crítica literária, 2007





Imagem de leitura — Jane Tanner

26 08 2009

Jane Tanner, (Melbourne, Australia, contemporânea) Amiguinhos lendo 1992,Amiguinhos lendo, 1992

Jane Tanner ( Austrália 1946)

Técnica mista

 

Barbara Jane Tanner ( Austrália, 1946) Assina Jane Tanner, é uma ilustradora de livros infantis.  Fez a faculdade  na National Gallery School de Melbourne, formando-se em pintura e gravura.  Por muitos anos trabalhou como pintota.  Quando surgiu a oportunidade de ilustrar livros para crianças descobriu uma área de interesse e em 1989 foi reconhecida com o Prêmio de Ilustração do Livro do Ano [Children’s Book of the Year Award], patrocinado pelo Conselho de Livros Infantis da Austrália.  O prêmio foi dado pelas ilustrações de Drac e o Gremlin, de autoria de Allan Baillie.   Daí por diante foram muitos os prêmios que recebeu por suas ilustrações.  Ainda trabalha até hoje com ilustrações para livros infantis na sua cidade natal de Melbourne.





Quadrinha infantil pelo dia da Independência

26 08 2009

 

independencia combo

 

 

Foi o Príncipe D. Pedro

Altivo, forte e leal,

Quem tornou independente

A nossa Terra Natal!

 

(Walter Nieble de Freitas)





Romance ingênuo de duas linhas paralelas – José Fanha — para crianças, jovens e adolescentes

22 08 2009

linha paralelas

***

 

Romance ingênuo de duas linhas paralelas

 

                                                               José Fanha

 

Duas linhas paralelas

Muito paralelamente

Iam passando entre estrelas

Fazendo o que estava escrito:

Caminhando eternamente de infinito a infinito

Seguiam-se passo a passo

Exactas e sempre a par

Pois só num ponto do espaço

Que ninguém sabe onde é

Se podiam encontrar

Falar e tomar café.

Mas farta de andar sozinha

Uma delas certo dia

Voltou-se para a outra linha

Sorriu-lhe e disse-lhe assim:

“Deixa lá a geometria

E anda aqui para o pé de mim…!

Diz a outra: “Nem pensar!

Mas que falta de respeito!

Se quisermos lá chegar

Temos de ir devagarinho

Andando sempre a direito

Cada qual no seu caminho!”

Não se dando por achada

Fica na sua a primeira

E sorrindo amalandrada

Pela calada, sem um grito

Deita a mãozinha matreira

Puxa para si o infinito.

E com ele ali à frente

As duas a murmurar

Olharam-se docemente

E sem fazerem perguntas

Puseram-se a namorar

Seguiram as duas juntas.

Assim nestas poucas linhas

Fica uma estória banal

Com linhas e entrelinhas

E uma moral convergente:

O infinito afinal

Fica aqui ao pé da gente.

 

fanha

José Fanha

 

José Fanha (Portugal, 1951) Formado em arquitetura é hoje professor do ensino médio e trabalha também para a televisão e o cinema.  Poeta, declamador, autor de letras para canções e de histórias para crianças, autor de textos para televisão, para rádio e para teatro e, também pintor nos tempos livres.

Obras:

Eu sou português aqui

Breve tratado das coisas da arte e do amor

A porta

Elogio dos peixes, das pedras e dos simples

Alex Ponto Com – Uma aventura virtual

Diário Inventado de Um Menino Já Crescido

Os Novos Mistérios de Sintra de Rosa Lobato de Faria, Mário Zambujal, Luísa Beltrão, José Jorge Letria, José Fanha, João Aguiar, Alice Vieira

O Dia em Que o Mar Desapareceu

Poemas da Natureza + CD-Áudio

Abril 30 Anos Trinta

De Palavra em Punho

Cem Poemas Portugueses do Adeus e da Saudade de José Jorge Letria, José Fanha

Tempo Azul

Poemas Com Animais

Cantigas e Cânticos

Baal

Cem Poemas Portugueses Sobre a Infância de José Jorge Letria, José Fanha

Cem Poemas Portugueses Sobre Portugal e o Mar de José Jorge Letria, José Fanha

O Código D’Avintes de Rosa Lobato de Faria, Mário Zambujal, Luísa Beltrão, José Jorge Letria, José Fanha, João Aguiar, Alice Vieira

***  NOTA:  Acredite, na ilustração inicial deste poema só há quadrados perfeitos e linhas paralelas.





Imagem de leitura — Fernand Léger

21 08 2009

Fernand Léger, (1881-1955) Mulher recostada, Art Institute of ChicagoMulher recostada com livro, 1922

Fernand Léger (França, 1881-1955)

Óleo sobre tela,  64,5 x 92 cm

The Art Institute of Chicago

[Doação da Sara Lee Corporation, 1999]

 

Jules-Fernand-Henri Léger (França, 1881 – 1955), Pintor,  desenhista e gravador.  Estudou arquitetura em Caen a partir de 1897, mudando-se para Paris em 1900. Em 1903 entrou para a Escola de Artes Decorativas, onde freqüentou academias livres e a dedicou-se à pintura.  Depois de conhecer o trabalho de Cézanne,  Léger se dedica à abstração das formas, sendo um dos primeiros artistas a fazê-lo, apesar de manter seu trabalho estritamente figurativo.   Léger é um dos mais importantes artistas do século XX.