Nestor se distrai, ilustração Disney.
Não bata assim, coração!
Cuidado!… Jamais me assuste,
pois uma nova ilusão
pode ser um novo embuste.
(Zeni de Barro Lana)
Nestor se distrai, ilustração Disney.
Não bata assim, coração!
Cuidado!… Jamais me assuste,
pois uma nova ilusão
pode ser um novo embuste.
(Zeni de Barro Lana)
Victoria Chaus (Ucrânia,1964)
óleo sobre tela
“As palavras são como peixes abissais que só nos mostram um brilho de escamas em meio às águas pretas. Se elas se soltarem do anzol, o mais provável é que você não consiga pescá-las de novo. São manhosas as palavras, e rebeldes, e fugidias. Não gostam de ser domesticadas. Domar uma palavra (transformá-la em clichê) é acabar com ela.”
Em: A louca da casa, Rosa Montero, tradução de Paulina Wacht e Ari Roitmam, Rio de Janeiro, Ediouro:2004, p.13,
Jean Baptiste Camille Corot (França, 1796-1875)
óleo sobre papelão sobre madeira, 32 x 41 cm
National Gallery, Washington, DC
Menotti del Picchia (Brasil, 1892-1988) em Juca Mulato.
Ilustração de Fabius Lorenzi.
Existem coisas na vida
Que não posso compreender:
— Como é que sendo esquecida,
Não te consigo esquecer!
(Maria Thereza de Andrade Cunha)
Torres da Ponte de Londres, 1895
Litografia
“Eles estão indo à igreja. O avô vai mostrar-lhe os anjos no teto e o Mercador de Swaffham esculpido na lateral de um banco e o cachorro do mercador, com suas orelhas redondas e uma longa coleira.
O Mercador de Swaffham: John Chapman era o seu nome. Uma noite ele sonhou que, se fosse para Londres e ficasse na Ponte de Londres, conheceria um homem que lhe diria como enriquecer.
No dia seguinte a esse sonho, Chapman pegou suas coisas e seguiu para Londres com seu cachorro. E ficou andando de um lado para o outro na Ponte de Londres, até que um lojista lhe perguntou o que estava fazendo ali.
— Eu estou aqui por causa de um sonho — respondeu o mercador.
— Sonho? — admirou-se o lojista — Se eu acreditasse em sonhos estaria em algum lugar do interior chamado Saffham, no jardim de um caipira chamado Chapman, cavando embaixo do seu estúpido pé de pera — completou ele, com um olhar de desprezo, e voltou para dentro da loja.
John Chapman e seu cachorro retornaram a Swaffham e cavaram embaixo da pereira. Lá, encontraram um pote de ouro. Em volta do pote estava escrito: “Embaixo deste pote existe outro duas vezes maior.” O mercador começou a cavar novamente e encontrou outro pote; e então sua fortuna estava feita.
John Chapman doou castiçais à igreja, reconstruiu a nave do lado norte quando esta caiu e contribuiu com 120 libras para a construção do campanário. Sua mulher Cateryne e seu cachorro estão esculpidos nas laterais dos bancos, a mulher com um rosário e o cachorro com a coleira. John Chapman tornou-se sacristão, a passou a usar uma toga de arminho.”
Em: Mudança de Clima, de Hilary Mantel, tradução de Maria dos Anjos Santos Rouch, Rio de Janerio, Record: 1997, pp.70-71
O mercador de Swaffham é uma conhecida história folclórica inglesa.
Ilustração de Russell Strambrook.
Paulo Setúbal
Foi pelo tempo alegre da moenda,
Quando aos quinze anos, tudo nos sorria,
Que nós tecemos, juntos, na fazenda,
Toda uma história de infantil poesia.
E sob um pessegueiro, amplo e robusto,
Cheio de frutos e de passarinhos,
Foi que nós ambos, pálidos de susto,
Nos encontramos certa vez, sozinhos.
Tão confusos, tão tímidos ficamos,
Ao vermo-nos juntinhos no pomar,
Que nós, olhando os pêssegos nos ramos,
Nem tínhamos coragem de falar.
Mas de repente — que ventura louca!
Ela sorriu-me, trêmula de pejo,
E eu lhe furtei da pequenina boca,
Um pequenino e delicioso beijo…
Foi desde então que na minh’alma eu trouxe,
Como lembrança desse amor fagueiro,
Esse beijinho estaladinho e doce,
Que nós trocamos sob o pessegueiro.
Em: Alma cabocla,Poesias de Paulo Setúbal, Paulo Setúbal, São Paulo, Ed. Carlos Pereira:s/d, 5ª edição [ Primeira edição foi em 1920]p. 87-88
Rubens Bustamante Sá (Brasil, 1907-1988)
óleo sobre tela, 46 x 56 cm
Olavo Bilac
Domingo… Os sinos repicam
Na igreja, constantemente,
E todas as ruas ficam
Alegres, cheias de gente.
Todo um dia de ventura…
Como o domingo seduz!
O homem, cansado, procura
Ter paz, ter ar, e ter luz.
Paradas e sem trabalho,
Dormem na roça as enxadas;
Dormem a bigorna e o malho
Nas oficinas fechadas.
Também, meninos cansados,
Os vossos livro deixai!
Deixai lições e ditados!
Dormi! Sorride! Cantai!
Fechem-se as aulas! E o bando
Ruidoso das criancinhas
Livre se espalhe, voando,
Como um bando de andorinhas!
Deus, quando o mundo fazia,
Sete dias trabalhou,
E ao fim do sétimo dia
Do trabalho descansou…
Em: Poesias infantis, Olavo Bilac, Rio de Janeiro, Francisco Alves: 1949, 17 ª edição, pp- 47-8.
Fakhraddin Mokhberi (Irã, 1965)
óleo sobre tela, 50 x 60 cm
Leio hoje que a Itália, ao receber o presidente iraniano, cobriu as antigas obras de arte de nus e não serviu vinhos para não ofender o visitante, ao passo que a França fez justamente o contrário, não cedeu às imposições geradas pelo ortodoxismo islâmico. Essas ações mostram como a leitura que fiz nessa semana, Setembros de Shiraz, está atualizada e nos ajuda a entender o momento presente. O texto de Dalia Sofer se concentra no período imediatamente após a queda do Xá da Pérsia [Irã]. E descreve os problemas dos cidadãos persas que não seguiam os preceitos da nova teocracia, uma ditadura com a intenção de acabar com qualquer vestígio de influência cultural fora do islamismo.
A autora é descendente de uma dessas famílias e emigrou da Pérsia para os Estados Unidos. Lá elas encontraram um lugar em que puderam manter intactas tanto a herança cultural, quanto sua religião. Dalia Sofer é judia e o personagem principal do livro, Isaac Amin, foi baseado nas experiências sofridas por seu pai, preso pelo regime instalado na revolução iraniana de 1979.
Ditaduras são sempre iguais, sejam elas de direita, de esquerda ou religiosas, ou ambas. Elas interferem nos direitos essenciais dos seres humanos. Cortam a liberdade do pensamento. Cansamos de ver ditaduras no século XX, Alemanha, Rússia, China, Cuba, Brasil, Chile,Venezuela, Iraque, Irã são apenas algumas que ainda detêm grande parte da nossa memória coletiva. Ditaduras reduzem e deformam a grandiosidade da experiência humana. Definhamos sob seu domínio. A comunidade judia que estava estabelecida há mais de quatro milênios na Pérsia foi uma das minorias atacadas pelos Aiatolás do novo regime. E sem boa causa essas famílias que ajudaram a formar a história do lugar foram singularmente destacadas para sacrifício, prisão e morte nas cadeias, numa continuação tardia de atos semelhantes da Segunda Guerra Mundial na Europa. Por isso mesmo a história de Isaac Amin e sua família, que se assemelha a tantas outras vindas da Pérsia nesse período, precisa ser contada e recontada para que não se esqueça os fundamentos, as raízes mesmo, do pensamento ocidental.
Dalia Sofer
Setembros de Shiraz faz esse trabalho. Detalha a vida diária de uma família de um comerciantes judeu, classe média alta, que é mandado para a prisão por causa nenhuma a não ser por ter servido ao Xá, por manter bebidas alcoólicas em casa, por ter posse de objetos de luxo, por ter parentes em Israel, por conseguir pensar além dos horizontes locais. Conhecemos a vida dos filhos, da esposa, dos pais de Isaac Amin, dos empregados. Sabemos das vantagens e das dificuldades que eles passaram antes e depois da prisão e conseguimos reconstruir, sem nunca termos ido ao Irã, como seria essa vida. O livro é detalhado nesse aspecto e a narrativa flui em pequenos capítulos cobrindo da vida diária no Irã às aventuras de sobrevivência do filho do casal estudante nos EUA.
O que faltou nesse livro: melhor resolução dos conflitos. Talvez, porque esteja tão baseado na vida de seus pais, e como a vida nem sempre se resolve por grandes atos, mas por acomodação paulatina a uma nova realidade, a narrativa perde impacto no final. Até mesmo o romance do rapaz em Nova York com Rachel, uma menina de uma família judia ortodoxa, simplesmente se dissolve, perdendo o momento. Este é o meu grande senão sobre a obra, ela perde o ímpeto inicial. Mas para quem tem curiosidade sobre a época, o livro oferece uma fatia interessante do dia a dia desse período no Irã, detalhada e complexa.
Jessica Rohrer (EUA, 1974)
óleo sobre placa, 30 x 48 cm
“Na sala de aula, durante uma projeção de slides de arquitetura, ele escreve uma carta para os pais. Na semi-escuridão do auditório de palestras ele escreve que tudo está bem na faculdade, que o proprietário do apartamento é muito simpático e cuida bem dele. Quando termina, levanta a cabeça e vê os perfis dos colegas de classe iluminados pela luz do projetor, hipnotizados pelo clique-clique das transparências, pelo tom de voz monótono do professor e pelas brilhantes imagens das casas californianas na tela — o exterior de madeira, os pátios, as grandes extensões de vidro com vista para os jardins. Essas casas todas parecem muito limpas, simples, ensolaradas e alegres, portando em suas linhas descomplicadas a promessa de décadas dóceis, passadas na mesma cidade, na mesma rua, na mesma casa, mas sem oferecer proteção nenhuma contra o tédio que acompanha tudo isso. Olhando para as imagens, ele conclui que seus colegas de classe — simpáticos, com seus trajes impecáveis e essencialmente ilesos — são produtos de tais lares.”
Setembros de Shiraz, Dalia Sofer, Rio de Janeiro, Rocco: 2008, p. 40

Na biblioteca há mil sábios
a nosso inteiro dispor.
Sem querer mover os lábios,
cada livro é um professor.
(A. A. de Assis)