Carnaval, poema de Afonso Louzada

5 03 2014

CESAR LACANNA - (1901 - 1983) - Carnaval - a - 32 x 23 - cid - 1966Carnaval, 1966

César Lacanna (Brasil 1901-1983)

aquarela sobre papel

Carnaval

Afonso Lousada

E foi-se o Carnaval. E só ficou,

de tudo, uma lembrança dolorida

que resta desse amor que se acabou

numa alegria que redime a vida.

Da loucura da febre que passou,

a alma se sente só e consumida;

na solidão que o sonho lhe deixou

a saudade ainda vive, malsofrida.

E, tristemente, o coração recorda,

na angústia de uma louca nostalgia,

esse sonho fugaz que ele sonhou.

Carnaval de um amor que, na alma, acorda

a esperança de uma última alegria,

entre as cinzas de tudo que passou.

Em: Noturnos, Afonso Louzada, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional:1947, p. 38





Bibliotecas públicas no Rio: livros mais procurados

4 03 2014

Fabricio Fontolan,(Paraná, Brasil)  Reading, 2005, oil on canvasLendo, 2005

Fabrício Fontolan (Brasil, contemporâneo)

óleo sobre tela, 40 x 50 cm

fontolan paintings

-C

Neste fim de semana de Carnaval o jornal O Globo publicou os resultados de uma pesquisa entre as bibliotecas públicas municipais e estaduais no Rio de Janeiro que listava os livros mais requisitados e emprestados ao público [Ranking de leitura, estrangeiros no topo]. Foi constatado que leitores preferem os livros das listas dos mais vendidos e mais falados.  Livros que na maioria são escritos por  autores estrangeiros.  Não importa onde essas bibliotecas estejam localizadas, se em bairro de classe média, rica ou pobre o interesse pelos campeões de venda é o mesmo.

Não fiquei surpresa. Acho natural que todos queiram estar a par  dos assuntos nas conversas nos cafés, nas escolas e na internet.  Principalmente os adolescentes e jovens adultos, que sabem muito  bem os livros que andam fazendo sucesso em outros países.  Esse costume brasileiro de querermos ler o que é escrito no exterior não é de hoje.  No século XIX  até meados do século XX era a França que ditava o que os brasileiros liam. Nem por isso deixamos de ter um Machado de Assis.

O importante é que nossas bibliotecas públicas tenham para emprestar os livros que as pessoas queiram ou precisem ler. É uma maneira simples de garantir a leitura.  Ler é o mais importante. De longe.  Depois que a leitura se estabelece como um hábito, o leitor por si mesmo irá se encaminhando para outros livros, para outros horizontes.

Os autores Nicholas Sparks e J. K. Rowling lideram os empréstimos dessas bibliotecas.





Quadrinha da linda morena

3 03 2014

mulher e pássaro, vogue, junho 1921Mulher e pássaro, capa da revista Vogue, junho de 1921.

Morena, linda morena

de lábios cor de carmim,

quero saber se teus olhos

sorriem só para mim.

(Ângela Maria)





Uma descrição primorosa na obra de Hilary Mantel

2 03 2014

William Kay BlacklockEnsinando a irmã a coser ou A lição, s.d.

William Kay Blacklock (Inglaterra, 1872-1922)

aquarela e guache sobre papel

Nem todos os escritores se dedicam a uma boa descrição.  Hilary Mantel é uma extraordinária artesã no texto descritivo.  Fiquei particularmente fascinada com a caracterização que ela faz de uma mulher — a mãe da narradora do romance Um experimento amoroso.  São dois parágrafos sucintos, mas de grande riqueza. Ao final dessa leitura, conhecemos a personagem descrita.  Vejam:

“Meu pai era escriturário; eu soube desde muito cedo em minha vida, por causa do hábito de minha mãe de me dizer: “seu pai não é apenas um escriturário, sabe.” Toda noite ele fazia um jogo de palavras cruzadas. De vez em quando minha mãe lia livros da biblioteca ou folheava revistas, que também chamava de “livros”, mas mais fequentemente fazia tricô ou costurava, a cabeça inclinada sob a lâmpada do abajur. O trabalho dela era requintado: a tapeçaria, o trabalho de bainha aberta. Nossas fronhas eram bordadas, branco sobre branco, com rosas esparramadas de talos longos, com ramalhetes em cestas trançadas, com laços em guirlandas de nós graciosos. Meu pai tinha um blusão de lã tricotado diferente para cada dia da semana, se quisesse usar. Todas as minhas, cortadas e feitas por ela, tinham babados de renda na bainha e – e também na bainha do lado esquerdo – um bordado com o mesmo tema representando a inocência: um botão-de-ouro,por exemplo, ou um gatinho.

Posso ver que minha mãe,  como pessoa, não era nada requintada. Tinha o queixo firme e uma voz alta, ressonante. O cabelo estava ficando grisalho e era rebelde, preso por pregadores de mola. Quando franzia o cenho, uma nuvem passava sobre a rua. Quando erguia as sobrancelhas – como fazia com frequência, espantada a cada hora pelo que Deus esperava que ela suportasse –, um sistema de trilhos de bonde de cidade pequena surgia em sua testa. Ela era brigona, dogmática e esperta; sua maneira de falar era assustadoramente franca, ou então desnorteadamente cheia de rodeios. Os olhos eram grandes e alertas, verdes como vidro verde, sem nada de amarelo ou amêndoa neles; sem nenhum dos compromissos que as pessoas têm quando se trata de olhos verdes. Quando ria, ela raramente sabia porque, e quando chorava, sabia menos ainda. Suas mãos eram grandes, nodosas e cheias de calos, feitas para segurar um rifle, não uma agulha”.

Em: Um experimento amoroso, Hilary Mantel, tradução de Ana Deiró, Rio de Janeiro, Record: 1999, pp. 14-15





Minuto de sabedoria — Manuel Alegre

25 02 2014

V.G.Vlasov (1927, Odessa - 2000, ibid.) Girl with a book. 1966 Pastel on cardboard. Postcard printed in the USSR, Ukrainian SSR, publishing MistetstvoJovem com livro, 1966

V. G. Vlasov (Ucrânia, 1927-2000)

pastel sobre papelão

“Não há flecha que não contenha o arco da infância”.

GetResource

 Manuel Alegre





A gente nunca está só, poesia de Adelmar Tavares

24 02 2014

menina no lago, Martta Wendelin (Finlandia)Menina no lago, ilustração de Martta Wendelin.

A gente nunca está só

Adelmar Tavares

A gente nunca está só.

Ou se está com uma saudade

De um sonho desfeito em pó;

Ou se está com uma esperança

De nova felicidade

No coração que não cansa…

Sempre uma sombra com a gente,

Constantemente,

Uma sombra… Boa… ou má…

Só é que nunca se está.

Em: Poemas para a Infância: antologia escolar, editado por Henriqueta Lisboa, s/d, São Paulo: Edições de Ouro, p. 59





Quanto vale um manuscrito medieval de medicina?

18 02 2014

almanac-topPagina do almanaque comprado pela Biblioteca Wellcome.

Quanto vale um manuscrito medieval de medicina?  100.000 libras esterlinas  aproximadamente R$ 400.000, hoje.

No finalzinho do ano passado, depois do Natal de 2013, a Wellcome Library, biblioteca londrina, especializada na história da medicina,  pagou exatamente essa quantia pelo pequeno almanaque médico medieval. Este volume tem um história interessante além da páginas decoradas à mão. Pertenceu a excêntrica poeta e crítica literária Edith Sitwell.  O almanaque é um calendário combinado a mapa astrológico e também a um  livro de medicina.  E cabe na palma de uma mão.

Nessa época era comum associar-se os signos do zodíaco ao corpo humano.  Na verdade até o final do século XVI médicos anotavam regularmente a posição dos signos, e a fase da lua quando atendiam a seus pacientes.

Medical almanacO mapa do corpo humano ilustrado no manuscrito da Biblioteca Wellcome, em Londres.

Por ter uma função específica, auxiliar o médico em sua tarefa de cura, o almanaque de medicina  era em geral muito manuseado. Além disso muitos deles eram presos ao cinto ou à sacola do médico que o levava para atender seus pacientes.  Por isso mesmo poucos restam da época medieval. Este manuscrito é do século XV.  Só 30 desses almanaques são conhecidos dessa época.  Excepcionalmente, este era um objeto de luxo, iluminado com cores ricas e folha de ouro, e encadernado em brocado de seda.

Não se conhece a história do proprietário original desse manuscrito e nem mesmo de como ele conseguiu chegar em tão boas condições até 1940, quando foi dado de presente à Edith Sitwell. São 600 anos de mistério.  Mas agora ele estará ao alcance do público numa biblioteca especializada.

FONTE: The Guardian





Multidão, poesia de Armindo Rodrigues

12 02 2014

beryl cook, tenerife daysDias em Tenerife, 2004

Beryl Cook (Inglaterra, 1926-2008)

silkscreen, 61 x 56cm

Multidão

Armindo Rodrigues

Esta gente que vai e vem,

de cá para lá,

de lá para cá,

que se cruza comigo,

que esbarra comigo,

que tem com certeza

os seus dramas iguais aos meus,

as suas esperanças iguais à minhas,

não sabe nada da minha vida,

nem eu sei dos seus segredos.

Cada um segue absorto em si

como se fosse de olhos fechados

e não tivesse as mãos para dar

a outras mãos desamparadas.

Em: Voz arremessada no caminho; poemas, Armindo Rodrigues, Lisboa: 1943, p. 52





Palavras para lembrar — Francis De Croisset

11 02 2014

Carlos Cosme JimenezLeitora na praia, 2003

Carlos Cosme Jimenez (Espanha, contemporâneo)

óleo sobre tela, 100 x 81 cm

“A leitura é a viagem dos que não podem pegar o trem.”

Francis De Croisset (1877-1937)





Quadrinha da felicidade

10 02 2014

flores na janela, FruitGardenAndHome1923-11Capa da revista Fruit, Garden & Home, novembro de 1923.

Saibam que a felicidade

raramente é percebida,

porque ela só é encontrada,

nas coisas simples da vida.

(Anônimo)