Maria-sem-tempo, texto de Domício da Gama

24 04 2014

TEIXEIRA, Oswaldo,Mulher,osm, 1965,55 x 43 cmMulher, 1965

Oswaldo Teixeira (Brasil, 1905-1974)

óleo sobre madeira, 55 x 43 cm

Maria-sem-tempo

Domício da Gama

Era magra, pequena, escura. Tinha a extrema humildade dos que vivem longos anos sob o céu destruidor, sem pensar ao menos em resistir à sorte, com a passividade inerte da folha que o vento rola pelos caminhos. Era assim mirrada e seca e sombria, como se tivesse perdido a seiva ao ardor dos estios, como se guardasse das noites sem estrelas o negrume cada vez mais denso.

Era louca, porque só tinha uma idéia, e a criatura humana pode não ter idéias, mas não pode ter uma só. A sua era o angustioso desassossego das maternidades malogradas. Perdera um filho e o procurava. Andava pelos caminhos para buscá-lo e só levantava a voz para chamá-lo, ansiosamente, carinhosamente: “Luciano! Meu filho!…” E escutava longo tempo por trás nas cercas, no aceiro dos matos, à entrada dos terreiros das fazendas, nos desertos e nos povoados, onde quer que a levasse a sua dolorosa esperança. Aquela figura miserável, toda feita num gesto indagador, com a mão abrigando os olhos, à espreita, ou levantando o xale que lhe encobria a cabeça de cabelos hirtos, para ouvir melhor a resposta ideal, aquela encarnação de um desejo sempre iludido enturvava o esplendor do mais radioso meio-dia.

Em: Flor do Lácio,[antologia]  Cleófano Lopes de Oliveira, São Paulo, Saraiva: 1964; 7ª edição. (Explicação de textos e Guia de Composição Literária para uso dos cursos normais e secundário), p. 99





Minuto de sabedoria — Lin Yutang

23 04 2014

Tea-Time-by-Emilio-Sala-y-FrancesTea Time by Emilio Sala y Frances.Hora do chá

Emilio Sala y Frances (Espanha, 1850-1910)

óleo sobre tela, 56 x 39 cm

Coleção Particular

“Há alguma coisa na natureza do chá que nos leva a um mundo de contemplação silenciosa da vida.”

Lin Yutang

200px-Linyutang





Os sapatinhos, poesia infantil de Walter Nieble de Freitas

22 04 2014

sapateiroIlustração de livro escolar britânico da década de 1950. Veja.

 

Os sapatinhos

Walter Nieble de Freitas

Sapateiro, bate sola,

Bate sola, sem parar,

Faze já os sapatinhos

Para o “seu” doutor calçar.

Bate sola, martelinho,

Vamos, pois, bem trabalhar:

São três horas e às quatro

“Seu” doutor vai-se casar.

Bate sola, martelinho,

Bate sola sem cessar:

“Seu” doutor é a pessoa

Mais ilustre do lugar!

Quando à noite “seu” doutor

Com a noiva for dançar:

— Que lindíssimos sapatos!

Toda gente vai falar.

Em: Barquinhos de Papel: poesias infantis, Walter Nieble de Freitas, São Paulo, Difusora Cultural:1961, pp. 45-46

 

 

NB: Agradeço ao blog Tú Lisa, yo Conda, a referência à ilustração usada nesta postagem.

 





Quadrinha da bondade

22 04 2014

esmola, caridade, cartão postal dos anos 20 do sec xxCartão postal dos anos 20 do século XX  [ajude aos pobres]

Em certa gente, a bondade

não passa de fantasia:

na aparência — santidade;

mas, no fundo hipocrisia.

(Carlos Cardoso)





Refeições literárias, de quais você se lembra?

19 04 2014

Pierre-Auguste_Renoir_-_Luncheon_of_the_Boating_Party_-_Google_Art_ProjectO almoço dos canoeiros, 1881

Pierre-Auguste Renoir (França, 1841-1919)

óleo sobre tela, 130 x 173 cm

The Phillips Collection, Washigton DC

A revista Smithsonian Magazine deste mês traz um artigo intrigante de Erin Corneliussen.  O artigo refere-se ao novo livro de fotografias de Dinah Fried, intitulado Fictitious Dishes [Pratos fictícios]. As fotografias retratam refeições como descritas em conhecidas obras literárias. Elas trazem também as citações que as criaram. Muito interessante ver como uma frase de Herman Melville em Moby Dick sobre sopa de amêijoas; uma frase de Sylvia Plath sobre abacates; ou ainda talvez o mais famoso chá do mundo, o chá de Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll podem servir de inspiração para fotografias interessantes que nos remetem de volta à leitura. Sugiro que você clique no link aqui embaixo para ver as fotos.

Depois de ler o artigo e ver as fotos tentei me lembrar de cenas ou frases nas literaturas de língua portuguesa que mais me tivessem marcado.  Não tive muito sucesso, exceto por me lembrar que havia algumas cenas deliciosas em Senhora de José de Alencar.  Transcrevo portanto uma de algumas encontradas no romance.

Um bom domingo de Páscoa a todos vocês.

“Frutas da estação: abacaxis, figos e laranjas seletas, rivalizando com as maçãs, peras e uvas de importação, ornavam principalmente a refeição meridiana que os costumes estrangeiros substituíram à nossa brasileira merenda da tarde, usada pelos bons avós.

Havia também profusão de massas ligeiras, como empadinhas, camarões e ostras recheadas; além de queijos de vários países e doces de calda ou cristalizados. Os melhores vinhos de sobremesa desde o Xerez até o Moscatel de Setúbal, desde o Champanhe até o Constança, estavam ali tentando o paladar, uns com seu rótulo eloquente, outros com o topázio que brilhava através das facetas do cristal lapidado.

– Não tenho a menor disposição! disse Fernando obedecendo ao gesto de Aurélia e sentando-se à mesa.

– Ora! disse a moça com volubilidade. Para provar frutas e doces não é preciso ter fome; faça como os passarinhos. O que prefere? Um figo, uma pera, ou o abacaxi?

– É preciso que eu tome alguma cousa? perguntou Fernando com seriedade.

– É indispensável.

– Nesse caso tomarei um figo.

– Aqui tem; um figo e uma pera; é apenas um casal.

Seixas inclinou a cabeça; colocou o prato diante de si, e comeu as duas frutas, pausada e friamente, como um homem que exerce uma ação mecânica. Nada em sua fisionomia revelava a sensação agradável do paladar.

Aurélia que esmagava entre os lábios purpurinos bagos de uva moscatel, seguia com os olhos os movimentos automáticos de Fernando, e se não adivinhava, confusamente pressentia o motivo que atuava sobre seu marido.

Ergueu-se então da mesa, e saindo fora, à beirada da casa, onde já fazia sombra, divertiu-se em dar de comer aos canários e sabiás, que festejaram sua chegada com uma brilhante abertura de trinados e gorjeios.

Pensava Aurélia que sua presença porventura acanhava ao marido; e buscava aquele pretexto para arredar-se um instante e deixá-lo mais livre de cerimônias. Desvaneceu-se porém essa idéia do seu espírito, quando espiando pela fresta da janela, viu Seixas imóvel, com os olhos fitos na parede fronteira, e completamente absorto.

Depois do lanche, Aurélia convidou o marido para darem uma volta pelo jardim; mas havia senhoras nas janelas da vizinhança, e a moça não quis expor-se aos olhares curiosos. Ela não era a noiva feliz e amada; mas as outras a supunham, e tanto bastava para que seu pudor a recatasse às vistas dos estranhos.

Em: Senhora, José de Alencar, 1875, em domínio público.

 

 

Veja as fotos dessas refeições e seus respectivos livros.





Imagem de leitura — Ralph Heimans

18 04 2014

 

 

Ralph HeimansChão de mosaico

Ralph Heimans (Austrália, 1970)

óleo sobre tela

www.ralphheimans.com





O leão e o camundongo, poema de Olavo Bilac

16 04 2014

DoreLionForWimIlustração de Gustave Doré.

O leão e o camundongo

Olavo Bilac

Um camundongo humilde e pobre

Foi um dia cair nas garras de um leão.

E esse animal possante e nobre

Não o matou por compaixão.

Ora, tempos depois, passeando descuidoso,

Numa armadilha o leão caiu:

Urrou de raiva e dor, estorceu-se furioso…

Com todo o seu vigor as cordas não partiu.

Então, o mesmo fraco e pequenino rato

Chegou: viu a aflição do robusto animal,

E, não querendo ser ingrato,

Tanto as cordas roeu, que as partiu afinal…

Vede bem: um favor, feito aos que estão sofrendo,

Pode sempre trazer em paga outro favor.

E o mais forte de nós, do orgulho se esquecendo,

Deve aos fracos tratar com caridade e amor.

Em: Criança Brasileira: quarto livro de leitura, Theobaldo Miranda Santos, Rio de Janeiro, Agor: 1949, p.59





Reflexões infinitas, “Livro” de José Luís Peixoto

14 04 2014

29_Drawing Hands by Escher

Mãos desenhando, 1948

M. C. Escher (Holanda, 1898-1972)

Litografia, 28 x 33 cm

Não sei como a prosa de José Luís Peixoto soa aos ouvidos portugueses, aos meus, brasileiros, soa rica, dinâmica, orgânica. Deslumbra a expansão dos significados de palavras comuns, conhecidas. Antes mesmo de nos envolvermos com a trama, a língua portuguesa seduz. Com José Luis Peixoto embarcamos numa prazerosa e aventureira narrativa construída por vocábulos, que por engenhosa inflexão, nos fazem ver por ângulos incomuns as mesmas cenas que em qualquer outro escritor passariam desapercebidas. Precisávamos disso na nossa língua torná-la mais jocosa, folgazã. Mais ágil.

A trama é trabalhada de modo tão criativo quanto a língua. A impressão que tenho é que José Luís Peixoto brinca conosco, diverte-se com o impacto que terá sobre o leitor e se entretém ao considerar o rumo da narrativa.  Inventivo, ele nos faz sorrir quando nos deparamos com suas reviravoltas;  e ao divertir-se ele amplia os limites do que consideramos romance.  A trama inicial situada em um vilarejo do  Alentejo na década de sessenta, encontra eco na França, meio livro adiante, onde os mesmos protagonistas se encontram, fugidos da economia caótica do período Salazarista.  Fogem do país, mas não fogem de si.  Emigram levando com eles os sonhos, os amores e até mesmo a pequenice do lugar de onde procedem. A reinvenção de cada um é um processo difícil e conturbado.  Penoso para todos. E inicialmente até parece que deixaram para trás os grilhões da terra natal.  Mas quando percebemos, estamos presos aos destinos deles e nos vemos de volta ao início como  numa gravura do mundo paralelo de M.C. Escher. Nas gravuras do artista holandês, voltamos aos temas iniciais achando que chegamos a algum lugar novo só para descobrirmos que nos encontramos aparentemente fazendo o caminho anterior, são escadas que descem mas também sobem; cachoeiras cujas águas desaguam em suas fontes ou  mãos que se desenham. O romance, que traz o título sui generis e inegavelmente astuto, se transforma numa fita de Möbius, que mexe com o desenrolar natural da voz narrativa, oscilando entre o universo conhecido e outro paralelo.

Índice

Este livro podia acabar aqui. Sempre gostei de enredos circulares. É a forma que os escritores, pessoas do tamanho das outras, tem para sugerir eternidade. Se acaba conforme começa é porque não acaba nunca…” José Luís Peixoto nos diz claramente a que veio ao final da primeira parte: quer escrever uma história que não acabe nunca. E consegue.  Como um mágico de cartola, tira, sabe-se lá de onde, a ideia de fazer a história se arrevesar uma vez mais, mas de maneira mais completa. Não se trata mais de um espelhar de comportamentos, de um retrato de infinitas estruturas sociais que comprimem os indivíduos e os faz robôs de seus próprios preconceitos. Nem tampouco das idas e vindas dos personagens ou da narrativa que nos leva a diversos recomeços.  Agora, quando entramos na segunda parte, temos que trocar de marcha, refletir ainda uma vez sobre o texto. Porque descobrimos que ali há mistério. Faz-se necessário reconsiderar uma questão importante: quem narra esse romance?  E chegando a uma conclusão, como bons leitores que somos da narrativa linear, temos que voltar ao início e considerar as ramificações daquilo que descobrimos. Eureka!  Eternidade à vista! Fizemos a volta completa, mas com uma virada, aquela virada da fita de Möbius, aquele giro que faz do inicio o fim com um truque. Não se trata da forma circular, mas da elíptica com uma torção. Nasce um texto hermético.

JLP © Helena CanhotoJosé Luís Peixoto — Foto: Helena Canhoto

 

José Luís Peixoto arrisca, aposta, se aventura e se expõe nesse romance. Vai à procura da Pedra Filosofal e encontra vestígios de que ela existe. A caminho, ele enfeita e adorna a língua materna, diverte-se vadiando pela narrativa, como se estivesse mesmo a interpretar um escritor. A emigração portuguesa ilegal  para a França não é nada mais do que ponto de partida para uma corajosa investigação sobre os limites da narrativa. Joga verde e colhe maduro. Pratica e treina uma nova forma diante dos nossos olhos.  Ou será que os títulos dos capítulos estão lá por acaso?  Ou talvez as palavras circundadas por elipses, que remontam de novo à primeira parte do livro, foram invencionices da moda?  José Luís Peixoto se arremessa numa nova forma, atira no incerto e ganha o certo; dispara imagens gráficas e de linguagem.  E finalmente lança o leitor na montanha russa de uma narrativa sem fim.  Não há dúvidas de que ele é inovador, inventivo.  Nem de que ele sente os limites da forma e da língua como camisas de força. Para chegar lá ele brinca, graceja e se diverte. Leva-nos junto. E o resultado é muito produtivo, um trabalho realisticamente inovador.





Daqui a cem anos, que livros publicados no século XXI ainda serão lidos?

11 04 2014

Laerte AgnelliLaerte AgnelliLaerte Agnelli, (Brasil, 1937).

O jornal inglês The Guardian fez esta pergunta a seus leitores: “daqui a cem anos que livros publicados no século XXI ainda serão lidos?”  Para nos ajudar nessas especulações próprias para o fim de semana, John Crace, que assina a matéria, nos lembra que entre a virada do século XX e o início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, os seguintes livros foram publicados que ainda são lidos nos dias de hoje:”L Frank Baum escreveu The Wonderful Wizard of Oz, [O mágico de Oz]; Colette escreveu Claudine em Paris; Joseph Conrad escreveu Heart of Darkness [O coração das trevas], Baronesa Orczy escreveu  The Scarlet Pimpernel, [O pimpirnela escarlate]; EM Forster  escreveu Howards End, Thomas Mann escreveu Death in Venice [Morte em Veneza] e Marcel Proust escreveu Swann’s Way [No caminho de Swann]: todos esses livros se tornaram clássicos e são lidos até hoje”.

A minha pergunta é a mesma que o jornal inglês faz.  Que livros que você leu — publicados — nesses 14 anos do século XXI, você acredita que estarão ainda sendo lidos no ano de 2114?

Dos que li acredito que ainda sejam lidos em 2114.

Equador, de Miguel Sousa Tavares

Traduzindo Hannah, de Ronaldo Wrobel

E vocês?

Mais dois:

Seu rosto amanhã, Javier Marías  — contribuição da leitora, Nanci Sampaio, como vemos nos comentários.

2666, Roberto Bolaño — contribuição do leitor Alexandre Kovacs

 

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PS: Adicionei outros quando me lembrar de outros.





O Maracujá, poesia de Sônia Carneiro Leão

10 04 2014

 

Aquarela_Passiflora_edulis_01Ilustração botânica do maracujá [Passiflora edulis Sims] de Maria Cecília Tomasi.

O Maracujá

Sônia Carneiro Leão

Pego o maracujá e me assusto

Tão dura e tão oca

essa fruta mais louca

me deixa perplexa

de tão desconexa.

Sua carne é só casca.

Seu ventre, sementes.

Sua polpa tão pouca,

não dá pros meus dentes,

Maracujá intrigante,

enrugado, velhinho,

de gosto aceso, bacante,

como o do vinho.

Quero morder, não consigo.

Chupar, tão pouco não posso.

Que fazer, então, contigo,

com o teu paradoxo?

Ninguém o fura com o dedo

para evitar contusão,

esconde dentro o segredo

o doce-azedo da paixão.

Respeitamos o non-sense

da sua concepção.

Em: Respostas ao Criador Das Frutas, Sônia Carneiro Leão, auto-publicação,Holos Design,  ilustrado por Renata Vilanova, p. 13.

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Sônia Carneiro Leão nasceu no Rio de Janeiro, mas reside em Recife.  Psicanalista, escritora, poetisa, contista  e tradutora.