Trova da mentira e do sonho

30 09 2015

 

 

sonho 3Cascão sonha com porquinhos, ilustração de Maurício de Sousa.

 

 

A mentira é sonho lindo

neste meu mundo encantado.

Sonhando, minto dormindo,

mentindo, sonho acordado.

 

(Sinval Emílio da Cruz)





Mãe, poesia infantil de Sérgio Caparelli

28 09 2015

 

 

760718-family circus,“– Como é que você só leu uma página do seu livro, mamãe?”  —  Cartoon, Bil Keane.

 

 

Mãe

 

Sérgio Caparelli

 

De patins, de bicicleta,

de carro, moto, avião

nas asas da borboleta

e nos olhos do gavião

de barco, de velocípedes

a cavalo num trovão

nas cores do arco-íris

no rugido de um leão

na graça de um golfinho

e no germinar do grão

teu nome eu trago, mãe,

na palma da minha mão.

 

 

Em: Poesia fora da estante, Vera Aguiar, Simone Assumpção e  Sissa Jacoby, 13ª edição, Porto Alegre, Projeto: 2007, p.106





Trova dos achados e perdidos

23 09 2015

 

gaveta, meia fujonaMeia fujona, ilustração.

 

 

Meus achados e perdidos

trazem de volta passados

que imaginava esquecidos

e, até, talvez… sepultados.

 

(João Freire Filho)





Em meu jardim, poesia de Afonso Louzada

22 09 2015

 

 

jardinagem, jardim, carrinho, Joseph B. Platt,House and Garden 1925-03Ilustração de Joseph B. Platt, Revista House and Garden, março de 1925.

 

 

Em meu jardim

 

Afonso Louzada

 

Artista jardineiro, enamorado

do encanto policrômico das cores,

em meu jardim plantei todas as flores

a que dei meu amor mais desvelado:

 

rosas de um rubro vivo, das mil dores

do acicate cruento do pecado;

lírios de um branco puro, imaculado,

da virginal pureza dos amores.

 

E sob o meu carinho, todo dia,

como nenhum outro jamais faria,

tudo medrou, cresceu, floriu, enfim.

 

Só vós que sois das flores a princesa,

entre rosas e lírios, com certeza

não quisestes florir no meu jardim.

 

 

Em: Templo Abandonado, Afonso Louzada, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional: 1945, p. 31





Cântico das árvores, poesia de Olavo Bilac, no Dia da Árvore

21 09 2015

 

 

Plantar, Britta Barlow, GoodHousekeeping1927-05Ilustração de Britta Barlow, Revista Good Housekeeping, maio de 1927.

 

 

Cântico das árvores

 

Olavo Bilac

 

 

Quem planta uma árvore enriquece

A terra, mãe piedosa e boa:

E a terra aos homens agradece,

A mãe os filhos abençoa.

 

A árvore, alçando o colo, cheio

De seiva forte e de esplendor

Deixa cair do verde seio,

A flor e o fruto, a sombra e o amor.

 

Crescei, crescei na grande festa

Da luz, de aroma e da bondade,

Árvores, glória da floresta!

Árvores vida da cidade!

 

Crescei, crescei sobre os caminhos,

Árvores belas, maternais,

Dando morada aos passarinhos,

Dando alimento aos animais!

 

Outros verão os vossos pomos:

Se hoje sois fracas e crianças,

Nós, esperanças também somos

Plantamos outras esperanças!

 

Para o futuro trabalhamos:

Pois, no porvir, novos irmãos,

Hão de cantar sob estes ramos,

E bendizer as nossas mãos!

 

-x-

Este poema foi musicado pelo maestro Francisco Braga.

 

Em:  Apologia da árvore, Leonam de Azeredo Penna, Rio de Janeiro, IBDF: 1973, p. 137.

 





Resenha: “Norwegian Wood” de Haruki Murakami

20 09 2015

 

 

UWSrams1TokyoMarketRua do Mercado em Tokio, c. 2012

Ian Ramsey (GB, contemporâneo)

aquarela, 48 x 50 cm

Ian Ramsey

 

 

Toru é um herói como qualquer outro rapaz vivendo no final da década de 1960. Bom menino, educado, respeitador dos mais velhos. Vivendo pela primeira vez fora de casa, está aberto à experimentação. A história se passa no final da década de 1960. Tudo está em mudança da França, aos Estados Unidos, ao Japão. Experimento de vida nada tem a ver com radicalismo. Mas com a vontade de explorar as possibilidades. E é assim que encontramos Toru Watanabe pela primeira vez. Sua independência, sua busca, passa pela vida num dormitório, pelas novas amizades de rapazes que como ele procuram um caminho. Tem o ímpeto de dedicar-se às matérias que provavelmente serão úteis no teatro, carreira na qual imagina o seu futuro, mas procura acima de tudo o amor. Sair da casa paterna teve seu peso, mas a vida deixou de ser segura e previsível para ele desde a morte de seu melhor amigo Kizuki. Com ele e a namorada dele, Naoko formavam um trio de amigos inseparáveis. No entanto, Kizuki se suicida e Toru acaba se apaixonando pela namorada do amigo.

Para crescer emocionalmente e finalmente tornar-se o adulto que almeja ser há de fazer escolhas. Para isso precisa experimentar. Como Nagasawa, um amigo do dormitório explica: “Se você só lê o mesmo que todo mundo lê, acaba pensando o mesmo que todo mundo pensa” [43]. E Toru experimenta, não só novas amizades masculinas, pessoas com quem jamais imaginara pudesse se relacionar, como com garotas nos bares, numa incessante procura de satisfação sexual. Não leva muito tempo para descobrir que pelo menos essa busca deixa o sexo insosso e sem sentido. À medida que se abre para conhecer novas pessoas Toru desenvolve seu próprio julgamento.

 

NORWEGIAN_WOOD_1248790583B

Mais do que um romance de passagem da adolescência para a vida adulta Haruki Murakami retrata uma era. Talvez a melhor representação do período que eu já encontrei na literatura contemporânea. Não importa que seja situada no Japão. Este é um retrato de uma geração inteira, chamada no ocidente de baby-boomers, que chegou à idade adulta antes de 1974, do final da Guerra do Vietnã. E o título, referência à música dos Beatles do mesmo nome, não é coincidência. A letra de “Norwegian Wood” é um paralelo bem feito à trama – ou falta dela – no romance.

Diferente de muitos não achei a história deprimente, nostálgica, nem achei as cenas de sexo despropositadas. Fiquei encantada ao ler os capítulos sobre o retiro nas montanhas. Só ali deu para perceber o que Murakami iria eventualmente desenvolver até chegar à sua extraordinária obra 1Q84.

 

haruki-murakamiHaruki Murakami

 

Eu poderia dar a minha interpretação aqui sobre as três mulheres da vida de Toru. Mas não quero me alongar para não revelar mais do que o necessário. Mas são três as mulheres importantes em sua vida: uma – um sonho inatingível; outra contato com a realidade, uma união com a terra, com o sólido e seguro. E a terceira um sopro de vida, fértil de possibilidades. Ele faz a escolha certa.

Maravilhoso.





Trova de sua ofensa

18 09 2015

 

 

casal enamorado

 

 

Ser seu amigo é um valor

que para mim não compensa,

para quem deseja o amor,

a amizade é quase ofensa.

 

(Arlindo Tadeu Hagen)





Escola, poesia de Armindo Rodrigues

17 09 2015

 

 

ESCOLA Michael Peter Ancher (1849 – 1927, Danish) a-village-school-in-skagenEscola em vilarejo de Skagen

Michael Peter Ancher (Dinamarca, 1849-1927)

óleo sobre tela

 

 

Escola

 

Armindo Rodrigues

 

 

Os meninos estão sentados

com um ar baço de tédio

e entre os meninos eu,

eu de mim, menino, lembrado,

mas já distante sem remédio.

 

De novo, menino, oiço

a voz vagarosa e dura

do professor a repetir.

a repetir, como um baloiço,

a mesma pergunta obscura.

 

De novo, menino, fujo,

embora imaginariamente,

da aula monótona e parada

e me perco no pó da estrada

à minha própria procura.

 

 

Em: Voz arremessada no caminho; poemas, Armindo Rodrigues, Lisboa: 1943, p. 55





Um vislumbre da formação de Mario Vargas Llosa

16 09 2015

 

Juan Ardohain (Argentina, 1963, Mujer leyendo,Mulher lendo, 2010

Juan Ardohain (Argentina, 1963)

óleo sobre tela

 

 

 

“Aconteceu em Lima, por volta de 1955. Tinha acabado de me casar pela primeira vez e precisei acumular vários trabalhos para ganhar a vida. Cheguei a ter oito, enquanto continuava os estudos universitários. O mais pitoresco deles era fichar os mortos das quadras coloniais do cemitério Presbítero Maestro, de Lima, cujos nomes haviam desaparecido dos arquivos da Beneficência Pública. Fazia isso aos domingos e feriados, indo ao cemitério equipado com uma escadinha, fichas e lápis. Depois de realizar meu escrutínio das velhas lápides, elaborava listas com nomes e datas, e a Beneficência Pública de Lima me pagava por morto. Porém o mais grato dos meus oito ganha-pães não era esse, e sim o do ajudante de bibliotecário do Clube Nacional. O bibliotecário era meu professor, o historiador Raúl Porras Barrenechea. Minhas obrigações consistiam em passar duas horas diárias de segunda a sexta no elegante edifício do Clube, símbolo da oligarquia peruana, que naqueles anos celebrava seu centenário. Teoricamente, precisava dedicar essas poucas horas a fichar as novas aquisições da biblioteca, mas, não sei se por problemas de verbas ou se por negligência da diretoria do Clube Nacional já quase não adquiria livros naquela época, de modo que eu podia dedicar aquelas duas horas a escrever e ler. Eram as duas horas mais felizes daqueles dias, em que da manhã até a noite eu não parava de fazer coisas que me interessavam pouco ou nada. Não trabalhava na bela sala de leitura do térreo do Clube, mas num escritório do quarto andar. Ali descobri com felicidade, dissimulada atrás de uns discretos biombos e de umas cortininhas pudibundas, uma esplêndida coleção de livros eróticos, quase todos franceses. Ali eu li as cartas e fantasias eróticas de Diderot e Mirabeau, o marquês de Sade e Restif de la Bretonne, Andréa de Nerciat, Aretino, Memórias de uma cantora alemã, Autobiografia de um inglês, Memórias de Casanova, Ligações perigosas de Choderlos de Laclos e não sei quantos outros livros clássicos e emblemáticos da literatura erótica.

Ela tem antecedentes clássicos, evidentemente, mas irrompe de verdade na Europa no século XVIII, em pleno auge dos philosophes e suas grandes teorias renovadoras da moral e da política, sua ofensiva contra o obscurantismo religioso e sua apaixonada defesa da liberdade…”

 

Em: “O desaparecimento do erotismo“, A civilização do espetáculo: uma radiografia do nosso tempo e da nossa cultura, Mario Vargas Llosa, Rio de Janeiro, Objetiva: 2013, tradução Ivone Benedetti, pp. 99-100.





Resenha: “Na Praia”, de Ian McEwan

15 09 2015

 

(c) Roger Gilmore Ward; Supplied by The Public Catalogue FoundationPraia Chesil, no inverno, Dorset

Philip Leslie Moffat Ward (GB, 1888-1978)

óleo sobre placa, 46 x 61 cm

Russell-Cotes Art Gallery & Museum

 

 

Quanta impaciência! Quanta falta de comunicação! Quanta dor! Na praia aborda o processo de encantamento de dois jovens de 22 anos, vivendo no início da década de 1960. O período é anterior ao assassinato de John F. Kennedy nos EUA (1963) e na Inglaterra, onde a história se desenvolve, Harold MacMillan é o primeiro ministro. São esses os parâmetros políticos que enquadram o período de alguma insatisfação sociopolítica que resulta no encontro das duas pessoas que provavelmente jamais se encontrariam em circunstâncias normais, não fosse uma demonstração política: Florence, a violinista e Edward, o historiador, sem rumo certo. A paixão toma conta dos dois. Eles indubitavelmente se amam. E se casam.

Ambos mantêm diversos aspectos de suas vidas sob véus de discrição. Edward tem um espírito volátil. Entra em brigas físicas com facilidade, o que lhe causa alívio e vergonha. Este é um homem que se mantém em permanente tensão. O namoro com Florence retrata a tensão sexual a que se submete, numa época em que o sexo pré-nupcial não é aceitável. Florence por outro lado é uma mulher com uma grande paixão, a música. E aos 22 anos ainda não conseguiu expressar paixão fora do ambiente musical. Na verdade tem uma grande aversão ao sexo. É possível que tenha havido um caso de abuso quando ela tinha doze para treze anos, mas isso não fica claro. No dia de seu casamento, no entanto, ainda não conseguiu dominar o asco que sente sobre todo o processo do amor físico. Por não conversarem. Por não conseguirem se abrir sobre esses problemas, a surpresa na noite de núpcias, quando Na praia inicia, tem consequências imprevisíveis.

 

na-praia

 

Quer uma pessoa tenha experiência ou não, o primeiro encontro sexual, repleto de emoções quando os parceiros já se amam, pode ser um momento de grande sensibilidade, e pode revelar mais do que cada um imagina. No caso de Florence e Edward, ambos virgens, essa sensibilidade é levada a um grau muito elevado, e ambos, sem saberem como se comportar nesse momento de rendição total, acabam por levar as conseqüências dessa noite a extremos que eles mesmos não poderiam ter antecipado. Há para o leitor do século XXI uma experiência de catarse, de alívio, ao reconhecer que muitos dos entraves a que esses dois personagens se submetem não existem mais, há barreiras sociais que hoje são impensáveis. Não fosse a mestria de narrativa de Ian McEwan, ao demonstrar as sensibilidades, as nuances da vida de cada um dos personagens, os fatos que precedem esse momento, no pequenino romance de 130 páginas, não seriam compreendidos pelo leitor moderno.

 

ian-mcewanIan McEwan

 

Este romance não trata só dos hábitos diferentes, costumes de outras eras. Retrata a impaciência da juventude, decisões e atitudes que presumem mais do que devem. O desencontro é inevitável, pois nenhum dos personagens é honesto. E consequências acabam também sendo passionais, com uma virada de ponta-cabeça. Tudo isso maravilhosamente narrado em detalhe, de maneira elegante e fria, por um mestre da insinuação, da meia-palavra. Vale uma tarde de leitura que certamente se tornará inesquecível para o leitor.