A imaginação é a solução: “O Sr. Pip” de Lloyd Jones

29 07 2013

Aldemir Martins (1922-2006) - Paisagem com sol amarelo - Acrílica sobre tela - 18,5 x 22,5 cm - 2000Paisagem com sol amarelo, 2000

Aldemir Martins (Brasil, Brasil, 1922-2006)

acríica sobre papel, 18 x 22 cm

Coleção Particular

Não me surpreende que este romance tenha levado o prêmio  de melhor livro em 2007, dentre os Escritores da Commonwealth, e que nesse mesmo ano tenha sido um dos finalistas do Man Booker Prize. O Sr. Pip, já nasceu um clássico.  E gerações futuras irão se encantar, aprender e se alimentar nessa surpreendente fonte de sabedoria elaborada por Lloyd Jones.

A história se passa em Bourgainville, arquipélago de Papua-Nova Guiné.  O enredo, entrelaçado com eventos reais durante a guerra civil de 1991, chega até nós através dos olhos de Matilda, uma menina-moça.  Lloyd Jones foi muito feliz na voz que encontrou para Matilda, a pré-adolescente, que encontramos com aproximadamente 13 anos e que nos seduz por sua candura e inteligência.  Seguimos seu crescimento até a idade adulta, físico e emocional. Mas é  o tom encontrado para ela, uma harmoniosa combinação da inocência da criança com a voz que amadurece por necessidade, que torna o livro sedutor.

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Inicialmente Matilda não tem meios de entender o mundo que a rodeia; a realidade da guerra civil é incompreensível. Despojadas dos confortos cotidianos, as crianças da ilha encontram em um de seus habitantes, Sr. Watts, uma maneira de se preservarem.  Ele se torna professor da criançada, quando já quase nada mais resta no local além da escola vazia, abandonada, cheia de lagartixas e trepadeiras crescendo de encontro às paredes.

Sr. Watts têm métodos diferentes de ensinar e com ele as crianças adquirem meios para lidar com a devastadora realidade que as cerca. Matilda segue seu professor passo a passo e acaba se apaixonando pelo personagem Pip, do livro Grandes Esperanças de Charles Dickens, o livro que todos lêem e relembram.

lloyd_jonesLloyd Jones

Com essa simples e transparente narrativa Lloyd Jones nos entrega uma pequena obra prima sobre o poder da imaginação, sobre as funções da literatura, sobre justiça e dignidade. Tudo através da metodologia de  Sr. Watts que seduz com sua paixão tanto seus alunos na ilha, quanto nós  leitores mesmerizados.  Como subtexto, temos uma vigorosa defesa do papel da literatura na vida de quem a ela se dedica, leitor ou escritor.  Através do Sr. Watts aprendemos também que temos diversas vidas, diversos papéis, que vão sendo adaptados às diferentes situações, de acordo com as nossas  necessidades.  Um saudável e belíssimo manual de sobrevivência através da criação literária.





O azul está por todo lado, texto de Lloyd Jones

27 07 2013

Newman Shutze (Brasil, 1960)Superfície com azul e branco, Acrílico sobre tela140 x 110 cmSuperfície com azul e branco, s/d

Newman Shutze (Brasil, 1960)

Acrílica sobre tela, 140 x 110 cm

O azul está por todo lado

Lloyd Jones

“ Existe um lugar chamado Egito – ela disse. – Não sei nada sobre esse lugar. Gostaria de poder contar para vocês sobre o Egito. Perdoem-me por não saber mais. Porém, se quiserem, posso contar-lhes tudo o que sei sobre a cor azul.

Então nós ouvimos sobre a cor azul.

— Azul é a cor do Pacífico. É o ar que respiramos. Azul é o intervalo de ar entre todas as coisas, como as palmeiras e os telhados de zinco. Se não fosse pelo azul, não veríamos os morcegos. Obrigada, meu Deus, por nos ter dado a cor azul.

“É surpreendente como a cor azul está sempre aparecendo”, continuou a avó de Daniel. “É só olhar que você vê. Você pode encontrar o azul espiando pelas frestas do cais em Kieta. E vocês sabem o que ele está tentando fazer? Ele está tentando alcançar as vísceras fedorentas dos peixes para levá-los de volta para casa.  Se o azul fosse um animal, ou uma planta, ou uma ave, ele seria uma gaivota. Ele mete o seu bico em tudo.

“O azul tem poderes mágicos também”, ela disse. “Olhe para um recife e digam se estou mentindo. O azul bate num recife e qual é a cor que ele solta? É o branco!  Como ele faz isso?”

Olhamos para o Sr. Watts em busca de explicação, mas ele fingiu não notar nossos rostos indagadores. Estava sentado na ponta da cadeira, de braços cruzados. Cada pedaço dele parecia focado no que a avó do Daniel estava dizendo. Um a um, voltamos a nossa atenção para a velhinha com boca manchada de bétel.

— Uma última coisa crianças, e então deixo vocês em paz. O azul pertence ao céu e não pode ser roubado, razão pela qual os missionários grudaram azul nas janelas das primeiras igrejas que construíram aqui na ilha.

O Sr. Watts abriu bem os olhos daquele jeito que já tinha se tornado familiar, como se estivesse acordando. Foi até a avó de Daniel com a mão estendida. A velha estendeu a dela para ele   segurar e então ele se virou para turma.

— Hoje nós tivemos muita sorte. Muita sorte. Fomos lembrados que, apesar de não podermos conhecer o mundo todo, se formos suficientemente inteligentes, podemos torná-lo algo novo. Podemos inventá-lo com as coisas que vemos à nossa volta. Só precisamos olhar e tentar ser tão imaginativos quanto a avó de Daniel. – Ele pôs a mão no ombro da velha senhora. – Obrigado – ele disse. – Muito obrigado.

Em: O Sr. Pip, Lloyd Jones, trad. Léa Viveiros de Castro, Rio de Janeiro, Rocco:2007, pp. 68-69





A dignidade na vida e na morte: “Acabadora” de Michela Murgia

20 07 2013

Pablo Picasso, A vida, 1903, Cleveland Museum

A vida, 1903

Pablo Picasso (Espanha, 1881 – 1973)

Óleo sobre tela, 196 x 129 cm

Cleveland Museum of Fine Arts, EUA

Não me surpreende que Michela Murgia tenha ganhado diversos prêmios literários na sua terra natal, a Itália, com o livro Acabadora.  Sua escrita é poética, sensível, retrata uma realidade que sabemos verdadeira apesar de parecer um sonho enevoado e o faz  com sedução, guiando o leitor pela mão, a ponderar sobre a vida, seu valor; sobre o que é bondade;  a morte,  a traição, a eutanásia e a dignidade humana.

Passado em uma pequena vila da Sardenha,  na década de 1950, o romance está centrado nas figuras de Bonaria Urrai e Maria Listru.  Maria foi adotada.  Quarta filha de uma família pobre com muitos filhos é dada à Bonaria para educá-la.  Bonaria tem uma vida dupla de costureira durante o dia e  de facilitadora da morte, para aqueles que se encontram em seus últimos momentos de vida.  Este segundo ofício é conhecido e aceito por todos os habitantes do vilarejo. Mas não é falado.  Assim Maria cresce sem saber da delicada profissão noturna de sua mãe adotiva.  Bonaria é uma boa mãe. Educa Maria em casa e na escola.  Tira-lhe o hábito dos pequenos roubos.  Incentiva-lhe a aplicação aos estudos.  Mas espera o momento apropriado para contar á Maria o que faz nas noites em que sai de casa.  Maria descobre antes de Bonaria lhe contar. Descobre  por outros,  e sentindo-se traída, quando se vê como  a única no vilarejo que não conhecia o ofício de Bonaria,  não perdoa  a velha senhora. E se afasta.  Há pelo menos dois sentimentos que Maria tem que resolver: o desgosto pelo que Bonaria faz, e a traição.

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O mais interessante dessa narrativa é que não somos levados a questionar a retidão de caráter de Bonaria.  Ela é  dura, honesta, resistente à adversidade, rígida, fiel a seus princípios morais. Conhecedora, como ninguém, dos personagens do vilarejo, Bonaria não tem dúvidas sobre a necessidade de seu ofício. E não vacila ao aplicar a sua ética.  Os vizinhos concordam em silêncio, assim como todas as outras pessoas no vilarejo. Bonaria, afinal, traz paz aos que dela necessitam.   Bonaria, no entanto é seduzida a se desviar de sua ética uma única vez, e é justamente nesse momento que Maria descobre a profissão de sua mãe de criação.

A rejeição de Maria à Bonaria é imediata.  Mas por muito tempo ficamos sem saber se esta rejeição é por se sentir traída, não sabendo tudo sobre sua mãe de criação, ou se é por rejeição completa ao ofício de Bonaria. Não importa, eventualmente,  Maria chega a uma solução que não desmerece tudo que aprendeu com a velha senhora. E faz as pazes com os parâmetros de sua existência.

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A minha reserva quanto ao livro está justamente nos capítulos em que Maria, deixando a Sardenha, consegue um emprego como babá. Não pareceram viáveis.  Foi uma maneira da autora resolver alguns conflitos internos de Maria, mas os personagens não parecem críveis, não convencem.  Pena.  Cento e sessenta páginas e um discurso poético que seduz, encanta e corta, pois obriga o leitor a ponderar sobre seu posicionamento sobre dignidade humana,  na vida e na morte. Sobre a dignidade da vida quando o ser humano sofre uma limitação física acabrunhadora.  Um belo texto.

AVISO: os comentários a esta resenha não estão abertos a qualquer discussão sobre a eutanásia, a favor ou contra, qualquer postura religiosa ou política.  Nenhum comentário será aceito que se revele portador desses assuntos.  Comentários não serão publicados ou serão removidos.





As fases da vida: “O verão sem homens” de Siri Hustvedt

17 07 2013

602px-Gustav_Klimt_020As três idades da mulher, 1905

Gustav Klimt (Áustria, 1862-1918 )

óleo sobre tela, 180 x 180 cm

Galeria Nacional de Arte Moderna, Roma

Há uma fase em que a maioria das mulheres se encontra na difícil posição de Mia Fredrickson, personagem principal em O verão sem homens: presa entre pais octogenários e filhos adolescentes ou jovens adultos, todos requerendo atenção.  Além disso,  essas mulheres precisam  gerenciar suas carreiras, lidar com as mudanças físicas da menopausa.  Dúvidas sobre a própria sensualidade pós-climatério são muitas vezes acentuadas pelo conformismo de um longo casamento, onde o parceiro já nem sempre está atento, carinhoso ou interessado.  O terreno é fértil para qualquer novelista e em grande parte, Siri Hustvedt consegue explorar bem os diversos aspectos dessa fase.

Sua estratégia foi colocar Mia Fredrickson, personagem principal do romance, poeta laureada e professora, abandonada pelo marido depois de 30 anos de casados, rodeada de mulheres nas mais diversas fases da vida, por um verão.  Para se restabelecer do choque da separação Mia aluga uma casa numa pequena cidade onde sua mãe mora num asilo para idosos e arranja um  trabalho de verão, dando aulas de poesia para um grupo de adolescentes.  Sua única amizade fora este círculo é com a vizinha, mãe de dois filhos pequenos, entre eles uma adorável menina.  Um arranjo perfeito:  todas as fases mais importantes na vida de uma mulher representadas.  Ótima idéia.  Da menina sonhadora  de poucos anos,  filha da vizinha ao grupo de adolescentes sensíveis e maldosas ;  da filha de Mia começando uma carreira artística à  vizinha, mulher m fase reprodutora, casada; da poeta já na menopausa e à mãe no final da vida, todas as fases da vida de uma mulher estão  representadas e dialogam entre si.   Como o título sugere este é um livro sem homens, ainda que muito aconteça por causa das ações dos homens vislumbrados.  Digo vislumbrados porque são representados sem profundidade, quase caricaturalmente.

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Sarcástica, mordaz no humor, Siri Hustvedt tem momentos brilhantes na narrativa.  E confesso que li ávida e com muito prazer os primeiros dois terços do livro.  Mas Mia Fredrickson não cativa como personagem.  Lá pelas tantas não me interessava mais o que aconteceria com ela.  Foi aí que percebi que muito mais importante do que uma história bem  contada, para a autora, o que  importou foram as teorias sobre o comportamento feminino nas diversas etapas da vida, examinadas com frieza intelectual.

Há momentos de grande sensibilidade e clareza, principalmente as precisas observações sobre o envelhecer.  Mas  tanto o grupo de adolescentes quanto o grupo de senhoras do asilo são caracterizadas de maneira simplista e é difícil de mantê-las separadas.  Sabemos os nomes de todas, mas seus perfis não se salientam o suficiente para se tornarem  personagens fora do grupo.  O texto é intercalado também de  muitas citações literárias.  Relevantes.  E há também diversas formas narrativas, inclusive, a de direcionar observações ao “Caro Leitor”, que nem sempre deixa o texto correr imune à interferência.  Aos poucos a Siri Hutsvedt, intelectual analítica, aparece demais, deixando de lado a voz narrativa da romancista.  Mas há, nesse pequeno livro, uma interessante descrição sobre diferenças entre os sexos, além da menção de diversos estudos científicos.  Isso, no entanto, enfraquece o impacto do texto.

SiriHustvedt-small6Siri Hutsvedt

Híbrido, nem romance,  nem ensaio.  O resultado é a combinação de uma tese sobre a condição feminina e um romance: nem um nem outro totalmente.  Se ensaio peca pela ficção e pela abundância de personagens.  Se romance peca pelo distanciamento intelectual, pelas inúmeras citações científicas e literárias. Acaba afetado e artificial, quase pretensioso.  O que o salva o texto são o humor de algumas passagens, e a série de citações de artigos científicos que suportam o texto, que é de um  feminismo, suave, de terceira geração, que se apoia nas diferenças de comportamento entre os sexos.   Apesar disso é uma história de leitura leve, perfeita para um verão na praia, com ou sem homens.





As surpreendentes aventuras de um centenário sueco

11 07 2013

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Idoso com chapéu de palha, 2012

Brad Schwede (Austrália, 1980)

Óleo

www.bradoilpainting.com

Tinha que vir da Suécia a idéia de contar a história do século XX através das aventuras de um homem que faz bombas.   Conversando com  um amigo, num encontro semanal, fui lembrada  da importância que a dinamite tem para a Suécia. O assunto veio à baila quando contava a ele a incrível aventura de ler O ancião que saiu pela janela e desapareceu, de Jonas Jonasson, escritor sueco,  ex-jornalista, cujo primeiro romance já encantou mais de 4,5 milhões de leitores de acordo com a capa do livro.  Foi aí que, de repente, ganhei uma nova  visão do livro que eu acabara de ler.  Por não ter me lembrado que Alfred B. Nobel, hoje famoso por ser  criador do Prêmio Nobel, havia feito fortuna com a invenção da dinamite, perdi a conexão óbvia do ponto de vista da história do mundo através de olhos suecos.  E por que isso seria importante para gostar ainda mais do livro?  Não é importante.  O livro é delicioso mesmo que se ignore esse fato.  Mas lembrar disso enriquece o prazer, contextualiza a narrativa que tem como subtexto  a evolução do século XX através dos olhos de quem construía bombas.

O ancião que saiu pela janela e desapareceu é escrito no tom  impassível de quem conta histórias hilariantes com a seriedade dos acontecimentos reais.   Esse tom nos induz a um sorriso largo e à expectativa a uma provável gargalhada, pois logo após as primeiras páginas percebemos que em seguida virá uma série interminável de aventuras cujo protagonista será um velhinho centenário.  Isso é feito  em dois tempos: as aventuras de Karl Karlsson no mês de maio de 2005, quando ele foge de um asilo onde uma festa para comemorar o seu centenário está prestes a começar e viaja com uma mala de cheia de dinheiro que não lhe pertence.  E em capítulos entremeados, conhecemos  a história de Karl Karlsson, especialista na fabricação de bombas, desde sua infância até o presente.  Ambas são uma corrente sem fim de aventuras, altamente improváveis, que deliciam o leitor.

ancião

Karl Karlsson é aquele homem que parece cair de pára-quedas nas situações mais inesperadas e sair delas com uma boa dose de atrevimento e fleuma.  Acreditando que a vida é o que ela é,  Karlsson encara o imprevisível  tomando decisões simples e sagazes aplicadas de maneira impassível.  Imperturbável, Karlsson acaba sendo de grande valia para os mais importantes líderes do século XX: Truman, Churchill, Mao, Lenine, Stalin entre outros.   Ele se infiltra e contribui de maneira surpreendente até mesmo para o “Manhattan Project” durante o fabrico da primeira bomba atômica.   Mas Karlsson só participa desses numerosos eventos, que mudam o rumo da história no século XX, pelo lado do avesso, pelas coxias, nos corredores palacianos; tudo porque está sempre metido em tanta confusão que precisa sistematicamente sair de uma situação difícil que o levará ao exílio ou à prisão.  Eventualmente Karlsson se torna um poliglota que se sai bem das mais inverossímeis situações em qualquer canto do mundo.  Vivendo perpetuamente em perigo, e saindo-se inalterado graças à própria ingenuidade  Karlsson é um protótipo do anti-herói.  O equilíbrio entre sua habilidade de prover governos com soluções  que requerem sigilo, perigo e espionagem e a necessidade de fugir de um problema pessoal de grande desconforto – como a prisão – este jogo entre opostos,  faz parte da brilhante narrativa que nos leva às gargalhadas.

AVT_Jonas-Jonasson_316.pjpegJonas Jonasson

Nessas circunstâncias há dezenas de ilegalidades cometidas, prevaricação, roubo e inverdades dia sim outro também, como deve acontecer em livros de aventuras.  Quanto mais aventura maiores as mentiras, maiores as encrencas.  O humor surge justamente do contraste entre o que o anti-herói faz e a moralidade do leitor das peripécias. Se você quer se divertir nesse inverno, sente-se em lugar confortável, debaixo de manta quentinha e divirta-se com esse senhor intrépido que aos cem anos de idade, ainda gosta de uma aventura e  nada mais tem a perder.  Vale a pena é puro divertimento.





Na China de outrora, texto de Eça de Queirós

29 04 2013

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O Circo chinês, publicação póstuma, c. 1820-30

Gaetano Zancon (Itália, 1771-1816)

gravura

Publicada em: Le Costume Ancien et Moderne 

Na China de outrora

Eça de Queirós

Fomos até as entradas das pontes sobre os canais, onde saltimbancos seminus, com máscaras simulando demônios pavorosos, fazem destrezas dum picaresco bárbaro e sutil; e muito tempo estive a admirar os astrólogos de longas túnicas, com dragões de papel colocados  às costas, vendendo ruidosamente horóscopos e consultas de astros. Oh! cidade fabulosa e singular! De repente ergue-se uma gritaria! Corremos: era um bando de presos, que um soldado, de grandes óculos, iam impelindo com o guarda-sol, amarrados uns aos outros pelo rabicho! Foi aí nessa avenida que em vi o estrepitoso cortejo de um funeral de Mandarim, todo ornado  de auriflamas e de bandeirolas; grupos de sujeitos fúnebres vinham queimando papéis em fogareiros portáteis; mulheres esfarrapadas uivavam de dor, espojando-se sobre tapetes; depois erguiam-se, galhofavam e um cule vestido de luto branco servia-lhes logo chá, de um longo bule em forma de ave. Ao passar junto ao Templo do Céu, vejo apinhada num largo uma multidão de mendigos, as mulheres com os cabelos entremeados de velhas flores de papel, roíam ossos tranquilamente; e cadáveres de crianças apodreciam ao lado, sob o vôo dos moscardos. Adiante topamos com uma jaula de grades, onde um condenado estendia, através das grades, as mãos descarnadas à esmola… Depois Sá-Tó mostrou-me respeitosamente uma praça estreita; aí sobre pilares de pedra, repousavam pequenas gaiolas contendo cabeças decapitadas; e, gota a gota, ia pingando deles um sangue espesso e negro…

– Uf! – exclamei, fatigado e aturdido. – Sá-Tó, agora quero o repouso, o silêncio, e um charuto caro…

Ele curvou-se: e, por uma escadaria de granito, levou-me às altas muralhas da cidade, formando uma esplanada que quatro carros de guerra a par podem percorrer durante léguas.

E enquanto Sá-Tó, sentado num vão de ameia, bocejava, num desafogo de cicerone enfastiado, eu fumando contemplei muito tempo aos meus pés a vasta Pequim…

É como uma formidável cidade da Bíblia, Babel ou Nínive, que o profeta Jonas levou três dias a atravessar. O grandioso muro quadrado limita os quatro pontos do horizonte, com as suas portas de torres monumentais, que o ar azulado, àquela distância, faz parecer transparentes. E na imensidão do seu recinto aglomeram-se confusamente verduras de bosques, lagos artificiais, canais cintilantes como aço, pontes de mármore, terrenos alastrados de ruínas, telhados envernizados reluzindo ao sol; por toda a parte são pagodes heráldicos, brancos terraços de templos, arcos triunfais, milhares de quiosques saindo de entre as folhagens dos jardins; depois espaços que parecem um montão de porcelanas, outros que se assemelham a monturos de lama; e sempre a intervalos regulares o olhar encontra algum dos bastiões, de um aspecto heróico e fabuloso…

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Imperador Ch’Ien Lung carregado em triunfo, publicação póstuma, c. 1820-1830

Gaetano Zancon (Itália, 1771-1816)

gravura

Publicada em: Le Costume Ancien et Moderne

A multidão, junto a essas edificações grandiosas, é apenas como grãos de areia negra que um vento brando vai trazendo e levando…

Aqui está o vasto palácio imperial, entre arvoredos misteriosos, com os seus telhados de um amarelo de ouro vivo! Como eu desejaria penetrar-lhe os segredos, e ver desenrolar-se pelas galerias sobrepostas, a magnificência bárbara dessas dinastias seculares!

Além ergue-se a torre do Templo do Céu, semelhando três guarda-sóis sobrepostos: depois a grande Coluna dos Princípios, hierática e seca como o gênio mesmo da raça: e adiante branquejam numa meia-tinta sobrenatural os terraços de jaspe do Santuário da Purificação…

Então interrogo Sá-Tó: e o seu dedo respeitoso vai-me mostrando o Templo dos Antepassados, o Palácio da Soberana Concórdia, o Pavilhão das Flores das Letras, o Quiosque dos Historiadores, fazendo brilhar, entre os bosques sagrados que os cercam, os seus telhados lustrosos de faianças azuis, verdes, escarlates e cor de limão. Eu devorava, de olho ávido, esses monumentos da Antiguidade asiática, numa curiosidade de conhecer as impenetráveis classes que os habitam, o princípio das instituições, a significação dos cultos, o espírito das suas letras, a gramática, o dogma, a estranha vida interior de um cérebro de letrado chinês… Mas esse mundo é inviolável como um santuário…

Sentei-me na muralha, e os meus olhos perderam-se pela planície arenosa que se estira para além das portas até aos contrafortes dos montes mongólicos; aí incessantemente redemoinham ondas infindáveis de poeira; a toda a hora negrejam filas vagarosas de caravanas… Então invadiu-me a alma uma melancolia, que o silêncio daquelas alturas, envolvendo Pequim, tornava de um vago mais desolado: era como uma saudade de mim mesmo, um longo pesar de me sentir ali isolado, absorvido naquele mundo duro e bárbaro: lembrei-me, com os olhos umedecidos, da minha aldeia do Minho, do seu adro assombreado de carvalheiras, a venda com um ramo de louro à porta, o alpendre do ferrador, e os ribeiros tão frescos quando verdejam os linhos…

Aquela era a época em que as pombas emigram de Pequim para o Sul. Eu via-as reunirem-se em bandos por cima de mim, partindo dos bosques dos templos e dos pavilhões imperiais; cada uma traz, para a livrar dos milhafres, um leve tubo de bambu que o ar faz silvar; e aquelas nuvens brancas passavam como impelidas de uma aragem mole, deixando no silêncio um lento e melancólico suspiro, uma ondulação eólica, que se perdia nos ares pálidos…

Voltei para casa, pesado e pensativo.

Ao jantar, Camilloff, desdobrando o seu guardanapo, pediu-me com bonomia as minhas impressões de Pequim.

– Pequim faz-me sentir bem, general, os versos de um poeta nosso:

Sôbolos (*) rios que vão

Por Babilônia me achei …

– Pequim é um monstro! – disse Camilloff oscilando refletidamente a calva. – E agora considere que a esta capital, à classe tártara e conquistadora que a possui, obedecem trezentos milhões de homens, uma raça subtil, laboriosa, sofredora, prolífica, invasora… Estudam as nossas ciências… Um cálice de Médoc, Teodoro!… Têm uma marinha formidável! O exército, que outrora julgava destroçar o estrangeiro com dragões de papelão donde saíam bichas de fogo, tem agora táctica prussiana e espingarda de agulha! Grave!

Em: O Mandarim, Eça de Queirós, publicado em 1880, em domínio público.

(*) Nota da peregrina: sôbolos é uma contração de ‘sobre os’, encontrada em Camões, de onde são estes versos citados por Eça de Queirós  – mas a palavra também aparece mais recentemente no título do livro de Antônio Lobo Antunes, Sôbolos  rios que vão, publicado em 2010, que  é uma citação direta dessa redondilha de Camões (**).

(**) A redondilha de Camões:

“Sobolos rios que vão
Por Babilônia m’achei,
Onde sentado chorei
As lembranças de Sião,
E quanto nela passei.
Ali o rio corrente
De meus olhos foi manado;
E tudo bem comparado,,
Babilônia ao mal presente
Sião ao tempo passado.”
(Versos 1-10)





Mal d’Afrique, texto de Francesca Marciano

24 04 2013

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Cânion do Rio Blyde,  s/d

Mabel Withers (África do Sul, 1870-1956)

aquarela, 16 x 25 cm

Le mal d’Afrique

Tanta gente tentou definir o sentimento que os franceses chamam de Mal d’Afrique, que de fato é uma doença. Os ingleses nunca tiveram uma definição para ele, acho que porque jamais gostaram de admitir que, de algum modo, estavam sendo ameaçados por este continente. Obviamente porque preferiam a idéia de governá-lo a de ser governados por ele.

Só agora compreendo como esse sentimento é uma forma de deteriorização. É como uma rachadura na madeira que vai avançando lentamente. Pouco a pouco ele se torna mais e mais profundo, até finalmente separar você do resto. Um dia você acorda e descobre que está flutuando sozinho, virou uma ilha independente arrancada de sua terra natal, de sua base moral. Tudo já aconteceu enquanto você dormia, e agora é tarde demais para tentar qualquer coisa: você está aqui fora não há retorno. Essa é uma viagem só de ida.

Contra sua vontade, você é obrigado a experimentar o horror eufórico de flutuar no vazio, suas amarras rompidas para sempre. É uma emoção que corroeu lentamente todos os seus vínculos, mas é também uma vertigem constante a que você nunca vai se acostumar.

É por isso que um dia você tem de voltar. Porque agora você não pertence mais a lugar nenhum. A nenhum endereço, casa ou número de telefone de nenhuma cidade. Porque uma vez que tenha estado aqui, pairando solto ao Grande Nada, você nunca mais vai ser capaz de encher seus pulmões com ar suficiente.

A África o observou e o arrancou do que você era antes.

É por isso que fica querendo fugir, mas sempre terá de voltar.

Depois,  é claro, há o céu.

Não há céu tão grande quanto este em nenhum outro lugar do mundo. Ele paira sobre você, como uma espécie de guarda-chuva gigantesco e lhe tira o fôlego. Você fica achatado entre a imensidão do ar sobre sua cabeça e o chão sólido. Ele cerca você por todos os lados, 360 graus, céu e terra, um o reflexo aéreo do outro. O horizonte aqui não é mais uma linha plana, mas um círculo sem fim, que faz sua cabeça rodopiar. Tentei descobrir que artifício existe por trás deste mistério, porque não vejo razão alguma para haver mais céu num lugar que noutro. Não fui capaz, contudo, de descobrir qual é a ilusão de óptica que torna o céu africano tão diferente de qualquer outro céu que você tenha visto na vida. Poderia ser o ângulo particular do planeta no Equador, ou quem sabe o modo como as nuvens flutuam, não acima da sua cabeça, mas bem diante de seu nariz, pousadas na borda mais baixa do guarda-chuva, logo acima do horizonte. Essas nuvens à deriva, que redesenham constantemente o mapa: num relance você pode ver uma tempestade se armando no norte, o sol brilhando no leste e, no oeste, um céu cinzento, que fatalmente vai azular-se a qualquer minuto. É como se centrar diante de uma gigantesca tela de televisão, assistindo a uma previsão do tempo cósmica.

Você está viajando para o norte, rumo ao NFD, o legendário North Frontier District, e de repente é como se estivesse olhando a paisagem com um binóculo virado ao contrário. As últimas lentes grandes-angulares, que comprimem o infinito dentro de seu campo de visão. Seus olhos nunca lançaram um olhar tão amplo. Terra plana que se estende por todo o caminho até o distante perfil púrpura do Matthews Range e depois, exatamente quando você pensava que o espaço terminara, precisamente quando imaginava que a paisagem iria se fechar de novo à sua volta, que você iria se sentir menos exposto, uma outra cortina se ergue para revelar mais vastidão, e seus olhos ainda não conseguem divisar o seu fim.

Mais terra se estirando obedientemente sob seus pneus, oferecendo-se para ser trilhada. As maracás das suas rodas tornam-se a bandeira interminável de sua conquista. Você enche os pulmões com o cheiro seco de pedras quentes e poeira e tem a impressão de estar aspirando o universo.

Você se vê enquanto entra nessa geometria grandiosa, absoluta: você não passa de um pontinho diminuto, uma partícula minúscula que avança muito lentamente. Agora você se afogou no espaço, é obrigado a redefinir todas as proporções. Uma palavra que não lhe ocorria há anos lhe vem à mente. Ela brota de algum lugar dentro de você.

Você se sente humilde. Porque a África é o começo.

Não há abrigo aqui: nenhuma sombra, nenhuma parede, nenhum teto sob os quais se esconder. O homem nunca se deu ao trabalho de deixar sua marca na terra. Só choupanas minúsculas feitas de palha, como ninhos de aves que o vento vai varrer facilmente.

Você não pode se esconder.

Aqui está você,  sob esse sol causticante, exposto. Você percebe que tudo com que pode contar agora é o seu corpo. Nada do que aprendeu na escola, com a televisão, com seus amigos brilhantes, com os livros que leu, vai ajudá-la.

Só agora você se dá conta de que suas pernas não são fortes o bastante para correr, suas narinas não são capazes de cheirar, sua vista é fraca demais. Percebe que perdeu todos os seus poderes originais. Quando o vento sopra o cheiro acre de búfalo no seu nariz, um cheiro que você nunca tinha sentido antes, você reconhece o instantaneamente. Você sabe que o cheiro sempre esteve aqui. O seu, por outro lado, é o resultado de muitas coisas diferentes, de filtro solar a dentifrício.

Le mal d’Afrique é vertigem, é corrosão e, ao mesmo tempo, é nostalgia. É um desejo de retornar à infância, à mesma inocência e o mesmo  horror, quando tudo ainda era possível e cada dia poderia ter sido o dia da sua morte.

Em: As leis da selva, de Francesca Marciano, tradução de Maria Luiza X. de A. Borges, Rio de Janeiro, Record: 2001, pp: 20-23





Rudyard Kipling no Rio de Janeiro

4 04 2013

Bruno Bronislaw Lechowski (1887–1941),Praia de Copacabana, 1936

Bruno Bronislaw Lechowski (1887-1941)

aquarela sobre papel

Almocei hoje com um amigo vindo de uma Europa cheia de neve e frio, onde o tempo insiste em prolongar um dos piores invernos de que se teve notícias por aquelas bandas.  Sua alegria de voltar aos trópicos foi contagiante e me lembrei também do tempo em que morando fora do Brasil, chegava aqui de visita à família e me encantava até mesmo com o Galeão, porque reconhecia o colorido das folhas verdes da Ilha do Governador e o cheiro do material de limpeza do aeroporto.  Isso só acontece quando se tem muita saudade mesmo!  Voltei para casa e fui correndo dar uma olhadinha em um texto de Rudyard Kipling sobre o Brasil,  um escritor amante dos trópicos, da Índia e de outros lugares também abençoados.  Re-encontrei esse livro na semana passada quando passei em revista meus livros.  Sabe aquela crença: vamos nos desfazer de algumas coisas para dar espaço para outras melhores?  Pois ando nessa vibração, talvez seja a necessidade de contribuir para que o status quo desembeste, mude, saia da mesmice.   Não consegui achar o texto de que me lembrava, mas achei esta introdução ao Rio de Janeiro que considero charmosa.  Espero que vocês gostem.

“Nos países sensatos, não há pressa, nem mesmo para a Saúde ou a Polícia do Porto. Por isso, embora houvéssemos entrado no porto do Rio no começo da tarde, já estava começando a escurecer quando nos aproximamos do cais e toda a cidade e as costas ao lado dela escolheram esse momento para acender constelações e vias-lácteas de desenfreada eletricidade.

Subiram então a bordo homens dispostos, como os homens do mundo inteiro, a mostrar a um estrangeiro a cidade que amavam. Dentro de dois minutos, as linhas escuras dos cais repletos tinham desaparecido e o carro corria por uma avenida cheia de luzes e fortemente quadriculada por filas duplas de folhagem das árvores e marginada e clubes, lojas e cafés iluminados e repletos. Esse mundo de luz cedei lugar de súbito, entre os topos de edifícios gigantescos, a espaços ainda mais vastos de avenidas de pista única, entre árvores, tendo a baía de um lado e franjadas de luzes elétricas que corriam para a frente aparentemente para sempre e se renovavam em colares de pérolas atiradas em volta de cantos indivisíveis. E sempre, acima de tudo, viam-se e sentiam-se os contornos das montanhas cobertas de matas. Todo o mundo estava conosco em carros todos cheios de gente sem chapéu, todos em velocidade máxima, mas não mais rápidos do que certos diabólicos ônibus cujos barulhos funcionais eu iria confundir depois com o trovejar de um aeroplano diante da minha janela no oitavo andar. À nossa direita, um morro cujas luzes profusas subiam e se interrompiam, indicando a meio curvas de caminho.  Conheciam-se bastante os velhos romances para saber que aquilo devia ser Santa Teresa, o bairro onde os funcionários virtuosos e os amantes exilados pelo destino costumavam viver para refazer as suas fortunas. É hoje, como sempre foi, um lugar de aprazíveis residências. Está diante exatamente da entrada da barra – dois lisos dentes de crocodilo de rocha nua que muitos olhos devem ter visto a fechar o caminho para a pátria no tempo em que os homens morriam entre o meio-dia e o crepúsculo. Há visões de casas brancas e cor de rosa com plumas de palmeiras sobressaindo ou, ainda com maior intimidade, frisos de bananeiras tranqüilas por trás de muros de marfim. Ficamos, porém, à beira da água, com a multidão que estava tomando fresco.

A noite estava, razoavelmente, isto é, tropicalmente quente. Chapéus, sobretudos, pressa, hora e outras insignificâncias tinham ficado do outro lado do Equador. A única preocupação que restava era de que aquela cidade de sonho, de folhagem verde intensamente iluminada, de imponente estatuária e montanhas altaneiras desaparecesse de repente se a gente tivesse a coragem de olhar para o lado.  Mas continuou, com uma enorme curva de caminho sucedendo a outra, ainda contornando o mar, ainda iluminada pelas luzes insolentes e onipotentes mas – deve-se pagar algum tributo aos deuses – impregnada do perfume dos carros que voavam. (Deve-se notar que o brasileiro, como motorista, pode paralisar qualquer chofer de taxi da Place de La Concorde. Os sulistas ciumentos dizem que um argentino pisando leva-lhe vantagem. Para mim, ele é mais que suficiente.)

Por fim, a torrente do tráfego se desviou da baía, entrou por um túnel ressoante onde todos buzinavam ao  mesmo tempo e foi sair numa extensão de praia em que as ondas livres do Atlântico Sul se alinhavam sob as estrelas  e se quebravam nas areias de cor de marfim ao pé dos refletores elétricos. Todos os que não estavam sobre rodas passeavam em miríades em calçadas de mosaico junto ao mar. Diante da praia, viam-se casas isoladas cujos proprietários deviam ter perdido a cabeça em todos os detalhes, arrebiques, caprichos, atributos e curiosidades daquilo o que se chama de “arquitetura” e que seus cérebros ou suas posses podiam abranger. E desde que as construções não se pareciam com qualquer outra coisa na terra, ajustavam-se exatamente ao inexplicável cenário que sob os altos céus os contemplavam.

— O nome desta praia é Copacabana – disseram meus companheiros.  – Não faz muito tempo que começou a ser construída. Não. Isso não é a cidade. É apenas um dos seus distritos. A cidade fica a muitos quilômetros de distância. Ainda há muitas outras praias pela frente, mas…”

Em: Cenas Brasileiras: um documento inédito — a presença de Kipling no Brasil, Rudyard Kipling, tradução de Pinheiro de Lemos, Rio de Janeiro, Record: [1977?], pp. 37-38





Chekhov e o comportamento das pessoas cultas

1 04 2013

konstantin-korovin (Russia 1897-1950) In a Boat 1888 Tretyakov Gallery, Moscou

Em um barco, 1888

Konstantin Korovin (Rússia, 1897-1950)

óleo sobre tela

Galeria Tretyakov, Moscou

Passei os olhos na revista eletrônica Brain Pickings e me deparei com um artigo curioso de Maria Popova baseado nas cartas que Anton Chekhov [Anton Chekhov on the eight qualities of cultured people].  Nesse artigo ela mostra o escritor russo descrevendo, para sua família, as características para se viver numa sociedade culta.  O artigo é bastante charmoso com longas citações escritor.  Não vou tentar traduzí-las, mas as listo abaixo, uma breve apreciação do que lá é dito, como indicativo de seu julgamento. E considerando que essa lista foi feita em 1886, parece incrível que possa continuar sendo relevante.

E assim ele lista:

As pessoas cultas, em minha opinião,  preenchem as seguintes condições:

1 – Respeitam a personalidade alheia. Elas não brigam por coisa insignificante e desculpam inconveniências tais como temperatura ambiente, refeição mal feita, brincadeiras de humor duvidoso e a presença de desconhecidos em suas casas.

2 – Têm simpatia para além dos pedintes e gatos.  São sensíveis ao que os olhos não vêem.  Passam a noite em claro para ajudar ao próximo.

3 – Elas respeitam os bens dos outros, e por isso mesmo, pagam suas dívidas.

4 — As pessoas cultas são sinceras e não gostam de mentir, nem mesmo as pequeninas mentiras.  Acreditam que a mentira seja um insulto ao ouvinte e o coloca numa posição inferior à de quem mente.  Não falam demais e, por respeito aos ouvidos dos outros, preferem ficar caladas do que falar.

5 – As pessoas cultas não falam mal de si mesmas para ganhar a compaixão dos outros. Elas não abusam da boa vontade dos outros. Eles não dizem “ninguém me entende”.

6 – Elas não mostram uma vaidade vã. Elas não procuram os diamantes falsos tais como conhecer celebridades, ser reconhecido nos bares… Se fazem um bem não saem por aí divulgando-o, e não se vangloriam de ter entrada em círculos ou lugares onde outros não são admitidos.

7 – Se elas têm talento, elas o respeitam e sacrificam tudo para esse fim.  Têm orgulho de seu talento.  São exigentes.

8 – Elas desenvolvem um senso estético próprio. Elas mantêm higiene rigorosa em todos os aspectos de suas vidas.  Não bebem a toda hora. Elas querem “mens sana in corpore sano” – uma mente sã, em um corpo são.

Espero que todos nós nos lembremos desses conselhos de Chekhov.  Acredito que muitos de nós, quer na vida pública ou privada, possamos dar um renovado lustro em regras tão simples e por vezes tão negligenciadas.





Novos rumos na ficção científica?

30 03 2013

books logo rodney mathews

Ilustração de Rodney Mathews.

Um artigo interessante no Irish Times sobre a literatura de ficção científica, The new future od sci-fi,  atraiu a minha atenção nessa semana que passou.  Há muito que se fala da dificuldade de classificação das obras de ficção científica.  A fantasia e a ficção científica parecem se misturar em muitos momentos. Mas não importa, algumas obras acabam saindo da prateleira estritamente reservada às literaturas de gênero e entram para a categoria de clássicos da literatura mundial.  Desde de o século XIX que não faltam exemplos desse tipo de ficção considerada hoje parte integral, e essencial de uma boa educação.  Lá estão enfileirados nessas prateleiras  livros que estabeleceram o ramo da ficção científica  Frankenstein de Mary Shelley (1818), ao longo das obras do popularíssimo Júlio Verne, considerado o autor mais traduzido no mundo ( 148 línguas) com títulos como Viagem ao Centro da Terra (1864) Vinte Mil Léguas Submarinas (1870),  A Volta ao Mundo em Oitenta Dias (1873). No reino da fantasia, há também exemplos brilhantes do passado: As viagens de Gulliver, de Jonathan Swift (1726) parecem ter aberto essa porta para o mundo moderno, ainda que a tradição do gênero venha desde a antiguidade. A criação literária classificada como fantasia parece ser mais inclusiva do que a ficção científica, e conta com contribuição no século XIX, de George MacDonald com Phantastes (1858) e de diversos outros que ocasionalmente embarcaram nessa nave, como William Morris The Well at the World’s End (1892), The Wood Beyond the World (1892) livros que foram de grande influência para autores como C. S. Lewis e J.R.R. Tolkien.

Mas aonde cai realmente a linha divisória que separa a ficção científica do resto da literatura?   E será essa uma questão importante?  Aparentemente escritores contemporâneos resolveram a questão simplesmente escrevendo.  E no processo não deram atenção a quaisquer limitações,  combinando a bel prazer características de ambos os gêneros para preencher suas necessidades narrativas.  O resultado é uma nova geração de escritores de ficção científica que não se enquadra perfeitamente aos moldes anteriormente determinados. Esses autores, ainda que não estejam ligados a qualquer movimento ou causa, parecem ter encontrado um meio de renovar um gênero considerado estagnado há algum tempo.  Se você está curioso faça uso da lista de autores selecionados por Gareth L Powell  para mostrar essa nova geração que é feita de escritores de diversas nacionalidades.  E  boa leitura!

Escritores:  Adam Christopher  autor de Empire State e Seven Wonders, Aliette de Bodard com a trilogia Obsidian and Blood;  Lauren Beukes autora de In Moxyland Zoo City;  Chuck Wendig com seu Black Birds ;  Lavie TidharLou Morgan,Emma Newman, com o título Between Two Thorns; Kim Lakin-Smith com o livro Cyber Circus e Tim Maughan.