Amsterdã no século XVII, José Rodrigues dos Santos

2 02 2025

Mapa de Amsterdã no século XVII.  A cidade era capital dos Países Baixos e o maior porto no delta do Rio Amstel.  O século XVII, também chamado de Século de Ouro, foi um período de grande prosperidade no país, fazendo de Amsterdã uma das cidades mais ricas do mundo.  Mapa de 1652, do cartógrafo  Joan Blau (1596-1673).

 

 

Amsterdã era uma das maiores cidades do planeta, prodígio da civilização, epicentro do comércio mundial. As suas ruas estreitas, forradas por armazéns e cortadas por pontes, cheiravam a óleo de fritar, a cerveja e a tabaco felpudo, odores tão densos que se diria formarem uma neblina aromática. Todos os novos edifícios eram em tijolo, estreitos e de fachadas ornamentadas por um arenito claro, mas ainda se viam amiúde construções em madeira, vestígios dos tempos medievais. A maior parte das construções tinha dois andares acima do rés do chão, mas viam-se algumas de três e quatro andares e a mais alta chegava, para pasmo dos visitantes, aos sete. A riqueza da cidade atraíra imensa gente e a maior parte daqueles imóveis tinham sido retalhados em vários apartamentos para alugar por uma bela maquia ao crescente número de pessoas que por ali procuravam alojamento. Havia lojas por toda parte, decoradas com as mais variadas tabuletas; tão bonitas que a chamada uythangboord se tornara mesmo uma forma de arte. O movimento de carroças, fiacres e caleches nas ruas pavimentadas e de transeuntes nas bermas mostrava-se intenso, mas nem todos os que por ali deambulavam eram neerlandeses; viam-se muitos estrangeiros, sobretudo visitantes aliciados pela fama da prosperidade e da higiene da cidade. As maravilhas que se diziam de Amsterdã eram tantas e tão grandes que os forasteiros iam ali para se certificarem de que as descrições fabulosas que lhes haviam feito correspondiam mesmo à verdade, que era possível uma cidade ser limpa e bem-cheirosa, que existia mesmo uma urbe à face da Terra onde não havia mendigos a cada esquina e onde a prosperidade saltava à vista de todos, com estabelecimentos comerciais a venderem tudo de todo o mundo.

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Ao longo da Breestraat viam-se as lojas e os armazéns a exibirem os produtos mais variados; muitos provenientes de empresas neerlandesas como a Companhia das Índias Orientais e a Companhia das Índias Ocidentais, outros de empresas portuguesas como a Carreira das Índias e a Companhia Geral do Comércio do Brasil, outros ainda de navios oriundos de Veneza, de Antuérpia, de Hamburgo ou de outros pontos, incluindo saques efetuados por corsários marroquinos. As prateleiras enchiam-se assim de porcelanas de Cantão e de Nuremberg, tapetes de Esmirna, tulipas de Constantinopla, sedas de Bombaim e de Lyon, pimenta das Molucas, sal de Setúbal, linho branco de Haarlem, lã de Málaga, faiança de Delft, sumagre do Porto, açúcar do Recife, madeira de Bjørgvin, tabaco de Curaçau, marfim de Mina, azeite de Faro. Havia ali de tudo e de toda a parte, como se o bairro português de Amsterdã fosse o bazar dos bazares, o mercado do mundo.

 

 

Em: O segredo de Espinosa, José Rodrigues dos Santos, Planeta: 2023.





Caixas de concha

17 11 2024
Caixa da época vitoriana [Século XIX], em madeira, decorada com conchas variadas.  Origem provavelmente inglesa.

 

 

Conchas foram sempre de grande fascinação para o ser humano.  Elas eram facilmente encontradas em praias.  Aqui mesmo no Rio de Janeiro, na minha infância e adolescência as praias da Zona Sul tinham muitas conchas dos mais diversos moluscos, que machucavam nossos pés se as pisássemos, mas que ao mesmo tempo nos fascinavam.  Não era fora do comum trazermos para casa uma concha mais bonita, com um formato diferente ou aquela que tinha listrinhas coloridas de diversos tons de ocre, amarelo, bege e pérola, numa verdadeira comunhão com a natureza admirando aqueles desenhos perfeitos.

No século XIX, caixas como a mostrada acima, foram populares.  Mas elas caem, para mim, naquela área do gosto estranho, duvidoso, da era vitoriana, que abusava dos excessos e acabava com objetos como essa caixa, que não sei porque me lembra mais de rito funerário do que de um lugar aprazível para colocar um joia ou preciosidade.

Em 2022, uma rara coleção de caixas de concha foi à venda na loja de leilões Christie’s em Londres. As caixas, não muitas, pertenciam à coleção particular de Anthony e Marietta Coleridge. Seria de se esperar, que suas caixas de concha fossem verdadeiras joias, já que Anthony Coleridge foi CEO e mais tarde presidente da casa de leilão Christie’s em South Kensington.

Essas são duas caixas de conchas, com montagem em ouro. A caixa à direita conhecida como Caixa de Turritella foi transformada por volta de 1765.  Turritella é o nome latino para um caracol marinho, em forma de cone alongado com diversas rotações.  Turritella em latim e em italiano significa pequena torre,  Esta concha tem cerca de 10 cm de comprimento.  Os adornos de acabamento e dobradiça de ouro mostram desenho rococó com volutas e flores e há uma faixa em esmalte branco com os dizeres ‘NUL PLAISIR SANS VOUS VOIR’ [não há prazer sem lhe ver, que bela mensagem de alguém enamorado!]. A concha cancerallia, que acompanha nesta foto a Turritella,tem a tampa forrada por dentro em ouro, cinzelado para simular a textura natural da concha e mede 9 cm no comprimento.

Outras quatro caixas, todas para rapé, da mesma coleção, variam em forma. Uma é do período de George III, claramente assinada pelo ourives William Scott, de Dundee, datando de 1780. Duas outras,  uma tem acabamento em prata e outra espessurada à prata [também conhecido com banho de prata] datam respectivamente do final do século XVII e início do XIX.  Medem: 9,2 cm; 9 cm e 10,2 cm;

 

A caixa russa com tampa parcialmente em concha e montagem espessurada à prata, mostra assinatura na montagem.  Tem cobertura gravada com pássaros sobre flores; uma com cobertura espessurada a ouro  com relevos e gravações de dois pássaros rodeados por volutas com dois passarinhos rodeados por flores.

Quando vemos esses exemplos extraordinários de pequenas caixas de conchas, deixamos de lado a ideia das não tão elegantes caixas com adornos de conchas populares na era vitoriana.  Um dos meus professores de história da arte, na Universidade de Maryland, que era também um dos curadores da National Gallery em Washington DC repetia para nós alunos, sempre que podia.  Olhe e observe sempre o melhor que há na arte, Vá aos museus.  Examine coleções.  Aos poucos de tanto ver, mas de tanto ver coisas boas e coisas não tão boas, seu olhar vai saber em fração de segundos se algo merece ou não sua atenção.  Ele queria que apurássemos os olhos.

Muitos anos mais tarde, lendo o livro Blink, de Malcolm Gladwell percebi que esse professor estava certo.  É a teoria das 10.000 horas de trabalho.  De tanto ver, observar, examinar objetos da sua época de interesse, ou melhor da sua área de especialização, mais precisa é a avaliação sobre o que você vê.





Cristóvão Colombo, não era de Gênova!

19 10 2024

Cristovão Colombo, 1619

Sebastiano del Piombo (Itália, 1495-1547)

óleo sobre tela, 107 x 88 cm

Metropolitan, NY

 

 

 

Em 2003 novos pesquisas sobre as origens de Cristóvão Colombo foram iniciadas pela Universidade de Granada na Espanha, quando os restos mortais do descobridor das Américas foram exumados das catacumbas da Catedral de Sevilha. Antes mesmo que novos caminhos fossem procurados na busca de suas origens, DNA dos familiares de Colombo foram comparados com o DNA encontrado nos restos mortais de Colombo para que se estabelecesse uma linha base de conhecimento. Um dos DNAs comparados foi o de seu filho Fernando Colon, para ter certeza de se tratava realmente dos ossos de Cristóvão Colombo que haviam sido exumados.

O que a equipe do professor de medicina forense José Antonio Lorente descobriu rejeita todas as teorias sobre as origens de Colombo propagadas até hoje. O resultado será apresentado em um documentário espanhol, mas o que se descobriu é que as origens do navegador que deu seu nome a dois continente e alguns países, têm raízes na comunidade judia sefardita.  E sabendo-se que não se tem documentação sobre judeus no século XVI em Gênova, a probabilidade dele ser italiano é mínima.  É mais provável que ele realmente seja judeu sefardita espanhol, que abraçou o catolicismo para esconder suas origens dados os extremos da perseguição aos judeus e muçulmanos, durante a Inquisição no reinado de Fernando de Aragão e Isabel de Castela. 

 

 

Fonte: Material distribuído pela Universidade de Granada, para promoção do documentário a ser lançado em breve sobre esta pesquisa.





Famílias reais medievais…

26 08 2024

Coroação de Ricardo III da Inglaterra

Iluminura anônima,  manuscrito do século XIII

Governou o país de 1216 a 1272

 

 

Uma de minhas distrações é ler sobre a Idade Média. Hábito reforçado, quando meu marido e eu tivemos a oportunidade de passar uma temporada na França, na Gasconha. Naquela estadia, sem televisão, a leitura foi nossa principal diversão nas noites de final de verão-outono-inicio de inverno. Nesta época li duas biografias de Leonor de Aquitânia.  Além de cair de amores por ela, minha curiosidade sobre a intrincada história das relações França-Inglaterra-França, da história do Rei Artur à Invasão Normanda em 1066 até o século XVIII, todo esse puxa-empurra entre Inglaterra e França, aos poucos trouxeram nomes que foram se tornando personagens familiares e por causa disso, esses reis, ingleses e franceses são parte do meu descanso. 

Com a queda da temperatura ontem, aqui no Rio de Janeiro, a leitura foi a distração óbvia. Voltei minha atenção para o livro The Two Eleanors of Henry III: The Lives of Eleanor of Provence and Eleanor de Montfort, [As Duas Leonors de Henrique III: A vida de Leonor da Provença e Leonor de Montfort] do historiador Darren Baker, [Pen & Sword History: 2019] que conta a vida dessas duas cunhadas,  a primeira, casada com Henrique III e a segunda,  irmã dele, casada com Simon de Montford, duas figuras importantíssimas nos acontecimentos do século XIII na Inglaterra.

Já estou chegando à metade do livro.  Mas o início, os primeiros parágrafos, é o que coloco aqui em tradução livre, que me levaram a pensar: “vale uma nota no blog”.  Muitas vezes quando dou minhas aulas de história da arte, quando sempre falo dos reis e rainhas (eram eles que mantinham os artistas trabalhando, comendo e vivendo), meus alunos se surpreendem com o número de herdeiros das cortes que morriam antes mesmo de chegarem à idade madura.  Aqui, a descrição que abre esse livro, surpreende. Hoje, muitos séculos mais tarde, às vezes esquecemos de como era difícil a vida mesmo daquelas senhoras ricas, membros das famílias mais nobres europeias do século XIII.

 

 

 

“Três rainhas na Inglaterra foram chamadas Leonor.  A primeira e mais famosa foi Leonor de Aquitânia. Ela teve dois maridos, ambos reis, dez filhos e participou de uma cruzada. A terceira foi Leonor de Castela, que teve só um marido, mas dezesseis filhos e também foi a uma cruzada. Depois de sua morte foi imortalizada com cruzes erguidas em sua memória.  Entre as duas estava Leonor da Provença.  Ela teve só cinco filhos, não participou de cruzadas e seu marido não podia se comparar aos maridos das outras duas Leonors. Pior ainda, foi considerada culpada por parecer ser uma monarca fraca e incompetente.”

 

(tradução Ladyce West)

 

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There have been three queens of England named Eleanor. The first and most famous of them was Eleanor of Aquitaine. She had two husbands, both of them kings, ten children, and went on crusade. The third was Eleanor of Castile. She had only one husband, but sixteen children and she too went on crusade. After her death, she was immortalised with memorial crosses erected in her memory. In between them was Eleanor of Provence. She had only five children, no crusade to her credit, and her husband could not compare to the husbands of the other two Eleanors. Worse, she was blamed for him being a seemingly weak and incompetent monarch.

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Essas jovens, e eram muito jovens, se casavam assim que chegavam à puberdade, com homens que não conheciam, prometidas por seus familiares, para garantir terras, tratados de paz e de não invasão e ainda tinham que ficar de sobreaviso, porque havia intriga, perigo de envenenamento, traição e muita gente querendo suas terras, seus domínios, o dote que permitira o casamento. Eram levadas para longe da casa natal, em geral para nunca mais voltarem, nem mesmo a ver seus familiares mais próximos, longe de todos com quem cresceram, frequentemente colocadas em lados opostos a irmãos, a parentes que consideravam família. A responsabilidade dessas meninas era grande. Com elas estavam as regras de muitos tratados de paz, as pequenas decisões que mostram poder. Jogavam, junto com seus maridos, e às vezes até mesmo contra eles, mas sempre pela sobrevivência, um grande jogo de xadrez político. E mais frequente do que imaginamos, essas rainhas consortes não foram destacadas por sua coragem. Suas biografias esquecidas, não registradas, porque afinal eram apenas mulheres. Até dias recentes só as conhecemos por anotações superficiais, marginália ou notas de rodapé, uma ou outra carta, uma ou outra nota em um diário, observações de seus padres confessores ou textos em geral repletos de inverdades. Por isso tem sido tão interessante ver no final do século passado e no primeiro quarto do século XXI, o esforço de muitos historiadores para refazerem as vidas dessas mulheres importantes na própria geografia econômica europeia.

Este livro abre com o casamento de Henrique III, rei da Inglaterra, também conhecido como Henrique de Winchester, (1207-1272) que subiu ao trono, aos nove anos de idade, após o falecimento de seu pai. Aos vinte e sete anos, ele se casa com Leonor da Provença, de doze anos de idade, em 20 de janeiro de 1236, na Catedral de Canterbury. Foi um casamento feliz. Diferente de muitos nessas circunstâncias. Trouxe cinco filhos e garantiu a subida de seu filho Eduardo I, também chamado de Eduardo Pernas Longas, ao trono quando Henrique morreu. Os Plantagenets garantiam assim, ainda por mais dois séculos, sua permanência o poder.

Árvore genealógica do século XIII na Inglaterra.  Estão representados Henrique II e seu filhos, da esquerda para a direita: Guilherme, Henrique, Ricardo, Matilde, Godofredo, Leonor, Joana e João.





Descoberto mosaico Grego em Eretria

12 08 2024
Mosaico descoberto em Eretria de dois sátiros, provavelmente do século IV A.C.

 

 

 

Nova construção em Eretria, cidade grega ao norte de Atenas, acaba surpreendendo a todos por revelar um pavimento de mosaico do século IV A.C. que parou temporariamente a instalação de canalização de água no subsolo.

O mosaico feito de pedrinhas das cores branca, negra,amarela e vermelha, forma um grupo de dois sátiros com cabelos e barbas amarelos.  Eles são os espíritos meio homem e meio cabra associados a Dionísio, o deus grego da produção de vinho, deus da fertilidade e da folia.  Típicos de suas conhecidas representações em outras formas artísticas, um dos sátiros toca flauta dupla enquanto o outro dança.

Eretria, de acordo com alguns indícios encontrados de artesania, parece ter sido fundada no final do período Neolítico entre 3.000 e 3,500 anos passados.  Homero, autor da Ilíada e da Odisseia, menciona que Eretria foi  uma das cidades-estado que participou da Guerra de Troia, no século VIII A.C.

 

 

Mosaico encontrado em contexto com o piso.

Este não é o primeiro mosaico descoberto em Eretria.  A data associada a este mosaico dos sátiros está também em acordo com outros objetos remanescentes das construções locais todos datando de 360 a 350 A.C. O século IV foi um de grande expansão econômica local e a construção de casas luxuosas como esta estava em ascensão.

Desde o século VIII A.C. Eretria e sua irmã e rival também Chalcis se tornaram locais de grande e rico poder comercial.  Essas cidades-estado foram capazes de estabelecer colônias na costa italiana e também tiveram controle de Andros, Ceos e diversas outras ilhas do mar Egeu.

 

Essa postagem está levemente baseada no artigo do mesmo nome da revista Artnet.

 





O que uma lista de compras de mais de 3.500 anos teria?

31 07 2024
Tablete encontrado com uma lista de compras com escrita cuneiforme. Cortesia do Ministério da Cultura e Turismo da Turquia.

 

 

 

A equipe de limpeza de um terremoto no Monte Aççana, perto da antiga cidade de Alalah, no distrito de  Reyhanlı de Hatay, na Turquia, descobriu um tablete com escrita cuneiforme, pequenino, de mais ou menos 4 x 3 cm, datando do século XV A.C. Pesa só 28 gramas.  Mas a grande curiosidade é podermos ler uma lista de compras daquela época.  

 

 

Monte Aççana, na velha cidade de Alalah. Cortesia do Ministério da Cultura e Turismo da Turquia.

 

O tablete está coberto de inscrições na escrita cuneiforme, na língua acadiana, da antiguidade.  Hoje essa língua é considerada extinta. O acadiano, no entanto, é a mais antiga das línguas semíticas conhecidas, intimamente relacionada tanto ao árabe quanto ao hebraico, assim como aos dialetos da Suméria, da Babilônia e Assíria. A língua foi usada por toda a região da Mesopotâmia durante o reinado da dinastia acadiana, por volta dos anos 2334-2154 A.C.  Essa língua foi decifrada no século XIX,  e seu primeiro dicionário publicado em 1921 por pesquisadores da Universidade de Chicago.

 

 

Foto cortesia do Ministério da Cultura e Turismo da Turquia.

 

A leitura inicial desse tablete mostra uma lista de compras de mobiliário.  Ela inclui diversas mesas de madeira, cadeiras e bancos e também um local para se marcar o que foi comprado e o que foi recebido.  Os pesquisadores ainda estão trabalhando nisso, mas acreditam já acreditam que têm em mãos uma brecha para entender mais sobre a economia do dia a dia da vida na antiguidade, sua estrutura e sistema. Esse é só o início do entendimento da economia de uma sociedade da Idade do Bronze. Esse tablete é um dos mais de quinhentos mil tabletes que foram recuperados de escavações do Iraque ao Egito, à Anatolia [Turquia].  O que existe, recuperado e sem estudo ainda, vai além de todos os documentos que conhecemos do mundo clássico em latim.  O que temos da cultura Acadiana cobre tratados e rica literatura contendo hinos, estudos acadêmicos, documentos legais, letreiros e dedicatórias, além de correspondência comum.  As obras literárias abarcam narrativas tais como o dilúvio bíblico e a obra Épica de Gilgamesh.

 

Artigo baseado na Artnet Newsletter.





Descoberta curiosa na Alemanha: peças de xadrez de mais de 1.000 anos!

13 06 2024
Detalhe de uma das peças de xadrez: Cavalo (4cm de altura) encontradas na Alemanha. Foto: Victor Brigola / Universität Tübingen

 

 

O jogo de xadrez data aproximadamente dos séculos VI ou VII DC, vindo do desenvolvimento de um jogo chamado chaturanga, jogado em algumas partes da Índia.   Depois da invasão árabe da Pérsia, o jogo de xadrez foi adotado pelo mundo muçulmano e eventualmente introduzido na Europa por portos na Espanha e na Itália, por volta do ano 1.000 DC.

O xadrez foi logo visto como excelente treino para estratégia e, portanto, tornou-se parte obrigatória da preparação dos cavaleiros feudais.  Talvez seja interessante lembrar quem eram os cavaleiros feudais.  Eram guerreiros montados. Lutavam em batalhas e guerras, ou porque estavam submissos a  um senhor feudal ou eram guerreiros de aluguel, como mercenários nos dias de hoje, para o senhorio que lhes pagasse melhor.  Há na história da Europa medieval diversos nomes de cavaleiros de aluguel que se tornaram famosos e ricos.  Muitos deles imortalizados em pinturas e esculturas como é o caso de Sir John Hawkwood, um mercenário inglês (1320-1394) cujas batalhas aconteceram, na maioria, entre diversas cidades-estado da Itália.  Uma curiosidade a respeito de mercenários é a própria guarda suíça papal, que originalmente foi formada por mercenários.

 

 

 

 

Pintura da estátua equestre de Sir John Hawkwood, 1436

(moldura pintada mais tarde, em 1524)

Paolo Uccello, (Florença, 1397-1475)

Afresco, 820 x 515 cm

Santa Maria del Fiore, Florença

 

 

 

Apesar do jogo de xadrez ser considerado uma das sete habilidades que um bom cavaleiro deveria desenvolver, é raro encontrar peças deste jogo ou de qualquer outro jogo da época, em bom estado, principalmente peças que tenham sido usadas antes do século XIII.  Mas faz sentido que estas peças tenham sido encontradas nas ruínas de um castelo no sul da Alemanha, no distrito de Reutlingen, em um castelo até então desconhecido. As peças foram encontradas sob os destroços de um muro onde poderiam ter sido perdidos ou escondidos. 

 

 

 

 

Cavalo, peão e um dado encontrados nos destroços de um muro em um castelo no sul da Alemanha.

 

 

 

As peças estão em excelente condição e quando examinadas sob microscópio pode ser visto o brilho, causado pela oleosidade, consequência de terem sido manuseadas durante partidas.  Quatro peças em formato de flor, a que se atribui o papel de peões, foram encontradas, algumas com traços de coloração vermelha, que pode indicar que um dos grupos do jogo de xadrez tenha sido originalmente feito de peças vermelhas.  Um dado com números nos seis lados, exatamente igual aos dados de hoje, também foi encontrado no grupo de peças.  Todas ela foram esculpidas em chifres. 





Mais livros da biblioteca dos Irmão Grimm

10 06 2024
Primeira edição do romance Simplicissimus de Montpelagard, c. 1669, Universidade Adam Mickiewicz  em Posnan, Polônia.

 

 

Depois da Segunda Guerra Mundial a conhecida biblioteca dos Irmãos Grimm  se subdividiu, perdendo sua identidade como um todo.  Os livros colecionados pelos autores, que naquela época se encontravam em Berlim se dispersaram, com a divisão da cidade, e acabaram em diversos lugares no mundo.  Os Irmãos Grimm haviam trabalhado anteriormente em Kassel, Göttingen e Savigny, mas dedicaram a maior parte do tempo nas pesquisas antropológicas em Berlim. Recentemente duas pesquisadoras da Universidade Adam Mickiewicz, em Poznań na Polônia encontraram vinte e sete obras que haviam pertencido aos autores.  Essas obras são de importância para aqueles que se dedicam à pesquisa das obras de Grimm que contribuíram com histórias que encantaram leitores de todas as idades desde de sua primeira publicação em 1812.

Eles se mudaram para Berlim por volta de 1840 quando Frederico Guilherme IV, rei da Prússia, os convidou para dar aulas no Academia Real de Ciências.  Tudo indica que os livros da coleção deles foram deixados, após sua morte, para a Biblioteca da Universidade de Berlim, por Wilhelm Grimm, filho de Hermann Grimm.

 

 

Os irmãos Jacob (em pé) e Wilhelm Grimm em um daguerreótipo, c. 1850.

 

Boa parte daquela biblioteca ainda se encontra em Berlim e está à mostra em uma reconstrução do escritório dos irmãos.  Mas nem todos os livros estão lá.  Em 1898, os bibliotecários responsáveis por esse grupo de livros doaram alguns volumes para a Kaiser-Wilhelm-Bibliothek em Poznań, e em 1919 esta biblioteca se tornou parte da nova Universidade Adam Mickiewicz de Poznań.  Em 1945, os bibliotecários começaram a dispersar os volumes restantes da original biblioteca dos Irmãos Grimm mandando-os para fora da cidade com a intenção de salvá-los dos últimos bombardeios que eventualmente levaram à derrocada final do regime nazista. Foi retraçando esses passos que as pesquisadoras Eliza Pieciul-Karmińska e Renata Wilgosiewicz-Skutecka foram capazes de encontrar os vinte e sete volumes.

Mas o que foi encontrado?  Obras que datam desde o século XV ao século XIX.

Alguns incunábulos.  O que é um incunábulo? É um livro impresso nos primeiros tempos da imprensa com tipos móveis.

Algumas gravuras

Alguns livros mais recentes do século XIX.

Há uma Bíblia de 1491, e um livro sobre Carlos Magno, impresso em Lyon do século XVI.  Há obras mais recentes de história da Alemanha, livros de músicas e de geografia datando de 1861.  Conhecidos por fazerem todo tipo de anotação nos seus materiais de trabalho essa descoberta certamente ajudará àqueles que se dedicam ao estudo dos Irmãos Grimm, às suas pesquisas e ao que pensavam a respeito das obras adquiridas.

 

Este artigo está baseado na publicação: “Polish University Discovers 27 Books Belonging to the Brothers Grimm” de Vittoria Benzine,para a Newsletter da ArtNet, em 24 de maio de 2024.

 





IA decifra texto da biblioteca da família do Imperador Romano Júlio César

9 06 2024
Os pergaminhos estão tão queimados que é impossível abri-los sem despedaçá-los.

 

Textos em papiro da biblioteca da família de Júlio Cesar, completamente queimados como este da fotografia acima podem agora começar a ter seu conteúdo revelado graças ao trabalho de três estudantes trabalhando com inteligência artificial.  Os papiros de aproximadamente 2000 mil anos se encontram ilegíveis desde a erupção do Vesúvio no ano 79 DC que os atingiu na cidade de Herculano. Esta é uma verdadeira descoberta, um incontestável passo no estudo da história antiga e da cultura ocidental.

 

O manuscrito decifrado, provavelmente, pertenceu à biblioteca do sogro de Júlio César. Trata-se de um texto sobre música, cuja maneira de escrita parece típica do filósofo Filodemo de Gádara (110 AC-35 AC) que seguiu os ensinamentos de Epicuro (341AC – 270 AC), ambos gregos.  Filodemo pode ter sido o filósofo em residência em Herculano.   Especialistas dizem que esta descoberta é uma pequena revolução no estudo da filosofia grega.

 

 

 

Os papiros foram descobertos por um fazendeiro em uma das casas de Herculano.

 

 

Dr. Brent Seales, da Universidade de Kentucky, nos EUA reconheceu o trabalho de um time de três estudantes de diferentes locais, todos na área de inteligência artificial e não, como se poderia supor, na área da filosofia, que desenvolveram a técnica de ler os papiros sem os abrir.  Eles foram recipientes do prêmio de um milhão de dólares, que Dr. Seales havia conseguido levantar junto a investidores para descobrir o que estes documentos do passado guardavam.  A este projeto foi dado o nome de Desafio do Vesúvio.   Os estudantes foram: Youssef Nader, estudante de doutoramento em Berlim, Luke Farritor, estudante e estagiário na SpaceX e Julian Schillinger, estudante de robótica na Suíça.  Juntos  eles construíram um robô que é capaz de reconhecer letras através de matrizes.

Até o momento eles decifraram dois mil caracteres gregos escritos em um dos quatro documentos escaneados pelo time do Dr. Seales, o que é só 5% dos textos.  O que foi traduzido refere-se a fontes de prazer na vida, tais como música e alimentos.  

Em uma passagem Filodemo se pergunta se coisas em pequenas quantidades dão maior prazer.  O time do Desafio do Vesúvio espera que a tecnologia desenvolvida por eles possa ler pelo menos 90% de todos os papiros escaneados neste ano e possivelmente todos os 800 rolos encontrados nas mesmas circunstâncias.

 

 

NB: este artigo é baseado em publicação da BBC News, de fevereiro de 2024:  AI unlocks ancient text owned by Caesar’s family;

 





Esses belos frascos têm 2.000 anos de idade!

8 05 2024
Frascos e garrafas encontrados na França, em Nîmes, do primeiro século da nossa era.

 

 

Uma escavação para a construção de um bairro residencial em um subúrbio da cidade de Nîmes na França descobriu esses belíssimos exemplos de frascos e garrafas de vidro romano datando do século I, DC.  Eles estavam no local das piras funerárias para cremação de corpos em um cemitério romano da antiga capital regional, Nemausus, que deu o nome a Nîmes atual.  Com população estimada em 60.000 pessoas essa cidade antes de ser dominada pelos romanos no século I AC, era habitada pela tribo Gaulesa Volcar Arecomici, desde a Idade do Ferro. 

Nîmes tem uma longa história romana e por isso é conhecida como a mais romana cidade fora da Itália ou a Roma Francesa.  Os romanos dominaram  a região desde o século I AC ao século V DC. Na época em que esses artefatos foram criados a vida na cidade girava em torno da praça principal e do templo chamado Maison Carrée.

 

 

 

 

Maison Carrée, Nîmes, antigo templo, construído entre 16 e 19 AC, durante o reino do imperados romano Augusto.